sexta-feira, 20 de junho de 2025

Quer perguntar? Primeiro, peça licença

Nas democracias, os jornalistas gritam em conferências de imprensa. Querem que a sua pergunta seja ouvida – e respondida – e gritam.

É um pouco selvagem, mas é prática comum.

Vemos isso no Reino Unido, em França ou nos EUA, às vezes também em Portugal, mas pouco, e em todos os países com tradição e hábitos democráticos. Por contraste, nas ditaduras, das duas uma: não há perguntas ou, se há, são ordeiras, simpáticas e obedientes.

Esta semana, Chris Sommerfeldt, que “faz” Câmara Municipal de Nova Iorque para o tablóide Daily News – ou seja, cobre todas as reuniões de câmara e conferências de imprensa, tem fontes que vão do porteiro ao chefe de gabinete do mayor e procura notícias sobre a câmara todos os dias – tentou fazer uma pergunta a Eric Adams, presidente da câmara de Nova Iorque, e gritou:


– Se só pode escolher uma…

Conseguiu meia frase ou nem isso. O jornalista interrompeu o mayor e, em resposta, o mayor interrompeu o jornalista.

Adams tinha acabado de dizer que vai recandidatar-se como independente – e não como democrata – concorrendo com duas entradas no boletim de voto: End Anti Semitism e Safe & Affordable.

Tendo já sido debatido nos media nova-iorquinos o facto de a lei eleitoral do estado de Nova Iorque exigir que os candidatos tenham uma única linha no boletim de voto, o jornalista interrompeu e tentou fazer a tal pergunta.

Ao que o mayor respondeu:

– Estás a gritar muito, Chris – disse “com uma voz provocadora e cantada”, na descrição do New York Times. – Pára de gritar. Deves ter feito isso na escola.

Diz ainda o New York Times: “O Sr. Sommerfeldt tentou fazer a sua pergunta novamente. O Sr. Adams cortou-lhe a palavra. ‘Se ele voltar a fazer isso, não pode vir às nossas conferências’, disse o presidente da Câmara à sua equipa, acrescentando: ‘Não vai entrar nesta conferência, o meu off-topics, e ser desrespeitoso, e gritar, e pensar que faz o que quer. Se voltar a fazer isso, não passará por aquela porta.’ O Sr. Sommerfeldt tentou mais uma vez fazer a pergunta. ‘Ele fê-lo outra vez’, disse o Sr. Adams. ‘Certifiquem-se de que a segurança sabe que ele não pode voltar a entrar nesta sala.'”

Os off-topics são as conferências de imprensa de rotina sem tema fixo ou pré-anunciado, não servindo para comunicar políticas públicas ou comentar um acontecimento. É na rotina dos off-topics que os jornalistas podem perguntar aos políticos o que querem, sem serem cortados com um “não foi isso que nos trouxe aqui hoje”.

No fim da conferência de imprensa, Kayla Mamelak Altus, porta-voz de Adams, confirmou que Sommerfeldt está a partir de agora impedido de cobrir as conferências de imprensa de Adams. Disse que a proibição não afectava o Daily News em geral, mas Sommerfeldt em particular, que o jornalista fora banido por estar a “calling out”, a gritar perguntas, e a “falar por cima dos outros repórteres”, tendo sido “desrespeitoso”. Altus disse também que o seu objectivo é assegurar que todos os media têm igual acesso ao presidente da Câmara.

Pequeno problema: há três meses que Sommerfeldt levanta o braço para indicar que tem uma pergunta a fazer e há três meses que não lhe dão voz. As conferências off-topics de Adams são semanais – é fazer as contas. A fonte é o jornal, mas repórteres que cobrem a câmara e assistem às repetidas tentativas de Sommerfeldt fazer perguntas confirmaram.

Segundo problema: a porta-voz de Adams disse ao New York Times que não sabia que Sommerfeldt não tinha conseguido fazer nenhuma pergunta há três meses, mas a 5 de Maio houve uma pergunta numa off-topics na qual, justamente, isso lhe foi perguntado: porque é que a câmara não deixa Sommerfeldt fazer perguntas?

“Os nossos repórteres têm o direito a fazer perguntas e os contribuintes não estão a financiar a polícia para manter os repórteres fora das conferências de imprensa da Câmara Municipal”, disse Andrew Julien, director do Daily News. Numa carta dirigida ao presidente da Câmara, o Daily News Union, unidade do News Guild de Nova Iorque, pediu que Adams anule a proibição, disse que Sommerfeldt “estava a fazer o seu trabalho”, que o seu trabalho “não é ficar à espera que lhe dêem autorização para fazer perguntas” e que “a única pessoa que foi desrespeitosa” naquele dia foi Adams.

Um caso grave, mas isolado?

Terceiro problema: não é bem assim.

Em fevereiro, o Presidente Donald Trump abriu um novo capítulo na relação do políticos com os media quando baniu a Associated Press (AP), agência de notícias norte-americana, das conferências de imprensa na Sala Oval.

O bloqueio começou quando a AP continuou a escrever “golfo do México”, ignorando a ordem executiva de Trump que o mudou para “golfo da América”.

Em abril, num tribunal, a AP ganhou – com um juiz nomeado por Trump –, mas logo a seguir, e tendo sido derrotado, Trump mudou a política de acesso dos media à Casa Branca.

Agora, nenhuma das três agências de notícias tem lugar permanente na Sala Oval. A AP, a Reuters e a Bloomberg News passaram a fazer parte da pool de 30 media, incluindo jornais, podcasts, rádios e televisões, cujos lugares rodam.

Em teoria, poder-se-ia dizer que a mudança de Trump acolhe os novos media, mais digitais, alguns chamados “independentes”, e que isso é bom para a democracia.

O problema é que os supostos “independentes” têm-se revelado, sem surpresa, de uma simpatia extrema em relação a Trump. Não é só o facto de elogiarem o Presidente enquanto fazem perguntas nas conferências de imprensa. Grave é que não escrutinam, não verificam, não incomodam.

Um mundo com mais guerras e Trump

Guerra no Oriente Médio suscita discussões estereotipadas a respeito do preço do petróleo, além de especulações sobre a "escalada do conflito", hipótese debatida, no entanto, sob a perspectiva do impacto econômico. É fácil perceber que uma carestia grande e persistente de combustíveis causa dano econômico imediato.

É mais difícil discutir esta situação mundial em que há muito menos meios de contenção do risco de novas guerras muito perigosas —e logo. Torna-se frequente a menção ao uso de armamento nuclear, como voltou a fazer a Rússia, a respeito das consequências de um ataque americano contra o Irã. Trump agrava um estado de coisas degradado faz década e meia.


Pelo menos no núcleo ideológico ou na propaganda, o trumpismo e o MAGA seriam "isolacionistas". Isto é, a favor do corte do financiamento militar de aliados, enxugamento de bases militares no exterior e indiferença a guerras que não envolvam o interesse direto dos EUA.

O "isolacionismo", porém, não é empecilho para novos tipos de intervenções americanas (a anexação da Groenlândia apenas parece piada).

Isto posto, em menos de uma semana de guerra, Trump passou a insinuar que poderia atacar o Irã e matar o dito "líder supremo", Ali Khamenei. Nesta quinta, disse que pensaria melhor no assunto.

Boa parte do trumpismo continua a se opor a um ataque. Segundo pesquisa YouGov/Economist, 60% dos americanos e 53% dos republicanos também.

Um conflito descontrolado pode colocar (mais) areia na economia americana e na popularidade presidencial. São esses os riscos ponderados por Trump? De fora, vemos apenas o "reality show" a serviço do projeto de tirania e nenhuma estratégia de estabilização política do mundo —ao contrário.

O que sabemos faz mais tempo é que os limites do jogo de poder internacional se esfarelaram. Trump espalha essa farofa de maneira mais assustadora.

O conflito sino-americano intensificou o uso de armas econômicas na política: nacionalismo e política industrial nos EUA, restrições a exportações e a investimentos na China e outras sanções, o que não é novo, mas foi escancarado sob Trump. A China ataca e contra-ataca nos mesmos termos. Mais: nos comunicados em que relata negociações comerciais com os EUA, manda que não se metam em Taiwan.

A epidemia havia suscitado reações autárquicas (segurança de abastecimento e produção de bens ditos essenciais ou estratégicos). O ataque da Rússia contra Ucrânia reforçou a preocupação com segurança energética, mas não só (vide o medo brasileiro com o risco de ficar sem fertilizantes).

A Europa começa a se rearmar. O confisco das reservas russas pelo dito Ocidente (entre outras sanções) colocou mais barbas de molho. Para dar um exemplo rápido, a China passou a diminuir as reservas que mantém nos EUA.

Trump arruinou o sistema de regulação comercial mundial, que já vinha sendo detonado desde Barack Obama. Ameaça países recalcitrantes de boicotes econômicos e militares.

O salve-se quem puder na economia tem sido radicalizado (nunca deixou de ser assim). A ideia de ter mais autonomia militar ou de se juntar a um bloco bem armado é assunto forte outra vez. O rearmamento agrava problemas fiscais e, pois, prejudica crescimento e políticas sociais.

Dizer que as instituições multilaterais foram à breca é pouco. Não há concerto de países poderosos, acordo para colocar ordem no mundo, nem segundo os interesses deles.

Mundo das emoções

Primeiro, as pessoas não funcionam racionalmente e sim a partir de emoções. As pesquisas mostram isso. As pessoas não veem o noticiário para se informar, mas para se confirmar. Não vão ler algo de outra orientação cultural, ideológica ou política. A segunda razão para esse comportamento é que vivemos em uma sociedade de informação desinformada. Temos mais informação do que nunca, mas a capacidade de processá-la e entendê-la depende da educação e ela em geral, mais particularmente no Brasil, está em muito mau estado. 

Manuel Castells

Este foi o pior ano da história

Ouvimos frequentemente que tudo vai de mal a pior, especialmente quando falamos sobre o estado atual do mundo. Não é surpresa, então, que muitos considerem os piores momentos da humanidade como recentes, como 2020, com a pandemia da COVID-19. Ou, para quem para para pensar um pouco mais, anos devastadores antes, como 1914, com o início da Primeira Guerra Mundial; ou 1939, com a eclosão da Segunda Guerra Mundial. Ou, se você conhece mais história, quando a Peste Negra começou a devastar a Europa em 1347.

