quarta-feira, 9 de agosto de 2023

Zema exumou velhos sentimentos preconceituosos e separatistas

O brasileiro é uma invenção dos mineiros. Seu mito fundador é a Inconfidência, em 1789, ou seja, vem de antes da Independência, que só viria a ocorrer em 1822, cujos protagonistas se dividiram em dois partidos: o dos brasileiros e o dos portugueses. O Partido dos Brasileiros já nasceu dividido entre democratas, liderado por Gonçalves Ledo, que defendia um regime parlamentarista, e aristocratas, tendo à frente José Bonifácio, que defendia um Executivo forte, com medo da fragmentação territorial.

O risco de fragmentação, como aconteceu em toda a América Latina, era real. Viria a se expressar com muita força, por exemplo, na Confederação do Equador, em 1824, tendo à frente Pernambuco. A república seria formada também pelas províncias de Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Sergipe e Alagoas, mas nenhuma delas aderiu ao movimento separatista. E, também, na Revolução Farroupilha (1835-1845), com a formação da República Rio-Grandense e da República Juliana. No primeiro caso, os líderes foram executados, entre os quais Frei Caneca, arcabuzado; no segundo, os que negociaram a paz foram anistiados e incorporados ao Exército, com suas patentes.

Com a dura repressão das revoltas, entre as quais a Balaiada (MA) e a Cabanagem (PA), manteve-se a integridade territorial do país e a centralização do poder do imperador Pedro II, para o qual foram fundamentais o Senado, com sua política de conciliação, e a magistratura togada, nomeada pelo Imperador. O Exército e a Marinha foram constituídos nesse processo. A construção da identidade do povo brasileiro, porém, foi muito mais lenta, para o qual teve papel decisivo a Revolução de 1930.

Nela, houve choque de concepções: de um lado, os setores da elite que adotaram as teses de Oliveira Vianna, para o qual as estruturas políticas republicanas eram artificiais e o Brasil meridional, liderado pela elite agrária e os militares, seria a matriz da formação do novo Estado brasileiro; de outro, setores castilhistas que tinham identidade com as massas trabalhadoras, liderados por Alberto Pasqualini. A elite paulista, com concepções liberais, tentou retomar o poder em 1932 e fracassou, mas cultivou com êxito a ideia de que São Paulo é a locomotiva do país. O Rio de Janeiro fazia o contraponto, era o “tambor do Brasil”.

Coube, mais uma vez, aos mineiros, com Juscelino Kubitschek, o projeto de integração e combate às desigualdades regionais, cujo âncora geopolítica foi a construção de Brasília, para onde foi transferido o Distrito Federal. Essa ideia-força viria a ser a bandeira legitimadora do regime militar, cujo lema era Segurança e Desenvolvimento, uma leitura autocrática do lema positiva da bandeira nacional: Ordem e Progresso.


Mas a ideia de que somos um só povo e uma só nação não foi monopolizada pelos militares, apesar do Pra frente, Brasil da Copa do México, em 1970. Na letra de Para Todos, Chico Buarque sintetiza as características do núcleo familiar que resulta do fluxo migratório, juntamente com a miscigenação, e sedimenta união dos brasileiros: “O meu pai era paulista/ Meu avô, pernambucano/ O meu bisavô, mineiro/ Meu tataravô, baiano”. O compositor foi um ferrenho oposicionista ao regime, tendo amargado o exílio por causa de suas canções.

Entretanto, não devemos acreditar que as nossas contradições regionais e preconceitos étnicos e sociais tenham deixado de existir. Em São Paulo, todo nordestino é baiano; no Rio, paraíba. Todo louro é galego ou gaúcho; no Araguaia, todo forasteiro era paulista. O governador de Minas, Romeu Zema, com seu sincericídio, exumou sentimentos negativos em relação ao Nordeste e despertou o ressentimento ideológico dos que venceram as eleições nos estados do Sul e do Sudeste, mas não reelegeram o ex-presidente Jair Bolsonaro, devido à grande votação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva no Nordeste. Não devemos subestimar as implicações que isso terá daqui para a frente.

Há uma articulação de governadores do Sul e do Sudeste contra os estados do Norte e Nordeste na reforma tributária, por causa da mudança da arrecadação dos tributos da origem para o destino das mercadorias. Essa articulação foi bem-sucedida na Câmara, mas está inferiorizada no Senado, no qual a federação está representada de forma igualitária: três senadores para cada estado. Celso Furtado, entre os intérpretes do Brasil, foi dos mais preocupados com o papel do federalismo. Advertia que essa bandeira estava condenada a reencarnar ciclicamente, em todos os momentos críticos, que colocassem em tela o contrato social e a reformulação do arranjo de poder. A reforma tributária é isso.

Sua grande preocupação era arquitetar um “federalismo regionalizado cooperativo” como instrumento para impedir a exclusão do Nordeste e evitar a implosão da nação pela radicalização de suas disparidades regionais. Com sinal trocado, o histórico unitarismo da esquerda brasileira, desde os antigos PCB e PTB, dificulta esse federalismo cooperativo.

Mas há uma questão ainda mais séria. Um dos ingredientes da globalização vem sendo o enfraquecimento da identidade nacional e a sua fragmentação. O sujeito e a identidade na modernidade tardia e pós-moderna foram fragmentados; nas redes sociais, isso é evidente. Historicamente, as identidades étnicas e regionais foram abrigadas sob o teto do Estado-nação, numa comunidade estável, com território próprio e idioma comum, mas isso está mudando no mundo. A nação é uma construção imaginária, que não pode ser subalternizada por sentimentos culturais e étnicos regionais. O que o governador Zema fez foi apartar os brasileiros do Sul e do Sudeste dessa comunidade imaginária. Seríamos dois Brasis, um moderno, produtivo e autossuficiente; outro atrasado e improdutivo, que precisa ser carregado nas costas. É aí que mora o perigo.

Sachs: pioneiro de ideias

Em cada pessoa, a maneira de pensar depende de encontros marcantes ao longo da vida com professores, parentes, amigos; no meu caso, tive a sorte de encontrar Ignacy Sachs. Na semana passada, o mundo perdeu esse importante pensador. Por quase 60 anos ele fez parte daqueles que iniciaram a reflexão sobre os limites do progresso identificado com aumento da produção industrial e elaboraram propostas para uma reorientação no rumo da civilização em direção ao desenvolvimento sustentável, que, ainda em 1970, ele definiu como ecodesenvolvimento.

Foi um dos primeiros desbravadores da ideia de entender e cuidar do progresso levando em conta os limites ecológicos e o valor da biodiversidade. Sendo, por isso, necessário livrar a civilização da ânsia de aumentar a produção industrial e da voracidade por consumir produtos. Além de pensador e estrategista, Sachs foi um economista pragmático que ofereceu propostas concretas sobre como fazer funcionar economias sustentáveis em diversas regiões do mundo, inclusive na Zona da Mata e na Amazônia brasileiras. As mudanças climáticas fizeram suas ideias inovadoras serem aceitas, meio século depois de formuladas.


Mas essas não foram as únicas contribuições de seu pensamento pioneiro. Enquanto as ideias sociais e políticas eram polarizadas pela Cortina de Ferro, Sachs percebia e denunciava o capitalismo ocidental e o socialismo soviético como filhos da revolução industrial: produtos da arrogância antropocêntrica, irmãos siameses na construção da catástrofe ecológica. Enquanto a imensa maioria dos pensadores embarcava no delírio do poder ilimitado do avanço técnico, ele alertava para os riscos do descontrole da técnica sem valores éticos. Antes de quase todos, ele viu o planeta e a humanidade como mais importantes do que os países isoladamente. Sachs nos fez perceber que houve um tempo em que o mundo era a soma de países, mas no presente, cada país é um pedaço do mundo.

