segunda-feira, 25 de agosto de 2025

O custo trilionário da falta de água para o planeta

A Terra é formada por 70% de água, mas só 0,5% disso é própria para consumo e uso na agricultura e está ao nosso alcance. E esse recurso precioso está se tornando ainda mais escasso devido ao aumento na demanda por água e a um planeta cada vez mais aquecido e seco no contexto das mudanças climáticas.

Cerca de 2 bilhões de pessoas ao redor do mundo já vivem sem acesso regular a água potável fresca. E metade da população global enfrenta escassez de água numa parte do ano.

Da queda nos níveis de produtividade agrícola à insegurança alimentar, redução da capacidade energética e impacto do saneamento precário na saúde, o estresse hídrico custa caro.

O valor econômico de ecossistemas funcionais de água doce era estimado em cerca de 58 trilhões de dólares em 2023 (R$ 314 trilhões), segundo a ONG ambientalista WWF – o equivalente a cerca de 60% do Produto Interno Bruto (PIB) global.


O alto estresse hídrico em países áridos e castigados pela seca na África e no Oriente Médio devem provocar uma queda de 25% em suas economias nacionais dentro dos próximos 20 a 30 anos, afirma o economista Quentin Grafton, chefe do departamento de economia da água da Unesco e professor na Universidade Nacional da Austrália.

Isso significa que haverá menos dinheiro disponível para importações cruciais de alimentos, ou para infraestruturas importantes para aplacar a falta d'água, como represas e plantas de dessalinização.

Grafton diz que é preciso lidar urgentemente com os impactos do estresse hídrico sobre economias globais: "Esse é um momento decisivo. Teremos que nos adaptar de uma forma muito mais rápida."

Grafton aponta que essas regiões podem sofrer com a instabilidade política, inclusive revoluções, à medida que a falta d'água afetar as cadeias de suprimento de alimentos, a atividade econômica e o emprego nessas regiões.

Como consequência, afirma, poderemos ver o deslocamento e migração em massa de povos. E à medida em que pessoas atravessam o Mar Mediterrâneo em direção ao sul da Europa para fugir de regiões em processo cada vez mais avançado de desertificação, essa instabilidade também chegará ao Velho Continente.

E como implementar soluções também custa muito dinheiro, o problema é amplificado.

Ecossistemas de água doce diversos podem reduzir a duração e intensidade de secas, mas têm sido esgotados pelo progresso e a irrigação excessiva dos campos agrícolas. Reabilitá-los demandará esforços maciços de reabilitação, já que desde 1970 o mundo perdeu um terço de suas zonas úmidas, segundo a WWF.

A crise da água também deve desacelerar economias em desenvolvimento poderosas. Grafton cita que a Índia, por exemplo, não tem água o suficiente para manter as usinas de carvão que produzem a eletricidade que permitiu o rápido crescimento econômico do país e ajudou a melhorar seus índices de pobreza.

"A meta deles é um crescimento de 7%, mas isso é uma ilusão", afirma Grafton. O país tem 18% da população do mundo, mas só 4% da água doce. "Não há água suficiente para todos."

A população rural pobre da Índia é a que mais sofre com esse quadro de falta d'água. A exploração predatória de aquíferos é uma preocupação central à medida que o lençol freático recua. Possíveis soluções incluem programas para fortalecer os reservatórios locais de água com barragens de terra que retêm melhor as chuvas de monções antes da estação seca.

O calor e a seca recordes que desaceleram rios e esvaziam lagos e reservatórios também afetaram o ciclo hidrológico – processo em que a água evapora e retorna à terra como chuva.

O resultado disso é o declínio permanente da umidade e da qualidade do solo, com impactos devastadores sobre a produção agrícola que sustenta economias na Ásia e na África.

Durante a seca severa de 2020-2023 no Chifre da África – e que se tornou cem vezes mais provável por causa da mudança climática –, produtores rurais perderam cerca de 13 milhões de animais, além de colheitas inteiras. Ao menos 20 milhões de pessoas sofreram com a falta aguda de alimentos e perderam seu sustento.

Enquanto isso, na África Subsaariana, 40 bilhões de horas são perdidas todos os anos com a coleta de água – tempo que poderia ser usado para trabalhar e obter renda, ou estudar –, segundo a The Water Project, ONG que atua para mitigar a crise hídrica na região.

A escassez de água também aumenta na Europa, uma região que tem esquentado mais rápido que qualquer outro continente do planeta, com exceção da Antártica.

Depois de a Europa registrar seu ano mais quente em 2024, a Alemanha teve, neste ano, sua mais seca transição de inverno para primavera. A seca se estendeu por grande parte do continente, do Reino Unido à Europa Central, enquanto países no Mediterrâneo sofreram com o calor extremo, incêndios florestais e falta d'água.

Ao mesmo tempo, cada vez mais setores da indústria competem por recursos hídricos limitados, observa Sergiz Moroz, especialista em gerenciamento de água da rede Escritório Europeu do Meio Ambiente (EEB).

"O setor de TI de repente começou a vir até Bruxelas e dizer que nós precisamos de um monte de água de alta qualidade para todo o crescimento que vai acontecer", afirma Moroz. "Fazendeiros vêm e falam: 'Olha, não podemos plantar sem água'."

A União Europeia está lidando com o consumo significativo de água por data centers, que dependem de sistemas de resfriamento para evitar o superaquecimento e estão se expandindo rapidamente junto com sistemas de computação em nuvem e a inteligência artificial. A estratégia de resiliência de água da UE, que deve entrar em vigor em 2026, planeja impor limites no consumo de água às empresas de tecnologia.

Enquanto isso, na Inglaterra a mudança climática, o crescimento populacional e as pressões ambientais devem provocar uma falta d'água até 2055 equivalente a um terço do que é usado hoje diariamente no Reino Unido, segundo a agência ambiental britânica. O déficit deve ser maior na região sudoeste do país, que é mais densamente habitada.

"Os recursos hídricos do país estão sob pressão enorme e cada vez maior", afirma o chefe da agência ambiental britânica, Alan Lovell. Segundo ele, o déficit põe em risco o crescimento econômico e a produção de alimentos.

Nos Estados Unidos, moradores com acesso limitado a água também estão sob pressão econômica. O número crescente de lares sem água e saneamento suficientes gastam em média 15,8 mil dólares a mais por ano com saúde do que outros domicílios (R$ 85,7 mil), e viram seus níveis de rendimento no trabalho e na escola caírem, segundo um estudo de 2022 da ONG DigDeep.

"À medida que a água se torna mais escassa, o número de pessoas sem acesso deve crescer por causa de pressões relacionadas a eventos climáticos", avisa George McGraw, fundador e diretor da DigDeep.

"O jeito mais fácil de proteger a economia dos EUA desses choques é universalizar o acesso à água", afirma McGraw à DW. Isso inclui investimentos em "sistemas de água inteligentes e sustentáveis, dentro e fora da rede", para fazer frente aos "obstáculos ao acesso" em sistemas de distribuição de água ultrapassados que não são resilientes ao clima.

Sísifo entre nós

Grande e terrível, e complicado, parecia o mundo aos olhos dos nossos avós há cem anos ou pouco mais. Era uma época de democracias liberais em retirada, de fascismos aparentemente irresistíveis e de um comunismo primitivo com características rigidamente estatistas. Apesar de tudo, os que mantiveram a lucidez em meio ao caos puderam achar gradualmente um fio condutor. Em última análise, e não sem conflitos ásperos, havia um fundo comum – iluminista – entre as democracias liberais e o comunismo soviético, com todas as suas falhas e mesmo os seus crimes fartamente conhecidos.

De fato, a destruição da razão, total e inapelável, era a marca dos fascismos: contra estes deveriam unir-se todos os demais para travar o que então se chamaria a mais justa das guerras. Os otimistas julgavam que se atravessava uma fase de “interregno”, passada a qual a razão iluminista acabaria por se impor, fosse qual fosse o futuro modelo de sociedade ou a forma de Estado. E, de fato, uma parte desse otimismo se materializaria no imediato pós-guerra, com a construção do sistema das Nações Unidas e a Declaração Universal dos Direitos Humanos, uma espécie de atestado, obtido em meio a sacrifícios gigantescos, de que o progresso moral é afinal coisa deste mundo.


A ordem internacional então nascida teve a óbvia direção norte-americana. A URSS e o campo socialista, presos ao modelo original, nunca abandonaram a posição defensiva e a mentalidade de cerco – com a nefasta e permanente compressão interna das liberdades. No clima da guerra fria, a “guerra civil das ideologias” – capitalismo ou comunismo – constituiria o dado negativo a enrijecer corações, vontades e mentes. Mas o “interregno” parecia desembocar em boas novidades, como comprovado pelas quase quatro décadas gloriosas da social-democracia e pela continuidade do experimento rooseveltiano no outro lado do Atlântico.

Em rápidas palavras, o que acima descrevemos foi o nosso “mundo de ontem”, para retomar uma expressão irreparavelmente nostálgica de Stefan Zweig a propósito de um outro tempo, o que terminara em agosto de 1914. Dele nos separa, para sempre, o colapso de uma das duas superpotências, a afirmação e a crise subsequente da supremacia norteamericana, bem como, e muito especialmente, a ascensão da China nominalmente comunista no quadro de uma globalização que parecia caminhar por si só.

Menos felizes do que nossos avós, sequer temos a certeza de algum futuro luminoso, passado o atual “interregno” ou superadas as dores do parto. Do próprio coração do Ocidente político vem a mensagem inesperada – a mais antiga democracia dos modernos declina de sua prévia função hegemônica e, para enfrentar o enigma chinês, afirma cruamente o próprio interesse bruto. Seu horizonte agora é “corporativo”, suas atitudes oscilam entre o espírito dito transacional e o puramente predatório. E as ideias para uma ordem mais universalista simplesmente definharam.

