segunda-feira, 16 de junho de 2025

Não financie a Fundação Humanitária de Gaza: é cortina de fumaça genocida

Relatórios recentes indicam que a USAID está considerando doar US$ 500 milhões para a Fundação Humanitária de Gaza (GHF) — uma iniciativa de "ajuda" lançada a pedido de Israel. À primeira vista, isso pode parecer um esforço generoso para ajudar os palestinos desesperados em Gaza. Mas, ao analisarmos uma única camada, descobrimos um esquema político mortal disfarçado de ajuda humanitária.

Não se trata de ajudar pessoas famintas. Trata-se de controlá-las, deslocá-las e submetê-las à fome.

Vamos começar com o básico. A Fundação Humanitária de Gaza não é uma organização humanitária. É um projeto apoiado pelos EUA e por Israel, administrado por pessoas sem histórico em trabalho humanitário neutro. Seu primeiro diretor, Jake Wood, renunciou em 25 de maio, alegando que a organização não respeitava os princípios humanitários. Então, o Boston Consulting Group, que havia ajudado secretamente a planejar as operações de ajuda da Fundação Humanitária de Gaza, retirou-se e pediu desculpas aos funcionários, que estavam furiosos com a cumplicidade da empresa em um sistema que permitiu o deslocamento forçado e marginalizou agências confiáveis ​​da ONU.

O novo diretor da GHF é Johnnie Moore, um executivo de relações públicas evangélico americano mais conhecido por ajudar Donald Trump a reconhecer a soberania israelense sobre Jerusalém e impulsionar a mudança da embaixada dos EUA para lá — uma atitude que só atiçou as chamas do conflito.


Toda a premissa do GHF está enraizada em mentiras. Foi lançado sob a supervisão do governo israelense, sem transparência, sem independência e – fundamentalmente – sem a participação das Nações Unidas ou de quaisquer agências humanitárias respeitadas. De fato, a ONU se recusou a ter qualquer envolvimento com o projeto. O mesmo se aplica a grupos como Médicos Sem Fronteiras, a Cruz Vermelha e o Programa Mundial de Alimentos, cujos líderes alertaram, em termos inequívocos, que o modelo do GHF militariza a ajuda, viola as normas humanitárias e coloca as vidas palestinas em risco ainda maior.

O objetivo do GHF nunca foi entregar ajuda. O objetivo é usar a ilusão da ajuda para controlar a população de Gaza — e encobrir crimes de guerra.

A população de Gaza está morrendo de fome porque Israel quer. Milhares de caminhões de ajuda humanitária, muitos carregados com suprimentos das Nações Unidas, estão impedidos de entrar em Gaza há meses. Eles contêm alimentos, água, remédios e materiais para abrigos — a força vital de uma população civil sitiada. Mas, em vez de deixá-los passar, os EUA e Israel estão promovendo sua própria versão de ajuda: uma operação privatizada e militarizada. Segundo os relatos , contratados americanos armados que trabalham para o GHF ganham até US$ 1.100 por dia, além de um bônus de assinatura de US$ 10.000.

O plano do GHF é disponibilizar ajuda apenas no sul, deslocando à força as pessoas do norte, levando-as em direção à fronteira egípcia, onde muitos temem que uma expulsão permanente esteja sendo planejada.

Desde o início das operações da GHF, com a abertura de dois centros de distribuição no sul de Gaza em 26 de maio, o caos se tornou mortal , com o exército israelense atirando contra pessoas famintas em busca de comida. Em seu curto período de operação, quase 100 palestinos foram mortos e centenas ficaram feridos. Estes não são acidentes trágicos — são resultados previsíveis da militarização da ajuda.

Vamos também abordar a alegação alarmista de que, quando a ONU estava encarregada da entrega de ajuda humanitária, alimentos estavam sendo roubados pelo Hamas. Não há evidências confiáveis ​​disso, e Cindy McCain, chefe do Programa Mundial de Alimentos (PMA), refutou publicamente essa alegação, afirmando que caminhões foram saqueados por pessoas famintas e desesperadas.

A verdadeira ameaça à integridade da ajuda não é o Hamas, mas o próprio bloqueio, que criou uma escassez artificial e alimentou mercados negros, desespero e caos.

Para realmente ajudar o povo de Gaza, aqui está o que precisa acontecer:Feche o GHF e rejeite todos os programas de ajuda militarizada.


*Restabelecer o financiamento integral dos EUA para a UNRWA e o Programa Mundial de Alimentos — agências confiáveis ​​e experientes que sabem como fazer esse trabalho.

*Exijam que Israel encerre o bloqueio. Deixem entrar caminhões de ajuda humanitária — caminhões da ONU, caminhões da Cruz Vermelha, caminhões do PMA. Inundem a faixa com alimentos, remédios e barracas.

*Exija um cessar-fogo imediato para interromper a matança e criar espaço para alívio significativo e soluções políticas.


A fome em Gaza não é um fracasso logístico. É uma escolha política de Israel. E o FGH não é uma tábua de salvação. É uma mentira. É cumplicidade. É diabólico. E os contribuintes americanos não deveriam ser forçados a financiá-lo.
Medea Benjamin

domingo, 15 de junho de 2025

Um primeiro passo em busca da Palestina

Desde outubro de 2023, compreendi que minha formação em História em uma destacada universidade pública brasileira, minha trajetória profissional e militante no campo das relações raciais e do antirracismo, e, sobretudo, uma educação marcada por valores como justiça e igualdade — transmitidos por minha mãe —, precisavam ter alguma utilidade. Afinal, assistíamos o início de uma das etapas mais escancaradas do genocídio palestino — resultado de décadas de apartheid, limpeza étnica e desumanização sistemática —, e eu não poderia ser apenas mais uma testemunha silenciosa diante da barbárie. Foi então que decidi dedicar minha parca e limitada presença pública à causa palestina.

Naquele momento, a questão que me atravessava era: como contribuir não apenas para a denúncia do genocídio em curso, mas também para o aprimoramento do debate público, tão viciado pela perspectiva sionista? Como enfrentar os estereótipos e caricaturas que desumanizam os palestinos — e os árabes, em geral — e que servem, na maior parte do tempo, para justificar a violência brutal a que estão submetidos há décadas? Cada pessoa usa as
ferramentas que tem à disposição. As minhas são unicamente — feliz ou infelizmente — as palavras.

Foi assim que nasceu o livro  "Gaza no coração: história, resistência e solidariedade na Palestina", que organizei em 2022 pela Editora Elefante, reunindo mais de 40 autoras e autores comprometidos com a causa palestina. Foi com esse mesmo espírito que também editei — sob a supervisão de Laura Di Pietro — e organizei — com Atef Abu Saif e Abd Al-Salam Atari — o primeiro volume da coleção Diários de Gaza, a que dei o sugestivo título de A memória é uma casa indestrutível, que conta com textos de 14 mulheres e homens palestinos que vivem em Gaza. 

Acredito no poder dos livros — não necessariamente de transformar a realidade de forma imediata, mas de nos transformar como pessoas. Livros criam brechas: abrem caminhos para mudanças de consciência, para a escuta, para a empatia. Aproximam pessoas do sentimento de justiça e, sobretudo, aproximam as pessoas umas das outras.

Comerciantes vendem uvas, romãs e passas no mercado (1920-1933)

É por isso que iniciamos agora este especial  Biblioteca Palestina: uma jornada guiada por livros, um programa de leitura que busca nos aproximar da Palestina e dos palestinos, e que nos ajude a construir as conexões necessárias para compreender, denunciar e combater o genocídio em curso. Espero que este percurso literário seja um guia para quem ainda não sabe por onde começar, mas deseja conhecer mais sobre a Palestina. E que seja, também, um espaço de encontro entre leitoras e leitores experientes, estudiosos e todas as pessoas interessadas na história, na literatura, na memória e na luta anticolonial do povo palestino.

Iniciamos nossa jornada com um dos mais importantes escritores palestinos de todos os tempos — e um dos maiores poetas da literatura mundial: Mahmud Darwich, e seu primeiro livro em prosa, publicado em 1973, Diário da tristeza comum (no Brasil, pela editora Tabla, em 2024). Mas por que começar por este título, e não por algum dos muitos livros que oferecem uma síntese da questão palestina, disponíveis nas livrarias?

