quinta-feira, 25 de maio de 2023

Três ataques virulentos contra Marina, em três frases, de três homens

Não foi um dia fácil ontem para a ministra Marina Silva (Meio Ambiente e Mudança do Clima). Uma história que se repete, um filme que já viu. Novamente no centro de um debate na qual é colocada como a resistência ao desenvolvimento do país por suas “manias socioambientais”.

Marina passou seis horas do dia ontem numa audiência pública, na Câmara, ouvindo de bolsonaristas incomodados com suas respostas extensas coisas do tipo: “As respostas devem ser mais breves. Se não, vira palestra, e não discussão”, disse Zé Trovão (PL-SC); e “palestra e entrevista a gente vê na TV”, afirmou Felipe Francischini (União-PR).


As grosserias contra a ministra se seguiram durante o dia e vieram de escalão mais alto. Somam-se a essas duras palavras contra uma ministra que é referência mundial derrotas em votações no Congresso, como aprovação do projeto que tira poderes de sua pasta e a flexibilização da proteção da Mata Atlântica.

Relator da medida provisória que mexeu na estrutura do governo, Isnaldo Bulhões (MDB-AL) reagiu às críticas de Marina às mudanças na sua área com a afirmação de que ela fala “fora de contexto” e que atua com “espírito narcisístico”.

“Ela (Marina) está totalmente se posicionando fora de contexto, indo de encontro ao pensamento de governo. Quando ela fala, não sei se movida por um espírito narcisístico, que a política de proteção ao meio ambiente está sendo esvaziada, não é verdade. Isso é uma política de Estado, não é individual” – disse Bulhões.

Outra desferida contra a ministra veio de seu colega de Esplanada, o ministro Alexandre Silveira, das Minas e Energia, que defende exploração de petróleo na foz do rio Amazonas. Marina é contra essa ideia e, por conta do embate, teve que ouvir ser Lula a referência no Brasil para o meio ambiente:

“O embaixador do meio ambiente do Brasil, reconhecido mundialmente, é o presidente Lula. E a gente não precisa de outro. Ele já deu o norte que vai garantir o cumprimento estrito da lei e do respeito ao meio ambiente, mas sem perder o foco do diálogo para construção de caminhos em que a gente possa desenvolver o país e trazer retorno social. Não precisamos de outra marca no governo” – disse o ministro.

O presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), foi outro que deu uma declaração que atinge em cheio a luta de Marina. Ele afirmou que não é um tema que tenha força no Congresso. Ele disse isso após a votação das duas matérias no plenário.

Gigante vai virar gnomo


Não basta a credibilidade de Lula, ou da ministra do Meio Ambiente. O mundo vai olhar para o arcabouço legal e ver que a estrutura do governo não é a que ganhou as eleições, é a do governo que perdeu. Isso fechará nossas portas
Marina Silva, ministra do Meio Ambiente

Política é para meninos barbados

A política nacional era um romance que os meninos barbados folheavam, largavam, retomavam, deturpavam. Versáteis, não permaneciam nessas alturas, caíam nos sucessos vulgares, que eram também contos de fadas.

O Doutor Juiz de Direito mencionava a comarca onde servira, no Amazonas. Jacarés monstruosos, onças inofensivas, cobras que engoliam bois.

Seu André Cursino, gordinho, baixinho, barrigudo, saía à rua vestido em robe-de-chambre.

Seu Batista, embutido na camisa dura, enforcado na gravata preta, a barba em bico alongando-lhe a cara magra, falava devagar. Quando se calava, as cabeças em redor balançavam-se aprovando-o, e os olhos maliciosos troçavam dele.

Seu Filipe Benício, encorpado, tinha rugas é bigode grisalho. Sério, causava medo. Na conversa a gravidade esmorecia.

Tipo mofino era o velho Quinca Epifânio, ossudo, inquieto, cara de fome, sovina até nas palavras. Guardava a despensa na loja: barricas bem cobertas, defendidas contra os ratos. De manhã um moleque se chegava ao balcão, a cesta pendurada no braço. O avarento destapava os esconderijos, pesava e media longamente a ração miserável: duzentas gramas de charque, dois dedos de toicinho, um pires de feijão. Privava-se disso e despedia o portador, gaguejando.
Para lá da lagoa, no alto de um monte, Seu Félix Cursino recebia visitas no alpendre de uma casa rodeada de cajueiros.

Abaixo dessa classe andavam criaturas que não liam jornais, ignoravam D. Pedro II e o Barão de Ladário.

André Laerte, barbeiro muito sujo, usava um avental ensanguentado, pisava macio, com modos de gato.

As gargalhadas do pedreiro Carcará feriam todos os ouvidos.

Seu Acrísio, jogador e quase cego, ziguezagueava, batia nas paredes, tenteava degraus e portas com o cajado. No jogo, unia as cartas aos óculos, apalpava-as lentamente, como se as visse com os dedos. Mestre Firmo alfaiate, a agulha metida na gola, pedia um cigarro. Se não o obtinha, entrava na bodega e comprava um maço. Tirava o cigarro necessário e, distribuía dezenove, porque lhe faltava o instinto de proprietário, moderava-se no vício e devia a toda a gente.

Alguns indivíduos, quando não se apresentavam nas calçadas, incorriam em censuras rigorosas. Seu Antônio Justino e Seu Afro estavam entre eles, o primeiro por ser indolente, o segundo por acomodar-se a uma vida irregular.

Dificilmente se provaria que Seu Antônio Justino fosse mais preguiçoso que os outros habitantes da vila, mas todos o condenavam: não tinha fazenda nem ofício, não jogava e nas reuniões das esquinas opinava medianamente.

Seu Afro, vítima de uma infelicidade que só muito mais tarde compreendi, não se julgava infeliz, aparentava não julgar-se infeliz: era um rapagão corado, forte, risonho. Vendo-o pelas costas, as pessoas que discutiam Canudos e o Barão de Ladário faziam caretas de repugnância, largavam frases contundentes ou gestos obscenos. Porque Seu Afro, casado no religioso, morava no Cavalo-Morto, zona imprópria, com a mulher, grande loura sardenta, e um compadre.

Esse amigo tinha residência nominal na fazenda, mas de fato vivia na rua e no pecado, entregue de corpo e alma à família adotiva — uma dedicação que o tempo e os remoques não esfriavam nem corrompiam. Os três achavam no seu pequenino mundo substância para manter a sociabilidade que havia neles.

Dispensavam festas, visitas, palestras. E D. Maroca, vistosa, branca de carnes e de roupa, bem lavada e bem esfregada, caminhava firme nos passeios, sem se voltar para as janelas, isenta de cortesias. As mulheres honestas se desviavam dela, rancorosas. E as desonestas, caiadas, pintadas, enxeriam-se:
— Hum! hum! Maroca passa, nem olha.

Diziam na verdade nem uia. Creio que diziam nenhuia, coisa estranha. D. Maroca não olhava. Seguia o seu caminho, aprumada — e só.