No entanto, o fascinante é que entre vários historiadores há um consenso sobre qual foi realmente o pior ano para se estar vivo: 536 d.C.

"Foi o início de um dos piores períodos para se viver, senão o pior ano", disse o historiador medieval Michael McCormick, da Universidade Harvard, à revista Science em 2018. E ele não está exagerando. Aquele ano marcou o início de uma catástrofe global que mergulharia o mundo na escuridão — literalmente —, no frio e no desespero por mais de um século.


Pieter Bruegel, o Velho pinta "O Triunfo da Morte" (1562)

Em um estudo publicado na revista Antiquity em 2018, McCormick e o glaciologista Paul Mayewski revelaram a causa desse desastre: durante a primavera daquele ano, uma erupção vulcânica colossal no Hemisfério Norte ejetou tanta cinza na atmosfera que o sol praticamente desapareceu. Por mais de um ano, uma densa neblina acinzentada bloqueou a luz solar, envolvendo a Europa, o Oriente Médio e grande parte da Ásia em uma penumbra constante.

Os pesquisadores chegaram a essas conclusões após analisar núcleos de gelo de geleiras suíças que continham partículas microscópicas de vidro vulcânico, que correspondiam quimicamente às rochas vulcânicas da Islândia.

O historiador bizantino Procópio, testemunha da época, descreveu o fenômeno de forma arrepiante: "Durante este ano, ocorreu o sinal mais terrível. Pois o Sol emitia sua luz sem brilho, como a Lua, durante todo o ano, e assemelhava-se completamente ao Sol eclipsado, pois seus raios não eram tão claros como de costume. E a partir do momento em que isso aconteceu, os homens não ficaram livres da guerra, nem da peste, nem de qualquer coisa que não levasse à morte. E isso aconteceu na época em que Justiniano estava no décimo ano de seu reinado."

Por sua vez, o senador romano Cassiodoro escreveu em uma carta de 538 d.C.: "O sol parece ter perdido sua luz habitual e tem uma cor azulada. Ficamos maravilhados por não vermos as sombras de nossos corpos ao meio-dia e por sentirmos como o poderoso vigor de seu calor se transforma em fraqueza."

As consequências foram devastadoras. As temperaturas despencaram — chegando a 2,5°C na Europa e na Ásia, como documentou o historiador de Oxford Miles Pattenden em The Conversation —, causando perdas totais nas colheitas e desencadeando uma fome implacável que se espalhou da Irlanda para a China, onde houve até registro de queda de neve em pleno verão.

Esta catástrofe não foi temporária: análises de anéis de árvores e camadas de gelo revelam que o que tornou 536 um ano particularmente terrível foi a cadeia de calamidades que se seguiu. Duas erupções vulcânicas adicionais, em 540 e 547, prolongaram esse período gélido, dando origem ao que os cientistas chamam de Pequena Era Glacial da Antiguidade Tardia, um fenômeno climático que durou mais de um século.

E como se um inverno vulcânico não bastasse, a situação piorou drasticamente cinco anos depois. Em 541, a peste bubônica chegou ao Egito, espalhando-se rapidamente por todo o Mediterrâneo, no que os historiadores hoje chamam de "Peste de Justiniano".

Segundo a IFL Science , essa pandemia devastou particularmente Constantinopla, o coração do Império Romano do Oriente, dizimando entre um terço e metade da população do império. Milhões de pessoas pereceram nas décadas seguintes, contribuindo significativamente para o declínio do outrora poderoso império.

Os efeitos desse desastre climático se estenderam muito além do Mediterrâneo. Segundo a IFL Science, nas condições mais frias e secas da Ásia Central, a diminuição das pastagens forçou diversas tribos nômades a migrarem para o leste, em direção à China. Esses movimentos migratórios levaram a conflitos e alianças que, surpreendentemente, contribuíram para a queda do Império Sassânida da Pérsia.

No entanto, nem todas as regiões foram negativas. Enquanto a Europa e partes da Ásia sofreram, a Península Arábica experimentou um aumento nas chuvas, tornando-se mais verde. Com os antigos impérios enfraquecidos e a península agora mais verde, as condições estavam maduras para a ascensão de uma nova potência. Assim, entre outros fatores, o Império Árabe emergiu no século VII, tornando-se uma das forças mais influentes da história.

Da mesma forma, pesquisas recentes revelam que as comunidades ancestrais Anasazi do sudoeste americano não apenas sobreviveram a esse período, mas emergiram mais fortes do que nunca.

Diante das duras condições climáticas, essas comunidades desenvolveram laços sociais e práticas cooperativas mais complexas que lhes permitiram não apenas sobreviver, mas também prosperar. Por exemplo, a prática de criação de perus domesticados, inicialmente limitada a Cedar Mesa e Grand Gulch, espalhou-se pela região por volta de 550 d.C., demonstrando como o conhecimento era compartilhado para diversificar as fontes de alimento.

O fascinante sobre o nosso conhecimento sobre o ano 536 é que a maior parte das informações não provém de fontes escritas tradicionais, mas sim de técnicas científicas modernas. A dendroclimatologia (o estudo dos anéis das árvores) e a análise de núcleos de gelo permitiram aos historiadores reconstruir este período com uma precisão impressionante.

Esta nova "ciência da história climática" está revolucionando nossa compreensão do passado, especialmente de períodos para os quais não existem registros escritos abundantes. Como aponta o dendroclimatologista Ulf Büntgen, os padrões de crescimento dos anéis das árvores revelam claramente as erupções vulcânicas de 536, 540 e 547.

Embora os habitantes de 536 provavelmente não soubessem que estavam vivendo "o pior ano da história", as consequências foram sentidas por gerações. Como Pattenden cita Thomas Hobbes em seu Leviatã, a vida muitas vezes foi "desagradável, brutal e curta", mas o ano de 536 se destaca mesmo nesta longa história de sofrimento humano.

No fim das contas, o ano 536 nos lembra que a humanidade enfrentou e superou catástrofes inimagináveis. À medida que navegamos pelos nossos próprios desafios modernos, podemos encontrar algum consolo no fato de que, pelo menos, nossos céus não foram escurecidos por uma enorme erupção vulcânica que mergulhou o mundo em 18 meses de escuridão. E se essas sociedades conseguiram encontrar maneiras de perseverar e, eventualmente, prosperar, talvez nós também consigamos.

Felipe Espinosa Wang

quinta-feira, 19 de junho de 2025

Pensamento do Dia

 


Ao atacar Bolsa Família, 'rei do ovo' mostra como pensa certa elite no Brasil

Conhecido como “rei do ovo”, Ricardo Faria gosta de acordar com as galinhas. Aos 50 anos, o bilionário desperta às quatro da manhã para se exercitar. Pratica musculação, tênis e beach tennis. “Adoro ganhar dos jovens de 20 e poucos”, gabou-se, em reportagem recente. O texto informa que ele tem dois aviões a jato e uma casa de R$ 75 milhões num condomínio de grã-finos em São Paulo.

Além de ostentar um estilo de vida atlético, o dono da Global Eggs é adepto do esporte de falar mal do Brasil. Em entrevista à Folha de S.Paulo, ele disse que o país estaria “ficando para trás”. Criticou o Judiciário, as leis trabalhistas e os programas de transferência de renda. “As pessoas estão viciadas no Bolsa Família”, declarou, culpando as políticas sociais por uma suposta dificuldade de contratar.

Faria não apresentou nenhum dado para sustentar as afirmações. Nem poderia. “As evidências mostram o contrário do que ele disse. Quando o Bolsa Família se expande, o emprego com carteira assinada cresce. E muita gente que não recebe o dinheiro passa a se beneficiar do aumento da renda de quem recebe”, afirma o economista Marcos Hecksher, do Ipea.

Em artigo recente, o pesquisador descarta a tese de um “efeito preguiça” sobre os beneficiários . “A hipótese de que o programa deixe as pessoas sem vontade de trabalhar não se sustenta. O que elas passam a rejeitar é o trabalho aviltante, o que é positivo”, diz. Segundo a plataforma de empregos Indeed, um operador de produção da Granja Faria, que pertence ao dono da Global Eggs, ganha em média R$ 1.670 ao mês.

Além de estimular o emprego formal, o Bolsa Família ajudou a erradicar a fome, reduzir a pobreza e manter crianças na escola. Por isso conquistou prêmios internacionais e ganhou o apoio do Banco Mundial, que ajudou a adaptá-lo para outros países.

As críticas do “rei do ovo” revelam menos sobre os pobres do que sobre a cabeça de certo tipo de empresário brasileiro. Na entrevista à Folha, Faria se disse contrário ao projeto de reforma do Imposto de Renda, que prevê isentar quem recebe até R$ 5 mil e cobrar uma taxação mínima dos mais ricos. Citado na lista da Forbes, o bilionário ressalvou que não falava em causa própria. Como bom patriota, ele transferiu sua residência fiscal para o Uruguai.
Bernardo Mello Franco

O golpismo corre nas veias

Sentado no banco dos réus, Jair Bolsonaro tentou, mas não há como fingir que os ataques à democracia partiram apenas dos “malucos” que o apoiam – como ele se referiu aos incautos que se dispuseram a enfrentar sol e chuva em defesa de seu plano golpista – nem os minimizar como arroubos retóricos. Em recente entrevista ao jornal Folha de S.Paulo, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), do alto de sua condição de primogênito do ex-presidente, escancarou com brutal naturalidade aquilo que sempre esteve na raiz do bolsonarismo: o desprezo contumaz pelo Estado Democrático de Direito e a disposição para atacar as instituições republicanas até por meios violentos, quando necessário.


O “zero um” usou a entrevista para transmitir recados aos que pretendem receber o apoio político do pai na eleição presidencial de 2026. Segundo o senador fluminense, o compromisso com a concessão de um indulto a Jair Bolsonaro – indicação de que a família assume que não há defesa jurídica capaz de livrar o chefe de uma condenação à prisão – é o mínimo que Bolsonaro espera receber em troca da unção. O “fulano ou fulana”, como disse Flávio, que pretende obter o apoio político do réu no pleito do ano que vem precisará ir “muito além disso”. Considerando que o Supremo Tribunal Federal (STF) decerto julgará inconstitucional um eventual indulto a Bolsonaro, o ungido deverá mostrar publicamente disposição para “brigar com o STF” e, inclusive, para fazer “uso da força”, se for preciso.

