quarta-feira, 29 de dezembro de 2021

Orçamento da fome

Oguz Gurel (Turquia)
O Orçamento de 2022, recentemente aprovado, mostra como o Brasil está do avesso. O fundo eleitoral é uma obscenidade de R$ 4,9 bilhões e o aumento salarial de apenas três categorias de servidores (PF, PRF e Departamento Penitenciário), de interesse pessoal de Bolsonaro, mordeu R$ 1,7 bilhão do "meu, do seu, do nosso" dinheiro.

Duas reportagens desta Folha também ilustram o desatino da inversão de prioridades com o dinheiro do contribuinte. Ana Luiza Albuquerque revelou que 13 motociatas do genocida, para apregoar o golpismo, levaram R$ 5 milhões dos cofres públicos. E Constança Rezende mostrou que o Ministério da Defesa usou dinheiro de combate à Covid para comprar filé mignon, picanha, bacalhau, camarão, salmão e bebidas. O cardápio de luxo para os fardados custou R$ 535 mil.

Somados, esses gastos chegam a R$ 6,6 bilhões e uns quebrados. Numa conta simples, para dar uma ordem de grandeza, seria suficiente para comprar mais de 13 milhões de cestas básicas (considerando um preço médio de R$ 500 por cesta). Isso daria de comer a muita gente.

Mais de 19 milhões de pessoas passam fome no Brasil e mais da metade da população (117 milhões) convive com algum grau de insegurança alimentar, ou seja, não consegue comer o que precisa. Às vésperas do Natal, brasileiros estavam na fila do osso num açougue em Cuiabá, a capital do agronegócio. No Rio Grande do Norte, sertanejos que voltaram a caçar lagarto para enganar a fome só tiveram o que comer na ceia graças a doações.

No caso do fundo eleitoral, é preciso assinalar que algum recurso público, de fato, tem que ser reservado para as campanhas. O fim do financiamento de candidaturas por empresas foi uma decisão acertada.

Mas as campanhas não podem ser tão caras. Democracia tem um custo? Sem dúvida. Mas não pode ser esse o preço. Não existe democracia se o cidadão não tem o direito humano mais básico de todos assegurado: o direito à alimentação e à vida.

A triste sensação de ser um país ignorado

Há um momento, na 3ª temporada da série de TV “Succession”, em que a família do magnata Logan Roy, interpretado por Brian Cox, discute o apoio a um candidato republicano à presidência dos Estados Unidos. No meio da conversa, a filha Shiv Roy (atriz Sarah Snook) lembra que o preferido da família era fascista e que, se eleito, a América correria o risco de se transformar em uma “f*** (palavrão) república russa, berlusconiana ou brasileira”.

A citação passa meio despercebida para quem não presta atenção no inglês, porque a legenda em português traduz “Brazilian” por “tupiniquim”. Mas essa passagem ilustra, de forma quase subliminar, a triste e vergonhosa imagem adquirida pelo Brasil no exterior nos últimos três anos.

Discorrendo sobre esse tema em artigo (21/11/21) na “Folha de S.Paulo”, Candido Bracher, ex-presidente do Itaú Unibanco, observa que a imagem do Brasil foi cruelmente retratada em um vídeo em que o presidente Jair Bolsonaro “aparece perdido entre os líderes do G20, [em Roma, no mês passado], perambulando pelo salão sem encontrar outra forma de aliviar seu isolamento que não fazendo graça com garçons, que sorriam constrangidos”.


Os Roy, família ficcional retratada em “Succession”, não são bons exemplos de empresários defensores da democracia e do estado de direito. Mas a citação “en passant” no seriado explicita a terrível sensação, também expressada por Bracher, de que o Brasil passou a ser não contestado, mas ignorado e desprezado pela comunidade internacional.

A esta altura do avançado descredenciamento brasileiro no cenário mundial seria útil que empresários, tanto quanto Bracher, entrassem no coro dos que defendem a democracia, o estado de direito e o real engajamento do país em pautas globais do século 21, como a ambiental e a da responsabilidade social. E que passassem a rechaçar firmemente, como outros setores da sociedade, ameaças veladas ou explícitas de ruptura institucional.

Infelizmente, durante a pandemia, a reação do empresariado, com poucas e honrosas exceções, tem sido omissa. Houve valorosas contribuições de empresas, pequenas e grandes, para atenuar os problemas sociais decorrentes da pandemia e do desemprego. Faltou, porém, uma ação institucional, de grupos empresariais e associações de classe, para ajudar a grande mídia e a sociedade em sua ação desesperada para contestar decisões negacionistas equivocadas do governo e do presidente da República: desestímulo ao uso de máscaras, incentivo a aglomerações, defesa da imunidade de rebanho e da cloroquina, rejeição a vacinas e outras maluquices que mancharam a imagem brasileira pelo mundo.

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A história recente traz lições importantes sobre esse tema. Em 3 de agosto de 1977, em plena ditadura militar, o empresário e então presidente da Federação do Comércio do Estado de São Paulo, José Papa Junior, foi aplaudido após elogiar o regime em discurso para 2 mil pessoas, a maioria empresários, no Jockey Clube de São Paulo.

Meses antes, Papa Junior havia enviado telegrama ao então presidente da República, general Ernesto Geisel, parabenizando-o pelo “Pacote de Abril”, aquele que fechou o Congresso e criou a figura dos senadores biônicos, escolhidos por um colégio eleitoral constituído por deputados das assembleias estaduais e por delegados das câmaras municipais. O objetivo do pacote era claramente o de garantir à Arena, partido do governo, o controle do Congresso após as eleições previstas para 1978, o que de outra forma parecia impossível depois de fragorosa derrota eleitoral sofrida pelo partido oficial quatro anos antes.

Laerte Setúbal Filho (1926-2015), então diretor da Duratex e da Fiesp, ficou furioso com aquele apoio ao pacote antidemocrático manifestado no evento do Jockey. E criticou seus pares. Disse que os empresários estavam satisfeitos e acomodados, porque o sistema lhes proporcionava uma série de regalias, como a proibição de greves de trabalhadores.

A fala de Setúbal Filho era um “trailer” do movimento que seria lançado um ano depois, liderado por Antônio Ermírio de Moraes e mais sete grandes empresários [Cláudio Bardella, Jorge Gerdau, José Mindlin, Laerte Setúbal Filho, Paulo Vellinho, Paulo Villares e Severo Gomes], pedindo a redemocratização do país.

No contexto do regime ditatorial que torturava e matava opositores, o “Manifesto dos Oito”, como foi chamado, era atitude de extrema coragem. Marcava o fim de um longo período de omissão/apoio da classe empresarial em relação ao regime ditatorial. O empresariado era majoritariamente democrático. Naquele momento de 1978, porém, decidiu que não bastava ser democrático, precisava dizer que era, com todas as letras.

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Se o tema é imagem do Brasil, vale relembrar uma antiga anedota contada pelo escritor e poeta paraibano Ariano Suassuna (1927-2014). Um belo dia, o presidente do Brasil foi à Europa e lá decidiu fazer uma viagem de trem da Espanha para a França. No mesmo vagão estavam Pablo Picasso e Igor Stravinsky.

Quando o trem chegou à fronteira da França, os três estavam sem documentos e foram detidos pelas autoridades. Picasso foi chamado e pediu para ser liberado, apresentando-se como o grande pintor espanhol. “Então prove”, disse o policial. Picasso pediu lápis e papel e desenhou rapidamente uma tourada. “Ah, é você mesmo, pode seguir”, afirmou o policial.

Em seguida, chamou outro detido, que disse ser o grande compositor russo Igor Stravinsky e, para provar sua identidade, riscou uma pauta com os primeiros acordes da Suite Petrushka. “Sim, você é o compositor, pode passar”, disse o policial.

Chamou então o que se dizia presidente do Brasil. “Como o senhor pode provar sua identidade?”, perguntou. O presidente se sentou numa cadeira, pensou uns dez minutos e concluiu: “Não me ocorre nada”. E o policial chamou imediatamente o assistente: “Tudo bem, pode liberar. É ele mesmo”.

Relembrando, antes que venham xingamentos, a anedota é de Ariano Suassuna, grande contador de “causos”, e se refere aos piores tempos da ditadura de 1964, quando a imagem do Brasil no exterior era péssima. Contavam-se muitas piadas de presidentes militares em rodas de amigos, já que era extremamente perigoso caçoar deles publicamente.

