sábado, 8 de novembro de 2025

Pensamento do Dia

 


O tempo desafia a lógica

No livro Epistemics and ­Economics, George ­Shackle cuida de encarar a questão da racionalidade, tão cara aos economistas. “O tempo e a lógica”, comenta Shackle, “são estranhos um ao outro. O primeiro implica a incerteza, o segundo demanda um sistema de axiomas, um sistema envolvendo tudo que é relevante. Mas, infelizmente, o vazio do futuro compromete a possibilidade da lógica”.

George Shackle afirma que a economia é uma área do conhecimento submetida às incertezas da vida humana em sociedade. Ela procura estudar o comportamento dos agentes privados em busca da riqueza, nos marcos de um quadro social e político determinado temporalmente, isto é, cada nova decisão de acumular riqueza tem um caráter crucial, porquanto tem o poder de reconfigurar as circunstâncias em que foi concebida.


Shackle está se referindo às decisões empresariais de investimento – introduzir novas tecnologias ou mudar a localização de seus empreendimentos. São decisões cruciais, na medida em que “criam o futuro”. Essa criação do futuro é, para ele, um ato originário e irredutível dos que controlam a criação de riqueza no capitalismo. Esse ato é irreversível e praticado em condições de incerteza radical.

Sir Isaiah Berlin valeu-se de ­Arquíloco para distinguir dois tipos de sabedoria e ciência: “A raposa sabe muitas coisas, o ouriço sabe uma grande coisa”. Shackle usou a frase de Berlin (que, aliás, gostava de garimpar frases no rico veio da­ p­oesia clássica) para definir Keynes e a Teoria Geral, diante do desencontro de ideias que assolou a chamada teoria econômica durante os anos 30.

Shackle sugeriu que, sob vistosa pelagem de raposa, escondia-se Keynes, o ouriço. Os detentores de riqueza sob a forma monetária são obrigados a saltar no vazio. Apostam que, entre sua decisão de empregar o seu dinheiro agora na contratação de fatores de produção e a recuperação do valor monetário acrescido no futuro, nenhum fenômeno perturbador vai ocorrer. Tais decisões são tomadas individualmente na suposição de que os demais vão continuar se comportando da mesma maneira ou de que, em última instância, a mão invisível estará a postos para coordenar as decisões individuais.

Keynes sugeriu que, ao contrário do que procurava demonstrar a bela arquitetura dos modelos de equilíbrio geral, a reprodução dessas sociedades não estava garantida. Estava, sim, sujeita aos impulsos, aos medos e às avaliações da categoria social que detém o controle dos meios de produção. Essa classe de empresários e senhores da finança pode usar o seu poder, conferido pela posse dos meios de produção e pelo controle do dinheiro e do crédito para enriquecer a si mesma e à sociedade ou simplesmente abandonar-se ao entesouramento e à proteção patrimonial.

Lembrei-me dos escritos de Aristótele­s. O filósofo grego fez uma distinção entre a Aquisição Natural ou “Economia” e a Aquisição Artificial ou “Crematística”. A Aquisição Natural diz respeito às relações entre as necessidades humanas e os bens destinados a satisfazê-las. Já a Aquisição Artificial ou Crematística, “inventada para as necessidades de comércio, originou uma nova maneira de comerciar e adquirir. No princípio, era bastante simples; depois, com o tempo, passou a ser mais refinada, quando se soube de onde e de que maneira se podia tirar dela o maior lucro possível. É esse lucro pecuniário que ela postula; ela só se ocupa em procurar de onde vem mais dinheiro: é a mãe das grandes fortunas. De fato, comumente se faz consistir a riqueza na grande quantidade de dinheiro”.

No Tempos Modernos de Chaplin, o nascimento das ciências sociais e da economia busca enfrentar a questão da reprodução de uma sociedade fundada na divisão social do trabalho, no interesse individual e no impulso à acumulação monetária. Keynes, como bom ouriço, tratou dessa questão na perspectiva de Aristóteles.

Habermas sugere que, além de estarem submetidas à confirmação empírica (ou à rejeição), as teorias da sociedade devem estar sujeitas à demonstração de que são “reflexivamente aceitáveis”.

“A investigação não apenas das instituições e práticas sociais, mas também das convicções que os agentes têm sobre a sua própria sociedade – investigar não apenas a realidade social, mas o saber (…). Isto é, uma teoria social é uma teoria a respeito (entre outras coisas) das convicções dos agentes sobre a sua sociedade, sendo ela mesma uma dessas convicções.”

A questão da “reflexividade” foi investigada em outras órbitas do conhecimento da sociedade. A relação entre os meios de comunicação e a sociedade de massa foi examinada competentemente por muita gente boa, como Theodor Adorno e Marshall McLuhan. O meio é a mensagem, ensinou McLuhan ao tratar da formação das consciências nas sociedades de massa em que a informação é comandada pelos meios de comunicação. “A mídia afeta nossa estrutura conceitual nas dimensões pessoais, políticas, econômicas, estéticas, psicológicas, morais, éticas e sociais. Não deixa nenhuma parte intocada, inalterada. O meio é a mensagem. Qualquer compreensão da mudança social e cultural é impossível sem um conhecimento da forma como a mídia funciona.”

O economista Christian Marazzi, em seu livro Capital e Linguagem, cuidou das marchas e contramarchas das economias nos últimos 30 anos. Marazzi sublinha a natureza “performativa” da linguagem do dinheiro e dos mercados financeiros. Performativa quer dizer que a linguagem dos mercados financeiros contemporâneos não descreve, e muito menos “analisa”, um determinado estado de coisas, mas produz imediatamente consensos que “constroem” fatos reais.

Para não desmerecer a lógica, vou ousar recorrer a um trecho da Lógica de Hegel: “Quando as formas são tomadas como determinações fixas e, consequentemente, em sua separação uma da outra, e não como uma unidade orgânica, elas são formas mortas e o espírito que anima sua vida, a unidade concreta não reside nelas… O conteúdo das formas lógicas nada mais é senão o fundamento sólido e concreto dessas determinações abstratas; e o ser substancial dessas abstrações é usualmente buscado fora delas”.

Eles têm medo de que não tenhamos medo

“Estão com medo? Quem trabalha uma vida inteira não tem medo de nada. Devem estar com medo de perder os tachos.” A frase não espera resposta. É um escarro atirado ao chão das redes sociais. Ninguém escreve à espera que lhe respondam. Escreve-se para deixar uma marca no chão. Escreve-se como quem atira pedras e foge. Pois, se alguém há de ir contra a ideia de uma ditadura, claro que o faz por medo. Talvez seja um bot a escrever. Sei que há armazéns cheios de telefones e fios ligados a máquinas que alimentam o ódio e nos fazem perder tempo a discutir com robots programados para nos incendiar de indignação até às cinzas da alienação. Mas respondo ainda assim. “Não tem medo? Não tem medo de perder o trabalho? Medo de perder o teto? De ficar doente e não ter médico? Temos medo, sim. Infelizmente, trabalhar não dá garantias de nada. E é por isso que é preciso lutar por um mundo mais justo, com menos medo e mais liberdade.”

Fico sem resposta. Vivemos num mundo de barricadas. De um lado e do outro, há medo. Mas nenhum de nós está disposto a reconhecer o medo do outro. Apagamos a luz e saímos do quarto, garantindo que não há monstros debaixo da cama. Mas o medo fica, farejando o escuro, deslizando pelas coisas, transfigurando-as. Um trabalhador de pele escura, que luta para enviar dinheiro à família e trabalha até que lhe sangre a alma, transforma-se num perigo, numa ameaça. É ele que vem roubar-nos o lugar no Centro de Saúde, na creche, na rua, que ocupa com as suas roupas estranhas e os cheiros exóticos da comida que faz, na vida, onde há de nos obrigar a rezar aos seus deuses. É como uma mancha de óleo que há de nos engolir a todos, garantem-nos os que nos querem assustados.

“A culpa é toda tua”, diz a avó ao neto que trabalha com migrações nas Nações Unidas e que me falou do ar acusatório com que foi recebido sem perceber porquê. A culpa? “És tu que os trazes para cá”, atirou a senhora, que vive numa cidade do Interior e nunca viu ao vivo um dos imigrantes que agora tanto a assustam, nas notícias e nos vídeos que rolam incessantemente pela internet, mostrando desacatos, tensão, violência. Ninguém está a salvo. Mesmo que tenha sido tudo filmado noutro país e há muitos anos. Se não é aqui, podia ser. Um dia será.

Shamim Hussein também deve ter sentido medo quando foi tentar recuperar a bicicleta que usava para levar comida, na Costa da Caparica, e foi esfaqueado. E é medo que seguramente sentirá a sua mulher que fica agora sozinha, num país estranho, que lhe matou o marido e a deixa com um bebé de 2 anos. Rachhpal Singh também deve ter ficado assustado, quando um grupo de homens com t-shirts do movimento 1143 o espancou numa área de serviço da A1, numa pausa do trabalho. Mas o medo que sentiu não lhe tolheu a coragem de os denunciar. E é a isso que me agarro. Porque a coragem não é a ausência do medo, mas o momento em que o olhamos de frente e lhe passamos por cima.

O medo é um bichinho pequeno, que mal se vê, mas que quando nos entra no corpo nos paralisa e nos cega. E é também uma poderosa ferramenta de poder. O medo de perder o emprego faz-nos calar as injustiças. O medo de ficar sem casa faz-nos esmifrar a vida, consumida em trabalho e preocupações. O medo do amanhã encolhe-nos. O medo de falar sufoca-nos.

E é por isso que há tantos que nos querem com medo. Eles têm medo de que não tenhamos medo. Quem nos quer obedientes e calados, quem nos quer sossegados e alienados, quem nos quer explorados e agradecidos, quem nos quer para carne para canhão, quem nos quer para pagar e calar, quem nos quer para continuar a fazer girar a máquina que lhes enche os bolsos enquanto nos suga a vida, quer que tenhamos medo.