O nome Ignacy Sachs continuará vivo, como precursor, seja sinalizando os riscos que levarão à catástrofe civilizatória, seja como desbravador das ideias que permitirão a sobrevivência da humanidade. Essa mente brilhante e pioneira foi formada graças à vida cosmopolita de quase um século entre 1927 e 2023. Judeu, nascido na Polônia, pouco antes da ascensão do nazismo, veio refugiado para o Brasil com a família no início dos anos 40, onde fez o curso secundário e se formou em economia. Depois, optou por retornar ao seu país socialista, onde trabalhou com alguns dos mais importantes economistas marxistas.

Sachs fez doutorado na Universidade de Nova Délhi, na Índia dos anos 1950, primeiros anos de independência, onde teve acesso a grandes mestres e a um momento histórico do pensamento e da prática do desenvolvimentismo, em uma economia mista, capitalista, com forte participação do Estado. Retornando à Polônia, trabalhou como professor e planejador na construção da economia socialista sob orientação marxista. Até que, em 1968, nova perseguição antissemita promovida então pelo partido comunista, obrigou-o a asilar-se na França. Em Paris, como professor, tratou os brasileiros que chegavam no exílio como compatriotas, e em muitos deles deixou a marca de seu pensamento pioneiro, heterodoxo, cosmopolita, despertando em todos a visão crítica ao desenvolvimento depredador e inspirando o compromisso com o desenvolvimento sustentável.

Devemos a ele não apenas a orientação em nossos doutorados, mas sobretudo a mente livre de preconceitos ideológicos ou teóricos e comprometida com valores humanistas, na defesa do equilíbrio ecológico e da justiça social com democracia. Direta ou indiretamente, ele esteve por trás da filosofia que levou ao Proálcool, que criou o CDS da UnB, que promove o microcrédito, que busca combinar grandes e pequenas empresas, encontrar soluções simples para problemas complexos, adaptar modernas tecnologias importadas à realidade dos países pobres, construir economias mistas, onde a eficiência do setor privado combine com o planejamento e com o atendimento social graças ao Estado. Até mesmo a cooperação entre Índia, Brasil e África do Sul, que levou ao BRICS, tem a ver com uma estratégia proposta por ele há mais de 50 anos.

Sachs alertou para o mal que o crescimento econômico provocou sobre a Terra e inspirou como reorientar o progresso. Morreu dormindo, mas suas últimas palavras poderiam ter sido “valeu a pena para mim” e “ainda é tempo para a humanidade”. Por tudo isso, o 2 de agosto de 2023 foi um dia em que a Terra chorou, com esperança.

Hatuey

Nestas ilhas, nestes humilhadeiros, são muitos os que escolhem sua morte, enforcando-se ou bebendo veneno junto aos seus filhos. Os invasores não podem evitar essa vingança, mas sabem explicá-la: os índios, tão selvagens que pensam que tudo é comum, dirá Oviedo, são gente de natural ociosa e viciosa, e de pouco trabalho... Muitos deles por ser passatempo, se mataram com peçonha para não trabalhar, e outros se enforcaram com suas próprias mãos.

Hatuey, chefe índio da região da Guahaba, não se suicidou. Em canoa fugiu do Haiti, junto aos seus, e se refugiou nas covas e montes do oriente de Cuba.

Ali apontou uma cesta cheia de ouro e disse:

– Este é o deus dos cristãos. Por causa dele nos perseguem. Por ele morreram nossos pais e nossos irmãos. Bailemos para ele. Se nossa dança o agradar, este deus mandará que não nos maltratem.

É agarrado três meses depois.

E amarrado em um pau.

Antes de acender o fogo que o reduzirá a carvão e cinza, um sacerdote promete-lhe glória e eterno descanso se aceitar batizar-se. Hatuey pergunta:

– Nesse céu estão os cristãos?

– Sim.

Hatuey escolhe o inferno e a lenha começa a crepitar.

Eduardo Galeano, "Os Nascimentos"

O que sumiu e o que voltou

Começou há algumas semanas, quando me gabei de ter sido um grande chutador de tampinhas, daquelas de refrigerante, soltas nas calçadas. Dias depois, um leitor perguntou se eu era capaz de dar o piparote com o sapato na borda da tampinha, fazê-la subir e matá-la no peito do pé. Humilhado, tive de confessar que não. E, agora, outro leitor, para meu opróbrio supremo, escreve para dizer que no peito do pé era fácil - ele queria ver era se o sujeito fazia, como ele, a tampinha pousar no lado do pé. Tudo isto porque observei que, por falta das próprias, ninguém mais chuta tampinhas pelas ruas.

Muita coisa deixou de existir por falta de matéria-prima. Por exemplo, ninguém mais escorrega em cascas de banana. Continua a chover, mas não se usam mais galochas. Ninguém mais cheira rapé ou sopra chicletes de bola. Ninguém mais usa boina, só boné, e, mesmo assim, ao contrário. Artigos de primeira necessidade como o pote de goma arábica, o mata-borrão e a espátula para abrir cartas deixaram de existir. Ninguém mais lambe selos para pregar no envelope. Eu próprio há anos não lambo um selo e não escrevo ou recebo uma carta.

Velhos hábitos desapareceram. Desaprendemos, por exemplo, a aplaudir sentados. Qualquer showzeco nota 3, se aplaudido, é hoje aplaudido de pé. Em breve, teremos de plantar bananeiras para premiar uma performance verdadeiramente genial. E perdeu-se de vez a arte de bater carteiras. Os atuais meliantes não se valem mais de dedos leves e hábeis para subtraí-las de nossos bolsos. Vão direto de trabuco no nariz, até porque, com o celular e o pix, já quase não se usam carteiras. .

Em compensação, coisas há muito dadas como extintas estão voltando espetacularmente. Uma delas é o bigodinho, fora de moda há uns 70 anos. Os garotos voltaram a jogar bafo com as figurinhas. E até o estrogonofe voltou.

Mas preocupante mesmo é a volta do nazismo.

Ruy Castro

domingo, 6 de agosto de 2023

A polícia letal de estados opostos na política

Mês de Julho se foi, na Bahia e em São Paulo, como o diabo gosta (para citar a canção de Belchior e versos de cordéis, vendidos nas feiras do Nordeste, com narrativas do tempo das “volantes” das polícias estaduais da região, no combate ao cangaço comandado por Virgulino Ferreira, o Lampião), em termos de letalidade na atuação das PMs. 36 pessoas morreram – 20 no estado nordestino e 16 (ao menos, até quinta-feira, (3) na principal unidade da federação, no sudeste do País – em operações que resultaram em “confrontos com o crime organizado e o tráfico de drogas”, segundo comunicados das corporações, nos temerários últimos dias da passagem de julho para agosto. Fatos de imagens pesadas de grossa selvageria e denúncias de torturas, feitas por promotorias públicas, ONGs locais e estrangeiras, e até do setor de defesa dos direitos humanos na ONU, e de expressivas personalidades democráticas, sobre o estado de coisas que mexe com os nervos, nacionalmente, e levanta protestos no exterior.

