quarta-feira, 23 de março de 2022

O detentor do poder

Um verdadeiro poder não pode ser construído exclusivamente sobre vitórias fáceis. O terror que ele quer despertar, e no qual está propriamente interessado, depende da massa de vítimas. Todos os conquistadores famosos da história trilharam esse mesmo caminho. 

Posteriormente, foram-lhes atribuídas virtudes de toda espécie. Após séculos, historiadores ainda comparam conscientemente as qualidades de tais conquistadores, para — como acreditam — chegar a um juízo exato sobre eles. A ingenuidade fundamental dessa empreitada é palpável. De fato, estão ainda sob o fascínio de um poder de há muito ultrapassado. Assim, vivendo numa outra época, tornam-se contemporâneos daqueles que nela viveram, e algo do temor que estes sentiam ante a crueldade do poderoso acaba transferindo-se para eles; não sabem, porém, que se entregam a esses poderosos, enquanto observam honestamente os fatos. Soma-se a isso uma motivação mais nobre, da qual não estiveram livres nem mesmo grandes pensadores: é insuportável ter de afirmar que um número de seres humanos — cada um contendo em si o conjunto das possibilidades humanas — foi massacrado em vão, em prol de absolutamente nada; é por isso que então se passa a buscar um sentido para tais massacres.


Como a história prossegue, é sempre fácil encontrar um sentido aparente em sua continuidade: cuidando-se para que tal sentido receba uma certa dignidade. Aqui, porém, a verdade nada tem de dignidade. Ela é tão vergonhosa quanto foi aniquiladora. Trata-se exclusivamente de uma paixão privada do detentor do poder: seu prazer pela sobrevivência cresce com seu poder; este permite-lhe dar rédeas à sua paixão. O verdadeiro conteúdo desse poder é o desejo de sobreviver a massas de seres humanos.

É mais proveitoso para o detentor do poder se suas vítimas são inimigos; de qualquer modo, os amigos produzem resultado semelhante. Em nome de virtudes varonis, exigirá o mais difícil, o impossível, de seus súditos. Não lhe importa que estes sucumbam na execução da tarefa. É capaz de convencê-los de que é uma honra fazê-lo por ele. Através de rapinagens, cujo produto permite-lhes de início desfrutar, ele os ata a si. Servir-se-á então da voz de comando, a qual foi como que talhada para seus objetivos (não podemos, contudo, encetar aqui uma discussão detalhada dessa voz de comando, que é de extrema importância). É assim que, se entende do que faz, fará deles massas belicosas, incutindo-lhes ideias sobre a existência de tantos inimigos perigosos que, por fim, seus seguidores não poderão mais abandonar a massa de guerra que compõem. É claro que não lhes revela sua intenção mais profunda; sabe dissimular muito bem e, para tudo o que ordena, encontra centenas de pretextos convincentes. É possível que se traia, em sua arrogância, no círculo de amigos mais íntimos; mas, se assim for, o fará de forma radical, como fez Mussolini diante de Ciano, ao desdenhosamente chamar seu povo de rebanho, cuja vida, naturalmente, pouco importava.

Mas a real intenção de um verdadeiro detentor do poder é tão grotesca quanto inacreditável: ele quer ser o único. Quer sobreviver a todos, para que ninguém sobreviva a ele. Quer furtar-se à morte a todo custo; assim, não deve haver ninguém, absolutamente ninguém, que possa matá-lo. Jamais se sentirá seguro enquanto homens, quaisquer que sejam, continuarem existindo. Mesmo seu corpo de guarda, que o protege dos inimigos, pode voltar-se contra ele. Não é difícil provar que sempre teme secretamente aqueles a quem dá ordens. Sempre o assalta, também, o medo dos que lhe estão mais próximos.”
Elias Canetti, "A consciência das palavras"

Brasil em 'reconstrução'

 


Amor e guerra

O amor é amplo e claro como a luz do dia. A guerra é o oposto. Ela é nublada e sofre com sua própria nebulosidade, que cega o agressor e o agredido. No entanto, somente nós, humanos, temos guerras de modo que ela deve morar em algum lugar do nosso coração, da nossa alma e da nossa (in)consciência.

Encontramos o par Amor & Guerra logo que tomamos consciência do mundo e, com ela, da vida. A vida tem perfumes e podridão. Tem bondade e maldade. A vida, com seu curso sempre surpreendente, é, por isso mesmo, “vida”: novidade, mudança, repressão, surpresa – aquilo que acontece fora de nós ou que, ao contrário, fazemos de “caso pensado” – de modo cuidadosamente planificado, como nas seduções. Aliás, como disse o dramaturgo inglês do século 16 John Lyly: “All is fair in love and war” (tudo é válido no amor e na guerra).

Não é, pois, por acaso que, no Brasil, damos “cantadas” e mandamos flores para as pessoas que desejamos. Cantar é harmonizar escrita e melodia, o que não é fácil de executar e muito mais difícil de inventar.


Mas a busca da harmonia, da concórdia, da simpatia e da empatia, quando somos levados a nos colocar no lugar do outro, é o chão do “cantar”, que atrai como ocorre com alguns pássaros no cio; ou quando fazemos um elogio enganador para atrair alguém, mas nele se acha um desejo inconfessável...

Saber os resultados de desejos, planos ou interesses é como contar grãos de areia.

Pode levar à comunhão compassiva e prazerosa ou ao seu oposto: o conflito, o aproveitamento do outro e a eliminação física que tipifica a guerra moderna e a sua forma domesticada, o esporte...

No amor, queremos e nos perdemos no outro e pelo outro. Na guerra, nosso plano é destruí-lo e desmoralizá-lo. Tomá-lo como um escravo ou vassalo.

Mas, tal como o amor, na guerra, onde tudo é ruim, vale mais a conquista do que a destruição que nossa generosa modernidade instituiu.

Mas de que adianta vencer arrasando o adversário? Se sou uma potência e desejo anexar um país, um continente ou todo o mundo, o que fazer quando eu ganho a guerra aniquilando um país, numa vitória que implica uma reconstrução irônica do inimigo, que, com a vitória, passa ser coisa minha?

Quando não se guerreia de arco e flecha, mas se atinge barbaramente toda a sociedade, a reconstrução é inevitável. Desse modo, ficamos diante do paradoxo dos aspectos inesperados das ações sociais primorosamente planejadas...

Morrer por uma ideia, por uma visão ou por uma utopia

Perguntaram um dia ao filósofo Bertrand Russell se seria capaz de morrer por uma ideia. Como filósofo cristalino e frontal, que era, respondeu sem hesitar: “Não, porque poderia estar errado.” Irrefutável. Qualquer não fanático, com a mente asseada, sabe que pode sempre estar errado. Só os fanáticos acreditam em “verdades”. Os cientistas e os filósofos, não. Mesmo o mais notável pensador pode estar errado e o mais provável é estar. 

Portanto, se uma ideia pode estar errada, morrer por ela é um rotundo disparate. Mas, se não se deve morrer por uma ideia, muito menos se deve matar por ela. No entanto, é o que mais se tem visto por aí, desde tempos imemoriais. Muitos muçulmanos ainda hoje matam “infiéis”, isto é, gente que não acredita no que eles acreditam, como "verdade". 

