sexta-feira, 6 de junho de 2025
Nacionalismo Cristão
O nacionalismo cristão é um grande problema nos Estados Unidos. Ele alimenta o poder político de Donald Trump. E é uma ameaça à separação entre Igreja e Estado.
O nacionalismo cristão busca impor uma versão fundamentalista mais extrema à sociedade americana em geral, monopolizando o poder político no governo americano. Os defensores do nacionalismo cristão acreditam que os únicos verdadeiros americanos são aqueles que são o mesmo tipo de cristão que eles. Aqueles que não compartilham as mesmas crenças, como judeus, muçulmanos, pessoas LGBTQIA+, ateus e aqueles de denominações cristãs mais liberais, tornam-se cidadãos de segunda classe, pois o governo favorece uma versão restrita do cristianismo.
O nacionalismo cristão muitas vezes se sobrepõe e fornece cobertura para ideologias de supremacia branca e subjugação racial.
Os nacionalistas cristãos são proponentes do Mandato das Sete Montanhas, uma estratégia que busca o domínio cristão nas “sete montanhas” da sociedade: religião, família, governo, educação, mídia, artes/entretenimento e negócios.
O nacionalismo cristão não representa toda a comunidade cristã. Vários cristãos que se opõem ao nacionalismo cristão formaram o grupo "Cristãos Contra o Nacionalismo Cristão". Eles afirmam em seu site:
"Nacionalismo cristão não é a mesma coisa que cristianismo e pode ser definido e compreendido de diversas maneiras. Nesta campanha, definimos o nacionalismo cristão como 'uma ideologia política que busca fundir as identidades cristã e americana, distorcendo tanto a fé cristã quanto a democracia constitucional dos Estados Unidos'."
O nacionalismo cristão busca impor uma versão fundamentalista mais extrema à sociedade americana em geral, monopolizando o poder político no governo americano. Os defensores do nacionalismo cristão acreditam que os únicos verdadeiros americanos são aqueles que são o mesmo tipo de cristão que eles. Aqueles que não compartilham as mesmas crenças, como judeus, muçulmanos, pessoas LGBTQIA+, ateus e aqueles de denominações cristãs mais liberais, tornam-se cidadãos de segunda classe, pois o governo favorece uma versão restrita do cristianismo.
O nacionalismo cristão muitas vezes se sobrepõe e fornece cobertura para ideologias de supremacia branca e subjugação racial.
Os nacionalistas cristãos são proponentes do Mandato das Sete Montanhas, uma estratégia que busca o domínio cristão nas “sete montanhas” da sociedade: religião, família, governo, educação, mídia, artes/entretenimento e negócios.
O nacionalismo cristão não representa toda a comunidade cristã. Vários cristãos que se opõem ao nacionalismo cristão formaram o grupo "Cristãos Contra o Nacionalismo Cristão". Eles afirmam em seu site:
"Nacionalismo cristão não é a mesma coisa que cristianismo e pode ser definido e compreendido de diversas maneiras. Nesta campanha, definimos o nacionalismo cristão como 'uma ideologia política que busca fundir as identidades cristã e americana, distorcendo tanto a fé cristã quanto a democracia constitucional dos Estados Unidos'."
Ganhar o quê?
A data está anunciada: 2027 será o ano em que se atinge a AIG – Inteligência Artificial genérica, ou seja, quando o computador se torna tão inteligente como o ser humano. O impacto já é visível em Silicon Valley. As Big Tech já não contratam programadores, pois os Large Language Model (LLM, como o ChatGPT) já conseguem programar ao nível de um licenciado. Nos telemóveis e nos computadores pessoais há um “assistente pessoal” à nossa espera, para nos suavizar o dia a dia. Tanto pode encomendar-nos o almoço, utilizando o nosso cartão de crédito, como sumariar um relatório que temos de rever e sobre o qual opinar.
Mas a corrida não termina em 2027, outra já se iniciou: a corrida para a superinteligência (ASI – artificial super inteligence). Possível, porque a AIG se torna capaz de programar de forma mais eficiente e célere do que qualquer programador humano – autocopiando-se num exército de programadores virtuais; tantos quantos os data centers permitam processar.
Prometem-nos a superinteligência, um mundo com descobertas científicas que eliminam doenças, controlam a poluição e onde as máquinas se tornam nossos conselheiros – os mais inteligentes e informados da História da Humanidade. Seremos felizes para sempre.
O cenário concretiza os riscos que, no desenvolvimento dos LLM, têm sido detetados. Como é o caso da dificuldade em garantir o alinhamento dos modelos com os princípios-base definidos pelos programadores. Honestidade e eficiência não são sempre fáceis de conciliar e os LLM, treinados em dados humanos, parecem ter dúvidas semelhantes às nossas quando confrontados com as regras e os incentivos. Os programadores classificam a performance e os LLM sabem-no e procuram obter a melhor pontuação, mesmo que para tal tenham de mentir.
O cenário incorpora as dinâmicas empresariais e políticas. Seja a corrida para uma vitória, que permitirá à empresa vencedora o monopólio do mercado (e o retorno do investimento milionário em curso). Sejam as tensões geoestratégicas com a China na corrida pela dianteira na inovação.
Refletindo a atual realidade regulatória, a Europa e o resto do mundo assistem, incapazes de intervir, sem jurisdição sobre as Big Tech. E, sobretudo, sem compreensão da dimensão da revolução em curso, pois não têm acesso ao status dos progressos realizados. Embora o Regulamento da Inteligência Artificial proíba determinadas práticas e obrigue ao cumprimento de obrigações para algoritmos considerados de risco elevado poderem ser colocados junto do público, não prevê a obrigatoriedade de as Big Tech reportarem antecipadamente os desenvolvimentos em curso, para análise e decisão. O cenário, num dos finais, prevê uma intervenção na gestão da Big Tech pelo governo dos EUA e a partilha de decisão, via presença no “conselho de administração”.
No cenário, como na realidade, cada um de nós – o cidadão comum – se encontra alienado das decisões, sendo confrontado com o resultado, sem qualquer voz ou intervenção.
A publicação do ai-2027 visa acordar-nos deste torpor. Alertar para os perigos, que as próprias Big Tech reconhecem. É imprescindível tornar central no discurso público a questão do futuro tecnológico que desejamos. Acelerar a celebração de um tratado internacional que assegure uma efetiva supervisão das Big Tech e, quando necessário, uma moratória na investigação, que permita decisões ponderadas em prol do bem comum. Uma via seria o reforço das obrigações já previstas na Convenção-Quadro do Conselho da Europa sobre a Inteligência Artificial, de que os EUA já são parte. Dizem-nos “temos de ganhar”. Mas ganhar o quê?
Mas a corrida não termina em 2027, outra já se iniciou: a corrida para a superinteligência (ASI – artificial super inteligence). Possível, porque a AIG se torna capaz de programar de forma mais eficiente e célere do que qualquer programador humano – autocopiando-se num exército de programadores virtuais; tantos quantos os data centers permitam processar.
Prometem-nos a superinteligência, um mundo com descobertas científicas que eliminam doenças, controlam a poluição e onde as máquinas se tornam nossos conselheiros – os mais inteligentes e informados da História da Humanidade. Seremos felizes para sempre.
Existem céticos. Daniel Kokotajlo e a sua equipa publicaram um cenário informado do futuro (ai-2027.com). Lê-se como um thriller de Hollywood, mas não tem um final feliz em nenhum dos dois subfinais. Seria menos preocupante se os seus autores não fossem reconhecidos pela sua experiência e o seu know-how e se, em 2021, Kokotajlo não tivesse já realizado um exercício semelhante – para o período 2022-2026 – que se mostrou bastante preciso.
O cenário concretiza os riscos que, no desenvolvimento dos LLM, têm sido detetados. Como é o caso da dificuldade em garantir o alinhamento dos modelos com os princípios-base definidos pelos programadores. Honestidade e eficiência não são sempre fáceis de conciliar e os LLM, treinados em dados humanos, parecem ter dúvidas semelhantes às nossas quando confrontados com as regras e os incentivos. Os programadores classificam a performance e os LLM sabem-no e procuram obter a melhor pontuação, mesmo que para tal tenham de mentir.
O cenário incorpora as dinâmicas empresariais e políticas. Seja a corrida para uma vitória, que permitirá à empresa vencedora o monopólio do mercado (e o retorno do investimento milionário em curso). Sejam as tensões geoestratégicas com a China na corrida pela dianteira na inovação.
Refletindo a atual realidade regulatória, a Europa e o resto do mundo assistem, incapazes de intervir, sem jurisdição sobre as Big Tech. E, sobretudo, sem compreensão da dimensão da revolução em curso, pois não têm acesso ao status dos progressos realizados. Embora o Regulamento da Inteligência Artificial proíba determinadas práticas e obrigue ao cumprimento de obrigações para algoritmos considerados de risco elevado poderem ser colocados junto do público, não prevê a obrigatoriedade de as Big Tech reportarem antecipadamente os desenvolvimentos em curso, para análise e decisão. O cenário, num dos finais, prevê uma intervenção na gestão da Big Tech pelo governo dos EUA e a partilha de decisão, via presença no “conselho de administração”.
No cenário, como na realidade, cada um de nós – o cidadão comum – se encontra alienado das decisões, sendo confrontado com o resultado, sem qualquer voz ou intervenção.
A publicação do ai-2027 visa acordar-nos deste torpor. Alertar para os perigos, que as próprias Big Tech reconhecem. É imprescindível tornar central no discurso público a questão do futuro tecnológico que desejamos. Acelerar a celebração de um tratado internacional que assegure uma efetiva supervisão das Big Tech e, quando necessário, uma moratória na investigação, que permita decisões ponderadas em prol do bem comum. Uma via seria o reforço das obrigações já previstas na Convenção-Quadro do Conselho da Europa sobre a Inteligência Artificial, de que os EUA já são parte. Dizem-nos “temos de ganhar”. Mas ganhar o quê?
Burocratizando o genocídio, administrando a fome por meio da ajuda
O que se desenrola em Gaza não é humanitarismo. É a sua inversão. O socorro se transforma em contenção. O reconhecimento se transforma em apagamento.
Isto não é uma guerra. É o apagamento frio e metódico de um povo, orquestrado por scanners biométricos. A fome é transformada em arma. A ajuda humanitária é militarizada. O deslocamento é planejado.
E no centro de tudo isso, um regime de necrotecnocracia apoiado pelo Ocidente transforma genocídio em governança e assassinato em gestão.
Há momentos na história em que a violência deixa de ser impulsiva e se torna processual. A fome deixa de ser uma emergência humanitária e passa a ser uma variável num cálculo mais amplo. O exílio deixa de ser lamentado — passa a ser gerido. Gaza hoje exemplifica essa transição: a passagem da crueldade como acidente para a crueldade como estrutura.
Em 28 de maio de 2025, em Rafah, uma empresa americana — sombriamente chamada de Fundação Humanitária de Gaza — tentou distribuir ajuda sob supervisão militar israelense. A operação fracassou: milhares de civis famintos invadiram os portões, as forças israelenses abriram fogo e helicópteros evacuaram os contratados. Não foi um fracasso humanitário. Foi um experimento controlado. A mensagem não era misericórdia. Era dominação.
Raymond Aron alertou que, quando a racionalidade técnica governa os assuntos humanos, a violência assume a lógica do procedimento. Gaza não é mais submetida a ataques episódicos; é governada por um regime burocrático de privação e controle.
A substituição da UNRWA por contratantes privados não é uma reforma — é uma reconfiguração. A ajuda se torna um mecanismo de gestão. A memória é neutralizada. A injustiça é rebatizada como logística. O palestino não é mais um sujeito político, mas um corpo escaneado — catalogado, quantificado, despersonalizado.
Ao facilitar essa mudança, os Estados Unidos abriram mão de qualquer pretensão de liderança moral. Ao se alinharem à máquina de guerra logística de Israel, trocam seu status de superpotência pelo de subcontratante estratégico. Mas sejamos francos: os americanos não são auxiliares do Estado genocida — são seus cobeligerantes. Eles o financiam, o armam, o protegem e o defendem. Não são meramente cúmplices do genocídio; são seus coautores — seus arquitetos.
O que se desenrola em Gaza não é humanitarismo. É a sua inversão. O socorro se transforma em contenção. O reconhecimento se transforma em apagamento. A linguagem dos contratantes — "rastreabilidade", "impacto", "supervisão" — encobre uma estrutura de dominação. Cada caloria é racionada intencionalmente. Cada entrega é uma opressão calculada.
O objetivo é inequívoco: confinar os palestinos a zonas cada vez menores, exaustos, famintos e desprovidos de autonomia, até que a própria existência se torne insuportável. O deslocamento forçado, repetido indefinidamente, não é um fracasso político — é a política. O movimento sem destino, sem dignidade, é uma arma. O objetivo é provocar a morte por exaustão, fazer com que o exílio pareça misericórdia e realizar o extermínio em plena luz do dia — dentro de um vasto campo de concentração a céu aberto.
Este não é mais um conflito regional. É um escândalo civilizacional. Ele põe em questão a credibilidade do direito internacional, a integridade das democracias ocidentais e o valor moral de seus valores proclamados. O sionismo, antes disfarçado na linguagem do refúgio, agora se revela como uma doutrina de exclusão planejada. O silêncio ocidental não é neutralidade. É cumplicidade.
E, no entanto, Gaza resiste. Não apenas com armas, mas com memória, com presença, com a pura recusa em desaparecer. As ruínas falam. As crianças perduram. As pessoas, categorizadas e vigiadas, permanecem a contradição viva da narrativa que lhes é imposta. As revoltas estudantis nos campi ocidentais não são notas secundárias — são rupturas morais sísmicas.
A neutralidade não é mais um refúgio. É preciso consentir — ou confrontar.
A história não absolverá essa barbárie tecnocrática. Não registrará isso como um esforço de ajuda fracassado, mas como o momento em que o humanitarismo foi transformado em arma e a administração se tornou uma ferramenta de aniquilação.
Quando um povo luta até o fim — esgotando cada grama de força em defesa de seu nome, sua fé, sua terra, sua dignidade e sua honra — o que lhe sobrevém depois não é uma derrota. É algo mais. É a história em sua forma mais implacável. É a mordida do destino. É o destino caindo não como humilhação, mas como um golpe final de honra. Isso não é o fracasso de um povo, nem o colapso de um movimento — é o triunfo da fidelidade.
E não há vitória mais nobre do que essa — o triunfo da lealdade em meio à ruína, a afirmação final da dignidade diante do apagamento calculado.
É também a revelação da covardia, a exposição da hipocrisia e a maldição eterna sobre aqueles que permaneceram parados, cúmplices do assassinato, arquitetos da infâmia, herdeiros não da civilização, mas de sua traição.
Isto não é uma guerra. É o apagamento frio e metódico de um povo, orquestrado por scanners biométricos. A fome é transformada em arma. A ajuda humanitária é militarizada. O deslocamento é planejado.
E no centro de tudo isso, um regime de necrotecnocracia apoiado pelo Ocidente transforma genocídio em governança e assassinato em gestão.