Ao que tudo indica, Bolsonaro entrou em modo desespero ao se ver premido pelas circunstâncias jurídica e política que o cercam, uma intimamente ligada à outra. À medida que seu destino penal fica cada vez mais claro, vale dizer, a condenação criminal pela tentativa de golpe e a manutenção de sua inelegibilidade, mais os partidos de centro e de direita que pretendem se opor à candidatura lulopetista em 2026 caminham em direção à independência do bolsonarismo. Os movimentos políticos nesse sentido são evidentes. Ademais, por mais que Flávio tenha se esforçado para dizer que o debate sobre a anistia aos golpistas “está mais vivo do que nunca”, na realidade ninguém mais em Brasília trata como séria a perspectiva de avanço de uma agenda que, como ficou claro, interessa apenas a Bolsonaro e a rigorosamente mais ninguém.

A chantagem explícita – condicionar o apoio político de Bolsonaro à concessão de um indulto juridicamente descabido e a um compromisso de confronto violento com o STF – não é apenas mais um atentado à ordem constitucional sustentada, entre outros pilares, pela separação de Poderes. É uma declaração de guerra à própria democracia brasileira. A desfaçatez com que o sr. Flávio Bolsonaro disse o que disse mostra que o senador não traiu a genética: o golpismo corre nas veias da família. São declarações de evidente desdém pelos limites institucionais estabelecidos pelo regime democrático.

Não chega a ser uma novidade, pois sempre que as leis e as instituições contrariaram os interesses do clã Bolsonaro, as “saídas”, digamos assim, cogitadas passaram, necessariamente, por intimidações, ameaças e movimentos de ruptura. A rigor, a entrevista de Flávio Bolsonaro dá sequência a uma longa trajetória de desrespeito do bolsonarismo à ordem democrática. Recorde-se da infame história pública do mau militar, mau deputado e mau presidente, passando pela ameaça feita por Eduardo Bolsonaro, ainda em 2018, sugerindo que bastariam “um soldado e um cabo” para fechar o STF, até a cogitação de um golpe de Estado em 2022, culminando na Ação Penal 2.668, ora em curso.

Ainda assim, é inaceitável que um senador da República, em pleno exercício do mandato, articule um discurso de enfrentamento violento às instituições republicanas, particularmente o STF, como fez o sr. Flávio Bolsonaro na entrevista à Folha. A sociedade brasileira não pode normalizar o golpismo escancarado em português cristalino, nem muito menos ceder a chantagens de quem coloca os interesses mesquinhos de sua família acima da estabilidade social, política e econômica do País.

A era trump e o negacionismo tecnoregulatório

Passou na Câmara dos Deputados dos Estados Unidos uma emenda que literalmente proíbe por 10 anos qualquer tipo de regulação de IA pelos estados. Isso se soma a outras três notícias do início deste ano, aparentemente sem relação entre si, mas que revelam um desafio urgente para todos que desejam uma internet mais segura, igualitária e democrática: chamarei este desafio de negacionismo tecnoregulatório. A primeira notícia é que os Estados Unidos, sob o governo Donald Trump, se recusaram a assinar uma declaração internacional pelo desenvolvimento de tecnologias de inteligência artificial que sejam “éticas”, “abertas”, e “inclusivas”.

A segunda, é que a Alphabet, empresa controladora do Google, desfez a sua promessa de não desenvolver tecnologias de IA capazes de criar “danos coletivos”, como IAs para armas destruição e vigilância em massa. E a terceira é que Elon Musk, no uso das atribuições que seu novo cargo no governo dos EUA lhe confere, cortou o financiamento do Escritório de Proteção Financeira e do Consumidor (CFPB na sigla em inglês) – agência do governo norte-americano que teria capacidade de fiscalizar e regular o X ante os novos objetivos de Musk de transformar a rede social em uma plataforma integrada de transações 

Os fatos acima são reveladores da aliança explícita entre o governo Trump e as gigantes de tecnologia dos EUA – aliança esta que parece beneficiar estas últimas, dentre outras maneiras, ao criar um suporte institucional-político-ideológico contra qualquer tipo de regulação democrática das tecnologias digitais. É o negacionismo tecnoregulatório.


O termo negacionismo tem sido usado para descrever a atitude – comum à extrema-direita – de desacreditar realidades que põem em risco toda a humanidade (especialmente os grupos mais vulneráveis), com o objetivo de impedir ações políticas concretas que minimizem ou impeçam os danos – mas que também vão de encontro a interesses político-econômicos específicos. É o caso do negacionismo climático, que fez Trump sair do acordo de Paris pela segunda vez. E o negacionismo sanitário, que fez políticos de extrema-direita ao redor do mundo (inclusive Bolsonaro, no Brasil) se oporem às medidas protetivas na pandemia de Covid-19. O próprio Trump, seguido por Javier Milei (da extrema-direita argentina), saiu da Organização Mundial de Saúde (OMS) – órgão que ganhou protagonismo na definição de medidas sanitárias durante a pandemia.

O novo negacionismo tecnoregulatório trabalha para desacreditar a constatação de que os desenvolvimentos tecnológicos atuais trazem consigo riscos para a humanidade, para as democracias, para as classes menos favorecidas e para as minorias étnicas e identitárias. As redes socioeconômicas, ideológicas e políticas que fazem esta negativa persistente de lidar com a realidade de maneira ética, responsável e sustentável podem ser reveladas pela análise da associação entre três fatores preexistentes: o solucionismo tecnológico, o tech backlash e a disputa geopolítica entre EUA e China. Falarei um pouco de cada um deles.

Para salvar tudo, clique aqui, é o título do artigo de Evgeny Morozov, pesquisador bielorusso que popularizou o termo “solucionismo tecnológico”. Ele trata da crença imbricada na sociedade contemporânea, pela qual o desenvolvimento tecnológico, por meio da inovação constante e conectividade digital generalizada, seria sempre a solução para os problemas que afligem os humanos. Isto seria parte de uma propaganda ideológica que ajudou na expansão acrítica das lógicas econômicas e mercadológicas que alimentam as gigantes de tecnologia.

O solucionismo tecnológico é um pressuposto retórico da lógica mais ampla de plataformização que, vulgarmente falando, seria o processo pelo qual tudo na vida é resolvido por um aplicativo disponível num smartphone. Reescreveria o título do citado artigo de Morozov assim: para salvar tudo, use este dispositivo móvel e baixe este app.

É esta a associação mais visível aos nossos olhos do processo que fez a humanidade ficar cada vez mais imbricada em sistemas sociotécnicos que produzem dados digitais que alimentam algoritmos de inteligência artificial e fluem sempre na direção dos servidores de um mesmo grupo pequeno de empresas de tecnologia: as gigantes do acrônimo GAFAM (Google, Alphabet, Facebook, Amazon e Microsoft).

Estas corporações compõem uma teia mais ampla de infraestruturas, políticas, retóricas, interfaces, termos de uso, entre outros atores, que ao mesmo tempo em que incentivam, se alimentam de uma realidade básica: a circulação de dados digitais. Tais dados são o principal motor de mais inovação, imbricando mais tecnologias no mundo social, que produz mais dados e assim por diante…

Já o termo “tech backlash” ou “big-tech backlash” foi popularizado pelo jornalismo especializado para definir a ascensão de um senso crítico maior ao processo descrito anteriormente. Desde meados de 2016 surgiram casos como o da Cambridge Analytica, esquemas de desinformação, polarização e ataques à democracia. Além disso, críticas a questões de privacidade, vigilância e trabalho precário mediados pela economia de plataformas digitais começaram a circular na sociedade. Esta “virada de chave” em parte relevante e influente de setores da sociedade no modo de ver as tecnologias digitais, levou a pressões institucionais para regular as plataformas digitais e as realidades mediadas pelas mesmas (trabalho, produção de conteúdo, distribuição de informação, comércio etc.). É isto que se convencionou chamar de tech backlash. Não é a antítese do solucionismo tecnológico, mas sua ressignificação ativa. Eu diria que a própria popularização da obra de Morozov faz parte das forças em associação no tech backlash. Isto fez as principais empresas de plataformas entrarem em posição de batalha para parar com a expansão de arcabouços regulatórios que limitassem seus modelos de negócio.

Para não perder o fio da meada entre ataques e contra-ataques, já posso afirmar que o negacionismo tecnoregulatório seria a busca por desconstrução ativa do tech backlash. Não apenas desconstrução em termos retóricos, mas em termos institucionalmente sensíveis: como o desmonte de agências fiscalizatórias, a saída de acordos regulatórios e o bloqueio de novas regulações. Para isso, é necessário uma influência forte nas instituições de Estado, especialmente daquelas com maior poder fiscalizatório sobre as principais gigantes de tecnologia: o governo dos EUA.

É aí que entra o terceiro nó de relevância para compreender esta rede: a disputa geopolítica entre EUA e China. Este desafio para os EUA supera e precede os quereres da administração Trump. É a disputa geopolítica de nossa era, revelada pelo primeiro discurso de Anthony Blinken como Secretário de Estado do governo Joe Biden, em 03/03/2021, quando expressou:

(..) A China é o único país com o poder econômico, diplomático, militar e tecnológico para desafiar seriamente um sistema internacional estável e aberto – todas as regras, valores e relações que fazem o mundo funcionar da forma que queremos, porque isso em última instância serve aos interesses que refletem os valores do povo americano.

Sem entrar no mérito do discurso, visto que os próprios EUA têm representado ameaças à estabilidade e abertura do sistema internacional, o que ele revela é que a disputa de influência econômica, diplomática, militar e tecnológica entre EUA e China é uma realidade séria para eles. E que eles estão dispostos a mobilizar recursos e energia política nesta disputa. A retórica da administração Trump contra a China é ainda mais radical. Nessa disputa, a corrida pelo desenvolvimento de inteligências artificiais mais eficientes é um campo de batalha essencial. Corneliu Bjola, professor de estudos diplomáticos da Universidade de Oxford, afirma que a revolução digital em andamento altera profundamente todas as dimensões da política internacional. Para ele, a habilidade de atores estatais e não-estatais de empregar métodos digitais de produção e análise de dados para prever e gerar eventos é de tanta relevância estratégica como o poderio militar. Vladimir Putin, em 2017, disse que aqueles que se tornarem líder no campo da inteligência artificial se tornarão os “governadores do mundo”.