Os jihadistas fazem-no com grande profusão e de boa consciência. Esses, ao menos, fazem-no pela medida grande: matam e matam-se, por uma crença, que teria alegadamente sido bichanada por Alá ao ouvido do seu profeta Mahomé. A Igreja Católica fê-lo também, com abundante derramamento de sangue – as cruzadas foram uma ignomínia – e puseram de pé um aparelho repressivo, chamado Inquisição, que torturou e matou, com sinistra eficácia, milhares de seres humanos a quem não fora dada a felicidade de acreditarem no mesmo em que ela acreditava e impunha que se acreditasse. 

Outras religiões, como o comunismo de Staline ou a revolução cultural de Mao fizeram o genocida Hitler quase parecer um menino de coro. Pol Pot, líder do Cambodja, liquidou, a bem da sua “verdade”, 1.5 a 2 milhões de compatriotas (um quarto da população do país). A dissidência tem sido um mau negócio para os que insistem em pensar pela sua cabeça. 

Mais recentemente, apareceu Putine, com a desculpa esfarrapada de que estava a usar apenas uma “missão especial” devido ao desconforto de umas populações russas no sudeste da Ucrânia. A tal “missão especial” tem consistido em destruir um país lindíssimo, dotado de duas belíssimas cidades – Kiev e Odessa - , arrasando prédios de habitação, hospitais, maternidades, armazéns de alimentos e milhares de pessoas, mortas, além de para cima de três milhões desalojadas e exiladas. Um filósofo usando uma lógica simplista, sugeriria que em vez de uma guerra dantesca, ficava mais barato e destruía menos, enviarem os russos, de acordo com os ucranianos, uns transportes que levassem os ditos russos do sudeste da Ucrânia, para se estabelecerem nos vastos espaços desocupados da grande Rússia. 

Mas isto, além de ser demasiado simples, ia obviamente contra o “orgulho” próprio da utopia imperialista de Putine, uma das tais “ideias” pelas quais os tiranos não se importam de mandar matar, aos milhões, e destruir até perder de vista. Eu acho que deve haver, nos habitáculos e labirintos da psiquiatria, um nome, para esta doença de que sofre o actual czar da Rússia. Há quem diga que não, que o rapaz é só muito “determinado”. Chamem-lhe o que quiserem. Uma junta médica não faria mal nenhum ao mundo. Para ele e outros que andam por aí. Há vários e são todos muito desnecessários.
Eugénio Lisboa

Bolsonaro escolhe farda e Bíblia como currículo e cartão de visita

O governo Jair Bolsonaro avança em seu último ano reiterando vícios de origem que foram vendidos na campanha e comprados nas urnas como se virtudes fossem. Nesta semana, dois deles ganharam as manchetes: a contaminação política das Forças Armadas e a disseminação do lobby evangélico para abrir portas e lotear recursos públicos nos ministérios.

Em nenhum desses casos, se pode acusar Bolsonaro de ter escondido o jogo para se eleger. Ele escolheu um general como seu vice em 2018 e afirmou com todas as letras que militares ocupariam vários postos em sua gestão. Também deixou claro que a aproximação com os evangélicos era um projeto político, usando um moralismo reacionário chamado falsamente de conservadorismo como justificativa.

Essas duas frentes seguem como pilares importantes do projeto reeleitoral. A antecipação de que o ministro da Defesa, general Braga Netto, será o vice no lugar de Hamilton Mourão é o ápice de um movimento de infiltração de ideias, práticas e projetos políticos no papel das Forças Armadas determinado pela Constituição.


Diferentemente de Mourão, que estava fora do núcleo decisório de poder quando foi escolhido por Bolsonaro para acompanhá-lo na chapa, Braga Netto é o titular da Defesa. Foi designado para o posto numa inédita troca simultânea do ministro e dos três comandantes das Forças, porque a banda não estava tocando conforme Bolsonaro gostaria.

E, no posto, imediatamente se pôs a fazer coro aos questionamentos do presidente quanto à lisura das eleições e a confiabilidade das urnas eletrônicas. Com um general com esse perfil na Vice, qual será o comportamento das Forças Armadas durante o pleito e, principalmente, diante do resultado, caso ele seja negativo para Bolsonaro e Braga Netto?

É uma conjectura? Sim. Mas não é desprovida de histórico factual. Além dessa movimentação descrita, é necessário lembrar que, já no curso da campanha de 2018, o general Eduardo Villas Bôas, então comandante do Exército, tuitou às vésperas de o STF analisar um habeas corpus de Lula que a instituição compartilhava com a sociedade a indignação ante a corrupção, ato visto como tentativa de intimidar os ministros da Corte.

A tomada do Ministério da Educação por lobistas munidos de Bíblia evidencia que o apoio a Bolsonaro de algumas denominações evangélicas com grande trânsito político não se diferencia, nos métodos e objetivos, daquele empenhado pelo Centrão. Ele se dá mediante a captura de lautas fatias do Orçamento da União por grupos de influência ligados ao presidente, citado diretamente pelo ministro da pasta como tendo ordenado a prioridade aos amigos do pastor.

O desmonte do MEC, submetido, desde o dia 1 da era Bolsonaro, a toda sorte de narrativa ideológica, combinada à nomeação de pessoas absolutamente desqualificadas para o exercício da função pública, será um dos legados mais perniciosos deste governo. E olha que se trata de uma concorrência assustadoramente alta.

Sob a quimera de combater falsos problemas como “ideologia de gênero”, atacando instituições como as universidades federais e sucateando processos e métricas como o Enem, a inacreditável trinca Vélez Rodríguez, Abraham Weintraub e Milton Ribeiro entregará ao término deste mandato uma Educação não apenas profundamente atingida pela pandemia, mas corroída pela corrupção — não existe outra palavra para o mercado persa da fé promovido por Ribeiro com pastores ligados a Bolsonaro — e pelo proselitismo religioso e ideológico.

Nesse cenário, não causa espanto que expoentes do falso conservadorismo, como a ministra Damares Alves e o deputado Marco Feliciano, tenham se chocado tanto com a cena de um filme de ficção de 2017, mas não tenham dado um pio sobre o orçamento secreto para pastores no MEC.

Ouro da Educação reluz como o de Moscou para reeleger Bolsonaro

Deu em alguma coisa o caso da rachadinha da primeira família presidencial do Brasil? Ficar com parte do salário de funcionários fantasmas ou na ativa foi recurso usado por Bolsonaro e pelo menos por dois dos seus filhos para enriquecerem.

Deu em alguma coisa a denúncia pelo Ministério Público do ex-ministro do Turismo Marcelo Álvaro Antônio sob a acusação de envolvimento com candidaturas de araque do PSL? Marcelo foi um dos que socorreram Bolsonaro depois da facada.

E a revelação de irregularidades num contrato de R$ 1,61 bilhão, destinado à compra da vacina indiana Covaxin contra a Covid-19, deu em alguma coisa? O caso envolveu militares empregados no Ministério da Saúde. Bolsonaro soube antes e fechou os olhos.

Por que dará em alguma coisa o escândalo do momento estrelado por pastores evangélicos, o ministro da Educação e o próprio Bolsonaro? A pedido de Bolsonaro, segundo o ministro, os pastores intermediaram a liberação de verbas públicas.


No Palácio do Planalto funciona o Gabinete do Ódio, estrutura paralela de poder que fabrica notícias falsas e cuida da imagem do presidente; sua face mais conhecida é a do vereador Carlos Bolsonaro, o Zero Dois, que fala pelo pai e o pai por ele.

No Ministério da Saúde, à época do general Eduardo (“Manda quem pode, obedece quem tem juízo”) Pazuello, funcionou o Gabinete dos Pequenos e Grandes Negócios, estrutura igualmente paralela. O general será candidato a deputado federal pelo Rio.