Chegaremos a eles. No entanto, se eu tivesse que indicar um único livro capaz de articular os aspectos históricos da Palestina moderna com a dimensão subjetiva e poética de seu povo — ou seja, que una os processos históricos à experiência vivida dos sujeitos —, este Diário de Darwich, sem dúvida, seria o melhor primeiro passo que poderíamos dar.

Nascido em 1941 na aldeia de Albirwe — uma vila que foi destruída pelo exército israelense durante a Nakba de 1948 —, Darwich experimentou o exílio desde a infância, após sua família fugir para o Líbano para escapar da violência sionista. Ao retornar clandestinamente à Palestina pouco depois, sua condição passou a ser a de “ausente presente”, um termo usado pelo Estado de Israel para classificar palestinos deslocados internos, privados de direitos plenos sobre sua própria terra.

Essa marca de desenraizamento e resistência atravessa toda a sua obra poética e política. Ainda jovem, Darwich começou a publicar poemas em jornais árabes e logo se tornou um símbolo da luta nacional palestina por meio da poesia. Trabalhou como jornalista e editor, foi preso diversas vezes por suas palavras e, em 1970, partiu para o exílio, vivendo em Beirute, Moscou, Cairo, Paris e retornando para Ramallah, onde morreu em 9 de agosto de 2008, aos 67 anos, após complicações de uma cirurgia cardíaca.

Como já mencionamos, Diário da tristeza comum foi o primeiro livro de prosa de Mahmud Darwich. A obra reúne nove ensaios que entrelaçam memórias pessoais do autor com fragmentos fundamentais da história palestina. O primeiro texto, “A lua não caiu no poço”, é um mergulho na infância de Darwich, em que ele revive a experiência da expulsão e do exílio. Esse ensaio inicial constitui, portanto, uma excelente porta de entrada para a compreensão da Nakba — a catástrofe palestina de 1948, marcada pela destruição de vilas, o deslocamento forçado de centenas de milhares de pessoas e a impossibilidade do retorno.

Já nesse primeiro capítulo, Darwich formula uma pergunta que atravessará todo o livro: o que é a pátria? Trata-se de uma questão central para os palestinos, que vivem sob o paradoxo de possuir uma identidade nacional sem um Estado nacional reconhecido. É a partir dessa angústia que ele afirma: “Um lugar não é apenas uma área geográfica, é também um estado de espírito” (p. 24).

Ao longo dos ensaios, a ideia de “pátria palestina” assume múltiplas formas, deslocando-se entre paisagem, memória, língua, infância e ausência. Mas há momentos em que Darwich adota uma definição precisa, sobretudo quando confronta a narrativa colonial israelense de pertencimento: “O fato de os conquistadores se reproduzirem na terra de outro povo não lhes garante o direito de chamá-la de pátria” (p. 17).

Esse é um ponto nevrálgico do livro: ao longo da leitura, Darwich nos conduz por um mosaico de experiências e reflexões que tanto revelam quanto desmontam o caráter colonial da ocupação sionista na Palestina — um paradigma incontornável para qualquer debate honesto sobre a questão, ainda que frequentemente negado, inclusive em setores que se dizem progressistas.

No ensaio seguinte, “A pátria: entre a memória e a história”, a pergunta se aprofunda — “pátria” não é apenas um lugar fixo no mapa, assume um sentido movente, mutável e, sobretudo, profundamente político. De forma instigante, o texto se transforma em uma crítica contundente às práticas narrativas do Estado israelense, revelando como a disputa pela memória é, também, uma forma de guerra. Para Darwich, memória e história não são apenas registros do passado, mas territórios de enfrentamento.

“A cultura israelense insiste em saturar a memória dos cidadãos com o Holocausto na Europa, a fim de intensificar seus sentimentos de isolamento e alienação do resto do mundo. Esses sentimentos constituem uma parcela fundamental da psique e do temperamento israelense. Como resultado, o cultivo da memória israelense é dedicado a um único objetivo político: continuar lembrando ao povo que ele está sempre sujeito à aniquilação, e que retornar à ‘Terra de Israel’ e permanecer nela são as únicas garantias políticas e históricas de segurança — além de promover a reivindicação sionista da Palestina.” (p.44).

Sem dúvida, este é um dos textos mais poderosos do livro, pois oferece ao leitor chaves fundamentais para compreender o que está em jogo na relação colonial entre israelenses e palestinos. Darwich desmonta, logo de início, a ideia de uma simetria possível entre opressor e oprimido. Mas não se detém aí: sua investigação sobre o significado de “pátria” no contexto da disputa violenta pela memória o conduz a uma das definições mais sofisticadas que já li: “Quando você luta, você pertence. E a pátria é essa luta. Entre a memória e a mala não há solução senão a resistência.” (p. 56)

Caso ainda restem dúvidas sobre a assimetria da relação entre israelenses e palestinos — ou sobre o caráter colonial da ocupação sionista —, o próximo ensaio dissipa qualquer equívoco de forma definitiva. Em Diário da tristeza comum, que dá título ao livro, somos conduzidos por Darwich a uma série de fragmentos do cotidiano palestino. São 17 cenas aparentemente banais, triviais, rotineiras — mas que revelam, justamente por sua simplicidade, o horror e o absurdo que moldam a vida sob ocupação.

Ir ao mercado, escrever uma peça teatral, andar pela rua, comemorar o Ano-Novo, dormir, pegar um táxi, viajar, celebrar o próprio aniversário, alugar um apartamento, visitar a família, sonhar. Atos cotidianos, corriqueiros para muitas pessoas, tornam-se, para os palestinos, experiências carregadas de angústia, frustração e medo. Cada gesto banal carrega um gosto amargo — o peso de uma existência vigiada, controlada, interrompida.

É neste ensaio que mais se evidencia aquela característica já mencionada: a articulação entre a experiência subjetiva do indivíduo e a violência estrutural da história. Aqui, a tristeza comum — diária, repetida, silenciosa — deixa de ser um sentimento individual para se tornar um retrato coletivo, a marca da vida palestina sob o regime colonial. O título, longe de ser apenas lírico, nomeia uma condição histórica.

É à história que boa parte dos ensaios seguintes se dedica. “Quem mata cinquenta árabes perde um centavo” é a reflexão de Darwich sobre o massacre de Kafar-Qassim, ocorrido em 1956, quando 49 palestinos foram brutalmente assassinados por forças israelenses. Mas o horror não se encerrou nas mortes: os responsáveis pelo massacre foram “punidos” com o pagamento simbólico de uma moeda de um centavo. Darwich conclui, sem rodeios: “A matança a sangue-frio e a violência armada constituem a filosofia israelense” (p. 102).

Neste capítulo, torna-se evidente que a violência não é um desvio ocasional, tampouco um erro isolado de governos de extrema-direita. A violência é a própria estrutura que sustenta a arquitetura do sionismo. Como afirma o autor:

“Os crimes que Israel comete contra civis árabes, dos quais o massacre de Kafar-Qassim é um exemplo chocante, não decorrem de uma ‘má’ aplicação da ‘excelente’ herança sionista, mas sim de uma excelente aplicação da terrível herança sionista.” (p. 105)

E, como sempre em Darwich, a história retorna à terra. Ao fim do ensaio, depois do horror, reencontramos a pátria — agora como resistência encarnada: “O povo palestino sabe vingar seus mortos: agarra-se ao solo da pátria com unhas e dentes.” (p. 107). 

Os ensaios seguintes abordam os acontecimentos que culminaram e se seguiram aos acontecimentos de junho de 1967 — episódio conhecido mundialmente como Guerra dos Seis Dias, mas que, para os palestinos, representa a Naksa (em árabe, “o retrocesso”): o marco da ocupação israelense da Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jerusalém Oriental, Colinas de Golã e Península do Sinai.

A Naksa aprofunda, de forma brutal, o processo iniciado em 1948 com a Nakba (“a catástrofe”), isto é, a criação do Estado de Israel e a expulsão de cerca de 750 mil palestinos. Se a Nakba representou o início do deslocamento forçado em massa, da destruição sistemática de centenas de vilarejos e da negação do retorno, a Naksa consolidou a ocupação militar de quase toda a Palestina histórica e deu início à política de assentamentos ilegais, especialmente na Cisjordânia e em Jerusalém Oriental.

No ensaio “A alegria quando trai”, Darwich expõe a instabilidade e a fragilidade de qualquer ideia de paz ou normalidade para os palestinos, que são ciclicamente confrontados com a perda de território, de vidas e, sobretudo, da possibilidade concreta de constituir um Estado.