Há momentos na história em que a violência deixa de ser impulsiva e se torna processual. A fome deixa de ser uma emergência humanitária e passa a ser uma variável num cálculo mais amplo. O exílio deixa de ser lamentado — passa a ser gerido. Gaza hoje exemplifica essa transição: a passagem da crueldade como acidente para a crueldade como estrutura.
Em 28 de maio de 2025, em Rafah, uma empresa americana — sombriamente chamada de Fundação Humanitária de Gaza — tentou distribuir ajuda sob supervisão militar israelense. A operação fracassou: milhares de civis famintos invadiram os portões, as forças israelenses abriram fogo e helicópteros evacuaram os contratados. Não foi um fracasso humanitário. Foi um experimento controlado. A mensagem não era misericórdia. Era dominação.
Raymond Aron alertou que, quando a racionalidade técnica governa os assuntos humanos, a violência assume a lógica do procedimento. Gaza não é mais submetida a ataques episódicos; é governada por um regime burocrático de privação e controle.
A substituição da UNRWA por contratantes privados não é uma reforma — é uma reconfiguração. A ajuda se torna um mecanismo de gestão. A memória é neutralizada. A injustiça é rebatizada como logística. O palestino não é mais um sujeito político, mas um corpo escaneado — catalogado, quantificado, despersonalizado.
Ao facilitar essa mudança, os Estados Unidos abriram mão de qualquer pretensão de liderança moral. Ao se alinharem à máquina de guerra logística de Israel, trocam seu status de superpotência pelo de subcontratante estratégico. Mas sejamos francos: os americanos não são auxiliares do Estado genocida — são seus cobeligerantes. Eles o financiam, o armam, o protegem e o defendem. Não são meramente cúmplices do genocídio; são seus coautores — seus arquitetos.
O que se desenrola em Gaza não é humanitarismo. É a sua inversão. O socorro se transforma em contenção. O reconhecimento se transforma em apagamento. A linguagem dos contratantes — "rastreabilidade", "impacto", "supervisão" — encobre uma estrutura de dominação. Cada caloria é racionada intencionalmente. Cada entrega é uma opressão calculada.
O objetivo é inequívoco: confinar os palestinos a zonas cada vez menores, exaustos, famintos e desprovidos de autonomia, até que a própria existência se torne insuportável. O deslocamento forçado, repetido indefinidamente, não é um fracasso político — é a política. O movimento sem destino, sem dignidade, é uma arma. O objetivo é provocar a morte por exaustão, fazer com que o exílio pareça misericórdia e realizar o extermínio em plena luz do dia — dentro de um vasto campo de concentração a céu aberto.
Este não é mais um conflito regional. É um escândalo civilizacional. Ele põe em questão a credibilidade do direito internacional, a integridade das democracias ocidentais e o valor moral de seus valores proclamados. O sionismo, antes disfarçado na linguagem do refúgio, agora se revela como uma doutrina de exclusão planejada. O silêncio ocidental não é neutralidade. É cumplicidade.
E, no entanto, Gaza resiste. Não apenas com armas, mas com memória, com presença, com a pura recusa em desaparecer. As ruínas falam. As crianças perduram. As pessoas, categorizadas e vigiadas, permanecem a contradição viva da narrativa que lhes é imposta. As revoltas estudantis nos campi ocidentais não são notas secundárias — são rupturas morais sísmicas.
A neutralidade não é mais um refúgio. É preciso consentir — ou confrontar.
A história não absolverá essa barbárie tecnocrática. Não registrará isso como um esforço de ajuda fracassado, mas como o momento em que o humanitarismo foi transformado em arma e a administração se tornou uma ferramenta de aniquilação.
Quando um povo luta até o fim — esgotando cada grama de força em defesa de seu nome, sua fé, sua terra, sua dignidade e sua honra — o que lhe sobrevém depois não é uma derrota. É algo mais. É a história em sua forma mais implacável. É a mordida do destino. É o destino caindo não como humilhação, mas como um golpe final de honra. Isso não é o fracasso de um povo, nem o colapso de um movimento — é o triunfo da fidelidade.
E não há vitória mais nobre do que essa — o triunfo da lealdade em meio à ruína, a afirmação final da dignidade diante do apagamento calculado.
É também a revelação da covardia, a exposição da hipocrisia e a maldição eterna sobre aqueles que permaneceram parados, cúmplices do assassinato, arquitetos da infâmia, herdeiros não da civilização, mas de sua traição.
Silêncio é aliado do algoz
Jurei nunca me calar enquanto os seres humanos suportarem o sofrimento e a humilhação. Devemos tomar partido. A neutralidade ajuda o opressor, nunca a vítima. O silêncio encoraja o algoz, nunca o atormentado.
Elie Wiesel (Nobel da Paz de 1986).
A paz dos insetos mortos
Fui a Campos no fim de semana. Fazia tempo que eu não pegava uma estrada. Foram mais de quatro horas para ir e outras tantas para voltar. Tudo tranquilo: pista dupla, asfalto lisinho, aquela parada famosa pelas coxinhas de feijoada e pizza, pastos bucólicos com vacas indiferentes ao trânsito. No meio do caminho, um inseto se esborrachou contra o para-brisa. Um. Só um, um único, ao longo de quase 300 quilômetros de chão, quatro horas e 25 minutos de relógio.
Quando eu era criança, havia tantos insetos nas estradas que era preciso parar com frequência para lavar o vidro, opaco de tantos bichinhos esmagados. Cada viagem era uma hecatombe.
O para-brisa que foi e veio limpo me lembrou “Primavera silenciosa”, o clássico de Rachel Carson que, em 1963, mudou a maneira como nos relacionamos com pesticidas. Naquela época, venenos agrícolas, considerados a literal salvação da lavoura, eram pulverizados em abundância por toda a parte, sem contraindicações.
Não esqueço o fumacê percorrendo os bairros do Rio, e isso foi outro dia. Aquela névoa bíblica e fedorenta, se espalhando pelas ruas como se estivesse purificando o ar, era celebrada como uma grande ação sanitária. Os mosquitos sumiam por um tempo e voltavam mais fortes. Os insetos mais fracos sumiram para sempre.
Rachel Carson percebeu que havia pássaros demais morrendo, juntou dois e dois (e mais uma quantidade de evidências irrefutáveis) e chamou a atenção para a calamidade ecológica em curso. Para ela, “pesticidas” era uma palavra enganosa, que sugeria algo direcionado e bem controlado; preferia chamá-los “biocidas”, agentes de morte em larga escala. Seu alerta, que parecia radical (e que foi, naturalmente, atacado com violência pelos fabricantes de agrotóxicos) estava certo, e trouxe os aspectos negativos dos “defensivos” para o centro do debate público. Poucos livros, antes ou depois, tiveram tamanho impacto.
Desde então, muita coisa mudou — nem sempre para melhor. Estudos apontam para o desaparecimento vertiginoso de insetos. Nos últimos 30 anos, sua biomassa diminuiu cerca de 80% ao redor do planeta. “Biomassa”, em ecologia, significa a massa total de organismos vivos em determinado ecossistema. Em outras palavras, há muito menos inseto no mundo. Muito, muito menos.
E nem precisamos mais de pesticidas. Uma matéria do britânico The Guardian, que passou quase despercebida entre tantos relatos horripilantes de guerras e atentados, informou terça-feira que as mudanças climáticas estão acabando com os insetos mesmo em áreas de conservação ambiental. Eles são extremamente sensíveis a alterações de temperatura, à falta de chuvas, a secas e enchentes.
Hoje há 75% menos de insetos voadores na Alemanha do que havia há três décadas, e a Alemanha, possivelmente, nem é o pior dos casos, é apenas o que mede com mais rigor. Nos Estados Unidos, algumas espécies de besouros encolheram 83%. Em Porto Rico, áreas de floresta tropical registram 60 vezes menos insetos do que antes.
Aqui, não é preciso nem estudo — basta pegar uma estrada. Ou nem isso: há quanto tempo você não vê um vagalume? Uma borboleta? Um besouro batendo contra a vidraça?
Essas estatísticas não são só números. São sinais de um colapso silencioso e profundo, que já afeta toda a vida sobre a Terra. A ausência de insetos pode parecer um alívio para quem só se lembra das picadas ou dos para-brisas sujos, mas é, na verdade, uma catástrofe sem precedentes.
Saudades do futuro: o fim das utopias
Há duas décadas, em seu livro “Cartas a um Jovem Político”, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso já dizia que há questões de natureza geracional que precisam ser resolvidas pela geração a que pertencem. Na ocasião ele se referia especificamente ao efeito das redes digitais sobre o comportamento e os valores da juventude.
Vinte anos depois, em “A Geração Ansiosa”, o autor Jonathan Haidt alerta para a evolução desse quadro para um grau de “epidemia de transtornos mentais”, equivalente ao que nos mostrou recentemente a série “Adolescência”. A cabeça humana anda um tanto desarrumada.
Nesse sentido, foi bem ilustrativa a entrevista da apresentadora de TV Lívia Andrade após passar um perrengue aéreo, quando o trem de pouso do avião em que viajava travou na aterrissagem. No seu desabafo legítimo feito ao programa Fantástico, Lívia fez duas observações que parecem apontar mais um aspecto da era digital. O futuro saiu de moda.
Primeiramente, a apresentadora declara algo como “fiz minhas orações e graças a Deus o trem de pouso funcionou”, sem que o Fantástico fizesse menção às providências decisivas do piloto. Na verdade, da piloto Nayane Porto, de 23 anos, cuja iniciativa e equilíbrio na cabine salvaram a vida dos passageiros e da tripulação. Longe de mim negar que Deus resolva dar uma ajudinha a quem madruga, mas quem botou a mão na massa mesmo naquele pouso foi a comandante Nayane e seu copiloto. Por fim, Lívia concluiu, como lição do episódio, que daqui para frente vai viver o hoje mais intensamente, porque ninguém sabe se haverá um amanhã.
Temos de dar um desconto a Lívia pelos momentos de estresse que ela vivenciou. Mas, vale considerar que, “curtir o agora” não é exatamente o resultado que Papai do Céu espera em troca do seu esforço sagrado para impedir que um avião despenque. Normalmente, a expectativa divina seria de uma transformação mais estrutural e de longo prazo da parte do agraciado.
O mais importante é que, ao enfatizar a ideia de que o que importa é viver o agora com maior intensidade e prazer, a reportagem está apenas refletindo (ou incentivando?) o ângulo de visão atual da humanidade sobre o futuro (ou a ausência dele). O entusiasmo de Lívia, além do seu alívio natural de escapar de uma tragédia, é a reprodução – comum atualmente – de uma cultura disseminada deliberadamente por atores predominantes na economia e na política, seja através da publicidade, seja nas redes digitais, ou mesmo pela mídia tradicional, incluída aí a própria imprensa (muitas vezes desatenta às sutilezas que lhe embutem nos jabutis subliminares do noticiário).
Não dá para dizer que capitalismo é pecado, tampouco que os mercados não merecem o reino dos céus. Contudo, não é exagero pensar que a apresentadora Lívia, sem notar, deixou um alerta importante para os telespectadores que conseguirem percebê-lo: Seja qual for a gravidade dos problemas enfrentados pelas pessoas, a ordem do dia é curtir o momento (com tudo que o consumo possa proporcionar). O resto, Deus resolve.
Por sua vez, a partir do mesmo episódio, a jovem comandante Nayane nos deixa um ensinamento valioso. Para superar dificuldades e enfrentar o inesperado ainda precisamos ser capazes de interpretar nosso contexto, sabermos onde queremos chegar, tomarmos decisões acertadas, conhecermos as nossas alternativas e agirmos coletivamente.
O futuro saiu de moda. Houve um tempo em que a sociedade parecia estar decolando para uma realidade melhor, sabendo onde queríamos aterrissar. Tomara que a menina Nayane continue atenta à sua bússola sem se distrair – como a humanidade – com luxos e likes. Como dizia o governador de São Paulo Adhemar de Barros, “Fé em Deus e pé na tábua”.
Vinte anos depois, em “A Geração Ansiosa”, o autor Jonathan Haidt alerta para a evolução desse quadro para um grau de “epidemia de transtornos mentais”, equivalente ao que nos mostrou recentemente a série “Adolescência”. A cabeça humana anda um tanto desarrumada.
Nesse sentido, foi bem ilustrativa a entrevista da apresentadora de TV Lívia Andrade após passar um perrengue aéreo, quando o trem de pouso do avião em que viajava travou na aterrissagem. No seu desabafo legítimo feito ao programa Fantástico, Lívia fez duas observações que parecem apontar mais um aspecto da era digital. O futuro saiu de moda.
Primeiramente, a apresentadora declara algo como “fiz minhas orações e graças a Deus o trem de pouso funcionou”, sem que o Fantástico fizesse menção às providências decisivas do piloto. Na verdade, da piloto Nayane Porto, de 23 anos, cuja iniciativa e equilíbrio na cabine salvaram a vida dos passageiros e da tripulação. Longe de mim negar que Deus resolva dar uma ajudinha a quem madruga, mas quem botou a mão na massa mesmo naquele pouso foi a comandante Nayane e seu copiloto. Por fim, Lívia concluiu, como lição do episódio, que daqui para frente vai viver o hoje mais intensamente, porque ninguém sabe se haverá um amanhã.
Temos de dar um desconto a Lívia pelos momentos de estresse que ela vivenciou. Mas, vale considerar que, “curtir o agora” não é exatamente o resultado que Papai do Céu espera em troca do seu esforço sagrado para impedir que um avião despenque. Normalmente, a expectativa divina seria de uma transformação mais estrutural e de longo prazo da parte do agraciado.
O mais importante é que, ao enfatizar a ideia de que o que importa é viver o agora com maior intensidade e prazer, a reportagem está apenas refletindo (ou incentivando?) o ângulo de visão atual da humanidade sobre o futuro (ou a ausência dele). O entusiasmo de Lívia, além do seu alívio natural de escapar de uma tragédia, é a reprodução – comum atualmente – de uma cultura disseminada deliberadamente por atores predominantes na economia e na política, seja através da publicidade, seja nas redes digitais, ou mesmo pela mídia tradicional, incluída aí a própria imprensa (muitas vezes desatenta às sutilezas que lhe embutem nos jabutis subliminares do noticiário).
Não dá para dizer que capitalismo é pecado, tampouco que os mercados não merecem o reino dos céus. Contudo, não é exagero pensar que a apresentadora Lívia, sem notar, deixou um alerta importante para os telespectadores que conseguirem percebê-lo: Seja qual for a gravidade dos problemas enfrentados pelas pessoas, a ordem do dia é curtir o momento (com tudo que o consumo possa proporcionar). O resto, Deus resolve.
Por sua vez, a partir do mesmo episódio, a jovem comandante Nayane nos deixa um ensinamento valioso. Para superar dificuldades e enfrentar o inesperado ainda precisamos ser capazes de interpretar nosso contexto, sabermos onde queremos chegar, tomarmos decisões acertadas, conhecermos as nossas alternativas e agirmos coletivamente.
O futuro saiu de moda. Houve um tempo em que a sociedade parecia estar decolando para uma realidade melhor, sabendo onde queríamos aterrissar. Tomara que a menina Nayane continue atenta à sua bússola sem se distrair – como a humanidade – com luxos e likes. Como dizia o governador de São Paulo Adhemar de Barros, “Fé em Deus e pé na tábua”.
quarta-feira, 4 de junho de 2025
O crime infame
Nas últimas semanas, muito tem sido glosado sobre as ações do Estado de Israel na Faixa de Gaza (mas, também, na Cisjordânia), assim como sobre a imputação de crimes internacionais, incluindo o de genocídio, aos principais responsáveis políticos israelitas.