Para cada uma das nações “ocidentais”, entre elas a nossa, a recomendação é igualmente seca – e inaceitável. Encharcado de ideologia reacionária, o vice-presidente americano, J.D. Vance, ainda recentemente advertiu os ex-aliados europeus de que o “inimigo principal” era interno e morava dentro de cada um deles mesmos, a saber, a democracia constitucionalmente organizada e a sociedade civil aberta e plural. O remédio para os males contemporâneos consistiria em abandonar tais concepções e deixar livre a fúria destruidora das correntes nacional-populistas, inclusive as que, como na Alemanha, reatualizam ritos e símbolos de um passado mais que imperfeito.

Não sendo o trumpismo um breve parêntese e estando longe de esgotar seu espírito de conquista, a solução mais fácil para muitos, até para a esquerda, é saudar sem espírito crítico o nascente desafio chinês, quando não acorrentar-se à distopia de Putin, esta última com os pés plantados na eslavofilia e a cabeça imersa no sonho imperial.

A ascensão chinesa – e da Ásia, mais generalizadamente – é um destes fenômenos que dão forma a toda uma época “histórico-universal”. A globalização seria essencialmente neoliberal, dizíamos antes com dose maior ou menor de veneno; talvez agora devamos dizer que, na verdade, era chinesa. Rótulos à parte, o certo é que a exitosa China sacrifica inflexivelmente uma das pontas do conhecido trilema formulado pelo economista Dani Rodrik: soberana e participante da globalização, ela esmaga a democracia política da qual os “ocidentais” não podemos abrir mão sem nos desfigurarmos existencialmente.

Tanto quanto nos anos 1930, os neoiluministas estão na defensiva, resistindo a duras penas ao poderio e ao canto da sereia das autocracias. Submetidos como fomos às “duras réplicas da História”, para o bem e para o mal perdemos para sempre a crença ingênua em amanhãs radiosos. A única coisa que podemos prever, sem possibilidade de erro, é que haverá luta – e muito provavelmente será conveniente assumir a ética do Sísifo camusiano, acostumando-nos à felicidade só possível numa luta que recomeça a cada dia.

O Big Brother e a Casa dos Segredos

O Big Brother e a Casa dos Segredos não são sobre privacidade, mas sobre segredo. Os concorrentes sabem estar a ser observados e “atuam” para o público. O programa pode causar-nos desconforto e ser alvo de crítica por explorar a situação económica dos concorrentes, mas não torna o público um “intruso” ou “voyeur”. No caso do intruso, a vítima desconhece estar a ser observada e vê, por isso, a sua privacidade invadida. O espaço é exclusivamente seu e, sobre o qual, tem uma expectativa de, para terceiros, não ser criada qualquer informação.

A perguntas intrusivas sobre a nossa intimidade, não respondemos “é segredo”, mas sim “é privado”.

Sentimos a violação do nosso espaço pessoal, ainda que o “voyeur” nunca venha a partilhar com ninguém o que viu. O facto de um terceiro observar – num momento que assumíamos como pessoal – e criar uma imagem na sua mente (seja lasciva ou não) cria-nos desconforto, asco.


A violação da privacidade foi o principal instrumento utilizado pela elite da Alemanha Democrática para se manter no poder. Aquando da queda do Muro de Berlim, em 1989, a Stasi tinha mais de 90 mil funcionários e 180 mil colaboradores, com acesso ilimitado a todos os registos e a meios de obtenção intrusiva de informação: escutas, fotografias… A perceção de uma vigilância constante erodia a confiança no outro e contribuía, de forma efetiva, para silenciar pensamentos dissidentes.

Na sociedade da hiperconetividade e da informação, tudo o que fazemos, online ou em interação com equipamentos ligados à web (carros, eletrodomésticos…) é convertido em dados. Informação sobre a qual o algoritmo – e quem os controla – infere quem somos, o que desejamos, o que tememos.

Quando se afirma “não tenho nada a esconder, não me incomoda que recolham os meus dados”, e respondemos “todos temos algo a esconder”, capitulamos à propaganda da vigilância, e confundimos “privacidade” com “segredo”. Sem privacidade não temos um espaço nosso, longe da vigilância de terceiros. Privacidade é vital ao desenvolvimento e ao bem-estar humano, da mesma forma que o são a liberdade e a possibilidade de participarmos no espaço público. Um espaço seguro onde podemos descansar, pensar e crescer.

A legislação atual, ao focar-se na recolha de informação e no controlo sobre a mesma, não protege de forma efetiva e plena o nosso espaço privado, sobre o qual deveríamos ter o direito de não ser criada qualquer informação.

Hoje, a recolha massiva de dados, ou a possibilidade de o fazer, cria uma perceção de vigilância constante. Uma prisão virtual, para a qual já alertava Michel Foucault, no livro Vigiar e Punir, no qual comparava os sistemas de arquivo do Estado moderno e as suas instituições com a prisão panótica, proposta pelo filósofo do séc. XVIII Jeremy Bentham. O edifício-prisão panótico é uma estrutura em círculo com um ponto de observação central, de onde o guarda pode vigiar os presos, atrás de persianas. Os presos nunca podem realmente ter a certeza de haver alguém na torre, mas essa possibilidade tolhe o seu comportamento e induz a disciplina.

Ainda que fisicamente sozinhos, não nos sentimos em privado se, ao fazermos uma pesquisa na net, o Google (ou qualquer outra app) recolher (como recolhe) os nossos dados. A legislação ao permitir a recolha massiva de dados, ao invés de a impedir e de impor o seu imediato apagamento, não valoriza a privacidade e limita-se a regular a utilização de um bem. Trata a privacidade como segredo, como um bem económico, que trocamos por um serviço. Impõe-se proteger o valor da privacidade, ainda que tal implique pagar pela utilização de motores de busca, Large Language Models (como o ChatGPT) ou redes sociais. Importa assegurar que não somos meros produtores de dados e consumidores, prontos a ser vendidos a quem pague mais, mas cidadãos com direitos e deveres.

A política externa de Israel e o paradigma da guerra permanente

A sucessão de ataques contra o Líbano, a Cisjordânia, o Irã, o Iêmen e de forma brutal e contínua, contra Gaza, evidenciam que os bombardeios aéreos conduzidos contra a Síria, mais uma vez sob a justificativa da “autodefesa preventiva”, não são eventos isolados, tampouco uma ação reativa à geopolítica regional. Trata-se de mais uma expressão de um padrão estratégico de política externa de um Estado que se sustenta sobre a necessidade estrutural da guerra permanente.

Desde sua fundação em 1948, Israel articula sua coesão interna em torno de uma lógica de confronto contínuo no plano internacional, ancorada em uma retórica da ameaça existencial que legitima qualquer forma de violência sob a justificativa da sobrevivência nacional, ou, em outras palavras, pelo direito de Israel de existir. Essa narrativa, evocando constantemente a memória do Holocausto e a longa história de perseguições sofridas pelo povo judeu, tornou-se um pilar ideológico que vincula a identidade nacional à manutenção de um estado permanente de guerra.

A lógica da excepcionalidade é acionada a todo instante. Cada inimigo é construído como a quintessência do mal (Fanon, 1968). Ações ofensivas são enquadradas como preventivas, e mortes de civis normalizadas como fatalidades inevitáveis. O colonizador transforma o colonizado em inimigo ontológico, desprovido de humanidade, para justificar sua dominação total de forma a apagar sua existência como possibilidade histórica. A guerra é mais do que um instrumento: é um modo de ser. A narrativa da segurança nacional legitima o estado de exceção constante e esconde um projeto político e ideológico de dominação regional.

O paradigma do Hard Power como eixo da política externa israelense serve, em última instância, para mascarar suas contradições internas. Enredado em sucessivas crises políticas, o governo de Benjamin Netanyahu mantém-se de pé graças à mobilização constante contra inimigos externos. A ameaça do Irã e seus aliados, composto por Hamas, Hezbollah e Houthis, incorpora uma dramaturgia estatal voltada à produção do medo como técnica de governo. O recente ataque à Síria encaixa-se perfeitamente nessa engrenagem como uma reafirmação do seu lugar como potência bélica regional, disposta a absolutamente tudo para preservar o monopólio da violência na região.

Entretanto, é na Faixa de Gaza que a política externa israelense revela sua face mais brutal. Ali, não se trata de confronto entre Estados ou forças armadas simétricas. Gaza é um laboratório que combina racismo, militarismo e colonialismo, produzindo o experimento deliberado e intencional mais brutal e sanguinário do século XXI: o genocídio palestino. O governo de Tel Aviv, nesse paradigma, exerce, para além do direito de matar, também de negar completamente a humanidade de seus alvos. A distinção entre combatentes e civis é abolida, o direito internacional é reconfigurado como obstáculo à “segurança nacional”, e a destruição em massa torna-se um método sistemático de governo.

Após a ofensiva do Hamas em outubro de 2023, o que se observa na Faixa de Gaza é uma campanha de extermínio. Mais de dezenas de milhares de mortos, a maioria civis; hospitais e escolas bombardeadas, campos de refugiados transformados em alvos, crianças soterradas sob escombros e a fome instrumentalizada como arma de guerra. Tudo isso é racionalizado sob o discurso da luta contra o “terrorismo”, enquanto a população palestina é destituída de qualquer valor político, ético ou jurídico. Uma verdadeira limpeza étnica deliberada.

A discrepância entre o tratamento dado ao Irã, com quem Israel foi compelido a aceitar um cessar-fogo após a Guerra dos 12 Dias e a política de extermínio em Gaza, revela a seletividade racial da violência israelense. O caso iraniano é emblemático: em diversas ocasiões, o Estado persa foi capaz de superar o sofisticado sistema de defesa Domo de Ferro, colocando em risco a população de Tel Aviv e de outros centros estratégicos, forçando-os a sair de sua rotina e abrigarem-se em bunkers, paralisando sua economia. Quando o inimigo tem capacidade real de resposta, há negociação, cálculo e contenção. Quando o inimigo é uma população empobrecida, sitiada e racializada, não há limites. O reconhecimento da soberania é condicionado ao poder de retaliar. A violência absoluta recai sobre aqueles que, por não representarem risco geopolítico relevante, são tomados como matáveis em sua totalidade.