Os textos de Diário da tristeza comum são assustadoramente atuais. Denunciam a anterioridade da tragédia palestina, o que desmonta a narrativa de que a história teria começado em outubro de 2023. Essa atualidade se torna ainda mais chocante ao lermos o ensaio “Silêncio por Gaza”. Mas, mais do que o espanto, esse texto oferece uma lição que deveríamos aprender antes de emitir opiniões apressadas sobre a Operação Dilúvio de Al-Aqsa, lançada pelo Hamas em 7 de outubro de 2023:

“O segredo de Gaza não é mistério: suas massas estão unidas na resistência popular. Ela sabe o que quer: expulsar o inimigo das roupas dela. Em Gaza, a relação entre resistência e massas é a de carne e osso, e não a de professor e aluno.” (p. 138)

É importante lembrar que, quando Darwich escreveu essas palavras, o Hamas ainda nem existia — sua fundação só ocorreria em 1987. Ainda assim, a chave para compreender a realidade palestina já estava ali, clara e irrefutável: “Os únicos valores que uma pessoa que vive sob ocupação pode defender são os da resistência à ocupação.” (p. 136). Que essa lição não seja ignorada.

Ao final do livro, mais uma pergunta nos é lançada: “O peso da questão palestina é maior do que o que qualquer ombro pode suportar. Então por que razão deveríamos carregá-lo sozinhos?” (p. 161). Encerrando o livro com esse questionamento, Mahmud Darwich não apenas nos interpela — ele nos convoca. Convoca a estar ao lado do povo palestino em sua luta por libertação, justiça e dignidade. Não é possível, após a leitura destes ensaios, ainda restarem dúvidas sobre a justeza da causa palestina e sobre a urgência de sua defesa.

Enquanto escrevo estas palavras, doze ativistas humanitários — entre eles o brasileiro Thiago Ávila — se aproximam da costa de Gaza, a bordo da Flotilha da Liberdade, levando alimentos, medicamentos e suprimentos médicos ao povo palestino, após mais de 600 dias da etapa mais letal do genocídio em curso. Mas eles não carregam apenas itens essenciais, criminosamente negados: levam também a resposta à pergunta de Darwich. Os palestinos não carregarão esse fardo sozinhos.

Além da bela tradução da professora Safa Jubran e do tocante posfácio do escritor Milton Hatoum, que compõem a edição brasileira publicada pela editora Tabla, em 2024, este livro é a melhor porta de entrada para quem deseja se aproximar da questão palestina. Primeiro, porque oferece um mergulho na realidade cotidiana dos palestinos, destacando a perspectiva subjetiva e poética de Darwich. Não se trata apenas de um relato de fatos — trata-se de um convite à reflexão sobre o que esses fatos significam para aqueles que os vivem.

Em segundo lugar, porque o livro demonstra com clareza a anterioridade do martírio palestino — uma história que não começou em outubro de 2023, como muitos ainda acreditam. Para quem só recentemente ouviu falar da Palestina, este livro é uma chave fundamental de compreensão da profundidade da questão.

Em terceiro lugar, Darwich aborda momentos cruciais da história palestina — da Nakba, em 1948, aos desdobramentos trágicos da Naksa, em 1967. Compreender esses eventos é indispensável para entender a estrutura da ocupação e seus efeitos profundos sobre a sociedade palestina.

Em quarto lugar, o autor realiza uma investigação crítica da mentalidade e da cultura israelense — e não o faz por meio de caricaturas, mas revelando como uma sociedade inteira pode ser moldada por um projeto colonial. O sionismo, como ele mostra, não se reduz a decisões políticas ou governos de ocasião: é uma lógica de dominação enraizada na cultura, na educação, na mídia, na memória coletiva e, claro, nas práticas militares cotidianas.

Em quinto lugar — e atrelado a isso —, este livro desmonta de maneira contundente a “teoria dos dois lados”, que insiste em forjar uma falsa simetria entre colonizador e colonizado, entre ocupante e ocupado. Essa visão, ainda dominante mesmo entre setores progressistas no Brasil, é desafiada por Darwich com firmeza e lucidez, reafirmando o caráter estruturalmente colonial da ocupação sionista. Isso nos obriga, no mínimo, a repensar profundamente nossas leituras sobre a resistência palestina.

E, por fim, este livro é imprescindível na Biblioteca Palestina porque registra as experiências, as ideias e a sensibilidade de um dos maiores escritores de todos os tempos — um patrimônio cultural do povo palestino, que deve ser celebrado, preservado e lido com atenção.

Por tudo isso, Diário da tristeza comum é uma excelente indicação para quem deseja iniciar uma jornada em direção à Palestina. Tenho certeza de que essa leitura promoverá um encontro poderoso, necessário e inesquecível.
Rafael Domingos Oliveira

No pântano cultural

Quando você vê no horário nobre da TV um vídeo mostrando que ninguém mais pode confiar num vídeo, pode ter certeza de que a crise de credibilidade da imagem bateu no limite do insuportável, até mesmo para os profissionais de televisão. E é isso, rigorosamente isso, o que estamos vendo agora.

No domingo passado, o Fantástico pôs no ar esse alerta: duvide do vídeo. Numa reportagem impecável (embora leve, informal e quase sorridente), a telerrevista da rede Globo mostrou que os recursos de Inteligência Artificial já conseguem fabricar cenas perfeitas com personagens que nunca existiram – ou, o que é pior, cenas mais do que convincentes com personagens que existem, mas nunca fizeram nada daquilo que se vê na tela.


Sim, a crise de credibilidade é real e chega até nós como um terremoto. É bom pensar duas vezes, ou mais de duas, antes de acreditar nos filminhos ou filmões que se se insinuam para os seus olhos. Você talvez escape das armadilhas. A grande maioria das pessoas, porém, continuará caindo em cada uma delas.

Antes de qualquer outra consideração, reconheça-se o mérito do Fantástico. O programa, que é inteiramente feito de pixels, teve a coragem de expor a falseabilidade dos pixels. A ousadia se justifica. Apontar as fraudes digitais, que se banalizam aceleradamente, é o melhor caminho, e talvez seja o único, para resguardar a autenticidade que só a imprensa profissional é capaz de oferecer.

A confiabilidade da informação não poderá mais se lastrear no esmero plástico dos enquadramentos, mas na palavra de honra de quem gravou, de quem editou e de quem pôs no ar. O vídeo pode ser rudimentar – como aqueles que, trepidantes, esmiúçam a destruição em Gaza – e ser honesto, ou pode ter ares de refinamento – como alguns dos que, durante a pandemia, fizeram publicidade de um certo vermífugo – e não passar de mentira criminosa.

Os olhos não poderão mais separar o falso do verdadeiro. O que importa não é mais a dosagem da luz ou o movimento estável da câmera do telejornal, mas o compromisso de quem assina embaixo. O padrão de qualidade não será mais técnico – terá de ser ético. O Fantástico sabe disso e aposta nisso, mas a massa de telespectadores ainda vai demorar para entender a gravidade do que está em curso.

Estamos numa transição que afetará em definitivo a nossa forma de contemplar e conhecer o mundo. A fotografia e o vídeo deixarão de ser registros confiáveis dos acontecimentos. Parece um detalhe desprezível dentro do vasto mundo da comunicação social, mas esse detalhe terá consequências monstruosas. Um close pode até divertir, encantar, emocionar, hipnotizar, pode até gerar lucros polpudos, mas não é mais prova de nada.

A função recreativa das câmeras deglutiu a função documental que elas tinham. Só o que ainda merece alguma confiança, vale repetir, é a palavra (de honra), e mesmo essa se esfarela nas fantasmagorias fluorescentes dos passatempos públicos.

Tudo aconteceu muito rápido. Em 1991, no livro Vida e morte da imagem, Régis Debray escrevia que somos “a primeira civilização que pode julgar-se autorizada por seus aparelhos a acreditar em seus olhos”. Ele disse mais: “uma foto será mais ‘crível’ do que uma figura, e uma fita de vídeo do que um bom discurso”. O tom era de profecia, mas era também de cética: Debray criticava com acidez a fé nas imagens eletrônicas, apontando a inconsistência dessa fé profana.