E é por isso que não tenho medo. A ideia de que eles vivem amedrontados com a nossa coragem espanta-me o medo. “A vida não é perigosa”, disse-me, um dia, um amigo, explicando-me as vantagens de avançar por ela de peito feito, sem olhar para trás, sem deixar que as pernas que nos tremem nos travem.

Sabem como é que se vence o medo? Com os olhos abertos e o coração cheio de amor. Pensei muito nisto enquanto andei, em reportagem, pelas ruas da Tapada das Mercês, em Sintra, e vi pessoas de todas as cores e de vários países, caminhando sorridentes e falando-se como se fala a um vizinho que também é um amigo. Aquelas ruas periféricas, que nos dizem que são perigosas, também são espaços de partilha e comunidade. E é isso que nos faz sentir seguros.

De cada vez que damos as mãos, perdemos o medo. Mas fazemos mais do que isso. Sentimos que não estamos sozinhos e temos a força de sermos muitos. Há quem não nos queira com esse poder. Há quem nos queira sós e assustados, para melhor poder controlar-nos e explorar-nos. A esses teremos de responder de cabeça erguida, olhos nos olhos, sorriso nos lábios e firmeza nos gestos. Vocês não nos assustam. Havemos de vencer o medo.

O primeiro passo para perder o medo é voltar a olhar para as coisas de olhos abertos. Aceitar que do outro lado pode estar (deve estar) alguém como nós, alguém com os mesmos sonhos e esperanças, alguém com os mesmos medos. Sair da toca das barricadas. Ouvir. Aceitar que nem todos temos de ser exatamente da mesma maneira para sermos iguais.

Fui sempre feliz quando me aproximei do que me era estranho. Porque essa aproximação conduz, quase sempre, à conclusão de que somos afinal muito parecidos. E somos sempre felizes quando nos encontramos. Não temos nada a perder a não ser o medo. Tenhamos a força de o arrancar de cima como quem lança ao ar uma capa que nos sufoca e impede de ver a realidade. Havemos de vencer o medo.
Margarida Davim

Quando o veneno tem um sabor doce

Para alguns, as mortes na megaoperação parecem oferecer uma sensação de vingança. Mas trata-se de uma ilusão. É como beber algo que parece doce, mas é veneno.

O troglodita na nossa História

O Troglodita mandava na base da pancada. E a recente direita, assim também.

Noah, em “Sapiens”, nos fala sobre a breve estória de nossa História, de uma espécie, comprimida em um tempo curto, que por seus erros deve desaparecer “em um século ou mais”. O homem, segundo Noah, é um “acidente biológico”, que se autodenomina como sapiens, sem o sê-lo.

Surgimos a cerca de 300 mil anos, uma variação de macaco, como outras, com um pouco mais do que hoje se chama de “raciocínio lógico”. Povoamos a Terra. Há 50 mil anos, interagimos e cruzamos com os Neandertais, outra espécie, equivalente. Dois mil anos depois, os eliminamos. Possivelmente por razões territoriais, o que hoje se chama de Geopolítica. E seguimos no voo solo, para o desterro de todas as outras espécies.


Fizemos a revolução urbana há 10 mil anos atrás. Veio a Grécia. Veio Roma. A revolução industrial, há 250 anos atrás. Inventamos a bomba atômica, poluímos o mundo, criamos a insustentabilidade.

Tentamos, é verdade, sermos “civilizados”. Rousseau e Montesquieu nos falaram sobre as leis e o Contrato Social. Tentamos. Fomos em frente. Mas a equação perversa da economia e da ecologia impediu a realização dos nossos sonhos de Césars.

E, como disse Mike Tyson, “todo mundo tem um plano até levar um soco na cara”. Ficamos nocauteados no ringue.

Vem aí a direita, na desordem da ordem. E a direita vai pisar ainda mais no acelerador, da ignorância, gerando muito mais riqueza (para si próprios), para a destruição mais rápida do Planeta.

Mas as festas, até lá, serão colossais. Os devaneios serão tantos, de tirar a chapéu, de fazer inveja, mesmo, a Calígula nos idos de Roma.

Como futuro, podemos esperar, no máximo, a tragédia mostrada no exímio filme “A Máquina do Tempo” em 1960, do livro de H. G. Wells, dirigido por George Pal.

E assim vamos nós.

Como em Noah.

Circus Maximus Brasiliensis

Ocasionalmente, a sociedade brasileira quer ver sangue. Quer se vingar por viver em permanente insegurança; se vingar de todos os assaltos, furtos e homicídios que, diariamente, lançam milhares de pessoas no medo e no desespero. Quer compensar sua impotência.

O sangue nas ruas, os corpos mortos de jovens, na maioria negros, provocam uma satisfação arcaica e uma aprovação generalizada.

A operação policial nos complexos do Alemão e da Penha foi uma espécie de sangria pública. A maioria dos brasileiros – inclusive muitos moradores das favelas – aprova a ação, apesar de sua dimensão horrenda. Os mortos, segundo essa lógica, apenas encontraram o destino que escolheram. Ninguém os obrigou a portar armas, a se tornarem criminosos ou a manterem os moradores das favelas em brutal cativeiro. O massacre da semana passada foi o Circus Maximus Brasiliensis – a versão brasileira do anfiteatro romano.

As perguntas sobre a legalidade, o respeito aos direitos humanos e a eficácia dessas ações se tornam, assim, secundárias. As operações cumprem um propósito simbólico: esfriar o ânimo fervente do povo. Servem também aos políticos que as ordenam, para poderem se apresentar como firmes e resolutos.

A cada dois ou três anos ocorrem essas operações (quase sempre no Rio de Janeiro), e a cada vez o número de mortos aumenta. Depois – como já se comentou aqui – tudo volta a ser como antes, porque o Estado não dá o passo seguinte, o decisivo: ocupar e desenvolver de forma permanente os territórios dominados pelo crime organizado.

A grande questão é: por que o Estado não tem interesse nesses territórios? Seria porque seria preciso um contingente policial enorme para garanti-los de modo duradouro? Custaria demais desenvolver esses bairros pobres social e infraestruturalmente? Ou prefere a política deixar tudo como está, para ter sempre um bode expiatório a ser sacrificado em operações policiais espetaculares?


Pode até ser que o Estado tenha vencido, na semana passada, uma batalha contra o Comando Vermelho, mas ele perde a guerra se não retirar do CV o solo em que atua. Nesse sentido, o debate sobre classificar o grupo como organização terrorista é uma falsa polêmica populista de políticos ultradireitistas. O objetivo não é combater o CV de modo eficaz, mas sim encenar dureza e determinação.

Está claro que nem o Comando Vermelho, nem o PCC, muito mais organizado e poderoso, perseguem objetivos políticos por meio de atos terroristas. São máfias diversificadas e orientadas pelo lucro, que controlam à força territórios marcados pela ausência do Estado. A força deles se evidencia na expansão por todo o país e na infiltração em vários setores da economia – do garimpo ilegal na Amazônia ao mercado imobiliário nas cidades.

Reclassificar o CV e o PCC como grupos terroristas teria como consequência tornar as operações policiais nas favelas ainda mais sangrentas, sob o rótulo de "combate ao terrorismo", e aumentaria a violência de modo geral. Haveria o risco de uma "colombianização" do Brasil. A lógica militar avançaria ainda mais sobre as soluções sociais.

Mas organizações mafiosas não se derrotam por meios militares, porque penetram a sociedade e o próprio Estado. O exemplo do México mostra onde isso pode levar: quando, em 2006, o Exército foi enviado para combater os cartéis, começou um dos capítulos mais brutais da história do país, com centenas de milhares de mortos e desaparecidos. O resultado: os cartéis, reagrupados, continuam tão fortes quanto antes e dominam cidades inteiras.

Um argumento que talvez convença até cabeças-quentes de direita, como o deputado Nikolas Ferreira, que impulsiona a proposta de classificação do CV como grupo terrorista: se o Brasil anunciasse que há organizações terroristas atuando em seu território, investidores estrangeiros pensariam três vezes antes de aplicar seu dinheiro aqui – os custos de seguro disparariam.
Combate com inteligência

Se o objetivo fosse realmente combater o crime organizado de forma eficaz e duradoura, isso deveria ser feito com bisturi, não com punhal – com inteligência, não com brutalidade e estupidez.

Seria preciso seguir o dinheiro da máfia e usar novas tecnologias. A inteligência artificial, por exemplo, pode detectar transações suspeitas com precisão e rapidez, pois é capaz de processar volumes de dados que nenhum delegado conseguiria. Já a tecnologia blockchain permite rastrear as operações financeiras e documentar os fluxos de dinheiro de forma transparente.

Igualmente essencial seria melhorar a cooperação internacional entre instituições financeiras e autoridades para desmantelar redes mafiosas transnacionais.

Tudo isso ocorreria de maneira discreta e silenciosa. E atingiria o crime organizado em seu ponto mais sensível: o dinheiro. Enquanto, porém, a política brasileira preferir ver sangue nas ruas, nada mudará.

A bolha da IA ​​vai estourar?

A festa da Inteligência Artificial (IA) está a todo vapor, com dezenas de bilhões investidos em infraestrutura, startups e talentos.

Entre os anúncios mais notáveis ​​deste ano está a notícia de que a OpenAI , o Softbank e a Oracle se comprometeram a investir US$ 500 bilhões em supercomputadores de IA.

Enquanto isso, na China, as gigantes Alibaba e Tencent aumentaram seus investimentos com a ambição de liderar o país no campo da IA ​​até 2030.

Mas os sinais de estagnação estão se tornando cada vez mais difíceis de ignorar. O uso da IA ​​no mundo empresarial está em declínio. Muitos economistas acreditam que as preocupações com seu uso, apenas três anos após sua ampla disseminação, refutam a narrativa predominante de que a IA revolucionará a forma como as empresas operam, simplificando tarefas repetitivas e aprimorando as previsões.

"O grande investimento em infraestrutura pressupõe um aumento vertiginoso em seu uso. No entanto, diversas pesquisas mostram que esse uso vem diminuindo desde o verão", disse Carl-Benedikt Frey, professor de IA da Universidade de Oxford, à DW. "A menos que surjam em breve novos usos duradouros, a bolha pode estourar."