Um Estado cuja trajetória histórica está profundamente entrelaçada com a guerra, que mobiliza a ameaça como elemento integrador da identidade nacional, parece não saber sobreviver politicamente à paz. Ao lançar bombas sobre o território sírio, Israel não apenas atacou alvos militares mas reafirmou sua condição de Estado que governa pela guerra permanente. Sob o olhar paralisado do Conselho de Segurança da ONU, Gaza vai sendo reduzida a ruínas, seus habitantes à categoria de resíduos históricos e a comunidade internacional segue cúmplice de um projeto de morte racializada que se naturalizou sob o paradigma de política externa da guerra permanente.
Wallace de Moraes e Juan Filipe Loureiro Magalhães

Clássico mostrou que o fascismo pode brotar na democracia

Este ano completa-se o 75º aniversário de "A Personalidade Autoritária", obra monumental publicada em 1950 por Adorno, Frenkel-Brunswik, Levinson e Sanford, que inaugurou uma agenda de pesquisa ainda atual sobre intolerância política e as bases psicológicas do autoritarismo.

Pela primeira vez, psicanálise, psicologia e sociologia foram mobilizadas de modo integrado para enfrentar uma questão que, tanto no pós-guerra quanto hoje, se impõe com urgência: como sociedades democráticas podem gerar cidadãos predispostos a aderir a ideologias autoritárias.

A primeira grande inovação foi a virada copernicana que deslocou o centro da análise. Em vez de estudar a ideologia fascista —seus movimentos sociais, discursos, partidos e programas—, os autores voltaram-se aos indivíduos e às suas atitudes, isto é, às disposições subjetivas que estruturam o modo como as pessoas percebem o mundo social.

As atitudes autoritárias, sustentam, correlacionam-se de forma estável em um conjunto recorrente de sintomas psicológicos e sociais: conformismo, submissão à autoridade, intolerância à ambiguidade, agressividade contra grupos minoritários, rigidez moral e preconceito. Não é preciso militância aberta: basta que essas disposições, formadas desde a infância, estejam latentes.


Para compreender por que alguém tende a manter posições coerentes, é necessária uma estrutura subjetiva que garanta essa permanência relativa —a personalidade. Ela organiza predisposições e dá unidade ao comportamento, filtra os apelos da propaganda e reage às circunstâncias. Daí a diferença pessoal na suscetibilidade ao autoritarismo. Por outro lado, certas condições sociais e apelos externos podem ativar as disposições autoritárias, com risco real de uma tempestade perfeita.

A segunda inovação foi conceber o fascismo não como uma anomalia histórica confinada à Europa de Benito Mussolini ou Adolf Hitler, mas como uma expressão extrema de algo inscrito na vida social ordinária, inclusive em democracias estáveis. A pesquisa mostrou que determinados traços apareciam juntos de forma consistente, mesmo em indivíduos sem engajamento político explícito, como etnocentrismo, convencionalismo, superstição, submissão à autoridade do grupo de pertencimento e agressividade moralizada.

O valor da descoberta não estava em diagnosticar fascistas concretos, mas em revelar que existia um padrão de personalidade que podia ser mobilizado em condições políticas propícias. A ameaça não desapareceu com a derrota militar de 1945, mas permanecia viva em disposições latentes capazes de se atualizar a qualquer momento.

A terceira inovação consistiu no desenvolvimento de instrumentos metodológicos inéditos para captar esse padrão. O mais famoso foi um questionário para pesquisas de opinião, a "Escala F" (de fascismo), elaborada em sucessivas versões e combinado a entrevistas clínicas e testes projetivos. O questionário não detectava "fascistas" em sentido estrito, porque não havia grupo de controle de fascistas reais. O que oferecia era algo mais sutil e mais perturbador: a demonstração de que atitudes autoritárias aparentemente dispersas estavam, na verdade, fortemente correlacionadas e formavam uma constelação.

A escala mostrava como elas não se distribuíam ao acaso, mas se reuniam em torno de uma estrutura de personalidade que predispunha ao autoritarismo. A inovação decisiva foi transformar diagnósticos sociopolíticos em instrumentos replicáveis para medir a suscetibilidade de pessoas e grupos ao extremismo autoritário.

A escolha dos termos também foi significativa. Chamá-la de "Escala F" preservava a referência normativa ao fascismo como ameaça concreta, mas intitular o livro "A Personalidade Autoritária" ampliava o horizonte, indicando que não se tratava apenas de estudar o já derrotado fascismo europeu. O conceito de autoritarismo permitia generalizar a investigação e sugeria que regimes semelhantes poderiam emergir em qualquer sociedade.

Setenta e cinco anos depois, o alerta desses autores segue atual. Em todo o mundo, democracias enfrentam a ascensão da extrema direita e de novas formas de intolerância, como o avanço do autoritarismo progressista em nome da defesa de identidades. O livro de 1950 continua a lembrar que as democracias precisam se defender não só de inimigos externos, mas também dos impulsos autoritários que brotam de dentro da vida social e da própria personalidade dos cidadãos. Essa é a sua força duradoura: mostrar que o autoritarismo não é acidente histórico, mas risco permanente.

Democracia claudicante

Afinal, as democracias vivem tempos de erosão? Estão claudicantes? No aclamado Como as Democracias Morrem, os cientistas políticos Steven Levitsky e Daniel Ziblatt sustentam que a erosão democrática pode ocorrer de forma gradual e insidiosa, muitas vezes a partir de líderes eleitos que minam as instituições por dentro.

Analisemos.

A ideia de que as democracias estão “morrendo” é complexa e ainda objeto de intenso debate. Embora não haja consenso sobre um colapso iminente, muitos estudiosos apontam para sinais claros de enfraquecimento dos regimes democráticos e para o crescimento de ameaças aos seus pilares. As democracias cambaleiam, não caíram, mas andam trôpegas, como quem sofreu um golpe e tentam, com dificuldade, se manterem em pé. As democracias não morrem, mas adoecem. Na América Latina, a democracia claudica há mais tempo. Após as redemocratizações dos anos 1980, houve grandes expectativas de progresso. Mas o que se viu foi uma bateria de ilegalidades: corrupção endêmica (mensalões, lava-jatos); desigualdade persistente, com milhões vivendo entre o desemprego e a informalidade; crises institucionais, com impeachment e reeleições polêmicas; governos instáveis e populismos de todos os matizes, do bolivarianismo ao ultraliberalismo.

O Brasil é um exemplo claro da democracia claudicante. Sofremos um ataque direto ao processo eleitoral em 2022, com mentiras sobre urnas, tentativas de golpe e culminando nos atos golpistas de 8 de janeiro de 2023; vivemos uma erosão institucional, com ataques ao Supremo, desrespeito ao Congresso e ameaças frequentes à liberdade de imprensa; a política se transformou em guerra cultural, com pauta moralista, ódio nas redes, negacionismo e uso sistemático de desinformação; a desigualdade social persiste, e a população oscila entre a descrença e a raiva.


Nos países que padecem de claudicância democrática, os fatores mais proeminentes são estes: ataques à democracia vindos de dentro do próprio sistema político; ascensão de líderes populistas autoritários; polarização política extrema; desconfiança nas instituições públicas; uso das novas tecnologias como instrumentos de manipulação e desinformação e ameaças à liberdade de imprensa e expressão.

Traduzindo esses pontos em exemplos concretos. Nos EUA, a presidência de Donald Trump demonstrou como a democracia pode ser tensionada internamente, inclusive com ataques diretos ao sistema eleitoral e ao funcionamento das instituições. Em outros países, partidos e líderes com retórica autoritária vêm ganhando espaço, desafiando normas democráticas e tentando corroer instituições de dentro para fora; a polarização extrema dificulta o diálogo entre grupos políticos e sociais, tornando mais árdua a construção de consensos e o avanço de políticas públicas de interesse coletivo.

E mais: a confiança nas instituições — como a mídia, o Judiciário e os Parlamentos — vem diminuindo, alimentando teorias conspiratórias e discursos antissistêmicos; as tecnologias digitais têm sido utilizadas para espalhar desinformação e manipular a opinião pública, distorcendo o debate democrático; por fim, a liberdade de imprensa tem sido ameaçada, enquanto a proliferação de fake news compromete o acesso da sociedade à informação confiável — elemento essencial à democracia.

Apesar desses sinais de alerta, há quem conteste a tese da “morte” da democracia. Muitos argumentam que, mesmo sob pressão, as democracias têm mostrado notável capacidade de resistência. É o caso dos Estados Unidos, onde as instituições sobreviveram aos arroubos autoritários. Em outros países, o engajamento cívico e a vigilância da sociedade civil têm funcionado como antídotos contra retrocessos.

O fato é que a participação ativa dos cidadãos na defesa dos valores democráticos e na busca de soluções públicas fortalece o tecido institucional. A mobilização social e institucional é, portanto, um sinal de resiliência, não de agonia. Steven Levitsky adverte que os Estados Unidos caminham perigosamente para o enfraquecimento democrático. Segundo ele, o país hoje “se parece muito mais com regimes da América Latina do que antes”. Embora não acredite num colapso total, vê em Trump — e no movimento que o cerca — a maior ameaça às instituições democráticas americanas na história recente. Para Levitsky, os EUA têm muito a aprender com os erros e lições vividos por países latino-americanos.

Quanto ao Brasil, o diagnóstico é mais otimista. Não se pode afirmar que a democracia brasileira esteja claudicante. Pelo contrário: há sinais visíveis de vitalidade institucional e social. Destaco alguns pontos: a polarização política, embora preocupante, pode ser interpretada como sinal de vitalidade social e engajamento político da cidadania; os Três Poderes da República seguem funcionando regularmente (as tensões entre eles, longe de significarem disfunção, fazem parte da dinâmica democrática, que pressupõe freios, contrapesos e o respeito ao contraditório); o cidadão brasileiro demonstra crescente interesse pela vida pública, evidenciado no florescimento de movimentos sociais e organizações da sociedade civil.

São quase um milhão de ONGs no país, muitas voltadas à defesa de causas como os direitos das mulheres, dos negros, dos indígenas, do meio ambiente; as manifestações de rua voltaram com vigor, reunindo expressiva parcela da população — mobilizada por partidos, lideranças e movimentos sociais. Trata-se de uma forma legítima e democrática de expressão.

