O livro “A paixão pela mentira - a família e as tiranias”, do psicanalista Paulo Schiller, investiga a origem da ascensão de regimes autocráticos no século XXI. Os filhos de tiranos se apropriam do discurso maniqueísta que exalta a família convencional imaculada e incentiva a pregação religiosa. Eles se definem como paladinos da moralidade e mentem deliberadamente. Compulsivamente.
“Os governos fascistas se ordenam em torno da relativização – ou da destruição – da verdade”, escreve Schiller. Ele cita Hannah Arendt: o ideal não é ter adeptos fanatizados, mas dispor de cidadãos que não saibam distinguir entre ficção e fato e entre verdade e mentira.
Pior, segundo o autor. Os modernos líderes fascistas nem têm uma proposta política ou econômica densa e consistente – ao contrário do nazismo e do fascismo italiano dos anos 1930, que tinham programas de governo bem definidos. “Os fascismos de agora prometem falsidades infladas, como o fim da corrupção que assola os parlamentos e os tribunais”.
Schiller também cita “Instruções para se tornar um fascista”, da italiana Michela Murgia. Ela compara o fascismo ao herpes, que habita o corpo em silêncio, em estado latente. Pronto para ressurgir sempre que há uma queda de imunidade.
Para identificar a direita radical, uma das pistas é a obsessão pela masculinidade. “O machismo truculento”, diz Schiller, “é a roupagem sexualizada da paixão pela violência, traço central de todos os fascismos”.
Na economia, reside uma das promessas mais falsas. “A maioria das medidas desses dirigentes é contrária aos interesses de seus adeptos crédulos mais pobres”. No mundo inteiro. A falta de empatia humana é característica do governo de você-sabe-quem no Brasil.
Nesta semana, vimos com preocupação (e medo) a eleição, na Alemanha, do primeiro governo regional de extrema direita depois da guerra.
A principal líder do AfD (Alternativa para a Alemanha), partido que reprime imigrantes e condena casamento gay, se chama Alice Weidel. Casada com uma estrangeira, do Sri Lanka, com quem cria dois filhos. Ficou popular entre jovens no TikTok. Ela defende deportação de alemães com base em suas etnias.
A pouquíssimo tempo da eleição que vai definir o Brasil com que sonhamos – seja lá de que lado você está –, é preciso parar e refletir. Está difícil. A cada momento estoura um escândalo.
Nessa atual guerra de narrativas, que escancarou a corrupção disseminada no Legislativo e Judiciário, salvo honrosas exceções isoladas, o importante é ser um eleitor consciente. Você e sua família vão arcar com as consequências.
Como será o Brasil de seu favorito? Quer viver numa capitania de Trump – um presidente estapafúrdio que promete dar US$ 5 mil a cada adulto, caso Senado e Câmara mantenham maioria republicana? Quer entregar a Amazônia aos EUA? Tem saudade de Jair Bolsonaro? Quer um presidente que condecora milicianos, despreza mulheres e compra mansões com dinheiro vivo? Que pede R$ 62 milhões a um banqueiro-bandido? Não é cinema, é esquema.
O psicanalista Paulo Schiller atribui a instabilidade permanente às redes sociais, com fatos e intrigas que todos nós seguimos. Hipnotizados e alienados. “O que ele disse hoje? O que ele fez?” Com isso, “andamos em círculos e perdemos de vista os temas que de fato importam”.
O resultado? “Uma desmobilização apática”. E não uma consciência coletiva que garanta um país soberano e menos desigual.
Ruth de Aquino
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