O Departamento do Censo dos EUA , que pesquisa 1,2 milhão de empresas naquele país a cada 15 dias, descobriu que o uso de ferramentas de IA em empresas com mais de 250 funcionários caiu de quase 14% em junho para menos de 12% em agosto.

O maior desafio para a IA é sua tendência a alucinar , ou seja, a gerar informações plausíveis, mas falsas. Outras fragilidades incluem sua falta de confiabilidade e o baixo desempenho de agentes autônomos, que concluem suas tarefas com sucesso apenas em um terço das vezes.

"Ao contrário de um aprendiz que aprende na prática, os sistemas de IA pré-treinados não melhoram com a experiência. Precisamos de aprendizado contínuo e de modelos que se adaptem às mudanças de circunstâncias", afirma Frey.

À medida que a distância entre as expectativas exorbitantes e a realidade comercial aumenta, o entusiasmo dos investidores pela IA começa a diminuir. No terceiro trimestre do ano, os investimentos de capital de risco em empresas privadas de IA caíram 22% em relação ao trimestre anterior.

"O que me incomoda é a escala do investimento em comparação com a receita gerada pela IA", disse o economista Stuart Mills, pesquisador sênior da London School of Economics.

A OpenAI, líder de mercado, gerou US$ 3,7 bilhões em receita no ano passado, em comparação com despesas operacionais totais de até US$ 9 bilhões. A empresa afirma estar a caminho de gerar cerca de US$ 13 bilhões em receita este ano, mas projeta gastar US$ 129 bilhões até 2029.

Poucos quantificaram a bolha da IA ​​de forma tão definitiva quanto Julien Garran, sócio da empresa britânica MacroStrategy Partnership. Ele estima que o enorme volume de capital investido em IA — apesar das escassas evidências de lucratividade sustentável — supera em muito as especulações anteriores. "É 17 vezes maior do que o estouro da bolha da internet", disse ele à DW.

Resultados recentes de grandes empresas de tecnologia geraram um otimismo cauteloso, mas também novas dúvidas sobre o potencial da IA. A receita do terceiro trimestre da plataforma de análise de dados Palatir saltou 63%, mas o preço de suas ações caiu 7% após a divulgação da notícia. Os fortes resultados da AMD e da Meta também foram ofuscados pelas preocupações do mercado com a sustentabilidade do sistema.

Essa desconexão entre valores crescentes e fundamentos instáveis ​​é exatamente o que preocupa Mills, que vê uma lacuna cada vez maior entre o que a IA promete e o que ela realmente entrega ao mercado.
Quando é que a bolha vai estourar?

"Com exceção da Nvidia , que está vendendo suas ações desenfreadamente, a maioria das empresas de IA generativa está extremamente sobrevalorizada", disse Gary Marcus, professor de psicologia e neurociência da Universidade de Nova York. "Prevejo que tudo vai desmoronar, possivelmente em breve. Os fundamentos, tanto técnicos quanto econômicos, simplesmente não fazem sentido."

Em um tom menos sombrio, Sarah Hoffman, diretora de Liderança de Pensamento em IA da AlphaSense, prevê mais uma "correção de mercado" do que um "estouro catastrófico de bolha".

Após um longo período de expectativas exageradas, o investimento empresarial em IA se tornará mais seletivo, explica Hoffman, com o foco mudando de "grandes promessas para evidências claras dos efeitos" da oferta, a fim de garantir que "os projetos gerem retornos quantificáveis".

sexta-feira, 7 de novembro de 2025

De olho no outro


Uma estação televisiva, ou um jornal, não pode permitir-se não ter a notícia que o seu concorrente directo tem. De modo que acabam por observar os seus concorrentes em vez de observar a vida real.

Ryszard Kapuściński, "Os cínicos não servem para este ofício"

Os crimes de responsabilidade

A mídia tem esclarecido muito a população sobre a grande tragédia que se abateu sobre o Rio de Janeiro. Para isso ela ouve os dois lados, no seu twosidism militante, isto é, equipara o terraplanista e Galileo Galilei, o criacionista e Darwin. E faz pesquisas de opinião. Como as perguntas induzem a aprovar a barbaridade, a mídia se adapta a isto. Mas algumas delas são uma concessão pública, e todas devem ter responsabilidade e compromisso com a sociedade. Deveriam agir como François Miterrand, na campanha eleitoral de 1981, que enfrentou a opinião majoritária dos franceses e se declarou contra a pena de morte; 6 meses depois seu garde des sceaux, Robert Badinter — que acaba de entrar para o Panthéon por sua coragem em defesa dos direitos humanos —, conseguia a lei que consagrou a extinção da pena. Diante das garantias constitucionais — em cláusulas pétreas —, fazer pesquisas sobre esses direitos só faz sentido para fins políticos. E a política não deve existir fora da ética.


Os números são uma ferramenta que pode ser manipulada facilmente para criar a mentira, mas pode também revelar a verdade. Vamos aos números de verdade. No ano passado, 14% das mortes violentas intencionais no Brasil foram produzidas pelas polícias: 6.243. Nossos “homens da lei” matam 8 vezes mais que os americanos, 56 vezes mais que os franceses. Conseguimos ser mais brutais que os brutais americanos. Quanto ao risco elevado que correm, que faz com que se lute para aumentar a proteção ao policial, houve 43 vítimas. Para cada policial morto, 145 pessoas. Mais do que usou o governo de Israel, que matou cerca de 35 palestinos para cada vítima do Hamas.

Qual o propósito da operação? Pode ser algum ou vários destes: a) é preciso esconder a distribuição de dinheiro público na véspera da última eleição e barrar o julgamento no TSE; b) é preciso esconder as acusações de corrupção; c) é preciso evitar que os bandidos do CV derrotem as milícias que ocupam a Zona Oeste do Rio; d) é preciso mostrar serviço para o bolsonarismo; e) é preciso contribuir para a fantasia da intervenção americana.

Intervenção americana? Que maluquice é essa agora? Pois é! O primeiro lance é o do senador 01, que apela ao Secretário de Defesa americano — aquele que tem idiota gravado na testa — para bombardear os barcos dos “narcoterroristas” na Baía de Guanabara. Imediatamente se conseguiu uma urgência na Câmara de Vereadores — oops! — dos Deputados para transformar os narcotraficantes em “narcoterroristas”, o chefe da polícia-bandida de São Paulo deixou o cargo para ser seu relator — nenhum outro deputado seria capaz de fazer seu trabalho?! — e o chefe da quadrilha no Rio ordenou a chacina. Agora já há troca de correspondência com autoridades (?) americanas. É bom lembrar que isso é crime (Art. 359-I do Código Penal) e viola a Constituição (Art. 21, I e Art. 84, VII) — mais três motivos para que o governador aterrorizador seja processado (se fosse na França dava prisão perpétua).

Pois vamos e venhamos: operação policial se faz para evitar crime, prender pessoas etc. Desocupar uma área tomada por bandidos — pressupõe-se que a operação policial para evitar que a área fosse tomada não aconteceu ou acontece — é algo que se faz paulatinamente, com o apoio de serviços sociais e, no caso, dentro das regras da ADPF 635. É claro que o objetivo não era desocupar a área, para o que bastaria empurrar os criminosos para fora dos bairros e deixá-los fugir. Não era fazer uma operação segura, pois esta teria que ser feita de dia, lentamente, para que não houvesse confusão com quem não era bandido. Não era uma operação inteligente, pois não se sabia — ou não se quis usar a informação, se a tinham — onde estavam os criminosos que estariam sendo buscados; segundo informa a declaração de sucesso, nenhum deles foi preso, será que o combinado era deixá-los escapar?

Era uma operação para matar. E os mortos foram os que calharam. Nem armas a metade deles tinha: foram 117 mortos e 123 presos, 240 pessoas, oficialmente bandidos, pois é bandido quem a polícia diz que é. As armas apreendidas foram 118. A “exclusão de ilicitude presumida” de quem mata duas pessoas porque uma está com uma arma é a mais nova garantia da polícia-bandida.

A operação, que já se pretende capaz de eleger presidente da República o Castrotrofe e até senador o chefe da “operação”, não tomou, é claro, nenhum cuidado com evidências. As novas regras são: não isolar cena de crime para bandido morto; prender quem filma a ação — será que tinham algo a esconder?; não esperar a perícia para a remoção do morto; separar a cabeça do corpo do morto — ou a pessoa estava viva?; impedir que uma testemunha idônea acompanhe a autópsia. Matar, matar!

Que importa se o artigo 5º da Constituição veda: tortura (III), de que há vários relatos e sinais; tribunal de exceção(XXXVII), pois as pessoas foram ali mesmo julgadas e condenadas à morte; pena de morte (XLVII); e várias outras coisas? Que importa se o Estado, e o Estado de Direito, existem justamente para garantir o direito à vida? Que importa se é para isso que o Estado tem o monopólio da força — claro que do uso legítimo da força?

Não se pode acusar os matadores e sobretudo seu chefe de falta de imaginação. Ele cometeu certamente crimes de responsabilidade (Lei 1.079/50, vários incisos do art. 7º). Mas criou a necessidade de uma lei para os crimes de irresponsabilidade, em que o que se pretende é fugir da Justiça, é se livrar de ter passado a mão no dinheiro público, é matar para se auto-indultar etc.

A violência serve para desqualificar. Desqualifica quem a aplica. Serve para qualificar. Qualifica a vítima. Vítimas de violência, de certa maneira, somos todos nós, obrigados a comportamentos que não teríamos espontaneamente, como trancar a porta de casa. Mas há as vítimas de violência que são mortas porque há clamor da multidão, como um certo carpinteiro de Nazaré. As que, como Ele, são filhos do homem, têm quem os ama e quem é por eles amado. As que, a esta hora, têm os que por elas choram.

Batidas policiais cada vez mais violentas: ICE, 'fora de controle'

É manhã de quarta-feira, 5 de novembro de 2025, em Chicago. As primeiras crianças chegam à creche Rayito del Sol e a equipe se prepara para o dia. Nesse instante, agentes do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE) invadem a creche e prendem uma funcionária, uma colombiana que trabalhava em uma creche. O pai de uma das crianças filma a cena. As imagens mostram dois agentes do ICE arrastando a mulher para fora do prédio enquanto ela grita que tem toda a sua documentação em ordem.