É inegável que há ameaças e fragilidades. Mas democracia não é obra acabada. Está sempre em construção. Não é uma mera figura de linguagem, é uma tarefa. E, por isso mesmo, exige vigilância constante, disposição para o diálogo e confiança na capacidade de regeneração de seus mecanismos. Ela manca porque foi golpeada, mas continua em pé. Não caminha com firmeza, mas não caiu. E essa aparente fragilidade exige de nós uma atitude: ou a ajudamos a se reerguer, ou a empurramos de vez para o abismo. Ela precisa de reabilitação. Mais do que reformas institucionais, exige reconstrução de confiança, educação cívica, inclusão social e tolerância política. Se está claudicante, cabe a nós sermos suas muletas, seu fisioterapeuta e, quem sabe, seus novos pés.
Gaudêncio Torquato

domingo, 24 de agosto de 2025

Pensamento do Dia

 


Obras sobre ditadores ganham destaque em momento de instabilidade na América Latina

Houve uma época em que se consolidou na América Latina uma tradição literária peculiar: a dos chamados "romances de ditador". Não foram poucos os escritores que se deixaram fascinar (e assombrar, às vezes, ao mesmo tempo) pelo vínculo cultural e político que se estabelecia entre povos inteiros e líderes carismáticos, temidos e venerados.

Entre as obras mais destacadas desse ciclo está "O Senhor Presidente" (1946, ed. Mundareu), do Nobel guatemalteco Miguel Ángel Asturias. Nela, a brutalidade de um regime repressivo é narrada a partir da história de uma pessoa em situação de rua que, sem querer, causa a morte de um coronel.


O nome do país e do ditador não são ditas de modo explícito, mas tudo leva a crer que se trata do regime de Manuel Estrada Cabrera, que governou a Guatemala com mão de ferro de 1898 a 1920, com uma série de eleições fraudulentas.

Outras obras fundamentais dessa tradição são: "Eu o Supremo" (1974, ed. Pinard), do paraguaio Augusto Roa Bastos, e "A Festa do Bode" (2000, ed.Mandarin), do peruano Mario Vargas Llosa, outro Nobel.

No primeiro, Roa Bastos mergulha na figura de José Gaspar Rodríguez de Francia, que governou o Paraguai de 1814 a 1840 de modo isolacionista para se defender de vizinhos poderosos. Transformou-se em alegoria do poder absoluto na região.

Já Vargas Llosa decidiu reconstruir a era de Rafael Trujillo, ditador da República Dominicana de 1930 a 1938 e de 1942 a 1952, tendo ainda governado de modo indireto nos períodos de 1938 a 1942 e de 1952 a 1961, usando líderes que ele mesmo colocava no poder e manipulava.

Seu regime é responsabilizado por dezenas de milhares de mortes. Inimigos políticos eram atirados no mar.

Cinco décadas atrás, a esse cânone se juntaria sua obra mais importante: "O Outono do Patriarca (1975, Record), do mais célebre entre os Nobel da região, Gabriel García Márquez.

A obra é a mais ousada dessas novelas. Ao contrário das que se apoiavam em figuras históricas reais, Gabo, como Gabriel García Márquez também é conhecido, construiu um ditador arquetípico, sem nome e feito de pedaços de muitos outros. Um general eterno, que morre e ressuscita, que governa um país fictício, imóvel num tempo circular. É a ficção levada ao limite para mostrar que o autoritarismo não é só um regime, mas uma atmosfera que envenena a linguagem, a memória e o futuro.

Esses livros mostram como a literatura foi capaz de decifrar as patologias políticas do continente. Asturias revelou a sombra paranoica de Estrada Cabrera; Roa Bastos mostrou como Francia esteve presente no defensivismo paraguaio desde então; Vargas Llosa desnudou o trauma de Trujillo; García Márquez inventou o ditador eterno.

Todos, à sua maneira, demonstraram que o autoritarismo latino-americano é mais do que uma sucessão de governos: é uma engrenagem cultural que se reinventa em diferentes épocas.

Em tempos em que líderes personalistas continuam a ameaçar a democracia —Bukele, Ortega, Bolsonaro, Evo Morales, Rafael Correa e Daniel Noboa, entre outros—, o cinquentenário de "O Outono do Patriarca" ganha relevância.

Ele nos lembra que líderes que podem encantar e seduzir são muitos e estão sempre prestes a aparecer. Só não podemos dizer que não fomos avisados.

A distopia realizada na América

O medo comporta gradações, que variam do temor ao pânico. Devem oscilar entre um e outro os sentimentos de milhões com a notícia de que Pete Hegseth, secretário de Defesa dos EUA, compartilha em vídeo a opinião de pastores contrária ao direito feminino de voto. É a primeira vez em séculos que o poder americano desfaz publicamente um voto de modernidade democrática.

A esse barbarismo segue-se outro: figura central do grupo, o pastor nacionalista cristão Doug Wilson associa hierarquia patriarcal à racial, garantindo que havia afeição mútua entre escravistas e escravos. Infere-se que também mulheres estariam afeitas à escravidão patriarcal. Tudo isso faz parte da ofensiva antifeminina de Trump, que agora tenta demitir a primeira mulher negra a dirigir o Federal Reserve, o banco central americano. O autocrata é conhecido pelo comportamento repulsivo para com mulheres. A intimidade de 15 anos com o pedófilo Jeffrey Epstein sugere que parceira segura é um misto de escrava sexual e boneca inflável.


Mas o medo não comparece só em preocupações democráticas como também, sob forma de terror, em causas primais da aversão ao feminino. Ganha proporções o tópico da "vagina dentata", fonte mítica de fantasias de castração masculina. Disso é exemplar a comédia de terror feminista "Teeth" (2007), de Mitchell Lichtenstein. Com reflexo na modernidade big tech: Mark Zuckerberg, boneco ventríloquo de Trump, atemoriza-se em público com a "falta de energia masculina nos EUA". A raiz do pânico é a indistinção entre delírio e realidade, moldada pelo cinema de catástrofe. A tela tanto precede a vida que a ficção se materializa aos olhos de todos.

Isso inspira uma distopia como a de Margaret Atwood em "O Conto da Aia" (1985), sucesso no streaming: no futuro, as mulheres se tornam escravas sexuais de uma elite poderosa. Uma distopia feita de imaginação, realidade da opressão feminina nas ditaduras islâmicas e ideologia patriarcal de comunidades espelhadas no nacionalismo cristão. Nos EUA, país de cidadania conformista com o sistema e religião como modo de vida, as seitas dão continuidade às utopias nostálgicas que radicalizam exigências morais de suposta proveniência bíblica. Cultua-se não o país real, mas o que se supõe ter sido no passado.

Daí um primitivismo aberto a mitos regressivos, refratários à autarcia feminina. Concretizado, o terror mítico é fissura na dita modernidade da América. Não simples detalhe de superfície numa poderosa infraestrutura econômica-militar, mas indício embrionário do colapso moral que sinaliza o fim do ciclo hegemônico de um império. "Tem um momento em que toda família começa a apodrecer", dizia Nelson Rodrigues ("Flor de Obsessão"). Pode acontecer com nações. São claros os sinais na América trumpista.

Ao trabalho! Uma enxada para cada nacionalista

“As pessoas conseguem ser muito más”, diz a minha sobrinha, 9 anos acabados de fazer, enquanto falamos sobre as notícias acerca de um grupo de pessoas que deram à costa no Algarve e lhe explico que elas terão de abandonar o País. Quando se tem 9 anos, o difícil é entender por que motivo não se acolhem aqueles que arriscaram a vida, dias a fio numa casca de noz, a tentar fugir da miséria. “As pessoas são burras”, acrescenta a minha filha, de 7 anos, indignada, enquanto explica à prima que quem vem para cá só está à procura de um trabalho e de viver num país em paz. “Se houvesse uma guerra, eu também fugia”, diz ela, olhando para o mar, talvez à procura de vestígios de outras embarcações que pudesse salvar. Faz uma pausa. E começa a explicar à prima que as bolas de Berlim que acabaram de me pedir na praia foram trazidas para Portugal por judeus que fugiam à guerra “e a um mau mesmo muito mau”.

Suponho que a empatia seja uma coisa que se gasta. Parecemos bastante dotados dela quando ainda não chegámos à puberdade e entendemos facilmente a ideia de ajudar quem precisa. Depois, começamos a ficar enterrados dentro do próprio umbigo, assustados com um conceito que as crianças não dominam: a escassez. Quanto mais nos convencemos de que o que existe é limitado, mais ameaçadora nos parece a ideia de partilhar o que temos. A questão é que existe, muitas vezes, uma manipulação da ideia de escassez: apresentam-nos como escassos bens que poderíamos facilmente partilhar, ao mesmo tempo que se ocultam as possibilidades multiplicadoras que têm certas ações. Uma fila de gente com turbante à porta de um Centro de Saúde no litoral alentejano parece uma ameaça à possibilidade de ter uma consulta, num local onde há cada vez menos médicos. Uma fila dessa mesma gente no campo, apanhando fruta sob um sol escaldante, pelo contrário, não parece suscitar qualquer ideia sobre os benefícios desse trabalho. Porquê? Porque, muito provavelmente, os benefícios desse trabalho sofrido e mal pago vão quase exclusivamente para os bolsos de quem explora aqueles campos agrícolas e não é obrigado a dar nada (ou quase nada) em troca à população que ali vive.

Quando um produtor de vinho desespera porque não consegue contratar pessoal para a vindima, apesar de oferecer boas condições, oiço-o a explicar-me que os jovens lá da terra se recusam a trabalhar e nem lhe atendem o telefone. São portugueses e não vivem de outro subsídio que não seja a mesada paga pelos pais, que lhes garantem telefones topo de gama e um verão sem responsabilidades, entre os ecrãs e as praias fluviais da zona. Os mesmos pais que se incomodam com a presença cada vez mais visível de africanos e indostânicos nas ruas da terra, onde nunca antes se tinha visto gente tão escura, vindos precisamente para aceitar os trabalhos que os seus filhos recusam.