Já são conhecidos dados que vão além da curva da razoabilidade: mesmo quando comparados com países em guerra declarada, ou republiquetas de bananas. Desperta especial preocupação, em núcleos democráticos e humanitários do pensamento e ação, o fato desta letalidade brutal explodir em dois ressonantes estados do País, ao mesmo tempo. Unidades federativas de governos opostos – política e ideologicamente – cujas forças de segurança parecem tecer macabra e desgovernada disputa, de qual é mais letal em suas ações. Governos que divergem nos discursos, igualmente confusos na forma e mambembes, no conteúdo intelectual e nos projetos de gestão. Até aqui, as atuações policiais são semelhantemente desastrosas – tal qual as falas de seus chefes, de governo e de polícia –, e praticamente os mesmos pífios resultados.

Na Bahia, do governo de Jerônimo Rodrigues (PT), segue o curso da letalidade policial de cada dia – herdada da gestão Rui Costa (atual ministro chefe da Casa Civil do governo Lula) durante seus dois mandatos seguidos, entre 2015 e 2022:, marcado pelo tristemente famoso “massacre do Cabula” (de repercussão até na ONU), quando 12 jovens de idades entre 18 e 23 anos foram encurralados e mortos em ação da tropa de elite da PM. A partir daí, o estado viu as mortes nos “confrontos” com as forças de segurança subirem 313% e baterem recorde, ano passado, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2022. Quando pela primeira vez, a polícia baiana aparece como a mais letal do País, tomando o lugar antes ocupado pelo Rio de Janeiro.

Em São Paulo, do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) – nome de proa da chamada nova direita brasileira, ligada ao ex- ocupante de triste memória do Palácio do Planalto, Jair Bolsonaro, defensor da teoria de que bandido bom é bandido morto o tiroteio de uma operação d grupo especial da ROTA tem saldo –até 3/8, de 16 mortos, em Guarujá, antigo balneário da elite paulista. No caso atual, a “Operação Escudo”, que tem características mais nítidas de vingança que de combate inteligente e efetivo ao crime – como destacado por juristas e analistas especializados na imprensa br asileira e estrangeira – o atirador confesso, contra o soldado Patrick, se entregou à Polícia Civil, e está preso. Tarcisio de Freitas já anunciou que a operação vai continuar no Guarujá até o fim de agosto. O resto a ver.

Corações de ferro.

Heitor sempre foi Totô. Apelido de infância que passou da casa à rua e dela à escola. Durou até virar o soldado Heitor. O semblante que harmonizava com a farda tornava esquisito para os amigos continuar chamando Heitor de Totô. Metido numas bermudas, quem sabe? Mas os amigos há muito não o viam mais de bermudas. Totô mudou. Sumiu sem mudar-se de rua. Transformou-se em Heitor, soldado Heitor.

Sempre foi aventureiro. Criança de subir e cair das árvores mais altas, de se arrebentar nas manobras mais ousadas de bicicleta e também de se levantar logo em seguida para tentar novamente a façanha e, novamente, estatelar-se. Corajoso, carinhoso e aventureiro, não foi surpresa para ninguém quando decidiu tornar-se policial. Mas surpreendeu até a seus pais quando, tornado policial, transformou-se. “Totô tem um coração de ouro!”, repetia com insistência sua mãe, Dona Helena. Agora, diz que é um bom rapaz.

Na formação, conheceu o sargento Aquiles. Especialista na arte de endurecer corações. “Na rua, se você vacila, morre”, dizia o tempo todo para justificar a brutalidade das lições. Num treino, Heitor cochilou. Acordou com um tapa e dois chutes do sargento Aquiles. “Animal que dorme é abatido, entendeu seu merda!”. “Sim senhor!”, disse maquinalmente enquanto se recompunha.


Os amigos de lá ele chama de companheiros. Irmãos de farda. De uma amizade que não é como a dos amigos da rua, surgida de brincadeiras e jogos, mas parida entre os tapas e suplícios do sargento Aquiles. Amizade forjada, como se tratasse de metalurgia e não de afetos. Forjada em corações de ferro, endurecidos para sobreviverem à dureza das ruas. Tornados indiferentes à brutalidade para serem brutais para com vagabundos.

Um destes companheiros era o soldado Páris. Um irmão, ele dizia. Dele e dos demais. Sujeito curioso cujo coração de ouro não se transformou em coração de ferro na forja do sargento Aquiles. Talvez tenha sido justamente seu coração de ouro mole que o fez vacilar e ser atingido fatalmente por um tiro. Morreu a caminho do hospital, entre os gritos de raiva e desespero de seus companheiros cujos corações de ferro foram endurecidos para tudo, exceto para a morte de um dos seus.

A notícia da morte de Páris espalhou-se rápido pelo WhatsApp da tropa. Mensagens cheias de tristeza e raiva inflamadas. Narrativas e especulações que terminavam sempre com a mesma conclusão. “Esse vagabundo tem que ir pra vala!”.

Os oficiais não perderam tempo em montar a operação. Heitor foi com seu coração de ferro vermelho. Quente como ferro de marcar a pele de escravos. Arremessou o cobre de seu fuzil com a concentração e indiferença de quem só vê o alvo preto pela frente. Sabe que matou, pelo menos, um. Que viu bem enquanto atirava. Em outros, não atirou sozinho. Ele e seus companheiros deixaram para trás 16 mortos e outros tantos com seus corações de ferro incandescentes de ódio, a espalhar mensagens de ódio aos policiais. Alimento de uma guerra sem fim.

Heitor sentiu-se estranho ao fim do dia. Aliviado e feliz pela missão cumprida e injustiçado por chamarem seu trabalho de chacina. Fez apenas o que seu coração fora forjado para fazer. O que os mesmos que em público vaiam, aos sussurros aplaudem. Mas isto o incomoda pouco. Acostumou-se com a hipocrisia e sabe que o espetáculo da notícia não durará mais que dois dias.

Mais do que isso, durará em seu peito um sentimento desgostoso. Ranger esquisito no seu coração de ferro. Endurecido para a morte, mas ainda regado pelo sangue que correu um dia pelo coração de ouro de Totô.

São Paulo usa receita para manter o racismo de vento em popa

No Brasil, o livro didático é o principal, quando não o único livro ao qual a maior parte das crianças tem acesso. Essa é uma realidade amplamente conhecida e estudada. De tal modo que o Programa Nacional do Livro Didático (PNLD), promovido pelo Ministério da Educação (MEC), é uma política pública de alcance material e simbólico absurdamente significativo. Nos rincões e regiões periféricas do Brasil, onde água encanada ainda é artigo de luxo, o livro é um objeto tão valioso que pode não ter sentido algum.

O PNLD funciona tendo as secretarias estaduais de educação como pontes, por meio das quais professores e educadores de escolas públicas adotam livros do catálogo do programa. Pois bem, nesta semana o governo do estado de São Paulo decidiu recusar os livros oferecidos pelo MEC.

O argumento oferecido pelo secretário da educação é que o estado de São Paulo deseja abolir o uso de material impresso, substituindo-o pelo conteúdo digital. Em que pese o fato de São Paulo ser o estado mais rico da nação, as experiências mais recentes de ensino remoto durante a pandemia atestaram que as escolas públicas do estado não têm condições materiais para um ensino embasado em plataformas digitais.