Espantaram-me a desconsideração e a frieza que envolviam essas criaturas. Não me capacitava de que a moça bonita, cheirosa, engomada, fosse de qualquer maneira inferior a D. Águeda de Seu Acrísio, magra e pontuda.

Também me parecia injusto dar ao velho Quinca Epifânio, engelhado e faminto, mais valor que a Seu Afro, robusto e alegre. O juízo dos homens era esquisito.
Bem esquisito.

Contudo esse julgamento absurdo acompanhou-me. Fixou-se, ganhou raízes. Indigno-me, quero extirpá-lo, reabilitar Seu Afro e D. Maroca. Duas pessoas normais. Penso assim. E desprezo-as, sinto-as decaídas. Impossível deixar de senti-las decaídas. Repito mentalmente os desconchavos de Padre João Inácio.
Graciliano Ramos, "Infância"

quarta-feira, 24 de maio de 2023

Pensamento do Dia

 

 Izquierdo

Opinar não é conhecer

Ser iletrado é condição triste,
mas ser iletrado ressabiado,
de baba envenenada, em riste,
é pior do que ser só iletrado.

O raivoso tem só opiniões,
que dispara sem fundamento.
O fundamento pressupõe serões
de muito estudo e algum tormento:

só assim, valem as opiniões,
que melhor vivem sem ressentimento.
Contudo, os iletrados pimpões

dão pouca atenção ao conhecimento:
preferem eles opinar à toa,
propondo lixo que se amontoa!
Eugénio Lisboa 

Silêncio da cumplicidade


O silêncio das autoridades, dos patrocinadores, de parte da imprensa, dos outros clubes, das organizações de futebol na Europa e da Liga Espanhola é um silêncio conivente com o racismo
Silvio de Almeida, ministro dos Direitos Humanos

O Brasil na contramão

A vida política é um assunto que interessa cada vez menos aos brasileiros, se levarmos em conta os tópicos de maior interesse que circulam no ambiente das redes sociais. Por mais que na aparência estejamos vivendo na mais ardente polarização, tudo leva a crer que estes sentimentos estão confinados a uma certa elite e que a grande massa da população se mantém em plácida indiferença. Não por desinteresse ou ignorância, mas pela consciência de que o interesse pela política se tornou entre nós uma ocupação inútil.


Todos nos cansamos de repetir que o Brasil recebeu da natureza a maior dotação de recursos naturais que se possa desejar, mas infelizmente temos perdido ultimamente todas as oportunidades para nos desenvolver, prosperar e assegurar boas condições de vida para toda a população. A razão deste fracasso só pode estar no mal funcionamento das instituições do Estado. Um excelente livro de dois autores americanos, Daron Acemoglu e James Robinson, cujo título é” O corredor estreito”, investigando o destino da liberdade e do progresso na história do mundo, mostra que o Estado só funciona no interesse das maiorias quando a ele se contrapõe ou se articula uma sociedade civil ativa e resoluta. Na ausência desta o Estado fica a serviço das elites e se torna um instrumento de opressão e de miséria. Talvez seja este, de um certo modo, o caso do Brasil.

O Fundo Monetário Internacional passou a elaborar desde o ano de 1980 uma série que registra a participação dos países na economia global. Esta série nos conta uma história muito triste. No seu início, em 1980, o PIB do Brasil correspondia a 4% da economia do mundo. Neste mesmo ano, a economia chinesa representava cerca de 2,3% e a da Índia, 2,5%. Ou seja, a economia brasileira correspondia a quase a soma das economias da Índia e da China somadas. Passados pouco mais de quarenta anos a economia do Brasil representa apenas 2,3% da economia global, encolhendo quase pela metade sua participação relativa. Enquanto isto a Índia hoje representa mais de 8% da renda do mundo e a China quase 18%. Podemos dizer que perdemos um Brasil nesta caminhada enquanto outros povos multiplicaram sua renda e seu padrão de vida. Como estaríamos hoje se o nosso crescimento não tivesse se interrompido?

Com exceção da produção agrícola e da geração de energias renováveis, todos os índices brasileiros tem recuado nas comparações internacionais. A renda média dos brasileiros representa hoje apenas 25% da renda dos países avançados e nos últimos anos tem caído em vez de aumentar. Diante de tudo isto qual é a atitude dos governos e das instituições do Estado? Continuam funcionando como se nada disto existisse ou como se não tivessem nada a ver com isto.

Ao ver os Tribunais julgando, as casas do Parlamento deliberando e o Governo atuando, pode parecer a alguém mais distraído que o país vive a mais completa normalidade, pois o que se passa do outro lado dos muros do Poder tornou-se invisível para eles. O Estado brasileiro vive apenas para si mesmo, sem nenhuma noção de propósito ou sentido de finalidade.

O mundo mudou em quase todas as suas dimensões fundamentais. O século XXI acelerou tendências e está transformando a vida e a economia de um modo vertiginoso. Nossas instituições infelizmente estão velhas e incapazes de agir no mundo novo. A história nos ensina que só onde as sociedades são ativas e controlam as instituições do Estado as nações podem ser livres e prósperas. Para despertarem do alheamento as nações precisam de lideres esclarecidos e contemporâneos do futuro. Não é o que tivemos há pouco e não é o que temos agora.

As perguntas que ficam no ar são: para aonde estamos indo? O que será de nós daqui a quarenta anos? Vamos continuar regredindo em relação ao mundo ou vamos recuperar o tempo perdido? Uma coisa é certa: o mundo não vai parar de andar para nos esperar. A se julgar pelo estado de nossas instituições e sua resistência em se reformar por si próprias, as respostas não podem ser animadoras.

O que consola é que o futuro das nações não é apenas destino. É principalmente uma escolha.

A fúria cega à caça do dinheiro

Estive pensando muito na fúria cega com que os homens se atiram à caça do dinheiro. É essa a causa principal dos dramas, das injustiças, da incompreensão de nossa época. Eles esquecem o que têm de de mais humano e sacrificam o que a vida lhes oferece de melhor: as relações de criatura para criatura. De que serve construir arranha-céus se não há mais almas humanas para morar neles?

Quero que abras os olhos, Eugênio, que acordes enquanto é tempo. Peço-te que pegues a minha Bíblia que está na estante de livros, perto do rádio, leias apenas o Sermão da Montanha. Não te será difícil achar, pois a página está marcada com uma tira de papel. Os homens deviam ler e meditar esse trecho, principalmente no ponto em que Jesus nos fala dos lírios do campo, que não trabalham, nem fiam, e no entanto nem Salomão em toda a sua glória jamais se vestiu como um deles.

Está claro que não devemos tomar as parábolas de Cristo ao pé da letra e ficar deitados à espera de que tudo nos caia do céu. É indispensável trabalhar, pois um mundo de criaturas passivas seria também triste e sem beleza. Precisamos, entretanto, dar um sentido humano às nossas construções. E quando o amor ao dinheiro, ao sucesso, nos estiver deixando cegos, saibamos fazer pausas para olhar os lírios do campo e as aves do céu.