Eduardo Lourenço dizia que “não trabalhar foi sempre, em Portugal, sinal de nobreza”, o trabalho, dizia, era “para o preto”. Por muito que os portugueses se tenham matado sempre a trabalhar, as elites nacionais fugiam como o Diabo da cruz da ética protestante do trabalho. Hoje, essa fuga ao trabalho é incutida nos filhos pelas classes a quem o 25 de Abril deu instrumentos de mobilidade social. Aqueles que sabem o que era amargar no campo, nem que seja pela memória da avó de lenço na cabeça e pés descalços, querem poupar os filhos a isso. É perfeitamente compreensível. Só não se entende quem, afinal, virá fazer o trabalho, se não o queremos feito por nós nem pelos nossos filhos e também não queremos que cá venham os de fora fazê-lo.

“Viva, Espanha! Mas viva, Espanha, aqui. Não é viva, Espanha, nos vossos escritórios com ar condicionado”, diz um imigrante negro, no meio de um campo, num vídeo que circula nas redes sociais, no qual faz um discurso em castelhano sobre como todos os dias, debaixo de um sol impiedoso, faz a sua parte por Espanha, o país onde o partido de extrema-direita, Vox, diz querer expulsar oito milhões de imigrantes.

“Vocês não vão expulsar ninguém, ninguém. E muito menos oito milhões de pessoas. Primeiro, porque se expulsam tanta gente, no final vai ter de trabalhar até o Abascal. E, segundo, porque não representam os imigrantes. Representam os empresários que os exploram. E se os empresários exploradores perceberem o que querem fazer, até vos comem”, reagiu Gabriel Rufián, da Esquerda Republicana da Catalunha, numa intervenção nas Cortes Espanholas, que se tornou viral e arrancou gargalhadas no plenário quando sugeriu que até Santiago Abascal, o líder do Vox, poderia ter de trabalhar no duro, caso se fossem embora todos aqueles que hoje sustentam a economia espanhola, aceitando os trabalhos mais difíceis, os mais mal pagos e aqueles que são tão essenciais numa sociedade dependente de serviços e numa estrutura social que não sobrevive sem uma rede de cuidados pagos a idosos e crianças.

A ideia de que os que temem a grande substituição étnica deviam estar de enxada na mão nos campos é interessante. E não é só porque a sua falta de vontade de trabalhar nalguns setores faz com que seja essencial receber trabalhadores de outras paragens (e é bom lembrar como a nacionalista Giorgia Meloni se viu obrigada a abrir um programa para trazer 500 mil imigrantes não europeus para Itália) e também não é por um desejo qualquer de os ver castigados. É mesmo porque é urgente resgatar a empatia.

Há razões para achar que essa não será forçosamente uma batalha perdida. Em 2024, o jornalista François Ruffin, sob a lente do realizador Gilles Perret, anunciou um projeto de “reintegração social dos ricos”. O projeto deu origem a um documentário chamado Au Boulot! (em português seria “Ao trabalho!”), que nasceu de um desafio feito a uma jovem loura privilegiada, comentadora televisiva, conhecida por andar pelos estúdios da televisão francesa a debitar ataques aos “vagabundos, aos subsídio-dependentes, aos preguiçosos” e por se indignar por o dinheiro dos seus impostos ser usado para sustentar “a mediocridade dos que não querem fazer nada”. Seria Sarah Saldmann capaz de viver a vida dos que ganham o salário mínimo em França?

Ainda não consegui ver o filme, mas os excertos que encontrei na internet são poderosos. Sarah Saldmann, que começa por aparecer em restaurantes chiques e lojas de luxo, calça luvas e atira-se ao trabalho. Numa quinta a cuidar de animais, nas limpezas esfregando sanitas, num lar cuidando dos idosos, nas obras, num restaurante. “Vais conseguir continuar a falar na televisão sobre subsidiodependentes sem te lembrares da cara da Nathalie?”, pergunta-lhe Ruffin, num dos vários momentos em que a comentadora se confronta com as histórias de vida daqueles a quem foi impossível continuar a estudar ou, tendo estudado, não conseguiram empregos que não os que lhes rendem o salário mínimo francês. Aos poucos, Sarah vai perdendo a ideia de que “temos a vida que escolhemos ter”.

Há uma transformação redentora quase tão absoluta como aquela que víamos nos filmes pirosos de Hollywood aos fins de semana no Chiado Terrace da SIC. A comentadora privilegiada e cheia de ideias feitas sobre as classes trabalhadoras ganha empatia. Consegue finalmente perceber que nem todos temos as mesmas hipóteses na vida, que nem todos partimos do mesmo lugar e que o esforço e o mérito não são a garantia de um sucesso que possa medir-se em euros.

Não podendo andar a distribuir enxadas ou luvas de trabalho entre os apoiantes dos partidos que querem criminalizar a imigração, talvez seja importante voltar à ideia do trabalho como fonte de dignidade. Não o dinheiro. Não o sucesso. O trabalho. Aquilo que se consegue fazer usando as mãos e a cabeça. Aquilo que produz alguma coisa.

'Meu filho não sabe qual o gosto de uma fruta'

Moradores da Faixa de Gaza descreveram à BBC os efeitos da fome em seus corpos, depois que um relatório apoiado pela ONU confirmou, pela primeira vez, a ocorrência de fome generalizada em partes do território.

Reem Tawfiq Khader, 41 anos, mãe de cinco crianças na Faixa de Gaza, disse: "A declaração de fome veio muito tarde, mas ainda assim é importante. Nós não comemos nenhum tipo de proteína há cinco meses. Meu filho mais novo tem quatro anos e ele não sabe qual o gosto de frutas ou verduras".

A ONU afirma que Israel restringiu a quantidade de ajuda humanitária que entra em Gaza, o que Israel nega.


Israel também nega que haja fome no território, em contradição com o que dizem mais de 100 organizações humanitárias, testemunhas locais e diversos órgãos da ONU.

Na sexta-feira, o Integrated Food Security Phase Classification (IPC), sistema apoiado pela ONU que monitora a insegurança alimentar, afirmou que há uma fome "totalmente provocada pelo homem" na Cidade de Gaza e nas áreas ao redor.

O órgão alertou que mais de meio milhão de pessoas em toda a Faixa de Gaza enfrentam condições "catastróficas", caracterizadas por "fome, miséria e morte".

Rajaa Talbeh, 47 anos, mãe de seis, disse que ela já perdeu 25 quilos. Ela fugiu de casa, no distrito de Zeitoun, na Cidade de Gaza, há um mês e hoje vive em uma tenda improvisada perto da praia.

Ela sofre de intolerância ao glúten e disse que já não consegue encontrar alimentos que ela pode comer.

"Antes da guerra, uma instituição de caridade me ajudava a conseguir produtos sem glúten, algo que eu jamais poderia pagar sozinha", disse.

"Desde que a guerra começou, eu não consigo encontrar o que eu preciso no supermercado e, mesmo quando eu consigo, não tenho condições de comprar. Já não basta enfrentar os bombardeios diários, o deslocamento e viver em uma tenda que não nos protege nem do calor do verão e nem do frio do inverno — e agora, ainda por cima, a fome?"

'Minha filha não consegue andar... ela está desnutrida'

Rida Hijeh, 29 anos, contou que o peso de sua filha de cinco anos, caiu de 19 quilos para 10,5 quilos.

Segundo ela, Lamia era uma criança saudável antes da guerra e não tinha nenhum problema de saúde.

"Tudo isso está acontecendo por causa da fome", afirmou.

"Simplesmente não há nada para as crianças comerem. Não há verduras, não há frutas."

Hoje, Lamia sofre inchaço nas pernas, queda de cabelo e problemas neurológicos.

"Ela não consegue andar. Procurei vários médicos, hospitais, clínicas. Todos me disseram que minha filha está desnutrida. Mas ninguém me deu nada, nenhum tratamento e nenhum tipo de ajuda."

Mandy Blackman, uma enfermeira britânica que trabalha para a ONG UK-Med em Gaza, disse que 70% das mães atendidas nas clínicas de saúde materna, pré-natal e pós-natal sofrem de desnutrição clínica.

"Como resultado disso, os bebês nascem menores e mais vulneráveis", afirmou.

Mais de 62 mil pessoas foram mortas em Gaza desde que Israel iniciou sua campanha militar, em resposta ao ataque liderado pelo Hamas no sul de Israel em 7 de outubro de 2023, quando 1.200 pessoas foram mortas e outras 251 levadas como reféns.

Desde o início da guerra, pelo menos 271 pessoas, incluindo 112 crianças, morreram de "fome e desnutrição", de acordo com o Ministério da Saúde de Gaza, administrado pelo Hamas.

Outra mulher, Aseel, que mora na Cidade de Gaza, contou: "Cinco meses atrás, eu pesava 56 quilos. Hoje, peso apenas 46 quilos."

Ela disse que não come nenhum pedaço de fruta ou carne há meses e que gastou quase todas as suas economias com ingredientes básicos para sobreviver.

A cunhada de Aseel, que mora com ela, tem um bebê de um mês de idade.

"Ela está desesperada em busca de fórmula infantil a um preço razoável", afirmou.

Segundo ela, quando eles conseguem encontrar, a lata custa cerca de 180 shekels — cerca de R$ 260 na conversão atual.

"Eu não tenho nenhum estoque de comida, nem o suficiente para durar uma ou duas semanas", acrescentou.

"Como milhares de pessoas, vivemos um dia após o outro."

Como a seca pode afetar a economia global?

O planeta Terra é composto por 70% de água , mas apenas 0,5% dela é água doce utilizável. Grande parte dessa água é escassa devido à crescente demanda, ao aumento das temperaturas e à seca.

Cerca de 2 bilhões de pessoas no mundo atualmente não têm acesso regular à água potável, enquanto metade da população mundial sofre escassez de água durante parte do ano.

O valor econômico do funcionamento dos ecossistemas de água doce foi estimado em 60% do produto interno bruto (PIB) mundial, de acordo com a organização conservacionista World Wildlife Fund ( WWF ).