Ele tinha razão. Hoje, a mesma civilização que achava “crível” sua videografia é chamada a duvidar dos próprios olhos. Mas ela terá força para duvidar do vídeo? Dificilmente. Será que ela deseja realmente duvidar do vídeo? Todos os sintomas disponíveis dizem que não.

O mais provável é que a tal civilização ainda sucumba muitas e muitas vezes às manipulações grosseiras. O mais provável é que caia em armadilhas previsíveis e seriais, como vem caindo, para deleite dos extremistas, dos populistas, dos autocratas e dos espertalhões junkies que são donos de big techs. Em vez de duvidar dos olhos, as sociedades que aí estão parecem preferir ter prazeres – vis, vãos e vadios – com suas retinas cínicas.

Democracias em risco. Se você pensar um pouco, perceberá que, quando a função recreativa das câmeras deglutiu a função documental que elas um dia tiveram, deglutiu junto umas franjas consideráveis da razão e corroeu a qualidade do debate público. Manipulações cibernéticas ainda farão muito estrago.

Diante do que está vindo aí, as perversidades de Joseph Stalin, que mandou apagar o semblante de Leon Trótsky da memória fotográfica da Revolução Russa e assim tapeou multidões de todos os continentes, parecerão uma travessura infantil. O problema hoje é de outra ordem. O falseamento não é mais exceção, mas a regra.

Nos nossos dias, já sabemos: um vídeo vale menos que um discurso e uma foto vale menos que uma figura. Mas como despertar a sociedade? Foi bom ver a denúncia no Fantástico, mas foi pouco. No pântano cultural em que nos atolamos, uma imagem fingida ainda valerá mais do que mil palavras sinceras. Por muito tempo.

sábado, 14 de junho de 2025

O PL da Devastação e a miopia climática

Na contramão dos esforços para conter e mitigar a crise climática, o Congresso Nacional está prestes a aprovar o PL 2159/21, que implodirá importantes mecanismos de proteção socioambiental estabelecidos pela Constituição de 1988 que vêm sendo implementados ao longo das últimas décadas.

Para atender aos interesses imediatos e à ganância de alguns setores da economia, o Parlamento comprometerá os interesses gerais de toda a comunidade, assim como o próprio desenvolvimento sustentável da economia brasileira, que tem na preservação ambiental e na biodiversidade a sua maior vantagem competitiva.


Como há muito alertou David Hume, os homens comumente se deixam seduzir por tentações presentes, ainda que irrelevantes, em detrimento daqueles interesses que lhe são verdadeiramente importantes, mas mais longínquos, sendo essa uma fraqueza "incurável na natureza humana".

Com a aproximação da 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30), que se realizará em Belém, setores predatórios da economia brasileira têm mobilizado suas bancadas no Congresso Nacional para promover um verdadeiro atentado contra o bem-estar das futuras gerações. O festival de agressões ao meio ambiente, à biodiversidade e aos direitos fundamentais dos povos tradicionais tem como peça central o chamado PL da Devastação.

Conforme nota técnica emitida pelo Observatório do Clima, o objetivo central do projeto, em vias de aprovação na Câmara dos Deputados, é ampliar as hipóteses de isenção de licenças ambientais, priorizando o autolicenciamento, inclusive para projetos com potencial poluidor. Isso reduzirá a capacidade de prevenir desastres ambientais, devastação florestal e degradação ambiental, além de fragilizar os mecanismos de fiscalização e punição daqueles que agridem o meio ambiente.

O projeto, se aprovado, também violará os direitos indígenas, quilombolas e das populações tradicionais, na medida em que restringiu a participação de diversas agências e autoridades responsáveis pela proteção dessas populações no processo de licenciamento, além de deixar desprotegidas as áreas ainda não demarcadas. Preocupação esta que foi expressa pelo Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos em mensagem endereçada ao Congresso.

Mesmo aqueles que defendem reformas no processo de licenciamento ambiental, como o presidente do Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram), Raul Jungmann, alertam para os riscos de "arrebentar os mecanismos de controle e fiscalização do meio ambiente".

Além dos impactos sobre o meio ambiente e as populações que protegem nossas florestas, o PL 2159 também ameaça o regime de chuvas e a segurança hídrica, indispensáveis para o sucesso do agronegócio e da própria estabilidade da vida em grandes conglomerados urbanos. Se aprovado, promoverá ainda uma enorme insegurança jurídica, provocando uma explosão de litigiosidade. Pior, esse litígio ocorrerá depois que o estrago já tiver ocorrido.

Trata-se de um projeto de lei eivado de inconstitucionalidades e que não trará nenhum benefício à sociedade brasileira. Como as pérfidas agressões à ministra Marina Silva por parte de alguns senadores, esse projeto é uma expressão da irresponsabilidade e do descaso de muitos parlamentares com as futuras gerações.

Por todos esses motivos, o PL 2159 não deveria ser aprovado. Se for aprovado, deveria ser vetado pelo presidente. Se sancionado, deveria ser declarado, em seu cerne, inconstitucional.

'Colonialismo alimentar'

Quase um milhão de pessoas na África Ocidental e Meridional poderiam ser alimentadas semanalmente com porções dos peixes selvagens locais que hoje são capturados para a produção de ração de outras espécies criadas em cativeiro em países europeus. É o que revela o relatório "Ocean Takeover", divulgado nesta quinta-feira na terceira Conferência da ONU sobre os Oceanos (UNOC3), em Nice, pela ONG britânica Foodrise e a aliança grega Aktaia. O estudo mostra que a prática tem agravado ainda mais a situação precária das regiões, onde ao menos 77 milhões de pessoas enfrentam um quadro de insegurança alimentar, de acordo com a ONU.

Segundo o documento, a criação intensiva de espécies como o robalo e a dourada domina vastas áreas marinhas do Mediterrâneo, especialmente na Grécia — maior produtora da União Europeia e a segunda maior do mundo (atrás apenas da Turquia), com um crescimento de 141% desde o início dos anos 2000. Somente em 2022, o país produziu cerca de 137 mil toneladas de peixes de cativeiro, 92% sendo dessas duas espécies altamente consumidas na Europa.

Para alimentar esse modelo de indústria que se espalhou pela região, desde a Turquia até as Ilhas Canárias, utilizam-se grandes volumes de peixes pequenos de mar aberto, essenciais para a cadeia alimentar marinha e para a segurança alimentar de muitas comunidades costeiras, como sardinha, anchova, cavala e arenque, na produção de farelo e óleo de peixe (fishmeal and fish oil, ou FMFO).


As espécies são extraídas principalmente da costa do Senegal, da Mauritânia e da Gâmbia, e estima-se que até cinco quilos de peixes selvagens sejam necessários para alimentar apenas um quilo de peixe cultivado em cativeiro. Tal desequilíbrio contribui diretamente para o esgotamento das populações locais das espécies, afetando a pesca artesanal e a dieta de milhares de famílias, que já estão em situação vulnerável. Segundo dados da ONU, cerca de 77 milhões de pessoas enfrentam insegurança alimentar grave na África Ocidental e Meridional, com quase 50 milhões na primeira e aproximadamente 27 milhões na segunda região.

— O que estamos vendo como resultado do crescimento da aquicultura com ração é uma transferência de micronutrientes de países do Sul Global (onde uma parte significativa do FMFO é produzida) para países do Norte Global, mercados de alta renda, principalmente na Europa e América do Norte, mas cada vez mais também na Ásia (incluindo a China) — diz Natasha Hurley, diretora de campanhas da Foodrise.

Segundo o relatório, a aquicultura intensiva também gera sérios impactos ambientais. Os sistemas de criação confinam grandes quantidades de peixes em redes flutuantes, favorecendo a disseminação de poluentes, além da grande concentração de dejetos orgânicos e restos de ração, prejudicando a biodiversidade e ecossistemas já sensibilizados.

Contudo, apesar dos impactos ambientais e sociais, o setor recebe forte apoio financeiro da UE. A Grécia, por exemplo, deve receber 91 milhões de euros (R$ 578 milhões) do Fundo Europeu Marítimo, das Pescas e da Aquicultura (Feampa) para fomentar a expansão da aquicultura até 2027, enquanto a legislação local aumentou em 24 vezes as áreas permitidas para esse tipo de criação.