Não penses que estou fazendo o elogio do puro espírito contemplativo e da renúncia, ou acho que o povo deva viver narcotizado pela esperança da felicidade na “outra vida”. Há na terra um grande trabalho a realizar. É tarefa para seres fortes, para corações corajosos. Não podemos cruzar os braços enquanto os aproveitadores sem escrúpulos engendram os monopólios ambiciosos, as guerras e as intrigas cruéis. Temos de fazer-lhes frente. É indispensável que conquistemos este mundo, não com as armas do ódio e da violência e sim com as do amor e da persuasão. Considera a vida de Jesus. Ele foi antes de tudo um homem de ação e não um puro contemplativo.

Quando falo em conquista, quero dizer a conquista duma situação decente para todas as criaturas humanas, a conquista da paz digna, através do espírito de cooperação.

E quando falo em aceitar a vida não me refiro à aceitação resignada e passiva de todas as desigualdades e malvadezas, absurdos e misérias do mundo. Refiro-me, sim, à aceitação da luta necessária, do sofrimento que essa luta nos trará, das horas amargas a que ela forçosamente nos há de levar.
Érico Veríssimo, "Olhai os lírios do campo"

Os rolos da família Bolsonaro

Em março de 2021, quando o presidente que se elegera com o discurso de combater a corrupção estava havia quase dois anos e meio no poder, os Bolsonaros bateram um recorde. Seguindo os passos do chefe do clã, os quatro filhos de Jair enfrentavam investigações da Justiça e da Polícia Federal. As rachadinhas de Flávio estouraram no início do mandato.

Hoje, com podres irrompendo a cada instante, a impressão é que qualquer pessoa que tenha tido um contato mais próximo com a família está sob suspeição. Uma amiga da ex-primeira-dama Michelle que emprestava o cartão de crédito a ela. Na hora de pagar a fatura, sempre em dinheiro vivo, entrava em cena o faz-tudo da Presidência, um tenente-coronel que está preso. A desculpa é que Bolsonaro é pão-duro. Mas só quando o capital sai do seu bolso. No cartão corporativo, chegou a gastar R$ 55,2 mil numa única padaria um dia após o casamento de Eduardo.


Segundo a CNN Brasil, o ex-presidente acumula quase 600 processos. Seiscentos, você não leu errado. O levantamento é do partido de Bolsonaro, o PL, que monitora os casos porque cabe aos cofres da legenda custear a defesa em grande parte das ações, que vão de graves crimes eleitorais a multas por não ter usado máscara na pandemia ou capacete nas motociatas. É um custo espantoso —advogados que o digam— para manter viva a estratégia de vitimização.

Talvez com inveja do pai, que trocou os passeios de jet ski por visitas obrigatórias à PF, ou da ex-primeira-dama, que tem conquistado nos rolos do marido um protagonismo tão brilhante como joias árabes, o vereador Carlos resolveu reagir.

A semana passada trouxe novidades ao inquérito que apura o esquema de desvio de dinheiro no gabinete do filho 02. Ana Cristina Valle, ex-mulher de Jair, era a líder de um grupo de nove servidores que movimentou mais de R$ 3 milhões entre 2005 e 2018. Deus, pátria —e a família em primeiro lugar.

segunda-feira, 22 de maio de 2023

Arquitetura moderna no Brasil

 


Anistia a partidos é ataque à democracia

Quando Bolsonaro foi eleito, surgiu por aqui uma fornada de livros sobre a decadência da democracia e a ascensão do autoritarismo em várias partes do mundo. “Como as democracias morrem”, “O povo contra a democracia”, os novos títulos se sucediam, e havia neles alguns pontos convergentes. A globalização deixou muita gente para trás, criando ressentimentos. A confiança nas elites políticas se esvaiu diante de líderes preocupados com seu próprio interesse, de costas para a sociedade.

Neste momento, no Brasil, a democracia está próxima de receber um ataque que a enfraquecerá ainda mais. Trata-se de um projeto que anistia as transgressões dos partidos não só quanto ao respeito às cotas minoritárias, mas também quanto à prestação de contas de milhões de reais gastos: compra de avião, toneladas de carne e outras despesas extravagantes.


Os partidos criam regras e as transgridem. O TSE decide puni-los, e eles criam mais uma lei de anistia para suas próprias transgressões. Eles se dotam, simultaneamente, do poder de regular e de perdoar, incluindo no perdão gastos com o fundo eleitoral. Só com as eleições, os partidos em 2022 consumiram R$ 4,9 bilhões. O fundo partidário distribuiu um pouco mais de R$ 1 bilhão.

Interessante observar que a manobra da anistia envolve quase todos os partidos, deixando de fora apenas a coligação Rede-PSOL e o Partido Novo. A mais importante consequência de uma medida como essa é o abismo que se forma entre política e opinião pública, deixando o caminho aberto para oportunistas que eventualmente queiram inventar uma nova política.

O caminho econômico, além de difícil, não é o único. Não há sinais de que as elites políticas brasileiras tenham entendido a mensagem de 2018 e ignorem que soluções autoritárias continuam sendo atraentes à medida que se aprofunda a desilusão com a democracia.

Bolsonaro fez isso em 2018. A “nova política” se desmoralizou com a introdução do orçamento secreto. Os bolsonaristas agrupados no PL apoiam a anistia, logo não teriam condições de se diferenciar num futuro próximo. Mas a existência do abismo é um convite à aventura, e ela não tem de ser vivida necessariamente pelos mesmos personagens.

Num livro recente chamado “A crise do capitalismo democrático”, o jornalista Martin Wolf analisa não somente a globalização e suas lacunas, mas, apesar de sua ênfase na economia, destaca também a questão política. Assim como todos os outros autores, Wolf está longe do otimismo com o futuro da democracia, ressaltado num célebre ensaio de Francis Fukuyama, “O fim da História”.

Ninguém mais acredita que a democracia é para sempre, e muitos duvidam de sua capacidade de encarar as reformas necessárias para sobreviver. O que vemos no mundo é o avanço de ditaduras plebiscitárias, como na Rússia ou na Hungria, e o crescimento irresistível do modelo autoritário chinês.

Como jornalista econômico, Wolf ressalta que está na própria economia a explicação para a fragilidade democrática. Mas não deixa de avançar noutros pontos essenciais:

— Nem a política nem a economia funcionarão sem um substancial nível de honestidade, confiança, autocontenção e lealdade às instituições. Na ausência desses fatores, um ciclo de descrédito corroerá as relações políticas, sociais e econômicas.

Concordo com a ideia de que nenhum sistema político consegue sobreviver sem a prevalência de normas fundamentais de comportamento. Essa ideia, aplicada ao Brasil, mostra que a luta pela democracia está perdida em alguns fundamentos. Melhorar a economia é essencial. Wolf reconhece que as pessoas querem estabilidade e prosperidade para si e para os filhos. Na ausência disso, tornam-se ressentidas.

