domingo, 27 de março de 2022

Bolsonaro aposta em ufanismo nos 200 anos da Independência

O governo tem sido cobrado a apresentar um plano para celebrar o bicentenário da Independência. Talvez seja melhor deixar a ideia para lá. Uma campanha da Secretaria Especial da Cultura expõe a visão bolsonarista da efeméride. É uma visão caricata, apoiada em patriotadas e mistificações.

“A Independência do Brasil foi conquistada com um brado. Nossa liberdade, anunciada com uma exclamação”, derrama-se o site oficial. “Na bravura, que arde como brasa, se revigora o espírito patriótico que, um dia, apontando o céu, nos bradou a liberdade”, prossegue.

O portal também carrega nas tintas ao descrever Pedro I. O herdeiro da Coroa portuguesa emerge como um herói sem defeitos. “Um jovem príncipe, do alto de seu cavalo, ergueu sua espada. Refletindo nela a luz do sol, ao som das águas do Ipiranga, ecoou a voz em forte grito. Pela força de sua coragem, derrotou os que nos aprisionavam. Com a ousadia de sua afronta, fez soberana a nossa nação”, exalta o texto chapa-branca.


O palavrório falsifica a história ao narrar uma Independência fictícia. A cena épica só existiu na imaginação de Pedro Américo, autor do quadro “Independência ou Morte”, de 1888. O pintor plagiou uma tela do francês Ernest Meissonier, que retratou Napoleão na batalha de Friedland. Segundo testemunhos da época, o brado tupiniquim não foi tão retumbante. O príncipe estava abatido por uma infecção intestinal, vestia roupas simples e se equilibrava sobre uma mula.

“A tentativa de construir um herói idealizado, com sua espada flamejante a libertar um povo, certamente não se destina a quem tenha algum conhecimento da História do Brasil”, critica a historiadora Isabel Lustosa. “O relato romantizado segue o roteiro da construção do mito do herói. Esses exageros não contribuem para entender o que foi a Independência”, acrescenta a autora do livro “D. Pedro I: um herói sem nenhum caráter”.

Entender as contradições da história não é o objetivo das cavalgaduras federais. Monarquistas, olavistas e generais de pijama preferem simplificar o passado em narrativas ufanistas. A fórmula já foi usada pela ditadura em 1972, quando a Independência fez 150 anos.

Os militares promoveram uma “gigantesca e bem-sucedida operação de apropriação do acontecimento histórico”, escreve a historiadora Heloisa Starling na última edição da revista Serrote. A propaganda exaltava o regime e estimulava o orgulho patriótico. Num lance espetaculoso, os restos mortais do imperador foram trazidos de Portugal e sepultados novamente no Museu do Ipiranga.

O governo Médici também recrutou artistas populares, como Roberto Carlos, para vender a história oficial. “É isso aí, bicho. Vai ter muita música, muita alegria. Porque vai ser a festa de paz e amor e todo brasileiro vai participar cantando a música de maior sucesso no país: Ouviram do Ipiranga as margens plácidas”, cantarolou o Rei, em gravação resgatada pela professora da UFMG.

Bolsonaro conhece o potencial do Sete de Setembro para mobilizar o eleitorado conservador. No ano passado, usou a data para promover atos golpistas. Ao convocá-los, subiu num cavalo e prometeu liderar uma “nova Independência do Brasil”. Em 2022, o capitão tentará usar o bicentenário como arma de campanha. A efeméride será celebrada a 25 dias do primeiro turno. O ufanismo do portal do governo é uma amostra do que vem por aí.

Guerra na Ucrânia inverte papel da Rússia de 1942

Na primavera europeia de 1942, as tropas da Alemanha nazista já haviam atropelado a Ucrânia e a Bielorússia, então ainda pertencentes à esfera soviética, e avançavam cada vez mais URSS adentro. Para os generais do Alto-Comando de Josef Stálin, não parecia haver dúvida: a Wehrmacht de Adolf Hitler tentaria conquistar o maior troféu daquela frente continental — Moscou, capital do Império Soviético. Erraram feio. A meta dos alemães era sitiar, ocupar e destruir Stalingrado, centro industrial e polo armamentista do país, que ainda por cima portava o nome do inimigo comunista.

Seguiu-se um épico de ferocidade histórica. Cada cidadão russo da cidade recebeu um fuzil e a mesma ordem de número 227: “Nenhum passo atrás”. Quem se rendesse ao inimigo podia ser executado. Também o exército invasor foi inequívoco nos seus comunicados aos moradores de Stalingrado: civis do sexo masculino (440 mil habitantes à época) seriam fuzilados. As mulheres, deportadas para trabalhos forçados na Alemanha.


De início, a um custo de mais de 200 mil mortos (sim, 200 mil), os russos conseguiram rechaçar as primeiras investidas nazistas. Porém logo ficou claro o tamanho do desequilíbrio de forças. A saída encontrada pelo lendário marechal Georgy Jukov e seu colega Aleksandr Vasilevsky consistiu em transformar Stalingrado numa ratoeira. Ratoeira para os 300 mil soldados alemães e romenos que nela entrassem. Montaram um eficaz anel defensivo nas montanhas ao redor e foram fechando esse anel contra os invasores da cidade. Ao final de seis meses de combates, os russos tinham em mãos 100 mil exauridos prisioneiros de guerra. Os 70% restantes do 6º Exército hitleriano morreram de frio, fome ou em combate. Do lado vitorioso, o horror não foi menor — sobraram apenas 34 mil civis, dentre os 440 mil russos que viviam ali. São cultuados como heróis até hoje. A Batalha de Stalingrado mudou a maré da Segunda Guerra Mundial.

Passados quase 80 anos, assistimos ao desenrolar de um novo épico. Desta vez, o solo é ucraniano, e as tropas russas de Vladimir Putin desempenham o papel de invasor, não mais de defensor. No mais, o paralelo histórico e o denominador comum saltam aos olhos. Falta saber se o embate final nas ruas de Kiev se dará antes ou depois de um cessar-fogo, antes ou depois da destruição final do que resta de vida também em outras cidades fantasmas do país.

Manuais de guerra ensinam que travar batalhas urbanas tende a ser oneroso para a força militar invasora. Esse tipo de combate neutraliza boa parte das vantagens táticas que costumam favorecer o atacante. Sabidamente, tanques, blindados, mísseis e artilharia pesada de pouco servem em combates corpo a corpo, casa a casa, rua a rua. Para um exército defensivo, mesmo quando inferior em armamento ou soldadesca, a disposição de combater qualquer que seja o custo em vidas pode ser decisiva. Volodymyr Zelensky, pelo jeito, optou por essa estratégia para defender a sua Ucrânia. Do ponto de vista estritamente estratégico, argumenta o historiador Benjamin Carter Hett, do Graduate Center da City University de Nova York (Cuny), pode fazer sentido — mesmo que Putin bombardeie as cidades ucranianas até elas virarem ruína, as montanhas de destroços serão usadas de amparo para seus defensores.

Mas e do ponto de vista moral e humano, não há limite? Pelas contas mais recentes do Unicef, em apenas um mês de guerra, 4,3 milhões de crianças ucranianas estão refugiadas ou foram deslocadas — mais da metade da população infantil do país. O custo de uma infância roubada com tanta brutalidade é alto. Que tipo de sociedade brotará desse colapso civilizatório? Historiadores e aqueles que já vivenciaram guerras sabem que a desesperança maior vem no day after, não durante o sufoco. Enquanto há guerra, o ser humano foca no essencial — tentar sobreviver e esperançar pelo fim dos combates. Apenas quando a guerra acaba podemos nos dar ao luxo de perceber o horror passado e de ver do que fomos capazes. Só então começamos a julgar e a doer no mundo que sobrou.

Não será muito diferente no conflito atual, qualquer que seja o desfecho. É provável que o ucraniano Zelensky esteja seguindo ao pé da letra o ensinamento básico de Napoleão: nunca interrompa seu inimigo enquanto ele estiver cometendo um erro. E erros é o que não falta à estratégia militar de Vladimir Putin. Voltamos então a Stalingrado? Ou a algo pior? Misericórdia.
Dorrit Harazim

Por um tempo sem heróis

1.Três semanas depois, o crime continua e vai continuar até não se sabe quando – cada vez mais destruidor, violento, revoltante, porque se mantém toda a sua cruel desumanidade e se agravam as suas tremendas consequências. Consequências para a Ucrânia e o povo ucraniano, em primeiríssimo lugar, mas também para outros países e povos: para as relações entre eles, para as suas condições de vida e para as garantias da soberania nacional. E consequências para esse valor supremo que é a paz no mundo. Assim, de que mais poderei aqui falar?