Faltam computadores e redes cabeadas nas escolas. Falta formação para os professores que precisam se "adaptar" às ferramentas digitais. Além disso, a imensa maioria dos estudantes não teria meios de acessar esses conteúdos fora do espaço escolar, porque não tem notebooks, chromebooks ou até mesmo rede Wi-Fi para acessar esses conteúdos.


Desse modo, a pretensa ousadia digital da secretaria do estado de São Paulo em "modernizar" a educação das escolas, abrindo mão dos livros didáticos antes mesmo de ter meios para garantir o acesso às plataformas digitais para os estudantes e professores da rede, nada mais é do que a "boa" e velha política de precarização do ensino público. Uma política que há décadas vem transformando a educação pública num grande esquema de reprodução acrítica de conteúdos e informações, além de uma máquina de moer professores e educadores.

E como não acredito em coincidências, não posso deixar de fazer a leitura conjunta dessa medida com as recentes ações da Polícia Militar de São Paulo na cidade do Guarujá. Uma das ações mais letais da história da corporação e que foi comemorada pelo governador do estado.

O que me deixa impressionada é que não há novidade alguma nessa conjunção.

O sucateamento da educação e a ação violenta dos órgãos de repressão funcionam, há décadas, como uma espécie de fórmula eficaz da manutenção e perpetuação do racismo à brasileira. São as faces da mesma moeda.

De um lado, dificultam ao máximo que a juventude pobre e negra (na sua maioria) tenha acesso a uma educação básica de qualidade. E educação de qualidade invariavelmente é sinônimo de uma educação transformadora. Por outro, as ações violentas do braço armado do Estado seguem violando os direitos civis da mesma população pobre e negra – que, por conta da estrutura racista que nos ordena, não teve e nem terá chances de "subir na vida" –, deixando bem claro quais são as regras do jogo.

Essa é uma receita que só faz o racismo crescer.

Até quando?

Mauro Cid, retrato dos militares bolsonaristas que se corromperam

O que mais faltava para emporcalhar de vez a reputação do tenente-coronel Mauro Cesar Barbosa Cid, filho de general e ex-ajudante de ordem do pior presidente da história do Brasil?

Designado por Bolsonaro, o pai de Mauro Cid chefiou nos últimos quatro anos o escritório, em Miami, da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (APEX)

O general e Bolsonaro, afastado pelo Exército nos anos 1980 por planejar atentados terroristas a quartéis, são amigos dos tempos da Academia Militar das Agulhas Negras.

Mauro Cid está detido desde o dia 3 de maio no Batalhão do Exército de Brasília, unidade comandada por um amigo dele, o tenente-coronel Bruno Fett. É acusado de cometer vários crimes.

A Polícia Federal o investiga por realizar saques de recursos com cartões corporativos da Presidência. Mauro Cid também pagou despesas de Michelle com cartão de crédito de uma amiga dela.


Foi ele que tentou resgatar um estojo de joias sauditas retido pela Receita Federal ao entrar no país escondido na mala de um auxiliar do almirante Bento Albuquerque, ex-ministro das Minas e Energia.

Mauro Cid fez parte do grupo que falsificou os cartões de vacinação contra a Covid-19 de Bolsonaro e de Laura, sua filha, para que eles pudessem circular livremente nos Estados Unidos.

Além de ter participado das tratativas de golpe para impedir a posse de Lula na presidência. No celular de Mauro Cid foi encontrada uma minuta do golpe, e mensagens a respeito.

A mais nova anotação na folha corrida de Mauro Cid foi a descoberta de que ele quis vender por 60 mil dólares (cerca de 300 mil reais) um Rolex que o rei da Arábia Saudita deu a Bolsonaro.

Mauro Cid trocou mensagens em inglês com Maria Farani, que assessorou o Gabinete Adjunto de Informações do gabinete pessoal de Bolsonaro até janeiro de 2023:

Maria Farani: Olá Mauro, obrigada pelo interesse em vender o seu Rolex. Tentei falar com você por telefone, mas não consegui. Pode por favor me falar se você tem o certificado de garantia original do relógio?

Maria Farani: Quanto você espera receber por essa peça? O mercado para Rolex usados está em baixa, especialmente para relógios cravejados de platina e diamante (já que o valor é tão alto).

Mauro Cid: Nós não temos o certificado do relógio, já que foi um presente recebido em viagem oficial de negócios. O que temos é o selo verde de certificado superlativo, que acompanha o relógio. Além disso, posso certificar que o relógio nunca foi usado.

Explicação dada por Maria Farani depois do estouro do caso:

“A pedido de Mauro Cid, por falar inglês, realizei uma pesquisa na internet para identificar possíveis compradores de relógio. Apenas enviei os e-mails e, ao receber respostas, retransmiti ao endereço eletrônico de Mauro Cid. Não tive conhecimento do desfecho de uma eventual negociação.”

Explicação dada pela defesa de Mauro Cid: ela preferiu não dar nenhuma, por enquanto.

quinta-feira, 3 de agosto de 2023

Pensamento do Dia

 


Glotocídio é pouco!

As ministras do Supremo Tribunal Federal, Rosa Weber e Carmen Lúcia estiveram a semana que passou no interior do estado do Amazonas, precisamente, em São Gabriel da Cachoeira, para lançar o texto da Constituição Federal, de 1988, em nhengatu, língua indígena por meio da qual presume-se poder contatar a maioria dos povos que vivem às margens dos rios amazônicos.

Só no município de São Gabriel, que separa o Brasil da Colômbia e da Venezuela, falam-se 25 línguas das famílias aruak, tukano e maku. Em se tratando da língua portuguesa, a população é, no mínimo, analfabeta funcional. O nhengatu é uma das quatro línguas indígenas oficializadas no município junto com o português, o maku e o tucano , usadas tanto do lado do Brasil quanto dos países vizinhos. A remanescencia dessas línguas deve-se, sobretudo, às várias associações e entidades civis, religiosas e indígenas sediadas ali, e que se propõem a organizar aquela multiculturalidade .

Juntas, formam o que é conhecido na região como a Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (FOIRN), que funciona independente, associativamente, nos moldes do branco, quase como uma assembleia, na qual cada nação indígena se faz representada, sem comprometer suas atividades e organização cultural.
Por isso, embora a Constituição em nhengatu possa ter sido festejada pelas autoridades políticas locais, aventa-se na comunidade que ela terá, entretanto, poucos leitores por ali. O índice de alfabetização é baixo, e aquelas nações indígenas já tem uma estrutura comunitária ou tribal. Teme-se, inclusive, que a Lei do branco, na sua volubilidade, vá causar confusão entre os povos da região. Se não gerar um dilema político, pode vir a ser recebida como mais uma agressão à cultura e à organização das nações indígenas regionais.

Tem-se dúvida quanto ao simbolismo implícito: a presença das ministras do Supremo Tribunal e a distribuição de cópias do texto da Lei Maior do branco para aqueles povos enraizados na região. Poderia ser interpretada por ali como uma bandeira de vencedor, tomando posse do território do outro. De outro ângulo, inspirado em doutrinas de segurança nacional, poderiam ser vistas como um desafio às diferentes frentes potenciais invasoras que, vez por outra, anunciam a autonomia regional?

A "Cabeça de Cachorro", como é identificada a região, é uma das áreas mais isoladas do Brasil. É cheia de histórias e controversas. É rica em gás natural, as guerrilhas colombianas estariam sempre tentando circular por ali, religiosos de diferentes denominações e geólogos estrangeiros circulam por ali. Já chegou-se a cogitar da ideia de um território autônomo e exclusivo. Aliás, até Che Guevara imaginou começar uma insurreição no continente por ali.