Brasil bem nutrido

 


Que desculpa será oferecida desta vez para se votar em Bolsonaro

Bolsonaro espera que cada brasileiro bolsonarista cumpra com o seu dever de votar nele, mesmo que insatisfeito com o governo. Se isso acontecer, grandes serão suas chances de disputar contra Lula o segundo turno da eleição do ano que está por chegar.

O autoproclamado filósofo Olavo de Carvalho, que hoje renega o título de “guru” da primeira família presidencial brasileira, escreveu que votará em Bolsonaro, embora frustrado. Ao seu juízo, o ex-capitão fracassou no combate ao comunismo.

O fantasma do comunismo caiu como uma bênção do céu para os militares que desde 1954 queriam abolir a democracia, o que só conseguiram 10 anos depois. O mundo vivia o período da Guerra Fria, Estados Unidos x União Soviética, capitalismo x comunismo.

A União Soviética dissolveu-se exatamente há 30 anos. Cuba e Coréia do Norte não são exemplos de comunismo que meta medo em ninguém. Sob o tacão do Partido Comunista, a China tornou-se uma fulgurante vitrine do capitalismo sem máscara de democracia.

Quem sequer leu um livro, nem mesmo as memórias do torturador Brilhante Ulstra, não é um anticomunista a ser levado a sério. Bolsonaro, em 2002, votou em Lula, acusado de ser comunista, e quis fazer de Aldo Rebelo, do PC do B, ministro da Defesa.

Anos antes, planejara atentados terroristas a quartéis imaginando arrancar melhores salários para a soldadesca. Afastado do Exército por insubordinação, ingressou na política para sobreviver e virou um sindicalista militar, vivandeira de tropas. Nunca passou disso.

Não lhe cobrem ideias, coerência ideológica, fidelidade a partidos, porque em momento algum de sua vida ele as teve, nem sabe do que se trata. Como um reles batedor de carteiras, aproveitou a oportunidade que o destino lhe deu para eleger-se presidente.

Muitos dos que lhe deram o voto ainda dizem que à época era uma escolha difícil entre Bolsonaro e Fernando Haddad (PT). Ou então que simplesmente acreditaram que ele não poderia vir a ser o mal que se revelou. Quem não sabia que seria assim? Faça o favor!

Há limite para tudo, inclusive a ignorância. Uma vez que hoje não dá mais para dizer que não sabe quem é Bolsonaro, resta ver que desculpa será usada para votar nele de novo. Os únicos dispensados de pedir desculpas são os à sua imagem e semelhança.
Ricardo Noblat

O que Bolsonaro ganha com o caos?

Há dois dias, no nosso quadro diário na CBN, Rodrigo Bocardi me pergunta: o que Jair Bolsonaro ganha com o caos que promove na vacinação, ou ao sair de férias pela segunda semana consecutiva enquanto a Bahia se afoga em chuvas?

A pergunta diz respeito à lógica eleitoral mais básica, estratégica mesmo. Pesquisas, conversas com aliados, uma passada rápida nas redes sociais, qualquer termômetro poderia mostrar ao capitão que a balbúrdia que ele fomenta em seu próprio governo, dia após dia, ano a ano, só acaba por minar suas próprias chances eleitorais. Pelo menos um substrato positivo em tanto retrocesso, diga-se.

O Brasil tem adesão histórica à vacinação, que se confirmou na pandemia de Covid-19. Os ataques nonsense perpetrados pelo presidente às vacinas não levaram a que as pessoas deixassem de se vacinar.

Só a vacinação, como diz até seu ministro da Economia, Paulo Guedes, permitirá que se inicie alguma tentativa de recuperação econômica — ademais profundamente comprometida pelas outras barbeiragens feitas pelo governo, como a implosão da responsabilidade fiscal.


Ainda assim, a verborragia de Bolsonaro contra a vacina segue a todo vapor, agora impedindo a imunização de crianças, chegando ao absurdo de usar a própria filha de 11 anos em seu discurso negacionista, negando a ela com orgulho a oportunidade de ser protegida contra o vírus.

De novo: o que ele ganha com isso? A resposta é: nada. Mas parece ser da sua natureza, algo que nenhum cálculo eleitoral é capaz de conter.

Como não se emenda e não se toca, Bolsonaro chegará a 2022 como essa bomba-relógio que, a despeito de todo o legado, tentará de tudo para se reeleger. Espera fidelizar os pouco mais de 20% que, as pesquisas mostram, seguem fiéis a ele — a ponto de impulsionar uma hashtag chamando de “orgulho do Brasil” alguém cuja obra, apenas no período entre Natal e Ano-Novo, se resume a andar de jet ski enquanto milhares de cidadãos por ele governados não têm casa para onde voltar.

Para sair dos já convertidos e chegar a um patamar que lhe garanta a passagem ao segundo turno, salve-se quem puder. Por isso não adianta Paulo Guedes mandar mensagens ao chefe e aos colegas clamando por algum freio de gastos num momento em que a pressão por reajustes de servidores tende a chegar ao nível máximo. Bolsonaro já deixou claro, entre uma folga e outra, que, por ele, concederia aumento a todas as categorias do funcionalismo. Então, o ministro que se prepare, porque a comporta vai de fato estourar.

Não há surpresa no comportamento do presidente, embora ele sempre esteja subindo um degrau em termos de atitudes incompatíveis com o cargo. Daí por que aqueles que, como a senadora Simone Tebet, dizem que jamais seria possível imaginar governo tão ruim devem fazer uma reflexão à luz da História desse personagem que o Brasil achou por bem eleger em 2018.

Em sua extensa carreira como deputado, depois de uma curta e indigna passagem como militar, Bolsonaro nunca fez questão de esconder o que era: um representante dos interesses corporativistas e do reacionarismo mais explícito, avesso às questões de gestão pública, a não ser aquelas ligadas aos grupos de interesse que ele representa (fabricantes de armas, latifundiários, garimpeiros, madeireiros).

O interesse público nunca foi pauta do parlamentar Bolsonaro, que envidou todos os esforços apenas em suas eleições, nas dos filhos e até na da mulher. Construiu vasto patrimônio à custa desses mandatos.

Eleito afrontando a lógica, a ciência, o decoro do cargo e o bom senso, Bolsonaro deve achar que se reelegerá assim — e segue. Se ganhará algo com isso, cabe ao eleitor responder no ano que vem.

Previsões para 2022

A criatura pode ser a mais racional da face da terra. A mais inteligente, analisada e crítica. Quando se aproxima o 31 de dezembro, são raras as que resistem conferir as previsões para o ano seguinte. Agora que estamos a reviver o obscurantismo da Idade Média, mais do que nunca, precisamos consultar divindades e seres do outro mundo. Que nos salvem os bruxos, magos, astrólogos, ciganas, cartomantes, médiuns e correlatos.

Sempre foi assim. Ansiamos por uma interpretação do amanhã e até pagamos por ela como quem busca informações privilegiadas numa concorrência. Traímos o presente com o futuro, que é totalmente subjetivo. Não basta dominarmos o aqui e o agora, este mundo tridimensional, também queremos ter o controle dos mistérios do mundo invisível.

Ter acesso a previsões é um desejo que vem desde que o globo começou a girar. Quando o homo sapiens se entendeu por gente, passou a achar que o seu “kit existência” dava direito a receber os conselhos dos oráculos. Assim, foi das cavernas ao Império Romano, passando pelos feudos da Idade Média, até os reis e rainhas shakespeareanos. Segue como leitor da sorte até hoje. O humano é o único animal que curte adivinhações. “Mistérios sempre há de pintar por aí”, arremata o cantor Gilberto Gil.

Esse gostar das coisas místicas e de querer entender os enigmas seduz a todos e a todas, indistintamente. Até os mais recatados intelectuais. Por falar nisso, logo me vêm à cabeça a escritora Clarice Lispector. Todo fã sabe que ela era chegada a um mistério. Tanto que foi convidada, e compareceu, ao I Congresso de Bruxaria em Bogotá, em 1975. Os organizadores do evento entendiam que algumas de suas obras tinham uma proposta mística, uma simbologia secreta.