Todos o sabemos. Esta guerra teve, na sua origem, os ataques terroristas de 7 de outubro de 2023 cometidos pelo Hamas. Estas ações, crimes miseráveis, desencadearam a resposta militar de Israel e ninguém de boa-fé questionou a sua legitimidade.
Pouco a pouco, no entanto, e agora de forma óbvia, percebeu-se que aquela resposta era muito mais do que defensiva e, sobretudo, que o seu alvo não era só o Hamas. Eram, isso sim, todos os palestinianos. Todos eram alvos legítimos, e alvos desejados, por mais que, com escandalosa desfaçatez, o primeiro-ministro israelita proclamasse que a “sua” guerra era a mais moral de todas.
No imediato pós-7 de outubro, muitas declarações de elementos do Governo israelita e de outros órgãos de soberania se caracterizaram pela forma odiosa como descreviam todos os palestinianos. Yav Gallant, então ministro da Defesa, justificava assim o cerco total de Gaza: “Combatemos bestas humanas e agimos em conformidade.” Já na altura, também, Netanyahu falava de uma guerra que opunha os “filhos da luz” aos “filhos das trevas”, tendo invocado várias vezes Amalec, a tribo inimiga figadal dos israelitas, e por isso merecedora de uma guerra santa, nos seguintes termos: “Matarás homens e mulheres, crianças e recém-nascidos, bois e ovelhas, camelos e jumentos [Samuel, 1, 15].” Que mensagem transmitia Netanyahu?
Eram já declarações especialmente graves, hoje banalizadas e ainda mais violentas, feitas por elementos do Governo de Israel, ou parlamentares, ou nas redes sociais e em canais de televisão, e muitas, muitas, feitas por militares israelitas no topo da hierarquia. Foi, depois, promovida a identificação do 7 de outubro ao Holocausto nazi, por vezes com episódios repelentes, como aquele em que o representante israelita nas Nações Unidas surgiu perante o Conselho de Segurança com a estrela de David amarela no braço. O que diríamos se, porventura, esta verbalização do ódio tivesse sido feita por Bashar-al-Assad, o ditador sírio, entretanto derrubado e escondido em Moscovo? Ou por Omar al-Bashir, o ditador sudanês indiciado pela prática do crime de genocídio? Ou, até, por Vladimir Putin? Sabemos a resposta.
Mas, genocídio? Durante muito tempo, evitou-se o qualificativo. A meu ver, esse cuidado foi, até certa altura, aceitável. O crime de genocídio é o crime dos crimes, para empregar uma fórmula bem conhecida. E, nos termos do Artigo 2.º da Convenção do Genocídio, pressupõe a “intenção de destruir, no todo ou em parte, um grupo nacional, étnico, racial ou religioso”. Falar-se de tudo isto em relação a Israel e aos seus responsáveis sempre seria um passo difícil de dar. No Holocausto, pereceram seis milhões de judeus e o conceito de genocídio foi “criado” por Lemkin, porque nada do que existia permitia qualificar o que acontecera.
Por isso, de forma oportunista, muitos aproveitaram para dizer que, quase que por definição, um genocídio não “podia” ser cometido por judeus. A posição é absurda, e além de absurda é racista. Um crime, qualquer crime, é cometido por pessoas, quaisquer que sejam a sua raça, credo ou cor. Pode, no passado, o crime de genocídio ter sido cometido por indivíduos alemães (o Holocausto), turcos (genocídio arménio), hutus (no Ruanda), sérvios (na Bósnia) ou sudaneses (no Darfur). Por que razão espúria não “poderia” vir a ser cometido contra os palestinianos em Gaza por indivíduos que calha serem judeus ou israelitas?
Outros foram ainda mais longe. Seria antissemita o facto de se considerar que a Benjamin Netanyahu, entre outros, pode ser imputado o crime de genocídio. Foi essa, aliás, a estratégia gulosamente seguida pelo próprio, quando declarou, e reiterou, que qualquer acusação contra ele dirigida (no caso, pelo TPI) era um ataque ao Estado de Israel e aos judeus – logo, antissemita.
Veja-se, a propósito, um caso recente ocorrido entre nós. Refiro-me à comparação entre Hitler e Netanyahu feita por um cartoon publicado neste jornal. O cartoon seria… antissemita, já se esperava. Quando se diz que a comparação feita no tal cartoon é ilegítima, e se insinua que devia o cartoon ser proibido, promove-se um efeito inaceitável, o de considerar que se Gaza não pode ser comparada ao Holocausto, então não é “nada” – ou, vá lá, nada de grave.
Ainda com banda mais larga, seriam também antissemitas, e pró-Hamas, as críticas feitas por França, Canadá e Reino Unido aos desmandos cruéis cometidos em Gaza. Quem assim fala, é inevitável, “coletiviza” Netanyahu, ou Yav Gallant, ou Smotrich e tantos outros, transformando-os em representações vivas e coletivas dos judeus (como povo). Com que direito, pergunta-se?
E os artifícios de linguagem? A respeito de Gaza, há quem, de forma compungida, mencione uma “tragédia”, como se matar deliberadamente à fome, ou assassinar mulheres e crianças, ou promover a expulsão “voluntária” de Gaza daqueles que venham a sobreviver, fosse uma desgraça divina, sem autoria humana. E, é claro, não podia faltar a falácia tu quoque. Morrem dezenas, ou centenas, em Gaza, depois milhares, depois muito mais do que cinquenta mil? Sem nunca conceder, responde-se: e no Iémen, em que morreram muitos mais? E na Síria? E na República Democrática do Congo? Desta forma, se os media falarem do genocídio em Gaza, são eles próprios antissemitas, porque, de forma seletiva, destacam o caso de Israel.
Denunciam-se (e muito bem) os crimes cometidos no quadro da agressão russa contra a Ucrânia, mas Gaza e os palestinianos não existem, são os novos invisíveis. Este é um duplo standard tão gritante que nem justifica particulares desenvolvimentos. É como Roosevelt terá afirmado a respeito de Somoza, o então ditador da Nicarágua. Talvez ele seja um “filho da mãe”, disse. Mas é “o nosso filho da mãe”. Para muitos, Netanyahu é “o nosso filho da mãe”.
No início de maio, o Parlamento Europeu adotou uma resolução que condenava a transferência forçada de crianças ucranianas para a Rússia, fazendo referência a uma “estratégia de genocídio para eliminar a identidade ucraniana”. Muito bem. E as crianças de Gaza? Aos costumes, nada?
Não “vermos” o que está a acontecer em Gaza é uma escolha. Ao menos, que a cegueira seja assumida.
Todos o sabemos. Esta guerra teve, na sua origem, os ataques terroristas de 7 de outubro de 2023 cometidos pelo Hamas. Estas ações, crimes miseráveis, desencadearam a resposta militar de Israel e ninguém de boa-fé questionou a sua legitimidade.
Pouco a pouco, no entanto, e agora de forma óbvia, percebeu-se que aquela resposta era muito mais do que defensiva e, sobretudo, que o seu alvo não era só o Hamas. Eram, isso sim, todos os palestinianos. Todos eram alvos legítimos, e alvos desejados, por mais que, com escandalosa desfaçatez, o primeiro-ministro israelita proclamasse que a “sua” guerra era a mais moral de todas.
No imediato pós-7 de outubro, muitas declarações de elementos do Governo israelita e de outros órgãos de soberania se caracterizaram pela forma odiosa como descreviam todos os palestinianos. Yav Gallant, então ministro da Defesa, justificava assim o cerco total de Gaza: “Combatemos bestas humanas e agimos em conformidade.” Já na altura, também, Netanyahu falava de uma guerra que opunha os “filhos da luz” aos “filhos das trevas”, tendo invocado várias vezes Amalec, a tribo inimiga figadal dos israelitas, e por isso merecedora de uma guerra santa, nos seguintes termos: “Matarás homens e mulheres, crianças e recém-nascidos, bois e ovelhas, camelos e jumentos [Samuel, 1, 15].” Que mensagem transmitia Netanyahu?
Eram já declarações especialmente graves, hoje banalizadas e ainda mais violentas, feitas por elementos do Governo de Israel, ou parlamentares, ou nas redes sociais e em canais de televisão, e muitas, muitas, feitas por militares israelitas no topo da hierarquia. Foi, depois, promovida a identificação do 7 de outubro ao Holocausto nazi, por vezes com episódios repelentes, como aquele em que o representante israelita nas Nações Unidas surgiu perante o Conselho de Segurança com a estrela de David amarela no braço. O que diríamos se, porventura, esta verbalização do ódio tivesse sido feita por Bashar-al-Assad, o ditador sírio, entretanto derrubado e escondido em Moscovo? Ou por Omar al-Bashir, o ditador sudanês indiciado pela prática do crime de genocídio? Ou, até, por Vladimir Putin? Sabemos a resposta.
Mas, genocídio? Durante muito tempo, evitou-se o qualificativo. A meu ver, esse cuidado foi, até certa altura, aceitável. O crime de genocídio é o crime dos crimes, para empregar uma fórmula bem conhecida. E, nos termos do Artigo 2.º da Convenção do Genocídio, pressupõe a “intenção de destruir, no todo ou em parte, um grupo nacional, étnico, racial ou religioso”. Falar-se de tudo isto em relação a Israel e aos seus responsáveis sempre seria um passo difícil de dar. No Holocausto, pereceram seis milhões de judeus e o conceito de genocídio foi “criado” por Lemkin, porque nada do que existia permitia qualificar o que acontecera.
Por isso, de forma oportunista, muitos aproveitaram para dizer que, quase que por definição, um genocídio não “podia” ser cometido por judeus. A posição é absurda, e além de absurda é racista. Um crime, qualquer crime, é cometido por pessoas, quaisquer que sejam a sua raça, credo ou cor. Pode, no passado, o crime de genocídio ter sido cometido por indivíduos alemães (o Holocausto), turcos (genocídio arménio), hutus (no Ruanda), sérvios (na Bósnia) ou sudaneses (no Darfur). Por que razão espúria não “poderia” vir a ser cometido contra os palestinianos em Gaza por indivíduos que calha serem judeus ou israelitas?
Outros foram ainda mais longe. Seria antissemita o facto de se considerar que a Benjamin Netanyahu, entre outros, pode ser imputado o crime de genocídio. Foi essa, aliás, a estratégia gulosamente seguida pelo próprio, quando declarou, e reiterou, que qualquer acusação contra ele dirigida (no caso, pelo TPI) era um ataque ao Estado de Israel e aos judeus – logo, antissemita.
Veja-se, a propósito, um caso recente ocorrido entre nós. Refiro-me à comparação entre Hitler e Netanyahu feita por um cartoon publicado neste jornal. O cartoon seria… antissemita, já se esperava. Quando se diz que a comparação feita no tal cartoon é ilegítima, e se insinua que devia o cartoon ser proibido, promove-se um efeito inaceitável, o de considerar que se Gaza não pode ser comparada ao Holocausto, então não é “nada” – ou, vá lá, nada de grave.
Ainda com banda mais larga, seriam também antissemitas, e pró-Hamas, as críticas feitas por França, Canadá e Reino Unido aos desmandos cruéis cometidos em Gaza. Quem assim fala, é inevitável, “coletiviza” Netanyahu, ou Yav Gallant, ou Smotrich e tantos outros, transformando-os em representações vivas e coletivas dos judeus (como povo). Com que direito, pergunta-se?
E os artifícios de linguagem? A respeito de Gaza, há quem, de forma compungida, mencione uma “tragédia”, como se matar deliberadamente à fome, ou assassinar mulheres e crianças, ou promover a expulsão “voluntária” de Gaza daqueles que venham a sobreviver, fosse uma desgraça divina, sem autoria humana. E, é claro, não podia faltar a falácia tu quoque. Morrem dezenas, ou centenas, em Gaza, depois milhares, depois muito mais do que cinquenta mil? Sem nunca conceder, responde-se: e no Iémen, em que morreram muitos mais? E na Síria? E na República Democrática do Congo? Desta forma, se os media falarem do genocídio em Gaza, são eles próprios antissemitas, porque, de forma seletiva, destacam o caso de Israel.
Denunciam-se (e muito bem) os crimes cometidos no quadro da agressão russa contra a Ucrânia, mas Gaza e os palestinianos não existem, são os novos invisíveis. Este é um duplo standard tão gritante que nem justifica particulares desenvolvimentos. É como Roosevelt terá afirmado a respeito de Somoza, o então ditador da Nicarágua. Talvez ele seja um “filho da mãe”, disse. Mas é “o nosso filho da mãe”. Para muitos, Netanyahu é “o nosso filho da mãe”.
No início de maio, o Parlamento Europeu adotou uma resolução que condenava a transferência forçada de crianças ucranianas para a Rússia, fazendo referência a uma “estratégia de genocídio para eliminar a identidade ucraniana”. Muito bem. E as crianças de Gaza? Aos costumes, nada?
Não “vermos” o que está a acontecer em Gaza é uma escolha. Ao menos, que a cegueira seja assumida.
Agressão a Marina é sobrevivência da escravidão no Senado
Acabamos legalmente com a escravidão em 1888, mas a escravidão não nos deixou. Ela sobrevive nos costumes e no comportamento dos reacionários que abominam a vertente igualitária legitimadora das divergências constitucionais nas democracias.
A escravidão foi abolida, mas não abolimos essas expressões coléricas, reveladoras de quem se pensa senhorialmente e, assim, se arroga a distribuir inferioridade aos adversários, numa clara aversão à equidade.
São rotineiras as manifestações anti-igualitárias no nosso mundo de pessoas “livres”, mas que não são consideradas iguais entre si, como comprova a vergonhosa emboscada que alguns senadores armaram para a ministra Marina Silva.
Agressões verbais destinadas a inferiorizar são comuns em ambientes igualitários como o trânsito, as filas e outros espaços onde somos obrigados a esperar ao lado de desconhecidos — essa gente que não sabemos classificar—, o que os torna candidatos a uma inferioridade tácita.
Na minha obra, tenho afirmado que esses rituais de inferiorização social são resto abominável de uma sociedade escravocrata, aristocrática e patrimonialista, dominada por letrados estadomaníacos, convencidos de que a sociedade será resolvida por um Estado onipotente, administrado por sábios-salvadores inimputáveis.
Dessa estadolatria decorre um triste axioma do poder à brasileira: a correspondência entre impunidade e cargos públicos, cujos ocupantes, blindados por suas prerrogativas, são isentos de igualdade. Num livro baseado em pesquisa, intitulado “Fila & democracia”, publicado em 2017, Alberto Junqueira e eu demonstramos essa ojeriza à equidade — essa hóspede indesejável dos regimes democráticos.
Sentimos a tonelagem dessa questão quando nos damos conta de que, por quatro séculos, espaços públicos inquestionavelmente ordenados por senhores e escravos foram formalmente redefinidos pela República. Um regime que os reacionários leem como subversivo, pois como adotar liberdade e igualdade numa sociedade que amarrava casas-grandes e senzalas? O senhor e o escravo, como disseram Joaquim Nabuco e Gilberto Freyre?