Há poucos sinais de que as elites políticas tenham aprendido as lições de 2018, não aparece nelas um simples núcleo destinado a salvá-las de suas próprias tendências à autodestruição. Digo autodestruição num contexto democrático; os piores vão sempre se adaptar aos regimes autoritários. Por enquanto, estamos apenas esperando o ataque que virá na forma de anistia.

Marina Silva, espinho e incógnita no governo Lula

Lula está no Japão , enquanto estoura uma crise no Brasil, que é a que ele menos deseja por ter repercussão global. Trata-se de decisão do Ministério do Meio Ambiente, presidido pela emblemática e ambientalista Marina Silva, referente ao delicado problema da exploração de petróleo na Amazônia.

O Ministério do Meio Ambiente acaba de negar a licença para a exploração do chamado ouro negro na região amazônica do Amapá, na qual a brasileira Petrobras está de olho em empresas estrangeiras por ali embaralharem bilhões de dólares.

A decisão da ministra Marina Silva já fez a primeira vítima em seu próprio partido. O senador Randolfe Rodríguez, uma das peças-chave do partido Rede, fundado por ela e aliado do governo, já anunciou sua saída do partido.

Agora Lula terá que decidir salomonicamente sobre duas peças-chave de seu governo, Rondolfe e Marina, algo que vai agitar seus planos de presidir um governo unido e pela primeira vez com personagens do centro à direita.


A possível polêmica com a decisão da ministra Marina Silva de vetar a exploração de petróleo na Amazônia é mais emblemática por causa do precedente do primeiro governo Lula, que surpreendeu ao nomear Marina como ministro do Meio Ambiente na época. A famosa ambientalista acabou deixando o cargo por falta de apoio à época para suas demandas ambientais.

Lula teve a boa ideia de convocar Marina Silva novamente como ministra. O meio ambiente é um tema que 20 anos após seu primeiro governo se tornou uma das maiores preocupações da política mundial. E Marina foi emblemática, apostando desta vez na luta contra a destruição da Amazônia. Foi um abraço grávido de simbolismo.

Com os olhos do mundo voltados para o Brasil, onde seu maior tesouro, mais que o petróleo, é a riqueza da Amazônia, a possível nova crise com Marina, nem sempre bem-vista no PT devido ao seu radicalismo, será duplamente dramática.

Lula vai precisar de toda a sua grande habilidade negocial para impedir que Marina o cargo pela segunda vez. É que ela, com um histórico parecido com o de Lula que subiu do nada ao poder, não é uma ministra qualquer.

Marina é referência mundial na luta contra a destruição do planeta. Com a vantagem, perante boa parte dos políticos, de ter sua integridade moral reconhecida por todos. Nunca envolveu-se em escândalos de corrupção e sempre levou uma vida austera.

Lembro que em 2003, recém-nomeada ministra de Lula, eu a entrevistei em Brasília para este jornal. Fiquei chocado com o apartamento simples de classe média baixa em que morava e com sua austeridade.

Quando lhe perguntei se não se importava de ser acusada de ser excessivamente ingênua em seus ideais de defesa do meio ambiente, ela me lembrou da Bíblia onde se diz que o profeta Abraão plantou uma árvore aos 100 anos. Quando lhe lembraram que ele, devido à sua idade, não colheria mais seus frutos, ele respondeu que não o havia plantado para si, mas para aqueles que o precederiam.

Não, Marina, mais uma vez, você não será uma ministra fácil. Nem para o estrategista Lula.

O custo da vingança

Os desacertos de Luiz Inácio Lula da Silva – cujo cérebro tem sido irrigado por bílis – depois de quatro anos de desgoverno de Jair Bolsonaro, que agora se posta como ingênuo injustiçado, podem até servir ao interesse eleitoral de ambos. Mas Bolsonaro já foi. Cabe a Lula dar o tom e o ritmo, fazer valer o amplo apoio que conseguiu arrebanhar e que vem diminuindo aceleradamente. Antes de tudo, o presidente deveria compreender que o modo vingativo empaca seu governo, tendo como consequências a cruel eternização do subdesenvolvimento e o aprofundamento da desigualdade.


No país que exibe a extraordinária plataforma de quase 245 milhões de smartphones, quase metade da população não se conecta ao esgoto – 100 milhões dos 207,8 milhões de acordo com dados parciais do Censo 2022 -, 35 milhões nem mesmo têm água potável. Condena 62 milhões à pobreza, 30 milhões à absoluta miséria. Um quadro que se agravou ao longo dos anos, e que não se resolve com medidas emergenciais de complementação de renda. Muito menos com políticas arcaicas que já se provaram ineficazes e têm chance zero de dar certo, a exemplo dos decretos de Lula contra o Marco do Saneamento.

Não há tempo para discutir políticas industriais baseadas em subsídios ou, pior, com prioridade à indústria automotiva, acariciada pelos governantes brasileiros desde os tempos de JK. Em vez de um novo carro popular movido a combustível fóssil, já apelidado de “fusca do Lula”, o país deveria premiar iniciativas inovadoras. Investir, ainda que um tico, no século 21, que, alô alô, governo Lula!, já avança pela segunda década.

Na educação, área em que Bolsonaro brincou com ensino domiciliar em aceno às correntes evangélicas, e com colégios militares rígidos, garbosos e elitizados como os dos anos dourados, o arraso é total. E não apenas por culpa da pandemia, que só piorou a indecente qualidade do ensino, praticamente estagnado desde o governo Fernando Henrique Cardoso, quando se deu a universalização do nível básico.

O quadro hoje é alarmante. Quatro em 10 crianças do 4º ano do ciclo fundamental não sabem ler e apenas 13% das que participaram das avaliações para o Estudo Internacional de Progresso em Leitura (PIRLS) de 2021 dominam integralmente essa habilidade. Não há, portanto, espaço para firulas. É preciso agir rápido.

A saúde, sem qualquer dúvida a pior área dos tempos de Bolsonaro, deveria servir de parâmetro para Lula. O Ministério retomou as campanhas de vacinação, os atendimentos em especialidades e as cirurgias seletivas. Voltou a investir na invejável estrutura do SUS, elogiado em vários cantos do mundo. Aqui, tem-se uma vitrine extraordinária que se faz por mérito, sem sangue nos olhos, sem necessidade de xingar os Pazzuelos ou contrabandistas de vacinas do governo anterior.

Em vez de alimentar o ódio e o ranço, de apostar na chacota como a que fez no episódio da cassação do deputado Deltan Dallagnol, com a produção oficial de powerpoint remetendo à perseguição do ex-promotor a Lula, o governo deveria pular algumas casas. Nem seria preciso muito esforço. Depois dos anos de trevas de Bolsonaro, bastaria fazer a lição de casa direitinho e correr para o abraço.