Na condição de devoto, eu reconheço que a papisa da literatura brasileira era supersticiosa. Tanto que, na década de 1970, ela ia com frequência a uma cartomante, no bairro do Méier, Rio. Clarice não dava um passo, não fazia uma viagem, sem antes receber as orientações místicas. Não sei se é verdade, mas vou repassar esta fofoca pelo preço que comprei: o disse-que-disse dos meios literários dá conta de que a Lispector, quando ia consultar os arcanos, levava, consigo, um casal de amigos, os também escritores Afonso Romano de Sant’anna e Marina Colasanti. Está provado, pois, a boa literatura combina com uma certa magia.

Mas, voltando ao assunto. Estamos fechando o ano e é natural que se queira saber previsões. Há quem busque, até, indicações do dia e da hora ideais para comprar uma geladeira nova, atravessar a rua ou fazer as unhas. Programas de televisão viram campeões de audiência quando abrem espaço para astrólogos anteciparem a vida das celebridades. Outros, ainda, concorrem nas predições de catástrofes. Para 2022, que juntará no mesmo exercício os efeitos da covid-19 com as eleições presidenciais, pergunto: até quando durará nosso sofrimento?

Pandemia e eleição são motivos de sobra para se roer unhas. Vivemos dias de muita incerteza, que nos causam desde a mais simples apreensão ao pânico desorganizador e generalizado. É compreensível estarmos amedrontados, afobados, irritados, até histéricos. Qualquer coisa que se diga sobre o que há de vir, nessa situação desfavorável, já é um ganho. Saber o que nos espera, já nos prepara para os enfrentamentos ou para diminuir as ansiedades.

De minha parte, já consultei os astros, para ver se as previsões se encaixam nas minhas expectativas. Quer saber o que eles me disseram? “No próximo ano, o brasileiro precisa escolher um presidente da República que defenda e respeite o povo. Tem que fazer como os chilenos”. No mais, Feliz Ano Novo!
Cícero Belmar

Há algo de bom previsto para a economia em 22?

O editor de Brasil do Valor, Marcos de Moura e Souza, propôs um desafio ao colunista: que tal uma visão otimista para o novo ano neste último texto de 2021, só uma, em meio à maré de pessimismo prevista em várias frentes da economia?

Desafio aceito, o colunista transferiu a pergunta a 14 economistas não ortodoxos, chamados ora de heterodoxos, ora de progressistas, estruturalistas ou keynesianos. Dez responderam. A maioria deles aparece pouco na grande mídia. Quase todos são acadêmicos e não ligados ao mercado financeiro, mas costumam ser os mais críticos da atual política econômica. Por isso, pareceu interessante descobrir se enxergam algo de positivo para o ano que começa sábado.

A pergunta foi direta: Poderia fazer previsão de uma coisa boa que deverá acontecer na economia brasileira em 2022? José Luiz Oreiro, da UnB, crítico feroz da política econômica neoliberal, respondeu de pronto, mas fugiu da macroeconomia. Disse que não deve haver racionamento de energia elétrica em 2022, porque as chuvas até o fim de novembro vieram quase 50% acima da média histórica. Isso deve levar a uma redução da bandeira tarifária. “É a única coisa boa que consigo esperar com algum grau de confiança. Todo o resto é chute”, disse.

Luiz Carlos Bresser-Pereira, ex-ministro da Fazenda e professor da FGV, preferiu enfoque político: “A melhor coisa prevista para 2022 na área econômica é a derrota de Jair Bolsonaro nas eleições”. Além disso, sugeriu que seria ótimo que os empresários brasileiros de ponta, como Horácio Lafer Piva, Pedro Wongtschowski e Pedro Passos, repensassem o Brasil. Compreendessem que o neoliberalismo, dominante no mundo desde 1980, começou a morrer em 2008 e morreu com a covid-19 e o governo Joe Biden. E que a alternativa é o desenvolvimentismo com o controle fiscal e a rejeição dos déficits em conta corrente que apreciam o câmbio e inviabilizam a indústria.


André Lara Resende, ex- BNDES, declinou da tarefa: “Já não gosto de fazer previsões, mas prever alguma coisa boa, com tanta incompetência na economia e irresponsabilidade na política, fica difícil”. Carmem Feijó, da UFF, também disse não conseguir antecipar nada de bom. “Não nos recuperamos da recessão de 2015-2016 pela insistência no receituário neoliberal, hoje anacrônico. Sem recuperação econômica, o conflito distributivo se acirra. E ainda estamos aumentando o desmatamento, que pode chegar a um nível irreversível. Num horizonte curto ou longo de tempo, estou pessimista.”

Luis Carlos Magalhães, do Ipea, fez um e-mail com quatro pontos, mas não previu nada de bom. Apenas relatou condições adversas para sugerir que a economia brasileira “continuará em coma no ano que vem”: pandemia, pressão inflacionária, alta de juros aqui e nos EUA, elevação da dívida pública, deterioração fiscal e redução de exportações. “Keynes, se ressuscitado, iria ficar estarrecido com o grau de incerteza do mundo atual”, observou.

Fernando Ferrari, professor da UFRGS, disse que as exportações líquidas, variável de “fôlego” do PIB, devem ser a notícia “boa” do ano se o cenário internacional for favorável e o agronegócio não tiver outro revés. Mas sua visão geral é pessimista, com desemprego elevado, juros altos, incerteza política, ociosidade do capital e postergação de investimentos. “Enquanto perdurarem a agenda de Estado mínimo, reformas pró-mercado e o modus operandi da ‘austeridade fiscal expansionista’, é pouco provável que saiamos da estagnação que há muito tempo nos acompanha.”

Lauro Gonzales, da FGV-SP, disse que o provável arrefecimento da inflação pode ser um fato positivo, porque afeta diretamente o bolso dos pobres. A inflação vai cair, segundo ele, porque serão menores os descompassos entre oferta e demanda e a desorganização das cadeias produtivas.

Adalmir Marquetti, da PUC-RS, bem-humorado, observou que uma boa notícia para 2022 é “o Valor estar aberto para economistas não ortodoxos em uma das maiores crises da história do Brasil”. Lembrou que a economia brasileira completou quatro décadas de quase estagnação: a taxa anual de crescimento caiu de 7,3%, entre 1950 e 1980, para 2,2% de 1980 a 2020; o poder de compra do PIB per capita real em 2021 será similar ao de 2010. Um ponto positivo de 2022, previu, é que a eleição deve promover um debate fundamental sobre a retomada do crescimento brasileiro e possibilitar políticas públicas que se oponham a medidas de caráter neoliberal. Além disso, disse, devemos ter o fim da pandemia com a retomada da economia no modo usual, havendo redução da pressão inflacionária e aumento do emprego no setor de serviços. O pagamento do Auxílio Brasil de R$ 400 também ajudará no combate à pobreza, afirmou.

Luiz Fernando de Paula, da UFRJ, disse que a melhor coisa que pode acontecer em 2022 é Bolsonaro perder a eleição, porque mudará o comando econômico que tem “visão completamente ultrapassada”, sem agenda para crescimento, estabilidade de preços e distribuição de renda. “Acredita-se que a simples manutenção do teto dos gastos combinada com reformas liberais vai despertar a ‘fada da confiança’, acelerando investimentos privados e crescimento.” Ele entende que vivemos um “thatcherismo tupiniquim” que não está entregando nada em termos econômicos. E acha “impressionante” como a elite empresarial tem uma visão tão curtoprazista ao apoiar essa política. Porque o resultado é desindustrialização, queda da parcela de salários na renda e precarização no mercado de trabalho com aumento da informalidade e baixa produtividade. “É um projeto de o Brasil se tornar uma grande fazenda, destino trágico para o país.”

Rosa Maria Marques, da PUC-SP, jurou ter procurado com lupa e não ter visto nenhuma perspectiva de melhora. Disse que vão persistir os problemas de desemprego, inflação e queda da renda. E que a recessão técnica e a alta dos juros vão inibir fortemente a atividade produtiva, favorecendo os detentores da dívida pública. “A isso se somam as incertezas com relação à evolução da covid-19. Embora a vacinação tenha avançado, registra enormes desigualdades entre os Estados, o que pode favorecer o surgimento de outras variantes e comprometer a imunização alcançada.”

Dito isso, o único consolo é que economistas, de todas as tendências, erram muito. Feliz ano novo.

terça-feira, 28 de dezembro de 2021

Brasil brinda a 2022

 

Rodrigo Mineu

O Brasil no radar do mundo

Em livro recentemente republicado, desses que dão nova vida a suas antigas crônicas, Rubem Braga sugere uma reflexão diferente para a virada do ano. Pede aos leitores que pensem “nos seus próprios ridículos” e lembra que os mais envaidecidos de suas virtudes muitas vezes são pessoas azedas, infelizes e entediadas.