2. As imagens que sem cessar nos chegam de cidades bombardeadas, bairros residenciais e edifícios atingidos, a arder ou em ruínas, famílias com falta de tudo ou já destroçadas, inumeráveis feridos, mortos até abandonados nas ruas, velhos, mulheres e crianças (crianças com um sorriso lindo ou um olhar de espanto) em fuga do invasor estrangeiro, em estado penoso, deixando a sua pátria, a sua terra, a sua casa – as imagens falam por si.

Não é só, não é tudo, há “outro(s) lado(s)”? Pode ser. Mas tais imagens evidenciam uma realidade terrível, com uma causa indesmentível. Face a elas, e a tudo o mais que se sabe, não há, não pode haver, justificações nem atenuantes para o que a Rússia de Putin está a perpetrar. Justificações ou atenuantes só podiam existir se a Rússia estivesse a responder a uma invasão semelhante, ou para evitar uma sua comprovada iminência, o que obviamente não é o caso.

3. Há muitas situações horríveis a ocorrer noutras latitudes? Claro que sim, embora do ponto de vista da paz e da segurança mundiais, incluindo de um eventual conflito nuclear, não se possam de nenhum modo comparar à invasão da Ucrânia. Além de, insisto, nenhum crime poder justificar outro crime. Se há, porém, como em geral há, dolosas ou culposas ações, circunstâncias, fatores antecedentes, a outros atribuíveis, que contribuíram para tais situações, no caso a agressão armada russa, devem ser estudados, analisados, ponderados. Mas para procedimentos e efeitos futuros, não para desculpar Putin e o seu regime autocrático.

Idealmente é assim. Realisticamente, porém, esses antecedentes têm de ser tomados em conta quando se “negoceia” o, por todos os motivos, indispensável cessar-fogo e o regresso dos invasores ao seu país, mantendo a Ucrânia a sua soberania nacional. Com, pelo menos, uma “limitação”, pois, de toda a evidência, a Ucrânia será forçada a renunciar a vir a integrar a Nato, como desejava e, como se vê, necessitava.

4. O povo ucraniano e o seu Presidente, Volodymyr Zelensky, têm demonstrado grande espírito de resistência e de coragem na defesa da sua pátria. Coragem física e moral. Mas Zelensky precisará de ainda muito mais coragem moral – de par com lucidez e visão políticas, sentido da medida e capacidade argumentativa – nas “negociações” para a paz. Porque, a haver um mínimo de justiça ou de decência, o máximo seria a Ucrânia admitir a dita renúncia à integração na Nato, e a Rússia pagar a “reconstrução” do país. Parece claro, porém, que a primeira concessão não chegará para satisfazer Putin, e a segunda pretensão seria puramente lírica.

Então, face à inevitabilidade, dado o seu imenso potencial bélico, de uma vitória militar russa, com maior destruição e sofrimento para a Ucrânia e os ucranianos, Zelensky, repito, precisa de ainda muito mais coragem moral para procurar e assumir um entendimento com outras “concessões”, preservando a dignidade nacional, do que para se bater de armas na mão e morrer…

5. Morrer, como tantos já morreram, em defesa da sua terra, numa luta desigual, depois de matarem muitos russos, na sua imensa maioria também “inocentes”, forçados a fazer uma guerra injusta e sem causa(s). Os que morrem são os heróis que Zelensky, compreensivelmente, não se tem cansado de glorificar e condecorar a título póstumo. O que me faz lembrar Brecht: “Pobre pátria que precisa de heróis…”

Pois é, ansiamos todos, e neste momento à frente de todos o povo da Ucrânia, por um tempo e um mundo em que não haja, não sejam necessários, “heróis” – mas apenas mulheres e homens… Humanos.
José Carlos Vasconcelos

Os militares e a política

A participação dos militares na política brasileira sempre foi objeto de críticas, estudos e justificativas. A verdade é que a República foi proclamada no Brasil como consequência de um golpe de estado contra o Imperador, que uniu o pessoal fardado aos produtores agrícolas muito contrariados com o fim da escravidão, ocorrida em 1888. As duas forças se uniram, derrubaram o Império e embarcaram D. Pedro II no navio em direção a Europa. O Imperador faleceu no hotel Bedford em Paris, em 1891, pobre, mas com os bolsos cheios de terra do Brasil. O símbolo da saudade de seu país.

O Brasil, depois do Império, foi entregue a dois marechais. Deodoro da Fonseca e Floriano Peixoto. Além de questões objetivas, havia uma doutrina política em moda na época. Era o positivismo do francês Augusto Comte, que teve alunos brasileiros e chegou ao Brasil por intermédio de professores das escolas militares. O princípio básico apontava no sentido de criar um sistema chamado de ditadura republicana que criava um governo democrático, mas protegido contra eventuais rebeliões da massa. Era o temor de que se repetisse aqui eventos semelhantes aos da Revolução Francesa.

Os primeiros momentos da jovem República se constituíram em esforço para evitar o retorno da Monarquia, fortalecer o sistema e evitar a desagregação territorial do país. Militares tiveram forte presença neste período que vai até a posse do primeiro presidente civil, Prudente de Moraes. Mas os militares perceberam, também, que, do ponto de vista operacional, as forças armadas brasileiras eram mal equipadas, mal distribuídas no território nacional e com baixo nível de comando. No entanto, para modernizar o Exército era necessário modernizar o país. A partir desta compreensão, a política entrou nos quarteis.

A revolta dos 18 do Forte, em Copacabana, no 5 de julho de 1922 foi o primeiro sinal de que o vento começava a mudar. O segundo 5 de julho, o de 1924, ocorreu depois da tomada da cidade de São Paulo, do enfrentamento com tropas do governo federal e o início da marcha da coluna Miguel Costa, depois chamada de Coluna Prestes. A coluna saiu de São Paulo, foi a Foz do Iguaçu e dali iniciou um impressionante roteiro que levou seus integrantes até o extremo nordeste brasileiro. Mais de 20 mil quilômetros a pé. Os militares conheceram a realidade brasileira. Na volta, fugindo dos jagunços que os perseguiram, buscaram exílio na Bolívia e no Paraguai.

Os cadetes da coluna Prestes se tornaram oficiais e participaram ativamente do movimento militar de 1964. Antes, alguns deles, além de integrar do governo Vargas, trabalharam na Força Expedicionária Brasileira (25.834 homens) que lutou na Itália contra o exército nazista de Hitler. E assistiram em Nápoles a libertação de Roma, depois da queda dos fascistas, quando Mussolini foi pendurado de cabeça para baixo num posto de gasolina em Milão. A participação na guerra colocou os militares brasileiros ao lado do pensamento liberal norte-americano, que prevaleceu ao final do conflito. O comunismo também venceu com o Exército Vermelho de Stalin. No Brasil, o Partido Comunista foi fundado em 1922 em Niterói (RJ). Tempos depois, Prestes, um dos comandantes da coluna, se declarou comunista e se transferiu para Moscou.

O presidente Ernesto Geisel comandou a abertura lenta e gradual do regime político no Brasil. Seguiu as diretrizes de seu braço direito, general Golbery do Couto e Silva, que tinha por objetivo restaurar o estado de direito pleno no Brasil e retirar os militares da política. E conseguiu. Ele viveu o tempo do regime de 64 em que os oficiais se integraram a blocos de opinião dentro das forças armadas. O objetivo da abertura política foi mandar os militares de volta aos quarteis, restabelecer a hierarquia e a disciplina. Antes, o presidente Castello Branco extinguiu o posto de Marechal e estabeleceu uma série de medidas administrativas para reorganizar a carreira militar.