Uma porta-voz do Departamento de Segurança Interna dos EUA afirmou que agentes do ICE perseguiram uma mulher e um homem colombianos até a entrada da creche depois que eles fugiram de uma "parada de trânsito direcionada".

No entanto, o vídeo, que foi compartilhado em diversas plataformas de mídia social e transmitido por vários veículos de notícias dos EUA, provocou indignação generalizada em todo o país. O político de Chicago, Matt Martin, disse à NBC que era "a filmagem mais assustadora que já vi em meu mandato", acrescentando que "policiais armados estavam patrulhando as instalações enquanto funcionários e crianças estavam presentes".


A mais recente operação faz parte de uma ofensiva contra imigrantes em Chicago, iniciada em setembro. Desde então, segundo o Serviço de Imigração e Alfândega (ICE), mais de 3.000 prisões foram efetuadas.

Desde que assumiu o cargo em janeiro, Donald Trump tem reiteradamente declarado sua intenção de endurecer a política de imigração dos EUA, reprimir com muito mais agressividade os imigrantes indocumentados e deportar sistematicamente estrangeiros com antecedentes criminais. Há meses, as ações dos agentes do ICE têm sido alvo de fortes críticas de diversos setores do país.

Entre os detidos estão pessoas sem antecedentes criminais e cidadãos americanos. Diversas operações foram realizadas perto de escolas, lares de idosos e outros locais públicos. Numerosos vídeos que circulam nas redes sociais documentam a brutalidade dos agentes do ICE, muitas vezes armados e vestidos com uniformes camuflados e balaclavas.

Inúmeras violações dos direitos humanos também foram relatadas em centros de detenção de imigrantes. A Human Rights Watch documentou diversos casos em que agentes supostamente pressionaram detidos a aceitarem a "saída voluntária". De acordo com esses relatos, os detidos foram algemados por longos períodos e forçados a dormir no chão. Em alguns casos, também lhes foram negados alimentos e água. Além disso, agentes do ICE supostamente os impediram de contatar um advogado ou suas famílias.

Segundo a NPR, pelo menos 20 pessoas morreram sob custódia do ICE somente em 2025, o maior número em 20 anos. O número total de pessoas em centros de detenção de imigrantes gira em torno de 60.000.

Organizações de direitos humanos, como a HRW e a Anistia Internacional, denunciam as batidas policiais ilegais e as detenções arbitrárias: "O ICE está fora de controle", afirmou a congressista de Illinois, Delia Ramirez, em um comunicado à imprensa.

"O ICE opera com impunidade e fora da lei, atropelando nossos direitos e aterrorizando nossas comunidades." Esta é uma consequência direta de "Donald Trump, dos republicanos e da liderança do Departamento de Segurança Interna concederem ao ICE financiamento ilimitado, completa falta de supervisão e total impunidade em relação à transparência e à prestação de contas."

De fato, em setembro passado, a Suprema Corte autorizou o ICE a deter e monitorar pessoas unicamente com base na cor da pele, etnia, idioma ou ocupação. Mesmo antes dessa decisão, muitos imigrantes viviam com medo constante de se tornarem alvos de agentes do ICE.
Trump quer medidas ainda mais duras.

Em entrevista à CBS no domingo, Donald Trump respondeu se acreditava que as operações do ICE não haviam ultrapassado os limites e, considerando os inúmeros relatos, "que não foram longe o suficiente".

Segundo uma reportagem do site investigativo americano The Intercept , a agência de imigração está considerando oferecer incentivos a caçadores de recompensas particulares para localizar imigrantes em todo o país e denunciá-los ao ICE (Serviço de Imigração e Alfândega dos EUA).

No verão, Trump destinou US$ 170 bilhões em financiamento adicional ao Departamento de Segurança Interna e à Agência de Imigração e Alfândega até 2029, como parte de sua proposta orçamentária "Big Beautiful Bill".

A respeito desse dinheiro adicional, Aaron Reichlin-Melnick, especialista do American Immigration Council, comentou no Bluesky: "O ICE terá mais dinheiro nos próximos quatro anos do que o FBI, a DEA (Administração de Combate às Drogas), o Serviço de Delegados dos EUA e a Administração Penitenciária juntos."

Por mais apagões digitais, em prol da nossa saúde mental

Havendo uma necessidade atual e premente de repensarmos a nossa sociedade em prol da nossa saúde mental, existem alguns tópicos que merecem reflexão:

– Tudo começa dentro de casa. Antes de vermos políticas transformadas em ódios, já existiram discursos prévios, de generalização, ostracização de tudo o que de mal acontece na nossa sociedade, criando-se bodes expiatórios para as nossas próprias frustrações e fracassos, nos outros. As conquistas são feitas por nós, sozinhos, mas as derrotas têm sempre a mão ou culpa de alguém: este é o pensamento de quem nunca se responsabiliza, e são estes os valores, que de forma consciente ou inconsciente, veiculamos.

– As crianças e jovens de hoje estão a ser educadas pelos adultos de hoje, e como serão os de amanhã? É tempo de pararmos e olharmos para o nosso jardim, a nossa casa. Que valores preconizamos? Quem educa os nossos filhos? Somos nós, o telemóvel, as redes, os youtubers, as perceções erradas da realidade? Antes da escola, sociedade, nós, pais temos que as monitorizar, só depende de nós, a educação começa em casa. As crianças e jovens aprendem por modelagem. Eu não posso exigir que não estejam constantemente agarrados ao telemóvel, ou que não sejam tolerantes e empáticos, se eu como mãe/pai faço exatamente o contrário: “children see, children do”. Não é suposto não conhecermos os nossos filhos, nem os seus ídolos, aquilo que pensam sobre si próprios, sobre os outros, como lidam com isso, com quem se relacionam e o que pensam aqueles com quem se relacionam. Temos que começar já a cuidar do nosso “jardim”, dos que nos rodeiam. Se todos fizerem o seu papel, se não for uma constante demissão de responsabilidades por falta de tempo, o mundo a pouco e pouco será um mundo melhor. Se fazemos o nosso papel, e ainda assim surgem dificuldades, saibamos pedir ajuda, estar alerta, saber ouvir, saber estar. Se eu não sei fazer, admito que não consigo, e peço ajuda também para mim, para o outro. Nós só nos conseguimos controlar a nós próprios, então porque não começarmos pelo nosso “jardim”, pela nossa casa – o que é que eu posso fazer? Em que é que eu posso tornar o mundo melhor?


Há cada vez mais problemas de saúde mental, sim, mas em vez de nos preocuparmos em tentar perceber o porquê e de construir soluções ao nível macro da nossa sociedade, há um aproveitamento das redes sociais em destilar todas as tragédias com parangonas sensacionalistas, com títulos catastróficos que, quando se abre a publicação, nada têm a ver com o assunto. Isto é grave, é provocar ruído, instabilidade, informação falsa. Falta bom senso, toda a sociedade precisava de um banho de sensatez. Falta empatia no meio da desgraça, e uma preocupação genuína em resolver as coisas, não um “não é na minha em casa, o outro é pior que eu, deixa-me empolar as suas derrotas, com a satisfação de que não estou pior do que ele, a mim nada me acontece”…. Mas, atenção! Todos temos “telhados de vidro”, e a qualquer instante, uma “pedra” abala o nosso sistema aparentemente controlado, e obriga-nos a refletir que não somos mais do que os outros. Saibamos ser humildes. Quem realmente tem sabedoria e conhecimento de causa, não precisa de dizer que a tem, nem ostentar que a tem, com sobrancerias demagógicas, é simples na convivência e pretende ajudar genuinamente os outros a alcançar os seus propósitos. Mas vivemos numa era do “cada um por si”, de individualismo e indiferença, da competição, do “xico-espertismo”.

Segundo o Dr. João Paiva (professor da Universidade do Porto), vivemos na era do “dadismo: quem tem mais informação tem mais poder e, a meu ver, é um perigo haver pessoas que usam a informação de forma negativa, pessoas com grande visibilidade mediática, que podem chegar a milhares. Estas pessoas têm por isso responsabilidades acrescidas para não fomentar discórdias, medos e não cair num sensacionalismo de desinformação, medo e desconfiança. Sejamos razoáveis!! É isto que queremos deixar aos nossos filhos, netos, bisnetos? Uma sociedade que alimenta ódios, que se autodestrói?

– Sinto-me incomodada com a crescente falta de empatia na sociedade. A total ausência de empatia é um sinal alarmante, antissocial e de psicopatia. Lembro-me de quando o meu filho mais velho era pequeno, de estar atenta a sinais de empatia e, mais tarde, o pensamento é o mesmo. As notas também são importantes na medida em que deve haver esforço, valorização do trabalho como um meio a atingir um objetivo, mas isso só por si é vazio. Do que vale as crianças e jovens em alguns casos serem excelentes academicamente. Se não têm valores empáticos, que sementes deixarão na sociedade de amanhã?

Todos os pais/mães e profissionais estão em crescimento do ser-se pessoa, somos todos imperfeitos, temos sempre, até morrer, algo a aprender, e saibamos ter essa humildade. Mas o conselho que deixo é estar-se atento, perceber aquilo que os nossos filhos veem, que opiniões têm, como se relacionam com os outros, o que ambicionam e, por muito que seja difícil, e eu bem sei, procurar momentos de puro detox de telemóveis (TODOS, pais e filhos), um apagão forçado como aquele que tivemos, e que tanto nos fez refletir. Como isso reavivou formas de convívio e de estar! É complicado, porque vivemos numa dicotomia em que precisamos da tecnologia e temos forçosamente que a incluir para não ficarmos infoexcluídos, ou se não estivermos nas redes desaparecermos, mas como somos nós enquanto pessoas reais?

Voltando a citar o Dr. João Paiva, de uma forma geral tudo na vida, e neste caso a tecnologia, pode ser boa ou má mediante o uso que lhe damos – pode ser tónica (alimentar-nos de forma positiva) ou tóxica (sendo um veneno). Não deixemos que as tecnologias nos deixem a nós, ou às nossas relações, tóxicos.