Como institucionalizar a igualdade numa coletividade formada por negros africanos escravizados, senhores autocráticos e por bacharéis fazedores de leis universais válidas somente para seus adversários? Como um sistema fundado no “cada qual sabe bem seu lugar” não reagiria a uma incômoda equidade?
Uma saída desvirtuada para a igualdade como valor é esse conjunto de expressões saudosas das antigas hierarquias: “Ponha-se no seu devido lugar!”, “Quem você pensa que é?”, “Você sabe quem eu sou?”, “Quem manda aqui sou eu!”, “Se continuar assim, dou-lhe voz de prisão!”.
E o assustadoramente anti-igualitário “Você sabe com quem está falando?”, que, neste país onde todo mundo é culto e progressista, além de conhecedor de política e sociologia, jamais foi analisado como rito autoritário, revelador de uma palpável nostalgia da escravidão hierárquica. Sistema escravocrata formador do nosso sistema cultural, em que o saber do seu lugar era (e ainda é) algo prescritivo e imprescindível.
Tais expressões não são anedotas passageiras ou mera falta de educação aplicável a desconhecidos ou adversários políticos. Não! Além de sua desprezível selvageria política, elas são expressões de uma história que requer bocas mais fechadas e olhos mais abertos.
Impossível apagar um passado que se reafirma nos particularismos ilegais e nas ambiguidades e malandragens do jogo político, que, numa democracia, não deveria ser um jogo, mas um seriíssimo trabalho de construção e correção nacional.
A escravidão foi abolida, mas não abolimos essas expressões coléricas, reveladoras de quem se pensa senhorialmente e, assim, se arroga a distribuir inferioridade aos adversários, numa clara aversão à equidade.
São rotineiras as manifestações anti-igualitárias no nosso mundo de pessoas “livres”, mas que não são consideradas iguais entre si, como comprova a vergonhosa emboscada que alguns senadores armaram para a ministra Marina Silva.
Agressões verbais destinadas a inferiorizar são comuns em ambientes igualitários como o trânsito, as filas e outros espaços onde somos obrigados a esperar ao lado de desconhecidos — essa gente que não sabemos classificar—, o que os torna candidatos a uma inferioridade tácita.
Na minha obra, tenho afirmado que esses rituais de inferiorização social são resto abominável de uma sociedade escravocrata, aristocrática e patrimonialista, dominada por letrados estadomaníacos, convencidos de que a sociedade será resolvida por um Estado onipotente, administrado por sábios-salvadores inimputáveis.
Dessa estadolatria decorre um triste axioma do poder à brasileira: a correspondência entre impunidade e cargos públicos, cujos ocupantes, blindados por suas prerrogativas, são isentos de igualdade. Num livro baseado em pesquisa, intitulado “Fila & democracia”, publicado em 2017, Alberto Junqueira e eu demonstramos essa ojeriza à equidade — essa hóspede indesejável dos regimes democráticos.
Sentimos a tonelagem dessa questão quando nos damos conta de que, por quatro séculos, espaços públicos inquestionavelmente ordenados por senhores e escravos foram formalmente redefinidos pela República. Um regime que os reacionários leem como subversivo, pois como adotar liberdade e igualdade numa sociedade que amarrava casas-grandes e senzalas? O senhor e o escravo, como disseram Joaquim Nabuco e Gilberto Freyre?
Como institucionalizar a igualdade numa coletividade formada por negros africanos escravizados, senhores autocráticos e por bacharéis fazedores de leis universais válidas somente para seus adversários? Como um sistema fundado no “cada qual sabe bem seu lugar” não reagiria a uma incômoda equidade?
Uma saída desvirtuada para a igualdade como valor é esse conjunto de expressões saudosas das antigas hierarquias: “Ponha-se no seu devido lugar!”, “Quem você pensa que é?”, “Você sabe quem eu sou?”, “Quem manda aqui sou eu!”, “Se continuar assim, dou-lhe voz de prisão!”.
E o assustadoramente anti-igualitário “Você sabe com quem está falando?”, que, neste país onde todo mundo é culto e progressista, além de conhecedor de política e sociologia, jamais foi analisado como rito autoritário, revelador de uma palpável nostalgia da escravidão hierárquica. Sistema escravocrata formador do nosso sistema cultural, em que o saber do seu lugar era (e ainda é) algo prescritivo e imprescindível.
Tais expressões não são anedotas passageiras ou mera falta de educação aplicável a desconhecidos ou adversários políticos. Não! Além de sua desprezível selvageria política, elas são expressões de uma história que requer bocas mais fechadas e olhos mais abertos.
Impossível apagar um passado que se reafirma nos particularismos ilegais e nas ambiguidades e malandragens do jogo político, que, numa democracia, não deveria ser um jogo, mas um seriíssimo trabalho de construção e correção nacional.
Quando o planeta adoece, também adoecemos
A relação entre o comportamento humano e as mudanças climáticas vai além da simples causalidade: envolve também a forma como reagimos aos impactos dessas transformações e como buscamos nos adaptar a um mundo em constante mudança.
Em outubro de 2024, a revista Nature publicou uma matéria importante sobre os impactos da crise climática na saúde mental da população. Recentemente, participei de um fórum que discutia justamente os efeitos da crise ambiental sobre jornalistas especializados no tema. Um debate urgente e necessário, especialmente diante do aumento na intensidade e frequência de desastres climáticos ao redor do mundo.
Na reportagem da Nature, uma pesquisa realizada nos Estados Unidos revela que 16% dos americanos relatam ao menos um episódio de sofrimento psicológico relacionado às mudanças climáticas. Esses impactos, no entanto, não são sentidos de forma igualitária. Pessoas em situação de vulnerabilidade — com poucos recursos socioeconômicos, crianças, idosos, gestantes, povos indígenas, pessoas com deficiência — estão entre as mais afetadas.
Um dado chamou especialmente minha atenção: indivíduos que já passaram por eventos climáticos extremos tendem a se engajar mais em ações voltadas à preservação do clima. Esse ponto toca diretamente um campo de estudo ainda pouco conhecido, mas cada vez mais relevante: a psicologia ambiental e climática.
Focado nas dimensões emocionais e cognitivas da crise climática, esse ramo da psicologia busca compreender como indivíduos e sociedades processam mentalmente a degradação ambiental e as ameaças ao planeta.
Além de explorar sentimentos como ansiedade, medo, luto e desesperança — cada vez mais comuns em tempos de crise —, esse campo também investiga mecanismos de defesa psicológica, como a negação e a racionalização, e tenta entender por que o conhecimento sobre o problema nem sempre leva à ação.
Embora relativamente nova no debate climático, a psicologia ambiental existe há cerca de 40 anos. No início, focava principalmente na relação do ser humano com espaços físicos — o ambiente doméstico, os locais de trabalho, áreas urbanas. Com o tempo, a abordagem se expandiu e se aprofundou, acompanhando a complexidade da crise ambiental. Hoje, é uma ferramenta essencial na construção de políticas públicas e na promoção de mudanças coletivas.
O livro The Psychology of Collective Climate Action (A Psicologia da Ação Climática Coletiva) é uma verdadeira aula sobre teoria psicológica e motivação, especialmente voltada para grupos ativistas. Uma leitura recomendada para quem deseja entender como mobilizar pessoas em torno de uma causa comum. Pode-se fazer download do livro de forma gratuita aqui.
Afinal, as grandes transformações da história da humanidade sempre nasceram da ação coletiva. E quanto mais nos basearmos em conhecimento científico para fortalecer esses movimentos, maiores serão nossas chances de proteger o que ainda pode ser salvo.
Em outubro de 2024, a revista Nature publicou uma matéria importante sobre os impactos da crise climática na saúde mental da população. Recentemente, participei de um fórum que discutia justamente os efeitos da crise ambiental sobre jornalistas especializados no tema. Um debate urgente e necessário, especialmente diante do aumento na intensidade e frequência de desastres climáticos ao redor do mundo.
Na reportagem da Nature, uma pesquisa realizada nos Estados Unidos revela que 16% dos americanos relatam ao menos um episódio de sofrimento psicológico relacionado às mudanças climáticas. Esses impactos, no entanto, não são sentidos de forma igualitária. Pessoas em situação de vulnerabilidade — com poucos recursos socioeconômicos, crianças, idosos, gestantes, povos indígenas, pessoas com deficiência — estão entre as mais afetadas.
Um dado chamou especialmente minha atenção: indivíduos que já passaram por eventos climáticos extremos tendem a se engajar mais em ações voltadas à preservação do clima. Esse ponto toca diretamente um campo de estudo ainda pouco conhecido, mas cada vez mais relevante: a psicologia ambiental e climática.
Focado nas dimensões emocionais e cognitivas da crise climática, esse ramo da psicologia busca compreender como indivíduos e sociedades processam mentalmente a degradação ambiental e as ameaças ao planeta.
Além de explorar sentimentos como ansiedade, medo, luto e desesperança — cada vez mais comuns em tempos de crise —, esse campo também investiga mecanismos de defesa psicológica, como a negação e a racionalização, e tenta entender por que o conhecimento sobre o problema nem sempre leva à ação.
Embora relativamente nova no debate climático, a psicologia ambiental existe há cerca de 40 anos. No início, focava principalmente na relação do ser humano com espaços físicos — o ambiente doméstico, os locais de trabalho, áreas urbanas. Com o tempo, a abordagem se expandiu e se aprofundou, acompanhando a complexidade da crise ambiental. Hoje, é uma ferramenta essencial na construção de políticas públicas e na promoção de mudanças coletivas.
O livro The Psychology of Collective Climate Action (A Psicologia da Ação Climática Coletiva) é uma verdadeira aula sobre teoria psicológica e motivação, especialmente voltada para grupos ativistas. Uma leitura recomendada para quem deseja entender como mobilizar pessoas em torno de uma causa comum. Pode-se fazer download do livro de forma gratuita aqui.
Afinal, as grandes transformações da história da humanidade sempre nasceram da ação coletiva. E quanto mais nos basearmos em conhecimento científico para fortalecer esses movimentos, maiores serão nossas chances de proteger o que ainda pode ser salvo.
Sob o comando das big techs
O secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, revelou o propósito do governo Donald Trump de sancionar autoridades estrangeiras que afetem a “liberdade de expressão” conduzida pelas big techs. A instantaneidade que impera em nossos tempos desatou, rapidamente, na mídia e nas redes sociais, recriminações agressivas endereçadas ao ministro do STF Alexandre de Moraes.
Devo acentuar a palavra instantaneidade. Ela significa os modos linguísticos que se apresentam na sociabilidade das redes sociais. Sociabilidade construída no interior das plataformas. Assim funcionam as comunicações e as opiniões que circulam no Facebook, Instagram, WhatsApp e X (outrora Twitter).
O economista Yanis Varoufakis arrisca seus neurônios para definir as transformações que levaram as economias de mercado a desaguarem no regime tecnofeudal. Suas peripécias conceituais apontam a substituição dos mercados por plataformas de negociação digital. Elas parecem, mas não são, mercados. Essas plataformas são semelhantes aos feudos. Assim, argumenta Varoufakis, o lucro, motor do capitalismo, foi substituído por seu predecessor feudal: a renda. Especificamente, é uma forma de aluguel que deve ser paga pelo acesso a essas plataformas e à nuvem de forma mais ampla.
Elon Musk invocou a liberdade de expressão para atacar o STF na pessoa do ministro Alexandre de Moraes. A propósito dessa reivindicação libertária muskiana e trumpista, peço licença para cometer a ousadia de perpetrar algumas considerações inspiradas em autores que trataram do mundo das plataformas.
Franco “Bifo” Berardi esclarece as diferenças estruturais entre as funções institucionais de Moraes e o modo de operação das plataformas na defesa da liberdade de expressão. Berardi estabelece uma distinção entre as formas tecnológicas dominantes no antigo “sistema de máquinas” e aquelas impulsionadas pelos avanços da inteligência artificial, da internet das coisas, da nanotecnologia e da robótica.
“Passamos de um regime disciplinar a um regime de controle. No primeiro caso, a máquina se constituiu diante do corpo e da mente humana, era externa em relação ao corpo que permanecia corpo pré-técnico. Por isso, o corpo-mente devia ser regulado normativa, legal e institucionalmente, para, em seguida, ser submetido ao ritmo das máquinas concatenadas. No segundo caso, o que se nos apresenta hoje, a máquina não está mais diante, e sim dentro do corpo, dentro da mente, e os corpos não podem se relacionar nem a mente se expressar sem o suporte técnico da máquina biopolítica. Por isso, não é mais necessário o trabalho de disciplinamento político, legislativo, jurídico. O controle se dá inteiramente a partir da própria máquina interna. Não somente a máquina, mas sua concepção também sofre uma mutação nessa passagem. Na época digital, a máquina é diferença de informação, não exterioridade, mas sim modelação linguística, automatismo lógico e cognitivo”.
Em entrevista à “Folha de S. Paulo”, Stuart Russell, professor de ciência da computação da Universidade da Califórnia-Berkeley afirmou: “Estamos construindo sistemas cada vez mais poderosos que não entendemos e não controlamos. Temos de resolver o problema do controle. Os governos deveriam exigir que as empresas garantam que seus sistemas se comportem adequadamente.
Evgeny Morozov, no livro “Big Tech”, citou o debate entre Gilles Deleuze e Antônio Negri nos anos 90 do século passado, quando as formas tecnológicas, hoje dominantes, já mostravam suas forças. “Como disse Gilles Deleuze em conversa com Antônio Negri em 1990, ‘Em face das formas próximas de um controle incessante em meio aberto, é possível que os confinamentos mais duros pareçam pertencer a um passado delicioso e benevolente’. Essa conexão entre a aparente abertura da nossa infraestrutura tecnológica e o grau cada vez maior de controle continua a ser pouco compreendida”.
Nesse processo de autotransformação, é importante compreender que a materialidade do sistema de máquinas entrega sua alma ao comando do “General Intellect”. Assim, um certo Karl Marx, ainda no século XIX observou: “... o desenvolvimento do capital fixo (sistema de máquinas) indica o grau em que o conhecimento social se tornou uma força direta de produção e em que medida, portanto, o processo da vida social foi colocado sob o controle do General Intellect e passou a ser transformado de acordo com ele”.
Em seu desenvolvimento, a Indústria 4.0 exprime o avanço do sistema de máquinas promovido pelo General Intellect. A nova fase da digitalização é conduzida pelo aumento do volume de dados, ampliação do poder computacional e conectividade, a emergência de capacidades analíticas aplicada aos negócios, novas formas de interação entre homem e máquina e na transferência de instruções digitais para o mundo físico.
Não são desprezíveis as turbulências sociais disparadas pelo avanço das formas tecnológicas embutidas das big techs. A aceleração do progresso tecnológico desloca um contingente significativo de trabalhadores para atividades de baixa qualificação, o que deprime a produtividade a capacidade de consumo dos trabalhadores submetidos ao emprego precário e intermitente. Na outra ponta do espectro social, as plataformas incitam as ambições de poder dos oligarcas que as controlam. O governo Trump levou ao paroxismo os impulsos desses poderosos senhores que ambicionam o controle privado do Estado americano.