O presidente Bolsonaro caminha no sentido inverso. Ele pretende que os militares participem mais da política nacional. Ele se protege de um eventual impeachment com o pessoal de alto coturno a seu lado. Nos países desenvolvidos os civis mandam nos militares. Nas ditaduras e regimes de exceção ocorre o contrário. O Ministério da Defesa é um cargo civil. Na atual administração se transformou em posto militar. É nesta linha que o presidente Jair Bolsonaro vai tentar a sua reeleição. Acompanhado por um vice quatro estrelas, general Braga Neto. É caminhar na contramão da história do Brasil.
André Gustavo Stumpf

Brasil, entre o risco e o apagador

 


Os Putins brasileiros

Cândido Portinari
Há 30 dias, assistimos perplexos e horrorizados as imagens das consequências das bombas jogadas por Putin na Ucrânia. Choramos e nos indignamos com esta violência que destrói prédios, força migração, mata civis, inclusive crianças e mulheres. Nem todos, porém, lembramos da nossa Ucrânia silenciosa e permanente ao nosso redor.

Há décadas, milhões de brasileiros, sobretudo do Nordeste, são forçados a abandonarem suas casas, em busca de sobrevivência em outras partes. As casas não serão destruídas por bombas e mísseis, mas já eram tão degradadas que pareciam bombardeadas por dentro, durante a própria construção precária. Nossos migrantes são chamados de pau de arara, mas de fato são nossos ucranianos.

Vinte milhões destes ucranianos brasileiros sofrem hoje a violência da fome. Dormem sem comer, com a geladeira e armários vazios. E ainda sofrem a violência de acordarem sem ter o que comer, mas assistindo pela televisão programas de conversas ao redor de mesa farta de comida. Depois, com os olhos ávidos e os estômagos vazios, assistem programas de culinária e gastronomia, que ensinam como fazer comidas com suculentos filés e apetitosas sobremesas.

Nossa Ucrânia é violenta ao exportar comida e deixar nosso povo como fome, e ainda tripudiar ou ignorar quem passa fome assistindo a abundância e até o desperdício de comida transmitido pela televisão. Esta realidade é violenta contra as mães que têm seus filhos com fome, e sobre as crianças que não entendem o porque de serem excluídas. As crianças da outra Ucrânia pelo menos sabem que a culpa é da guerra, da Russia, de Putin. À violência da fome, soma-se a violência do espetáculo da culinária tão perto e tão longe de suas pobres casas, sem o risco de mísseis e explosões, para explicar porque são tão despossuídos.

Os ucranianos europeus são todos migrantes e despossuidos, a violência é sobre todos, os ucranianos brasileiros sabem que as bombas e as necessidades pesam apenas sobre alguns escolhidos para não sofrerem. Protegidos contra os putins brasileiros. A violência é dupla: pela pobreza que sofrem e pela percepção da riqueza ao lado. Os abrigoa de Kiev são trágicos, mas são democráticos. E são passageiros

Nossas crianças vivem em uma Ucrânia apartada, silenciosa e permanente, não menos malvada e com menos explicação. Em alguns bairros de algumas cidades, sem uma guerra que explique, nossas crianças são vítimas de balas perdidas, como se estivessem ao redor de Kiev.

Se conseguem chegar, suas escolas estão melhores do que as ucranianas destruídas por bombas. Mas as crianças da Ucrânia têm a esperança de que a guerra vai um dia terminar e elas voltarão a suas escolas bonitas, enquanto às nossas continuarão degradadas, semi-escolas, permanentemente. Não por bombas momentâneas enviadas por um autocrata estrangeiro irresponsável e perverso, mas pela perversa omissão histórica, como nossos governantes tratam as crianças pobres do Brasil. Temos uma Ucrânia brasileira e temos Putins brasileiros.

A guerra é aqui

Queria escrever sobre a luz de outono, que banha de dourado o mar e as montanhas. Cheguei de uma temporada fora do Brasil e o cenário, como sempre que aterrisso, me deixou extasiada. Fotografo da janela do avião como se fosse turista de primeira viagem e não carioca. Que cidade linda, longe da guerra na Ucrânia, ao contrário da Europa. Que bênção. 

A realidade do asfalto logo se impôs. A conta do supermercado foi o dobro de dois meses atrás. O número de pessoas – de crianças pequenas a idosos – que me pediu dinheiro na rua, para comer e sobreviver, também dobrou. Ainda não enchi o tanque do carro. Mas o Rio de Janeiro é lindo, não? Essa sensação de leveza durou até assistir ao "Bom Dia Rio" para me atualizar. Eu me senti bombardeada. 

Dois homens presos por manter mulheres em cárcere privado em Niterói, em troca de falsa promessa de atuar em filme. Uma delas chora ao descrever a rotina de escravidão doméstica e abusos sexuais. Na Zona Norte, mulher é encontrada morta a facadas em casa. Mãe de três filhos, gerente de Recursos Humanos, 43 anos, ia ser avó. O suspeito é o namorado, foragido. Família espera justiça divina – a dos homens anda em falta. 

Vigia de posto de saúde é morto com tiro de fuzil em operação policial em Belford Roxo. Em Del Castilho, imagens de câmera mostram assassinato a tiros de inspetor da Polícia Civil em seu carro. Operação policial contra tráfico e roubo de carro em São Gonçalo revela barricadas de entulho, galões e cimento armado erguidas por bandidos nas ruas. Operação da PM começa cedo na Ilha do Governador, perto do aeroporto internacional. No bairro de Santa Teresa, dois policiais baleados no ataque à base da UPP.


Quando os crimes contra a vida acabam, passamos aos crimes contra a cidadania. Idosos sentados nos degraus dos ônibus. Estudantes atrasados na escola por falta de ônibus. Pra não dizer que não falei de flores, uma bailarina com inflamação grave no coração após Covid se recupera e estreia no Municipal. E, no fecho, um bom-dia com a deslumbrante vista do mirante do Leblon.

Passamos ao "Bom Dia Brasil". Tem a guerra lá longe na Ucrânia. E a corrupção em Brasília, no Ministério da Educação: o criminoso desvio de verba pública para pastores amigos de Bolsonaro. Oremos. Também tem a deputada negra acossada pelo racismo e ameaçada de morte após perder a escolta. 

Tráfico internacional de cocaína, com 17 mandados de prisão no Paraná, Santa Catarina e São Paulo. Mergulhadores ocultavam a droga em compartimentos submersos de navio. Contrabando de urânio e ouro no Norte, com oito presos pela Polícia Federal. 

Jornalista há 48 anos, sei que uma de nossas funções, talvez a mais nobre e arriscada, é denunciar e cobrar – além de entreter, informar e provocar o debate. Mas até quando vai durar a guerra do Brasil? Em 2009, numa edição especial da revista Época, sobre os desafios e oportunidades na década seguinte, listei pedidos. Dois urgentes: “acabem com a impunidade e com a guerra civil”.

Deve ser bom ser jornalista no Brasil. Há sempre alguma denúncia, muitos escândalos e crimes. Esse foi o comentário irônico de um amigo que mora em Paris. Respondi: não, não é bom. Dá uma tremenda impotência perceber que escândalos e crimes caem no vazio. A overdose de violência não faz bem à saúde e me faz refletir sobre o jornalismo.

Quem sabe, escrevi há 13 anos, eu possa ser em 2020 uma colunista leve, que recomende livros, filmes e exposições. Não aconteceu. Quem sabe em 2030. 

Os sons da fome

Rolos de arame farpado encerravam os parques , as colinas de mimosas, as praias. Muros de blocos de cimento aramado impediam o acesso ao mar. Nos promontórios onde , outrora, Ethel gostava de observar a sucessão das vagas, antes de ir mergulhar entre os rochedos, avistou, um dia, soldados que cimentavam uma espécie de plataforma para um canhão que girava sobre carris. As janelas do grande seminário tinham sido entaipadas, os padres de sotaina substituídos por soldados e convalescentes. Um pouco por toda a parte tinham crescido muros, redes de camuflagem cobriam os telhados. Os olivais tinham sido minados. Um painel escrito em duas línguas ameaçava os transeuntes exibindo uma caveira. A partir das dezoito horas, começava o recolher obrigatório. numa tarde em que Ethel se atrasou, subia a pé as escadas do prédio quando um tiro cavou um orifício no olho-de-boi do quinto andar e a bala foi espetar-se na parede. A partir daí, sempre que descia as escadas, Ethel não conseguia deixar de introduzir o dedo no orifício para tocar na ponta metálica que não a matara por um triz.