Se eu deixasse de ir às redes sociais a minha rede de suporte social “real” morria? A resposta é não! Seria talvez mais verdadeira, obrigava-me a ligar mais, a procurar estar mais presencialmente com o que realmente importa. Porque, caro leitor, aqueles que nos dizem mais, não se preocupe, não desaparecem das nossas vidas, seja um contacto diário, semanal, mensal, ou que seja anual! Por isso fica a reflexão e o exercício para que saibamos parar, e para que usemos as tecnologias a nosso favor e não contra nós e, principalmente, contra as futuras gerações. Não para nos alhearmos, e muito mais para não alhearmos os nossos bens mais preciosos, os nossos filhos! Para que não nos transformemos nuns estranhos nas nossas próprias casas.

Concluindo e citando Eugénio de Andrade: “É urgente o amor (…) É urgente destruir certas palavras, ódio, solidão e crueldade” – eu acrescento, é urgente PARAR e REPARAR – “É urgente o amor, é urgente permanecer.”

quinta-feira, 6 de novembro de 2025

Pensamento do Dia

 


Chacina é a única saída para questão da segurança?

A sangrenta operação policial promovida na semana passada pelo governador Cláudio Castro foi a sua quarta desde 2021, quando ele passou a comandar o estado do Rio de Janeiro. Denominada Contenção, teve o mesmo intuito e seguiu o mesmo roteiro das anteriores, delas diferindo apenas na multiplicação dos cadáveres que deixou expostos.

Em todas elas, armamentos e munições foram apreendidos, prisões feitas —e muita gente morreu: 28 pessoas na Favela do Jacarezinho, em maio de 2021; entre 23 e 25 na Vila Cruzeiro, no mesmo mês do ano seguinte; 19 em julho de 2022, no Complexo do Alemão. Não há o mais remoto indício de que essas mortes tenham servido para diminuir o controle do crime organizado sobre aqueles territórios. Esse será o provável resultado da operação que, agora, custou a vida de mais de uma centena de pessoas, no Complexo do Alemão.

Duas semanas antes —e sem alarde—, o governo do Rio Grande do Norte, com apoio da Senasp (Secretaria Nacional de Segurança Pública), do Ministério da Justiça, realizou a Operação Território Seguro, na zona oeste de Natal. Sem que se disparasse um tiro, houve apreensão de armas e drogas, além de prisões. Agora, será instalado na área um conjunto de serviços destinados a garantir aos moradores direitos civis básicos: mediação de conflitos e acesso à Justiça; entrega de documentação pessoal; atendimento a mulheres e crianças vítimas da violência; regularização fundiária; melhoria do ambiente, com iluminação e coleta de lixo; atendimento a jovens em situação de risco; policiamento permanente. Enfim, tudo o que pode ser feito no âmbito do sistema de Justiça e da segurança pública.

Assim, no mesmo mês, vimos duas concepções opostas para enfrentar o controle do crime organizado em áreas urbanas onde vivem os pobres. Uma delas recorre à força bruta, ao espetáculo sangrento, que dá votos e normaliza a barbárie. A outra faz fé na coordenação intergovernamental; na mobilização de sistemas de informações confiáveis; no conhecimento acumulado por quadros da segurança pública e especialistas.

Em outra frente, a Operação Carbono Oculto parece fundar-se também nesta racional estratégia de combate às organizações criminosas. Ela é necessariamente multidimensional, tal qual as atividades das máfias.

Dos exemplos de Território Seguro e Carbono Oculto não se deve deduzir que o confronto armado possa ser sempre evitado. A violência, irrecusável diante de organizações equipadas com armamento pesado, não pode ser o primeiro e único recurso do Estado democrático nem pode ser exercida sem protocolos claros.

O que tais exemplos parecem indicar é o começo possível de uma alternativa de política eficaz e civilizada de enfrentamento do crime organizado. Essa é uma construção de grande complexidade por requerer mudanças nas leis e no comportamento de líderes políticos e grandes burocracias públicas —as polícias, o Ministério Público e o sistema judicial e penitenciário. Não está escrito que prospere. Pois, além de tudo o mais, exige das lideranças clareza para separá-la da disputa eleitoral e coragem política para conquistar a maioria que hoje aplaude a falida política de segurança da extrema direita.
 Maria Hermínia Tavares

A flor e a náusea


Preso à minha classe e a algumas roupas,
Vou de branco pela rua cinzenta.
Melancolias, mercadorias espreitam-me.
Devo seguir até o enjôo?
Posso, sem armas, revoltar-me'?

Olhos sujos no relógio da torre:
Não, o tempo não chegou de completa justiça.
O tempo é ainda de fezes, maus poemas,
alucinações e espera.
O tempo pobre, o poeta pobre
fundem-se no mesmo impasse.

Em vão me tento explicar, os muros são surdos.
Sob a pele das palavras há cifras e códigos.
O sol consola os doentes e não os renova.
As coisas. Que tristes são as coisas,
consideradas sem ênfase.

Vomitar esse tédio sobre a cidade.
Quarenta anos e nenhum problema
resolvido, sequer colocado.
Nenhuma carta escrita nem recebida.
Todos os homens voltam para casa.
Estão menos livres mas levam jornais
e soletram o mundo, sabendo que o perdem.

Crimes da terra, como perdoá-los?
Tomei parte em muitos, outros escondi.
Alguns achei belos, foram publicados.
Crimes suaves, que ajudam a viver.
Ração diária de erro, distribuída em casa.
Os ferozes padeiros do mal.
Os ferozes leiteiros do mal.

Pôr fogo em tudo, inclusive em mim.
Ao menino de 1918 chamavam anarquista.
Porém meu ódio é o melhor de mim.
Com ele me salvo
e dou a poucos uma esperança mínima.

Uma flor nasceu na rua!
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio,
paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.

Sua cor não se percebe.
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos livros.
É feia. Mas é realmente uma flor.

Sento-me no chão da capital do país às cinco horasda tarde
e lentamente passo a mão nessa forma insegura.
Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se.
Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.
É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.

Carlos Drummond de Andrade. "A Rosa do Povo"

O labirinto do WhatsApp

O WhatsApp ocupa uma posição paradoxal no Brasil. É o principal meio de comunicação digital do país e, ao mesmo tempo, um território de sombras, onde convivem a intimidade das conversas privadas, o fluxo incessante de notícias e o eco de narrativas que moldam a percepção coletiva do real. Essa sobreposição de esferas (pessoal, público e político) fez do aplicativo um espaço decisivo da vida nacional. É ali que se constroem vínculos, mas também desconfianças; onde se organizam comunidades, mas igualmente se testam os limites da credibilidade e da verdade.

Um levantamento concluído recentemente sobre o que circula nos grupos públicos do aplicativo oferece uma visão rara e incômoda desse ecossistema. As mensagens mais compartilhadas no WhatsApp não refletem apenas a variedade do cotidiano brasileiro, mas revelam uma convivência inquietante entre o trivial e o extremo. O “bom dia” e a receita de bolo dividem espaço com vídeos de violência explícita, cenas pornográficas, apostas ilegais e campanhas de desinformação que minam a confiança nas instituições democráticas. A política, como tema e pulsão, é onipresente. As discussões sobre o Supremo Tribunal Federal, as teorias de fraude eleitoral e os ataques à legitimidade do governo formam uma paisagem digital que se repete com variações sutis, mas efeitos duradouros sobre o imaginário coletivo.


Nesse cenário, o vídeo tornou-se o veículo preferencial das emoções e da manipulação. Sua força está na aparência de evidência: o que é visto parece ser incontestável. É também o formato que mais viraliza, pela facilidade de consumo, pelo impacto visual e pelo potencial de despertar respostas imediatas. Quando uma mentira assume forma audiovisual, ela ganha não apenas velocidade, mas textura e convicção. A desinformação, que antes se apoiava em textos ou imagens estáticas, hoje se move com fluidez cinematográfica.

A análise das mensagens mostra que os grupos politicamente alinhados à direita são, em número e intensidade, muito mais ativos na disseminação de conteúdos ultravirais. Essa assimetria ajuda a explicar por que certas narrativas encontram terreno fértil para se multiplicar. Trata-se de uma infraestrutura organizada e resiliente, que opera de modo descentralizado e emocional, transformando o aplicativo em um sistema de ressonância política permanente. A esquerda também circula nesse espaço, mas em escala significativamente menor, o que evidencia uma desigualdade estrutural na capacidade de mobilização digital.

Os temas que mais provocam dúvida entre os usuários não são triviais. Eles tocam no coração do pacto social: política nacional, benefícios sociais, economia e saúde pública. O boato sobre a taxação do Pix, que inundou o WhatsApp em janeiro de 2025, é exemplar. Ele revela como a desinformação se infiltra por frestas de ansiedade coletiva, convertendo preocupações legítimas em pânico moral e desconfiança institucional. A mentira, nesse contexto, não é apenas um erro factual: é um instrumento de erosão da confiança.

Há também um componente de espetáculo e perversão no consumo de conteúdos sensíveis. Vídeos de linchamentos, execuções e agressões reais circulam em escala perturbadora. Essa exploração da violência, compartilhada em grupos públicos, fala menos sobre curiosidade e mais sobre anestesia. A repetição de imagens brutais não apenas normaliza o horror, mas redefine o limiar do aceitável. No mesmo espaço em que se multiplicam mensagens de fé e esperança, consolida-se uma pedagogia do medo e da descrença.

O retrato que emerge desse universo sugere que o WhatsApp se tornou, mais do que uma ferramenta, uma arquitetura emocional da vida pública brasileira. O que circula ali espelha o que nos mobiliza, o que nos assusta e o que nos divide. Monitorar esse espaço não é uma questão de censura, mas de cidadania digital.