Tudo isso para desejar, no Ano Novo, “muitas virtudes e boas ações”, mas também “alguns pecados agradáveis, excitantes, discretos e, principalmente, bem-sucedidos”. Aos muito vaidosos de suas virtudes, ele sugere que pequem “pelo menos uma vezinha”, para relaxar.

Seria um pouco difícil repetir a recomendação nos dias de hoje. O palco fácil da Internet ajudou a alimentar certezas e a multiplicar julgamentos. A busca do eleitorado religioso e conservador jogaria no lixo a brincadeira sobre os pequenos pecados.


Mas a receita de Braga, que destilou sua fina ironia até 1990, ajuda a lembrar um Brasil mais suave e irreverente, um país que conquistou simpatia em todo o mundo – apesar das sempre lembradas desigualdades sociais – com sua aposta na descontração.

Ele teve sorte. Morreu cinco anos depois do retorno da democracia e não teve pela frente a tarefa de escrever sobre o 2022 que se aproxima. Um ano em que a violência verbal estará amplificada e a tolerância será testada com máxima intensidade.

O Brasil poderia ter bons motivos para celebrar em paz o seu bicentenário, mesmo no momento em que o mundo ainda enfrenta uma pandemia, acoplada a incertezas mundiais tanto na economia quanto na política. O país passou, porém, a ser visto com desconfiança.

Nas telas de televisão e nas páginas de jornais e revistas em todo o mundo, aquela imagem de país bonachão, de boa música e bom futebol, tem sido substituída pela de uma nação que tem a democracia ameaçada e cuida com desdém de um de seus principais ativos: a floresta tropical.

A partir dos meios de comunicação, a crítica alcançou os debates acadêmicos, desses que envolvem figuras capazes de exercer influência junto a quem toma decisões importantes em países centrais no cenário global.

Foi o caso do recém-lançado podcast “Nove questões para o mundo”. Elaborado pelo Council on Foreign Relations (CFR), uma organização independente de pesquisa e debate sediada em Washington, o programa convidou especialistas para traçar cenários dos próximos dez anos. As referências ao Brasil não são muito elogiosas.

Um dos episódios do podcast tem por título “Pode a democracia sobreviver”? A convidada especial foi a historiadora, professora e jornalista Anne Applebaum, detentora de um prêmio Pulitzer.

Em conversa com o presidente do CFR, Richard Haass, ela traça um cenário preocupante. Após a II Guerra Mundial, recorda, democracias se espalharam pelo mundo. Mas, na sua opinião, elas agora estão especialmente vulneráveis. E que países ela cita?

Além dos próprios Estados Unidos, onde partidários de Donald Trump invadiram o Capitólio após a vitória de Joe Biden, ela menciona nações como Polônia, Venezuela e Brasil. Observa que desigualdades ameaçam democracias e que muitos dos que se deixam seduzir por tentações autoritárias sentem-se de alguma forma esquecidos pelos governantes.

“Podemos ver movimentos antidemocráticos similares em várias partes do mundo”, alerta Applebaum. “Existe alguma coisa acontecendo? É bom prestar atenção”.

No último e mais importante episódio, “A ordem mundial tem um futuro”? Haass é entrevistado pelo jornalista Fareed Zakaria, da CNN, e ressalta a necessidade de se promover uma revisão da maneira como entendemos o mundo até agora.

Se até recentemente se poderia interpretar o cenário global apenas a partir de conceitos como soberania e equilíbrio de poder, pondera o professor, agora existem novos elementos na mesa, como o ciberespaço e a mudança climática.

Além disso, observa, o mundo se tornou mais descentralizado e, ao mesmo tempo, se percebe que o planeta é um só. E que não basta se pensar apenas em termos de interesses nacionais.

“Mesmo que os Estados Unidos sejam capazes de se defender de possíveis ameaças de países como Rússia e China, a temperatura do mundo continuará subindo”, recorda. “Sobre a tradicional geopolítica agora se acrescentam novas camadas de temas globais”.

Uma vez que as preocupações globais sobre temas como o aquecimento do planeta tendem a crescer, prossegue o presidente do conselho, a própria questão da soberania estará na ordem do dia. E que país ele cita como exemplo?

“Vejam o caso do Brasil”, sugere Haass. “Eles têm a maior parte das florestas tropicais. Se pensamos no direito de cada país de fazer o que quiser dentro de suas fronteiras soberanas, eles podem derrubar as suas árvores”.

“Mas se pensamos neles como cuidadores”, prossegue o professor, eles não teriam necessariamente o direito de fazer isso. “Se acham que podem, por que não impomos sanções e boicotamos produtos brasileiros?”

Democracia e meio ambiente. Estão aí dois temas que não se limitam mais aos cercadinhos dos chamados assuntos internos de cada país. Até há poucos anos, eram dois motivos de orgulho nacional. Agora deixam o país na condição de vilão.

Os que gostam de expor seu patriotismo como virtude, mas insinuam golpes de Estado e esvaziam órgãos de controle ambiental, podem não perceber. Mas, como na crônica de Braga, esquecem dos próprios ridículos.

Em 2022, mais do que nunca, o Brasil estará no radar do mundo. E não pelos melhores motivos.

Podemos evitar que a politização destrua nossas vidas?

2022 será violento. Bolsonaro fará o que for preciso para se manter no poder. E se os números nas pesquisas não melhorarem, ficará cada vez mais desesperado.

De uma forma ou de outra, todos seremos dragados por essa disputa, que pode separar amigos, parentes, colegas de trabalho e até namorados. Cresce o número de pessoas que não vão para a cama com alguém sem antes saber direitinho em quem a pessoa votou em 2018 e como pretende votar em 22.

O filósofo político Robert Talisse vem acompanhando esse fenômeno e vê razões para nos preocuparmos. É o que ele argumenta em "Overdoing Democracy" (Oxford University Press, 2019, ainda sem tradução), lançado pouco antes da pandemia, mas cujos pontos centrais se tornaram mais fortes desde então.


A orientação política penetrou em basicamente todos os aspectos da vida nos EUA —do canal de notícias consumido e o tipo de música que se ouve à vizinhança em que se mora.

Essa politização dá início a um processo de autosseleção, em que nossas relações ficam cada vez mais restritas apenas a quem vota como nós. Num país bipartidário como os EUA, e com cultura mais ideológica que a nossa, esse processo já está mais avançado, mas caminhamos na mesma direção.

Somos animais gregários que formam coalizões e buscam o poder. A solução tradicional para garantir ordem social era a supressão do dissenso.

A sociedade democrática liberal é uma conquista recente da humanidade, e que jamais será natural. Ela aceita a dinâmica de formação de coalizões, mas sujeita-a a regras.

Projetos políticos (assim como concepções religiosas) diferentes existindo lado a lado e em paz, respeitando regras de comum acordo sobre o que pode ou não ser feito para garantir a vitória, dependem de um equilíbrio muito tênue. Se o meu lado é o certo, com base no quê devo respeitar o outro?

"Tudo é política" é um slogan que pega bem nos meios mais esclarecidos aqui no Brasil. É também, contudo, um veneno que está nos matando aos poucos, tornando a política cada vez mais polarizada e, por isso, menos eficaz.

A pertença à tribo correta, vista como o valor mais importante, toma precedência sobre o encontro de soluções de compromisso que de fato funcionem para resolver problemas da população. Num mundo em que eu sequer convivo com esse outro, ele se torna cada vez mais um monstro da minha imaginação. E como ele não respeita regra nenhuma, eu também me permito não respeitá-las.

Talisse é menos convincente em prescrever soluções. Uma coisa é clara: recomendações individuais podem ajudar cada um de nós a não enlouquecer, mas não dão conta do problema.

É sempre positivo lembrar que a vida tem muito mais do que política, e sacrificar todo o resto —​relacionamentos, interesses, cultura— em nome dela é um jeito seguro de perder tudo que realmente importa. E, no fim das contas, a própria democracia, sacrificada ao fanatismo.

No entanto, por mais que cada indivíduo possa resistir neste ou naquele ponto, o processo geral é implacável.