Ao tratar da não-assinatura do acordo sobre IA em Paris, o vice-presidente dos EUA, JD Vance, disse aos delegados que um excesso de regulamentação da IA poderia “matar uma indústria transformadora justamente quando ela está decolando”. Esta ideia de que “a regulação atrasa a inovação” é central do argumento do negacionismo tecnoregulatório. E se a inovação é um imperativo geopolítico estratégico na disputa com a China, o argumento torna-se ainda mais forte. Se a regulação de IA atrasa a inovação, a regulação de IA é uma ameaça na disputa com a China. A moratória de 10 anos para regulação de IA é o resultado político-institucional mais forte do negacionismo tecnoregulatório até o momento.

Importante salientar, que o adjetivo tecnoregulatório enfatiza não apenas o fato de que é um negacionismo que busca negar as regulações democráticas, mas inclui a defesa de outro tipo de regulação. O adjetivo democráticas é necessário, pois é precisamente este o tipo de regulação que se busca evitar. Pois aquilo que não é regulado por lei, está sendo disciplinado pelas lógicas embutidas nas tecnologias. Um dos principais poderes das plataformas digitais está em sua capacidade de passar a mediar amplos setores da sociedade até que regular seus efeitos seja um desafio com custos sociais e políticos impossíveis de serem ignorados. Mas enquanto os efeitos não são regulados, seus termos de uso, interfaces, políticas de privacidade, modelos de negócio e algoritmos regulam a sociedade em sentido amplo. As tecnologias e corporações redefinem as lógicas socioeconômicas em busca da reprodução de suas lógicas mercantis. A busca por evitar regulação, de forma contraditória, é uma corrida sobre quem (ou o que) vai exercer maior poder regulatório sobre o mundo: se é a sociedade ou se são os oligopólios de tecnologia.
Walmir Estima

Difícil dizer algo sobre o golpismo

Não estamos testemunhando um processo destinado a esclarecer um crime comum, urdido e cometido por marginais; estamos atônitos assistindo ao supremo magistrado da nação ser acusado de tramar contra o regime democrático que ele jurou preservar e, numa lambuja cruel, seus auxiliares mais próximos e poderosos como chefe de gabinete, ministros e, pasmem, comandantes das Forças Armadas e de órgãos de inteligência.

Que dizer numa crônica desse espetáculo vergonhoso, negado pelo negacionismo ideológico dos asseclas e mal-educados apoiadores?

É elite governamental envolvida num inexequível golpe de Estado “dentro das quatro linhas”, um projeto que é cabível somente na cabeça de quem transcende os limites da racionalidade e acha possível acender velas a Deus e ao diabo. Algo, aliás, típico do nosso adoentado sistema político.


Acresce a tudo isso um relator que muitos pintam como promotor, mas que, nos seus interrogatórios, arrola documentos, declarações e reuniões reveladoras de índoles e anseios antidemocráticos dos golpistas gorados, confirmados nas desculpas evasivas e inermes dos interrogados.

As inquirições podem desagradar aos golpistas, mas não se pode negar seu nível de competência, num contraste fulminante com as pífias performances dos acusados e com a pusilanimidade de seu herói.

O que tenho visto nesse vergonhoso evento, que, infelizmente, não é o único de nossa História, corta o coração de um velho como eu. E envenena o dos jovens e de quem pensava a História como progressiva, mas verifica que, no Brasil, ela marcha para trás.

Graças à nossa estadomania, à estadofilia e à estadopatia, “fomos” tudo: reino, monarquia, República Velha e Nova, ditadura e duríssimo regime militar. Só nos falta legalizar o ladravaz salvacionismo populista.

São múltiplas as motivações da trama golpista. Polarização, anistias, urna eletrônica como instrumento de roubo eleitoral, populismo salvacionista, nacionalismo estatizante contra iliberalismo.

Mas o que tenho testemunhado e aqui discutido é o avacalhamento das responsabilidades coladas nos cargos públicos por ocupantes que não honram seus encargos e suas demandas de impessoalidade, seja por malandragem, seja por motivos políticos. O poder à brasileira matou a dialética entre cargos e encargos, e assim escalamos canastrões para cargos públicos cruciais, pondo em risco a democracia e a própria confiança no país. Sem o enlace entre pessoa e papel, cargos públicos como o de presidente correm o permanente risco de ser ocupados por canastrões e perdem sua legitimidade como instrumentos de transformação coletiva.

O que dizer, pois, desses rituais em que valentes viram pusilânimes, senão reafirmar que o mundo vive uma enorme incoerência destrutiva? Prova cabal dessa incoerência é o indefensável, contraditório e inexecutável golpe “dentro das quatro linhas”.

Quando o cão louco morde: Netanyahu, o Iran e o império que o alimenta

Há momentos na história em que a diplomacia morre com um gemido, não com um estrondo. Mas, desta vez, pode morrer com ambos. Israel, embriagado por décadas de agressões impunes, agora se lançou do abismo da irresponsabilidade militar, arrastando seus facilitadores americanos e o Oriente Médio em geral para mais um capítulo de caos. O alvo dessa nova birra sionista? O Irã — uma nação de 90 milhões de habitantes com memória de sobra, mão firme e notável tolerância a provocações. Até agora.

Por mais de um ano, o Irã exerceu algo que beira a santa contenção. Enquanto ataques aéreos israelenses incendiavam Damasco, assassinos espreitavam nas ruas de Teerã e misteriosas "falhas técnicas" afetavam a infraestrutura iraniana, a República Islâmica não mordeu a isca. Poderia ter retaliado uma dúzia de vezes, e com razão.

Mas, em vez disso, optou por manter o barril de pólvora regional seco, ao mesmo tempo em que se envolvia em negociações sérias e de boa-fé com os Estados Unidos sobre seu programa nuclear. Dizer que o Irã era o adulto na sala não é um elogio — é uma condenação de todos os outros presentes.

Mas Netanyahu, o primeiro-ministro israelense cada vez mais instável, cruzou a linha final. Jatos israelenses atingiram território iraniano diretamente, em uma escalada chocante que revela toda a extensão da insanidade de Tel Aviv. Não se tratou de uma resposta a uma ameaça. Foi a ameaça. Um Estado de apartheid com armas nucleares acaba de lançar ataques preventivos contra um Estado sem armas nucleares engajado em diplomacia.

Mesmo para os baixos padrões de belicosidade israelense, isso é desequilibrado.

O mundo deveria estar gritando. Mas o mundo, mais uma vez, está em silêncio — porque Washington é cúmplice. Como sempre.

Deixemos de lado as ilusões: a política externa de Israel não é defensiva. É expansionista, supremacista e governada por um impulso messiânico de dominar a região militarmente, enquanto se faz de eterna vítima diplomaticamente. Seja em Gaza, na Cisjordânia, no Líbano, na Síria ou, agora, no Irã, o modus operandi é o mesmo: instigar, provocar, atacar primeiro, protestar e esperar uma ovação de pé no Capitólio.

Esse padrão não é novo. Mas o que é novo é a escala e a audácia da agressão israelense. O que começou como uma guerra genocida em Gaza — que já dura mais de vinte meses — se transformou em uma campanha regional de desestabilização.

Na Síria, Israel bombardeia aeroportos e infraestruturas impunemente. No Líbano, aproxima-se lentamente de uma guerra com o Hezbollah, na esperança de arrastar o país para um conflito devastador. E agora, o impensável: guerra aberta contra o Irã.

A estratégia de Netanyahu não é apenas imprudente; é suicida. Mas, como muitos ideólogos perigosos, ele não se importa em arrastar o mundo consigo. Seu cálculo é simples: provocar o Irã até que ele retalie, depois gritar "ameaça existencial" e exigir intervenção americana. É um jogo cínico e arriscado, que só funciona porque Washington joga junto.

Alguém poderia pensar que, depois do Iraque, Líbia e Afeganistão, os Estados Unidos teriam aprendido uma coisa ou duas sobre os custos da lealdade cega às fantasias de segurança israelenses. Mas aqui estamos de novo: o Pentágono acena com a cabeça, o Congresso aplaude e o presidente murmura algo sobre "o direito de Israel de se defender", como se o Irã tivesse decidido aleatoriamente se bombardear e culpar Tel Aviv por diversão.

O governo Biden, assim como seus antecessores, optou por terceirizar a política externa dos EUA no Oriente Médio para um etnoestado de direita com mentalidade de bunker. E embora os Bidenistas tenham, por vezes, parecido menos entusiasmados do que os neoconservadores da era Trump, suas ações (ou inações) dizem muito. Cada bomba israelense lançada em solo iraniano ou árabe é aprovada, financiada e protegida pelos EUA na ONU.

Mas não se engane — Trump dificilmente é uma alternativa. A ideia de que Donald Trump, a personificação do fracasso em controlar impulsos nos tuítes, diga a Netanyahu para se retirar é ridícula. Trump há muito tempo ostenta seu servilismo à direita sionista como um distintivo de honra. Da mudança da embaixada dos EUA para Jerusalém ao reconhecimento da anexação de terras sírias por Israel, passando pela aprovação de tudo o que Netanyahu deseja, exceto o ataque nuclear a Teerã, Trump provou ser mais um bobo da corte do que um comandante.

E, no entanto, ironicamente, Trump poderia ser a única figura americana com influência pessoal sobre Netanyahu suficiente para acalmar os ânimos — se não estivesse completamente comprometido pelos mesmos neoconservadores que um dia fingiu desprezar. Seus instintos esporádicos de desescalada são sempre esmagados pelos sussurros de Kushner e companhia. Portanto, não aposte que Donald se tornará a pomba.

Isso nos deixa com o Irã — ainda de pé, ainda sóbrio. É um país que foi demonizado, sancionado, infiltrado e atacado, mas ainda insiste em um caminho negociado para o futuro. Sua liderança deixou claro, repetidamente, que busca energia nuclear, não armas nucleares. Isso não é mera retórica; está codificado no próprio documento que os Estados Unidos outrora defenderam: o Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP), que o Irã assinou décadas atrás e que Israel ainda se recusa a reconhecer.