É preciso compreender que o aplicativo não é apenas um espelho da sociedade, mas um amplificador de suas distorções, e que enfrentá-las exige mais do que tecnologia: requer educação midiática, políticas de transparência e um jornalismo atento ao que acontece fora dos holofotes das grandes plataformas. A tarefa de reconstruir a confiança pública começa por iluminar o que hoje opera na penumbra. Entender o WhatsApp é entender o Brasil, um país que conversa, se informa e se desinforma no mesmo espaço, com a mesma intensidade.

A humanidade que pensamos ser

Talvez estejamos muito condicionados a uma ideia de ser humano e a um tipo de existência. Se a gente desestabilizar esse padrão, talvez a nossa mente sofra uma espécie de ruptura, como se caíssemos num abismo. Quem disse que a gente não pode cair? Quem disse que a gente já não caiu? Houve um tempo em que o planeta que chamamos Terra juntava os continentes todos numa grande Pangeia. Se olhássemos lá de cima do céu, tiraríamos uma fotografia completamente diferente do globo. Quem sabe se, quando o astronauta Iúri Gagárin disse “a Terra é azul”, ele não fez um retrato ideal daquele momento para essa humanidade que nós pensamos ser. Ele olhou com o nosso olho, viu o que a gente queria ver. Existe muita coisa que se aproxima mais daquilo que pretendemos ver do que se podia constatar se juntássemos as duas imagens: a que você pensa e a que você tem. Se já houve outras configurações da Terra, inclusive sem a gente aqui, por que é que nos apegamos tanto a esse retrato com a gente aqui? O Antropoceno tem um sentido incisivo sobre a nossa existência, a nossa experiência comum, a ideia do que é humano. O nosso apego a uma ideia fixa de paisagem da Terra e de humanidade é a marca mais profunda do Antropoceno.

Essa configuração mental é mais do que uma ideologia, é uma construção do imaginário coletivo — várias gerações se sucedendo, camadas de desejos, projeções, visões, períodos inteiros de ciclos de vida dos nossos ancestrais que herdamos e fomos burilando, retocando, até chegar à imagem com a qual nos sentimos identificados. É como se tivéssemos feito um photoshop na memória coletiva planetária, entre a tripulação e a nave, onde a nave se cola ao organismo da tripulação e fica parecendo uma coisa indissociável. É como parar numa memória confortável, agradável, de nós próprios, por exemplo, mamando no colo da nossa mãe: uma mãe farta, próspera, amorosa, carinhosa, nos alimentando forever. Um dia ela se move e tira o peito da nossa boca. Aí, a gente dá uma babada, olha em volta, reclama porque não está vendo o seio da mãe, não está vendo aquele organismo materno alimentando toda a nossa gana de vida, e a gente começa a estremecer, a achar que aquilo não é mesmo o melhor dos mundos, que o mundo está acabando e a gente vai cair em algum lugar. Mas a gente não vai cair em lugar nenhum, de repente o que a mãe fez foi dar uma viradinha para pegar um sol, mas como estávamos tão acostumados, a gente só quer mamar.

O fim do mundo talvez seja uma breve interrupção de um estado de prazer extasiante que a gente não quer perder. Parece que todos os artifícios que foram buscados pelos nossos ancestrais e por nós têm a ver com essa sensação. Quando se transfere isso para a mercadoria, para os objetos, para as coisas exteriores, se materializa no que a técnica desenvolveu, no aparato todo que se foi sobrepondo ao corpo da mãe Terra. Todas as histórias antigas chamam a Terra de Mãe, Pacha Mama, Gaia. Uma deusa perfeita e infindável, fluxo de graça, beleza e fartura. Veja-se a imagem grega da deusa da prosperidade, que tem uma cornucópia que fica o tempo todo jorrando riqueza sobre o mundo… Noutras tradições, na China e na Índia, nas Américas, em todas as culturas mais antigas, a referência é de uma provedora maternal. Não tem nada a ver com a imagem masculina ou do pai. Todas as vezes que a imagem do pai rompe nessa paisagem é sempre para depredar, detonar e dominar.

O desconforto que a ciência moderna, as tecnologias, as movimentações que resultaram naquilo que chamamos de “revoluções de massa”, tudo isso não ficou localizado numa região, mas cindiu o planeta a ponto de, no século XX, termos situações como a Guerra Fria, em que você tinha, de um lado do muro, uma parte da humanidade, e a outra, do lado de lá, na maior tensão, pronta para puxar o gatilho para cima dos outros. Não tem fim do mundo mais iminente do que quando você tem um mundo do lado de lá do muro e um do lado de cá, ambos tentando adivinhar o que o outro está fazendo. Isso é um abismo, isso é uma queda. Então a pergunta a fazer seria: “Por que tanto medo assim de uma queda se a gente não fez nada nas outras eras senão cair?”.

Já caímos em diferentes escalas e em diferentes lugares do mundo. Mas temos muito medo do que vai acontecer quando a gente cair. Sentimos insegurança, uma paranoia da queda porque as outras possibilidades que se abrem exigem implodir essa casa que herdamos, que confortavelmente carregamos em grande estilo, mas passamos o tempo inteiro morrendo de medo. Então, talvez o que a gente tenha de fazer é descobrir um paraquedas. Não eliminar a queda, mas inventar e fabricar milhares de paraquedas coloridos, divertidos, inclusive prazerosos. Já que aquilo de que realmente gostamos é gozar, viver no prazer aqui na Terra. Então, que a gente pare de despistar essa nossa vocação e, em vez de ficar inventando outras parábolas, que a gente se renda a essa principal e não se deixe iludir com o aparato da técnica. Na verdade, a ciência inteira vive subjugada por essa coisa que é a técnica.

Há muito tempo não existe alguém que pense com a liberdade do que aprendemos a chamar de cientista. Acabaram os cientistas. Toda pessoa que seja capaz de trazer uma inovação nos processos que conhecemos é capturada pela máquina de fazer coisas, da mercadoria. Antes de essa pessoa contribuir, em qualquer sentido, para abrir uma janela de respiro a essa nossa ansiedade de perder o seio da mãe, vem logo um aparato artificial para dar mais um tempo de canseira na gente. É como se todas as descobertas estivessem condicionadas e nós desconfiássemos das descobertas, como se todas fossem trapaça. A gente sabe que as descobertas no âmbito da ciência, as curas para tudo, são uma baba.

Os laboratórios planejam com antecedência a publicação das descobertas em função dos mercados que eles próprios configuram para esses aparatos, com o único propósito de fazer a roda continuar a girar. Não uma roda que abre outros horizontes e acena para outros mundos no sentido prazeroso, mas para outros mundos que só reproduzem a nossa experiência de perda de liberdade, de perda daquilo a que podemos chamar inocência, no sentido de ser simplesmente bom, sem nenhum objetivo. Gozar sem nenhum objetivo. Mamar sem medo, sem culpa, sem nenhum objetivo. Nós vivemos num mundo em que você tem de explicar por que é que está mamando. Ele se transformou numa fábrica de consumir inocência e deve ser potencializado cada vez mais para não deixar nenhum lugar habitado por ela.

De que lugar se projetam os paraquedas? Do lugar onde são possíveis as visões e o sonho. Um outro lugar que a gente pode habitar além dessa terra dura: o lugar do sonho. Não o sonho comumente referenciado de quando se está cochilando ou que a gente banaliza “estou sonhando com o meu próximo emprego, com o próximo carro”, mas que é uma experiência transcendente na qual o casulo do humano implode, se abrindo para outras visões da vida não limitada. Talvez seja outra palavra para o que costumamos chamar de natureza. Não é nomeada porque só conseguimos nomear o que experimentamos. O sonho como experiência de pessoas iniciadas numa tradição para sonhar. Assim como quem vai para uma escola aprender uma prática, um conteúdo, uma meditação, uma dança, pode ser iniciado nessa instituição para seguir, avançar num lugar do sonho. Alguns xamãs ou mágicos habitam esses lugares ou têm passagem por eles. São lugares com conexão com o mundo que partilhamos; não é um mundo paralelo, mas que tem uma potência diferente.

Quando, por vezes, me falam em imaginar outro mundo possível, é no sentido de reordenamento das relações e dos espaços, de novos entendimentos sobre como podemos nos relacionar com aquilo que se admite ser a natureza, como se a gente não fosse natureza. Na verdade, estão invocando novas formas de os velhos manjados humanos coexistirem com aquela metáfora da natureza que eles mesmos criaram para consumo próprio. Todos os outros humanos que não somos nós estão fora, a gente pode comê-los, socá-los, fraturá-los, despachá-los para outro lugar do espaço. O estado de mundo que vivemos hoje é exatamente o mesmo que os nossos antepassados recentes encomendaram para nós.

Na verdade, a gente vive reclamando, mas essa coisa foi encomendada, chegou embrulhada e com o aviso: “Depois de abrir, não tem troca”. Há duzentos, trezentos anos ansiaram por esse mundo. Um monte de gente decepcionada, pensando: “Mas é esse mundo que deixaram para a gente?”. Qual é o mundo que vocês estão agora empacotando para deixar às gerações futuras? O.k., você vive falando de outro mundo, mas já perguntou para as gerações futuras se o mundo que você está deixando é o que elas querem? A maioria de nós não vai estar aqui quando a encomenda chegar. Quem vai receber são os nossos netos, bisnetos, no máximo nossos filhos já idosos. Se cada um de nós pensa um mundo, serão trilhões de mundos, e as entregas vão ser feitas em vários locais. Que mundo e que serviço de delivery você está pedindo? Há algo de insano quando nos reunimos para repudiar esse mundo que recebemos agorinha, no pacote encomendado pelos nossos antecessores; há algo de pirraça nossa sugerindo que, se fosse a gente, teríamos feito muito melhor.

Devíamos admitir a natureza como uma imensa multidão de formas, incluindo cada pedaço de nós, que somos parte de tudo: 70% de água e um monte de outros materiais que nos compõem. E nós criamos essa abstração de unidade, o homem como medida das coisas, e saímos por aí atropelando tudo, num convencimento geral até que todos aceitem que existe uma humanidade com a qual se identificam, agindo no mundo à nossa disposição, pegando o que a gente quiser. Esse contato com outra possibilidade implica escutar, sentir, cheirar, inspirar, expirar aquelas camadas do que ficou fora da gente como “natureza”, mas que por alguma razão ainda se confunde com ela. Tem alguma coisa dessas camadas que é quase-humana: uma camada identificada por nós que está sumindo, que está sendo exterminada da interface de humanos muito-humanos.