Além disso, em março deste ano, a Comissão Europeia lançou uma campanha para promover a criação de peixes, mariscos e algas como uma solução sustentável para a segurança alimentar. A iniciativa enfatiza o "enorme potencial" da aquicultura, nas palavras do eurodeputado Paulo do Nascimento Cabral, que também defendeu que "é preciso passar a mensagem aos europeus de que os produtos da aquicultura são seguros e também produzidos de forma sustentável" na Europa.

Para Hurley, no entanto, o atual modelo extrativista da aquicultura europeia representa uma forma contemporânea de "colonialismo alimentar", sendo impulsionado pelo lucro das empresas, e não por um real compromisso com a segurança alimentar global.

— A aquicultura intensiva tornou-se um grande negócio. Se as empresas estivessem realmente comprometidas com a segurança alimentar, não estariam cultivando salmão e robalo — diz Hurley.

A diretora defende ainda que a única forma de proteger os oceanos e as comunidades vulneráveis ao redor do mundo é impor uma "moratória imediata sobre novas fazendas industriais de peixes e o desmonte gradual das instalações existentes".

"As operações de aquicultura europeias estão, literalmente, tirando o pão da mesa dos africanos para encher estômagos europeus. Esse sistema extrativista precisa acabar, e devemos encontrar alternativas sustentáveis que priorizem a segurança alimentar local em vez do lucro com exportações", defendeu Aliou Ba, líder da campanha pelos oceanos do Greenpeace África, no documento.

— O mais revoltante é que todo esse peixe saqueado aqui nem sequer alimenta seres humanos: vai para a Europa e a Ásia engordar peixes de cativeiro — diz Mor Mbengue, presidente do comitê de pescas artesanais de Cayar, do Senegal. — É uma injustiça que não suportamos mais.

A Pós-verdade

Estamos vivendo coisas com que nunca sonhamos. Uma delas, a pós-verdade, que colocou a mentira no lugar da verdade, que deixou de ser o que é para tornar-se o que as emoções da rede social definiram como verdade. O fato foi substituído pela narrativa.

As descobertas científicas colocaram em nossas mãos milagres. Podemos, numa tela vazia em nossa frente, por artes de Deus ou do diabo, ver o que se passa em todos os lugares do mundo no instante mesmo em que estão acontecendo. Com uma pequena caixinha que cabe na palma de minha mão, posso localizar qualquer pessoa em qualquer lugar do mundo e falar com ela, através dela me comunicar, saber e transmitir notícias, prever o tempo, fazer cálculos matemáticos e recuperar mensagens que me mandaram de outra máquina fabulosa — sua excelência, o computador —, que com um teclado que também me conecta com todo o mundo no mesmo instante que me fornece todas as informações que desejo, milhões e milhões de dados sobre tudo, a cada segundo, sem um centro organizador e produtor, que vão se multiplicando quando alguém mais se junta a esse processo, que não tem limites e atinge o infinito, que é o conceito de rede.

O que acontece com nossa cabeça que foi da cultura oral, fez uma pausa no livro e de repente caiu na era da cultura visual? Que mudanças aconteceram em nossa maneira de pensar, nos costumes e nos sentimentos que durante milênios criaram a criatura humana que a História formou até agora? Nós nos acostumamos a conviver com a alegria, com a tristeza, com o amor em todos os seus níveis, com a noção de trabalho, com os valores da família, os sentimentos de ódio, da cólera, da violência, tudo isso de maneira artesanal, criando outro mundo, outra sociedade para a qual não estávamos preparados, diferente, com coisas que não podemos dominar, outro mundo a que buscamos nos adaptar, e não ele a nós.

Tudo mudou. Vivemos nossas circunstâncias, em que são as da realidade. Porém nossa realidade não é realmente a realidade. Nossos sentimentos e nossas reações estão sendo reciclados e já não são o que nos faziam acreditar. “O que em mim sente está pensando”, dizia o verso de Fernando Pessoa. Só que hoje, sentir e pensar não são mais faculdades do ser individual e sim do ser coletivo que somos.

O amor deixou de ser o amor como o concebíamos no passado. O mesmo acontece com a amizade, com a noção de convivência, com o ódio e a cólera. Estamos perdendo até a indignação, todos submetidos ao uso de uma droga tecnológica. As próprias drogas fazem parte deste contexto. A diferença é que estas são substâncias químicas para a sublimação dos prazeres. A droga da modernidade, com a parafernália de comunicação, nos impõe uma situação mais perigosa que a de não ter a liberdade de ingeri-la, porém, a obrigação de consumi-la.

O culto da velocidade. Não temos mais a liberdade de andar. As distâncias, o estilo de vida que foi criado nos fez dependentes da velocidade, do patinete, da bicicleta, da moto, do carro, do ônibus, do trem, do avião. Já não tem sentido escrever cartas. A civilização é oral, é o telefone. Escrever passou a ser algo atrasado. Escreve-se para confirmar o que se falou. Fala-se por telefone, por fax, pelo computador, pelo cinema, pela televisão, pelas redes sociais na internet.
Vemos perplexos que somos um grande laboratório e que estamos nos transformando com todas as mudanças que acontecem no mundo. É como se estivéssemos chegando ao desaparecimento da espécie de homem que foi o homem e que fez a História que chegou aos nossos dias.

Estamos em meio a estas perplexidades que são mais de segurança que de dúvidas. Nossas reações são condicionadas pelas inseguranças que nos rodeiam. Já não sabemos o que é bom e o que é mau. Nossos códigos de ética e comportamento individual, aquelas leis que cada um de nós processa dentro de si ao longo da vida, de um momento para outro estão questionadas pela realidade virtual. São os meios de comunicação que nos condicionam, e de tantas informações que nos chegam já não podemos distinguir o que é verdade e o que é mentira… As verdades são tantas que é impossível saber qual delas realmente é a verdade.

Abrimos os jornais, vemos televisão, navegamos na internet, e a soma de informações que nos chegam são tão grandes que não podemos estabelecer uma escala de valores para absorvê-las.

Estamos dentro da bolha da rede social na internet, da qual é impossível fugir. A tarefa de sair tornou-se inexpugnável.

São tantas as versões que existem sobre uma verdade que é difícil descobrir onde está escondida a verdadeira mentira.

A internet é uma droga pesada

No início, há uns sete anos, quando meu neto abriu uma conta no Instagram para mim, me empolguei. Que instrumento maravilhoso de comunicação: ter seu próprio jornal, sua rádio e sua televisão, para dizer o que quiser. Pero no mucho.

Quando você começa a postar, também começa a seguir outros perfis, e mais outros, e mais outros, e quando vê está viciado nisso, cai na rede do algoritmo, perde horas de precioso tempo com futilidades, fofocas e bobagens sem se dar conta, uma vai puxando a outra, e a outra, sem que você consiga interromper o fluxo. Se torna um vício — ou, mais clinicamente, uma dependência. Uma patologia contemporânea. Uma espécie de droga psicológica.


Você se engana, pensando que está buscando informações, reflexões e novidades, mas sua atenção está sendo atraída para iscas, guloseimas e publicidade do algoritmo. É difícil resistir, quebrar o hábito. Talvez logo surja um Instagrâmicos Anônimos para ajudar quem quer se livrar da adicção. Ou do rótulo de advertência, inútil, “use com moderação”. Rede social é droga pesada.

No início da empolgação, minha filha me sacaneava: “o papai se mudou para Instaland”, comentava, concluindo com “rsrs” debochados. Mas a fase aguda foi superada e tento manter uma relação equilibrada com o mundo digital, principalmente porque tenho muito a trabalhar e criar, e a essas alturas da vida, o tempo é cada vez mais precioso. Mas, em algumas circunstâncias, como no táxi, numa sala de espera — em qualquer lugar de espera— , é irresistível, e muito bem-vinda. É melhor me concentrar no que realmente importa, não usar só como um alternativa ao tédio, à solidão e à melancolia.

Mas às vezes vejo o que não queria, e aí já é tarde. Exibicionismos e autoexaltações constrangedores, confidências e sinceridades envergonhantes, urgências de aceitação e validação patéticas, conselhos e orientações de quem não sabe nada, tempo absolutamente perdido.

O problema é que as páginas e assuntos que me interessam tem uma tal abundância de informações, quase sempre controversas, que acabam mais confundindo do que esclarecendo. Quanto mais opções, mais difícil a escolha. Quanto mais aprendo, menos certezas tenho, o que acaba sendo bom, porque estimula a saber mais. E saber para quê? Na superfície e no fundo, para viver melhor, ser mais feliz. O problema é que, quanto mais se sabe, mais consciência da realidade, mais difícil ser feliz, seja lá o que isso for. A vida acontece off-line.