O Irã cumpriu suas obrigações mais do que qualquer outro Estado na região. O próprio órgão de fiscalização nuclear da ONU confirmou consistentemente o cumprimento dos acordos nucleares pelo Irã — até, é claro, os EUA rasgarem unilateralmente o JCPOA sob o governo Trump, sob aplausos de Netanyahu.

Mesmo depois dessa traição, o Irã se ofereceu para retornar ao acordo. Esperou. Negociou. Tolerou assassinatos de seus cientistas. Suportava a guerra econômica. E, ainda assim, esperou.

Não mais.

A recente resposta militar do Irã à agressão israelense não foi impulsiva nem desproporcional. Foi o ponto final lógico de uma campanha de um ano de paciência, que foi recebida com violência. A mensagem era clara: Israel não atacará mais sem consequências.

E embora a mídia ocidental seja rápida em exagerar nas "provocações" iranianas, vale lembrar que o Irã nunca atacou outro país sem provocação na história moderna. Israel, por outro lado, faz disso um esporte.

A questão agora é: quem pode controlar Netanyahu?

O primeiro caminho é teórico: Trump lhe diz para parar. Mas isso exigiria que Trump fosse politicamente independente e intelectualmente coerente — duas características que ele nunca demonstrou simultaneamente. É muito mais provável que ele jogue mais armas em Israel enquanto se parabeniza por "trazer a paz".

O segundo caminho é brutal, mas real: uma derrota militar tão inegável que o mito da dissuasão de Israel se desfaça. Essa derrota poderia vir de uma frente coordenada de atores estatais como o Irã e a Síria, ou de atores não estatais como o Hezbollah, cujo arsenal e experiência superam em muito qualquer coisa que o exército israelense tenha enfrentado nos últimos anos.

Uma perda real — não apenas em relações públicas ou no tribunal da opinião global, mas também no campo de batalha — pode ser a única língua que Tel Aviv entende. Só então seus líderes poderão reconsiderar a sensatez da guerra perpétua como ideologia nacional. Até lá, o cão raivoso continuará mordendo, e o império continuará fingindo ser um cachorrinho incompreendido.

Isto não é um apelo à guerra, mas um alerta sobre onde termina a diplomacia unilateral. A trajetória atual é insustentável. Israel não pode continuar a bombardear todos os vizinhos que resistem à sua hegemonia, ao mesmo tempo que exige que o mundo o veja como uma democracia sitiada. Não se pode esperar que o Irã absorva agressões para sempre sem retaliar. E os Estados Unidos não podem continuar fingindo ser um árbitro neutro enquanto financiam e armam um lado até os dentes.

O Oriente Médio está sendo empurrado para o abismo — não pelas ambições nucleares do Irã, mas pela sensação de impunidade de Israel e pela dependência dos Estados Unidos em padrões duplos. O verdadeiro perigo não é que o Irã desenvolva uma bomba; é que Israel continue agindo como se já tivesse usado uma.

A ironia, claro, é que o único ator que demonstra alguma racionalidade, alguma contenção, algum desejo de estabilidade regional a longo prazo é aquele mais demonizado nas capitais ocidentais. O Irã, com todas as suas falhas e complexidades, agiu como um adulto em uma sala cheia de incendiários.

Mas até os adultos perdem a paciência. E quando isso acontece, a história não se importa com quem alegou ser a vítima — ela só se lembra de quem acendeu o fósforo.

quarta-feira, 18 de junho de 2025

Pensamento do Dia

 


I.ntimidade A.rtificial

Em 2013, o filme Her (Ela) foi nomeado para mais de 100 galardões, e ganhou vários. Contava a história de um homem que se apaixonava por uma namorada virtual (um “operating system”). À data, parecia um filme de ficção científica, que explorava as implicações filosóficas das nossas interações com a tecnologia, o que é amor e o que é ser humano.

Dez anos depois, a app Character.AI tem mais de 20 milhões de utilizadores diários, que, em média, passam duas horas online trocando mensagens com o seu amigo ou namorado virtual. A app Replika divulga ter mais de 30 milhões de utilizadores permanentes, que, em média, trocam 70 mensagens por dia com a sua “personagem”.

No filme, os companheiros virtuais partem, abandonando os humanos, que consideram emocional e intelectualmente limitados. Não deixa de ser um final feliz, ao obrigar-nos a aceitar a imperfeição das relações humanas. Imperfeitas, mas verdadeiras. Mas o mundo real não é Hollywood e, em 2024, um rapaz de 14 anos – Sewell Setzer – nos Estados Unidos, suicidou-se para “se juntar” à sua namorada virtual. Os promotores destas apps afirmam contribuir para resolver o problema da solidão nas sociedades modernas. No entanto, estudos realizados por entidades independentes como MIT (Massachusetts Institute of Technology) demonstram que a utilização diária destas apps agrava sentimentos de solidão e torna os seus utilizadores menos sociáveis. É natural. O “companheiro virtual” não julga, está sempre presente, é sempre gentil.


Não admira. O seu modelo de negócio é cobrar uma subscrição, vender espaço publicitário e obter os dados dos utilizadores para os vender a terceiros. Para isso, há que assegurar o máximo tempo de utilização da app. O “companheiro virtual” não gosta de nós, nem está empenhado no nosso bem-estar.

Não tem sentimentos, mas parece ter…

E assim, ainda Alice não tinha sido capaz de retornar do “país das maravilhas”, que são as redes sociais, e já mergulhou num mais perigoso e viciante, onde agora já não é apenas a nossa atenção que é sequestrada, mas a nossa intimidade.

Trocamos o esforço de fazer e manter amigos e cultivar relações saudáveis com colegas e familiares por um “mentor”, “amigo”, “namorado” que não nos contraria nem nunca se sente negligenciado. A quem pedimos conselhos, recomendações, conforto moral para os dilemas que nos assolam e inclusive prazer sexual (de acordo com informação divulgada, sexo é o segundo tópico mais abordado).

O Regulamento da Inteligência Artificial proíbe “sistema de IA que explore vulnerabilidades de uma pessoa singular (…) devid(o) à sua idade, incapacidade ou situação socioeconómica específica, com o objetivo ou o efeito de distorcer substancialmente o comportamento dessa pessoa”. Naturalmente, não é possível afirmar que as empresas criadoras de AI companions visam distorcer comportamentos, mas não o fazem? Ou não existe, pelo menos, um perigo sério de o fazerem? O regulamento também obriga a medidas para gerir risco elevado de um sistema ter repercussões negativas em menores de 18 anos ou pessoas vulneráveis. No entanto, as AI companion apps estão disponíveis e desconhece-se que medidas de gestão do risco foram implementadas.

Nos EUA, os pais de Sewell Setzer interpuseram uma ação por produto defeituoso. Numa decisão preliminar, o juiz veio admitir o processo, depois de a AI companion ter alegado que não vendia um produto, mas um serviço e que estava protegida pela Primeira Emenda da Constituição. Uma vitória neste processo seria um primeiro passo para uma efetiva responsabilização das empresas pelos produtos que desenvolvem.

No entretanto, estejamos alerta, por nós e pelos que nos rodeiam, para não substituirmos uma relação humana – com os seus desafios – por um papagaio eletrónico, que nunca nos visitará quando estamos doentes, não nos apresentará à nossa alma gémea nem nos recomendará para um emprego. A vida é aqui e agora, no mundo real.

Trump e Musk põem ideia de progresso em xeque

O homem mais rico do mundo, Elon Musk, entrou em choque com o homem mais poderoso do mundo, Donald Trump. Uma semana depois, fizeram as pazes. Mais que o conteúdo da divergência, interessa perguntar que mundo é este, em que são simultaneamente o mais rico e o mais poderoso.

É um mundo tecnológico e cientificamente sem paralelo na História da humanidade. Eles discordam do ritmo da conquista de Marte. Ambos dispõem de redes sociais próprias e nelas se comunicam com milhões com um movimento de dedos.


No entanto são dois egos inflados, prontos para um embate juvenil porque se consideram grandes demais para o espaço que ocupam. A noção das imensas responsabilidades pareceu desaparecer diante do orgulho ferido.

O que isso diz sobre o mundo, se é que diz? Parece que o imenso avanço científico não significou amadurecimento emocional. Pelo contrário, passa uma sensação de que estamos regredindo.

Quando penso em imperadores como Adriano e Marco Aurélio, estadistas como Churchill e De Gaulle, combatentes como Ho Chi Minh e Nelson Mandela, sinto Trump como um milionário brincando de governar. Ele constrói muros no lugar de pontes, reaviva prisões fora do país, como a de Guantánamo, transforma países em presídio, como El Salvador, e ressuscita a prisão de Alcatraz.

A campanha contra os imigrantes mostra algo muito sério: Trump caminha para um roteiro autoritário, conhecido na História, mas que representa um abalo na democracia americana.

Famílias são separadas pela polícia, pessoas são detidas no caminho da igreja, um dançarino brasileiro com dez anos de trabalho nos Estados Unidos perde sua licença, estudantes são proibidos de entrar, países inteiros não têm mais acesso a visto, cientistas deixam o país.

Tamanha insensatez só poderia provocar as reações que começaram na Califórnia e tendem a se estender. Parece que Trump esperava por isso para acionar tropas federais, passando por cima de governadores.

Um das formas de explicar Trump é a análise da conjuntura mundial, o exame do peso da imigração e o resultado das políticas ocidentais, suscitando o avanço da extrema direita.

Mas, às vezes, suspeito que há algo transcendendo às conjunturas, algo que é uma característica humana pronta a renascer em cada momento histórico. Essa suspeita me leva aos livros de Primo Levi, um escritor e cientista italiano que ficou preso em Auschwitz. Refletindo sobre sua experiência no campo de extermínio, ele acha que a raiz do mal reside numa assimetria inseparável da vida.

Da mesma forma, segundo ele, que a ciência pode ser usada com fins destrutivos, a racionalidade humana contém o germe que pode engendrar violência mortal. Auschwitz era a derrocada absoluta da razão, ao mesmo tempo que havia uma metódica organização racional no funcionamento do campo.