Os quase-humanos são milhares de pessoas que insistem em ficar fora dessa dança civilizada, da técnica, do controle do planeta. E por dançar uma coreografia estranha são tirados de cena, por epidemias, pobreza, fome, violência dirigida.
Já que se pretende olhar aqui o Antropoceno como o evento que pôs em contato mundos capturados para esse núcleo preexistente de civilizados — no ciclo das navegações, quando se deram as saídas daqui para a Ásia, a África e a América —, é importante lembrar que grande parte daqueles mundos desapareceu sem que fosse pensada uma ação de eliminar aqueles povos. O simples contágio do encontro entre humanos daqui e de lá fez com que essa parte da população desaparecesse por um fenômeno que depois se chamou epidemia, uma mortandade de milhares e milhares de seres. Um sujeito que saía da Europa e descia numa praia tropical largava um rasto de morte por onde passava. O indivíduo não sabia que era uma peste ambulante, uma guerra bacteriológica em movimento, um fim de mundo; tampouco o sabiam as vítimas que eram contaminadas. Para os povos que receberam aquela visita e morreram, o fim do mundo foi no século XVI . Não estou liberando a responsabilidade e a gravidade de toda a máquina que moveu as conquistas coloniais, estou chamando atenção para o fato de que muitos eventos que aconteceram foram o desastre daquele tempo.

Assim como nós estamos hoje vivendo o desastre do nosso tempo, ao qual algumas seletas pessoas chamam Antropoceno. A grande maioria está chamando de caos social, desgoverno geral, perda de qualidade no cotidiano, nas relações, e estamos todos jogados nesse abismo.
Ailton Krenak, "Ideias para adiar o fim do mundo"

Narcisismo e a crise da representação política

“O senhor não me manda calar!” — foi com esta frase que José Miguel Prata Roque, jurista e antigo Secretário de Estado, abandonou em direto o estúdio da SIC Notícias, após uma troca acesa de insultos com o deputado do Chega, Rodrigo Taxa. O episódio, ocorrido a 29 de outubro de 2025, tornou-se viral e simboliza o estado preocupante do debate político em Portugal. O que deveria ser um confronto de ideias transformou-se num espetáculo de agressividade, desrespeito e teatralização, onde o insulto substitui o argumento e a vaidade eclipsa o serviço público.

O narcisismo no poder não é uma metáfora. É uma realidade política que exige vigilância. Esta é a premissa central do livro “Les Narcisse” (Éditions La Découverte) da psiquiatra e psicanalista francesa Marie-France Hirigoyen, que analisa com precisão os traços psicológicos que caracterizam muitos dos líderes contemporâneos: egocentrismo, manipulação, ausência de empatia e uma tendência para se colocarem acima da lei e das instituições.


Vivemos tempos em que o espaço público se transforma num palco de vaidades. O Parlamento, outrora símbolo do debate democrático, é frequentemente reduzido a um cenário de insultos, teatralizações e afirmações provocatórias. A política, em vez de ser um exercício de serviço à comunidade, torna-se um instrumento de afirmação pessoal, onde o ego se sobrepõe ao interesse coletivo.

Hirigoyen alerta para o perigo de líderes narcisistas que, ao invés de promoverem o bem comum, cultivam a divisão, alimentam o ressentimento e exploram medos. Estes líderes não toleram a crítica, não reconhecem os próprios erros e constroem uma imagem de infalibilidade que os torna perigosamente impermeáveis à realidade. A sua força reside na capacidade de seduzir, de criar uma narrativa onde se apresentam como únicos salvadores de uma sociedade em crise.

Em Portugal, como noutros países, assistimos à ascensão de figuras políticas que se encaixam neste perfil. A ignorância é muitas vezes disfarçada de autenticidade, a incompetência é camuflada por discursos inflamados e a irresponsabilidade é normalizada como “coragem política”. Esta tendência não é apenas preocupante do ponto de vista ético — é uma ameaça à própria estrutura democrática.

No meu ensaio publicado na Revista Athena.pt – Edição nº 33, de Setembro de 2025 – intitulado “A Sociedade do Espelho Invertido”, proponho uma leitura crítica da realidade contemporânea através daquilo que denominei como Teoria do Espelho Invertido. Vivemos numa sociedade onde “tudo é apresentado ao contrário — como se olhássemos para um espelho que não apenas reflete, mas distorce, inverte, engana”. Esta inversão simbólica aplica-se também à política: o que se apresenta como autenticidade pode esconder manipulação; o que se proclama como liberdade pode ser uma nova forma de aprisionamento ideológico.

O narcisismo político manifesta-se também na forma como certos líderes se relacionam com os media e com as redes sociais. A exposição constante, a necessidade de validação pública e a dramatização de cada gesto ou palavra revelam uma dependência do olhar alheio. O político narcisista não governa — representa. E representa-se a si próprio, numa encenação contínua onde o conteúdo é secundário face à forma. Esta teatralização da política contribui para a erosão da confiança pública e para a desvalorização do debate racional.

No ensaio, refiro que “as redes sociais são o reflexo invertido da amizade verdadeira”, pois mostram uma imagem de vida social intensa, mas escondem frequentemente solidão e ansiedade. Esta lógica aplica-se também à política digitalizada, onde o líder narcisista constrói uma persona virtual que substitui o compromisso real com os cidadãos. A política torna-se espetáculo, e o espetáculo, uma forma de alienação.

Outro traço preocupante é a tendência para o revisionismo histórico e a negação da complexidade. O líder narcisista simplifica o mundo em dicotomias: nós contra eles, bem contra mal, povo contra elite. Esta simplificação é emocionalmente eficaz, mas intelectualmente desonesta. Ao rejeitar a nuance, o diálogo e o compromisso, abre-se caminho para formas de autoritarismo disfarçado de autenticidade. Hirigoyen sublinha que o narcisismo político não é apenas uma questão de personalidade — é uma estratégia de poder.

A cultura política que tolera e até celebra este tipo de liderança revela uma fragilidade democrática. Quando os cidadãos, os jovens, se habituam a ver o insulto como argumento, a arrogância como força e a ignorância como espontaneidade, o espaço público degrada-se. A democracia exige maturidade, exige líderes que saibam escutar, ponderar e decidir com responsabilidade. O narcisismo, pelo contrário, alimenta-se da impulsividade, da vaidade e da ausência de limites.

A sociedade portuguesa precisa de olhar para este espelho partido e perguntar: que tipo de líderes queremos? Que tipo de país estamos a construir? E até que ponto estamos dispostos a tolerar a ignorância, a incompetência e o narcisismo como formas legítimas de poder? A resposta não está apenas nas urnas, mas na forma como educamos, discutimos e exigimos responsabilidade. Porque quando o poder se transforma num espelho quebrado, o reflexo que vemos já não é o da democracia — é o da sua sombra.

Entre a 'mexicanização' e a 'bukelização' do Brasil

A ação no Complexo da Penha e do Alemão, no Rio de Janeiro, que resultou em 121 mortes, revelou o ponto a que o Brasil chegou em sua crise de segurança pública. A operação foi aprovada pela maioria da população — especialmente os que vivem em áreas nas quais o crime organizado explora as pessoas, viola direitos humanos e instala sua ditadura por meio da violência. Vinte e oito milhões de brasileiros — 19% da população — vivem nesta situação, à margem do Estado Democrático de Direito.

Em quatro pesquisas — Datafolha, Atlas/Sintel, Paraná Pesquisas e Genial/Quaest —, a sociedade manifestou um recado claro: acuada e descrente, parece disposta a aceitar qualquer resposta, mesmo quando assume a forma perigosa de uma ‘licença para matar’. O episódio vai além da tragédia: é um sintoma do colapso de confiança nas instituições e da exaustão de um país que já não acredita na capacidade do Estado de garantir o monopólio da força e da lei.


No final da primeira década deste século, especialistas já alertavam para o risco da “mexicanização do Brasil”, expressão usada para descrever a expansão territorial e social do crime organizado até o ponto em que o Estado perde o controle de partes de seu território. À época, a retomada do Complexo do Alemão, em 2010, parecia inaugurar uma política de recuperação das áreas dominadas pelo narcotráfico. Era como se o país houvesse finalmente despertado para o problema e se dispusesse a enfrentá-lo com inteligência, integração e presença permanente do Estado. Ledo engano.

Aquelas operações produziram mais espuma do que transformação real. O Estado recuou, e as facções voltaram. Virou rotina: o Estado faz operações espetaculares, ocupa comunidades, mas não leva serviços e logo se retira — com o narcotráfico voltando a ter o controle.

De lá para cá, o problema apenas se agravou. O crime organizado, que há trinta anos tinha no “dono do morro” um personagem de liderança local — às vezes legitimado pela comunidade e até visto com certo fascínio por parte da classe média —, transformou-se em uma estrutura empresarial e militarizada, com alto poder bélico. O narcotráfico tornou-se um sistema de poder autônomo, que explora e subjuga a população, controla rotas internacionais e movimenta cifras bilionárias. O que antes era uma questão de segurança pública tornou-se também um problema de soberania nacional.

O governo federal ainda não possui uma estratégia capaz de combinar inteligência, rastreamento financeiro e presença social. Falta um projeto integrado de Estado — não de governo — que una o uso racional da força à presença constante de serviços públicos, cultura, educação e emprego nos territórios hoje dominados pelo crime. Sem isso, as operações se tornam ações pontuais, de efeito midiático e curto prazo, incapazes de transformar estruturalmente a realidade. A ausência dessa política de longo alcance alimenta tanto o avanço das facções quanto o sentimento popular de desamparo.

É verdade que também contribuiu para essa expansão uma certa permissividade e uma visão idílica do combate ao crime organizado, visto exclusivamente como uma “questão social”. Na ótica de certos setores progressistas, a repressão e o enfrentamento representam uma ameaça aos direitos humanos. Na outra ponta, setores clamam por ações ao arrepio do Estado Democrático de Direito, pregando que “bandido bom é bandido morto”.