Dos governos do PT, diz-se que aparelharam a máquina do Estado – daí o mensalão e o petrolão, por exemplo. Não é o que fizeram Bolsonaro e sua gangue nos últimos três anos? Com a diferença de que o PT foi punido, Bolsonaro e sua gangue estão a salvo.

Com a diferença também que nunca antes na história do Brasil o aparelhamento da máquina do Estado promovido por um presidente foi tão gigantesca como é agora. Se Bolsonaro aprendeu alguma coisa com o PT, o PT teria muito mais a aprender com ele.

Os órgãos de controle do Estado viraram puxadinhos do Palácio do Planalto onde Bolsonaro despacha – Procuradoria Geral da República, Advocacia Geral da União, Ministério da Justiça, Tribunal de Contas da União, Polícia Federal.

Na Agência Brasileira de Inteligência, encarregada da espionagem oficial e clandestina, Bolsonaro pôs um delegado que cuidou da sua e da segurança pessoal dos seus familiares depois da facada. Quis pô-lo no comando da Polícia Federal, mas foi barrado pela Justiça.

O que aconteceu no Ministério da Educação configura crimes de improbidade administrativa e tráfico de influência; eles carregam as digitais do ministro pastor e do presidente da República que, ontem, voltou a dizer que seu governo não é corrupto. Só é.

Por muito, muito, muito menos, com base na gravação truncada de uma conversa, o então presidente Michel Temer foi denunciado duas vezes pela Procuradoria Geral da República. Escapou de ser cassado graças ao Centrão, mas não de ser preso mais tarde.

O Centrão está aí para salvar Bolsonaro se fosse preciso, mas não será; ele apenas cobrará mais caro para continuar apoiando-o. O Orçamento Secreto existe para isso. A sociedade civil inerte, e a militar cooptada, fazem o resto.

terça-feira, 22 de março de 2022

Pensamento do Dia

 


Putin cometeu um profundo erro de cálculo

A Ucrânia está mais uma vez no centro de um conflito potencialmente global. A Primeira Guerra Mundial, como disse o historiador Dominic Lieven, “desencadeou o destino da Ucrânia”. A Segunda Guerra Mundial, segundo o lendário jornalista Edgar Snow, foi “ antes de tudo uma guerra ucraniana ”. Agora, a ameaça de uma terceira guerra mundial depende do que pode acontecer na Ucrânia.

É uma repetição impressionante. Por que a Ucrânia, um país de médio porte de 40 milhões de pessoas no extremo leste da Europa, esteve no epicentro da guerra não uma, não duas, mas três vezes?

Parte da resposta, pelo menos, é geográfica. Situada entre a Rússia e a Alemanha, a Ucrânia há muito é vista como o local da luta pela dominação do continente. Mas as razões mais profundas são de natureza histórica. A Ucrânia, que tem um ponto de origem comum com a Rússia, desenvolveu-se de forma diferente ao longo dos séculos, divergindo de maneira crucial de seu vizinho do leste.


O presidente Vladimir Putin gosta de invocar a história como parte do motivo de sua sangrenta invasão. A Ucrânia e a Rússia, ele afirma , são de fato um país: a Ucrânia, na verdade, não existe. Isso, é claro, está totalmente errado. Mas ele está certo em pensar que a história contém uma chave para entender o presente. Ele simplesmente não percebe que, longe de permitir seu sucesso, é o que o frustrará.

Em 1904, um geógrafo inglês chamado Halford John Mackinder fez uma previsão ousada. Em um artigo intitulado “O pivô geográfico da história”, ele sugeriu que quem controlasse a Europa Oriental controlaria o mundo. Em ambos os lados dessa vasta região estavam a Rússia e a Alemanha, prontas para a batalha. E no meio estava a Ucrânia, com seus ricos recursos de grãos, carvão e petróleo.

Não há necessidade de entrar nos detalhes mais sutis da teoria de Mackinder; tinha seus defeitos. No entanto, provou ser extremamente influente após a Primeira Guerra Mundial e tornou-se uma espécie de profecia auto-realizável. Graças ao geopolítico nazista Karl Haushofer, o conceito migrou para o “Mein Kampf” de Hitler. Lenin e Stalin não leram Mackinder, mas agiram como se tivessem lido. Para eles, a Ucrânia era a ponte que levaria a Revolução Russa para o oeste até a Alemanha, tornando-a uma revolução mundial. O caminho para o conflito novamente passou pela Ucrânia.

A guerra, quando veio, foi catastrófica: na Ucrânia, cerca de sete milhões pereceram. No rescaldo, a Ucrânia foi selada na União Soviética, e a questão por um tempo parecia resolvida. Com o colapso do comunismo, muitos acreditavam que a tese de Mackinder estava ultrapassada e o futuro pertencia a estados independentes e soberanos, livres das ambições de vizinhos maiores. Eles estavam errados.

O argumento de Mackinder – de que a Europa Oriental e a Ucrânia eram a chave para uma disputa entre a Rússia e a Alemanha – nunca foi embora. Na verdade, ocupava um lugar de destaque na mente de Putin. Com uma mudança, no entanto: ele substituiu a Alemanha pelo Ocidente em sua totalidade. A Ucrânia, para Putin, tornou-se o campo de batalha de uma disputa civilizatória entre a Rússia e o Ocidente.

Ele não agiu sobre isso no início. Nos primeiros anos de seu mandato, ele parecia esperar – em linha com aqueles no círculo de Boris Yeltsin que supervisionaram o fim da União Soviética – que a independência ucraniana não duraria muito. Com o tempo, a Ucrânia estaria implorando para ser retomada. Isso não aconteceu. Embora alguns ucranianos permanecessem sob o domínio da cultura russa, politicamente eles se inclinavam para o Ocidente, como mostrado pela Revolução Laranja de 2004 , quando milhões de ucranianos protestaram contra a fraude eleitoral.

Assim, Putin mudou de rumo. Logo após a guerra na Geórgia em 2008, na qual o Kremlin assumiu o controle de duas regiões georgianas, ele desenhou uma nova política estratégica para a Ucrânia. De acordo com o plano , qualquer passo que Kiev possa tomar em direção ao Ocidente seria punido com agressão militar. O objetivo era separar o leste russófono da Ucrânia e transformar o resto do país em um estado vassalo liderado por um fantoche do Kremlin.

Na época, parecia fantástico, ridículo. Ninguém acreditava que pudesse ser genuíno. Mas nas últimas semanas da revolução de Maidan na Ucrânia em 2014, na qual os ucranianos exigiram o fim da corrupção e a aceitação do Ocidente, ficou terrivelmente claro que a Rússia pretendia agredir. E assim foi: em uma operação de tiro rápido, Putin apreendeu a Crimeia e partes do Donbas. Mas, crucialmente, toda a extensão de sua ambição foi frustrada, em grande parte pela resistência heróica montada por voluntários no leste do país.

O Sr. Putin calculou mal de duas maneiras. Primeiro, ele esperava que, como havia acontecido com sua guerra contra a Geórgia, o Ocidente engolisse tacitamente sua agressão contra a Ucrânia. Uma resposta unificada do Ocidente não era algo que ele esperava. Segundo, já que em sua mente russos e ucranianos eram uma nação, Putin acreditava que as tropas russas mal precisavam entrar na Ucrânia para serem recebidas com flores. Isso nunca se concretizou.