Quando as sirenes ressoavam sobre todos os telhados da cidade, era preciso descer à cave com uma vela acesa, até ao fim do sinal de alerta. Nos primeiros tempos, Justine conseguira arrastar o marido, mas este, depois começou a afundar-se na poltrona, agarrando-se aos braços. « Vão, se quiserem, por mim, prefiro morrer ao ar livre a ser enterrado como um rato»


Não se morria debaixo das bombas dos Ingleses e dos Americanos. Mas morria-se aos poucos, sem comer, sem respirar, sem liberdade, sem poder sonhar. O mar resumia-se a um traço azul, ao longe, entre as palmeiras , por cima dos telhados vermelhos. Ethel passava horas a contemplá-lo da janela do quarto dos pais, como se esperasse alguma coisa. O calabre inclinado de uma grua emergia dos telhados dos hangares, imóvel, inútil. Os barcos haviam naufragado à entrada do porto, já nada podia entrar nem sair. O farol já não se acendia à noite. Nas bancas do mercado, não havia nada, quase nada. As mesmas sombras continuavam a circular em redor dos vencedores , mas agora as cascas e as raízes também se vendiam. Nos jardins, os gatos vadios devoravam-se uns aos outros. Os pombos haviam desaparecido, e as armadilhas que Justine dispunha nas goteiras só serviam para apanhar ratos.


Certa manhã, no mês de Maio, ouviu um barulho desconhecido. A terra tremia, os vidros das janelas , os copos em cima das mesas. Sem perder tempo a vestir-se , correu para a janela. Afastou a cortina. Pela estrada, ao longo do rio, avançava uma coluna , faróis acesos. Camiões, viaturas blindadas, motas, seguidas de tanques. Cobertos de poeira, ar de insectos em marcha para um novo território. Avançavam lentamente, apertados uns contra os outros. Passaram em frente da casa, subiam para norte, em direcção às montanhas. Ethel permanecia imóvel, quase sem respirar. Atrás dos camiões, os tanques abalavam a terra com o barulho das lagartas. As torres blindadas dos canhões apontavam para a frente. Pareciam brinquedos inúteis.


O barulho acordou Justine. Aproximou-se da janela em camisa de noite, braços ligeiramente afastados do corpo, pés descalços encolhidos nas lajes frias. Ethel proferiu, num sopro: "Eles vão-se embora." Não estava muito certa de quem seriam «eles», mesmo depois de, atrás dos tanques , terem aparecido os camiões de caixa destapada onde se encontravam os soldados, e o barulho dos motores se ter tornado ainda mais preocupante. Justine puxava pelo braço de Ethel. "Vem!" Sussurrava como se os soldados nos camiões pudessem ouvi-la. Mas Ethel resistia. Queria vê-los todos, até ao último. Homens envergando sobretudos pesados, apertados uns contra outros, na sua maioria sem capacete, ar extenuado de fadiga. Nem um ergueu a cabeça para observar as janelas. Talvez tivessem medo. Aquela imagem de vazio penetrou no espírito de Ethel , expulsou todas as recordações anteriores. Mais tarde , virá a saber que os homens que avistou da janela da cozinha, em Roquebillière, eram os restos do exército de África do marechal Rommel, a caminho do Norte, na esperança de alcançar a Alemanha pelos Alpes. Ficará a saber que o chefe não ia na coluna, já regressara a Berlim de avião, deixando as tropas abandonadas num território hostil. Tentará imaginar que teriam sentido aqueles homens , na plataforma dos camiões, quando se dirigiam para a barreira crescente das montanhas, com a vibração das lagartas dos tanques que os ensurdecia, no maior dos silêncios, sem chefe, sem ordens, para transpor a pé as montanhas de neve do Boréon, perseguidos pelos lobos.
J.M.G. Le Clézio, "A Música da Fome"

Empregos mal pagos e produtos ruins para os brasileiros?

Na Bahia, lá onde, ainda um ano e meio atrás, uma grande fábrica funcionava a pleno vapor, a natureza vai agora recuperando seu terreno. Em Camaçari, a maior unidade da Ford no Brasil empregava 5 mil funcionários. Durante cerca de 20 anos, centenas de ônibus a ligavam com Salvador; entre ela e o porto industrial de Aratu, uma frota de caminhões circulava noite e dia com automóveis prontos e peças de abastecimento.

No começo de 2021, no entanto, tudo isso acabou: a Ford fechou a fábrica. Hoje algumas das vias de acesso às antigas dependências já estão cobertas de vegetação. Nada indica que no futuro algo volte a ser produzido ali, não há interesse pelas instalações.


Em todo o Brasil ocorre como em Camaçari: o país perde sua indústria a grande velocidade, num processo que se acelerou com a estagnação econômica em 2014, e se agravou com a pandemia de covid-19. Um indício disso é a queda de produtividade na economia.

Uma análise recém-publicada do instituto FGV Ibre mostra que entre 2014 e 2019 a produtividade brasileira minguou ainda mais rápido do que já vinha ocorrendo nas décadas anteriores. Tanto em relação à hora de trabalho quanto ao volume de mão-de-obra, o rendimento diminui de ano a ano.

Em 2021 essa tendência se acelerou ainda mais. Nas economias bem-sucedidas de todo o mundo, os lucros crescem com a aplicação de pesquisa e tecnologia na indústria: no Brasil, eles encolhem.

A perspectiva histórica demonstra essa tendência de modo especialmente crasso: a participação da agregação de valor industrial no produto interno bruto (PIB) nacional caiu um terço desde 1980, de 34% para 11%. Nessas cerca de quatro décadas, a indústria cresceu sempre em ritmo significativamente mais lento do que a economia como um todo.

O Brasil importa cada vez mais produtos industrializados para satisfazer a demanda local. O país pode se permitir isso, já que as exportações agrárias prosperam: os excedentes do agronegócio financiam os déficits da balança de bens industriais.

Muitos sequer tomam conhecimento dessa dinâmica. Somente com a pandemia ficou subitamente claro que o Brasil estava mal equipado para produzir vacinas próprias. Se, ainda 40 anos atrás, ele fabricava a metade dos fármacos utilizados pela população, hoje são apenas 5%.

Entre os motivos dessa desindustrialização está o fato de os governos protegerem a indústria nacional com tarifas e imposições alfandegárias. Além disso, a burocracia e o sistema fiscal fazem as empresas estrangeiras desistirem de investir no país – tendência que os fracos prognósticos de crescimento ainda agravam. O real desvalorizado reduz as importações de maquinaria e tecnologia.

Para o Brasil, isso significa que sua indústria oferecerá postos cada vez menos especializados; pesquisa e desenvolvimento regridem; aumenta a lacuna entre os empregos bons e mais exigentes do setor, e a massa dos postos mal pagos e muitas vezes informais. Ao mesmo tempo, os produtos de manufatura nacional se tornam cada vez piores, mais velhos e caros, em comparação com os do mercado mundial.

Essa tendência de desindustrialização se manifesta por todo o mundo. Porém no Brasil só lentamente se percebe quão profundas são as mudanças que ela acarreta para a sociedade e a política.

Nos Estados Unidos, o ex-presidente Donald Trump conquistou votos em especial onde a população perdera seus empregos em fábricas obsoletas. Um fenômeno parecido deverá ocorrer no Brasil: escutando-se as declarações dos prováveis candidatos a presidente para 2022, há razão para temer que o processo de desindustrialização e simultâneo isolamento do mercado mundial vá se acelerar ainda mais no país.

sexta-feira, 25 de março de 2022

O que a medalha indigenista de Bolsonaro revela

O cara pálida que ocupa a Presidência da República teve seu momento de esplendor plumário em cerimônia no Ministério da Justiça, quando lhe foi entregue (e a membros do seu governo) a Medalha do Mérito Indigenista. O governo condecorou-se.

A cerimônia, no entanto, teve aspectos antropologicamente interessantes e reveladores, não só por ser uma usurpação cultural da imagem do índio por brancos anti-indigenistas. Faziam-se de índios, que não são nem sabem o que são. Mas também os teve nos detalhes das fotos oficiais que chegaram aos jornais.

As revelações vêm do inesperado. A começar da fotografia centralizada pela figura secundária da criança indígena que o presidente, de cocar na cabeça, segurava no colo. A criança tenta tomar distância para ver melhor a cara de quem o carrega. A direção de seu olhar e sua expressão são de “O que é isto?!”.