Cada esfera da vida pode ser utilizada para favorecer este ou aquele lado da disputa, cada escolha de consumo pessoal pode refletir um certo conjunto de símbolos que apontam para um ou outro lado.

Você até pode se desligar um pouco de tudo, mas será que vale a pena, considerando os riscos que se apresentam em 2022? Cada vez mais ressentidos, rumamos para o vórtice. Um feliz Ano-Novo!

Receita Federal no plano de demolição

O clima na Receita Federal era, na véspera do Natal, de “indignação coletiva”, na definição de uma fonte. “Essa é a maior crise da história”, completou. Mas o que acontece lá não é fato isolado. O governo Bolsonaro tem feito um ataque sistemático ao Estado usando um arsenal conhecido. Corta cabeças de lideranças com alguma autonomia, aparelha e, depois, seca recursos. Assim ele fez com Ibama, ICMbio, IPHAN, Funai, Fundação Palmares, Ministério da Educação, Ministério da Saúde.

Na Receita, o governo cortou dinheiro da manutenção da máquina para ter recursos para aumentar salários da Polícia Federal. Ela mesma, a PF, enfrentou um vistoso caso de intervenção do presidente para retirar sua autonomia e colocá-la a serviço da sua família, como o próprio presidente confessou com palavras chulas naquela famosa reunião ministerial.


Na Receita, centenas de auditores entregaram seus cargos de direção, o que deixa setores e unidades do órgão acéfalos. Além disso, 44 integrantes do CARF, o Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, pediram exoneração. A Receita permanece ainda sem corregedor. E isso é importante para entender a crise. O antigo secretário José Tostes Neto escolheu um candidato para a corregedoria, que foi aprovado pelo ministro da Economia, Paulo Guedes, mas foi vetado pela Casa Civil. Já é humilhante ter que enviar à Casa Civil o nome de alguém do segundo escalão do Ministério. Subserviente como é, Paulo Guedes aceitou. Pior. Demitiu o secretário com uma frase esclarecedora: “O presidente quer o seu cargo”.

Nunca se explicou a demissão de José Tostes. O Ministério fez circular a informação de que ele seria adido na OCDE. Era mentira. O cargo é exclusivo de pessoal da ativa, Tostes é aposentado.

Tostes não é conhecido do público, tem horror a entrevistas, e afundou-se no silêncio. Mas um detalhe dessa demissão é curioso: o governo tem comemorado o aumento da arrecadação em 2021. Mesmo assim demitiu o secretário? Durante seu período no cargo, Tostes Neto teve três reuniões com o senador Flávio Bolsonaro ou seus advogados. Numa delas, o ex-secretário chegou até a ir à casa do senador. Tostes Neto admitiu que foi lá para “discutir a situação fiscal de pessoas físicas e jurídicas relacionadas ao senador Flávio Bolsonaro”. Um espanto essa entrega a domicílio qualquer que seja. Mas o governo queria mais do que isso. E Tostes Neto teria negado.

O senador Flávio Bolsonaro mandou carta para mim, através da assessoria, negando que tenha qualquer ingerência na Receita e garante que nunca interferiu. Segundo ele, dizer que houve interferência — como eu disse e sustento — é “desrespeitoso com a maioria dos servidores da Receita”. Ora, ora, quem desrespeita a Receita não é uma jornalista e sim o cotidiano desse governo que tem como objetivo capturar os órgãos de Estado para que eles funcionem em torno dos objetivos escusos da família do presidente e dos seus amigos.

Bolsonaro é criminoso confesso em muitos casos de obstrução do trabalho dos servidores. Fez isso no IPHAN e, como ele mesmo informou, para atender ao interesse empresarial de um amigo dele, Luciano Hang. Isso é crime. Beneficiar interesses privados, usando um órgão público cuja existência ele admitiu desconhecer. Recado ao presidente: O “PH” da sigla IPHAN significa patrimônio histórico, Bolsonaro, mas certamente isso escapa ao seu entendimento raso e tosco do que seja o Estado brasileiro. Seu trabalho tem sido de demolição do Estado.

No caso da Receita, há o projeto de um bônus já aprovado e depois barrado. Mas a gota d’água foi a decisão do ministro Paulo Guedes de indicar verbas da Receita, que permitem o funcionamento do órgão, para os cortes que garantirão os quase R$ 2 bi que vão elevar o salário da Polícia Federal. Isso foi atear fogo à gasolina. O ministro fez isso e saiu de férias.

O aumento na PF é a forma de comprar lealdade dos agentes e delegados depois de o órgão ter sofrido a mais violenta intervenção. O presidente mesmo admitiu que faria isso, em meio a palavrões com os quais informou aos seus ministros que queria proteger a família e os amigos. Os órgãos ambientais, de proteção dos indígenas e de defesa da igualdade racial vivem a infâmia diária desde o começo do governo. Tudo é parte do mesmo projeto de destruição e ocupação da máquina. Da terra arrasada, o Brasil precisará se reerguer.

Todos os livros do presidente

Há três ou quatro anos, na véspera de Natal, fui convidado para autografar exemplares dos meus livros numa pequena livraria independente, em Cascais, próximo de Lisboa. Não havia muitos clientes. A certa altura entrou na livraria o presidente português, Marcelo Rebelo de Sousa. Vinha sozinho. Sentou-se diante de mim, cumprimentou-me com um vigoroso aperto de mão, e disse-me que naquele Natal iria oferecer livros meus a toda a família. Fiquei duas horas à conversa com ele, enquanto autografava.

Antes de ser eleito pela primeira vez presidente da República, em 2016, Marcelo Rebelo de Sousa era famoso como um comentador político que também recomendava livros. Ter um livro recomendado por Marcelo garantia quase sempre boas vendas. Muita gente ficava espantada com a quantidade de livros, desde romances a densos ensaios de filosofia, que Marcelo recomendava todas as semanas. O segredo, segundo revelou o próprio em diversas entrevistas, tem a ver com o fato de dormir apenas quatro horas. O presidente português dedica o resto da noite à leitura de livros e jornais.


Portugal tem sorte em ter um presidente que dorme pouco — e que gosta de ler. Aliás, os presidentes deveriam ser escolhidos pelos livros que leem. Juntamente com a declaração de rendimentos, cada candidato presidencial teria de apresentar uma lista dos seus vinte livros preferidos. Uma medida como esta evitaria muitas desilusões. Evitaria, sobretudo, alguns grandes e graves desastres, como aquele que está em curso no Brasil.

Jair Bolsonaro não conseguiria sequer escrever tal lista e seria eliminado antes mesmo de começar a corrida. Já Donald Trump, que, por comparação com Bolsonaro, é quase um intelectual, afirma ter lido pelo menos dois livros ao longo da vida — e recomendou-os inúmeras vezes: “A arte da guerra”, de Sun Tzu, e “O príncipe”, de Nicolau Maquiavel. Mais dois bons motivos para ninguém votar nele.

Na lista dos títulos preferidos de Barack Obama encontro vários de que também gosto. Destaco “Garota, mulher, outras” de Bernardine Evaristo, e “Da próxima vez, o fogo”, de James Baldwin. Contudo, há algumas escolhas um pouco inquietantes, como Paula Hawkins (“A garota no trem”) e Paulo Coelho (“As valquírias”).

Nelson Mandela gostava de biografias. Na sua lista de livros preferidos figuravam ainda grandes clássicos da literatura universal, como “Guerra e paz”, de Tolstói, e nomes importantes das letras do seu país, com destaque para Nadine Gordimer, Prêmio Nobel da Literatura em 1991.

Voltando ao Brasil, gostaria de saber mais sobre os livros preferidos dos principais candidatos. Sobre Lula sabemos bastante. Entre os romances que leu (ou releu) na prisão estão alguns dos meus favoritos, como “O amor nos tempos do cólera”, de Gabriel García Márquez, e “Um defeito de cor”, de Ana Maria Gonçalves. Além disso, Lula parece prestar atenção aos novos talentos. Na cadeia, leu, por exemplo, “O sol na cabeça”, de Geovani Martins.

A lista de Lula é, no geral, muito boa. Se o meu sistema estivesse em vigor no Brasil, os restantes candidatos teriam de se esforçar bastante.