A esse cenário soma-se a disputa eleitoral do ano que vem. Em vez de uma discussão séria e estratégica sobre segurança e soberania, o tema está sendo instrumentalizado por interesses políticos. De um lado, parte da oposição explora o medo e a insegurança como combustível eleitoral. De outro, o governo hesita em adotar uma política firme de enfrentamento para não ser acusado de autoritarismo e preservar sua base à esquerda. O resultado é um impasse em que o pragmatismo cede lugar à retórica, e o país se afunda em uma espiral de violência e descrédito.

Essa paralisia institucional e política abre espaço para outro fenômeno inquietante, que o presidente de El Salvador, Nayib Bukele, tornou-se o símbolo: um populismo autoritário que combina tecnologia, comunicação direta com as massas e uma promessa sedutora de ordem rápida — ainda que à custa das liberdades democráticas. O exemplo salvadorenho exerce fascínio em amplos setores da população latino-americana, especialmente onde o Estado falhou em oferecer segurança e justiça.

O Brasil começa a flertar com essa tentação. O apoio expressivo à operação do Alemão e da Penha indica que cresce o sentimento de que a democracia é incapaz de oferecer segurança. Quando o medo se torna o principal motor da política, o terreno está preparado para líderes que prometem resultados sem mediações, sem tribunais, sem debate público. Se o Estado não der uma resposta satisfatória no curto prazo, estarão abertas as portas para que um populismo autoritário, à la Bukele, se apresente como opção competitiva na próxima disputa presidencial.

O país se encontra, assim, entre dois abismos: de um lado, a “mexicanização”, com o avanço das facções sobre o território e as instituições; de outro, a “bukelização”, com o avanço do autoritarismo legitimado pelo desespero social. Um leva à erosão do Estado; o outro, à sua deformação. Ambos significam a derrota da República e da democracia.

A única saída possível é reconstruir a presença do Estado dentro da legalidade democrática — o que exige planejamento, coordenação federativa, políticas sociais duradouras e reforma das forças de segurança. É preciso sufocar financeiramente as facções, fortalecer a inteligência policial, articular políticas de juventude e oportunidades e, sobretudo, restabelecer a confiança da população nas instituições. É imperativo também usar o poder coercitivo do aparato repressivo do Estado para resgatar os territórios hoje nas mãos dos dois grandes oligopólios do crime organizado: o PCC e o Comando Vermelho.

O episódio do Rio de Janeiro deve servir como um alerta final. Ele mostra até onde a sociedade brasileira está disposta a ir quando o medo supera a esperança. Mas também mostra que ainda há tempo para evitar o colapso. O Brasil não pode ficar prisioneiro entre a barbárie de um Estado capturado pelo crime e a tentação de um Estado autoritário que promete ordem à força. Entre os dois, há a via republicana — que combina autoridade e legalidade, força e lei.

quarta-feira, 5 de novembro de 2025

Pensamento do Dia

 


A legitimação da chacina pela opinião pública

Em 28 de outubro de 2025, vimos um novo marco da violência policial no Brasil: superando em número de mortos da chacina do Carandiru, a “megaoperação” no Rio de Janeiro, realizada a céu aberto, com imagens de drones e helicópteros, um enorme efetivo policial com armamento de confronto militar, foi longamente planejada pelas forças de segurança pública fluminenses para fazer do massacre de jovens negros e periféricos um espetáculo político macabro.

Na manhã seguinte, logo após a população dos complexos do Alemão e da Penha enfileirar na praça os corpos dos civis mortos pela polícia e deixados na mata – boa parte deles com sinais de execução sumária –, o governador Claudio Castro e o secretário de segurança pública, em coletiva de imprensa, classificavam a operação como “um sucesso”.


Como uma operação que chocou o mundo, transformou o local onde vivem mais de 100 mil pessoas em cenário de guerra, resultou em 121 mortes (117 civis e 4 policiais), cumpriu uma parcela pequena dos mandados de prisão expedidos e apreendeu uma pequena quantidade de armas pode ser considerada um sucesso pelo governador e seus agentes de segurança?

A resposta a esse questionamento veio com as pesquisas de opinião realizadas ao final da semana: levantamento realizado pelo instituto AtlasIntel e divulgado na sexta-feira (31/10) demonstrou apoio de 62,2% dos cariocas à operação policial, contra 34,2% de desaprovação. No restante do Brasil, a operação também foi aprovada pela maioria dos respondentes (55,2%), enquanto 42,3% desaprovavam. Embora sejam levantados questionamentos sobre a metodologia dessa pesquisa, o índice de aprovação entre os moradores das favelas cariocas é chocante: 87,6% disseram apoiar a operação policial.

No dia seguinte, o instituto Datafolha divulgou pesquisa de opinião realizada na cidade do Rio de Janeiro e região metropolitana segundo a qual 57% concordavam (parcial ou totalmente) com a declaração do governador de que a operação “foi um sucesso”, contra 39% de discordância. Na mesma pesquisa, 48% dos respondentes avaliaram que a operação que resultou na morte de 121 pessoas foi muito bem executada e, somente 24% afirmaram que foi mal executada pela polícia.

É possível dizer, a partir desses levantamentos, que a Operação Contenção, esse espetáculo macabro, foi “um sucesso” político para o governador Claudio Castro e para a extrema-direita no Brasil. Ao campo progressista e engajado com os direitos humanos, impõe-se a obrigação de questionar: por que a população, principalmente aquela que sofre diretamente com a violência das instituições, tem alto grau de concordância com a letalidade policial extrema?

Por óbvio, a explicação não é única, nem simples. O criminólogo argentino Alejando Alagia, por exemplo, aponta a relação entre o tratamento punitivo estatal contemporâneo e a solução sacrificial das sociedades primitivas, sustentando que, na civilização, a partir da crença de que um mal deve ser respondido com outro equivalente, o Estado escolhe os indivíduos vulneráveis ao tratamento sacrificial. No entanto, e sem desconsiderar as discussões acadêmicas que partem da sociologia do genocídio, da antropologia política e da psicanálise, o que se pretende nesse curto texto é provocar o leitor a refletir sobre a legitimação do massacre a partir da economia política, sua relação com as políticas de “segurança pública” apregoadas pela extrema-direita e o medo do crime sentido pela população.

O projeto da extrema-direita brasileira contemporânea articula-se em torno do conservadorismo, da idolatria do mercado e do armamentismo. Nesse espectro político, onde se situa o governador do Rio de Janeiro, argumenta-se que somente o livre mercado seria capaz de garantir a liberdade individual, devendo o Estado limitar-se exclusivamente a preservar a ordem institucional necessária. Sob a égide político-econômica neoliberal, reina a ideologia da austeridade fiscal e o Estado é cada vez menos capaz de alcançar as políticas públicas que setores significativos do eleitorado exigem, como saúde, educação, moradia, emprego etc.

Tanto o incremento e maior grau de organização da violência criminal quanto a truculência e intensidade das respostas punitivas estatais são decorrentes dos deslocamentos do mercado de trabalho no contexto do capitalismo tardio: um mercado que, segundo Jock Young, “exclui a participação do trabalhador mas estimula a voracidade do consumidor” e um capitalismo que, como diz, Debora Pastana “se multiplica financeiramente e que, por isso mesmo, descarta a força de trabalho como nunca havia feito antes”.

Zaffaroni tem argumentado que a reprodução da delinquência é multifuncional aos interesses neoliberais, promovendo a maior demanda por punição; debilitando o sentimento de comunidade; legitimando a imagem de guerra; desorientando e condicionando a atuação dos governos populares e; imunizando o poder punitivo hegemônico e informal.

O Estado, enfraquecido diante do poder do capital e movendo-se conforme os interesses deste último, se amolda mais e mais ao modelo de Estado policial. Se não pode cumprir a função de regulação social, o Estado neoliberal dissemina, sustenta e se aproveita do sentimento de insegurança e de medo do crime, que passam ao primeiro plano das preocupações políticas.

Pesquisas de opinião realizadas tanto pela AtlasIntel quanto pela Genial/Quaest no segundo semestre de 2025 trazem a segurança pública e a criminalidade como as maiores preocupações dos brasileiros, em trajetória crescente. A insegurança sentida pela população não é irracional, nem apenas resultado de manipulação midiática: de fato, a vida de milhões de brasileiros é cotidianamente afetada pelo crime, sejam os pequenos delitos patrimoniais, seja a atuação das facções nos territórios e, diante da permanência dos problemas, tende a apoiar respostas imediatistas e simplistas.

Diante da importância do medo do crime na vida dos brasileiros, a agenda da segurança é incorporada como uma das principais fontes de capital e disputa política. O populismo punitivo se incorpora às estruturas sociais, reconfigura o poder penal, promove discursos de ódio voltados contra o desviante e o apoio a medidas extremas em nome do controle do crime.

Após a chacina promovida pelo governo do Rio de Janeiro, a extrema direita no Congresso Nacional ou nos governos de outros estados busca capitalizar politicamente o evento com a retórica de “narcoterrorismo” e a pressão para o recrudescimento da legislação penal e das práticas policiais.

É especialmente importante, e também urgente, olhar para as formas de consolidação do populismo neste momento em que as ameaças autoritárias pairam, de forma evidente, sobre Brasil.

À classe política comprometida com a democracia, assim como a todo o espectro progressista da população, é necessária uma tomada de posição: a democracia deve ser pensada de forma “maximalista”, sem espaços para exclusão dos marginalizados e criminalizados. É preciso se posicionar abertamente contra a violência empreendida pelas forças de segurança, mas também contra o projeto de controle e encarceramento massivo em curso contra qualquer discurso pautado na criminalização como resposta simbólica aos problemas sociais.

É imprescindível implementar propostas que promovam, de fato, a segurança dos cidadãos e reduzam o sentimento de medo do crime experienciado cotidianamente pela população, sem violar os direitos dos desviantes.

Mais do que isso, é vital apresentar um projeto de superação do neoliberalismo e, nesse momento de instabilidade, catalisar os movimentos emancipatórios que começam a despertar.