Um cidadão que escreve num semanário, como a VISÃO, sabe que, quando se senta para trabalhar, tem de resistir à tentação do assunto de hoje. Essencialmente por duas razões: escrevo hoje e, quando chegar o dia em que a revista sai, já mil pessoas mostraram a sua opinião sobre o assunto, o tempo permitiu recolher mais informação e a própria situação pode ter mudado ou podem ter surgido cambiantes. Resumindo, o tempo ajuda à reflexão, e isso é o que quem lê um semanário exige, quer em peças de opinião, quer nas outras.
Serve esta introdução para arranjar uma desculpa para eventuais precipitações.
Acordei e tinha uma daquelas centenas de mensagens que recebemos no telemóvel todos os dias, e que dizia que a extrema-direita tinha vencido as eleições na Saxónia-Anhalt. A possibilidade de escrever sobre a extraordinária capacidade do Chega de moldar a agenda da política portuguesa, ou sobre a forma como o Governo tem como única linha política a preparação para eleições, foi-se por incapacidade de pensar noutra coisa que não fosse a vitória retumbante da AfD, com 43,8% dos eleitores.
Em julho de 1932, no distrito de Magdeburgo, que corresponde ao território da atual Saxónia-Anhalt, o Partido Nazi teve também 43,8%. Ou seja, passados 94 anos, depois da destruição da Europa, depois do extermínio de seis milhões de judeus, um partido assumidamente próximo dos ideais do partido de Hitler volta a ter, no mesmo local, a mesma votação – na Alemanha, onde o trauma do nazismo parecia estar inculcado nas populações, onde o combate cultural a esta ideologia nunca deixou de ser feito, onde a polícia considera a AfD uma organização que atenta contra o Estado.
Pode ser que vivamos todos numa mentira e que, de facto, a maioria das pessoas não goste de liberdade, de ter direitos e da prosperidade que a democracia liberal nos trouxe
Conheço o discurso de que os territórios da antiga Alemanha de Leste foram negligenciados depois da reunificação alemã. São mentirosos, ou, pelo menos, muito exagerados e basta qualquer análise superficial sobre os valores investidos nesses territórios e a subida absoluta e relativa dos padrões de qualidade de vida, face ao momento da queda do Muro, para se chegar a essa conclusão. Mais, seria suficiente para perceber que esse argumento é falacioso olhando para os resultados eleitorais de 1932 e 1933 e para os das mesmas províncias nas várias eleições recentes na Alemanha. Sim, são parecidos, e não, não se limitam à divisão entre Alemanha de Leste e Alemanha Ocidental.
A AfD é pró-Rússia, sobretudo nas células do partido nos territórios da antiga Alemanha de Leste (aqui, aceito, há uma especificidade). Herança prussiana, pode ser dito, e diz o mito (nunca confirmado) que o próprio Konrad Adenauer, quando lhe disseram que a Alemanha ia ser dividida, respondeu que até era bom, já que a maioria do território que integraria a de Leste nunca teria sido parte da verdadeira Alemanha.
A AfD é antissemita, violentamente (no verdadeiro sentido da palavra) contra a imigração, e quer a reindustrialização da Alemanha. Poupo o estimado leitor à exposição do resto das linhas de força do programa; basta dizer que é arrepiante ver as semelhanças com o programa do Partido Nazi.
Além da conversa mal-amanhada sobre a discriminação da antiga Alemanha de Leste, que não casa com a realidade nem com o facto de haver resultados semelhantes noutros distritos alemães, tem sido repetido que as razões objetivas para este crescimento da extrema-direita na Alemanha estão relacionadas com a imigração descontrolada, a criminalidade que esses imigrantes trazem e as questões económicas.
Não há dúvida de que a Alemanha vive um problema económico, mas quisesse a esmagadoríssima maioria dos países do mundo ter uma crise parecida. No caso concreto do desemprego, os alemães não vivem o pleno emprego de que Portugal desfruta, mas a taxa de desemprego é de 6,3%, sendo a da Saxónia-Anhalt de 8%. São dados menos bons, mas longe de alarmantes ou de vagamente semelhantes aos que havia em 1932. Além disso, sou capaz de desafiar qualquer pessoa a que me diga três ou quatro países em que os trabalhadores vivam melhor do que na Alemanha. Que tenham mais proteção na saúde, na educação ou no desemprego.
Quanto à imigração “descontrolada”, é só mais a mentira do costume. A Alemanha teve um acréscimo de imigrantes/refugiados em 2015/16, na sequência da crise síria, a que Angela Merkel respondeu de uma forma humana e séria. A evolução do número de imigrantes não tem comparação com a portuguesa, por exemplo. E, claro, convém referir que a Alemanha também tem uma taxa de reposição da população abaixo de 2,1% e que a sua economia não funcionaria sem imigrantes.
Para quem delira com a ligação imigração/insegurança, aconselho a leitura dos dados da entidade que faz a estatística de crimes na Alemanha: a criminalidade tem baixado, e não há qualquer tipo de evidência que relacione um aumento de crimes (claro) com a imigração. Há dois que subiram: o cibercrime e o da violência política. Adivinhe o estimado leitor quem têm sido as vítimas de violência política.
Então qual será a explicação para que os alemães, nomeadamente os da Saxónia-Anhalt, corram para os braços dos neonazis como se entregaram aos nazis – não valerá a pena lembrar que, em 1932, a situação económica era muitíssimo pior, apesar de agora ao ódio aos judeus se ter juntado o do aos muçulmanos?
Temos, claro, as explicações do costume: os pais que percebem que os filhos vão viver pior do que eles, o medo irracional do diferente, o receio de uma nova civilização que parece não ter lugar para os humanos, a sensação de o voto nada mudar. Mas talvez seja tudo mais simples.
A sofisticação da propaganda nazi era extraordinária para a época, mas agora é ainda melhor. Talvez estejamos mais expostos à propaganda daqueles que querem destruir a democracia do que alguma vez estivemos. Tão boa que consegue convencer-nos de coisas que não vemos, nem de que nos apercebemos, mas que sentimos. Assim mesmo, sentimos, sem outra razão que não seja fazerem-nos sentir. Fazem que odiemos com todas as nossas forças os moderados de esquerda, mas sobretudo os de direita, porque estes não odeiam o suficiente.
Os imigrantes e a segurança não passam de detalhes. São sempre necessários grupos para odiar, para detestar, quando não há uma razão específica para evocar. Mais até: quantos mais imigrantes conseguirmos expulsar, ou não deixar que venham para cá, mais a economia se afundará, mais desemprego se gerará, mais desespero se semeará. No fundo, é o que a AfD, os Le Pens, os Voxs e os seus aliados Putins, e os donos das empresas de redes sociais (com motivos mais ou menos ideológicos, mais ou menos venais), querem. O objetivo é destruir a democracia.
E daqui vem a outra razão para o crescimento das forças antidemocráticas, que ainda é mais simples e não é muitas vezes referida por pudor: as pessoas podem, pura e simplesmente, não gostar da democracia, mesmo que esta lhes tenha dado tanto. Pode ser que vivamos todos numa mentira e que, de facto, a maioria das pessoas não goste de liberdade, de ter direitos e da prosperidade que a democracia liberal nos trouxe.
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