Consenso e discordâncias

O Brasil tem um consenso sobre a tragédia de sua educação, mas ainda enfrenta quatro grandes discordâncias: sobre as causas desse estrago; suas consequências; as metas que devemos perseguir; e os caminhos para atingi-las. A Unesco nos instala em 72º lugar entre 125 países avaliados; o Pisa, em 57º entre 79 participantes. O país tem cerca de 10 milhões de adultos incapazes de ler. Entre os que leem, a maioria não compreende, interpreta ou analisa o que lê. Cerca de 100 milhões de brasileiros estão despreparados para enfrentar os desafios do mundo contemporâneo. Soma-se a isso o genocídio intelectual provocado pela brutal desigualdade de oportunidades conforme a renda e o endereço do indivíduo. Não há polêmica quanto ao reconhecimento desse quadro.


Mas, para muitos, o horror é resultado natural da história e das características da população. Outros tratam como conspiração de nossas elites. Há quem considere o drama educacional uma questão social. Sim, é, mas enxergá-lo apenas sob esse ponto de vista turva a visão, porque deixamos de perceber que a educação ferida é o pântano que nos impede de chegar ao futuro desejado. Direto ao ponto, e é crucial tê-lo em perspectiva: os problemas estruturais do Brasil — baixa produtividade, pobreza, desigualdade, violência, racismo — são causados, em grande parte, pela baixa qualidade e pela desigualdade da educação de base.

Mesmo entre os que já se espantaram com o estado da educação e se aterrorizam com suas consequências, há discordância sobre as metas necessárias para assegurar educação de qualidade para todos. Poucos acreditam ser possível colocar a educação brasileira entre as melhores do mundo. Falta adesão a uma meta ambiciosa que contemple aprender a ler e escrever com rigor; que faça os jovens fluentes em pelo menos um idioma estrangeiro; que autorize o encantamento com as artes e o debate rico em torno de temas de filosofia, política, história e geopolítica. A educação, desde o início, enfim, é o que nos permite indignar-nos diante da pobreza, da desigualdade, do autoritarismo e dos preconceitos; usar com competência as ferramentas digitais; formar-nos em ao menos um ofício; praticar a solidariedade entre os seres humanos e com a natureza; respeitar os patrimônios cultural e ambiental; querer participar da construção de sociedades pacíficas, com desenvolvimento sustentável, democrático e justo; continuar aprendendo ao longo da vida; e ter a base para disputar as melhores vagas do ensino superior.

Além do consenso com a tragédia, as causas, as consequências, além dos objetivos a serem perseguidos, é preciso superar as divergências sobre como alcançá-los. Muitos acreditam que o Brasil já está no caminho certo e que basta esperar os resultados dos tímidos passos dados ao longo de décadas, por meio de programas como o do Livro Didático, o Estatuto da Criança e do Adolescente, o Pé-de-Meia e a Base Nacional Comum Curricular, entre outros. Para boa parte, porém, os programas federais com execução municipal, embora tragam avanços, não promovem o salto de qualidade e equidade de que o país precisa. Para tanto, seria preciso nacionalizar a educação de base, com a criação de um sistema nacional federal, no qual todas as escolas públicas ofereçam a mesma elevada qualidade — como nas escolas federais já existentes. Os desafios são imensos.

sexta-feira, 13 de junho de 2025

Pensamento do Dia

 


A conversa da bolha

Vivo numa bolha. Se vos parece chocante que o diga, é porque não se apercebem de que também estão dentro de uma. Sempre estiveram. Quer andem de jato privado ou no autocarro da Carris, quer comam nos restaurantes Michelin ou no café do bairro, quer vivam num prédio na periferia ou num bairro de barracas. A vossa experiência será sempre limitada pelas paredes dos lugares que habitam. De cada vez que disserem “eu tenho um amigo que”, saibam que o fazem por esse contacto direto com o que vos rodeia. É como se esticassem um braço e apenas aquilo em que tocam fosse real. Ora, essa ideia faz-vos sentido? Faz-vos sentido que só seja possível falar sobre aquilo que experienciámos diretamente?

Eu não estou em Gaza e não faço ideia do que será ver os meus filhos morrer à fome. Não devo falar sobre o que não sei? Eu não vivo numa habitação precária, sem luz nem aquecimento. Estou impossibilitada de falar sobre o problema? Ou talvez não funcione assim. Talvez só não possa falar quando o que eu digo assenta em dados estatísticos, relatórios, informações oficiais. Porque só a bolha olha para números. Devo, então, fixar-me no particular.

Se num dia passar numa rua e vir uma senhora a ser assaltada, por dois gordos carecas, devo assumir que aquela rua é um lugar perigoso – mesmo que seja a primeira vez que ali acontece um assalto – e que os gordos carecas são perigosos criminosos em potência. Ah! Também não funciona assim? Estou a fazer uma caricatura, porque sou uma privilegiada, que não sabe o que é viver em ruas onde os gordos carecas são uma ameaça constante. E um dia destes os gordos carecas vão ser mais do que nós, porque eles têm imensos filhos. E nem sequer gostam de trabalhar. Vivem todos à conta de subsídios. Não há subsídios para gordos carecas? Ah, isso não sei, mas uma vez conheci um gordo careca, que passava o dia no café sem fazer nenhum. De certeza que era porque recebia um subsídio por ser gordo careca.


Estão a ver onde nos leva este exercício? Mas, mais importante do que isso, estão a ver qual é o objetivo da conversa da bolha? A conversa da bolha é um mecanismo de desqualificação. A “bolha” serve para desacreditar o jornalismo – uma prática que obedece a regras e métodos –, para calar quem tem um pensamento diferente e, sobretudo, para erodir a confiança.

Numa sociedade em que vinga este mecanismo de desqualificação, a confiança desaparece. Deixamos de acreditar nas notícias, porque elas são escritas por jornalistas que vivem na bolha. Deixamos de acreditar em relatórios e estatísticas porque eles não confirmam aquilo que vemos na nossa bolha. E abrimos espaço a que se aniquile quem pensa de maneira diferente, queimando-o na fogueira dos inquisidores que nos salvam das bolhas.

Uma sociedade sem confiança regressa às trevas do mais primitivo individualismo. O pensamento crítico passa a ser perseguido. Ninguém pode questionar os que estão fora da bolha, porque a sua verdade passa a ser lei. Mas, ao mesmo tempo, ninguém acredita em nada, porque nos dizem que estamos a ser enganados pelo jornalixo da bolha.

A quem é que isso interessa? A quem é que interessa esta desenfreada caça à bolha, feita por gente de dedo em riste, pronta a apontar contra jornalistas, universidades e relatórios? Não é difícil ter a resposta. Interessa aos que não querem ser submetidos ao escrutínio do jornalismo e, por isso, o desclassificam. Interessa aos que querem semear o caos da descrença para oferecer a ordem da obediência e da crença cega. Interessa aos que não gostam dos resultados da ciência e do estudo e querem manter uma ignorância que lhes protege os interesses. Interessa aos que inflamam os ódios alimentados com a desigualdade que lhes serve tão bem e que nunca irão combater. Interessa aos que, no fundo, têm medo.

As experiências individuais são importantes. Mas guiarmo-nos por elas é como andar de olhos colados ao chão e não perceber que, acima da nossa cabeça, existe o céu.

O que é a verdade diante da inteligência artificial?

“O que é a verdade?” (João 18:38)

A pergunta feita por Pôncio Pilatos a Jesus atravessa os séculos. Hoje, ela retorna com força em meio à enxurrada de conteúdos gerados por inteligência artificial. Imagens hiper-realistas, vozes clonadas e deepfakes colocam em xeque aquilo que nossos sentidos sempre tomaram como certo. O que vemos é realmente confiável?

Em maio deste ano, o Google lançou o Veo 3, sistema que gera vídeos tão realistas que se tornam quase indistinguíveis da realidade. Essa tecnologia não somente é um simulacro de imagens e sons, mas redefine o que entendemos como verdade visual. O irreal produz poder de convencimento por seus próprios meios. Seria isso um prelúdio da quebra da confiança nas imagens digitais?