"Estamos só de passagem", dizem os invasores , quando interceptados no alto rio Negro atravessando a fronteira para o Brasil, vindo da Colômbia ou da Venezuela. A ordem dos militares é para a interceptação : "Aqui é o fim linha". A unidade militar do Comando de Fronteira , até há pouco tempo, era a única presença efetiva do Governo Federal na região: Funasa, Receita, Ibama, Polícia Federal, Ministério do Trabalho, estão instalados por lá, às vezes, em uma única sala, a maioria do tempo fechadas.


As titulares da Justiça no Brasil levaram para os índios uma tradução da Constituição em nhengatu, uma língua, falada sobretudo, tão vacilante quando a Constituição do Brasil. É como se insinuasse que os ensinamentos e regras sociais contidos na lei do branco fossem superiores às praticadas na região, apreendidas nas culturas incubadas nas matas e serras que cobrem aquelas fronteiras.

Por meio dessa ação - não sei se intempestiva, ou não - tenta-se dar um passo a mais na aculturação e na integração, à Nação Brasileira, daquelas populações indígenas quase isoladas. A gestão do município obedece à um modelo próprio. Os prefeitos de São Gabriel , Santa Izabel, Barcelos e povoados menores por ali são, quase sempre, indígenas.

Como uma das línguas oficiais em São Gabriel e Santa Izabel, o nhengatu não é uma língua exclusiva de uma Nação Indígena. É constituído de palavras de diferentes falas que se amalgamaram num idioma. Trata-se de uma língua geral, surgida ainda nos tempos do Império, a partir dos padres, e retomada por iniciativa do general Couto Magalhães, também etnólogo e historiador, que procurava encontrar um meio termo entre mais de 150 falas indígenas ao longo do rio Amazonas e seus afluentes.

Descobriu ele ainda que o tupinambá - uma variável do tupi - falado pelos índios entre Belém e o Maranhão, podia ser compreendido pelos índios do médio Amazonas e do no Alto Rio Negro.

Etnólogos brasileiros acreditam que com o nhengatu poderiam ser preservadas, parcialmente, as memórias de dezenas de línguas e culturas regionais. Há centenas de histórias já narradas em Nheengatu, língua que vem preservando a memória coletiva ancestral, incluindo mitos, preceitos e normas gerados, segundo os índios, por uma entidade sobrenatural conhecida por Jurupari , vista por religiosos brancos como o diabo.

No fundo, o Estado Brasileiro, insiste na bandeira de “uma só língua , um só país”. Na medida em que a colonização avança, as línguas e culturas nativas vão sendo enterradas, cometendo-se, no mínimo, um "glotocídio", justificado ainda hoje com a crença de que a diversidade atenta contra a unidade nacional. Só em 1988 a Constituição assumiu que não se trata de “tolerar” o plurilinguismo, mas de fomentá-lo, pois longe de ser algo negativo, arquiva a riqueza do patrimônio cultural do Brasil.

O lançamento da Lei Maior do Brasil em nhengatu contou com o aval explícito de uma comitiva integrada por três ministras, a presidente da Funai, o diretor da Biblioteca Nacional e de professores da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Não faltaram explicações de consistência duvidosa, até da Presidente do STF, ministra Rosa Weber, para quem , trata-se de “um passo em direção ao fortalecimento e à preservação de todas as demais línguas indígenas” - disse, em um discurso formal no evento.

As redes sociais são para Bolsonaro o que o cinema foi para Hitler

A reportagem de Juliana Dal Piva e da Agência Pública ("Eduardo Bolsonaro foi em missão oficial ver argentino que mentiu sobre urna"), publicada nesta segunda no portal UOL, veio em boa hora; boa hora para lembrar que o Brasil sofreu uma tentativa de golpe contra seu sistema eleitoral.

O lado bolsonarista partia de uma certeza: se perdessem, é porque as eleições foram roubadas. Faltava apenas encontrar uma história convincente. Descredibilizar as urnas era parte do plano. Era preciso ter alguma narrativa que justificasse o desrespeito ao resultado das eleições, e uma parte relevante da população que apoiasse essa narrativa. Qual mentira ia colar era o de menos; o importante era que alguma colasse.


Esse trabalho começou antes das eleições, com os relatos do próprio Bolsonaro de que um hacker adulterara os resultados do primeiro turno em 2018. Passou pela acusação de sua equipe de comunicação de que rádios interioranas não veiculavam as inserções de campanha.

Uma vez perdida a eleição de 2022, começaram as teorias de fraude nas urnas. Houve um modelo matemático que "provava" que os números de votos eram falsos, e houve também o ilustre "relatório do argentino", com o (suposto) especialista Fernando Cerimedo.

Era tudo invenção, claro, mais uma vez refutado pela Justiça Eleitoral e pela imprensa em questão de dias, o que não impediu de as mesmas teses serem requentadas pelo PL no malfadado processo que resultou numa multa de R$ 22 milhões ao partido.

Cerimedo, o argentino, não era especialista nenhum, e sim um comunicador político alinhado à direita populista e amigo de Eduardo Bolsonaro, que fez viagem oficial para conversar com ele, conforme revelado na reportagem.

Em paralelo a isso, corria a tentativa de persuadir generais a dar o golpe, apelando a uma leitura fajuta do artigo 142 da Constituição, conforme o coronel Jean Lawand pediu com tanta ênfase ao ajudante de ordens de Bolsonaro, Mauro Cid.

Por não confiar no Alto Comando do Exército —ao menos essa foi a justificativa de Cid— Bolsonaro não deu a ordem para o golpe. O passo de desespero final, nas palavras de Lawand, era o povo entrar em campo: "Então ferrou. Vai ter que ser pelo povo mesmo". E "o povo" bem que tentou, no dia 8 de janeiro, provocar uma reação das Forças Armadas que, felizmente, não veio.

Mas aquele povo ali, milhares de pessoas completamente fanatizadas pelo discurso bolsonarista, não brotou do nada. Foi o resultado de um longo trabalho de redes sociais.

O uso de desinformação digital foi a tônica do bolsonarismo desde a campanha de 2018, que inundou o debate eleitoral de mentiras e fake news numa escala jamais vista. Uma vez no governo, as táticas se intensificaram. Milícias digitais que produziam e difundiam conteúdo calunioso contra opositores. "Troll farms", empresas que controlam milhares de perfis em redes sociais para manipular o debate público, criando uma impressão de onipresença da opinião artificialmente impulsionada. O receituário foi o mesmo no mundo todo. Mesmo tendo derrotado o golpe, pagamos o preço ainda com um eleitorado fanatizado e descrença generalizada em toda e qualquer instituição.

O cinema, nas mãos da máquina de propaganda de Hitler, teve um poder que ele hoje jamais poderia ter. Aquela linguagem já se tornou parte de nosso repertório. Haverá alguma regra geral de que os mais inescrupulosos são mais rápidos em dominar novas tecnologias? Estamos ainda aprendendo a digerir essa nova realidade. E mapear as condutas mais danosas para neutralizá-las é parte desse aprendizado

Ai dos pequeninos que possam fazer mal a Bolsonaro

Bolsonaro quer distância de todos os que sempre o apoiaram, mas que agora, por culpa dele ou não, estão em apuros. Não distingue entre pobres e ricos, pretos e brancos, homens e mulheres, civis e militares. Pouco lhe importa o que ouviu quando usava farda: não se abandona mortos e feridos no meio de uma batalha.