O alto estresse hídrico em países áridos e afetados pela seca na África e no Oriente Médio levará a um declínio de 25% em suas economias nos próximos 20 a 30 anos, disse Quentin Grafton, titular da Cátedra UNESCO em Economia da Água e professor de economia na Universidade Nacional Australiana.

"Estamos em um momento crítico. Teremos que nos adaptar muito mais rapidamente", disse ele em entrevista à DW. E como a escassez de água afeta o abastecimento de alimentos, a atividade econômica e o emprego nessas regiões, problemas sociais e políticos podem surgir, explicou.

Além disso, o deslocamento e a migração em massa criam instabilidade em lugares como o sul da Europa. E, embora os ecossistemas de água doce possam reduzir a duração e a gravidade das secas, eles foram esgotados pelo desenvolvimento e pela irrigação excessiva. O mundo perdeu um terço de suas áreas úmidas desde 1970, observa o WWF.

A crise hídrica também desacelerará o crescimento de economias em desenvolvimento poderosas. Grafton afirma que a Índia não tem água suficiente para sustentar, por exemplo, usinas termelétricas a carvão. A população rural pobre da Índia é a que mais sofre com a escassez de água. As soluções incluem programas de barragens de terra que retêm melhor as chuvas das monções antes da estação seca.

Represa em Bamford, Reino Unido

Calor recorde e seca estão causando a redução do fluxo dos rios e a secagem de lagos e reservatórios. Tudo isso dizimou a produção agrícola, a base das economias da Ásia e da África.

Durante a severa seca de 2020-2023 no Chifre da África, que foi agravada centenas de vezes pelas mudanças climáticas, cerca de 13 milhões de animais morreram e plantações foram perdidas, enquanto pelo menos 20 milhões de pessoas sofreram grave escassez de alimentos e a perda de seus meios de subsistência.


A escassez de água também está aumentando na Europa, à medida que a região se aquece mais rápido do que qualquer outro continente do planeta, exceto a Antártida.

A Alemanha vivenciou um final de inverno e um início de primavera mais secos no início deste ano. A seca se espalhou por grandes áreas do continente e pelos países mediterrâneos.

Eles enfrentam calor extremo contínuo, incêndios florestais e escassez de água.

Além disso, os setores industriais estão competindo por recursos hídricos limitados, disse Sergiz Moroz, especialista em gestão de recursos hídricos da Agência Europeia do Meio Ambiente. "O setor de tecnologia da informação (TI) de repente vem a Bruxelas e diz que precisamos de muita água de alta qualidade para todo o crescimento que veremos", explicou. "Os agricultores vêm e dizem: 'Olha, não podemos cultivar alimentos sem água.'"

A UE está abordando o consumo significativo de água em data centers de TI, cujos sistemas de refrigeração consomem enormes quantidades de água para evitar superaquecimento. A Estratégia de Resiliência Hídrica da UE, que entrará em vigor em 2026, planeja impor limites de uso às empresas de tecnologia.

E nos Estados Unidos, o acesso à água está diminuindo "à medida que a água se torna mais escassa. Espera-se que o número de pessoas sem acesso à água aumente devido às pressões relacionadas a eventos climáticos", disse à DW George McGraw, fundador e diretor executivo da organização sem fins lucrativos DigDeep, com sede na Califórnia.

"A maneira mais fácil de proteger a economia americana dessas crises é tornar a água universal", disse ele.

A cruzada antigênero de Bolsonaro desfigurou o Estado brasileiro

Acabava de irromper a pandemia de COVID-19 que, no Brasil, deixaria no seu rastro mais de 700 mil mortes. Nesse cenário, alguns especialistas buscavam fôlego para entender e responder ao avanço da política de ultradireita já então materializada como um novo modo de governar o Brasil. Desde 2019, as autoridades governamentais faziam diatribes sobre a urgência de abolir o gênero das políticas sociais e da pauta política.

Assim, quando muitas vozes ainda diziam que o ódio antigênero registrado em 2018 era mera retórica de campanha, foi necessário levar a sério a afirmação do ex-presidente Jair Bolsonaro no discurso de posse e em sua primeira intervenção na Assembleia Geral das Organizações das Nações Unidas, de que o combate ao gênero seria uma prioridade do seu governo.

Foi quando reunimos especialistas em gênero e sexualidade do Observatório de Sexualidade e Política (SPW) e do Núcleo de Direitos Humanos e Cidadania LGBT+ da Universidade Federal de Minas Gerais (NUH/UFMG) para compreender como um governo arruinava, paulatinamente, concepções de políticas públicas de democracia sexual conquistadas em três décadas. O resultado desse estudo acaba de ser publicado sob o nome de Ruinologia: Uma Cartografia da Política Antigênero no Governo Bolsonaro (2019-2022).

Nossa surpresa foi que não se tratou de um simples desmonte de políticas públicas democráticas. Há uma ruína. O governo Bolsonaro operou uma “destruição produtiva”, desfigurando terminologias e ressignificando o próprio arcabouço conceitual e epistemológico dos direitos humanos. Tanto que dificilmente este e os próximos governos, mesmo que venham combater a ultradireita, dificilmente desmontarão o retrógrado legado. Temos de primeiro, reconhecer a eficiência desse desmonte.

O Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos (MMFDH), sob a gestão de Damares Alves, hoje senadora, tornou-se o epicentro dessa estratégia. De 2019 a 2022, a ofensiva antigênero, antes restrita a mobilizações sociais, incrustou-se no aparato estatal, transmutando-se em uma “nova política de gênero” ultraconservadora e neoliberal.

Um dos paradoxos mais evidentes dessa gestão foi a retórica de “proteção” da população LGBT+, em contraste com o combate ferrenho à “ideologia de gênero”. Damares Alves e outros representantes do governo propagaram a ideia de que o Estado deveria “proteger e não promover”. Essa lógica, aparentemente conciliatória, permitiu a gradual descaracterização e desestruturação das políticas LGBT+, antes consolidadas.

A própria Diretoria de Promoção dos Direitos de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais, embora mantida, foi esvaziada e, por fim, renomeada como Departamento de Proteção de Direitos de Minorias Sociais e População em Situação de Risco. A inclusão da categoria “ideologia de gênero” nos canais de denúncia do ‘Disque 100’ como uma “violação de direitos” é um exemplo claro dessa infiltração ideológica no cerne da gramática estatal, transformando um instrumento de proteção em ferramenta de perseguição arbitrária de servidores públicos.

As “políticas familiares” foram outro pilar da ruína democrática. A criação da Secretaria Nacional da Família (SNF) com a premissa de que a “família”, no singular, é a instituição basilar a ser protegida, visava impor um modelo ideal de núcleo familiar. Programas como o “Reconecte” e “Famílias Fortes”, com orçamentos modestos, mas com grande apelo simbólico, buscavam tutelar a vida privada, disciplinando o uso de tecnologias digitais e orientando a “parentalidade positiva”. O objetivo era claro: sedimentar uma mobilização política conservadora nos níveis locais cujo eixo era o acionamento sistemático da família ou do fortalecimento familiar, entendido de maneira estreita como o vínculo entre genitores e sua prole.

A agenda familista do governo Bolsonaro esteve intrinsecamente ligada a um neoconservadorismo que se expressou, por exemplo, na defesa da abstinência sexual para jovens e na tentativa de impedir o aborto legal de uma criança vítima de violência sexual no Espírito Santo. Essas ações, muitas vezes brutais, eram embaladas por uma “diplomacia paralela” do MMFDH e do Ministério de Relações Exteriores, alinhando o Brasil a movimentos antigênero e antiaborto internacionais.

O legado é persistente. Embora o governo Bolsonaro tenha terminado em 2022, os rastros dessa “ideologia antigênero” permanecem insidiosamente incrustrados na gramática estatal. A inexplicável demora na publicação de portarias ministeriais para implementar políticas de assistência a pessoas trans, somada à persistência de lacunas e distorções nas definições de violações de direitos humanos em razão de gênero e sexualidade no atual Ministério de Direitos Humanos e Cidadania, são evidências de que esses legados ainda não foram devidamente debelados.

É fundamental que a sociedade civil, a academia e a imprensa permaneçam vigilantes. A tese de que “pautas dos costumes” dão força à ultradireita, muitas vezes utilizada para justificar a relutância em abordar “esses assuntos”, obscurece o óbvio: questões de gênero, sexualidade e aborto são nodais no projeto de mundo da ultradireita: um mundo desigual e regido pela liberdade autoritária. Driblar esses debates não os fará desaparecer. Ao contrário, estarão cada vez mais presentes no cotidiano político.
Marco Aurélio Máximo Prado

O mundo dos oligarcas

O governo do presidente Lula, neste momento, faz esforço hercúleo para superar as enormes dificuldades que surgiram à sua frente. A atuação errática e sinuosa de Donald Trump indica que o presidente dos Estados Unidos não hesita em abrir novas frentes de combate para estar sempre nas manchetes. Quando as negociações com Vladimir Putin não caminham tão bem quanto gostaria, ele envia navios de guerra para o Caribe e fala, de maneira genérica, em intervir para liquidar com a ação dos grupos narcotraficantes na região.


É outra possibilidade de conflito bélico, desta vez na América Central, o que oferece a oportunidade de troca de posições. Os russos estão estabelecidos na Venezuela. Podem negociar essa posição com alguma vantagem na Ucrânia. Nesse caso, Nicolás Maduro seria apenas uma moeda de troca. Baixo valor. Mas o presidente Lula manteve até agora a altivez na sua relação com Washington. Talvez esteja falando mais do que deveria, mas, efetivamente, não cedeu aos caprichos do presidente alaranjado. Após a saraivada de tarifas, quem está perdendo cada vez mais é a turma dos Bolsonaro.

As pesquisas de opinião indicam que a população já percebeu que os filhos do ex-presidente trabalham a favor de seus interesses. O slogan Deus, pátria e família ficou reduzido ao último item. A família deles. Deus e pátria são subsidiários nessa equação política. Eles se tratam aos palavrões. Até o missionário adota palavreado chulo. As mesmas pesquisas indicam que o governo está conseguindo recuperar a popularidade, embora a maioria ainda seja crítica à ação do Palácio do Planalto. Mas a distância entre posição favorável e desfavorável reduziu-se a pouco mais de dois pontos. Recuperação impressionante.