Se antes tínhamos certezas, agora o que vemos e ouvimos pode ser inteiramente fabricado, e mais, com uma aparência quase inquestionável. Não se trata apenas de separar a verdade da mentira, mas também de reconhecer os efeitos de verdade. Nesse contexto, o metaverso, como espaço onde tudo pode ser fabricado, é ao mesmo tempo um risco e um sintoma. Ele não apaga a verdade, mas expõe o seu esvaziamento de sentido. O metaverso revela um mundo em que a verdade se dissolve entre aparências bem-feitas, entre identidades modeladas e experiências hiperestéticas.

Imersos no emaranhado da pós-verdade, em que as emoções e crenças têm mais peso que os fatos objetivos, como analisa o semioticista Eric Landowski, a experiência da verdade mudou de natureza. São metamorfoses: ela é hoje uma experiência sensível, mais do que um dado fixo. Vivemos um tempo em que a verdade “se acredita por contágio”. Assim, desfazer a ideia de verdade pode parecer sedutor, especialmente em tempos em que toda afirmação é instável e toda imagem pode ser forjada. Mas talvez o mais interessante não seja abandonar a ideia de verdade, e sim reconfigurá-la: não como posse, mas como processo; não como certeza, mas como abertura; não como um dado, mas como ato relacional e ético.

A comunicação digital empobrece as relações humanas porque elimina aquilo que há de mais fundamental no encontro com o outro: o toque, o olhar, o silêncio entre as palavras. No lugar disso, temos vozes sem presença e rostos filtrados, em uma espécie de ilusão interativa que simula proximidade, mas reforça o isolamento. Falta à comunicação digital a intensidade que só a presença é capaz de proporcionar. O excesso de barulho impede uma escuta contratual com o outro. Eleva-se o efeito da solidão, numa engrenagem central desse mundo onde o outro só existe enquanto reflexo do meu desejo de ser visto. Todos falam, ninguém escuta; todos se produzem como marca, imersos na lógica da autopromoção e do marketing, falta a presença. A internet não é espaço de vínculo, mas de performance. A tecnologia redefine o que chamamos de humano, e talvez o que estejamos perdendo não seja a comunicação, mas a própria experiência de estar com o outro de verdade.

A inteligência artificial não tem coração. O pensar com o coração avalia e sente espaços antes de operar conceitos. A tonalidade afetiva da confiança no alcance do momento está na emoção, no começo do pensamento. A IA é apática. Ela calcula. Ela não tem acesso a horizontes. Ela processa dados constantes, previsíveis e controláveis ao toque na tela. Será que não estamos querendo fugir de nossas realidades, para adentrarmos a um mundo imaginário?

Agora, como criar uma agenda positiva em relação à verdade? Talvez o desafio esteja menos em resgatar uma ideia fixa de verdade e mais em propor práticas sensíveis que reabilitem a confiança simbólica. Uma agenda positiva exige um novo compromisso com o acontecimento da verdade como encontro. A era da curadoria nos exige saber o que realmente importa. Orquestrar a informação, filtrando ruídos e concentrando nossa atenção no essencial, é um pensamento inaugural para a sobrevivência da confiança na comunicação contemporânea.

A IA não atinge nível profundo e conceitual do saber. Ela não conceitua os resultados que calcula. O cálculo é diferente do pensamento porque não forma conceitos e não avança de uma conclusão para outra. A IA aprende com o passado. O futuro calculado não é verdadeiro no sentido completo da palavra. Ela carece da negatividade da ruptura, que deixa surgir o novo no sentido enfático. 


Em meio a esse cenário de crise da verdade, o filósofo sul-coreano Byung-Chul Han, em sua obra A Salvação do Belo, nos alerta para um fenômeno atual: o belo, na contemporaneidade, perdeu sua profundidade e foi reduzido ao que é simplesmente agradável e prático: a curtida, o like. Mas, para Han, o verdadeiro belo é aquilo que provoca, inquieta, que tira da zona de conforto aquilo que toca o cerne da emotividade.

Esse olhar nos convida a valorizar a alteridade, a presença real do outro, que reconhecemos em sua diferença e legitimidade como sujeito no mundo. É na alteridade que talvez resida uma das saídas para reabilitar o credível na era da pós-verdade.

O pensamento humano é mais que cálculo e resolução de problemas, é uma ponte entre a subjetividade e a objetividade, o abstrato e o concreto, a sensibilidade e o raciocínio, o imaginável e o sensível, a dor e a beleza da condição humana. A questão da presença é que o pensamento humano não está apenas no mundo, mas se envolve com ele de forma plena e sensível, enquanto a máquina apenas calcula sobre ele.

Num tempo em que tudo está disponível e alcançável, nenhuma atenção profunda é formada. O foco se dispersa. O olhar para o belo não se detém, ele vagueia como um caçador. Somente as coisas tornam o mundo visível. Elas possuem visibilidade, enquanto o intangível as apaga.

Como sugeria o educador Anísio Teixeira em sua defesa da educação integral, pode-se dizer que a inteligência verdadeira só existe quando pensamento, ação e emoção caminham juntos, algo que uma máquina, por mais sofisticada que seja, não alcança, não vive. Apenas simula. A tecnologia não é indício de progresso moral da humanidade. Ética não é algo que uma máquina pode simular é um compromisso humano, que exige acautelar-se constantemente diante dos desafios e riscos éticos que as novas tecnologias apresentam.

Essa dinâmica do contágio simbólico amplifica a circulação de notícias falsas, dos simulacros políticos, das realidades fabricadas. A confiança está em crise porque os sentidos: visão e audição já não são garantias sólidas de verdade. É urgente reencantar os sentidos para compreender as complexidades da condição humana.

Logo, precisa-se buscar novos critérios para a verdade, que ultrapassem o que é imediatamente percebido. Para além de uma checagem rigorosa, responsabilidade figurativa é essencial para redefinir pactos de confiança. A confiança foi capturada pelos afetos e os sentidos estão em crise. Espaço privilegiado para a dúvida como veridicção.

E, por fim… Diante do desafio contemporâneo imposto pela tecnologia e pela pós-verdade, retoma-se a pergunta de Pilatos: O que é a verdade? É provável que a verdade não seja uma resposta fixa, mas sim um convite a exercitar nossa sensibilidade crítica para navegar entre o real e o irreal.

A pergunta de Pilatos precisa ser atualizada: O que ainda pode fazer sentido como verdade? A resposta, certamente, está em reeducar nossa sensibilidade, reconhecer os limites da percepção, mas também assumir a responsabilidade de reconstruir novos pactos de confiança simbólica. Afinal, a sociedade não se transforma por novas máquinas, mas por novas formas de comportamento.

Mauri Oliveira

Ideias fora do lugar

Em 2024, 2 bilhões de pessoas foram às urnas em mais de 60 países, no maior comparecimento eleitoral da história da democracia representativa. Paradoxalmente, o relatório de 2025 do V-Dem, índice global sobre qualidade democrática, revela que eleições livres retrocederam em 25 países; a liberdade de associação, em 22; e o Estado de Direito, em 18. A recessão democrática, observada desde 2010, se aprofundou: o nível de democracia em 2023 voltou ao patamar de 1985 em todas as regiões do mundo, especialmente na Europa do leste e na Ásia do sul e central. Hoje, cerca de 90 Estados vivem sob regimes autocráticos ou de tendência autocrática, onde estão dois terços da população mundial. Estados amplamente democráticos não passam de 80.
A recessão se agrava com o surgimento de Estados iliberais – democracias sem direitos, nas quais governos são eleitos democraticamente, mas, uma vez no poder, alteram constituições para se perpetuar, restringem direitos, fragilizam a oposição e bloqueiam o pluralismo. Jogando o jogo, subvertem as regras. Tudo “dentro das quatro linhas”. É um f enômeno contemporâneo, de múltiplas trajetórias: Rússia, Turquia, Hungria, Romênia, Venezuela... A lista é longa. É como se a democracia sofresse de uma doença autoimune, até que os cidadãos perdem a capacidade de mudar governos democraticamente.