Para salvar sua pele, Bolsonaro abandona qualquer um e todos os que lhe pedem ajuda. Jesus disse uma vez: “Ai daquele que fizer mal a um de meus pequeninos”. Bolsonaro entendeu: “Ai dos pequeninos que um dia possam me fazer mal”. Sabe que é por meio dos pequeninos que a Justiça quer ferrar com ele.

A deputada federal Carla Zambelli (PL-SP) foi alvo de uma operação de busca e apreensão no seu apartamento e no seu gabinete de trabalho. Aparentemente, a Polícia Federal não encontrou o que procurava, e desconfia de que Zambelli foi avisada antes. O hacker Walter Delgatti foi preso e está disposto a delatar.

Delgatti recebeu dinheiro de Zambelli para tentar acessar as urnas eletrônicas e as contas telefônicas do ministro Alexandre de Moraes. As urnas revelaram-se impenetráveis. As contas, nem tanto, mas nada ali de comprometedor foi encontrado pelo hacker. Zambelli levou-o ao encontro de Bolsonaro. Para quê?


Julho de 2022: Bolsonaro reúne mais de 40 embaixadores estrangeiros no Palácio do Planalto e ataca o processo eleitoral brasileiro. Acabaria inelegível por causa disso, mas não só.

Agosto: Zambelli e Delgatti são recebidos por Bolsonaro no Palácio do Alvorada. Bolsonaro pergunta ao hacker se, com o código-fonte, seria possível invadir uma urna eletrônica.

Setembro: na véspera do dia 7, milhares de bolsonaristas invadem a Esplanada dos Ministérios em Brasília e ameaçam atacar o prédio do Supremo Tribunal Federal.

Outubro: Bolsonaro perde a eleição, mas se recusa a reconhecer a vitória de Lula. Para de trabalhar. Entra em depressão. Assiste calado ao início da rebelião dos bolsonaristas.

Novembro: começam a ser montados os primeiros acampamentos à porta de quartéis do Exército. Bolsonaro dá ordem para que seus pequeninos sejam bem acolhidos, e são.

Dezembro: o deputado federal Daniel Silveira (PTB-RJ) e o senador Marcos do Val (Podemos-ES) reúnem-se com Bolsonaro. Em pauta: como grampear o ministro Alexandre de Moraes.

No dia 12, bolsonaristas depredam a sede da Polícia Federal. Na véspera de Natal, a Polícia Civil desativa uma bomba que, se detonada, destruiria parte do aeroporto de Brasília.

Janeiro de 2023: refugiado nos Estados Unidos, Bolsonaro assiste pela televisão ao golpe do 8 de Janeiro, que, se bem-sucedido, o traria de volta ao poder e mandaria Moraes para a cadeia.

No dia 14, Anderson Torres, ex-ministro da Justiça, foi preso. Na sua casa, a Polícia Federal apreende uma minuta de golpe.

Março: Bolsonaro volta ao Brasil depois de um exílio autoimposto de 90 dias. Dali a dois meses, seu ajudante de ordem, o tenente-coronel Mauro Cid, seria preso com outra minuta de golpe.

Numa caixa de lenços de papel é assim: você puxa um e o seguinte aparece. Na história do golpe abortado, também é assim: cada lance prepara o próximo.

Na investigação de um crime, a pergunta inicial é: a quem ele poderia beneficiar? Aplicado ao golpe frustrado: quem poderia se beneficiar dele? Lula, certamente que não. Quem?

Ora, ora, você sabe.

quarta-feira, 2 de agosto de 2023

Pensamento do Dia

 


O brasileiro sabe que nosso racismo é uma vergonha

Na semana passada a Folha de São Paulo publicou uma pesquisa sobre o racismo no Brasil, realizada pelo Instituto Peregum e pelo Projeto Seta, em parceria com o Ipec. O resumo: o país é racista para 81% dos brasileiros, mas apenas 11% afirmaram ter discriminado. Admite-se o preconceito racial coletivo, mas jamais o próprio. Racista é sempre o outro.

Mais alguns resultados: 66% já presenciaram violência verbal, 42% tratamento desigual (42%), 39% violência física; 17% dos entrevistados disseram ter sido alvo de situações desse tipo. 65% acreditam ser justo o racismo ser crime.

O que não surpreende é comparar esses dados com uma pesquisa do Datafolha de junho de 1995. 89% dos brasileiros afirmaram existir preconceito de cor contra negros no Brasil, mas só 10% admitiram ter pouco ou muito preconceito. O grande achado deste trabalho foi oferecer aos entrevistados algumas frases e perguntas. De forma indireta, 87% revelaram algum preconceito.


Hoje elas são defenestradas pelo espaço público, mas ainda residem em nosso imaginário e práticas. Alguns exemplos: “as únicas coisas que os negros sabem fazer bem são música e esportes”; “se um filho ou uma filha sua se casasse com uma pessoa negra, você não se importaria; ficaria contrariado, mas procuraria aceitar; ou não aceitaria o casamento?”, “na sua opinião, existem diferenças de inteligência entre brancos e negros?”

Evidentemente, muito mudou nesses últimos vinte e oito anos, graças aos esforços dos movimentos sociais, que derrubaram muitas portas trancadas e ocuparam espaços proibidos. Ainda que o resultado da pesquisa seja desanimador, o racismo é amplamente discutido na sociedade. O termo “racismo estrutural” é quase pop. Se a discussão cresceu, as desigualdades, porém, não se movem. Os espaços ocupados são escassos.

Outra grande diferença é o crescimento dos estudos sobre a branquitude, sua normatização e as estratégias para a manutenção de seus privilégios. Eco de precursoras como Cida Bento e seu trabalho sobre o pacto da narcísico da branquitude, publicado no início do século 20.

Há um medo de falar sobre racismo. Há um medo de falar sobre branquitude. É cutucar as entranhas de nossa identidade nacional cruel e escravocrata. É questionar as estruturas política e econômica através da história. É perceber que o Brasil é um espelho partido em que poucos querem encarar os afiados pedaços.

Letramento racial deveria estar na cesta básica, fazer parte do plano de saúde, ser pergunta na entrevista de emprego. Como ampliar essa discussão em um país que tem como política pública a formação de analfabetos funcionais. A luta antirracista continua, intrépida. Quem sabe teremos melhores notícias na próxima pesquisa.

Tarcísio, um governador extremamente satisfeito com 14 mortes

Você ficaria “extremamente satisfeito” se seu filho se formasse como primeiro da turma. E não consideraria “um excesso” se para isso ele atravessasse noites insones, a estudar. Era assim no meu tempo para quem pretendia ser aprovado no vestibular.

Dei sorte, estudei pouco, mas tirei nota máxima no quesito redação da prova de português, 10 na prova de história do Brasil, onde o forte eram perguntas sobre a invasão do país pelos holandeses, e eu havia pouco antes feito uma reportagem sobre o assunto.

Não lembro quanto tirei nas provas de história geral, geografia e francês. Mas lembro que a primeira foi sobre a 2ª Guerra Mundial (leio tudo a respeito até hoje). Fui um bom aluno de geografia e francês. Para minha surpresa, passei em segundo lugar.

O capitão e atual governador Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP) formou-se em engenharia civil pelo Instituto Militar de Engenharia, tendo obtido a maior média histórica no curso da instituição. Isso deve tê-lo deixado “extremamente satisfeito”.