Neste momento, o homem mais poderoso do mundo persegue imigrantes que foram, parcialmente, o dínamo da grandeza de seu país. O homem mais rico do planeta comandou a política que retirou a ajuda americana ao mundo, ameaçando a saúde e a segurança alimentar de milhares de crianças.

Enquanto Trump chamava o outro de louco, e Musk insinuava que seu adversário é pedófilo, minha pegunta é bastante singela: o que queremos dizer quando falamos em progresso?

Essa reflexão não pode negar as imensas conquistas materiais e culturais dos Estados Unidos. Mas reacende a dúvida de que algo estava contido em seu modo de vida que acabaria resultando nesses dois personagens que ocupam o topo da pirâmide nacional.

Talvez a resposta seja mesmo a de Primo Levi: uma assimetria inseparável da vida. Como detectá-la? Como combatê-la? Primo Levi já morreu, e as perguntas seguem no ar.

ChatGPT, aquele agente russo

A Agência de Pesquisa da Internet, a agência russa de desinformação fundada por Yevgeny Prigozhin em São Petersburgo, tornou-se infame por usar contas falsas para semear a divisão política e manipular a opinião pública em países como os EUA. A estratégia do Pravda, o novo ecossistema de propaganda e desinformação do Kremlin, é “inundar” os mecanismos de busca para que os modelos de inteligência artificial (IA) sejam “treinados” com informações falsas. Como disse o propagandista John Mark Dougan em uma conferência para autoridades russas em Moscou: “Ao divulgar essas narrativas russas a partir da perspectiva russa, podemos mudar a inteligência artificial globalmente.”


A dificuldade é mínima. Por um lado, as plataformas digitais desmantelaram seus departamentos de verificação de conteúdo e pararam de financiar os externos. Por outro, as empresas de IA coletam conteúdo da internet de forma tão indiscriminada para treinar seus modelos que imagens de violência bruta e abuso sexual infantil escapam da rede. Um terceiro argumento é que as narrativas do Kremlin e da Casa Branca estão tão alinhadas quanto durante a campanha presidencial de 2016. Mas agora as empresas que criam os modelos de IA estão trabalhando para Donald Trump.

Talvez seja por isso que modelos de IA estejam envenenando os protestos anti-imigração que começaram em Los Angeles e agora se espalham para 50 estados. Grok e ChatGPT juram que a foto real e verificada de soldados da Guarda Nacional dormindo no chão durante os protestos do primeiro fim de semana é do Afeganistão ou do Capitólio em 2021. E que a imagem de uma pilha de tijolos empilhados que um varejista de ferragens malaio postou online anos atrás era munição que Soros havia deixado para os manifestantes do fim de semana atirarem contra as autoridades policiais e de imigração. Ambas parecem confirmar a falsa narrativa de que os protestos são violentos e secretamente financiados e equipados por misteriosas facções externas como Soros e outros setores do Partido Democrata.

Fundado em abril de 2022, o Pravda mantém centenas de domínios repletos de notícias falsas direcionadas a diferentes países ao redor do mundo, incluindo a Espanha, onde espalhou algumas das principais farsas sobre o Dana e o grande apagão de 28 de abril em espanhol, catalão e basco. Por exemplo, que o apoio à Ucrânia deixou a ajuda a Valência sem fundos, ou declarações falsas de Ursula von der Leyen atribuindo o apagão a um ataque cibernético russo, 23 minutos após o apagão geral.

De acordo com um relatório do American Sunlight Project, mais de 3,6 milhões dos artigos publicados pelo Pravda no ano passado foram digeridos por grandes chatbots ocidentais. “Ao inundar os resultados de busca e os mecanismos de busca com desinformação pró-Kremlin, a internet está distorcendo a maneira como os grandes modelos de linguagem processam e apresentam notícias e informações”, observa o relatório. O NewsGuard descobriu que, em um terço dos casos, chatbots da Microsoft, Google, OpenAI, You.com, xAI, Anthropic, Meta, Mistral e Perplexity reciclam argumentos apresentados pelo Pravda e os regurgitam externamente.

Nós os usamos para pesquisar, entender e traduzir coisas, para fazer terapia e para saber o que está acontecendo no mundo, mas os modelos de IA são tão vulneráveis a campanhas de desinformação quanto um Gymbro no Telegram de Alvise. Eles são os novos canais de massa de desinformação.

Verdade

O que está acontecendo em Gaza se encaixa na definição de genocídio, uma tentativa de destruir um grupo como tal.
Omer Bartov, professor de estudos sobre Holocausto e genocídio na Universidade Brown, nos Estados Unidos

Que o Irã não nos faça esquecer Gaza

Há 30 anos que Benjamin Netanyahu desejava uma guerra entre Israel e o Irã. Desde que se tornou líder do Governo, pela primeira vez, em 1996, o primeiro-ministro israelita sempre assentou carreira e discurso contra a possibilidade da República Islâmica do Irão de possuir armas nucleares. Um relatório da Agência Internacional de Energia Atómica que acusava Teerão de não cumprir as suas obrigações de não-proliferação nuclear, e o consequente argumento da ameaça existencial que daí poderia decorrer, uma nova ronda de negociações entre EUA e Irã, os crescentes protestos contra a ocupação e as atrocidades cometidas em Gaza ou na Cisjordânia e a cimeira que a França se preparava para organizar em nome da solução dos dois Estados criaram a conjuntura para os ataques unilaterais de sexta-feira.

Como faz quando se sente acossado, Netanyahu optou por uma fuga para a frente. Com os ataques de surpresa, Israel abortou as negociações de um eventual acordo sobre o desenvolvimento de energia nuclear iraniana, como sempre fez quando negociações para um cessar-fogo em Gaza registavam algum avanço. O que fica por saber é até onde vai a anuência do Presidente dos EUA, que queria aquele acordo, depois de desmantelar um acordo semelhante que tinha herdado de Barack Obama, aos planos do primeiro-ministro israelita. Daniel Shapiro, embaixador dos EUA em Israel de 2011 a 2017, disse à Foreign Affairs que Donald Trump teria pedido mais tempo a Netanyahu para negociar e que este se tinha recusado a ceder. A ser verdade, não é um grande indicador sobre a capacidade de influência de Trump e da política externa dos EUA, que tem estado à prova no Médio Oriente.


O Irão fez saber que estava disponível para aceitar um acordo que impeça o país de adquirir armas nucleares, caso isso signifique terminar com esta guerra, e Israel prometeu massacrar Teerão e aconselhou a população a deixar a capital. Trump tentará forçar um acordo nuclear como o Irão para acabar com esta guerra?, perguntava-se esta segunda-feira no Haaretz. O homem que foi eleito para terminar as guerras que com ele em Washington não teriam começado não fará mais do que galhofar na sala oval ou no G7, onde se recusou a contribuir para atenuar a dimensão do conflito. Já antes, o secretário de Estado Marco Rubio dissera o que se esperava do posicionamento dos EUA. Basicamente, a mensagem é: não estamos envolvidos nos ataques e não é nada connosco. Trivial. Muito MAGA.

Netanyahu vai aproveitar a oportunidade que lhe dá o Presidente dos EUA, distraído com o orgulho da parada militar em dia de festa de aniversário, e tentar aplicar ao regime do Irã que fez ao Hezbollah ou ao Hamas: a decapitação das cúpulas militares e políticas. E continuar com o seu plano de reconfiguração do Médio Oriente, depois das derrotas iranianas irremediáveis em Gaza, Líbano ou Síria.

Esta guerra preventiva, como lhe chama Israel, para prevenir que outra possa acontecer, é um paradoxo. É mais um atentado ao direito internacional. Israel demonstrou com estes ataques a capacidade de infiltração e de neutralização que já tinha exibido nos seus ataques ao Hezbollah. Mas este crescendo militar israelita não irá trazer os reféns de Gaza de volta, dificilmente acabará com as ambições e possibilidades iranianas de enriquecerem urânio, o que se seguir à eventual queda do regime dos ayatollahs será uma incógnita, e a única certeza é que Benjamin Netanyahu prolongará a sua vida política. Não é certo que o que move Netanyahu seja a segurança dos seus cidadãos. Caso o regime iraniano sobreviva, teremos um cenário mais bélico do que nunca, uma crise petrolífera, na certa, e quiçá o envolvimento dos EUA, o que talvez seja o próximo desejo de “Bibi”, o que é pouco MAGA.

Esta fuga para a frente significa uma guerra contra uma teocracia que não respeita os direitos civis de ninguém, e em particular das mulheres, e que tem sido um apoio determinante na propagação do terrorismo e no esforço de guerra russo na Ucrânia. Mas a simpatia que Israel poderá obter por enfrentar um regime nada simpático aos nossos olhos ocidentais não nos pode fazer esquecer os crimes e a catástrofe de Gaza. Caso isso aconteça, será uma das façanhas de Netanyahu: fazer com que Israel deixe de ser o Estado pária que deve ser, por causa dos crimes de guerra praticados naquele território, com a fome a ser usada como uma arma de guerra, e a fomentar uma milícia palestiniana para combater o Hamas, e passe a ser o aliado em apuros, a vítima a precisar de ajuda para enfrentar um regime condenável.

Como refletir sobre o que está acontecendo com o Irã e Israel

O ataque em larga escala de Israel à infraestrutura nuclear do Irã na sexta-feira ) precisa ser adicionado à lista de guerras marcantes que remodelaram o Oriente Médio desde a Segunda Guerra Mundial e que são conhecidas apenas pelas suas datas —1956, 1967, 1973, 1982, 2023— e agora 2025.

É cedo demais, e as possibilidades são tão variadas, para dizer como o jogo de nações do Oriente Médio será alterado pelo conflito Israel-Irã de 2025. Tudo o que posso dizer agora é que tanto a possibilidade extremamente positiva —de que isso inicie uma reação em cadeia que acabe derrubando o regime iraniano e o substituindo por um governo mais decente, secular e consensual— quanto a possibilidade extremamente negativa —de que isso incendeie toda a região e envolva os Estados Unidos— estão na mesa.


Entre esses extremos ainda existe uma possibilidade intermediária — uma solução negociada —, mas talvez não por muito tempo. O presidente Donald Trump tem usado o ataque israelense de forma astuta para, na prática, dizer aos iranianos: "Ainda estou disposto a negociar um fim pacífico para seu programa nuclear, e vocês podem querer fazer isso rápido —porque meu amigo Bibi (como também é conhecido Netanyahu) é L-O-U-C-O. Estou esperando seu telefonema."