O que aconteceu na Ucrânia em 2014 confirmou o que historiadores liberais ucranianos vêm dizendo há muito tempo: a principal distinção entre ucranianos e russos não está na língua, religião ou cultura – aqui eles são relativamente próximos – mas nas tradições políticas. Simplificando, uma revolução democrática vitoriosa é quase impossível na Rússia, enquanto um governo autoritário viável é quase impossível na Ucrânia.

A razão para esta divergência é histórica. Até o final da Primeira Guerra Mundial (e no caso da Ucrânia ocidental, o final da Segunda Guerra Mundial), as terras ucranianas estavam sob forte influência política e cultural da Polônia. Essa influência não era polonesa em si; foi, antes, uma influência ocidental. Como disse o bizantino de Harvard Ihor Sevcenko, na Ucrânia o Ocidente estava vestido com roupas polonesas. No centro dessa influência estavam as ideias de restringir o poder centralizado, uma sociedade civil organizada e alguma liberdade de reunião.

Putin parece não ter aprendido nada com seus fracassos em 2014. Ele lançou uma invasão em grande escala, aparentemente destinada a remover o governo ucraniano do poder e pacificar o país. Mas, novamente, a agressão russa foi recebida com a heróica resistência ucraniana e uniu o Ocidente. Embora Putin possa escalar ainda mais, ele está longe da vitória militar que buscava. Mestre da tática, mas estrategista inepto, ele cometeu seu mais profundo erro de cálculo.

No entanto, é baseado na crença de que ele está em guerra não com a Ucrânia, mas com o Ocidente em terras ucranianas. É essencial compreender este ponto. A única maneira de derrotá-lo é transformar sua crença – de que a Ucrânia está lutando não sozinha, mas com a ajuda do Ocidente e como parte do Ocidente – em um pesadelo acordado.

Como isso poderia ser feito, seja por meio de ajuda humanitária e militar, incorporando a Ucrânia à União Européia ou mesmo fornecendo-lhe seu próprio Plano Marshall, são questões em aberto. O que importa é a vontade política de respondê-las. Afinal, a luta pela Ucrânia, como a história nos diz, é muito mais do que apenas a Ucrânia ou a Europa. É a luta pela forma do mundo vindouro.
Yaroslav Hrytsak, professor de história na Universidade Católica Ucraniana ( New York Times)

Sérgio Porto teria que multiplicar Festival de Besteira para dar conta de governo Bolsonaro

Stanislaw Ponte Preta, heterônimo de Sérgio Porto, fustigou as arbitrariedades e a estupidez da ditadura militar em seu célebre Festival de Besteira que Assola o País, sucesso na imprensa e em livros nos anos 1960. Estivesse vivo, o escritor estaria mais atarefado que nunca nesses tempos bolsonaristas.

Se dependesse de Sérgio Porto, a "sua" Copacabana —onde ficavam a casa na rua Leopoldo Miguez em que nasceu e cresceu e muitas pensões para jovens— jamais mudaria. Não teve jeito: a casa da infância foi demolida para a construção de um edifício, mesmo destino das pensões alegres na orla da praia.

Durante o dia, Sérgio trabalhava no Banco do Brasil. Como cronista da noite, usava terno e gravata, sapatos lustrosos. Nas peladas da praia, pegava no gol, e seus cabelos castanhos claros sempre estavam aparados e alinhados. O melhor jazz era o de Nova Orleans; o melhor samba, o tradicional (ainda não se dizia "de raiz").

Nascido há quase cem anos, em janeiro de 1923, homem do seu tempo, gentil, inteligente e espirituoso, aos olhos de muita gente ele era um conservador —na antiga acepção da palavra, não um "conservador" como conhecemos hoje nas mídias sociais—, cujo comportamento em nada lembrava o anarquismo de Stanislaw Ponte Preta, seu famoso heterônimo. Até que veio o golpe militar de 1964.

Na verdade, Sérgio Porto era um democrata, a quem aquela história de consertar o Brasil e acabar com o comunismo, botando tanques na rua para assumir o poder, não cheirava nada bem.

Com um general na Presidência, o próprio Stanislaw mudaria de tom e conversa, não abandonando as crônicas e anedotas de humor nem seu alvo preferido de antes, a classe ociosa das colunas sociais, mas passando a castigar os novos modos e costumes da "redentora", como ele costumava se referir ao regime recém-implantado.

No mesmo ano de 1964, Stanislaw Ponte Preta publica "Garoto Linha Dura", título que já alude ao ambiente pesado do país, sobretudo à perseguição política, censura e deduragem. "Escolhi para título a história do garotinho que se deixou influenciar pelo mais recente método de democratização posto em prática no Brasil", explica o autor na nota que abre a coletânea.

Pedrinho, o tal garoto linha-dura, para fugir do castigo por ter quebrado uma vidraça jogando futebol na rua, entrega um colega e diz ao pai: "Esse menino do vizinho é um subversivo desgraçado. Não pergunta nada a ele não. Quando ele vier atender a porta, o senhor vai logo tacando a mão nele".

O texto "Militarização" fecha a antologia. Nele, um homem sonha que não existe mais emprego ou ocupação para civis no país. Era um pesadelo, mas ele acorda gargalhando, e a mulher pergunta o motivo: "É que, no sonho, eu passei em frente de uma boate e tinha um cartaz na porta escrito: ‘Hoje sensacional strip-tease com o major Pereira’".


Atuando na imprensa desde 1947 —fez de tudo, da crítica musical a colunas em que selecionava mulheres de maiô, as "certinhas"—, Sérgio Porto preservou a alma de repórter. Algumas de suas melhores crônicas são flagrantes tirados da rua. Daí ter retratado tão bem aquele tempo brasileiro atropelado a uma só vez pela modernidade e pelo atraso. Sem falar nas besteiras.

O Febeapá (Festival de Besteira que Assola o País) surgiu nas páginas da Última Hora de Samuel Wainer, principal vitrine de Stanislaw Ponte Preta. Alimentado pelos leitores que enviavam recortes de jornais e atualizado diariamente, reuniu as façanhas de políticos, militares, funcionários públicos e demais "cocorocas" que gravitavam em torno do poder. A rigor era um relatório, com pequenas histórias absurdas. Hoje, é história do Brasil.

O material publicado em jornal foi depois agrupado em livro em três volumes (1966, 1967 e 1968), também com o título "Febeapá". A mais recente edição, da Companhia das Letras, reuniu todas as crônicas em um só volume.

Historiador honesto, Stanislaw não sabia precisar o dia em que tudo começou: "Notei o alastramento do Festival de Besteira depois que uma inspetora de ensino no interior de São Paulo, portanto uma senhora de um nível intelectual mais elevado pouquinha coisa, ao saber que seu filho tirara zero numa prova de matemática, embora sabendo que o filho era um debiloide, não vacilou em apontar às autoridades o professor da criança como perigoso agente comunista".

Se o fato ocorresse hoje, ninguém estranharia. Em novembro, a Polícia Civil intimou o diretor da Escola Municipal Getúlio Vargas, em Resende (RJ), a prestar depoimento, baseando-se em denúncia anônima encaminhada pelo Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos. Uma pessoa afirmava que os alunos estariam sendo "expostos a conceitos comunistas" e "ideologia de gêneros". A anônima inspetora de ensino dos tempos da ditadura transformou-se na poderosa ministra Damares Alves do governo Bolsonaro.

Não é preciso arrolar os inúmeros cacos de burrice explícita do presidente —como ter ido visitar a "Torre de Pizza" e confundido o político John Kerry com o humorista Jim Carrey— nem ressuscitar o ex-ministro da Educação que não sabia escrever a palavra "impressionante" (grafava "imprecionante") para notar as semelhanças de estilo, intenção e gesto dos tempos bolsonaristas com os da redentora. O ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, não deixa a peteca cair: "É melhor perder a vida do que perder a liberdade".