O país pode vencer o atraso, mas não com revanches e soluções do século passado. Elas só condenam os brasileiros ao maldito círculo da subvida.

domingo, 21 de maio de 2023

Ficção de terror

 


Grito dos analfabetos

Na sua posse, o ministro dos Direitos Humanos e Cidadania, Silvio Almeida, fez o mais belo entre os discursos de posse dos membros do novo governo Lula, citando cada grupo de brasileiros esquecidos. Mas ele esqueceu nossos atuais 10 milhões de analfabetos, e os cerca de 20 a 30 milhões que viveram e morreram sem reconhecer a bandeira de seu país, desde que a República e adotou um texto escrito nela. Os primeiros republicanos esqueceram dos analfabetos, e 130 anos depois, continuam esquecidos. O resultado é a vergonha que passamos nesta semana ao tomarmos conhecimento de relatório internacional que nos coloca entre os países com piores resultados na alfabetização de suas crianças e seus adultos.


Uma vergonha, mas também uma burrice. Cada brasileiro que não sabe ler, é vítima da tortura do analfabetismo, leva um chicote dentro do cérebro, acionado para castiga-lo cada vez que vê um texto e não sabe decifrá-lo. Mas também tem limitadas sua produtividade econômica e sua participação na social. , salvo raríssimas exceções. O analfabetismo é uma tortura contra o indivíduo e um desperdício contra o país.

Mas nada indica que o Brasil esteja querendo corrigir esta vergonha e esta burrice. Ao longo da historia os governos conservadores descuidaram da educação e os poucos governos progressistas se preocuparam mais em mostrar estatisticas com o número de universitários, independente do que eles aprendam, do que em abolir o analfabetismo e aumentar o número de jovens concluindo o ensino médio, alfabetizados para o mundo contemporâneo.

Até aqui, nada indica que o tema do analfabetismo de adultos voltará a ser tratado como uma questão de direitos humanos, tal qual foi tratado em 2003, primeiro ano do governo Lula. Por isso, está na hora da sociedade dar um grito dos analfabetos. Se eles não têm sindicatos, partidos, associações ou movimentos, a OAB, ABI, CNI, CNA, CUFA, CUT, CGT ……deveriam se unir pela abolição do analfabetismo: exigirem do atual governo federal que defina uma estratégia e marque o prazo para o Brasil colocar em frente a cada aeroporto uma placa dizendo “você está entrando em território livre do analfabetismo, onde todos sabem ler nossa bandeira”.

'É hora de a gente começar a escutar os indígenas'

Dos mais de 200 anos de contato com o homem branco, os últimos 80 foram os mais intensos para os Krahô, povo indígena que vive no norte do estado do Tocantins. É justamente esse período que é abordado pelo filme A Flor do Buriti, dirigido pela brasileira René Nader Messora e pelo português João Salaviza.

A obra faz sua estreia mundial no Festival de Cannes, evento que ocorre de 16 a 27 de maio. Os diretores esperam repetir o sucesso de 2018, quando Chuva É Cantoria na Aldeia dos Mortos, também rodado em aldeias dos Krahô, faturou o prêmio especial do júri em Cannes e comoveu o público ao denunciar o genocídio indígena.

"É a segunda vez que a gente viaja para a França com os Krahô, a segunda vez que eles [os participantes do evento] vão escutar um filme apresentado num idioma indígena [a língua timbira, da família Jê]", pontua Messora, em entrevista à DW Brasil. "É a segunda vez que eles vão escutar da boca dos Krahô qual a situação do cerrado brasileiro, o bioma mais devastado do país."



Como a questão da terra é o centro do filme, a diretora espera que a repercussão internacional tenha impacto na decisão sobre o Marco Temporal — o Supremo Tribunal Federal agendou a retomada do polêmico julgamento para o dia 7 de junho.

A Flor do Buriti foi rodado ao longo de 15 meses em quatro aldeias Krahô diferentes. Por meio dos depoimentos dos indígenas, eles reconstituem as últimas oito décadas — do massacre sofrido pelo povo Krahô em 1940 às dificuldades atuais, passando pelo período da ditadura militar.

Do massacre dos fazendeiros às discussões acerca do Marco Temporal, sempre é a terra no epicentro. Como você compara esses momentos?

René Nader Messora: É importante a gente perceber que esses processos de roubo, de esbulho de terra, não são nenhuma novidade. O filme tenta trazer um pouco dessa história da relação [dos Krahô] com o território, desde o massacre [de 1940], que a gente considera um marco. Foi depois do massacre que a terra deles foi […] depois demarcada, por causa dos ecos desse massacre. […] O problema sempre passou pela questão da terra.

Mais tarde, com a ditadura militar, esse problema ganhou uma nova roupagem, mas essencialmente era o mesmo. Mas houve a militarização, a criação de uma guarda rural indígena para reprimir dentro das aldeias, das comunidades e também tinha o intuito de favorecer os grandes fazendeiros da região […]. O Serviço de Proteção aos Índios, que era como era chamada a Funai [hoje Fundação Nacional dos Povos Indígenas] naquele momento praticava livremente o aluguel de terras indígenas para fazendeiros, agricultores, dentro de áreas determinadas para o usufruto indígena. […] A questão indígena e a questão da terra estão intrinsecamente relacionados, não tem como separar.

Essa luta pela terra é a questão mais urgente dos povos originários?

Não é só a questão da terra como território físico, mas a questão do entendimento de território para os povos indígenas. Essa é uma chave que está, com muita luta do movimento indígena, sendo um pouco mais falada hoje. E a gente trouxe [no filme] a fala da Sonia Guajajara [líder indígena, política e atual Ministra dos Povos Indígenas] falando sobre isso justamente porque ela coloca em oposição duas visões de mundo que são ontologicamente opostas: o entendimento de terra dos povos é diametralmente oposto ao entendimento do grande capital.

São dois projetos de mundo antagônicos, que estão em conflito e a Sonia define isso muito bem, de uma maneira muito simples, quando ela fala ‘a terra não nos pertence; nós pertencemos à terra'. Tem uma inversão fundamental aí que a chave: vai muito além do entendimento do território como espaço físico. A gente quis trazer isso para o filme. A Sonia dá essa ideia de que a terra é muito mais do que um pedaço de território habitado por determinado povo.

Isso deve ser discutido agora com a questão do Marco Temporal?

Os povos indígenas vêm batendo nesta tecla faz tempo e a luta contra a tese jurídica do Marco Temporal é a luta que está sendo encampada com a maior força. A continuidade do julgamento foi pautada agora para [o dia 7 de] junho. É um momento muito importante: toda a sociedade civil tem de olhar com muita atenção porque a decisão sobre essa tese vai afetar diretamente muitas terras indígenas no país inteiro e todas as futuras demarcações.

Então não é à toa que o movimento indígena está batendo nesta tecla com muito afinco e a gente precisa ficar atento. Nós, não como cineastas, mas como sociedade civil mesmo e como pessoas que deveríamos estar engajadas numa luta pela terra, pela sobrevivência de nossa espécie no planeta.