Diante desse leque de possibilidades, o melhor que posso oferecer a quem acompanha de casa são as variáveis principais que acompanharei para determinar qual dessas —ou alguma outra que eu não consiga prever— será o desfecho mais provável.

1) O que torna esse conflito entre Irã e Israel tão profundo é a promessa de Israel de continuar a luta até eliminar a capacidade do Irã de fabricar armas nucleares — de uma forma ou de outra.

O Irã provocou isso, acelerando fortemente seu enriquecimento de urânio para níveis próximos aos de armamento. Começou a disfarçar esses esforços com tanta agressividade que até a Agência Internacional de Energia Atômica declarou na quinta-feira que o Irã não está cumprindo suas obrigações de não proliferação —a primeira vez em 20 anos que a agência faz tal declaração. Israel já apontou sua arma para o programa nuclear iraniano várias vezes nos últimos 15 anos, mas em todas recuou no último momento, seja por pressão dos EUA, seja por dúvidas internas —o que torna impossível exagerar o que está acontecendo agora.

2) A grande dúvida técnica que tenho é se os bombardeios israelenses às instalações nucleares iranianas, como Natanz —que está enterrada profundamente no subsolo— causaram impacto suficiente para danificar as centrífugas usadas no enriquecimento de urânio, superando seus amortecedores, e tornando-as inoperantes, ao menos por um tempo. No mínimo, é provável que o ataque israelense tenha bombardeado as entradas das instalações subterrâneas, atrasando seus trabalhos. O porta-voz do Exército israelense disse que Israel causou danos significativos a Natanz, sua maior instalação de enriquecimento, mas não está claro o que aconteceu com Fordo, outra instalação semelhante.

Se Israel conseguiu danificar o projeto nuclear iraniano o suficiente para forçar ao menos uma paralisação temporária nas operações de enriquecimento, isso já representaria um ganho militar importante, justificando a operação.

3) O que me interessa tanto quanto isso é o impacto que esse conflito pode ter na região —particularmente sobre a longa e maligna influência do Irã sobre o Iraque, o Líbano, a Síria e o Iêmen, onde Teerã nutriu e armou milícias locais para controlar indiretamente esses países e impedir que se aproximassem de governos consensuais e pró-Ocidente.

Remover essa mão morta do Irã de cima desses regimes —um processo que começou com a decisão do premiê Binyamin Netanyahu de decapitar e incapacitar a milícia Hezbollah— já gerou dividendos no Líbano e na Síria, onde novas lideranças pluralistas assumiram o poder. Ainda são frágeis, mas têm uma esperança —inclusive no Iraque— que não existia antes. E a saída da esfera de influência iraniana tem sido amplamente popular entre seus povos.

4) Uma coisa que sempre me impressionou em Netanyahu é sua habilidade estratégica como jogador no teatro regional, e sua incompetência estratégica como jogador local frente aos palestinos. No campo regional, sua mente está em geral livre de amarras ideológicas e políticas. Mas, como jogador local, especialmente na Faixa de Gaza, suas decisões são dominadas por sua necessidade de sobrevivência política pessoal, seu compromisso ideológico em impedir um Estado palestino sob qualquer condição e sua dependência da extrema direita para se manter no poder. Por isso, atolou o Exército israelense no pântano de Gaza —um desastre moral, econômico e estratégico— sem nenhum plano para sair de lá.

5) Se você está se perguntando como esse conflito pode afetar seus investimentos para a aposentadoria, o ponto principal a observar é se o Irã tentará desestabilizar o governo Trump ao tomar ações que façam o preço do petróleo disparar —e provoquem inflação no Ocidente. Por exemplo, o Irã pode afundar petroleiros no Estreito de Hormuz ou enchê-lo de minas marítimas, efetivamente bloqueando as exportações de petróleo e gás. Só essa possibilidade já está pressionando os preços para cima.

6) Como a inteligência israelense sobre o Irã é tão boa a ponto de localizar e matar seus dois principais líderes militares, além de outros oficiais seniores? Claro, o Mossad e a unidade de cibercomando da NSA israelense, a Unidade 8200, são excelentes no que fazem. Mas, se você quiser saber o verdadeiro segredo, assista à série Teerã da Apple TV+. Ela ficcionaliza o trabalho de uma agente do Mossad em Teerã. O que você aprende com a série — e que é verdade na vida real — é que muitos agentes iranianos estão dispostos a trabalhar para Israel por odiarem seu próprio governo. Isso facilita muito o recrutamento dentro do alto escalão do governo e das forças armadas iranianas.

Essa realidade não só oferece vantagens diretas, como os alvos precisos do ataque de sexta-feira, como também gera uma vantagem indireta para Israel: toda vez que líderes militares e políticos do Irã se reúnem para planejar algo contra Israel, cada um precisa se perguntar se a pessoa ao lado não é um agente israelense. Isso desacelera bastante o planejamento e a inovação.

Somado a isso, o líder supremo do Irã acabou de ver seus dois principais generais serem assassinados —o chefe do Estado-Maior das Forças Armadas e o comandante da Guarda Revolucionária. Ele certamente sabe que Israel pode eliminá-lo também. Portanto, deve estar escondido em algum bunker profundo, o que também atrasa as decisões.

7) Se Israel fracassar nessa empreitada —e fracasso aqui significa o regime iraniano conseguir se recompor e continuar tentando construir uma arma nuclear e controlar capitais árabes—, isso pode levar a uma guerra de atrito entre os dois Exércitos mais poderosos da região. Isso tornaria o Oriente Médio ainda mais instável, gerando crises no fornecimento de petróleo e possivelmente levando o Irã a atacar regimes árabes pró-EUA e tropas americanas na região. Isso deixaria o governo Trump sem escolha a não ser intervir, provavelmente com o objetivo não apenas de encerrar a guerra, mas de derrubar o regime iraniano. E aí, quem sabe o que pode acontecer?

Por fim, ao contrário do que faz em Gaza, Israel fez questão de evitar matar muitos civis iranianos, porque quer que a população direcione sua raiva contra o regime por desperdiçar tantos recursos com armas nucleares —e não contra Israel.

Falando em inglês num vídeo logo após o ataque, Netanyahu se dirigiu diretamente ao povo iraniano: "Não odiamos vocês. Vocês não são nossos inimigos. Temos um inimigo em comum: um regime tirânico que os oprime. Há quase 50 anos, esse regime os roubou da chance de uma vida melhor."

Os iranianos não vão se inspirar em Netanyahu, mas não há dúvida de que esse já era um regime impopular — e ninguém pode prever o que acontecerá agora que foi humilhado militarmente por Israel. Há apenas três anos, o regime clerical do Irã prendeu mais de 20 mil pessoas e matou mais de 500 — algumas executadas— para reprimir um levante popular que explodiu após a "polícia da moralidade" deter a jovem Mahsa Amini, 22, por não cobrir totalmente os cabelos com o véu obrigatório. Ela morreu sob custódia.

Olhando para frente, duas lições da história são importantes: regimes como o do Irã parecem fortes —até que deixam de ser— e podem cair rapidamente. E, no Oriente Médio, o oposto da autocracia nem sempre é a democracia. Pode ser o caos prolongado. Então, por mais que eu queira ver esse regime cair, é preciso cuidado com os pilares que desabam.

segunda-feira, 16 de junho de 2025

Pensamento do Dia

 


A difícil decisão de Trump: manter o discurso contra novas guerras ou dar apoio total a Israel?

Se fosse necessário apontar o maior erro de política externa cometido pelos EUA nas últimas décadas, seria o excesso de recursos e energia dedicado ao Oriente Médio – simbolizado pela desastrosa invasão do Iraque em 2003. A guerra não apenas desestabilizou toda a região e negativamente afetou a reputação dos EUA no mundo, mas também desviou a atenção de Washington do que realmente representa seu principal desafio estratégico: o deslocamento do poder global em direção à Ásia e a ascensão da China.


Essa percepção explica por que todos os governos americanos depois de George W. Bush, independentemente de sua orientação ideológica, buscaram reduzir seu papel no Oriente Médio – especialmente considerando que os EUA tornaram-se independentes em termos energéticos em 2019, sendo hoje os maiores produtores de petróleo do mundo.

De fato, há anos a China, e não os EUA, é o principal comprador de petróleo da região. Ainda assim, apesar do “Pivot to Asia” (algo como “Redirecionamento estratégico para a Ásia”) anunciado por Obama e das tentativas posteriores de alcançar um grande acordo regional – como a negociação frustrada pelo governo Biden entre Israel e Arábia Saudita –, os EUA continuam muito mais envolvidos geopoliticamente no Oriente Médio do que qualquer outra grande potência.

Para o ex-presidente dos EUA, Joe Biden, o Oriente Médio foi palco de seu maior fracasso de política externa. Ele não conseguiu resolver a tensão entre dois objetivos centrais: oferecer proteção e “apoio ferrenho” a Israel e, ao mesmo tempo, estabilizar o Oriente Médio para poder reduzir o engajamento americano e concentrar-se na Ásia.

Em retrospectiva, fica evidente que, ao oferecer apoio praticamente irrestrito ao governo Netanyahu – líder de uma coalizão instável, sustentada por partidos de extrema direita, e determinado a permanecer no poder para evitar o enfrentamento de múltiplas acusações de corrupção –, Biden acabou incentivando uma postura desestabilizadora do primeiro-ministro israelense no Oriente Médio, minando os esforços dos EUA para reduzir sua presença na região.

DILEMA. Agora, Donald Trump enfrenta o mesmo dilema. Netanyahu aposta que os EUA apoiarão Israel de forma incondicional no confronto direto com o Irã, o que ajuda a explicar por que o governo israelense optou por uma decisão tão arriscada.

Os EUA já estão exercendo um papel crucial para defender Israel contra ataques de mísseis iranianos. A grande questão é se Trump será levado a se envolver ainda mais no conflito. É justamente isso o que alguns líderes do Partido Republicano vêm pedindo.