O ponto de impacto da foto, o que captura imediatamente o olhar de quem a vê, não é um presidente de cocar, mas o olhar de espanto da criança. Aquele olhar de inocente que no afastamento espontâneo afasta-se do propósito manipulativo da foto. O sociólogo Henri Lefebvre interpreta uma ocorrência dessas como crítica na própria ação. Não é preciso dizer nada nem é preciso querer para que a ação se construa a si mesma como ação crítica.

Na literatura sobre a fotografia como modalidade de conhecimento, “punctum” é como Roland Barthes denomina o inesperado na imagem fotográfica, a que atrai o olhar de quem a vê para o ponto que é diverso do ponto de referência do fotógrafo. Fotógrafos profissionais, em fotos não posadas, escolhem o que Henri Cartier-Bresson define como instante decisivo, aquele que faz da foto uma obra autoral.

Como neste caso: o fotógrafo que a fez provavelmente quis fazer uma foto idílica do governante, a da centralidade de um pai da pátria, que governa acima das diferenças culturais e sociais. O olhar de espanto da criança, porém, “roubou-lhe” a fotografia. O ver da criança é o “punctum” da foto, o inesperado invasivo, a mediação que diz o que Bolsonaro é, e não o que o fotógrafo quis fotografar e com sua fotografia dizer.

As consequências antibolsonaristas da foto no imaginário social constituem o que Edgard Morin define como efeito bumerangue da comunicação imprópria. O espanto da criança chama a atenção de todos para o impróprio do cocar na cabeça imprópria, na cerimônia imprópria, no governo impróprio.

O impróprio, isto é, o fora do lugar da pessoa que justifica a imagem (e fora da cabeça de quem tem direito a cingir o significativo diadema plumário), está na extensa lista de manifestações de Jair Bolsonaro contra as populações indígenas e seus direitos reconhecidos desde o período colonial. Como o direito ao respectivo território e à respectiva diferença cultural, na língua e nos costumes.

A jovem líder indígena Txai Suruí apresenta, a propósito da cerimônia, em artigo na “Folha de S. Paulo”, uma lista de ações anti-indigenistas do presidente e de membros do governo também condecorados na ocasião.

São demonstrações de que Bolsonaro ignora completamente o que é o Brasil oposto ao do nós bolsonarista, um país marcado por elenco extenso de diferenças linguísticas. São 274 as línguas faladas por mais de 800 mil brasileiros das diferentes nações indígenas que têm direito histórico e constitucional à sua diferença e ao seu território ancestral.

Na fala presidencial, no Ministério da Justiça, Bolsonaro declarou querer que os povos indígenas se sintam “como nós” e façam em suas terras “exatamente o que fazemos com as nossas”. A verdade é a de que os indígenas brasileiros autênticos, em sua maioria, não querem ser como nós. Querem ser como eles são e ainda podem ser.

Em grande número de grupos indígenas, tem havido movimentos, nos últimos 50 anos ou mais, pela tomada de elementos da cultura branca para ampliar e fortalecer as culturas indígenas. Jovens estão sendo mandados às universidades brasileiras nesse sentido. Portanto, cabe perguntar a Bolsonaro e coadjuvantes: “Nós, quem, cara pálida?”. Nossos povos indígenas são o nosso nós. É uma questão antropológica que não se resolve na lógica redutiva da cultura de quartel.

A expressão jocosa teria surgido no começo dos anos 60, baseada nas histórias americanas sobre o Zorro, dos anos 1930, que aqui chegaram como histórias em quadrinhos e filmes. Zorro era o Lone Ranger, o cavaleiro solitário, um justiceiro, sempre acompanhado de um índio servil conhecido como Tonto. Em certa ocasião, ambos foram cercados por índios hostis. Não havia saída para os dois. Zorro disse a Tonto: “Nós estamos perdidos, Tonto”. O índio fez que não o conhecia e respondeu: “Nós, quem, cara pálida?”.

A Rússia é um gigante com pés de barro

O exército russo admitiu ter perdido 1.351 soldados na guerra da Ucrânia. Perdeu bem mais: há uma semana, fontes do Pentágono disseram ao New York Times que as baixas chegavam a 7 mil. Ainda que o número de Moscou fosse o correto, isso daria uma média de 45 militares mortos por dia. É um desastre completo. Para se ter uma ideia, em 10 anos de guerra no Afeganistão — guerra perdida –, os russos perderam 15.000 soldados, uma média de 4 soldados por dia.

Vladimir Putin é um açougueiro de carne humana que está usando a juventude russa como bucha de canhão, numa guerra sem justificativa nenhuma, que não os delírios de grandeza de um homem que tem na estatura física o exato espelho da sua estatura moral. É uma guerra perdida, como mostram o recuo das tropas invasoras no cerco a Kiev e a resistência que se mantém forte em todas as áreas castigadas por bombardeios que aterrorizam e matam civis, em total desrespeito às convenções que regem as guerras. Em Mariupol, cidade mártir que teve 90% da sua área devastada por mísseis russos (foto) e hoje parece Dresden, destruída na Segunda Guerra Mundial, 100 mil ucranianos são reféns dos russos. Estima-se que 300 pessoas tenham morrido no bombardeio a um teatro da cidade. Moscou diz que o governo da Ucrânia está usando civis como escudos humanos, mas é mentira deslavada.

O carniceiro do Kremlin está destruindo uma geração inteira, nos dois lados da fronteira, com uma guerra insana, criminosa e desonrosa em todos os sentidos. Com um mês de guerra, o número de baixas do exército russo é insustentável. A Ucrânia será o atoleiro da megalomania de Vladimir Putin, que está mostrando ao mundo que a Rússia é um gigante com pés de barro na guerra convencional. Mas o seu arsenal atômico permanece ameaçador. Os russos precisam urgentemente impedir Vladimir Putin de apertar o botão nuclear, a pretexto de defender a própria existência do seu país, como disse o seu porta-voz, Dimitri Peskov, outro oligarca vigarista que dá expediente no Kremlin, em entrevista a Christiane Amanpour. Seria a mentira mais letal de todos os tempos. Talvez a última.

Governo Bolsonaro extermina futuro das crianças

A pandemia da Covid-19 aprofundou a crise na educação, mas não a forjou. Escancarou a tragédia de uma área negligenciada por um governo incompetente e mal-intencionado. Não é por boa-fé que um presidente da República, em três anos de mandato, conta quatro ministros da Educação; quatro presidentes do FNDE, o fundo que banca as políticas públicas do setor; e cinco presidentes do Inep, o órgão responsável por monitoramento e avaliação do sistema educacional, além da aplicação do Enem, porta de entrada dos jovens no ensino superior. À luz do atual escândalo, está claro que exterminador do futuro de crianças e adolescentes brasileiros é o veneno que mistura desmonte institucional, violação à laicidade do Estado, tráfico de influência, corrupção e propina em barra de ouro.

Jair Bolsonaro nunca escondeu ser motor de destruição da educação, da cultura, do meio ambiente. Elegeu-se para, em aliança com líderes evangélicos, militares, grileiros, lobistas das armas, levar a nocaute direitos humanos, instituições democráticas, reputação diplomática, pactos civilizatórios consagrados. Na educação, indicou, segundo declaração do próprio titular da pasta, o pastor presbiteriano Milton Ribeiro, um par de religiosos sem cargo no governo para intermediar o acesso de prefeituras aos recursos do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação, sob a gestão de aliados do Centrão.

A parceria público-privada de pilhagem do Estado já tinha sido identificada pela CPI da Covid, tanto no gabinete paralelo de formulação da política pública de saúde quanto nos intermediários ilegítimos da compra de vacinas. A comissão parlamentar apresentou ao país o reverendo Amilton Gomes de Paula, da Secretaria Nacional de Assuntos Humanitários, uma entidade social batizada como órgão público. O religioso conseguiu uma reunião no Ministério da Saúde para a empresa Davati oferecer ao governo 400 milhões de doses da vacina AstraZeneca, imunizante que já era alvo de acordo do laboratório estrangeiro com a Fiocruz. O reverendo Amilton logrou em quatro horas o que a Pfizer levou meses para conseguir.