Na ditadura, quiseram prender Sófocles (que morreu por volta de 406 a.C.), autor de peça clássica, "Electra", considerada subversiva; o filme "Ivan, o Terrível", de Serguei Eisenstein, que conta a história do czar russo que viveu no século 16, teve sua exibição proibida em Belém para impedir que o "credo vermelho" fosse difundido entre nós. É bom ficar só nesses dois exemplos, para não dar munição ao secretário especial da Cultura, Mario Frias.

Até porque a pasta dele, em matéria de besteira, não precisa de incentivo. O braço direito de Frias, o capitão da PM André Porciuncula, ficou revoltado porque a imprensa brasileira repercutiu um comercial natalino da Posten, os correios da Noruega, que mostra o bom velhinho beijando um homem na boca.

Escreveu Porciuncula no Twitter: "Estou verificando cada veículo de mídia que divulgou a cena do São Nicolau (Papai Noel). O santo é parte integrante da fé cristã e, até onde eu sei, desrespeitar a fé alheia ainda é crime. Farei uma notícia-crime contra os envolvidos. A mídia tem de respeitar a fé cristã".

É por isso que, volta e meia, ouvimos em um papo de bar com amigos ou lemos nas redes sociais: o que Stanislaw Ponte Preta diria do Brasil sob Bolsonaro? Uma coisa é certa: ele estaria mais atarefado do que nunca.

Nos seus 45 anos de vida, Sérgio Porto jamais fugiu do trabalho. Ficcionista, jornalista, radialista, teatrólogo, humorista, compositor, roteirista e apresentador de televisão, ele tinha sempre um papel na máquina de escrever, só levantando os olhos dela "para passar colírio".

Para dar conta do governo atual, teria de inventar mais uns dez heterônimos e multiplicar os festivais —das tolices, das asneiras, das bobagens, das estultices, das parvoíces, das ignorâncias...

A maior diferença em relação ao passado é que o idiota de hoje faz um julgamento elevado de si mesmo, sente-se orgulhoso da própria idiotia. E as besteiras estão carregadas de maldade.

Filosofia

Quanto a você da aristocracia
Que tem dinheiro, mas não compra alegria
Há de viver eternamente sendo escrava dessa gente
Que cultiva hipocrisia
André Filho/ Noel Rosa

Vladimir Putin merece um monumento em bronze

A esta altura, não há mais dúvida de que Vladimir Putin é um criminoso de guerra. Além de invadir a Ucrânia sem que houvesse nenhum motivo para isso, a não ser erradicar o país do mapa, anexando-o à Rússia, em completo desrespeito às leis internacionais que regem as relações entre as nações, ele aterroriza a população civil ucraniana, principalmente os 130 mil habitantes de Mariupol, importante porto no Mar de Azov. A cidade vem sendo pesadamente bombardeada e a sua população é mantida como refém do exército russo. Em diferentes graus, a situação é aterrorizante nas cidades cercadas pelos invasores — que já mataram até o momento, de acordo com a ONU, 847 civis, entre os quais 109 crianças, uma monstruosidade.

A intenção é abalar o moral dos ucranianos e também simplesmente vingar-se dos cidadãos que se recusam a entregar o seu país ao facínora do Kremlin. O governo da Ucrânia disse não ao ultimato dado no domingo pelos russos, para que Mariupol lhes fosse entregue, em troca da abertura de corredores humanitários. Não há nada a ser entregue, porque ninguém se entregará, nem mesmo se o presidente Volodymyr Zelensky assim ordenar. Em Kherson, a única grande cidade tomada pelas tropas de Moscou, em mais de 20 dias de guerra, a população enfrenta os blindados russos, com gritos para que saiam dali. A única arma desses bravos são bandeiras da Ucrânia.


Como esperado, os russos bombardearam hoje Odessa, o grande porto ucraniano no Mar Negro. A tática é a mesma: amedrontar a população, sob o falso argumento de que o exército ucraniano está usando prédios civis para estocar armas. Do ponto de vista estritamente militar, a Rússia fracassou no que era para ser uma blitzkrieg. Os seus soldados não se atrevem a entrar em Kiev, que parecia ser presa fácil no início da guerra, inclusive pela proximidade com Belarus, porque a cidade está inteiramente defendida por barricadas e os ucranianos prometem transformar a sua capital em uma Stalingrado, evocando a grande batalha da Segunda Guerra Mundial, quando os russos enfrentaram — e venceram — os alemães invasores, quarteirão por quarteirão, casa por casa. Só que agora os alemães são os russos. Os 2 milhões de habitantes que sobraram em Kiev, de um total de quase 3 mihōes, prometem não se render no que consideram ser uma guerra patriótica.

Além de censurar as notícias sobre a guerra — que só não é chamada pelo seu verdadeiro nome na Rússia, onde a agressão contra a Ucrânia virou “operação especial” –, Vladimir Putin quer evitar que os seus horrores e reveses militares possam ser noticiados pela imprensa ocidental. Depois de inviabilizar o trabalho de jornalistas na Rússia, ele e os seus acólitos agora ameaçam repórteres do Ocidente, ou que trabalham para veículos ocidentais, que estão na Ucrânia. Os dois últimos jornalistas da Associated Press que estavam em Mariupol deixaram a cidade hoje. O videorrepórter Mstyslav Chernov e o fotógrafo Eugeniy Maloletka foram avisados de que seus nomes constavam de uma lista de pessoas a serem presas pelos russos. A agência de notícias publicou no seu site o relato de Mstyslav Chernov.

O medo de jornalistas intrépidos tem razão de ser. Uma coisa é correr o risco de vida natural imposto pela cobertura de uma guerra no terreno em que ela se desenrola e ser atingido por tiros ou bombas quando se está na linha de frente ou próximo a um alvo. Coisa bem diferente é ser intimidado individualmente por uma das partes beligerantes. É o que os russos estão fazendo na Ucrânia. Além dos dois profissionais da Associated Press, um fixer (pessoa que assiste jornalistas num país estrangeiro) da Radio France foi sequestrado numa cidade localizada no centro da Ucrânia, trancado num porão e torturado durante nove dias pelo exército russo. Ele ficou sem comida durante dois dias, sofreu choques elétricos e cortes de faca na face e no corpo, além de ter a sua execução simulada, naquele que é um dos piores atos de sadismo que se pode cometer contra um prisioneiro. A Radio France comunicou o fato ao Repórteres Sem Fronteiras, mas mantém a identidade do fixer em segredo, por razões de segurança. Sabe-se que ele tem 32 anos, foi resgatado e agora está em outra cidade ucraniana.

Os russos têm no Kremlin um criminoso que agrediu a Ucrânia sob falso pretexto, bombardeia alvos civis, mantém uma cidade inteira como refém, vem causando um êxodo impensável no coração da Europa (quase 3,5 milhões de ucranianos já saíram do país) e intimida jornalistas, inclusive com tortura. As 109 crianças mortas foram homenageadas em Kiev, no fim de semana, com a colocação de um carrinho de bebê vazio para cada uma delas num praça da capital ucraniana (foto). Esse massacre dos inocentes deve fazer mais vítimas, infelizmente. Que a obra magna do carniceiro de Moscou ganhe um monumento perene, em bronze, quando ele for finalmente derrotado, para que ninguém jamais se esqueça dos seus crimes. E também de quem o defende e relativiza as suas atrocidades, relembrando a lambança americana no Iraque.