É de supor, porém, que não se destacou na área de ciências humanas. Do contrário, jamais diria ter ficado “extremamente satisfeito” com as 14 mortes provocadas pela Polícia Militar de São Paulo ao invadir por vingança uma favela no Guarujá.

Jamais diria também que o número de mortes não configura um “excesso”, e que as mortes foram “danos colaterais”, de vez que era preciso combater os traficantes de drogas. Em que lugar do mundo matar traficantes acabou com o comércio ilegal de drogas?

Traficantes não costumam enfrentar a polícia – tentam fugir para voltar quando ela vai embora. Se não voltam, se estabelecem em outras áreas. O Rio de Janeiro, onde Tarcísio nasceu, tem áreas permanentemente ocupadas por facções criminosas.

São Paulo, não. Guarujá fica pertinho de Santos, uma das cidades mais seguras e tranquilas do país. Em Santos, fica o maior porto do Brasil. É isso o que importa aos traficantes: eles querem paz para contrabandear drogas nos navios que saem de Santos.

Eleito governador do Rio em 2018 prometendo combater a corrupção e o tráfico de drogas, o ex-juiz Wilson Witzel (PSC) autorizou o abate de bandidos que usavam fuzis:

“A polícia vai fazer o correto: vai mirar na cabecinha e… fogo… Para não ter erro”.

À época, o Rio registrava 16 assassinatos por dia. A política de Witzel adiantou? Coisa alguma. Acusado de corrupção, ele se tornou o primeiro governador a ser afastado definitivamente do cargo por processo de impeachment na história do Brasil.

Tarcísio é mais um líder político a apelar para o discurso mentiroso de que são inimigos da polícia os que condenam a matança de inocentes geralmente pobres, negros e moradores de favelas. Quem mais consome drogas é quem pode pagar por elas.

Tarcísio paga o preço de nunca ter morado em São Paulo e de nunca ter disputado eleição nem para síndico de prédio. Elegeu-se governador graças a Bolsonaro. Quer herdar os votos dele para se reeleger e, mais tarde, candidatar-se a presidente.

Se necessário, um dia ainda poderá dizer que bandido bom é bandido morto.

Guarujá é o novo Jacarezinho

Ainda não se sabe quantas pessoas morreram no final de semana passado no Guarujá, durante a Operação Escudo. Depois do assassinato de Patrick Bastos Reis, soldado da Rota, na quinta-feira, centenas de policiais passaram os dias seguintes na cidade em busca dos responsáveis.

Mas, já na segunda-feira, havia uma pessoa bem satisfeita com os resultados da intervenção policial: "Eu estou extremamente satisfeito com a ação da polícia", disse o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, numa coletiva de imprensa em 31 de julho.

Naquela entrevista, Tarcísio falou de oito óbitos durante a operação, que o governador chamou de "profissional". Nas suas palavras, "nós temos uma polícia treinada e que segue à risca a regra de engajamento".


A defesa das ações policiais pelo governador soava absurdamente prematura, tendo em vista que a Ouvidoria da própria polícia tenha ouvido vários relatos de abusos dos policiais, de torturas e de execuções. O Ministério Público já está investigando os casos.

Como o governador podia, portanto, ter tanta segurança de afirmar o profissionalismo da sua tropa? Como podia ter certeza de que não havia "excessos", sem conhecer os resultados das investigações?

Na terça-feira, Tarcísio já falava em 14 mortes, enquanto o número de até 19 mortos circulava na imprensa. Parecia que Tarcísio teve que recuar frente às alegações, pelo menos um pouco. "Se houver excessos, vamos punir os responsáveis", prometeu o governador. Mas logo acrescentou que até agora não tinha chegado a ele nenhuma informação de que houve excessos. Mas, sim, efeitos colaterais: "Não existe combate ao crime sem efeito colateral".

Tarcisio já soa como Cláudio Castro, o governador do Rio de Janeiro, que chamou as 27 pessoas mortas pela polícia em maio de 2021, no Jacarezinho, de "vagabundos". Como no Guarujá, a polícia entrou na comunidade, naquele dia em 2021, depois de um policial ter sido morto por bandidos. E, aparentemente, com sede de vingança.

É da natureza humana um sentimento de vingança pela morte de um companheiro. Mas o estado e seus representantes não podem se deixar levar por tais sentimentos. Eles precisam agir de forma cautelosa e respeitar o direito de cada cidadão de ser considerado inocente até provar o contrário.

Sabemos que os policiais enfrentam, muitas vezes, bandidos altamente armados, e que os policiais têm todo o direito de se defender. Mas não são justiceiros, e sim profissionais, agentes do estado. Precisam ser um exemplo de civilidade em meio ao caos que reina infelizmente em muitos cantos deste país.

É ainda mais problemático que tanto Tarcísio como Castro aparentemente festejam as mortes dos "suspeitos". Igual ao ex-governador Wilson Witzel, que em 2019 celebrava a morte de um sequestrador com pulos no ar. Parecem torcedores da morte, esses homens que se apresentam como "quadros técnicos" e tanto falam em Deus.

O caminho do combate ao crime organizado não pode ser de se igualar ou até superar a brutalidade dos próprios bandidos. Mas de agir com uso de procedimentos de inteligência. No caso de São Paulo, com o uso das câmeras portáteis nos uniformes dos policiais, houve uma redução das mortes causadas pela polícia entre 2019 e 2022, de 697 mortes para 260.

Até que Tarcísio de Freitas veio do Rio para São Paulo com um discurso de tirar as câmeras novamente. Desde que ele assumiu o governo paulista, em janeiro, o número de pessoas mortas pela polícia aumentou, de 123 pessoas no primeiro semestre de 2022 para 155 no primeiro semestre deste ano.

Vamos torcer para que o carioca Tarcísio, que costumava andar na garupa de Bolsonaro, não traga maiores índices de letalidade policial para São Paulo. No Rio, a polícia matou, no ano passado, 1.327 pessoas. Em comparação, a letalidade policial no Rio tem sido 20 vezes maior que em São Paulo.

terça-feira, 1 de agosto de 2023

Pensamento do Dia

 


A inteligência artificial vai te fazer tirar uma nota 10. Mas não é isso que importa

Com pouco destaque em um relatório de 200 páginas sobre tecnologia, a Unesco evidenciou na semana passada o que pode ser um impacto amedrontador da inteligência artificial (IA) na educação. Por dar respostas rápidas em um tempo em que rapidez é entendida como sinônimo de eficiência, ferramentas como Chat GPT podem retirar do estudante um dos grandes propósitos pelo qual vamos à escola ou à universidade: aprender a pensar.

Pode parecer catastrófico demais para algo ainda sem muitas evidências, mas a Unesco dá o tom: “essas ferramentas poderiam exercer um impacto negativo na motivação do estudante de conduzir pesquisas independentes e achar soluções”.


E não é só porque as soluções do Chat GPT podem ser piores, ter vieses e informação de fontes não confiáveis, é porque o importante é o processo. A IA em breve vai dar respostas perfeitas. Mas na educação o que vale não é nota 10. É, sim, a construção do conhecimento.

Isso acontece durante as etapas de aprendizagem, como, por exemplo, antes de escrever um trabalho escolar. O cérebro coleta informações, relaciona umas com as outras, analisa, tira conclusões. E depois, ao tentar expressar suas próprias ideias em um texto, vem um outro exercício cerebral, com organização do pensamento, priorização, experimentação, memória.