Há uma Secretaria de Comunicação e um gabinete do ódio, que opera com participação do filho vereador do presidente, presente em reuniões oficiais, mesmo sem cargo. No mês passado, Carlos Bolsonaro foi à Rússia e sentou-se ao lado do pai em agenda da área de Defesa, em que ministros militares foram coadjuvantes. Há ministros da Saúde e uma equipe extraoficial de consultores presidenciais pautados pelo negacionismo. Há o ministro da Educação e os pastores sem cargo, Gilmar Santos e Arilton Moura, prometendo recursos em troca de propina, conforme denúncias da imprensa só agora na mira dos órgãos de investigação e controle, como PGR, MPF, CGU e TCU. No modelo dual de gestão pública sobre o qual o governo Bolsonaro está assentado, para dissimular imoralidade ou ilegalidade, quem aparece não manda, quem manda não aparece.


Enquanto isso, a ONG Todos Pela Educação apurou que, entre 2019 e 2021, houve salto de 66% no número de brasileiros de 6 e 7 anos de idade que não sabiam ler nem escrever. Num par de anos, o total passou de 1,4 milhão para 2,4 milhões de crianças. “A não alfabetização em idade adequada traz prejuízos para aprendizagens futuras e aumenta os riscos de reprovação, abandono e/ou evasão escolar”, alertou a instituição. O primeiro ano da pandemia, segundo a Síntese de Indicadores Sociais do IBGE, deixou 92,7% dos estudantes de 6 a 17 anos da rede pública sem ensino presencial; 12,4% não tiveram nem aula nem atividades remotas. Escolas públicas ficaram 287 dias sem aulas em 2020; só 35% promoveram aulas ao vivo pela internet.

O Unicef informou que, em estados brasileiros, três de cada quatro crianças do segundo ano do ensino fundamental estão fora dos padrões de leitura; era uma em duas antes da pandemia. No país, 10% dos estudantes de 10 a 15 anos não planejavam voltar às aulas quando as escolas reabrissem. No documento apresentado no Dia Internacional da Educação, 24 de janeiro, a agência da ONU para a infância denunciou a perda de habilidades básicas de aritmética e alfabetização: “Além da perda de aprendizado, o fechamento das escolas afetou a saúde mental das crianças, reduziu seu acesso a uma fonte regular de nutrição e aumentou o risco de abuso”.

Atraso escolar, fome e violência foram o que brasileirinhas e brasileirinhos colheram, enquanto presidente, ministro e pastores pavimentavam o caminho da pilhagem. Tudo aponta para o maior escândalo do governo Bolsonaro — o que parecia impossível, após os 658 mil mortos pela Covid-19 — se as instituições, até aqui adormecidas, funcionarem.

Brasil é ouro

 


Luz contra escuridão


Se a liberdade significa alguma coisa, será sobretudo o direito de dizer às outras pessoas o que elas não querem ouvir
George Orwell, "1984"

Os demônios, Dostoiévski e o Brasil

Não bastasse a ocorrência de mais uma guerra, agora entre Rússia e Ucrânia, imediatamente outro desatino se apresentou para fazer companhia ao primeiro. É o caso da recente tentativa de ‘banimento’ de Dostoiévski.

Como sempre acontece em momentos de grande repercussão, um iluminado de ocasião teve a ideia de proibir (no Brasil!) eventos que abordem a obra do escritor russo Fiódor Dostoiévski.

A iniciativa expõe sua própria extravagância quando levamos em conta que não atinge um pensador contemporâneo de Putin, que o tenha convencido a invadir o país vizinho, mas sim de alguém que viveu no século XIX.

Na verdade, Dostoiévski sequer poderia inspirar o presidente da Rússia, porque em seus escritos (que não chegam a ser um manifesto socialista) valorizou a mistura entre os valores liberais, iluministas e cristãos ortodoxos, por sinal, distantes dos atos da república de Putin.

Seria menos espantoso que o governo russo banisse sua obra, do que fazê-lo no Brasil. Contudo, o disparate nos permite refletir acerca das afinidades existentes entre os dois absurdos.

No caso de Dostoiévski, a ‘deportação’ de sua memória (por alguns cafonas do intelecto brasileiro), a pretexto da crise na Ucrânia, revela a existência, entre nós, de demônios a quem o romancista provocara em um dos seus principais livros.

Ao escrever Os Demônios (título original: Biêsi, 1873), Dostoiévski não pretendeu dissertar sobre fenômenos espíritas, tão em moda no seu tempo, e tampouco tentou produzir algum ensaio no campo do exorcismo.

Os demônios a que se referiu inquietavam o povo de seu país no crepúsculo do czarismo e, diga-se de passagem, seguem assombrando a Rússia até hoje, mesmo após a meteórica Glasnost.

Em plena ascensão das democracias liberais e sob a efervescência contagiante da Belle Époque, os russos viviam também seu momento de ebulição cultural, animados pelos ecos do iluminismo.

A Revolução Gloriosa na Inglaterra, a Independência Americana, e os movimentos em torno da Revolução Francesa, encontravam correspondência em diversas partes do mundo, especialmente nas monarquias europeias e em suas colônias.

Na Rússia não foi diferente – até certo ponto – pois os demônios que frequentavam sua sociedade eram os mesmos que tiravam o sossego de outras nações. A diferença está no fato de que, nas democracias que sucederam o absolutismo, tais demônios perderam força, ou abrandaram suas feições.

Enquanto isso, os demônios russos permearam os governos que atravessaram o século XX, como a perseguição política, a censura, a ignorância, entre outros que marcariam as diferentes ditaduras mundo afora.

No Brasil de hoje, Dostoiévski facilmente enxergaria antigos (e novos) demônios. Possivelmente valeria para nós o parágrafo: “Esses demônios… são todas as chagas… que se acumularam na nossa Rússia (ou Brasil) para todo o sempre”. Certamente, por isso, e não por solidariedade à Ucrânia, alguns fãs de anjos decaídos ainda queiram devolvê-lo às prisões da Sibéria.

Em um tempo em que persistem, nesta Ilha da Vera Cruz, capetas como a desigualdade social, a devastação ambiental, o negacionismo, e outros da mesma legião, os recados de Os Demônios ainda metem medo no próprio satanás.

Em uma democracia, o povo tem o governo que merece

Em 2018, no pior momento do PT, com Lula preso e a Lava Jato no auge, o partido lançou seu candidato a presidente faltando apenas 22 dias para o primeiro turno.

Mesmo assim, Haddad conseguiu 31.342.005 votos válidos (29,28% do total) e foi para o segundo turno. Perdeu por uma diferença de 10.756.941 votos para um candidato esfaqueado.

Na noite do dia 6 de setembro daquele ano, a menos de 12 horas de ser esfaqueado, Bolsonaro tinha 21% das intenções de voto, segundo pesquisa do Instituto Ideia Big Data Ideia.

No dia 10, saltou para 24%. No dia 18, para 27%. No dia 25, para 31%. E no dia 5 de outubro para 33%. Capitu traiu ou não Bentinho? A facada elegeu Bolsonaro?

“Dom Casmurro”, romance de Machado de Assis publicado em 1889, conta a história de Bentinho, apaixonado por Capitu. Estudiosos divergem até hoje se Capitu traiu ou não Bentinho.

Quando levou a facada, Bolsonaro carecia de votos, de dinheiro, de tempo de propaganda eleitoral na televisão, e de apoio partidário para se eleger. Carecia também de qualidades para tanto.

Recuemos pouco mais de um ano. Entre abril de 2017 e novembro de 2018, o voto espontâneo em Bolsonaro quase dobrou de tamanho. Foi de 6% para 11%. O que se passou no período?

Aécio Neves (PSDB) foi flagrado pedindo dinheiro ao empresário Joesley Batista, e Joesley gravou o presidente Michel Temer no Palácio do Jaburu dizendo: “É para manter isso aí”.

Políticos e empresários foram presos. Um ex-deputado, assessor de Temer, foi filmado no centro de São Paulo carregando uma mala estufada de dinheiro. A imprensa só falava de corrupção.

Em junho de 2018, a uma pergunta feita pelo Big Data Ideia, 57% dos eleitores entrevistados haviam respondido que “não votariam em um candidato do PT de jeito nenhum”.

O PT fez três apostas erradas: Lula seria solto a tempo de disputar a eleição; se não fosse, transferiria seus votos para Haddad; e Bolsonaro era o adversário mais fácil de ser derrotado.