Desejo a todos festas felizes — e boas leituras!

segunda-feira, 27 de dezembro de 2021

Papai Noel no Congresso

Orçamento é um tema muito pesado para o período de festas de fim de ano. Vamos traduzir assim: Papai Noel passou pelo Congresso e foi muito generoso, deixando um presente de R$ 37 bilhões em emendas parlamentares, das quais R$ 16,5 bilhões naquele famoso orçamento secreto. Aliás ficou apenas meio secreto para ganhar autorização do Supremo Tribunal Federal, que o havia bloqueado. Meio secreto, como as meio grávidas, ele é arma da reeleição de deputados.

Papai Noel foi muito generoso com os partidos e deixou para eles um fundo eleitoral de R$ 4,9 bilhões. Será uma rica campanha num país empobrecido e faminto.

Papai Noel contemplou os policiais federais com um aumento e deixou de fora o restante do funcionalismo.Não cabia presente para todos no seu famoso saco vermelho, ou talvez as renas não aguentassem o peso.


Para o Brasil mesmo, com todos os seus problemas, restou pouco para investir: R$ 44 bilhões, um terço do volume de investimentos de 2012. E olha que nossos problemas hoje são muito mais agudos.

Numa recente pesquisa, o Congresso obteve apenas 10% de aprovação. Ele está se afastando perigosamente da sociedade.

Não se deve falar nisso em período de festa, mas, se o Congresso brasileiro não for mudado, dificilmente teremos um bom 2023.

Não adianta tanto escolher um presidente, embora toda a energia emocional se concentre nisso. A ausência de uma grande bancada comprometida com o país é a base de muitos problemas.

A corrupção é um deles. Como governar sem maioria? Esse dilema ocasionou o mensalão e desembocou em algo grandioso ainda: o orçamento secreto.

Um Congresso fisiológico coloca problemas mais sérios, que vou apenas esboçar neste momento de festas. Ele não vota questões controversas, sobretudo em costumes. Elas são empurradas para o Supremo. Os progressistas sentem um pequeno alívio porque o Supremo brasileiro, de um modo geral, é liberal ao julgar esses temas.

Mas isso cria um ressentimento entre os conservadores, que se consideram tiranizados por uma elite que pensa de forma diferente deles e não foi votada para tomar essas decisões.

Esse ressentimento é facilmente explorado por demagogos que atacam o Supremo por combinar liberalismo nos costumes e leniência com a corrupção.

Sei que não deveria estar falando nisso agora. O tempo de Bolsonaro parece estar no fim. Acredito nisso.

Mas, se não nos interrogamos sobre as condições que permitiram a ascensão de Bolsonaro, ele poderá ressurgir adiante, na pele de outro populista de extrema direita.

O ano que entra será animado e eletrizante com as eleições nacionais. Mas uma forma de desejar bom Ano-Novo é ver um pouco além e aspirar a uma certa estabilidade construtiva para, pelo menos, recuperar o tempo perdido.

O Congresso que nos deixa a pão e água neste ano de 2022 é uma das causas da instabilidade profunda de nosso sistema político.

Sei que essa história de escolher bem o Congresso é velha. Repetimos em todas as eleições, mas, no fundo, nos concentramos apenas na escolha do presidente.

A própria imprensa é capaz de gastar mais espaço com os vices do que com aqueles caras que podem não só infernizar nossa vida, como levar toda a grana para seus projetos, como fizeram agora.

Eles corrompem governos, derrubam, aprisionam governos no seu cercadinho, como fazem com Bolsonaro, e se divertem com nossas emoções em torno da corrida presidencial.

Quem sabe Papai Noel com todos esses presentes enviesados não tenha querido nos deixar pelo menos uma chance de pensar no problema?

Quem sabe não tenha apenas tentado nos punir pela imprevidência?

Como entrar na cabeça de um velho que pilota um trenó movido a renas que voam? Quando passar seu rastro de fantasia, talvez possamos voltar ao assunto.

Pensamento do Dia

 


O jardim dos homens

Nos jardins de Deus nascem e cabem todas as flores. Menos as que Jair Bolsonaro e seus cupinchas não querem. E como eles ainda não sabem com certeza o que não querem, tentam nos fazer prisioneiros de seus delírios, como esse agora das vacinas pediátricas. Meninos e meninas de 5 a 11 anos não poderão se proteger do vírus, devem se tornar suas vítimas compulsórias. Porque, ninguém sabe.

Como também ninguém sabia, quando o homem começou a pensar melhor, a refletir sobre o mundo diante dele, incompleto e imperfeito. Era preciso mexer aqui e ali, separar as coisas de modo a evitar feras e males, tudo o que pudesse vir a ser obstáculo para a construção de uma civilização, nosso papel por aqui. Depois de um certo tempo de muito esforço, acreditamos que era possível ir mais longe — mais do que construir uma civilização que andasse junto com o resto, podíamos conquistar os jardins de Deus por nossa própria conta e risco, estabelecer as regras novas e definitivas sem negociá-las com a complexa personalidade da Natureza, transformando-a no Jardim dos Homens. Deu no que deu.


Agora é ir em frente, encarar o mundo, ver o que ainda dá para fazer. Nunca é tarde demais. Mas Bolsonaro e sua turma não querem entendimento com ninguém, em torno de nada. Eles só querem confronto e briga, ganha a guerra quem piscar primeiro. E pronto. Por isso não abrem mão de povoar o mundo, do jeito que eles quiserem.

Se não conseguiram fazer com que ainda mais morressem, além dos 650 mil abatidos inutilmente (“E daí?”), vão agora lutar pelo sacrifício das crianças. Por elas vão rezar, não sei que rezas, como heroínas de um original jeito de viver. Bolsonaro: “Eu sou Messias, mas não faço milagre”. Milagre, não. Mas meninos e meninas sem vacinas se tornarão exemplos de um modo de vida que começa pela morte. Em outubro de 2020, ele disse: “Já mandei cancelar, o presidente sou eu (?). Toda e qualquer vacina está descartada”. E em março do ano seguinte: “Chega de frescura e de mimimi. Vão ficar chorando até quando?”. Claro, homem não chora, homem só chora quando é com ele.

Ou então: homem não chora — homem grita, berra, protesta quando não é justo o que fazem com ele. E é assim que está sendo, nessa hora de firme posição dos técnicos da Anvisa, do monte de demissões de funcionários, de mais de 300 auditores entregando seus cargos, de reações de quem lida com o assunto e sabe o que está fazendo, gente que não é de brincadeira.

Não é possível que, quando tomamos conhecimento desse “orçamento secreto”, desse apuro da corrupção que não nos deixa mais saber quem roubou ou quem se beneficiou injustamente da grana pública, sejamos obrigados a acreditar que os interesses eleitorais dos deputados locais sejam mais adequados à racionalidade do regime do que as necessidades do território que representam.

Às vésperas de Natal e Réveillon, o Rio de Janeiro tem uma alta de 64% na vacinação. E 80% da população da capital fluminense está imunizada contra a Covid-19. Além de darmos limite às festas, que a felicidade e o bem estar de todos chegue com máscaras sanitárias, distanciamento social e álcool gel. (De onde será que vem o ódio contra os que agem corretamente, em benefício da população?).

Esperamos que a Natureza também colabore, pelo menos um pouco mais, não inventando novos romances entre os vírus, evitando outras cepas com novos problemas para nos defendermos delas. Queremos mais amor e um bom comportamento pessoal e político para com o país em que vivemos. Além disso, um muito feliz Natal para todo mundo, que todo mundo merece.

Feliz final dos tempos

Todos escrevem textos para levantar o astral no fim de ano. Tentei, travei. Chavões, clichês, um Natal cheio de alegrias, amor, solidariedade, mundo novo, nova vida, tempo de esperança? Qual é? Com o que está aí? E com ELE lá! Escrevia, deletava tudo soava falso. Como provocar alento?

Percebo como me faz mal a avalanche de comerciais com panetones, chocotones, chester, perus, tênder, cordeiros assados, filés amaciados com massagens orientais, rabanadas. Orgia. Veio-me à mente aquela série em que um gordo jornalista percorre lanchonetes americanas devorando sanduíches, a gordura escorrendo pelo queixo. Não, não me venha com gordofobia, é que tenho medo do dia em que, durante um programa, eu veja o sujeito explodir.

Por que não mudo de canal, se as imagens me incomodam? Porque sofro da síndrome de fascínio pelo tenebroso, expressão de Otto Lara Resende, em um júri de concurso de contos, em que todos liam e reliam, treliam, os piores contos, atraídos pela indigência, mau gosto. O tenebroso é uma doença que emana de cada célula daquele que nos preside e cujo nome não se deve pronunciar.