As redes sociais devem ser observadas no âmbito dessas transformações tecnológicas. Prometidas como o espaço do movimento livre das ideias e das opiniões, se transformaram num calabouço policialesco em que o debate livre de ideias é substituído pela vigilância e pelo cancelamento. A vigilância exige convicções esféricas, maciças, impenetráveis, perfeitas. A vigilância deve adquirir aquela solidez própria da turba enfurecida, disposta ao linchamento.
Devo acentuar a palavra instantaneidade. Ela significa os modos linguísticos que se apresentam na sociabilidade das redes sociais. Sociabilidade construída no interior das plataformas. Assim funcionam as comunicações e as opiniões que circulam no Facebook, Instagram, WhatsApp e X (outrora Twitter).
O economista Yanis Varoufakis arrisca seus neurônios para definir as transformações que levaram as economias de mercado a desaguarem no regime tecnofeudal. Suas peripécias conceituais apontam a substituição dos mercados por plataformas de negociação digital. Elas parecem, mas não são, mercados. Essas plataformas são semelhantes aos feudos. Assim, argumenta Varoufakis, o lucro, motor do capitalismo, foi substituído por seu predecessor feudal: a renda. Especificamente, é uma forma de aluguel que deve ser paga pelo acesso a essas plataformas e à nuvem de forma mais ampla.
Elon Musk invocou a liberdade de expressão para atacar o STF na pessoa do ministro Alexandre de Moraes. A propósito dessa reivindicação libertária muskiana e trumpista, peço licença para cometer a ousadia de perpetrar algumas considerações inspiradas em autores que trataram do mundo das plataformas.
Franco “Bifo” Berardi esclarece as diferenças estruturais entre as funções institucionais de Moraes e o modo de operação das plataformas na defesa da liberdade de expressão. Berardi estabelece uma distinção entre as formas tecnológicas dominantes no antigo “sistema de máquinas” e aquelas impulsionadas pelos avanços da inteligência artificial, da internet das coisas, da nanotecnologia e da robótica.
“Passamos de um regime disciplinar a um regime de controle. No primeiro caso, a máquina se constituiu diante do corpo e da mente humana, era externa em relação ao corpo que permanecia corpo pré-técnico. Por isso, o corpo-mente devia ser regulado normativa, legal e institucionalmente, para, em seguida, ser submetido ao ritmo das máquinas concatenadas. No segundo caso, o que se nos apresenta hoje, a máquina não está mais diante, e sim dentro do corpo, dentro da mente, e os corpos não podem se relacionar nem a mente se expressar sem o suporte técnico da máquina biopolítica. Por isso, não é mais necessário o trabalho de disciplinamento político, legislativo, jurídico. O controle se dá inteiramente a partir da própria máquina interna. Não somente a máquina, mas sua concepção também sofre uma mutação nessa passagem. Na época digital, a máquina é diferença de informação, não exterioridade, mas sim modelação linguística, automatismo lógico e cognitivo”.
Em entrevista à “Folha de S. Paulo”, Stuart Russell, professor de ciência da computação da Universidade da Califórnia-Berkeley afirmou: “Estamos construindo sistemas cada vez mais poderosos que não entendemos e não controlamos. Temos de resolver o problema do controle. Os governos deveriam exigir que as empresas garantam que seus sistemas se comportem adequadamente.
Evgeny Morozov, no livro “Big Tech”, citou o debate entre Gilles Deleuze e Antônio Negri nos anos 90 do século passado, quando as formas tecnológicas, hoje dominantes, já mostravam suas forças. “Como disse Gilles Deleuze em conversa com Antônio Negri em 1990, ‘Em face das formas próximas de um controle incessante em meio aberto, é possível que os confinamentos mais duros pareçam pertencer a um passado delicioso e benevolente’. Essa conexão entre a aparente abertura da nossa infraestrutura tecnológica e o grau cada vez maior de controle continua a ser pouco compreendida”.
Nesse processo de autotransformação, é importante compreender que a materialidade do sistema de máquinas entrega sua alma ao comando do “General Intellect”. Assim, um certo Karl Marx, ainda no século XIX observou: “... o desenvolvimento do capital fixo (sistema de máquinas) indica o grau em que o conhecimento social se tornou uma força direta de produção e em que medida, portanto, o processo da vida social foi colocado sob o controle do General Intellect e passou a ser transformado de acordo com ele”.
Em seu desenvolvimento, a Indústria 4.0 exprime o avanço do sistema de máquinas promovido pelo General Intellect. A nova fase da digitalização é conduzida pelo aumento do volume de dados, ampliação do poder computacional e conectividade, a emergência de capacidades analíticas aplicada aos negócios, novas formas de interação entre homem e máquina e na transferência de instruções digitais para o mundo físico.
Não são desprezíveis as turbulências sociais disparadas pelo avanço das formas tecnológicas embutidas das big techs. A aceleração do progresso tecnológico desloca um contingente significativo de trabalhadores para atividades de baixa qualificação, o que deprime a produtividade a capacidade de consumo dos trabalhadores submetidos ao emprego precário e intermitente. Na outra ponta do espectro social, as plataformas incitam as ambições de poder dos oligarcas que as controlam. O governo Trump levou ao paroxismo os impulsos desses poderosos senhores que ambicionam o controle privado do Estado americano.
As redes sociais devem ser observadas no âmbito dessas transformações tecnológicas. Prometidas como o espaço do movimento livre das ideias e das opiniões, se transformaram num calabouço policialesco em que o debate livre de ideias é substituído pela vigilância e pelo cancelamento. A vigilância exige convicções esféricas, maciças, impenetráveis, perfeitas. A vigilância deve adquirir aquela solidez própria da turba enfurecida, disposta ao linchamento.
segunda-feira, 2 de junho de 2025
De Auschwitz a Gaza
Gaza foi transformada no maior campo de concentração a céu aberto jamais conhecido pela humanidade. Um inimaginável “corredor da morte” onde o povo palestino, mais da metade crianças, aguarda a condenação sem sursis ditada pelo inimigo luciferino assustadoramente belicoso e perverso. E, na mesma medida, covarde. O governo sionista de Israel promove, há meses, sob as vistas cegas da comunidade internacional, cínica, uma declarada limpeza étnica. Nesse verdadeiro “campo de concentração e extermínio” os desgraçados não caminham com seus próprios pés para as câmaras de gás a que eram condenadas as vítimas do nazismo: são destroçados pelas bombas do moderníssimo exército do Estado de Israel, fundado em 1947 sob os auspícios da ONU exatamente para garantir um lar ao povo sobrevivente do holocausto. Como os judeus de ontem, os palestinos de hoje não têm condições de defesa; mas sobre eles (como se a fome, o vilipêndio e o roubo de suas terras não fossem suficientes) um poderoso exército – aviões supersônicos, drones, mísseis, tanques de guerra e toda sorte de artilharia –vomita bombas. Trata-se de um genocídio operado às claras e à sombra da iniquidade moral de uma comunidade internacional que a tudo assiste impassível. Ao contrário dos prisioneiros do campo de concentração de Auschwitz, as vítimas de hoje não podem sonhar com a libertação do Exército Vermelho, que em janeiro de 1945 avançou sobre a Polônia a caminho de Berlim. Ninguém marcha em seu socorro. Estão abandonadas “à própria sorte”, que se tem revelado madrasta.
Os que escaparem do cerco de Gaza já estão condenados à ausência de futuro: sem pátria e sem terra, não terão para onde ir. São pobres, e não dispõem de uma cadeia de proteção espalhada pelo mundo; são os novos condenados da terra. Sem “salvação prometida”, foram condenados ao desterro, caminharão sem destino, desfeitos os sonhos, perdidas as esperanças mais modestas.
Em 1947, a Palestina, então ocupada por 600 mil judeus e 1,3 milhão de árabes (dos quais cerca de 700 mil palestinos foram expulsos), seria partilhada para que ali se instalassem dois Estados, um judeu (o futuro Estado de Israel) e outro árabe. O primeiro se estabeleceu, e sabe-se o que é ele hoje. O outro, passados 78 anos, aguarda o reconhecimento internacional que lhe é negado. Lideram a recusa os EUA e sua coorte: Reino Unido, Alemanha e a maioria da União Europeia. Israel ocupa e bloqueia os territórios palestinos da Cisjordânia, de Jerusalém Oriental e de Gaza, onde deita e rola desde a invasão de 1967, no curso da “Guerra dos Seis Dias”.
Os palestinos de Gaza são um povo cativo em país ocupado para ser destruído, hermeticamente bloqueado, privado de combustível, eletricidade, água, alimentos e remédios, com sua infraestrutura civil destruída, as escolas postas abaixo, e os hospitais à mercê dos bombardeios. As estimativas falam em algo como 35 e 45 mil vítimas civis. Mais de 15 mil crianças já morreram, e a ONU adverte que outras, mais de 15 ml bebês, ainda podem morrer se o governo de Israel continuar bloqueando a entrada de alimentos e remédios. A propósito, o insuspeitíssimo Estadão (29/5/25), claramente vinculado aos interesses da direita internacional, reproduz matéria de agência de notícias estrangeira sob o seguinte título: “Palestinos famintos invadem centro de distribuição de comida”. Abaixo estampa foto de multidão de jovens e velhos, todos famélicos, disputando uma cuia de farinha ou um naco de pão.
Enquanto a comunidade internacional se omite, e o sionismo aplaude os crimes de guerra, Ehud Olmert, ex-primeiro ministro de Israel (2006-2009), define a política sionista como “perversa, maliciosa e irresponsável”. É preciso ouvi-lo:
“Netanyahu, tipicamente, tenta obscurecer o tipo de ordens que vem dando, a fim de se esquivar de responsabilidade legal e criminal no devido tempo. Mas alguns de seus lacaios dizem isso abertamente: ‘Sim, vamos matar Gaza de fome’”. Acusa: “Israel está cometendo crimes de guerra”.
Ehud Olmert certamente identifica como lacaios do genocida personagens como o ex-ministro e ex-deputado e líder direitista Moshe Feiglin, fundador do Zehut. Vejamos o que declarou em entrevista ao Canal 14, da televisão israelense:
“Toda criança, todo bebê em gaza é um inimigo. O inimigo não é o Hamas, nem a ala militar do Hamas. Toda criança em Gaza é um inimigo. Temos que conquistar Gaza e colonizá-la e não deixar uma só criança lá. E não há outra vitória”.
O conteúdo do áudio foi registrado pelo The Guardian e correu o mundo, sem, contudo, despertar o menor interesse da grande imprensa brasileira.
Ao contrário dos nazistas, que tentavam esconder o holocausto, o genocídio levado a cabo contra os palestinos é escancarado, exposto ao mundo, tonitruado e exaltado pelos dirigentes de Israel e dos EUA, a potência imperial que lhes fornece apoio político, econômico, militar e logístico. Ao contrário do povo alemão, que alegava desconhecer os consabidos crimes do nazismo, a população de Israel aplaude o genocídio.
Segundo pesquisa encomendada pela Penn State University, e analisada por Tamir Sorek, “82% dos judeus-israelenses apoiam a limpeza étnica de Gaza, enquanto 56% apoiam a expulsão de palestinos com cidadania israelense, comumente designados pelo léxico colonial como árabes-israelenses, e 47% concordam com a matança de palestinos em áreas conquistadas por Israel”. A visão fundamentalista, messiânica e supremacista, todavia, não muda, quando, diz a pesquisa, é ouvido o público secular: “69% dos secularistas apoiam a expulsão forçada dos moradores de Gaza, e 31% deles veem o extermínio dos moradores de Jericó como um precedente que as Forças de Defesa de Israel (IDF, na sigla em inglês) deveriam adotar.”
Os últimos acontecimentos, porém, e o temor de que a barbárie sionista torne impossível o retorno dos reféns ainda nas mãos do Hamas, podem mudar o quadro interno. Registram-se as primeiras reações populares contra os reiterados crimes de guerra do Estado sionista. Manifestações de protestos surgem em várias capitais europeias.
A tudo o que se sabe e não se pode mais ignorar, a imprensa maistream batiza de “a guerra de Gaza”, como se estivéssemos em face do confronto entre dois exércitos. Assim participa da “guerra”, manipulando a informação, uma de suas frentes mais importantes. Ecoa a narrativa ideológica que interessa a sionismo, e ainda distorce ao reiterar que as ações militares têm os guerrilheiros do Hamas como alvo, quando qualquer análise fria põe a nu que o objeto dos massacres é uma hedionda limpeza étnica. É preciso denunciar e repetir à exaustão.
Agências internacionais, em meados deste maio, estimavam algo entre 35 e 40 mil como o número de vítimas civis fatais em Gaza. Ainda é impossível calcular o número de feridos e mutilados e invalidados. Mas já se pode dizer que todos perderam seus bens e a cidade foi reduzida a nada. Onde já se comemorou a vida, onde um dia foi possível acreditar no futuro, apostar no sonho de um novo lar, o sionismo construiu um grande túmulo; nele se misturam vidas mortas e ruínas. Os palestinos amargam a angústia de não saberem até quando estarão vivos.
Nosso silêncio, nossa inação, como povo, como sociedade, como agentes políticos, o silêncio de nossas organizações, a apatia da academia, o sono dos sindicatos, a miséria de nossos partidos, nossa pobreza revolucionária, nosso recuo diante do establishment serão registrados pela História como cumplicidade moral.
Do nosso governo é justo esperar algo mais que a justa retórica.
A miséria nazista, que atingiu de forma bruta e até então impensável os judeus, os comunistas, os progressistas e o pensamento de esquerda de um modo geral, os homossexuais, os ciganos, os doentes mentais, os dissidentes – a miséria dos crimes de guerra cometidos na Segunda Guerra –, foi condenada tanto pela indignação ética do mundo que então se recompunha, quanto pelo direito internacional, erguido pelo poder vencedor dos aliados. O direito carece da força para se impor. Quase todos os criminosos de guerra do Eixo (afora os que se suicidaram, como Hitler) foram julgados e condenados pelo Tribunal de Nurenberg. Ocorre que os criminosos de hoje são os que controlam a força que controla o direito.
Os crimes de guerra dos EUA no Vietnã foram julgados pelo Tribunal Russell. Na altura, era o máximo possível diante da potência guerreira. Não implicou consequências objetivas, não evitou novas invasões, nem novas ocupações, nem novos crimes de guerra, mas, pelo menos, pode-se dizer que nossa consciência crítica, com aquele gesto de notável carga simbólica, rompeu com a inércia moral, e, não podendo intervir no processo histórico, deixamos nosso testemunho. A posteridade julgará os omissos.
Desprotegida do que ainda chamamos de civilização, que dela se apartou, Gaza, vazia e morta, logo se transformará na formosa Riviera dos sonhos imobiliários de Trump. Suas praias, nas margens orientais do Mar Negro, hoje interditadas, em breve estarão liberadas. Bem guardadas, serão desfrutadas por brancos europeus, norte-americanos e israelenses endinheirados, livres de palestinos e dos pobres de um modo geral. Não será ainda o grande sonho, mas pode ser a nano sugestão de uma terra prometida.