É a segunda vez que vocês têm um filme selecionado para o Festival de Cannes, e novamente com os Krahô. Quais as expectativas?

É a segunda vez que a gente viaja para a França com os Krahô, a segunda vez que eles [os participantes do evento] vão escutar um filme apresentado num idioma indígena [a língua timbira, da família Jê] É a segunda vez que eles vão escutar da boca dos Krahô qual a situação do cerrado brasileiro, o bioma mais devastado do país e um dos mais importantes também porque é o berço das bacias hidrográficas mais importantes do Brasil. E [vão escutar] essas preocupações com a situação do planeta, com o aquecimento global, com a manutenção das florestas em pé, essas máximas que o movimento indígena vem gritando desde sempre e, na verdade, agora está ocupando também as mentes e os corações do mundo inteiro.

E é bom a gente mais uma vez constatar que os indígenas tinham razão. Porque eles vêm falando isso desde sempre. Finalmente agora estão encontrando eco em todas as camadas da sociedade. Isso pode ser visto como um sinal de que a gente está caminhando para um lugar onde seja possível a gente continuar existindo como comunidade neste planeta. Citando o grande [líder indígena, ambientalista e escritor] Ailton Krenak, os indígenas viveram o fim do mundo há muito tempo [quando os colonizadores europeus chegaram à América]. Então, se tem alguém que pode ensinar alguma coisa para a gente sobre como resistir ao fim dos tempos, são eles. É hora da gente começar a escutar, né?

Ode à alegria em tempos desumanizados

Início de primavera no Hemisfério Norte sempre dá aquela comichão gostosa — é largar os capotes pesados em casa e sair à rua leve, livre e renascida. Foi num desses sabadões primaveris de maio de 2012 que moradores de Sabadell, cidade catalã da província de Barcelona, conheceram uma alegria coletiva transbordante. Ao cair da tarde, um flash mob com mais de cem músicos da Sinfônica del Vallès e corais regionais brotou do nada na Plaça Sant Roc, em meio a flaneurs e à criançada, e começou a tocar a transcendental “Ode à alegria”, de Beethoven. O vídeo daquele momento mágico de comunicação humana, facilmente acessível no YouTube, pode servir de teste para o grau de humanidade-raiz que ainda nos habita. Quem permanecer insensível à cena, incapaz de se desligar do cotidiano que nos aplasta, é caso perdido. Melhor ir aninhar-se na inteligência artificial.

A “Ode à alegria” é a extraordinária história da arte do possível. Ela dá sentido ao caos e extrai beleza da dor universal. Já por isso é útil relembrá-la vez por outra em tempos turvos, mesquinhos, pequenos e desumanizados como os de hoje.
 


Beethoven, adolescente na Europa eletrizada pelo espírito revolucionário do final do século XVIII, fora profundamente marcado pelo poema “Ode à alegria”, do seu monumental conterrâneo alemão Friedrich Schiller. A mensagem de liberdade e justiça, felicidade e paz contida nos versos do poeta nunca mais se desgarraram da mente do músico. Nem quando a guilhotina substituiu as liberdades, e as guerras napoleônicas soterraram a paz, nem quando Schiller morreu achando que sua “Ode” era uma obra fracassada. Beethoven nunca fraquejou. Continuou a ver naqueles versos a necessidade do possível. Como se sabe, foi durante uma caminhada sem rumo de vários dias, aos 52 anos de idade e já praticamente surdo, que o idolatrado compositor de oito sinfonias, além de concertos e sonatas, encontrou a centelha para sua obra magna, a Nona Sinfonia. Ela culminaria com os versos silenciosos de Schiller cantados por um coral, num grand finale sem paralelo no universo musical. Até então, compositor algum havia sequer cogitado introduzir a voz humana numa sinfonia. Ninguém ousara tanto. Nem Bach, nem Mozart, nem Haydn.

Para a ensaísta cultural Maria Popova, Beethoven conseguiu resolver o imenso tormento de sua vida criativa integrando fúria e redenção, o silêncio da palavra escrita com o drama da música, e transformando a escuridão por ele vivenciada em algo incandescente, eterno. Na estreia em Viena, em 1824, houve um átimo de silêncio ao final do último acorde da aguardada Nona — quando algo é sublime demais, calamos. Passado o primeiro impacto, ouviu-se um júbilo incontido que dura até hoje, passados 200 anos. Popova lembra que Walt Whitman celebrou a obra como expressão mais profunda da natureza humana e que a escritora americana e ativista surda Helen Keller descobriu o que é música quando “ouviu” a “Ode” pressionando as mãos contra uma caixa de som. Manifestantes chilenas contra a ditadura de Augusto Pinochet também entoaram o “Himno a la Alegría” como forma de protesto, mostra o documentário “Seguindo as pegadas da Nona Sinfonia”, de Kerry Candaele. Até mesmo no histórico confronto de 1989 na Praça da Paz Celestial em Pequim, um dos estudantes aquartelados improvisou uma transmissão da Nona para abafar os comunicados oficiais que antecederam a chegada dos tanques às ruas. Quatro anos antes, a “Ode” de Beethoven fora adotada como hino da União Europeia.

Acolhida como chamamento para descartarmos falsos profetas que alimentam séculos de guerras e milênios de desigualdade, ela mantém a visão idealizada de Schiller de que a raça humana se reencontrará na fraternidade. Infelizmente, basta olhar à nossa volta para constatar que não é bem assim — as distâncias que separam a natureza do ser humano, e humanos entre si, continuam abissais. Não importa. A arte existe para nos transportar ao possível, seja cantarolando “Imagine”, de John Lennon, seja para escancarar alegria com o flash mob de Sabadell. Fica aqui o convite, já que hoje é domingo. Mesmo para quem já assistiu.

Jornal e jornalismo

Uma cidade que não tem um jornal é uma cidade que nunca terá nada. É uma cidade sem inteligência. Lesma urbana. Falta pé e cabeça. Principalmente cabeça. Não anda nem voa, se arrasta. Quando nasce em uma comunidade a consciência de si mesma, quando nessa comunidade estala a primeira faísca de espírito público, nasce o jornal. É o primeiro sinal de que existem homens, de que o pensamento comunitário acendeu a sua forja e o trabalho vai começar. Daí por diante as possibilidades são ilimitadas. Está aberta uma porta para as ideias, quer dizer, está aberta uma porta para a civilização.

O jornal, por modesto que seja, é uma bandeira de cidadania, um símbolo da aspiração coletiva, um gesto de engajamento nas fileiras da atualidade, um triunfo sobre o ramerrão, a rotina, a marcha a ré. O jornal, impondo a dignidade da palavra escrita, aplicando no interesse do povo a maior de todas as artes, que é a arte literária, dá um caráter ao meio em que circula, aponta uma comunhão nos ideais da vida moderna, inscreve a história desse povo nas conquistas de hoje e nas esperanças de amanhã. Só as populações esmagadas, iletradas ou incapazes não precisam de jornais. Os cemitérios também não.