Em 13 de junho, o senador Lindsey Graham afirmou que, caso a diplomacia fracasse, ele acredita firmemente que seria do interesse da segurança nacional dos EUA “investir totalmente para ajudar Israel a concluir o trabalho” – isto é, destruir o programa nuclear iraniano –, algo que Israel não tem capacidade militar de fazer sozinho.

Da mesma forma, Bill Ackman, investidor e influente aliado de Trump, defende que os EUA “não deveriam deixar passar essa oportunidade, mas Israel não tem o equipamento e os armamentos necessários para concluir o trabalho ( destruir o programa nuclear do Irã)”. “Nós temos”, concluiu.

Como aponta Gideon Rachman, colunista do Financial Times, Trump talvez tenha calculado que poderia usar Israel para pressionar o Irã a desistir de seu programa nuclear. No entanto, agora o presidente dos EUA pode se dar conta de que foi Netanyahu quem o utilizou – arrastando os EUA para uma guerra que o presidente diz querer evitar.

Trump enfrenta uma decisão difícil: manter o discurso de não envolvimento em novas guerras, tão caro a uma parcela de sua base eleitoral, ou optar por apoio total a Israel, como defende o senador Lindsey Graham. Caso bases americanas na região sejam atingidas pelo Irã – hipótese que não pode ser descartada – Trump terá pouco espaço político para resistir à pressão por uma resposta militar mais direta.

Para os EUA, uma escalada neste momento significaria desviar novamente foco e recursos para o Oriente Médio – além de produzir desgaste junto à base trumpista, contrária a novas intervenções militares. Essa distração, fruto da falta de clareza estratégica dos EUA, beneficiaria a China, que vem ampliando sua influência econômica no mundo. O fantasma das últimas décadas, com o Oriente Médio distraindo os EUA de seu “grande jogo” na Ásia, volta a rondar.

Mais um precipício para rasgar vidas no Oriente Médio

O belo, a arte, a ciência importam quando bombas começam a cair? Foi em torno desse tema que o escritor irlandês C.S. Lewis, autor, entre outras, das “Crônicas de Nárnia”, deu memorável palestra na Universidade de Oxford em 1939, às vésperas da Segunda Guerra. Lewis escapara por milagre de uma trincheira coalhada de cadáveres no conflito anterior (1914-18), portanto conhecia o horror de mortos a granel. Ainda assim, ou talvez por isso mesmo, respondeu afirmativamente à pergunta que nada tinha de estapafúrdia.

— A vida humana sempre foi vivida à beira do precipício — lembrou ele na ocasião.

Se esperássemos pela paz para criar arte, a primeira pintura rupestre ainda não teria sido feita. Tampouco a busca do conhecimento teria começado se aguardássemos estar em segurança plena.

— Isso não é brio, é nossa natureza — ensinou.

A célebre troca de cartas entre Sigmund Freud e Albert Einstein sobre as causas e possíveis soluções para guerras, promovida pela Liga das Nações em 1932, apenas confirmou que o bicho-homem não sabe viver sem elas. Enquanto Einstein concentrou sua extensa argumentação nas estruturas sociais e políticas do mundo, Freud pôs o foco nos conceitos de Eros (pulsão da vida) e Tânatos (pulsão da morte), para concluir que a agressividade é uma característica universal e atemporal do ser humano. Pensava que, na melhor das hipóteses, podemos canalizar essa agressividade para formas de contendas menos destrutivas.

Pelo jeito, nem isso. Cá estamos, em pleno 2025, com mais um precipício rasgando céus e vidas no Oriente Médio. Ao contrário da esfera da medicina, em que cirurgias eletivas e cirurgias obrigatórias são primos distantes, em confrontos bélicos as duas coisas se misturam: o país atacante costuma alegar questões de sobrevivência da nação para empreender guerras eletivas. É o caso do precipício desencadeado pela Rússia de Vladimir Putin contra a Ucrânia e da metódica asfixia da vida civil em Gaza por parte das Forças de Defesa de Israel (FDI).

De início, o argumento do governo de Benjamin Netanyahu para esmagar o viver palestino em Gaza foi vingar as atrocidades cometidas pelo Hamas na fatídica manhã de 7 de outubro de 2023 — em apenas poucas horas, os terroristas haviam trucidado indistintamente 1.217 crianças, jovens, velhos, civis e militares que foram encontrando. Aniquilar o Hamas e libertar os 251 reféns capturados pelos palestinos era a prioridade oficial. A meio caminho da empreitada, contudo, Netanyahu passou a chamar a invasão militar de Gaza de “questão de sobrevivência para Israel”. Hoje, decorridos 618 dias de ferocidade contra o que resta de vida possível em Gaza, a justificativa da “ameaça existencial” soa apenas o que é — cínica e criminosa. Nem guerra é.

A blitzkrieg israelense desencadeada na madrugada de sexta-feira para abortar a capacidade nuclear do Irã, de seus mísseis balísticos e — por que não? — o regime dos aiatolás tem alguma lógica interna — sobretudo se você chefia o governo mais extremista-ortodoxo da História de Israel. Com essa cartada, Netanyahu joga o tudo ou nada de sua carreira.

Embora o ataque não tenha sido propriamente inesperado, o aniquilamento do topo da cadeia de comando militar iraniano surpreendeu. Os preparativos clandestinos duraram oito meses e chegaram a visar à eliminação de 25 cientistas ligados ao programa nuclear. O sistema de defesa antiaérea iraniano parece ter sido neutralizado já na primeira salva. O alvo maior, contudo — as instalações nucleares, algumas das quais construídas a mais de 500 metros de profundidade —, pode exigir alargamento da guerra. Alargamento em tempo, em recursos, em riscos e em insânia inerente a guerras.

Por enquanto, a intriga maior se refere ao grau de envolvimento do governo americano na trama. Como se sabe, há meses o negociador-chefe do presidente Donald Trump vinha alimentando um diálogo com emissários iranianos para um hipotético acordo de desnuclearização. Assim, à primeira vista, Netanyahu parecia ter assumido sozinho o papel de belicoso-mor. A primeira nota oficial do governo americano sobre o ataque, divulgada pelo chanceler Marco Rubio, chegou a falar em “ação unilateral” de Israel, sugerindo possíveis reticências e ausência de consulta prévia ao grande irmão.

Será? Poucas horas após o início do ataque, Barak Ravid, um dos mais bem informados jornalistas sobre Oriente Médio, escreveu no site Axios que duas fontes israelenses lhe confiaram ter sido tudo coordenado entre Jerusalém e Washington. Um mero despiste bem-sucedido.

— Eu vi guerras — escreveu em 1936 o então ocupante da Casa Branca Franklin D. Roosevelt. — Eu vi guerras em terra e no mar. Eu vi sangue escorrendo dos feridos. Eu vi homens tossindo seus pulmões gaseados. Eu vi mortos na lama. Eu vi cidades destruídas. Eu vi 200 homens mancando e exaustos saindo da trincheira, eram sobreviventes de um regimento de mil que avançou 48 horas antes. Eu vi crianças morrendo de fome. Eu vi a agonia de mães e esposas. Eu odeio a guerra.

Continuamos vendo guerras. Mas continuamos a fazer arte.
Dorrit Harazim

O eterno espírito das universidades

O ataque de Trump às universidades americanas, maioria no rol das melhores do mundo, é sintoma forte do neofascismo transnacional. Não foi adiante no período de Bolsonaro, mas exerce controle total na Hungria de Orban. Pode ser característica de toda autocracia, porém tem mais a ver com fascismo do que com nazismo ou stalinismo, apesar do sinistro parentesco entre os três.

Suscita-se uma hipótese de vingança pessoal de Trump contra as altas instituições de ensino, de onde provém a elite dirigente dos EUA. Não só oito presidentes foram formados na Ivy League, núcleo de excelência universitária, assim como professores, economistas e cientistas, sempre nas pautas do Prêmio Nobel. Obama graduou-se em Harvard. Trump, embora proveniente da Ivy League (onde nunca foi benquisto), é produto de show televisivo. Respira e transpira banalidades, mas soube navegar no vácuo de credibilidade do elitismo: desde Truman, o povo americano descobriu que seus líderes eram grandes mentirosos. A verdade sobre as guerras inúteis do Vietnã e do Iraque não foi revelada aos jovens por governos, mas pela imprensa e pelas universidades.

O neofascismo trumpista constrói-se na mentira aberta, sem descambar no neonazismo. É que o nazismo como programa político "tinha uma teoria do racismo e do arianismo, uma noção precisa da entartete Kunst, a ‘arte degenerada’, uma filosofia da vontade de potência e do Übermensch. O nazismo era decididamente anticristão e neopagão" (Umberto Eco, "Fascismo Eterno"). O fascismo, ao contrário, sem bases filosóficas nem controle ideológico real, articulava-se emocionalmente em torno de arquétipos tradicionais. Houve só um nazismo, mas vários os fascismos.

Duas características do velho fascismo permitem identificar o novo: oposição ao avanço do conhecimento e ação irracional do chefe. Em Trump, o açodamento da guerra comercial e ameaças de conquistas territoriais. Depois, universidades como alvos de alegações infundadas, dentre as quais o antissemitismo. Ele finge desconhecer participação de judeus nas manifestações contra o massacre em Gaza e agora a própria revolta interna em Israel.

Na realidade, o ambiente universitário no mundo todo é conservador. Não exatamente de direita, mas de valores universalistas derivados de um sistema de ideias. Isso comporta uma diferenciação estrutural, processo pelo qual a estrutura de ensino se abre ao surgimento de institutos e laboratórios. Para tanto é imprescindível o avanço do saber, logo, liberdade de pesquisa e opiniões. Manifestações estudantis e docentes são o epifenômeno desse espírito libertário, sujeito ao debate.

Nenhuma comunidade de saber é possível num sistema educativo à distância nem em universidades-empresas. Isso não significa que o conhecimento esteja restrito às universidades. Mas, entre nós, as instituições públicas são fontes de ensino aliadas à produção de conhecimento. Vivem na corda bamba de orçamentos mesquinhos e cortes drásticos, em meio à farra de emendas parlamentares sem prestação pública de contas. Ainda assim, ascendem, como acaba de acontecer com a UFRJ, no ranking das melhores. Aos trancos e barrancos, aqui e no mundo, a universidade ergue-se como bastião de defesa contra a metástase progressiva do neofascismo.
Muniz Sodré