Roberto Amaral
Os que escaparem do cerco de Gaza já estão condenados à ausência de futuro: sem pátria e sem terra, não terão para onde ir. São pobres, e não dispõem de uma cadeia de proteção espalhada pelo mundo; são os novos condenados da terra. Sem “salvação prometida”, foram condenados ao desterro, caminharão sem destino, desfeitos os sonhos, perdidas as esperanças mais modestas.
Em 1947, a Palestina, então ocupada por 600 mil judeus e 1,3 milhão de árabes (dos quais cerca de 700 mil palestinos foram expulsos), seria partilhada para que ali se instalassem dois Estados, um judeu (o futuro Estado de Israel) e outro árabe. O primeiro se estabeleceu, e sabe-se o que é ele hoje. O outro, passados 78 anos, aguarda o reconhecimento internacional que lhe é negado. Lideram a recusa os EUA e sua coorte: Reino Unido, Alemanha e a maioria da União Europeia. Israel ocupa e bloqueia os territórios palestinos da Cisjordânia, de Jerusalém Oriental e de Gaza, onde deita e rola desde a invasão de 1967, no curso da “Guerra dos Seis Dias”.
Os palestinos de Gaza são um povo cativo em país ocupado para ser destruído, hermeticamente bloqueado, privado de combustível, eletricidade, água, alimentos e remédios, com sua infraestrutura civil destruída, as escolas postas abaixo, e os hospitais à mercê dos bombardeios. As estimativas falam em algo como 35 e 45 mil vítimas civis. Mais de 15 mil crianças já morreram, e a ONU adverte que outras, mais de 15 ml bebês, ainda podem morrer se o governo de Israel continuar bloqueando a entrada de alimentos e remédios. A propósito, o insuspeitíssimo Estadão (29/5/25), claramente vinculado aos interesses da direita internacional, reproduz matéria de agência de notícias estrangeira sob o seguinte título: “Palestinos famintos invadem centro de distribuição de comida”. Abaixo estampa foto de multidão de jovens e velhos, todos famélicos, disputando uma cuia de farinha ou um naco de pão.
Enquanto a comunidade internacional se omite, e o sionismo aplaude os crimes de guerra, Ehud Olmert, ex-primeiro ministro de Israel (2006-2009), define a política sionista como “perversa, maliciosa e irresponsável”. É preciso ouvi-lo:
“Netanyahu, tipicamente, tenta obscurecer o tipo de ordens que vem dando, a fim de se esquivar de responsabilidade legal e criminal no devido tempo. Mas alguns de seus lacaios dizem isso abertamente: ‘Sim, vamos matar Gaza de fome’”. Acusa: “Israel está cometendo crimes de guerra”.
Ehud Olmert certamente identifica como lacaios do genocida personagens como o ex-ministro e ex-deputado e líder direitista Moshe Feiglin, fundador do Zehut. Vejamos o que declarou em entrevista ao Canal 14, da televisão israelense:
“Toda criança, todo bebê em gaza é um inimigo. O inimigo não é o Hamas, nem a ala militar do Hamas. Toda criança em Gaza é um inimigo. Temos que conquistar Gaza e colonizá-la e não deixar uma só criança lá. E não há outra vitória”.
O conteúdo do áudio foi registrado pelo The Guardian e correu o mundo, sem, contudo, despertar o menor interesse da grande imprensa brasileira.
Ao contrário dos nazistas, que tentavam esconder o holocausto, o genocídio levado a cabo contra os palestinos é escancarado, exposto ao mundo, tonitruado e exaltado pelos dirigentes de Israel e dos EUA, a potência imperial que lhes fornece apoio político, econômico, militar e logístico. Ao contrário do povo alemão, que alegava desconhecer os consabidos crimes do nazismo, a população de Israel aplaude o genocídio.
Segundo pesquisa encomendada pela Penn State University, e analisada por Tamir Sorek, “82% dos judeus-israelenses apoiam a limpeza étnica de Gaza, enquanto 56% apoiam a expulsão de palestinos com cidadania israelense, comumente designados pelo léxico colonial como árabes-israelenses, e 47% concordam com a matança de palestinos em áreas conquistadas por Israel”. A visão fundamentalista, messiânica e supremacista, todavia, não muda, quando, diz a pesquisa, é ouvido o público secular: “69% dos secularistas apoiam a expulsão forçada dos moradores de Gaza, e 31% deles veem o extermínio dos moradores de Jericó como um precedente que as Forças de Defesa de Israel (IDF, na sigla em inglês) deveriam adotar.”
Os últimos acontecimentos, porém, e o temor de que a barbárie sionista torne impossível o retorno dos reféns ainda nas mãos do Hamas, podem mudar o quadro interno. Registram-se as primeiras reações populares contra os reiterados crimes de guerra do Estado sionista. Manifestações de protestos surgem em várias capitais europeias.
A tudo o que se sabe e não se pode mais ignorar, a imprensa maistream batiza de “a guerra de Gaza”, como se estivéssemos em face do confronto entre dois exércitos. Assim participa da “guerra”, manipulando a informação, uma de suas frentes mais importantes. Ecoa a narrativa ideológica que interessa a sionismo, e ainda distorce ao reiterar que as ações militares têm os guerrilheiros do Hamas como alvo, quando qualquer análise fria põe a nu que o objeto dos massacres é uma hedionda limpeza étnica. É preciso denunciar e repetir à exaustão.
Agências internacionais, em meados deste maio, estimavam algo entre 35 e 40 mil como o número de vítimas civis fatais em Gaza. Ainda é impossível calcular o número de feridos e mutilados e invalidados. Mas já se pode dizer que todos perderam seus bens e a cidade foi reduzida a nada. Onde já se comemorou a vida, onde um dia foi possível acreditar no futuro, apostar no sonho de um novo lar, o sionismo construiu um grande túmulo; nele se misturam vidas mortas e ruínas. Os palestinos amargam a angústia de não saberem até quando estarão vivos.
Nosso silêncio, nossa inação, como povo, como sociedade, como agentes políticos, o silêncio de nossas organizações, a apatia da academia, o sono dos sindicatos, a miséria de nossos partidos, nossa pobreza revolucionária, nosso recuo diante do establishment serão registrados pela História como cumplicidade moral.
Do nosso governo é justo esperar algo mais que a justa retórica.
A miséria nazista, que atingiu de forma bruta e até então impensável os judeus, os comunistas, os progressistas e o pensamento de esquerda de um modo geral, os homossexuais, os ciganos, os doentes mentais, os dissidentes – a miséria dos crimes de guerra cometidos na Segunda Guerra –, foi condenada tanto pela indignação ética do mundo que então se recompunha, quanto pelo direito internacional, erguido pelo poder vencedor dos aliados. O direito carece da força para se impor. Quase todos os criminosos de guerra do Eixo (afora os que se suicidaram, como Hitler) foram julgados e condenados pelo Tribunal de Nurenberg. Ocorre que os criminosos de hoje são os que controlam a força que controla o direito.
Os crimes de guerra dos EUA no Vietnã foram julgados pelo Tribunal Russell. Na altura, era o máximo possível diante da potência guerreira. Não implicou consequências objetivas, não evitou novas invasões, nem novas ocupações, nem novos crimes de guerra, mas, pelo menos, pode-se dizer que nossa consciência crítica, com aquele gesto de notável carga simbólica, rompeu com a inércia moral, e, não podendo intervir no processo histórico, deixamos nosso testemunho. A posteridade julgará os omissos.
Desprotegida do que ainda chamamos de civilização, que dela se apartou, Gaza, vazia e morta, logo se transformará na formosa Riviera dos sonhos imobiliários de Trump. Suas praias, nas margens orientais do Mar Negro, hoje interditadas, em breve estarão liberadas. Bem guardadas, serão desfrutadas por brancos europeus, norte-americanos e israelenses endinheirados, livres de palestinos e dos pobres de um modo geral. Não será ainda o grande sonho, mas pode ser a nano sugestão de uma terra prometida.
Roberto Amaral
A desumanização da política
Seja quem for o candidato à Presidência da República em 2026 — Lula, Bolsonaro ou algum de seus herdeiros políticos —, é provável que o pleito reproduza a lógica da divisão entre “nós e eles”, “petralhas” contra “bolsominions”, “esquerdistas” versus “direitistas”. O Brasil atravessa uma das fases mais polarizadas de sua história republicana. Embora a polarização não seja fenômeno novo em nossa trajetória política, ela já foi sustentada por projetos de país — como o nacionalismo, o desenvolvimentismo, o trabalhismo. Hoje, a disputa é personalizada: fulanos contra sicranos. O conteúdo cede lugar ao confronto de identidades.
A polarização contemporânea assume a forma de uma guerra simbólica, em que os adversários não buscam se vencer por meio de ideias, argumentos ou propostas, mas sim por meio de rótulos e estigmas. A linguagem política atual tende a negar a humanidade do outro, reduzindo-o a caricatura. Por isso, falamos em desumanização da política — um ciclo marcado pela intolerância, pelo ódio e por práticas discursivas que transformam o adversário em inimigo moral.
Sob essa lógica, o antagonista é visto como ser inferior, indigno de respeito, numa retórica maniqueísta em que “os bons” enfrentam “os maus”. A crítica política dá lugar à demonização do outro, tornando inviável qualquer forma de diálogo ou construção conjunta. Esse fenômeno está presente em muitos regimes democráticos, onde cresce a preocupação com o esvaziamento ético da vida pública.
Entre as causas dessa degradação, destacam-se a despolitização da cidadania, a perda de referências ideológicas e a transformação da política — antes concebida como missão — em profissão ou negócio. A lógica clientelista do “toma lá, dá cá” reforça a coisificação da política brasileira, desfigurando seu papel como instrumento coletivo de organização social.
Hannah Arendt advertia que, ao reduzir a política a simples troca de interesses, abandona-se sua dimensão transformadora. Platão e Aristóteles, ao conceberem a política como arte do bem comum, atribuíram-lhe o papel de organizar racionalmente a vida em sociedade. A política coisificada, por outro lado, fragmenta, rebaixa e ameaça os alicerces da democracia ao substituir o debate público por disputas sectárias e interesses privados.
A desumanização transforma adversários em inimigos e legitima práticas autoritárias. A escalada da polarização costuma vir acompanhada de atos violentos e atentados contra instituições democráticas. Exemplos não faltam: a invasão do Capitólio, nos Estados Unidos, em 6 de janeiro de 2021, e a depredação das sedes dos Três Poderes, em Brasília, em 8 de janeiro de 2023, são manifestações extremas de uma política que perdeu o senso de medida e o compromisso com o convívio democrático.
Arendt também alertava que a criação e manipulação do medo são instrumentos centrais nos regimes autoritários. A ansiedade social — alimentada pela crença de que determinados grupos representam uma ameaça à ordem — é frequentemente instrumentalizada por líderes populistas para justificar a concentração de poder e o ataque a direitos civis. A história oferece provas eloquentes disso.
A desumanização da política é, hoje, objeto crescente de investigação acadêmica. Estudo conduzido pelos professores Christopher D. Petsko (Universidade da Carolina do Norte) e Nour S. Kteily (Northwestern University) analisou como conservadores e liberais se percebem mutuamente nos Estados Unidos. Segundo a pesquisa, os liberais tendem a ver os conservadores como brutais e violentos, enquanto os conservadores descrevem os liberais como imaturos e infantis. A hostilidade mútua, intensificada durante a presidência de Donald Trump, deixa marcas profundas no tecido social.
Trump, com seu discurso agressivo e performático, ampliou a visibilidade de uma retórica de rancor, transformando a política em espetáculo. Ao responsabilizar imigrantes, minorias e opositores pelas crises econômicas e sociais, desviou o debate das causas estruturais dos problemas nacionais e aprofundou divisões. A cobertura midiática, aliada à viralização do discurso nas redes sociais, contribuiu para a naturalização do antagonismo e da linguagem desumanizadora.
No Brasil, a situação tem características similares, embora com nuances próprias. A polarização não se dá entre dois partidos bem estruturados, como nos Estados Unidos, mas entre campos de poder mais fluidos — governo e oposição —, muitas vezes representados por figuras que já não expressam programas políticos claros ou consistentes. A retórica se sustenta em símbolos e afetos, mais do que em ideias.
Lula, embora provenha de uma tradição progressista, governa com uma base heterogênea, que inclui partidos de esquerda, centro e direita, o que enfraquece a coerência ideológica de seu governo. Bolsonaro, por sua vez, embora se apresente como conservador, assume posições que muitas vezes colidem com esse ideário — especialmente no que diz respeito à relação com o Estado e à defesa da propriedade privada.
Diante desse cenário, cabe perguntar: como resgatar o sentido clássico de política, tal como concebido por Aristóteles — como a arte de promover a vida em comum? Como reumanizar a política brasileira?
A resposta passa, inevitavelmente, pela educação. A formação cidadã é a única via capaz de restaurar o valor da política como serviço público e espaço de convivência democrática. É pela educação que se formam sujeitos críticos, abertos ao diálogo, comprometidos com a ética e atentos ao bem comum. É pela educação que um território se transforma em Nação.
A polarização contemporânea assume a forma de uma guerra simbólica, em que os adversários não buscam se vencer por meio de ideias, argumentos ou propostas, mas sim por meio de rótulos e estigmas. A linguagem política atual tende a negar a humanidade do outro, reduzindo-o a caricatura. Por isso, falamos em desumanização da política — um ciclo marcado pela intolerância, pelo ódio e por práticas discursivas que transformam o adversário em inimigo moral.
Sob essa lógica, o antagonista é visto como ser inferior, indigno de respeito, numa retórica maniqueísta em que “os bons” enfrentam “os maus”. A crítica política dá lugar à demonização do outro, tornando inviável qualquer forma de diálogo ou construção conjunta. Esse fenômeno está presente em muitos regimes democráticos, onde cresce a preocupação com o esvaziamento ético da vida pública.
Entre as causas dessa degradação, destacam-se a despolitização da cidadania, a perda de referências ideológicas e a transformação da política — antes concebida como missão — em profissão ou negócio. A lógica clientelista do “toma lá, dá cá” reforça a coisificação da política brasileira, desfigurando seu papel como instrumento coletivo de organização social.
Hannah Arendt advertia que, ao reduzir a política a simples troca de interesses, abandona-se sua dimensão transformadora. Platão e Aristóteles, ao conceberem a política como arte do bem comum, atribuíram-lhe o papel de organizar racionalmente a vida em sociedade. A política coisificada, por outro lado, fragmenta, rebaixa e ameaça os alicerces da democracia ao substituir o debate público por disputas sectárias e interesses privados.
A desumanização transforma adversários em inimigos e legitima práticas autoritárias. A escalada da polarização costuma vir acompanhada de atos violentos e atentados contra instituições democráticas. Exemplos não faltam: a invasão do Capitólio, nos Estados Unidos, em 6 de janeiro de 2021, e a depredação das sedes dos Três Poderes, em Brasília, em 8 de janeiro de 2023, são manifestações extremas de uma política que perdeu o senso de medida e o compromisso com o convívio democrático.
Arendt também alertava que a criação e manipulação do medo são instrumentos centrais nos regimes autoritários. A ansiedade social — alimentada pela crença de que determinados grupos representam uma ameaça à ordem — é frequentemente instrumentalizada por líderes populistas para justificar a concentração de poder e o ataque a direitos civis. A história oferece provas eloquentes disso.