Vejo a proliferação de programas de gastronomia. Tem de tudo, em todas as TVs e (agora vão me matar) e penso nos milhões de brasileiros que passam fome, buscam ossos nos lixos, restos de restaurantes, sem esquecer os que caçam lagartos, comem saúvas, sapos. Há os que engolem sapos, fazendo flexões com os chefes de bancos, autarquias, etc.

Leio para familiares, me advertem. Escrever isto no Natal? Levante o moral, dê animo. O moral está baixo, a moral mais baixa ainda. Entre várias coisas totalmente liberadas nestes tempos está a escrotidão total. Este clima de intolerância, mentiras, ódio, ultrajes, nos deixa doentes, contamina até animais. Meu gato Tom (homenagem a Jobim) acaba de ser diagnosticado com um tumor cancerígeno no focinho.

Netos me perguntaram, qual foi seu melhor Natal? E o pior? Este foi aos 8 anos. Depois de espera ansiosa, ganhei um caminhão de madeira, saí à rua e me roubaram. A sordidez conheci cedo. Melhor? O deslumbramento de um carro movido a pedal na vitrine da Casa Barbieri, em Araraquara. Caro. Ainda compro um, tenho o dinheiro e o tamanho para me enfiar nele e pedalar. Basta para te dar alta, diz o terapeuta Hiroshi. Penso em mudar para Lisboa. Mas e se, estando na Taberna das Flores, dou com brasileiros que têm dinheiro e compraram tudo, inflacionaram aluguéis, desalojaram famílias? Preciso escapar rápido, deixando o bacalhau às iscas ou as berinjelas fritas com mel de cana da Madeira?

O risco Bolsonaro em 2022

Mais do que nunca, apesar de Bolsonaro, Queiroga e seus assemelhados, é preciso insistir nos votos de feliz ano novo, mesmo diante da perspectiva de mais 12 meses de irresponsabilidade, incompetência e desmandos. É preciso manter a esperança e fazer o possível para dificultar o avanço da perversão e da barbárie. O pior presidente da história brasileira encerrou 2021 emperrando a vacinação de crianças contra a covid19. Já havia retardado, em 2020, a vacinação de adultos, num jogo sinistro com centenas de milhares de vidas. Desta vez, além de questionar a autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), cobrou os nomes de quem participou da decisão. Com seu exemplo, incitou militantes do ódio a ameaçar diretores da agência. Obediente a seu amo, o ministro da Saúde – sim, da Saúde – anunciou uma consulta pública sobre a imunização das crianças, como se esse fosse o meio de resolver uma questão técnica e científica.


Ao dificultar essa vacinação, o presidente Bolsonaro acrescentou um capítulo especial a seu currículo tenebroso. Até aí, havia ameaçado as crianças de forma indireta, empobrecendo sua família, comprometendo sua educação e pondo em risco seus pais. O defensor da cloroquina, do kit covid e do famigerado tratamento precoce é o grande responsável, também, pela estagnação econômica, pela inflação acima de 10% e pelo desemprego acima dos padrões internacionais. O mesmo desgoverno produz o desastre sanitário, a destruição das florestas, o desarranjo dos negócios, a explosão dos preços e o reaparecimento da fome.

É preciso insistir, apesar de tudo, em desejar e buscar um feliz 2022, mas sem autoengano. As projeções indicam para o próximo ano um crescimento econômico na faixa de zero a 0,5%. A inflação de 2021 deve ter sido quase o dobro do teto da meta. A meta é 3,75% e o limite superior de tolerância, 5,25%. Para o próximo ano os dois sinalizadores são 3,50% e 5%, mas já se previu, na semana passada, uma alta de preços de 5,03%. Tentando frear os preços, o Banco Central (BC) já elevou os juros básicos a 9,25%. Em fevereiro a taxa deverá chegar a 10,75%. Em dezembro estará provavelmente acima de 11,25%.

Com inflação disparada, renda familiar corroída e juros muito altos, o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) dificilmente será superior àquele 0,5% já estimado. Com isso, as condições de trabalho continuarão muito ruins, mesmo com alguma redução do desemprego. O último levantamento, referente ao trimestre móvel encerrado em setembro, indicou 13,5 milhões de desocupados, 12,6% da população economicamente ativa. Nos 38 países da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), a média recuou de 5,8% em setembro para 5,7% em outubro. A organização é formada principalmente por países desenvolvidos e alguns emergentes, incluídos Turquia, Chile, Colômbia, Costa Rica e México.

A economia brasileira continuará em excessiva dependência do agronegócio, o segmento mais dinâmico e mais competitivo da produção nacional. A indústria já ia mal antes do período Bolsonaro, piorou a partir de 2019 e nada se fez, nestes quase três anos, pela recuperação do setor industrial.

Nem se pode, a rigor, falar de uma política econômica. Não há planos, nem metas, nem programas. A única reforma relevante, desde o começo do atual mandato, foi a da Previdência, um assunto já encaminhado pelo presidente Michel Temer. Na área econômica federal, só dois organismos demonstraram eficiência e alguma clareza de objetivos neste período – o Ministério da Agricultura e o Banco Central.

A maior parte da administração central tem padrão compatível com as qualidades do presidente. Os problemas climáticos de 2021 estavam previstos no começo do ano, mas nada ou quase nada se fez para um enfrentamento ordenado e eficiente da redução da água em reservatórios e da crise energética. Na área da saúde, os cuidados com a pandemia dependeram basicamente dos governos estaduais e municipais. As intervenções do presidente foram em geral marcadas pelo negacionismo, pela rivalidade com governadores e pelo empenho em manter a comunicação com os militantes do ódio.

A resistência, pelo menos inicial, à vacinação de crianças é compatível com o comportamento mantido até agora pelo presidente e por ministros da área. “A pressa é inimiga da perfeição”, disse o ministro Marcelo Queiroga, fiel continuador do general Eduardo Pazuello, num patético esforço de justificação. No seu caso, a imperfeição decorre muito mais da incapacidade administrativa, da subserviência a um chefe despreparado e do aparente esquecimento dos deveres de médico. Dois colegas de profissão, Luiz Henrique Mandetta e Nelson Teich, o antecederam no posto, na gestão Bolsonaro, e rejeitaram as ideias do presidente sobre como agir na pandemia. O ministro mais duradouro foi Pazuello, famoso como pregador da obediência. Será lembrado também pela inércia de seu ministério enquanto pacientes de covid morriam sem oxigênio em Manaus. Esse padrão permanece e permanecerá, tudo indica, definindo o desgoverno bolsonariano.

Brasil de dupla face

 


Uma pausa

Aproveita-se aqui a janela dupla Festas/Ano-Novo, quando tudo se atropela e ao mesmo tempo vai parando, para dar folga ao noticiário que tanto nos atormentou em 2021. Hoje nenhum fato ou figura política frequentará esta coluna, que nem sequer roteiro tem, coitada. Ela é uma mera pausa — cheia de interrogações sobre o que somos, o que é sempre saudável.

Se a biologia deu ao ser humano um cérebro, quem transforma o cérebro em mente é a vida — e a vida, aprendemos cedo, é danada de difícil de mapear. Do cérebro e de seus 86 milhões de neurônios, cada um conectado a outros milhares que se entrecruzam numa centena de trilhões de sinapses, já se sabem montes. A ciência, a medicina, a biotecnologia e a saúde universal agradecem a essa exploração instigante. Em contrapartida, há mais de 5 mil anos poetas e filósofos, doutores do divino e das ciências procuram destrinchar todos os mistérios da mente humana. Em vão. O que também não deixa de ser apaixonante.


O ensaísta americano Lewis Lapham debruçou-se sobre o tema em 2018, numa edição especial da revista de humanidades que dirige, a Lapham’s Quarterly. “A mente é nossa consciência”, resumiu ele , “e, embora ela seja um fato fundamental da existência humana, trata-se de uma experiência subjetiva, que escapa a medições científicas.” Tem sido mais fácil medir com precisão a intensidade da luz solar do que explicar o universo privado onde reina a mente humana. É ali que desabrocha ou se atrofia o caráter de uma pessoa. Ali, pensar é função, viver é o desafio.