Temos Futuro?

Este projeto do governo de demonizar a política e de desacreditar os políticos faz todo o sentido para Bolsonaro. Ninguém destrói a política e faz algo pelo povo. Fazer algo pelo povo é política e Bolsonaro está longe disso. Nenhuma das suas atitudes, salvo as que ele foi obrigado a tomar como o auxílio emergencial e agora as jogadas eleitoreiras, beneficiou a população. E ele não faz nada, diz mentiras, se outorga medalhas de mérito e com isso mantém acesa a chama da aceitação na sua parcela fiel de seguidores.


Nunca vi, em toda a minha vida, um governo mais inútil do que esse. Na época da ditadura, que vivi boa parte na vida adulta, não víamos tamanho descaso pelo país. Os militares daquela época bem que tentaram, a seu modo tosco e autoritário, fazer o país crescer. Cresceu a dívida econômica e social. Até hoje pagamos o alto preço de tamanha incompetência. Mas o país voltou aos trilhos da democracia, pelo menos por um tempo e escamoteando seu verdadeiro espírito elitista e preconceituoso.

Tirando os períodos em que o PT governou ou tentou governar, o Brasil voltou a ser comandado por esta elite burguesa da pior qualidade que só quer encher os bolsos de dinheiro e, filosoficamente, acredita no destino, religioso ou não, que a colocou em boas condições de vida ao contrário do pobre que a fatalidade castiga. É assim que deus quer e assim que tentam viver.

Meu mundo ideal é diferente. Talvez nem exista. O que vemos em países da Europa (alguns agora estão dando péssimo exemplo com a guerra) nós dá a impressão de que esses países vivem uma justiça social maior pelo desenvolvimento que tiveram. Alemanha e países nórdicos mais, França, Itália e o resto menos, mas ainda assim num nível de convivência social que consegue equiparar padrões mais civilizados de sobrevivência. Os preconceitos persistem, a xenofobia idem, os imigrantes são mal vistos e a luta pela sobrevivência é capaz de criar guerras para se justificar.

Que mundo é esse? Talvez esse seja o verdadeiro mundo em que somos mera contingência. Mas podemos melhorá-lo? Sim, é o que tentaremos com nossa teimosia política em outubro deste ano. Tudo leva a crer que Lula vai vencer, em que turno for. Mas, qual será a reação da direita bolsonarista? Será que ela aceitará? Qual será a reação dos militares, os da ativa, os que comandam? Será que o STF vai ter força de manter suas decisões. Será que o povo vai se comportar, aceitar o resultado e festejar na praia ou num bar?

Apesar dos mitos não temos muito essa tradição da revolta popular, nem a instrumentalizada. Temos exemplos de resistência e exemplos de golpes articulados. Agora qual será a verdadeira intenção da imprensa oficial, da Fiesp, dos bancos, do Mercado e dos militares? Será que eles vão preferir a continuação do nada? Ou será que vão ouvir a voz da razão de vários especialistas pelo mundo que chegou a hora de interromper esse delírio inútil da direita que parece não ter mesmo nada na cabeça. A destruição do país está sendo enorme e vai continuar.

Precisamos eleger um congresso que dê apoio ao presidente. Precisamos mudar o país, trazer ele de volta para o caminho que vinha traçando mesmo com todas as dificuldades. Melhor passar por problemas do que viver esse nada idiota e sem sentido que estamos assistindo e vendo nossas riquezas sendo roubadas ou destruídas. O Bolsonaro de cocar foi a coisa mais patética que já vi, mais falsa e ao mesmo tempo significativa. Mostra do que eles são capazes para sobreviver. Índio não quer apito, mas Bolsonaro quer e se não der pau vai comer.

domingo, 20 de março de 2022

Brasil de amor novo

 


Há 'maus' que vão passar a ser 'bons'?

A velha e sábia frase de Lord Palmerston, primeiro-ministro da rainha Vitória, proferida no auge do império britânico, apesar de tantas vezes repetida, nunca terá sido tão atual e global como hoje: “Não há aliados eternos nem inimigos perpétuos, apenas interesses que são eternos e perpétuos.” Desde que, com a invasão da Ucrânia, Putin fez cair a peça da Rússia no dominó mundial, toda a reconfiguração de uma nova ordem global entrou em ritmo acelerado, com cada país, ou bloco de nações, a procurar aproveitar as oportunidades que o momento oferece. Nesta nova realidade, que ninguém consegue prever com exatidão quanto tempo irá durar, mais do que alianças, procuram-se, agora, interesses comuns – até porque o inimigo, por enquanto “perpétuo”, já foi encontrado, com a Rússia a transformar-se numa espécie de ativo tóxico, a que ninguém quer ver-se associado.

Em nome dos interesses, assistimos à procura de novas alianças que, como Palmerston avisou, não serão eternas. E também não é de excluir que algumas inimizades, que pareciam perpétuas, passem, agora, para outra categoria, mais afável e de acordo com os alinhamentos geopolíticos que começam a ser formados.

Ahmad Qaddura (Suécia)

O interesse principal e mais urgente, como se percebe, é o das fontes de energia. Nesse campo, com o preço do barril de petróleo a subir e sem o fornecimento vindo da Rússia, começa a parecer já quase natural que a Venezuela possa, de repente, emergir de anos de sanções e de bloqueios e passe a vender novamente o seu “ouro negro” a norte-americanos e aos seus aliados. Isto porque, ao contrário até do que pensavam os EUA, os parceiros tradicionais de Washington no golfo Pérsico, como a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos, receberam com frieza os apelos ocidentais para aumentarem a produção de petróleo, por forma a fazer baixar os preços.

Ao mesmo tempo, neste baralhar de cartas no jogo da geopolítica, também o Irão pode aproveitar a oportunidade, caso se conclua o novo acordo nuclear, garantia principal para que o seu petróleo possa regressar ao mercado mundial. E é muito significativo que, após meses de negociações, esse acordo esteja agora a ser bloqueado pela Rússia e não pelos EUA, como sucedia antes da invasão da Ucrânia.

A ironia (triste) não deixa de ser evidente: neste rearranjo de forças ao nível global, provocado por um autocrático Vladimir Putin, o Ocidente vai procurar alternativas energéticas noutros países… autocráticos. Entre eles, inclui-se, obviamente, a Arábia Saudita, onde o poder é exercido de facto pelo príncipe Mohammed bin Salman que, na última semana, mandou executar – de forma provocatória – 81 condenados “por terrorismo e crimes graves”, o que, naquele país, inclui todos e quaisquer opositores políticos do regime.

Quando, perante o que está a passar-se na Ucrânia, se traça uma linha divisória entre a autocracia e a democracia, era bom que o mesmo princípio fosse aplicado nas ações que se tomam a seguir. Embora o cinismo dos interesses tenha sido um dos pilares da ordem mundial saída da II Grande Guerra, também ficou provado que foi essa mesma postura que levou ao muito a que se assiste hoje, após o final da Guerra Fria. E há uma linha vermelha que os tempos atuais nos deviam traçar: não há ditadores “bons” – são todos maus, por definição.