A desumanização da política é, hoje, objeto crescente de investigação acadêmica. Estudo conduzido pelos professores Christopher D. Petsko (Universidade da Carolina do Norte) e Nour S. Kteily (Northwestern University) analisou como conservadores e liberais se percebem mutuamente nos Estados Unidos. Segundo a pesquisa, os liberais tendem a ver os conservadores como brutais e violentos, enquanto os conservadores descrevem os liberais como imaturos e infantis. A hostilidade mútua, intensificada durante a presidência de Donald Trump, deixa marcas profundas no tecido social.
Trump, com seu discurso agressivo e performático, ampliou a visibilidade de uma retórica de rancor, transformando a política em espetáculo. Ao responsabilizar imigrantes, minorias e opositores pelas crises econômicas e sociais, desviou o debate das causas estruturais dos problemas nacionais e aprofundou divisões. A cobertura midiática, aliada à viralização do discurso nas redes sociais, contribuiu para a naturalização do antagonismo e da linguagem desumanizadora.
No Brasil, a situação tem características similares, embora com nuances próprias. A polarização não se dá entre dois partidos bem estruturados, como nos Estados Unidos, mas entre campos de poder mais fluidos — governo e oposição —, muitas vezes representados por figuras que já não expressam programas políticos claros ou consistentes. A retórica se sustenta em símbolos e afetos, mais do que em ideias.
Lula, embora provenha de uma tradição progressista, governa com uma base heterogênea, que inclui partidos de esquerda, centro e direita, o que enfraquece a coerência ideológica de seu governo. Bolsonaro, por sua vez, embora se apresente como conservador, assume posições que muitas vezes colidem com esse ideário — especialmente no que diz respeito à relação com o Estado e à defesa da propriedade privada.
Diante desse cenário, cabe perguntar: como resgatar o sentido clássico de política, tal como concebido por Aristóteles — como a arte de promover a vida em comum? Como reumanizar a política brasileira?
A resposta passa, inevitavelmente, pela educação. A formação cidadã é a única via capaz de restaurar o valor da política como serviço público e espaço de convivência democrática. É pela educação que se formam sujeitos críticos, abertos ao diálogo, comprometidos com a ética e atentos ao bem comum. É pela educação que um território se transforma em Nação.
Crianças palestinas não esquecerão o que não fizemos por elas
Golda Meir deveria conhecer a força do apego humano a um chão. Dedicara a vida à criação do Estado de Israel antes de tornar-se a primeira e única mulher a chefiá-lo. Nascida na Kiev da antiga Rússia imperial (que depois se tornaria parte da União Soviética, implodiria com o comunismo e ressurgiria como capital da atual Ucrânia), a líder sionista chegou a ser portadora de passaporte palestino à época do Mandato Britânico na região.
— Os velhos morrerão, e os jovens haverão de esquecer — garantiu a colonos judeus que se assentaram em terras palestinas e se inquietavam com a rebelião dos expulsos.
Estava errada. Os velhos foram morrendo, sim. Mas não sem antes passar às gerações seguintes os nomes e as lembranças de um vilarejo, um teto, uma oliveira perdidos. Enquanto houver herdeiros desse mapa da memória palestina, o apego ao chão e ao direito de nele viver continuarão a ser repassados aos mais jovens. Ou, como escreve a tunisiano-britânica Soumaya Ghannoushi, especialista em política do Oriente Médio, “enquanto houver crianças, a Palestina vive”.
Crianças nunca iniciam guerras, mas são elas as mais indefesas — não só em Gaza, como na Ucrânia ou nas favelas brasileiras. Em março, o Ministério da Saúde de Gaza divulgou um documento de 1.516 páginas contendo o nome completo de palestinos mortos desde a resposta militar israelense ao ataque terrorista de outubro de 2023. As primeiras 27 páginas da listagem abarcam somente bebês de menos de 1 ano. Das 15.613 crianças nomeadas no documento (31% do total de mortos), quase 2.100 só chegaram a viver dois anos. No mês seguinte, com o frágil cessar-fogo atropelado por Benjamin Netanyahu, chegou a quase 17 mil o total dessas infâncias interrompidas.
Um quarto de século atrás, o jornalista Charles Enderlin, da emissora France 2, relatou ao mundo a morte de um menino palestino, Muhammad al-Durrah, de 12 anos, nos braços do pai, vítima de saraivada de balas atribuídas a disparos de soldados israelenses. A cena exibida tinha 55 segundos, enquanto o total filmado, porém jamais divulgado, dura 27 minutos. Ela fora captada pelo câmera Talal Abu Rahma, correu mundo e gerou indignação global, tornando al-Durrah mártir e símbolo cultuado da luta palestina. Hoje, amontoam-se análises documentais e versões contraditórias impedindo que se chegue a uma conclusão inequívoca do ocorrido. Ainda assim, o que pareceu ser a imagem de uma única criança metralhada até morrer nos braços do pai incendiou o mundo.
Hoje? Apesar dos números citados acima, do streaming ininterrupto de brutalidade militar contra a vida humana, vegetal ou animal de Gaza, o mundo se esconde atrás de princípios declaratórios.
— Enquanto houver crianças, escreve Soumaya Ghannoushi, as que não morreram caminham descalças pela terra arrasada, crianças de braços finos carregando irmãos ainda menores, agarrados ao que resta da família. Algumas estão cobertas de cinzas, já não choram, estão em choque. Outras gritam por nomes que não respondem. Não há segurança em Gaza, não há silêncio, não há pausa. Há apenas movimento: de fugir, de enterrar, de fugir mais. Que tipo de guerra é esta que produz uma geração de crianças sem pernas? Que Estado trava este tipo de guerra e lhe dá o nome de autodefesa?
Hoje a Faixa de Gaza tem o maior número de crianças amputadas per capita do planeta — amputações muitas vezes realizadas em condições aberrantes, sem anestesia e à luz de lanterna, como consta dos inúmeros relatórios produzidos por equipes médicas internacionais. Um número obsceno dessas crianças feridas teria sólidas chances de vida se transferidas para instalações e cuidados apropriados.
Segundo dados de um fundo assistencial com sede nos Estados Unidos (PCRF), há mais de 5 mil crianças em Gaza à espera de aprovação de Israel para ser evacuadas. Outras vezes são os países de excelência no tratamento infantil que se fazem de surdos. O Reino Unido governado pelo trabalhista Keir Starmer demorou 17 meses para aceitar receber crianças palestinas feridas — e, mesmo assim, apenas duas meninas até agora.
— Este não deveria ser comemorado como um momento de orgulho nacional, e sim de desonra nacional — desabafou Omar Abdel-Mannan, um dos médicos envolvidos na operação.
Em comparação, o mesmo Great Ormond Street Hospital londrino recebera mais de cem crianças ucranianas também vítimas da guerra. Se conseguirem sobreviver, tornar-se jovens, talvez alcançar a cidadania num mundo inglório, as crianças de Gaza não haverão de esquecer. Não esquecerão o que não fizemos.
— Os velhos morrerão, e os jovens haverão de esquecer — garantiu a colonos judeus que se assentaram em terras palestinas e se inquietavam com a rebelião dos expulsos.
Estava errada. Os velhos foram morrendo, sim. Mas não sem antes passar às gerações seguintes os nomes e as lembranças de um vilarejo, um teto, uma oliveira perdidos. Enquanto houver herdeiros desse mapa da memória palestina, o apego ao chão e ao direito de nele viver continuarão a ser repassados aos mais jovens. Ou, como escreve a tunisiano-britânica Soumaya Ghannoushi, especialista em política do Oriente Médio, “enquanto houver crianças, a Palestina vive”.
Um quarto de século atrás, o jornalista Charles Enderlin, da emissora France 2, relatou ao mundo a morte de um menino palestino, Muhammad al-Durrah, de 12 anos, nos braços do pai, vítima de saraivada de balas atribuídas a disparos de soldados israelenses. A cena exibida tinha 55 segundos, enquanto o total filmado, porém jamais divulgado, dura 27 minutos. Ela fora captada pelo câmera Talal Abu Rahma, correu mundo e gerou indignação global, tornando al-Durrah mártir e símbolo cultuado da luta palestina. Hoje, amontoam-se análises documentais e versões contraditórias impedindo que se chegue a uma conclusão inequívoca do ocorrido. Ainda assim, o que pareceu ser a imagem de uma única criança metralhada até morrer nos braços do pai incendiou o mundo.
Hoje? Apesar dos números citados acima, do streaming ininterrupto de brutalidade militar contra a vida humana, vegetal ou animal de Gaza, o mundo se esconde atrás de princípios declaratórios.
— Enquanto houver crianças, escreve Soumaya Ghannoushi, as que não morreram caminham descalças pela terra arrasada, crianças de braços finos carregando irmãos ainda menores, agarrados ao que resta da família. Algumas estão cobertas de cinzas, já não choram, estão em choque. Outras gritam por nomes que não respondem. Não há segurança em Gaza, não há silêncio, não há pausa. Há apenas movimento: de fugir, de enterrar, de fugir mais. Que tipo de guerra é esta que produz uma geração de crianças sem pernas? Que Estado trava este tipo de guerra e lhe dá o nome de autodefesa?
Hoje a Faixa de Gaza tem o maior número de crianças amputadas per capita do planeta — amputações muitas vezes realizadas em condições aberrantes, sem anestesia e à luz de lanterna, como consta dos inúmeros relatórios produzidos por equipes médicas internacionais. Um número obsceno dessas crianças feridas teria sólidas chances de vida se transferidas para instalações e cuidados apropriados.
Segundo dados de um fundo assistencial com sede nos Estados Unidos (PCRF), há mais de 5 mil crianças em Gaza à espera de aprovação de Israel para ser evacuadas. Outras vezes são os países de excelência no tratamento infantil que se fazem de surdos. O Reino Unido governado pelo trabalhista Keir Starmer demorou 17 meses para aceitar receber crianças palestinas feridas — e, mesmo assim, apenas duas meninas até agora.
— Este não deveria ser comemorado como um momento de orgulho nacional, e sim de desonra nacional — desabafou Omar Abdel-Mannan, um dos médicos envolvidos na operação.
Em comparação, o mesmo Great Ormond Street Hospital londrino recebera mais de cem crianças ucranianas também vítimas da guerra. Se conseguirem sobreviver, tornar-se jovens, talvez alcançar a cidadania num mundo inglório, as crianças de Gaza não haverão de esquecer. Não esquecerão o que não fizemos.
Um país sem elites
Nenhuma sociedade pode ser indiferente à sua história. Ela transmite características que condicionam o modo como as sociedades vão se forjando. Pode até mesmo fornecer certas “vantagens”. É preciso, portanto, avaliar com rigor o “peso do passado”.
No imaginário brasileiro, porém, o passado seria uma maldição. Fomos nos acostumando a selecionar aspectos particularmente nefastos de nossa história – a escravidão, as ditaduras, as desigualdades reproduzidas ao longo do tempo – para, então, concluir que estamos avançando com bolas de chumbo presas aos pés, levando-nos a buscar modelos externos (países europeus ou os Estados Unidos) para nos inspirar. Com isso, deixamos de lado o que houve de virtuoso e “vantajoso” antes.
Num importante livro recém-publicado – Sinfonia barroca: o Brasil que o povo inventou (Ateliê de Humanidades, RJ, 2025) –, o cientista político Rubem Barboza Filho nos convida a seguir outro rumo. Com uma pesquisa minuciosa e amplo diálogo com as Ciências Sociais, ele argumenta que, no Brasil colônia, uma rala população de indígenas, negros, estrangeiros e mestiços conseguiu forjar uma sociedade impressionantemente dinâmica e aberta, que não só ocupou o vasto território de que dispúnhamos, como também ativou uma economia produtiva que atingiu o auge no final do século 18, impulsionada pelo comércio, pelo trabalho com a terra e pelo ciclo do ouro.
Aquela sociedade não cresceu estruturada, não dispôs de instituições que lhe dessem coesão nem de um poder central que a dirigisse. A Coroa portuguesa estava distante e o território era vasto demais para ser administrado por quem quer que fosse. Foi-se então constituindo uma sociedade composta de diferentes “socialidades”, sem uma estrutura clara. A população, ao se distribuir pelo território, assumiu a forma de uma multidão, que adquiriu alguma coalescência graças à elaboração de uma linguagem comum, que misturava o português, as línguas indígenas e africanas, algo de francês e espanhol, para criar uma língua nova, que aos poucos passou a ser falada por todos, funcionando como elo de coesão.
Para Barboza Filho, no decorrer dos três primeiros séculos emergiu “uma forma de vida criada de baixo para cima, num constante aprendizado da multidão de homens e mulheres comuns, economicamente dinâmica e politicamente mais aberta, socialmente complexa e mestiça no plano cultural e religioso”. A experiência teve grande originalidade e projetou a colônia para o mundo. No início do século 19, o Brasil produzia riqueza comparável à dos Estados Unidos.
Com a Independência, surge um poder central que, bem ou mal, passa a cobiçar o território de modo mercantil, concorrendo com a multidão produtiva que preexistia. Pior: avolumou-se a escravidão, que se tornou negócio extremamente lucrativo e se articulou com o “ciclo do café”. Por um lado, isso rebaixou negros e indígenas; por outro, dividiu o País entre um Sudeste rico e um “resto” quase abandonado. A própria multidão criativa perdeu dinamismo. No final do século 19, a riqueza nacional era dez vezes menor do que a norte-americana. Nem a República mudou o cenário.
Vieram depois os anos 19201930, a ditadura de Vargas com sua valorização autoritária do povo trabalhador. Mais tarde, o golpe de 1964, com sua “modernização demofóbica”. O retorno à democracia, a partir de 1985, trouxe esperanças e novas possibilidades, mas na sequência aprofundou-se o embate político entre as forças que se destacaram na transição (MDB, PT e PSDB). O Brasil entrou no século 21 com a política ficando progressivamente inoperante e alheia à nova estrutura do mundo.
O livro de Barboza Filho chama a atenção para uma de nossas chagas históricas: a inexistência de “elites”, lideranças imbuídas de um propósito maior, de uma visão abrangente e de caráter público e estatal. As “elites” que por aqui surgiram não proliferaram nem alçaram voo.
A recuperação de nosso passado “virtuoso” e dos entraves que impediram sua florescência é um desafio para nosso imaginário e nossa inteligência científica. Hoje, o Brasil não reconhece mais a si próprio, não consegue compreender a profundidade das mudanças em curso e não faz escolhas inteligentes para enfrentar os desafios atuais e aplainar o futuro. Flutua como um transatlântico à deriva, sem controle do leme. Não sabe buscar em seu povo o fator fundamental para se emancipar democraticamente. A própria política que aqui se pratica está apodrecida, sem partidos e líderes de envergadura. Focada em eleições.
Seguimos acreditando que a solução para nossos dilemas passa por figuras carismáticas ou por instituições redentoras (as Forças Armadas, o Supremo Tribunal Federal). A extrema direita grita e mobiliza, mas nada propõe. A esquerda fala em “revolução social”, mas não sabe qual é seu agente.
Poucos percebem que um programa ousado de ação precisa ser sustentado por um bloco de forças orientado por uma ideia de futuro para todos.