Todos esses processos fazem o estudante não só aprender o que está sendo proposto na escola, mas também a lidar com outras tarefas do dia a dia, a se relacionar com as pessoas, planejar, tomar decisões. Pesquisas já mostraram até que a leitura de um romance ajuda o cérebro a desenvolver empatia.

Mas tudo isso passa batido quando o Chat GPT faz o trabalho de um universitário, como relataram alunos ao The New York Times. Um deles mostrou à ferramenta um parágrafo escrito por ele mesmo e pediu que o robô fizesse um outro texto, sobre outro assunto, com o seu estilo. Deu certo e ele recebeu nota máxima.

A IA também pode, claro, identificar melhor as dificuldades de cada estudante e tornar o ensino mais personalizado. Ou fornecer em segundos informações que levariam muito tempo para serem encontradas, corrigir provas para os professores e liberá-los para trabalhos mais interessantes.

Difícil para Unesco ou qualquer um hoje prever os limites da inteligência artificial. Mas o relatório faz questão de frisar o que parece óbvio: os alunos precisar aprender com e sem tecnologia na escola. E nós, que não somos robôs, temos de ter um olhar atento para que a IA não arruine o processo mais brilhante da mente humana: a aprendizagem.

De onde vêm as maiorias

Está se tornando consensual o entendimento de que o nosso sistema político não está funcionando para servir aos brasileiros. Há muitos que julgam, e eu com eles, que a política é a principal responsável pelo nosso baixo crescimento e pela pobreza da maioria da população. A partir daí surge a grande questão: a quem culpar por estes descaminhos?

Há quem prefira pôr a culpa na baixa qualidade dos políticos atuais. Se fosse este realmente o problema não haveria nada a fazer. Os políticos em atividade foram eleitos conforme as leis do país e, de um modo ou de outro, são uma imagem da própria sociedade, na sua diversidade e nas suas carências. Os homens que temos na esfera pública são esses que estão aí. Este é um fato da vida. O caminho construtivo, e que está ao nosso alcance, é construir instituições nas quais a conduta desses homens seja diferente do modo como eles hoje se comportam.


Precisamos encarar uma reforma política, mas para isso precisamos ter foco na questão mais crítica, que é o sistema eleitoral. O sistema chamado de proporcional com lista aberta, que é o que adotamos para a escolha dos deputados, não existe mais em nenhuma democracia civilizada e é o responsável pelos nossos problemas de governança e de falta de representação.

Na quase totalidade dos países a eleição para o Parlamento se dá por meio de dois sistemas: distrital ou proporcional com lista fechada. No distrital o país é dividido em tantos distritos quantas são as cadeiras em disputa e em cada distrito trava-se uma eleição majoritária, na qual o vencedor é o candidato mais votado. Nestas eleições distritais o eleitorado é limitado, os candidatos são conhecidos dos eleitores e o número total de candidatos é naturalmente pequeno. O vínculo entre o eleito e o eleitorado é muito forte e permanece vivo durante todo o exercício do mandato, ao contrário do nosso sistema brasileiro, no qual, passados poucos meses a maioria dos eleitores sequer se lembra em quem votou.

O outro sistema, que vigora na Espanha, por exemplo, é o proporcional com lista fechada. Cada partido propõe ao eleitorado uma lista preordenada com o número de cadeiras em disputa. Apurados os votos partidários e definido o número de cadeiras obtidas pelo Partido serão considerados eleitos os deputados, pela ordem com que estão relacionados na lista. O voto é no Partido, sua plataforma, seus valores. O resultado eleitoral tem uma consequência transparente e induvidosa. Nestes dois sistemas as eleições descobrem a maioria política e a conduta desta maioria é forçosamente coerente e fiel à vontade dos eleitores.

No Brasil tudo é diferente. O deputado disputa o voto em todo o Estado. Em São Paulo, por exemplo, os deputados são eleitos por trinta e cinco milhões de eleitores. Eleitores e candidatos não têm como se conhecer e não se estabelece entre eles vínculo de qualquer natureza. Se o voto fosse distrital, o eleitorado seria limitado a quinhentos mil, o tamanho de uma cidade média. As cadeiras são atribuídas aos Partidos, mas o voto é dado no candidato, sendo eleitos os mais votados da lista. O sistema todo é voltado para o candidato e não para o Partido. Assim o sistema não cria vínculo do eleitor com o eleito, nem desse com o Partido.

O sistema favorece a extrema fragmentação partidária e elege deputados inteiramente autônomos, livres para mudar de lado, sem qualquer consideração com a vontade de quem o elegeu. Como o governo do país depende tanto do Presidente quanto do Parlamento é preciso formar uma maioria de qualquer jeito. O caminho que existe é negociar o interesse individual dos deputados e tentar governar com estas maiorias sem alma e sem responsabilidade, renunciando a qualquer ação transformadora que mude o país. Não é o povo que escolhe a maioria.

Este é o destino de todos os nossos governos, qualquer que seja sua inclinação política e qualquer que seja o apoio que tenha da população. A mudança do sistema eleitoral é a única porta que nos resta para mudar o país. Precisamos nos acostumar com esta ideia.

Uma crítica ao comentário oficial

Numa aldeia, alguns camponeses que se haviam reunidos para ler os Evangelhos foram dispersados pelos guardas. No domingo seguinte voltaram a se reunir. Então o chefe dos soldados levantou-lhes um processo e levou-os a julgamento. Após um inquérito feito pelo juiz de instrução, o substituto redigiu uma ata de acusação, que o tribunal confirmou. Durante o requisitório foram apresentadas as provas do delito; eram os Evangelhos. Os camponeses foram deportados.

- É horrível! – Concluiu Nekliudov. – Será possível que isto é verdade?

- O que é que nisso o surpreende tanto?

- Tudo. Não falemos já no chefe dos soldados, mero executor e ordens, mas o substituto que redigiu a ata é um homem instruído...

- Aí é que está o erro. Estamos acostumados a creditar que os magistrados são homens modernos, de ideias liberais. Foi assim noutros tempos, mas agora é tudo diferente. São funcionários e apenas estão preocupados em que chegue o dia vinte de cada mês para receberem os seus vencimentos, que gostariam de ver continuamente aumentados. A isto se limitam os seus princípios. Julgam, acusam e condenam quem quer que seja.

- Mas existe alguma lei que permita deportar homens só porque se reúnem para ler os Evangelhos?

- Não só a lei permite deportá-los, mas até condená-los a trabalhos forçados quando se prove que se atreveram a comentar os Evangelhos de maneira diferente daquela que está estabelecida, pois isso constitui uma crítica ao comentário oficial. Ora, o artigo cento e noventa e seis pune com desterro o ultraje à fé ortodoxa.

- Isso não é possível!

- Afirmo-lho. Digo a todo momento aos senhores magistrados – continuou o advogado – que não posso vê-los sem sentir um profundo sentimento de gratidão para com eles, pois, se eu não estou na prisão, nem o senhor, nem toda a gente, é à sua benevolência que o devemos. Quanto a privar qualquer pessoa dos seus direitos civis e a deportá-la para um lugar mais ou menos longínquo, não há nada mais fácil.

- Sendo assim, se tudo depende da disposição do procurador ou das pessoas suscetíveis de aplicar ou não a lei, para que servem os tribunais?

O advogado soltou uma gargalhada.
Leon Tolstoi, "Ressurreição"