O amanhã pós-guerra na Ucrânia

Até 25 dias atrás, excetuando os diretamente interessados, brasileiros podiam confundir Carcóvia, na Ucrânia, com Cracóvia, na Polônia — ambas majestosas segundas maiores cidades de seus países. Não mais. Também foi preciso desempoeirar às pressas nosso mapa-múndi escolar e aprender, com esta primeira guerra “live” da humanidade, a chamar Carcóvia de Kharkiv, versão anglicizada do nome original da cidade. Tudo em vão. Quando a guerra acabar não haverá mais a Kharkiv/Carcóvia de antes. Restarão apenas pirâmides de escombros e uma abissal dor coletiva, misturada a um oceano de luto individual. Serão inúmeros os horrores e as memórias a reparar por toda a nação invadida. Da eviscerada Mariupol, no sul do país, à europeia Lviv, no oeste, ficarão as marcas da desumanidade. A Ucrânia inteira, ou o que dela restar, precisará juntar seus cacos como sociedade.

Marian Kamensky (Áustria)

Mais uma vez, das ruínas desta quase Terceira Guerra, talvez não se aprenda a lição. Para restaurar a confiança do ser humano no mundo por ele fabricado, seria preciso não temer mudanças radicais, ter líderes com uma visão de futuro para além de seus cercadinhos de poder político. Difícil de imaginar, apesar da urgência de repensar a matriz capitalista em que o planeta está se destruindo a galope. Na devastação humana causada pela Covid-19, surgiu a possibilidade para todos entenderem que não existe país verdadeiramente civilizado sem saúde pública decente. O Brasil indecente de Jair Bolsonaro passou batido, com mais de 650 mil mortes de um vírus ainda longe de estar domesticado.

Por ora, as aflições gerais estão mais concentradas nesta guerra insana de que todos os envolvidos sairão perdedores, até os que vierem a comemorar alguma vitória. No fundo, somos todos perdedores, mesmo quando meros espectadores com continentes inteiros a nos separar dos combates. Perde-se em humanidade ao presenciar tanto horror, mesmo quando solidários e doloridos com a dor alheia.

A exceção, claro, são os gigantes da indústria armamentista mundial, que, a cada nova guerra, exibem capacidade de destruição mais sofisticada e precisa. Sem falar na temerária possibilidade de líderes de países sem guerras, mas com vocações aguerridas, se apropriarem da tática defensiva adotada pela Ucrânia para defender sua terra e povo do ataque invasor: armar a população civil e fazer dela uma milícia cívica de luta pela vida. A alma miliciana do Brasil bolsonarista teria propósito menos cívico — não devem faltar voluntários para defender o chefe de uma invasão democrática nas urnas.

Para momentos assim, decisivos e angustiantes, é bom lembrar vozes que conseguem nos ensinar a esperançar. A escritora americana Muriel Rukeyser é uma delas. No verão de 1949, aos 36 anos de idade, ela já havia militado junto aos anarquistas na Guerra Civil Espanhola, tinha atravessado as duas Guerras Mundiais, compartilhado um navio de refugiados com cinco vezes mais passageiros que o normal e sido presa por participar do emergente movimento em favor dos Direitos Civis dos negros, nos Estados Unidos. Então sentou-se e escreveu “The life of poetry”, uma coletânea de ensaios que falam de liberdade e resistência, tão indissolúveis da poesia como da vida.

“Em tempos de crise é preciso convocar nossa força interior”, ensina na introdução. Mas, para isso, precisará conseguir recorrer a todos os recursos de que dispõe o ser humano, lembrar cada momento em que soube usar seu poder. Só que essa dádiva exige um longo preparo no conhecimento de quem somos e do que queremos. Somente quando confrontados com horizontes e conflitos jamais vistos, testamos na totalidade nossa força. Para Rukeyser, só passamos para a etapa seguinte, a ação — seja escrever um poema ou engajar-se como cidadão — quando olhamos sem medo a vontade humana. E, se persistir a sensação de que ainda nos falta algo, ou de que perdemos ímpeto a caminho da ação, é porque não usamos tudo o que temos. Precisamos recomeçar a procura. Essa procura pode levar uma vida inteira, e há quem jamais se encontre. “À medida que vivemos nossas verdades, atravessaremos quaisquer barreiras, invocando as raízes da paz. Mas uma paz que não deve ser confundida com falta de guerra... Somos nós que vamos definir a paz, e viver para lutar pela sua chegada.”

A cada um de saber o que fazer do seu amanhã.

Das palavras e da guerra

Não só os sentimentos criam palavras, também as palavras criam sentimentos.(…) São a vida e quase toda a vida – a razão e a essência desta barafunda. É com palavras que construímos o mundo. (…) Mas agora que os valores mudaram, de que nos servem estas palavras? É preciso criar outras, empregar outras, obscuras, terríveis, em carne viva, que traduzam a cólera, o instinto e o espanto.
Raul Brandão


Não sei que palavras utilizar , quando os dias que correm são dias de vergonha . Queria registar toda a perplexidade dorida que cresce , sempre que eclodem as notícias diárias. Mas « os limites da minha linguagem são os limites do meu mundo» escreveu Wittgenstein, no século XX. Perante a barbárie, esgotam-se os caminhos da linguagem. Perante a crueza das realidades emergentes do mundo actual, é impossível ser claro, sem que a emoção nos embargue e o horror nos tome.

A verbalização é uma capacidade inerente à pessoa humana, à sua relação com o mundo e respectiva materialização. Eis porque se quedam as palavras numa agónica aporia, num silêncio de espanto perante o terror que milhares e milhares de seres humanos vivem, numa parte deste nosso mundo. E, quando esse terror é propagado pela tirana ambição de um só homem, de que nos servem as palavras que conhecemos? Recusam-se a traduzir a ferocidade do homem capaz de negar o outro homem. Teriam de ser medonhas , numa obscuridade indefinível , que logo ficariam opacas pela sua enormidade. Como criá-las? E inventá-las para quê , quando são glosadas infamemente pela boca do carrasco. A inversão de posições, o plano da realidade é empurrado para a vítima invadida, quando o agressor se diz ser ele próprio a vítima. O Ocidente está a sofrer o resultado da sua ambição, grita o louco facínora, enquanto lança bombas sobre crianças e gente desprotegida. Não lhe basta dizimar um país, mas quer estender a ameaça ao mundo ocidental. Que tipo de homem tem tamanha ambição?

E lembro-me de repente dum filme muito antigo
Em que o criminoso perguntava:
“De quoi est fait un homme, monsieur le comissaire?”
e nos seus olhos lia-se o pavor
de quem viu um abismo e não lhe sabe o fundo...
De quoi est fait un homme? De que são feitos os homens
que queimaram vivos outros homens? Que tinham centos de crianças
a morrer de fome e pavor, escravos como os pais?
que matavam ou deixavam morrer homens aos milhões,
que os faziam descer ao mais fundo da degradação,
torturados, esfomeados, feitos chaga e esqueleto?
Eram esses mesmos homens
que faziam pouco da liberdade,
que vinham salvar o mundo da desordem,
que vinham ensinar a ORDEM ao planeta!
Sim, que traziam a paz com as grades das prisões,
a ordem com as câmaras de tortura...

Assim disse Adolfo Casais Monteiro, no magnífico poema Europa.

Sei que não sei dizer as palavras nem exactas nem reais .Tento reconhecê-las em quem as soube produzir. Mas sei, isso sim, que há dor a mais nos rostos de quem sobrevive à morte encomendada por um só homem. Homem que traz as grades da tortura para impor a Ordem do seu amordaçado mundo. As palavras emudecem. E, se algumas sobreviverem, talvez repitam como Sartre: "Ces mots durs et noirs, je n’ en ai connu le sens que dix ou quinze ans plus tard et, même aujourd’hui, ils gardent leur opacité : c’est l’humus de ma mémoire."