É um buraco com que dialogamos há décadas e que não temos conseguido ultrapassar.
No imaginário brasileiro, porém, o passado seria uma maldição. Fomos nos acostumando a selecionar aspectos particularmente nefastos de nossa história – a escravidão, as ditaduras, as desigualdades reproduzidas ao longo do tempo – para, então, concluir que estamos avançando com bolas de chumbo presas aos pés, levando-nos a buscar modelos externos (países europeus ou os Estados Unidos) para nos inspirar. Com isso, deixamos de lado o que houve de virtuoso e “vantajoso” antes.
Num importante livro recém-publicado – Sinfonia barroca: o Brasil que o povo inventou (Ateliê de Humanidades, RJ, 2025) –, o cientista político Rubem Barboza Filho nos convida a seguir outro rumo. Com uma pesquisa minuciosa e amplo diálogo com as Ciências Sociais, ele argumenta que, no Brasil colônia, uma rala população de indígenas, negros, estrangeiros e mestiços conseguiu forjar uma sociedade impressionantemente dinâmica e aberta, que não só ocupou o vasto território de que dispúnhamos, como também ativou uma economia produtiva que atingiu o auge no final do século 18, impulsionada pelo comércio, pelo trabalho com a terra e pelo ciclo do ouro.
Aquela sociedade não cresceu estruturada, não dispôs de instituições que lhe dessem coesão nem de um poder central que a dirigisse. A Coroa portuguesa estava distante e o território era vasto demais para ser administrado por quem quer que fosse. Foi-se então constituindo uma sociedade composta de diferentes “socialidades”, sem uma estrutura clara. A população, ao se distribuir pelo território, assumiu a forma de uma multidão, que adquiriu alguma coalescência graças à elaboração de uma linguagem comum, que misturava o português, as línguas indígenas e africanas, algo de francês e espanhol, para criar uma língua nova, que aos poucos passou a ser falada por todos, funcionando como elo de coesão.
Para Barboza Filho, no decorrer dos três primeiros séculos emergiu “uma forma de vida criada de baixo para cima, num constante aprendizado da multidão de homens e mulheres comuns, economicamente dinâmica e politicamente mais aberta, socialmente complexa e mestiça no plano cultural e religioso”. A experiência teve grande originalidade e projetou a colônia para o mundo. No início do século 19, o Brasil produzia riqueza comparável à dos Estados Unidos.
Com a Independência, surge um poder central que, bem ou mal, passa a cobiçar o território de modo mercantil, concorrendo com a multidão produtiva que preexistia. Pior: avolumou-se a escravidão, que se tornou negócio extremamente lucrativo e se articulou com o “ciclo do café”. Por um lado, isso rebaixou negros e indígenas; por outro, dividiu o País entre um Sudeste rico e um “resto” quase abandonado. A própria multidão criativa perdeu dinamismo. No final do século 19, a riqueza nacional era dez vezes menor do que a norte-americana. Nem a República mudou o cenário.
Vieram depois os anos 19201930, a ditadura de Vargas com sua valorização autoritária do povo trabalhador. Mais tarde, o golpe de 1964, com sua “modernização demofóbica”. O retorno à democracia, a partir de 1985, trouxe esperanças e novas possibilidades, mas na sequência aprofundou-se o embate político entre as forças que se destacaram na transição (MDB, PT e PSDB). O Brasil entrou no século 21 com a política ficando progressivamente inoperante e alheia à nova estrutura do mundo.
O livro de Barboza Filho chama a atenção para uma de nossas chagas históricas: a inexistência de “elites”, lideranças imbuídas de um propósito maior, de uma visão abrangente e de caráter público e estatal. As “elites” que por aqui surgiram não proliferaram nem alçaram voo.
A recuperação de nosso passado “virtuoso” e dos entraves que impediram sua florescência é um desafio para nosso imaginário e nossa inteligência científica. Hoje, o Brasil não reconhece mais a si próprio, não consegue compreender a profundidade das mudanças em curso e não faz escolhas inteligentes para enfrentar os desafios atuais e aplainar o futuro. Flutua como um transatlântico à deriva, sem controle do leme. Não sabe buscar em seu povo o fator fundamental para se emancipar democraticamente. A própria política que aqui se pratica está apodrecida, sem partidos e líderes de envergadura. Focada em eleições.
Seguimos acreditando que a solução para nossos dilemas passa por figuras carismáticas ou por instituições redentoras (as Forças Armadas, o Supremo Tribunal Federal). A extrema direita grita e mobiliza, mas nada propõe. A esquerda fala em “revolução social”, mas não sabe qual é seu agente.
Poucos percebem que um programa ousado de ação precisa ser sustentado por um bloco de forças orientado por uma ideia de futuro para todos.
É um buraco com que dialogamos há décadas e que não temos conseguido ultrapassar.
À margem dos nossos cinco séculos
Escrevo esta crônica duas vezes por mês na vã esperança de prestar algum serviço intelectual ao Brasil e, principalmente, como reconhecimento pela honra que este grande jornal me proporciona.
Não sendo propriamente um guerreiro, devo confessar que às vezes me vejo abatido pela dificuldade de encontrar um fio condutor e tendo a atribuir esse fato à montanha de deficiências que acumulamos em nossos 525 anos de história. Que a situação em que nos encontramos tem muito pouco de alvissareiro é óbvio. Com algum esforço e aproveitando alguns bons momentos, poderíamos cogitar um futuro com mais chances de sorrir do que de chorar. O problema é que mal sabemos quem somos.
Até poucas décadas atrás, uma parcela expressiva dos mais instruídos acreditava que a dicotomia direita-esquerda seria suficiente para assegurar tal propósito. Hoje, é fácil ver que os fragmentos desse modo de pensar só tem o Partido dos Trabalhadores (PT) como seu depositário fiel. Pior, o PT dificilmente sobreviverá sem Lula, seu pai-siamês, e a recíproca é verdadeira. Em 2026 saberemos se esse script nos levará a algum paraíso terreno ou a um buraco sem fundo. A segunda hipótese parece mais provável, uma vez que uma robusta parcela de nossa sociedade não arreda pé da ignorância; prefere manter tudo como dantes no quartel de Abrantes a se cacetear com o que se convencionou chamar de “esfera pública”.
Fujamos, no entanto, desse macabro pessimismo. A última pedra do Muro de Berlim abriu espaço para a democracia representativa. Admitamos que pelo menos no Ocidente ela ainda quebra o galho. Mesmo em má fase e a despeito de tipos como Donald Trump, ela está longe de jogar a toalha. Mas há um senão. Dispensar a clareza conceitual ela não dispensa. Papagueando a expressão sem ânimo para penetrar em seu significado, arrimá-la como entidade histórica não será fácil. Putins, Maduros, Viktor Orbán e assemelháveis continuarão a proliferar em abundância, solapando os esteios que a sustentam. E, aqui, esbarramos num problema sério.
Se pedirmos uma definição da democracia representativa a um círculo de reluzentes letrados, desconfio de que nove em cada dez se darão por satisfeitos dizendo que democracia é um sistema político em que as posições de autoridade são preenchidas mediante eleições periódicas, assumindo seus titulares o compromisso de prestar contas de suas decisões ao eleitorado.
Aqui, desatentos, corremos o risco de fraturar o dedão do pé naquela pedra que o poeta maliciosamente deixou no meio da estrada. Tomando o conceito acima exposto ao pé da letra, quantas democracias terão existido na História? Cem, mil, 10 mil? Temo que não, caro leitor. Ao pé da letra, parece que só uma se configurou, a dos primeiros 500 anos de Roma, implantada à força pelos tribunos da plebe. Instituída há 2 mil anos, por juramento, como lei sacrossanta, a República Romana não era frágil. Era a maior potência do mundo conhecido, fato evidenciado pelo massacre de Cartago, sua rival no outro lado do Mediterrâneo.
Findo o Império Romano, no século 5 (d.C.), teremos de esperar até meados do século 16 para ouvirmos uma lucidez política comparável à altitude material e militar de Roma. Refiro-me ao chefe de Justiça ( Chief of Justice) Lord Fortescue, um dos artífices da grandeza da Grã-Bretanha. Coube ao arguto filósofo Bernard Crick recuperar uma passagem em que Lord Fortescue descreve o Reino Unido como um dominium politicum et regale, um domínio político e real, significando com tal expressão que “o rei poderia declarar a lei somente em consulta e com o consentimento do Parlamento, não obstante detivesse o poder absoluto para aplicar as leis e defender o reino”. Crick complementa: “Um regime puramente regale não seria um regime politicum”. Lord Fortescue, citado por Trevelyan, um historiador recente, não perde a oportunidade para cutucar a grande potência situada no outro lado do Canal: o sistema de justiça, mais ou menos como o conhecemos na atualidade, já era cantado em prosa e verso pelos ingleses, que o contraponteavam ao francês, “onde a tortura ainda era livremente usada”.
Foi por acaso que esbarrei nessa referência ao Judiciário francês do século 16, que me arremessou de volta a uma nota desagradável. Nós, brasileiros, talvez possamos zombar de alguns vizinhos, mas seria de bom alvitre não fazê-lo na esfera do Judiciário, em razão do risco de nos pagarem na mesma moeda fazendo menção aos rendimentos de que nossos magistrados por vezes se apropriam. Partidos políticos confiáveis nunca tivemos e não é certo que um dia os teremos. Na Primeira República (1891-1930), tivemos a comédia dos “partidos únicos”, todos “republicanos”, excetuados os dois do Rio Grande do Sul, que não eram propriamente partidos, mas facções perpetuamente belicosas. Nessa matéria, nosso triste percurso culminou no chamado Centrão, e não podemos descartar a hipótese de um partido dos “leiloeiros”, uma grande agremiação em que cada parlamentar tivesse autonomia para leiloar individualmente seu voto.
Não sendo propriamente um guerreiro, devo confessar que às vezes me vejo abatido pela dificuldade de encontrar um fio condutor e tendo a atribuir esse fato à montanha de deficiências que acumulamos em nossos 525 anos de história. Que a situação em que nos encontramos tem muito pouco de alvissareiro é óbvio. Com algum esforço e aproveitando alguns bons momentos, poderíamos cogitar um futuro com mais chances de sorrir do que de chorar. O problema é que mal sabemos quem somos.
Até poucas décadas atrás, uma parcela expressiva dos mais instruídos acreditava que a dicotomia direita-esquerda seria suficiente para assegurar tal propósito. Hoje, é fácil ver que os fragmentos desse modo de pensar só tem o Partido dos Trabalhadores (PT) como seu depositário fiel. Pior, o PT dificilmente sobreviverá sem Lula, seu pai-siamês, e a recíproca é verdadeira. Em 2026 saberemos se esse script nos levará a algum paraíso terreno ou a um buraco sem fundo. A segunda hipótese parece mais provável, uma vez que uma robusta parcela de nossa sociedade não arreda pé da ignorância; prefere manter tudo como dantes no quartel de Abrantes a se cacetear com o que se convencionou chamar de “esfera pública”.
Fujamos, no entanto, desse macabro pessimismo. A última pedra do Muro de Berlim abriu espaço para a democracia representativa. Admitamos que pelo menos no Ocidente ela ainda quebra o galho. Mesmo em má fase e a despeito de tipos como Donald Trump, ela está longe de jogar a toalha. Mas há um senão. Dispensar a clareza conceitual ela não dispensa. Papagueando a expressão sem ânimo para penetrar em seu significado, arrimá-la como entidade histórica não será fácil. Putins, Maduros, Viktor Orbán e assemelháveis continuarão a proliferar em abundância, solapando os esteios que a sustentam. E, aqui, esbarramos num problema sério.
Se pedirmos uma definição da democracia representativa a um círculo de reluzentes letrados, desconfio de que nove em cada dez se darão por satisfeitos dizendo que democracia é um sistema político em que as posições de autoridade são preenchidas mediante eleições periódicas, assumindo seus titulares o compromisso de prestar contas de suas decisões ao eleitorado.
Aqui, desatentos, corremos o risco de fraturar o dedão do pé naquela pedra que o poeta maliciosamente deixou no meio da estrada. Tomando o conceito acima exposto ao pé da letra, quantas democracias terão existido na História? Cem, mil, 10 mil? Temo que não, caro leitor. Ao pé da letra, parece que só uma se configurou, a dos primeiros 500 anos de Roma, implantada à força pelos tribunos da plebe. Instituída há 2 mil anos, por juramento, como lei sacrossanta, a República Romana não era frágil. Era a maior potência do mundo conhecido, fato evidenciado pelo massacre de Cartago, sua rival no outro lado do Mediterrâneo.
Findo o Império Romano, no século 5 (d.C.), teremos de esperar até meados do século 16 para ouvirmos uma lucidez política comparável à altitude material e militar de Roma. Refiro-me ao chefe de Justiça ( Chief of Justice) Lord Fortescue, um dos artífices da grandeza da Grã-Bretanha. Coube ao arguto filósofo Bernard Crick recuperar uma passagem em que Lord Fortescue descreve o Reino Unido como um dominium politicum et regale, um domínio político e real, significando com tal expressão que “o rei poderia declarar a lei somente em consulta e com o consentimento do Parlamento, não obstante detivesse o poder absoluto para aplicar as leis e defender o reino”. Crick complementa: “Um regime puramente regale não seria um regime politicum”. Lord Fortescue, citado por Trevelyan, um historiador recente, não perde a oportunidade para cutucar a grande potência situada no outro lado do Canal: o sistema de justiça, mais ou menos como o conhecemos na atualidade, já era cantado em prosa e verso pelos ingleses, que o contraponteavam ao francês, “onde a tortura ainda era livremente usada”.
Foi por acaso que esbarrei nessa referência ao Judiciário francês do século 16, que me arremessou de volta a uma nota desagradável. Nós, brasileiros, talvez possamos zombar de alguns vizinhos, mas seria de bom alvitre não fazê-lo na esfera do Judiciário, em razão do risco de nos pagarem na mesma moeda fazendo menção aos rendimentos de que nossos magistrados por vezes se apropriam. Partidos políticos confiáveis nunca tivemos e não é certo que um dia os teremos. Na Primeira República (1891-1930), tivemos a comédia dos “partidos únicos”, todos “republicanos”, excetuados os dois do Rio Grande do Sul, que não eram propriamente partidos, mas facções perpetuamente belicosas. Nessa matéria, nosso triste percurso culminou no chamado Centrão, e não podemos descartar a hipótese de um partido dos “leiloeiros”, uma grande agremiação em que cada parlamentar tivesse autonomia para leiloar individualmente seu voto.
domingo, 1 de junho de 2025
Os 'especialistas'
Há, atualmente, dois tipos muito diferentes de especialistas em questões políticas. De um lado, os políticos práticos de todos os partidos; do outro, os peritos, principalmente funcionários públicos, mas também economistas, financistas, cientistas, médicos, etc. Cada grupo possui um género de habilidade. A do político consiste em adivinhar quem pode ser induzido a pensar em favor do seu partido; a habilidade do perito consiste em calcular o que é realmente vantajoso contanto que possa convencer o povo.
A habilidade específica do político consiste em saber que paixões pode com maior facilidade despertar e como evitar , quando despertas , que sejam nocivas a ele próprio e seus aliados.
Bertrand Russell
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