Estes quase dois anos de pandemia planetária com distanciamento social nos deram a rara oportunidade de encarar com um mínimo de honestidade a autoimagem que cada um constrói para si. E, quem sabe, conseguir redefinir o que fomos até agora. Tarefa difícil, visto que a autoilusão é tão parte das ferramentas humanas quanto os dedos das mãos e dos pés. Uma pena, pois é pouco provável que tamanha oportunidade de mergulhar numa investigação introspectiva se repita em vidas já maduras.

Tudo indica que boa parte dos bípedes não sairá muito diferente do que quando entrou no retiro forçado pela Covid-19. São, sem sabê-lo, adeptos de um ditado célebre cunhado por Kurt Vonnegut, o falecido escritor americano que da vida entendia um bocado : “Somos o que pretendemos ser, por isso devemos ser muito cuidadosos na escolha de quem pretendemos ser”.

Houve os que não tiveram medo da autocognição, nem de dar chance a um viver diferente. Podem ser poucos, mas é com eles que vale a pena cultivar a ideia de um futuro possível. Foi o líder da independência da Índia, Mahatma Gandhi, quem observou que nossos pensamentos precedem nossas palavras, nossas palavras se transformam em atos, nossos atos formatam nosso caráter, e nosso caráter passa a ser nosso destino. Ou seja, nosso destino começa na mente. Quem, há quase dois anos, viu o desenrolar de várias epidemias simultâneas (o vírus, a incerteza, o medo) e nunca pensou em mudar o mundo desligou-se de forma terminal da tomada humana. Virou apêndice sem utilidade para qualquer sociedade.

Em “Alquimia da mente”, a poeta naturalista Diane Ackerman escreve uma ode ao fato de cada um de nós carregar no topo do corpo um universo completo de onde jorram trilhões de sensações, pensamentos e sonhos. “Cérebro e mente não são a mesma coisa. A mente habita o cérebro, algo como um fantasma dentro de uma máquina. A mente é a miragem reconfortante do órgão físico — uma experiência, não uma entidade, uma essência, não uma substância. A genialidade da mente humana é seu talento para a reflexão.” E para a imaginação, acrescente-se. A arte da mente está em transcender as múltiplas limitações do mundo e explorar o impossível.

Então fica o convite a quem quiser se juntar à aventura de encarar 2022 como última chance. Chance de quê? Do privilégio de poder pensar e sonhar, da obrigação de ouvir e falar, do imperativo de ser menos medíocre do que fomos neste ano.

Modus operandi


Todo fascista ataca a imprensa e os juízes porque eles nos protegem contra esse tipo de tirania
Ken Follett

Dinheiro do combate à Covid pagou comida boa e farta de militares

Filé mignon, picanha, bacalhau, camarão, salmão e bebidas alcóolicas não frequentam a boia servida a soldados e militares de baixa patente. É comida para generais e oficiais graduados.

Da rubrica do Orçamento “Enfrentamento da Emergência de Saúde Pública de Importância Internacional decorrente da Covid”, só deveria sair dinheiro para compra de itens essenciais.

E daí? Daí que não foi assim no Ministério da Defesa em 2020, informa levantamento sigiloso feito pela Secretaria de Controle Externo de Aquisições Logísticas do Tribunal de Contas da União.

Segundo a repórter Constança Rezende, da Folha de São Paulo, a Secretaria constatou que, dentre os órgãos superiores dos três Poderes, a Defesa foi o que mais gastou com itens não essenciais.

Resposta do Ministério da Defesa por meio de sua assessoria de imprensa: as atividades militares foram mantidas na pandemia e faz parte delas a alimentação das tropas. Resposta capenga.


Os auditores esperavam que, em consequência do regime telepresencial de trabalho, houvesse redução de gastos com alimentação como houve nos Ministérios da Educação e da Saúde.

Trechos do relatório dos auditores:

“Não parece razoável alocar os escassos recursos públicos na compra de itens não essenciais, especialmente durante a crise sanitária, econômica e social pela qual o país está passando, decorrente da pandemia”.

“Ressalte-se que, dos recursos destinados ao combate à pandemia Covid-19 utilizados indevidamente para aquisição de itens não essenciais (aproximadamente R$ 557 mil), 96% foram despendidos pelo Ministério da Defesa”.

“Além de não servir à finalidade a que se destina, a contratação desse tipo de insumo fere o princípio da moralidade previsto no art. 37 da Constituição Federal de 1988, o qual está diretamente relacionado à integridade nas compras públicas”.

Diz ainda o relatório que a aquisição de comida por órgãos públicos “deve ter por finalidade o fornecimento de alimentação saudável, balanceada e adequada para suprir as necessidades nutricionais básicas de seu público-alvo”.

Mais da metade da população brasileira — 116 milhões de pessoas — vive com algum grau de insegurança alimentar. Ao menos 19 milhões passam fome, situação agravada pela pandemia e pela crise econômica do país.

Brasil está sendo atacado

É Natal e deveríamos poder falar de temas mais leves. Mas alguém viu aí Lula ou Geraldo Alckmin falando sobre segurança digital? Talvez Sergio Moro? Ciro Gomes ou João Doria? O governo de Jair Bolsonaro, nós já sabemos, não tem ideia a respeito do assunto. E, no tempo do comércio eletrônico, na antevéspera de Natal, quem precisou rastrear uma encomenda pelo site dos Correios não pôde. Você precisa saber se tem de dar um pulo com urgência numa loja para comprar o que não chegará em tempo?

A informação não existe, houve mais um ataque hacker. O colapso digital do Ministério da Saúde está a caminho da terceira semana, e o desastre segue. Enquanto isso, o presidente cortou a verba de investimento em tecnologia da Receita Federal para dar um aumento às polícias. Que ideia excelente.

Se não está ainda claro, deveria: o Estado brasileiro está sob ataque de um grupo hacker.


O país tem um governo paranoicamente obcecado com segurança nacional. Sente-se ameaçado pela China, teme a invasão europeia da Amazônia, o general que dirige a agência de inteligência acredita que há um complô para o assassinato do presidente, e o intelectual que inspira a todos vê comunistas em todo lugar onde alguém ousa pensar.

O Estado, porém, é atacado concretamente em sua infraestrutura essencial, e o presidente estava de férias no Guarujá, dançando funk. Os outros três candidatos que compartilham com Bolsonaro o topo das pesquisas falaram em público nesta semana, em vídeos pela internet. O Brasil está sob ataque, nenhum deles entrou a sério no assunto.

Quando a empresa privada responsável por 20% do abastecimento de combustível nos EUA sofreu um ataque no início deste ano, uma equipe de especialistas do FBI amanheceu em seus escritórios. O presidente Joe Biden limpou sua agenda naquela manhã para se fechar no Salão Oval com o Conselho de Segurança Nacional.

Nos EUA, ao longo das primeiras 24 horas, as principais consultorias de segurança da informação já haviam divulgado relatórios públicos detalhados sobre os métodos de ação do grupo responsável. É informação preciosa para que outros possam evitar novas invasões.

Faz duas semanas que, em meio a uma pandemia, o Brasil perdeu a capacidade de ter dados precisos sobre mortes e internações. Sobre como anda a vacinação. Se a variante Ômicron começar a se espalhar rápido num dos estados menores, talvez demoremos alguns dias para saber.

E no dia 23 de dezembro o brasileiro perdeu a capacidade de acompanhar suas entregas de Natal. Os Correios formam, hoje, parte da infraestrutura sem a qual o comércio brasileiro não funciona. Todo o comércio brasileiro.

E que consultoria de segurança da informação publicou um relatório sobre o grupo hacker Lapsus$? Nenhuma. Fontes no interior do Ministério da Saúde informam que a invasão não ocorreu por técnica sofisticada. Não: os hackers tinham logins e senhas. Mas, uma vez dentro do sistema, sofisticados foram.

Sabiam exatamente o que atacar. Parecem ser brasileiros. Isso não quer dizer necessariamente que seja obra de gente infiltrada. Pode ter sido um ataque planejado ao longo de muito tempo. Esses não são hackers de Araraquara.

O governo que deveria estar completamente mobilizado para resolver o problema é o de Bolsonaro. O governo que não foi capaz de se defender é o atual. Mas não vamos nos enganar — se o analista de inteligência Edward Snowden não houvesse contado que a Petrobras havia sido hackeada, o governo de Dilma Rousseff nem saberia. Estamos, como país, profundamente atrasados. Nossos militares paranoicos ainda não entenderam como se faz guerra hoje em dia.