O voto útil manifesta-se no segundo turno de uma eleição quando o eleitor vota em um candidato para impedir que o outro ganhe. Em 2018, por pouco, Bolsonaro não foi eleito no primeiro turno.

Foi sobre o PT e a corrupção a eleição de 2018. A deste ano será sobre Bolsonaro e o seu desgoverno. Diante da fraqueza dos demais candidatos, o voto útil já está se manifestando.

Bolsonaro cresce; Lula começa a escorregar para baixo; os pesados ataques à sua imagem ainda não começaram. João Doria (PSDB) perde para a margem de erro de 2 pontos percentuais.

Presidente algum, desde que a reeleição passou a ser permitida aqui, jamais perdeu. Bolsonaro poderá ser o primeiro, ou a escrita se confirmará com a reeleição do pior governante da História.

Em uma democracia, mesmo nas vilipendiadas, cada povo tem o governo que merece. É uma questão de escolha.

A guerra de Putin na Ucrânia ainda pode fracassar

Foram quatro semanas que parecem ter sido uma eternidade. A invasão russa da Ucrânia em 24 de fevereiro de 2022 é, até agora, o dia mais sombrio do século 21 para a Europa. Desde aquele dia, pessoas, amizades e ilusões têm morrido na chuva de bombas russas. A velha ordem de paz para o continente também está morta. Como será a nova, ainda está para ser decidido.

Um primeiro balanço intermediário é amargo. Graças a amplas informações da inteligência americana, esta guerra não foi uma surpresa. Entretanto, a maioria dos especialistas ocidentais e também os líderes ucranianos esperavam apenas um ataque limitado no leste da Ucrânia e não uma invasão no estilo da Alemanha nazista, como ocorrido na Polônia em 1939.

Da perspectiva de hoje, é claro que Kiev deveria ter ordenado a mobilização e retirada geral da população muito mais cedo. Esse erro de avaliação se deveu também provavelmente ao fato de que a guerra que começou com a anexação da Crimeia em 2014 permaneceu regionalmente limitada. A maioria das pessoas na Ucrânia não tinha ideia do que significa ser brutalmente bombardeado. Eles subestimaram o perigo.

É difícil culpá-los por esse erro. Todos nós não queríamos acreditar que o presidente russo, Vladimir Putin, e seu Exército fossem capazes de tal barbaridade. Também a ideia de que a maioria dos russos aceitaria esta guerra era impensável para muitos. Mesmo depois de quatro semanas, ainda é difícil aceitar essa triste constatação.


Muitas análises ucranianas e ocidentais constatam que a blitzkrieg de Putin falhou. Moscou, por outro lado, diz que tudo está indo de acordo com o planejado. Mas guerras nunca vão de acordo com os planos dos generais. Naturalmente, o Kremlin esperava uma vitória mais rápida e menos perdas em suas fileiras. Mas é difícil acreditar que Putin realmente esperasse uma rendição dentro de poucos dias. A Ucrânia é simplesmente grande demais para isso.

O plano de guerra de Putin provavelmente é destruir lentamente o país vizinho – com base na premissa de que a Rússia tem mais soldados, mais armas e mais dinheiro.

Vestígios de esperança são raros no momento, mas eles existem. A constatação mais importante é que a Ucrânia pode parar e até mesmo deter o Exército russo, bem mais forte. Há duas razões para isso: antes de tudo, o espírito de luta ucraniano. Isso também se aplica aos civis, que, mesmo em áreas já ocupadas, como a cidade ucraniana de Kherson, se colocam no caminho de tanques russos com bandeiras ucranianas.

A segunda razão tem muitos nomes: por exemplo, Javelin, NLAW ou Stinger. São principalmente armas blindadas e sistemas antiaéreos que os EUA e o Reino Unido, mas também outros países da Otan, enviaram às pressas nas semanas que antecederam a invasão da Ucrânia. Sem essas armas defensivas, a Rússia já poderia ter ocupado uma área muito maior da Ucrânia.

Também depende disso a resposta para a questão sobre se a guerra de Putin ainda pode fracassar. Ela pode fracassar por causa do espírito de luta dos ucranianos, que, no entanto, precisam de muito mais apoio e, acima de tudo, de um apoio mais rápido. Em termos concretos, isso significa sanções econômicas ainda mais duras, um bloqueio completo do sistema SWIFT e um embargo imediato ao petróleo e gás russo.

Sim, isso é doloroso, mas, em vista do massacre na Ucrânia, necessário. Mas apoio também significa o envio de mais armas! Por razões compreensíveis, a Otan não quer abater aviões e mísseis russos nos céus da Ucrânia, a fim de evitar um confronto direto. Mas aeronaves de combate para as forças armadas da Ucrânia podem e precisam ser entregues, assim como os mais modernos sistemas de defesa antiaérea.

Não é uma decisão fácil. A Rússia está ameaçando o Ocidente com represálias e o uso de armas nucleares. Isso não é um blefe, o perigo é real. No entanto, o Ocidente deve ir por esse caminho − cuidadosamente, passo a passo. Quem pensa que Putin se contentará em destruir a Ucrânia e parar na fronteira ucraniana ocidental está enganado. O Ocidente deve finalmente reconhecer a dimensão desta guerra e agir de acordo.

quinta-feira, 24 de março de 2022

Bolsolão para principiantes

A palavra já existe há mais de um ano, mas ainda não tinha pegado. Volta agora com tudo: Bolsolão. O último —até este momento— escândalo de corrupção do governo Bolsonaro consagrará o termo, primo-irmão de dois anteriores que já constam dos dicionários, o mensalão e o petrolão. Neste momento, o Bolsolão está sendo protagonizado por dois ou três vigaristas amigos do presidente, acusados de desviar o dinheiro da merenda e das bolsas de estudos para fins outros. Mas o elenco promete aumentar —ou você acha que o único ministério que Bolsonaro reduziu a balcão de negócios é o da Educação?


À primeira vista, o Bolsolão é o esquema de sempre: farta distribuição do dinheiro público, dentro ou fora do Orçamento, ao alcance ou não do TCU, para compra de apoio político; cobrança de propina, às vezes ao peso de 1 kg de ouro; importação de produtos a preços hiperfaturados, como as vacinas sob Pazuello; prática imoral de lobby; obras sem licitação; vista grossa na fiscalização; e outros negócios de ocasião a cargo de gabinetes paralelos, abertos a pessoas estranhas ao serviço, mas íntimas do Planalto. A diferença é que, neste governo, uma parte das tramoias é feita em nome de Deus. A outra está à sombra dos órgãos de controle da União, todos na mão de Bolsonaro.

O Bolsolão já parece de tal monta que o célebre esquema da rachadinha, de pai para filho desde a primeira eleição de Bolsonaro para vereador em 1989, ainda será um dia chamada de Bolsolinho.

Há séculos na praça, estou habituado a ver o Brasil ser roubado, assaltado, defraudado, esbulhado e espoliado por espertos de todas as cores políticas. Mas nunca por gente de tão baixo nível quanto os que cercam Bolsonaro. Vamos torcer apenas para que, diante do que eles podem estar se preparando para nos roubar, antes queiram apenas o dinheiro.

Enquanto isso, bem-vindo, Bolsolão, ao Dicionário Brasileiro da Corrupção.

A confusão que favorece a tirania

Num artigo publicado no dia 11 de março no The Washington Post, a colunista Margaret Sullivan expôs com clareza singular uma das táticas mais insidiosas dos líderes autoritários. Especialista em mídia e imprensa, temas de suas colunas no Post, a jornalista demonstra que, para autocratas como Vladimir Putin, há algo de mais valioso do que fazer com que as pessoas acreditem neles: este algo de mais valioso é fazer com que as pessoas não acreditem em mais nada e em mais ninguém. Resumida assim, a fórmula parece um contrassenso. Como, afinal de contas, um tirano pode arregimentar apoio popular, se não faz por merecer a confiança irrestrita das multidões?

Antes de responder, lembremos que nós, aqui no Brasil, conhecemos de perto esse tipo de mando. Neste ponto, vamos nos afastar da linha de argumentação de Margaret Sullivan. Olhemos para o nosso país e vamos entender o contrassenso. Não temos aqui, nos trópicos, um sósia perfeito de Vladimir Putin, mas é inegável que anda nestas terras um personagem que almeja virar Putin quando crescer. Pois então: como é que esses sujeitos agregam seguidores?