Que Deus não salve Putin. Viva a Ucrânia.
Maria José Vieira de Sousa

sábado, 19 de março de 2022

Brasil em gestação

 


Educação é desenvolvimento

O Brasil é um país em compasso de espera. Seguimos aquém do nosso potencial, marcados por abissal desigualdade e um racismo que atravessa estruturas e instituições, sem conseguir projetar os caminhos para um desenvolvimento social, ambiental e econômico consistente, justo e adequado aos parâmetros do século XXI. Educação é variável chave para resolver essa equação.

Nesta coluna inaugural cito alguns trabalhos de economistas que se dedicaram a investigar a relação entre educação, desenvolvimento social e o crescimento econômico, sem pretensão de esgotar o debate que atravessa vários campos de saberes.

Em artigo de 2009, Eric Hanushek e Ludger Woessmann apontaram que maiores níveis de escolarização e da qualidade do ensino — medidos no Pisa, exame internacional da OCDE — geram maior crescimento econômico.

Em 2018, quando esteve aqui, Hanushek estimou que se todos os jovens completassem o ensino médio com qualidade, o PIB brasileiro seria elevado em 16%, e os salários médios seriam 30% maiores.


Investimentos que garantam a permanência na escola e uma educação com altas expectativas e qualidade para todos geram retornos além dos mensurados em testes ou indicadores econômicos.

Estudos de James Heckman, Nobel de Economia em 2000, e de vários pesquisadores demonstram que programas bem desenhados e implementados para a primeira infância têm impacto duradouro em toda a vida adulta, reduzindo taxas de criminalidade e gravidez precoce não planejada e aumentando a conclusão do ensino médio, empregabilidade e a renda do trabalho.

Considerando esses impactos mais amplos, Ricardo Paes de Barros e coautores estimam que o Brasil perde R$ 214 bilhões por ano por causa da evasão escolar. Naércio Menezes Filho e Luciano Salomão mostraram que cidades em que mais estudantes completam o ensino médio com melhores notas no Enem apresentam maior redução em homicídios entre jovens, aumento de matrículas no ensino superior e geração de empregos para essa faixa etária.

Mais ainda, a educação tem enorme potencial de redução da pobreza e das desigualdades, como indicam diversos estudos de Esther Duflo e Abhijit Banerjee, Nobel de Economia em 2019.

Vale lembrar que, além dos retornos econômicos e sociais, a garantia de educação de qualidade para todos é um direito constitucional. E na quadra atual — marcada pelo aumento da desigualdade interna e entre países; pela expansão de movimentos e governos autoritários que põem em xeque a democracia; pelo crescimento de movimentos anticiência; e pelos desafios da emergência climática e ambiental — trata-se também de um imperativo ético.

Nesse sentido, Amartya Sen, Nobel de Economia em 1988, vincula a expansão das liberdades substantivas e das capacidades individuais às possibilidades concretas de desenvolvimento. Ao propor uma visão de “desenvolvimento como liberdade” indica caminhos transformadores e opostos aos modelos que percorremos em nossa História, mais marcada pelo que eu denominaria de desenvolvimento como exclusão.

Nossas recorrentes opções pelo crescimento econômico esvaziado de sentido humano e dissociado do compromisso com a equidade, a mobilidade social e a responsabilidade socioambiental colocam a sociedade brasileira em estado de suspensão, na condição de um eterno vir a ser.

Sem uma educação que garanta o desenvolvimento pleno e integral dos estudantes, com as competências cognitivas, socioemocionais, morais e éticas aderentes aos desafios da sociedade contemporânea do conhecimento, consolidaremos uma restrição estrutural das potencialidades não só dos indivíduos, mas também do país.

Não podemos seguir negligenciando a educação, nem permitindo que o Brasil reproduza suas desigualdades, com concentração de oportunidades e a naturalização do abandono dos vulneráveis.

Decidir como será a nossa educação significa decidir também quem queremos ser e aonde queremos chegar. É a partir da garantia de uma educação de qualidade — e qualidade só faz sentido se for para todos — que teremos melhores cidadãos e profissionais, um ambiente politicamente mais estável e maduro, socialmente mais virtuoso e criativo, e economicamente mais dinâmico e produtivo.

A mudança é urgente e só vai acontecer a partir de um grande esforço coletivo pela educação. Iremos nos engajar? Como vamos colocar energia, talento e recursos nessa transformação?

Matar e morrer na Ucrânia por quê

Em meados do século XVI, Étienne de La Boétie escreveu o “Discurso da servidão voluntária”. Sua preocupação dizia respeito às causas da dominação de poucos sobre muitos, e a como estes aceitam: “De onde um só tira o poder para controlar todos?”.

Quando um homem determina que outros milhões caminhem para a guerra, é algo questionável, mas que alcança o paroxismo quando essas pessoas obedecem. A guerra não tem outro significado além de matar e morrer. Matar quem e morrer por que ou por quem? Certamente, soldados são enviados para guerras para eliminar pessoas que jamais viram na vida. Pessoas que têm famílias, paixões, histórias, sentimentos. Nesse ínterim, crianças, mulheres e idosos são assassinados; prédios, esculturas, estradas, construídos por várias gerações, são destruídos instantaneamente por bombas.

As perguntas que devemos fazer são:

1) o que pode justificar uma guerra que tire vidas?

2) como uma guerra pode ser aprovada sem um plebiscito que expresse a vontade da maioria? Regimes que aprovam guerras sem consulta popular podem ser considerados democracias?

3) por que quem declara guerra não vai para o front como parte da infantaria do seu exército? É covarde alguém declarar guerra e ficar num palácio em absoluta segurança? Os filhos das elites servem aos quartéis ou, majoritariamente, jovens pobres, sem perspectiva, seguem a vida militar? Os corpos dos soldados são tidos como sub-humanos e não representam nada para os governantes que impõem a guerra?

O militarismo e a sua lógica não existem apenas na Rússia e na Ucrânia. O colonialismo, como nos ensina Frantz Fanon, foi resultado direto do militarismo. Foram homens armados dos Estados europeus que subjugaram, escravizaram e humilharam milhões de indígenas e africanos que consideravam abaixo da linha da humanidade, como advogam teóricos contra os resquícios do colonialismo (da Teoria Decolonial). Os regimes nazifascistas do século XX tinham o militarismo e o paramilitarismo como pontas de lança, assevera Michel Foucault. Dessa maneira, judeus e todos considerados de esquerda foram perseguidos, presos e enviados para campos de concentração, como se animais fossem para o abate.

Nos dias atuais, milhões do nosso orçamento são destinados para compra e manutenção de armamentos, enquanto em escolas e hospitais falta o básico. É importante destacar que o atual governo incrementou o orçamento para a pasta dos militares.

Nosso presidente declarou neutralidade diante do que vem acontecendo na Ucrânia. É desalentador, mas talvez explique por que nossos militarismo e paramilitarismo matam jovens negros e indígenas, também considerados sub-humanos, nas favelas, periferias e florestas. Passaram-se cinco séculos, porém, infelizmente, ainda não temos respostas à questão de La Boétie.

Wallace de Moraes

À beira do céu e do inferno

Para satisfazer otimistas e pessimistas, podemos concluir dizendo que estamos no limiar do céu e do inferno, movendo-nos nervosamente dos portões de um para a antessala do outro. A história ainda não se decidiu sobre nosso destino, e uma série de coincidências ainda pode nos colocar em uma ou outra direção.
Yuval Noah Harari, "Sapiens: uma breve história da humanidade"