Musa GUMUS
Por que é que até os presídios editam os seus jornais internos e os transatlânticos editam os seus jornais de bordo? É porque o jornal se tornou em toda parte um alimento indispensável para a combustão metabólica, para o ritmo e a velocidade de que o espírito humano tem de manter em cada dia, em cada hora, em cada minuto. Fome de informações, de notícias. Essas informações e essas notícias enriquecem nossa experiência, põem-nos em contato com outras almas e outros mundos e sob certo modo nos tornam livres, uma vez que o conhecimento é a mais profunda e absoluta forma de libertação. Não fosse o jornal por excelência "o pão da liberdade" ou a arma da liberdade em seu sentido mais objetivo, que é o sentido social, econômico e político. O português, colonizador e ladino, jamais permitiu que nos velhos brasis entrasse sequer uma tipografia, máquina de homens livres. Quando veio Dom João VI para estreia da corte no exílio, a coisa mais importante não foi a abertura dos portos, foi a abertura das portas para a imprensa. O monarca sabia que estava procurando sarna para se coçar. Mas teve de correr o risco. Deu letras ao povo e com isso, em pouco tempo, a Coroa lusitana estava demissionária de sua colônia. E, quando a própria Coroa brasileira andava mal em seus negócios com Minas Gerais ou com toda a nação, que fez, nos idos de 1830, um jovem chamado Teófilo Otoni? Levou do Rio de Janeiro para Serro Frio, durante um mês de viagem a lombo de burro, uma pequena oficina tipográfica e editou um jornal de que ele mesmo era o redator. Esse jornal se chamou "Sentinela do Serro". Com o seu pequeno jornal, esse republicano da monarquia abalou o trono de tal forma que o nome de Teófilo Otoni se tornou o de um dos mais glorificados campeões da democracia no país. "Nenhum dos jornais da época profligou com mais talento, com mais calor, com mais eloquência os fatais desmandos do Primeiro Reinado", diz Sisson, ao traçar na sua "Galeria dos brasileiros ilustres" o perfil de Teófilo Otoni.

Isto se fez naqueles velhos tempos. E se fez com uma folha perdida entre os sertões de Minas. O que não fazem os nossos jornais de hoje, quando os tais "desmandos do Primeiro Reinado" não passariam de café pequeno ante as falcatruas do mais desambicioso funcionário público de agora? Que instituições os jornais não criam e não derrubam? Assis Chateaubriand chegou a ser o indivíduo mais poderoso e o mais engrossado pelos nossos políticos. Criou tudo o que quis criar, incluindo deputados, senadores, ministros, presidentes da República. Foi tudo o que quis ser. Como a nossa Casa da Moeda, a sua organização só trabalhava com papel impresso. Mas esse papel impresso representava um valor quando entrava em circulação, influía no mercado e no câmbio do espírito nacional. Uma coluna de papel dos seus jornais pesava mais que todo o café produzido no Brasil, que todo o arsenal do Ministério da Guerra, todas as fábricas e usinas de São Paulo. As suas tremendas bombas, feitas de celulose e de tinta, eram como bombas de profundidade no oceano da opinião pública. Uma ideia lançada pelos engenhos da sua imprensa detonava com essa energia nuclear que tem a palavra escrita sob um máximo de carga psicológica.

Mas a imprensa, como o cinema, pode-se argumentar, deu em indústria. Virou negócio. Imprensa não é mais um berço de abnegações, uma ara de sacrifícios ao bem comum, uma ordem de jejuadores, de abstêmios das comidas terrenas. Assim como o cinema não é uma escola de belas-artes, onde tudo deveria ser grátis para manter impoluída a beleza de suas imagens. Num jornal, como numa igreja, entra de tudo. Entram os maus fiéis e até os maus sacerdotes. Isso não tem muita importância. Basta que a igreja ou o jornal existam. Eles sustentam por si mesmos, apesar de tudo, um a verdade sobrenatural e outro a verdade social para que ambos foram fundados. Ambos mantêm, apesar das heresias e das profanações, a constante presença de seu deus imortal e indestrutível, assim como a vigência virtual de suas leis sagradas. O jornal pode às vezes corromper-se, cair em mãos aventureiras ou incapazes e permitir uma obra condenável. Nem por isso o jornalismo, como um todo e uma função, estará arruinado, perderá a sua fulgurante grandeza, perecendo a abundância dos seus serviços na glória da espécie humana.

Temo que esteja sendo terrivelmente chato com estes excessos de louvação ao jornal. A culpa todavia não é minha, juro. Todo e qualquer protesto, queixa ou reclamação neste sentido os senhores devem endereçar ao doutor Eduardo Gaspar de Paiva Pereira, presidente da Associação de Imprensa, com sede nesta cidade de Poços de Caldas. Ele me convidou para que eu, hoje, domingo, na Rádio Difusora, dissesse o que penso. E eu penso isto, se me permitem ainda um resumo final. Poços de Caldas nunca deixou de ter jornais e jornalistas, desde os seus tempos de simples arraial. E se chega a ter hoje até mesmo uma associação de profissionais do jornalismo falado e impresso, é também nisto uma cidade fora do comum. Já não é uma forja de trabalho e sim uma verdadeira usina, uma Volta Redonda onde toda uma população funde os aços da inteligência na construção monumental dos seus dias futuros.
Jurandir Ferreira, "Da quieta substância dos dias"

O ornitorrinco chamado Brasil

O Brasil se presta a muitas comparações. Nos anos 1970, Edmar Bacha nos chamou de Belíndia: leis e riqueza de Bélgica, desigualdade de Índia. Delfim Netto sugeriu Ingana: impostos de Inglaterra, serviços públicos de Gana. Evoluímos para um Dubaiti: privilégios e extravagâncias da cidade de Dubai, vácuo de Estado nas favelas e periferias, à moda do Haiti. Parecemos um ornitorrinco, aquele mostruário de excentricidades, prova viva de que a fidelidade não foi seguida à risca na arca de Noé.

Como o mamífero que, na contramão da sua subclasse, bota ovo, o Brasil é uma mistura de surreal com atraso e pitadas de velhas ideologias. Quase metade da população sobrevive sem acesso a saneamento básico, mas o governo está mais interessado em proteger as empresas estatais do que em garantir esgoto e água potável.

Como o mamífero que não tem mamilos, o Brasil é um país rico com cerca de um terço da população abaixo da linha da pobreza. A riqueza existe, mas os canais para sua distribuição não são lá muito ortodoxos.

Assim como o ornitorrinco tem bico de pato, pé de pato e cloaca de pato — mas está longe de ser um pato —, o Brasil tem iniciativa privada e propriedade privada, mas o protecionismo, a burocracia e o patrimonialismo estatal fazem o possível para que não seja uma economia de mercado.