Agora a resposta é fácil. Eles não ganham corações selvagens e mentes turvas porque se apresentem como cidadãos confiáveis, íntegros e de boafé. Definitivamente, não é assim que eles se apresentam. Eles mentem, e não precisam esconder que mentem. Eles mentem, todo mundo sabe que eles mentem, mas, como suas mentiras – às vezes cínicas, às vezes perversas – ostentam um potencial destruidor, é com eles mesmos que as falanges ressentidas cerram fileiras.

Líderes como Putin (e seus imitadores) não precisam ser dignos de crédito irrestrito. Eles não precisam construir laços baseados na verdade e na honradez da palavra – basta que se mostrem brutais o suficiente para destruir todas as instituições do saber e do conhecimento que florescem na democracia (como a universidade, a ciência, a justiça, as artes e a imprensa), pois, como não se cansam de repetir – e nisso seus adoradores acreditam fervorosamente –, essas instituições não passam de um amontoado de mentiras. Mentindo em nome de combater a mentira, eles arrebanham seus fiéis.

Para os tiranos, a prioridade não é conquistar a credulidade dos incautos, mas fazer com que o maior número de incautos não deposite mais um pingo de confiança em nenhuma instituição da democracia. Vieram para destruir. Seus apelos mais inflamados repousam não em projetos afirmativos, positivos, construtivos, mas na promessa de devastar qualquer resistência que encontrarem pela frente. É verdade que esses apelos costumam vir camuflados em retóricas aparentemente edificantes em torno de entidades mágicas como a “Pátria”, a “Grande Rússia”, “Deus”, “família” ou qualquer Shangri-lá que simbolize idílio ou virtude (sua fantasia de futuro é sempre a restauração de uma glória mística e militar que teria existido no passado), mas, no fundo, o que leva as sociedades a se entregarem a estes demagogos da força bruta é a paixão por dizimar o que, na democracia, tem parte com a verdade.

Voltemos, agora, à jornalista Margaret Sullivan. Ela nos lembra que a filósofa Hannah Arendt (1906-1975) já havia nos alertado, numa entrevista concedida há cinco décadas, para este truque maligno dos líderes autoritários. Em seu artigo A nova tática de controle da Rússia é aquela que Hannah Arendt apontou há cerca de 50 anos, ela recupera uma frase mais do que luminosa da pensadora alemã: “Se todo mundo sempre mente para você, a consequência não é que você acredite nas mentiras, mas sim que ninguém mais acredite em nada”.

É por isso que a indústria da desinformação a serviço dos regimes de força não se envergonha de espalhar falácias e fraudes. Ela não constrói credibilidade em ponto algum, não precisa disso, apenas semeia o descrédito generalizado. As fake news servem exatamente para incinerar as vias de acesso à verdade factual. O próprio conceito de verdade dos fatos vai se perdendo. As correntes de apoio ao presidente da República não falam em fatos, mas apenas em “narrativas”. Para elas, a verdade dos fatos não existe, só o que existe são versões. No credo das milícias virtuais, não há mais diferença entre juízo de fato e juízo de valor (entre fatos e opiniões). No lugar do pensamento objetivo e do debate racional, quem entra em cena é o fanatismo. Assim, a indústria da desinformação consegue, pouco a pouco, fazer com que, nas palavras de Hannah Arendt, “ninguém mais acredite em nada”.

Pronto: aí está o canteiro ideal para que modelos de inspiração fascista venham a florescer. “Com um povo assim”, dizia a filósofa (conforme lemos no artigo de Margaret Sullivan), “você pode, então, fazer o que quiser”. Se o povo se convencer de que todo enunciado que tinha o estatuto de verdade factual se reduz a impostura e manipulação, aclamará o primeiro maluco facínora que prometer atear fogo em tudo.

Logo, os pregadores das tiranias só precisam produzir confusão e mais confusão. O resto virá como consequência.

Refazendo a Amazônia

Cinco milhões e duzentos mil hectares da Amazônia, que se regeneraram depois de desmatados, não competem com a agricultura. Podem, portanto, ser destinados à restauração. Essa é a conclusão da nova pesquisa do Imazon, dentro da série de estudos Amazônia 2030. A descoberta dos pesquisadores é um passo adiante do estudo recentemente divulgado, mostrando que 7,2 milhões de hectares estão em processo avançado de regeneração. Com as políticas certas, esse renascimento ajudará o Brasil a cumprir as metas do Acordo de Paris e permitirá a muitos produtores resolverem seu passivo ambiental.

— O grande potencial da Amazônia para a restauração é a partir da vegetação nativa. E isso por quê? Porque as sementes estão sendo dispersadas, animais estão circulando entre fragmentos, isso cria um ambiente muito favorável. Em algumas áreas, claro, será necessária intervenção — explicou o engenheiro agrônomo e pesquisador do Imazon Paulo Amaral.


A boa notícia é essa capacidade de regeneração que a floresta ainda tem, apesar de já ter perdido 81,3 milhões de hectares, 20% de sua cobertura ao longo da história. Os pesquisadores seguiram um roteiro trabalhoso para achar essas áreas na floresta:

— Temos o banco de dados de todas as partes que eram florestas e não são mais. Aí pegamos essas áreas abertas e a partir de algorítimos e imagens de satélites identificamos o que havia sido ocupado por agricultura, conseguimos separar também o que era plantio de eucalipto e chegamos nessas áreas.

Foram ao todo 13 milhões de hectares — 13 mil km2 de floresta — que se refizeram depois do desmatamento. Mas os pesquisadores separaram as que tinham sido desmatadas em um prazo de até cinco anos, considerando que o produtor pode voltar a elas para plantar. Com seis anos e até 30 anos de abandono foram identificados 7,2 milhões de hectares.

— Aí separamos as áreas que tinham aptidão agrícola das que não tinham. São dois milhões de hectares que enfrentarão a pressão da produção agrícola. Por fim, chegamos a esses 5,2 milhões de hectares regenerados há mais de seis anos e sem pressão agrícola. Isso representa uma grande chance para o produtor, porque não há o custo de oportunidade, ou seja, o produtor não estará deixando de plantar ou criar gado porque a terra não é adequada para isso — explica a economista Jayne Guimarães, consultora do Imazon.

E a falta de aptidão que eles dizem é serem grandes declives, ou então Área de Preservação Permanente, como a beira dos rios, que não podem mesmo ser desmatadas. Depois de todas essas análises, os autores do estudo, além dos dois entrevistados, a pesquisadora Andréia Pinto e o consultor Rodney Salomão, foram conferir in loco.

— Fomos a campo para ver se aquilo que estávamos identificando nas imagens correspondia ao verificado no local. Confirmamos. Em muitos casos encontramos produtores que estavam com passivos ambientais, por terem desmatado mais do que podiam ou terem suprimido área de APP e vimos que eles, em muitos casos, já zeraram o passivo — diz Amaral.

Se tudo for mantido assim, o Brasil, que se comprometeu no Acordo de Paris a reflorestar, até 2030, 12 milhões de hectares sendo 8,6 milhões na Amazônia, poderá cumprir a meta facilmente. Mas antes terá que implementar uma série de políticas públicas que os pesquisadores recomendam.

Sugerem que haja um sistema de monitoramento de vegetação secundária. Que o governo retome o processo de validação do cadastro ambiental rural, que está parado. E retome os programas de regularização ambiental. Uma parte dessa regeneração ocorreu em terra pública não destinada, onde há os maiores ataques de grileiros, porque são públicas, mas não são Unidades de Conservação, tipo parque ou floresta nacional. É preciso definir a destinação dessas terras. Por fim, é necessário também definir o pagamento por serviços ambientais, principalmente para os outros dois milhões de hectares que têm aptidão agrícola e que ficam em áreas privadas.

Em 2017, o governo Temer lançou a Política Nacional de Recuperação de Vegetação Nativa (Proveg). “Além disso, o Código Florestal determina a restauração de áreas de floresta que foram suprimidas ilegalmente”, diz o estudo. O que os pesquisadores do Imazon mostram é que é possível cumprir essas metas. A Amazônia fez a maior parte do trabalho, renasceu depois de desmatada. Cabe ao Brasil fazer o resto.