No terreno das pesquisas, sim. Na política, não. O governo sofreu pesada derrota na instalação da CPMI do INSS. Opositores foram eleitos para a presidência e a relatoria da comissão, os dois postos mais importantes. O Palácio do Planalto apostava em nomes alinhados ao Executivo para travar as investigações e evitar desgastes. O senador Carlos Viana (Podemos-MG), de oposição, foi eleito com 17 votos, contra 13 dados a Omar Aziz (PSD-AM), que era considerado favorito e contava com o apoio de Lula e do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP). O presidente indicou um relator de oposição, que será o deputado Alfredo Gaspar (União-AL). O nome apoiado pelo presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), era o do deputado Ricardo Ayres (Republicanos-TO). Derrota significativa para o dispositivo político do Palácio do Planalto.

Esse resultado indica que o segundo semestre será flamejante, inclusive, pela possibilidade de o irmão do presidente Lula, dirigente partidário, ser convocado para prestar esclarecimento ao plenário raivoso da CPMI. Momentos de glória de alguns parlamentares, um pesadelo previsível para o governo. A crise política vai aproveitar a elevação da temperatura porque os norte-americanos não dão sinais de que vão reduzir a pressão. No início de setembro, o ex-presidente Jair Bolsonaro e seus principais correligionários serão julgados pelo Supremo Tribunal Federal (STF). O ministro Alexandre de Moraes estará lá para verbalizar suas razões e determinar a prisão ou a libertação dos acusados. O governo de Washington, que mantém Brasília sob severa vigilância, fará o possível para tumultuar o ambiente.

O governo de Washington possui a capacidade de intervir quando quiser e como quiser em qualquer país do planeta. Até agora, recuou apenas diante da monumentalidade do poder dos chineses, capazes de produzir grandes estragos tanto na esfera da guerra propriamente dita quanto nas relações comerciais. A paixão de Trump pela Rússia é caso antigo. O país tem Produto Interno Bruto (PIB) inferior ao do Brasil, mas possui bombas atômicas e mísseis equipados com ogivas nucleares capazes de destruir boa parte do mundo. Esse detalhe explica a cerimônia com que autoridades de Moscou são tratados em Washington. Na realidade, não há planos objetivos para acabar com a guerra na Ucrânia.

O que intimida os oligarcas é a capacidade nuclear. A Coreia do Norte é bom exemplo. Seu governo envia armas, munições e soldados para a guerra na Ucrânia, porém não foi atingida pelas tarifas de Trump. O país tem a bomba. Nesse caminho, não será impossível que, em pouco tempo, Japão, Austrália, Alemanha, Canadá também detonem seus artefatos atômicos. O ponto fora da curva é a Índia, que tem bomba e foi punida pelo tarifaço. Mas, é a economia que mais cresce no mundo. Precisa ser contida. O Brasil sabe fazer a bomba. Os desafios do novo mundo dos oligarcas vão além da imaginação. No momento, é possível apenas enxergar uma eleição tumultuada em 2026.

sexta-feira, 22 de agosto de 2025

Pensamento do Dia

 


Delírio da politicagem


Acabar com a pobreza em todas as suas formas e circunstâncias é apenas um delírio político, que erradica a miséria das ilusões nos números vermelhos de uma economia que é mais vulnerável do que os próprios pobres neste mundo.

O Vale do Silício vai à guerra

Não é à toa que o governo americano está tão descontente com a Justiça brasileira, especialmente por causa dos limites dados ao ‘liberou geral’ das redes sociais. O STF atirou no discurso de ódio e em crimes como pedofilia, mas acertou nas big techs que controlam essa ‘terra de ninguém’ em que se tornou o universo digital.

E não se trata de uma preocupação do Tio Sam com a liberdade de expressão do cidadão de bem ou com a democracia. O fato é que as grandes empresas de tecnologia entraram de cabeça no sistema de Defesa ianque. O mesmo acontece em Israel, China e Rússia. As big techs tornaram-se uma espécie de batalhões da guerra do futuro, a serviço das forças armadas e dos serviços de inteligência mais poderosos do mundo. Mais uma vez, a guerra rende bilhões de dólares.

E não é apenas modo de dizer. Deu no New York Times (01/05/25) que os militares israelenses criaram um verdadeiro batalhão tecnológico, a Unidade 8200 – mais conhecida como ‘O Estúdio’ – por onde circulam reservistas egressos da Microsoft, Google e Meta (dona do Facebook, Instagram e Whatsapp). Foi assim, por exemplo, que Israel localizou e matou o líder do Hamas Ibrahim Bari, em 2023. O problema é que a mira da IA ainda carece de calibragem e o bombardeio levou junto a vida de 125 civis palestinos, incluindo mulheres e crianças. A culpa é do botão ou do dedo?

Nos EUA a coisa está ainda mais impressionante. O Pentágono criou uma força militar chamada Destacamento 201, composta por executivos e especialistas em TI das principais big techs americanas que receberam a patente militar de tenente-coronel. Mas o movimento não é de agora. Há dez anos atrás foi criada no Vale do Silício a Unidade de Inovação de Defesa, inaugurada com direito a discurso do Secretário de Defesa de então.

Segundo outra reportagem do NYT republicada pelo Estadão nos últimos dias, as principais big techs estão fechando contratos milionários com o Departamento de Defesa dos EUA. Meta, OpenAI, Google e também empresas menos conhecidas do setor como Palantir, ou startups como a Anduril e aceleradoras como a Y Combinator.

Nesse cenário de simbiose entre Vale do Silício e Pentágono os recrutamentos acontecem também no sentido contrário. O general Paul M. Nakasone, ex-chefe da Agência de Segurança Nacional, por exemplo, torou-se membro do conselho da OpenAI, criadora do ChatGPT. Da mesma forma, grandes investidores então indo atrás dos militares e das big techs para apostarem sua grana nos novos negócios tecnológicos de Defesa.

É o caso da Andreessen Horowitz que reservou US$500 milhões para investimentos em Defesa. Por sua vez, segundo o New York Times, a Anduril, que projeta armas com suporte de IA, assinou um contrato de US$ 642 milhões com os Fuzileiros Navais americanos e US$ 250 milhões para defesa aérea com o Departamento de Defesa. Ao todo, a já Anduril alavancou uns US$ 2,5 bilhões em novos financiamentos.

O envolvimento das big techs com a Defesa visa a responder aos avanços tecnológicos chineses e russos. Segundo o Vice-Presidente dos EUA, “Não devemos ter medo de novas tecnologias. Na verdade, devemos procurar dominá-las e certamente é isso que este governo quer alcançar”. Nesse pacote, está a fabricação de armas movidas a IA, mas também a produção e o tratamento de dados e informações que alimentam os novos sistemas de inteligência e os modelos preditivos para fins militares, políticos e econômicos.

O baixo nível, acima de tudo e todos

Não que esperássemos um comportamento elegante de Bolsonaro, de seu filho Eduardo e de Silas Malafaia. Mas as conversas e trocas de mensagens entre o ex-presidente, o deputado federal “no exílio” nos EUA e o líder da Assembleia de Deus chocaram as famílias brasileiras, até as fiéis bolsonaristas. É muito baixo nível, muito “cacete”, muito xingamento.

Aprendi com o deputado o significado de uma sigla: VTNC. Quando olhei a primeira vez a mensagem escrita, fiquei pensando qual código secreto era esse que Eduardo tinha usado para se dirigir ao pai. Ao perceber do que se tratava, meu queixo caiu. Que tipo de educação esse rapaz recebeu em casa? OMG (oh my God), Eduardo e Malafaia conseguem fazer Bolsonaro parecer equilibrado no WhatsApp.


“Eu ia deixar de lado a história do Tarcísio, mas estou pensando seriamente em dar mais uma porrada nele, para ver se você aprende. VTNC, SEU INGRATO DO CARALHO”, escreveu Eduardo ao pai, no dia 15 de julho. O ainda deputado ficou muito chateado por ter sido chamado de “imaturo” ao comprar briga com o governador de SP. Alguém imagina falar assim com o pai?

“Se o imaturo do seu filho de 40 anos não puder encontrar com os caras aqui, porque você me joga para baixo, quem vai se fuder é você e vai decretar o resto da minha vida nesta porra aqui”. Acho que o 01 (assim Eduardo se refere ao presidente Donald Trump) não vai gostar nadinha de saber que seu protegido chamou os EUA de “essa porra aqui”. Trump é outro boquirroto, mas ser chamado de 01 é coisa de miliciano, não?

Ao final, Eduardo ordena ao pai: “Tenha responsabilidade!” E olha que o pai tem passado a ele a mesada obtida de patriotários em vaquinhas online. Eduardo não pode mexer, por ordem de Alexandre de Moraes, no salário da Câmara que voltou a receber neste mês: R$ 17 mil brutos, com um gabinete e 8 funcionários ao custo de R$ 123 mil. É surreal essa história. Por que ainda não foi cassado o traidor da pátria?

Não poderia faltar um furibundo emissário divino nessa história. Temos um pastor, líder da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, que faz corar todos os crentes e parece possuído ao falar com Bolsonaro, chamando Eduardo de “babaca, idiota e um estúpido de marca maior”. Grosseiro o pastor. Um “cacete” a cada parágrafo. Isso lá é linguagem de líder religioso.

“A faca e o queijo estão na tua mão, cacete, e nós não podemos perder isso, pô”, disse Malafaia ao ex-presidente. “E vem o teu filho babaca falar merda (...). Dei um esporro, cara, mandei um áudio para ele de arrombar. E disse para ele: ‘a próxima que você fizer, eu gravo um vídeo e te arrebento’. Falei para o Eduardo. ‘Vai pro meio de um cacete, pô’. ” Malafaia disse ainda a Bolsonaro: “Deus tá contigo, cumpade! Eles tão é ferrado! Vão ter que sentar no colinho”. Que Deus é esse?

Eduardo contemporizou com o pastor, para não jogar mais lenha na fogueira das vaidades. Mas desafiou a Polícia Federal, que o indiciou por coação na ação penal do golpe: “Absolutamente delirante”!