Nas fotos, o ornitorrinco dá a impressão de ser enorme, mas não passa de dois palmos de comprimento. O Brasil é o quinto maior país em área, o sétimo em população e a nona economia — mas continua um tampinha diplomático, um nanico cultural.

Observe o Ornithorhynchus anatinus e a Terra brasilis. O primeiro é um bicho aparentemente fofinho, com esporões conectados a glândulas de veneno. A segunda, lar de um povo que adora memes e inventou o brigadeiro, o pão de queijo, o xaxado, o chorinho, a caipirinha, o chorinho da caipirinha — e deu transcendência ao diminutivo; que chama desconhecidos de “querido”, mistura pizza com abacaxi e dá nó em ChatGPT.

Mas tem a oitava maior taxa de violência no mundo: com 2,7% da população do planeta, responde por 20,4% dos homicídios, segundo o Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime. Ao contrário do que dizia a personagem da Kate Lyra, o brasileiro (assim como o ornitorrinco) não é tão bonzinho.

Outra boa metáfora é a ex-presidenta Dilma Rousseff. Ela fala um inglês macarrônico e intraduzível, mas dispensa o intérprete. Ela quase quebrou um país e se acha em condições de presidir o banco criado para auxiliar o crescimento e o desenvolvimento de cinco grandes economias.

O Brasil tem educação precária — na formação profissional e na de crianças e adolescentes, está em último lugar no Pisa—, mas engata marcha a ré nos avanços propostos pelo Novo Ensino Médio.

O Brasil sofre derrotas diárias na guerra ao tráfico, às milícias, à dengue, à evasão fiscal, ao desmatamento e ao garimpo ilegais e quer dar pitaco na guerra na Ucrânia.

Como Dilma, bastava ao país ler o que está escrito — seja na Constituição, nos artigos científicos, nos livros de economia — para que tudo desse certo. Mas insiste no improviso e se embanana todo. Como exotismo pouco é bobagem, talvez nossa melhor metáfora seja um dilmorrinco. 

Eduardo Affonso 

quinta-feira, 18 de maio de 2023

O inexorável

De umas poucas semanas para cá, o historiador israelense Yuval Harari escreveu um par de artigos afirmando que a inteligência artificial (IA) “hackeou” o “sistema operacional” da espécie humana. Tratase de uma metáfora: “sistema operacional”, aqui, significa linguagem. A máquina finalmente dominou nossas formas de expressão e comunicação – e o perigo que isso representa é inédito, colossal, maior do que qualquer outro que tenhamos conhecido antes.

Harari tece raciocínios com uma limpidez irresistível. Autor de best-sellers mundiais, como Homo Sapiens (publicado no Brasil pela Companhia das Letras), tem o dom de tornar palatáveis, acessíveis e até mesmo envolventes alguns dos mais excruciantes dilemas do nosso tempo. O primeiro dos artigos, originalmente publicado no The New York Times, foi traduzido em jornais brasileiros. O Estadão o estampou em suas páginas no dia 28 de março, com o título de O domínio da inteligência artificial sobre a linguagem é uma ameaça à civilização.

Pouco depois, o escritor liderou um abaixo-assinado transnacional pedindo uma trégua de seis meses nas pesquisas sobre inteligência artificial. Em seguida, voltou à carga com um novo texto, desta vez no semanário inglês The Economist (de 28 de abril), com a mesma mensagem: uma tecnologia capaz de se apossar da linguagem humana tem tudo para encilhar a humanidade inteira.

O argumento procede. Todos os mitos, todas as religiões e todas as culturas que existem ou já existiram sobre a face da Terra não são feitos de aminoácidos ou de cromossomos, mas de signos linguísticos. Esses signos vertebram o “sistema operacional” dos nossos sistemas de fé, da nossa expressão artística e da nossa identidade – são o tecido da nossa consciência. Logo, softwares e hardwares que se apropriem desse “sistema” poderão mandar em nós. Eis por que, na opinião de muita gente bem informada, a inteligência artificial se equipara aos armamentos nucleares em potencial destrutivo.

Mas isso não é nem a metade da missa de réquiem que mal começou. Se olharmos a questão de frente, notaremos que Yuval Harari poderia ter dito mais do que disse. O desenvolvimento do chamado machine learning, do big data e dos equipamentos autoprogramáveis segue um curso irrefreável. Nenhum abaixo-assinado poderá estancá-lo. O ponto de não retorno talvez já tenha ficado para trás.

Para entender a irreversibilidade do processo tecnológico, é bom nos lembrarmos daquele outro processo, o jurídico, tal como foi descrito por Franz Kafka. A despeito da existência ou não de provas, a trama judicial ia em frente, sem que ninguém lograsse detê-la. A tecnologia, como o direito, é uma criação humana. Diferentemente do direito, porém, fica mais forte à medida que se desumaniza e se liberta das pessoas.

Martin Heidegger pressentiu algo parecido quando falou do poder da técnica, na primeira metade do século 20. Trezentos anos antes, Thomas Hobbes notou que o Estado, possuído pelo monstro Leviatã, faria o que bem entendesse, contra quem quer que fosse. A sensação de que o engenho humano fabrica “monstros” que ganham vida própria não é nova. Adam Smith vislumbrou uma tal “mão invisível” puxando os fios do mercado. Karl Marx detectou um “sujeito automático” escondido em alguma reentrância entre a mercadoria e o capital.

A realidade lhes deu razão. A burocracia que Max Weber viu com uma ponta de otimismo logo se degradou em stalinismo e devorou seus pais, como se confirmasse a maldição do romance Frankenstein, de 1818, em que Mary Shelley retratou a criatura que subjuga o criador. Nas tragédias da Grécia Antiga, a fatalidade que não tinha governo atendia pelo nome de destino. Na modernidade, você pode chamá-la de inconsciente. O pensamento até entende o que contempla, mas não tem como impedir.

E aqui estamos nós, cara a cara com a inteligência artificial. A possibilidade de domá-la é exígua. Ela conseguiu o feito de retirar a linguagem humana do domínio dos falantes de carne e osso. Ela, a linguagem, que só podia existir através de nós, agora poderá viver além de nós. Não subestimemos o tamanho deste pequeno passo que será um grande salto para a tecnologia. O linguista Ferdinand de Saussure ensinou que aquele que inventa uma língua e a coloca em circulação perde o controle sobre ela. Em breve, poderemos perder o controle sobre as máquinas que aprenderam a falar a linguagem que era só nossa.

A inteligência artificial automatiza protocolos que eram humanos na origem e deles extrai predições eficazes, em escalas progressivamente mais velozes e mais agigantadas. Ela cresce e se complexifica dentro dos bunkers privados e opacos das big techs – ou dentro dos subterrâneos dos mais bem guardados segredos de Estado, também opacos. Não há força política na atualidade que consiga quebrar essas duas opacidades simultaneamente. Não, uma trégua de seis meses não vai resolver nada. Nossas chances são mínimas.

Olhe com ternura e compaixão para o mundo à sua volta, porque ele vai desaparecer num suspiro.