Faz falta, para o deputado e o pastor, um remedinho qualquer para suavizar os modos. Porque os delírios são deles, com olhos esbugalhados, sem controle, sem compromisso nem mesmo com a direita ou com as pesquisas eleitorais. O lema “Deus, pátria e família” foi desmoralizado.

Não sabemos qual será o próximo episódio, proibido para menores. Sei que o país inteiro, menos eu, está assistindo ao remake da novela “Vale tudo”. Mas quer mais “vale tudo” do que isso aí? Só tem vilão.

“No tocante” a esse último capítulo político, envolvendo Bolsonaro, Eduardo e Malafaia, quem seria a implacável Odete Roitman, a ambiciosa Maria de Fátima e o manipulador César?

Fome: um crime de guerra que permanece impune

Os apelos para julgar a fome como crime de guerra em diversos dos atuais conflitos estão se tornando mais frequentes e ganhando força. "A fome é uma arma que está sendo usada em todo o mundo no momento. Mas isso tem que acabar, vai contra o direito internacional", afirmou Shayna Lewis, conselheira sênior para o Sudão do grupo americano Prevenção e Fim das Atrocidades em Massa (Paema).

Lewis falava sobre a situação na cidade sudanesa de El Fasher, com 30 mil habitantes e que está sitiada há um ano, situação que gerou a escassez de comida. "É um crime internacional e precisa ser julgado como tal", destacou.

Grupos de direitos humanos, como a Anistia Internacional e a Human Rights Watch (HRW), fizeram comentários semelhantes sobre o bloqueio israelense à entrada de ajuda e alimentos na Faixa de Gaza.

"Israel está matando Gaza de fome. É genocídio. É crime contra a humanidade. É um crime de guerra", afirmou Michael Fakhri, relator especial das Nações Unidas para o direito à alimentação, ao jornal britânico The Guardian na semana passada.



De acordo com especialistas, os crescentes apelos para julgar a fome de civis como crime de guerra ocorre devido ao aumento da fome causada por conflitos. Durante a primeira década deste século, houve poucas situações desse tipo, segundo um relatório da Fundação Mundial da Paz (WPF, na sigla em inglês), mas isso mudou recentemente.

"Esse é um fenômeno antigo, que é utilizado há séculos em conflitos", afirma Rebecca Bakos Blumenthal, consultora jurídica do projeto Responsabilização pela Fome, da fundação jurídica holandesa Compliance de Direitos Humanos (GRC). Segundo a especialista, essa tática ressurgiu depois de 2015.

Na última década, a fome foi registrada em conflitos na Nigéria, Somália, Sudão do Sul, Sudão, Síria e Iêmen. Especialistas em segurança alimentar avaliam que os ataques russos à agricultura ucraniana também podem serem vistos como tentativas criminosas de transformar alimentos em armas. Eles argumentam ainda que houve um aumento deste tipo de crime de guerra.

"Mesmo com a melhoria da segurança alimentar global, incidentes de fome estão aumentando", ressalta Alex de Waal, professor na Universidade Tufts, nos EUA, e diretor de pesquisa sobre fome em massa na WPF. "Isso mostra que a segurança alimentar global é mais volátil e desigual. Isso é consistente com o uso da fome como arma".

A retenção deliberada de comida e itens essenciais para a sobrevivência de civis é considerada um crime de guerra por muitos países e também em várias iterações do direito internacional, como a Convenção de Genebra, que estabeleceu normas para o direito humanitário internacional, e Estatuto de Roma, aplicado pelo Tribunal Penal Internacional (TPI).

Apesar dessa classificação, até agora, ninguém que usou essa tática em um conflito foi levado a julgamento. O crime de guerra de fome nunca foi julgado em uma corte internacional isoladamente, somente como uma da parte de acusação em cerca de 20 outros casos de crime de guerra.

O fato de civis passarem fome em um conflito, não significa automaticamente que um crime foi cometido. "Uma das questões jurídicas é a intenção. O crime de guerra de fome necessita que o perpetrador aja como a intenção disso", afirma de Waal.

A fome ocorre a longo prazo, pontua de Waal, e alguns juristas argumentam que é necessário provar que o perpetrador teve desde o início, por exemplo, de um bloqueio ou cerco a intenção de matar de fome civis. A maioria dos especialistas, porém, defende uma "intenção indireta", explica. Ou seja, é claro que essa situação ocorrerá "no curso normal dos eventos", e o agressor sabe disso, tendo oportunidades de prevenir que civis passem fome, mas não o fez.

Outra questão para casos envolvendo a fome é a falta de precedentes, além da definição de quais tribunais nacionais e internacionais teriam jurisdição sobre os supostos crimes de guerra.

Até há alguns anos, a fome era vista como uma questão de desenvolvimento ou humanitária, afirmou Blumenthal, da GRC. Mas agora está sendo dada mais atenção aos aspectos criminais. "Trabalho nessa questão há alguns anos e essas coisas andam lentamente", conta Blumenthal, que se dedica ao tema desde 2020. "Acredito, porém, que a situação está mudando e que algumas medidas relevantes foram tomadas nos últimos dez anos".

Em 2018, o Conselho de Segurança da ONU aprovou uma resolução que condenou a fome de civis como método de guerra. Em 2019, alterações foram feitas no Estatuto de Roma, tornando a fome um crime de guerra também em conflitos armados locais, em vez de apenas internacionais.

Houve inquéritos da ONU sobre conflitos no Sudão do Sul e na região do Tigré, na Etiópia, focando especificamente na questão da fome como crime de guerra, acrescenta Blumenthal.

"Estamos vendo mais organizações internacionais e locais, juntamente com mecanismos de responsabilização, denunciando isso e certos exemplos marcantes, como no caso de Gaza hoje, ampliaram a conscientização sobre esse crime", ressalta a especialista.

Blumenthal destaca que os mandados de prisão emitidos pelo TPI contra o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu e o ex-ministro israelense de Defesa Yoav Gallant em novembro de 2024 são um "marco histórico" por mencionar especificamente a fome como um crime de guerra. Foi a primeira vez que mandados destacam a fome como um crime isolado. Ela acrescenta que a corte possui ainda uma investigação aberta sobre o Sudão.

"A questão, sem dúvida, ganhou atenção nos últimos dez anos. Todas as estruturas legais estão em vigor. O que falta é vontade política para agir", avalia de Waal.

De Waal pontua que ainda há desafios jurisdicionais, mas ele está confiante de que em muitos casos é possível haver condenações. "Basta levar o acusado ao tribunal".

Blumenthal concorda. "Há equívocos sobre isso e muitos pensam que a fome é uma parte inevitável da guerra. Mas, durante nossas investigações aprofundadas, é surpreendente a rapidez com que fica claro que, na verdade, esses padrões são muito acentuados e em muitas situações é possível discernir uma estratégia deliberada".

Com cautela, Blumenthal está otimista de que aqueles que usaram a fome de civis deliberadamente como arma de guerra enfrentarão em breve a justiça. "Essa é certamente a esperança. É para isso que estamos trabalhando".
Cathrin Schaer1

Piedade por essa gente? Nem um pouco. Sinto nojo e raiva

Como foi possível que tão poucos, e da pior qualidade, tenham enganado tanta gente por muito tempo?

Como é possível que a essa altura, depois de tudo o que se sabe, uma parte dessa gente continue a acreditar neles?

Para escapar de ser condenado, Bolsonaro chamou de “malucos” os acampados à porta de quarteis que pediam um golpe.

Não diz que os inspirou a proceder assim. Não diz que forçou os chefes militares a garantir-lhes abrigo e a tratá-los bem.

Enganou seus devotos com a falsa promessa de que moveria suas tropas nas ruas e no Congresso para aprovar a anistia.

Em primeiro lugar sempre esteve a anistia para ele. Dos Estados Unidos, no dia 7 de julho último, foi advertido pelo filho Eduardo, o embaixador sem escrúpulos do tarifaço:

“Temos que decidir entre ajudar o Brasil, brecar o STF e resgatar a democracia ou enviar o pessoal que esteve no protesto que evoluiu para uma baderna para casa num [regime] semiaberto.”


Onde você leu “ajudar o Brasil, brecar o STF e resgatar a democracia”, leia: “ajudar Bolsonaro a salvar-se da Justiça”.

Não lhe faltaria apoio de Trump. A não ser que Trump se convencesse de que estaria bem servido com Tarcísio de Freitas como candidato a presidente no próximo ano.

Aconselhado pelo filho, Bolsonaro consultou a respeito um advogado que representa a Trump Media & Technology Group em processo contra Alexandre de Moraes junto à Justiça americana.

Aconselhado pelo pastor Silas Malafaia, no dia 13 de julho postou nas redes sociais um recado para os ministros do Supremo Tribunal Federal; na verdade, uma tentativa de chantagem:

“Não me alegra ver sanções pessoais, ou familiares, a quem quer que seja. Não me alegra ver nossos produtores do campo ou da cidade, bem como o povo, sofrer com essas tarifas de 50%. A solução passa por justiça aos presos pelo 08 de janeiro, passa pela anistia”.

Em carta a Lula, Trump vinculou o tarifaço à suspensão imediata do julgamento de Bolsonaro. No recado aos ministros do Supremo, Bolsonaro vinculou o tarifaço à anistia. As peças se encaixam.

“Brasil acima de tudo, Deus acima de todos” cedeu vez a “Bolsonaro acima de qualquer coisa”. A lei pouco importa. Se preciso, pediria asilo a um país amigo. Por que não a Argentina?

No celular de Bolsonaro, a Polícia Federal encontrou a minuta de um pedido de asilo dirigido ao governo argentino. Não estava assinado. Mas, e daí? A minuta do golpe também não estava.

Bolsonaro subiu ao patíbulo. Deixou nos bancos e em paraísos fiscais a fortuna que acumulou ao longo da vida pública. Se não for bloqueada, será repartida entre os filhos.

Os governadores de direita deram-lhe as costas. O Centrão também. A hora da execução se aproxima.

Não há mais nada que ele possa fazer a não ser chorar antes que a farsa encenada termine e o pano desça. Sem aplausos.