Segundo Viktor Orbán, primeiro-ministro da Hungria, Estados iliberais preservam a ideia de liberdade, mas não a colocam no centro da organização estatal. Em seu lugar, adotam uma “abordagem especial e nacional”, com fundamento na homogeneização cultural, na hierarquia tradicional, na polarização política e no nacionalismo identitário. Além disso, agem de modo ambíguo: o legal e o autoritário se confundem; instituições democráticas funcionam, mas capturadas. São os chamados Frankenstates – na expressão da jurista Kim Scheppele, de Princeton –, monstros constitucionais que misturam elementos democráticos com mecanismos autocráticos, priorizando o poder sobre o Direito; são também kaquistocracias, a pior das formas mistas de governo, nas quais os valores democráticos são ideias fora do lugar, como diria Roberto Schwarz, que servem ao propósito de iludir, de legitimar pelo voto a autocracia.

Estados iliberais não surgem do nada. Estados fracos, com economias voláteis, corrupção, desigualdade, pobreza e violência, são bombas prestes a explodir. Em algum momento, dá-se a ruptura constitucional (foi o que se viu no Leste Europeu, em partes da América Latina, no sudeste da Ásia). Em contextos de crise econômica e descrença na política representativa, líderes populistas prosperam com promessas de segurança, combate à corrupção e redução da pobreza, mesmo que à custa da democracia. Tribunais regionais, como a Corte Interamericana de Direitos Humanos, tentam conter o avanço autocrático, defendendo a independência do Judiciário, o devido processo legal e os direitos das minorias. Mas sua efetividade é limitada, como se viu no caso do Peru sob Fujimori. Em 2019, a Polônia recuou ante a condenação do Tribunal de Justiça da União Europeia relativa à alteração da composição de sua Corte constitucional – uma exceção. A reação mais eficaz tem vindo dos Judiciários nacionais. Onde o Judiciário resistiu, o autoritarismo foi contido. Na Colômbia, em 2010, a Corte constitucional impediu a reeleição de Álvaro Uribe.

No Brasil, o Supremo Tribunal Federal (STF) tem conduzido a responsabilização pela tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023. O mesmo não se observa no Congresso, onde tramitam projetos como o da anistia e o de revogação dos crimes contra o Estado Democrático de Direito.

A questão de saber se ações antidemocráticas podem ser reprimidas não é nova. Os gregos praticavam o ostracismo contra agitadores da pólis; os alemães, sob a Lei Fundamental de Bonn, a democracia militante. No Brasil, a proteção ao
Estado Democrático ocorre por meio da chamada democracia defensiva – uma forma de legítima defesa institucional, em que cabe ao Judiciário definir, em situações excepcionais, os limites da repressão a tais ações. Isso se torna mais difícil quando o Executivo e o Legislativo se omitem ou são capturados por forças autoritárias. O Judiciário, então, se vê isolado na defesa da democracia.

A democracia é complexa. Requer instituições, procedimentos, representação, eleições periódicas, legalidade e participação. Em tempos de recessão democrática, exige ainda mais: formação dos cidadãos, participação política informada, maiores investimentos em educação de qualidade para todos, acesso à informação, transparência dos governantes e prestação de contas. A democracia, assim como o Estado de Direito, não pode ser um tema distante da população; a desinformação e a descrença alimentam os Estados iliberais. Nossas democracias podem decepcionar, mas não traem. Há sempre a possibilidade de substituir governos. Já os Estados iliberais eliminam essa possibilidade.

Ibero-América enfrenta o desafio de uma transição verde justa

A caminhada rumo à sustentabilidade não tem um caminho único nem linear. Há múltiplos caminhos que devem ser seguidos de forma coordenada: da transformação financeira à construção de amplos pactos sociais , incluindo a pedra angular fundamental e frequentemente subestimada da educação. Compreender essa diversidade de abordagens não apenas amplia nossa compreensão de questões urgentes como a crise climática, mas também nos permite elaborar respostas mais justas e duradouras.

Um dos pilares centrais dessa transição é, sem dúvida, o financiamento . A Ibero-América, e a América Latina em particular, emerge como uma das regiões mais afetadas pelas mudanças climáticas, apesar de historicamente ter contribuído menos para o aquecimento global. Esse paradoxo é fundamental para a compreensão do princípio das responsabilidades comuns, porém diferenciadas, reconhecido na Declaração do Rio de 1992 e reforçado pelo Acordo de Paris , que ressalta o dever do Norte Global de subsidiar os esforços de mitigação e adaptação do Sul Global.

Mas a discussão sobre financiamento não pode ser dissociada da realidade produtiva da região. A América Latina detém 60% das reservas mundiais de lítio e cerca de 40% das reservas de cobre, recursos estratégicos para a transição energética. Ao mesmo tempo, permanece fortemente dependente de atividades como mineração, agricultura intensiva e produção de petróleo — setores que geram renda, mas também têm impactos ambientais significativos.

Portanto, considerar o financiamento para a transição ecológica requer uma abordagem sistêmica. Não se trata apenas de canalizar recursos, mas também de redesenhar o modelo de integração global da região, permitindo que ela passe de uma economia extrativa para uma economia regenerativa baseada na sustentabilidade.


Nesse mesmo sentido, é essencial construir pactos sociais amplos. A transição verde justa não será alcançada sem diálogo e consenso envolvendo governos, empresas e sociedade civil. Na América Latina, onde as desigualdades estruturais limitam profundamente as oportunidades, tais acordos devem ser democráticos e participativos.

Promover esses pactos sociais pode colocar os governos em uma posição difícil perante as elites econômicas. Por um lado, elas precisam de seus investimentos para acelerar a transição energética; por outro, precisam regular ou mesmo limitar certas atividades econômicas insustentáveis. Tudo isso mantendo o difícil equilíbrio entre sustentabilidade, redução da pobreza e crescimento econômico.

Nesse contexto, a aliança entre a América Latina e a União Europeia apresenta uma oportunidade estratégica. Iniciativas como o Pacto Verde traçam um roteiro ambicioso rumo à neutralidade climática até 2050, mas precisam ser adaptadas às realidades dos países em desenvolvimento.

A região apresentou progressos notáveis ​​tanto em termos de energias renováveis ​​quanto de estruturas de proteção legal. Além disso, há um claro apoio da população à cooperação birregional que promova um novo modelo de desenvolvimento, como demonstrado pelo projeto Energytran, promovido pela Organização dos Estados Ibero-Americanos (OEI), que busca contribuir para uma transição justa e equitativa em ambas as regiões.

E é aqui que a educação surge como condição fundamental para dar sentido a tudo isso. Um futuro sustentável não será possível sem uma educação transformadora. A sustentabilidade deve ser construída a partir da sala de aula, nos processos educacionais e na forma como ensinamos a habitar o planeta de forma responsável.

Os sistemas educacionais devem oferecer ferramentas para construir uma sociedade mais justa e equitativa: habilidades verdes, conexão com a terra, metodologias ativas e professores capacitados para promover mudanças. As escolas devem ser espaços para a construção de uma visão compartilhada de futuro, que promova a vida, a convivência e a sustentabilidade.

Essa transformação educacional requer apoio político e um lugar prioritário na agenda internacional. Nesse contexto, espaços de governança global como a COP30 — a próxima conferência das Nações Unidas sobre mudanças climáticas, a ser realizada em 2025 no Brasil — são essenciais. Não apenas porque permitem o cumprimento de compromissos internacionais ou a visibilidade da urgência de ações, mas também porque são uma plataforma para colocar a educação no centro do debate.

Este evento de renome internacional, que este ano conta com o apoio organizacional da OEI, deve, além de abordar questões-chave como ação climática e financiamento, reconhecer a educação para o desenvolvimento sustentável como um pilar estratégico. Mais do que um gesto simbólico, é um compromisso com o longo prazo e com a construção de uma cidadania capaz de apoiar e sustentar acordos globais.

Para tanto, é necessário fortalecer o sistema multilateral por meio de uma coordenação eficaz entre os níveis multilateral, regional e nacional, alinhando os planos nacionais de desenvolvimento com os objetivos internacionais. Somente assim será possível mobilizar financiamento, promover soluções duradouras e posicionar a educação como motor de uma transição justa.

A América Latina desempenha um papel crucial no futuro do planeta. Abriga metade da biodiversidade mundial e quase 60% de suas florestas tropicais. Seu caminho rumo à sustentabilidade definirá não apenas seu destino, mas o de toda a humanidade. Avançar nessa direção exige compromisso político, consenso social e uma educação capaz de formar cidadãos comprometidos e solidários.

quinta-feira, 12 de junho de 2025

O que sobra quando a realidade é só código?

Nos últimos meses, a revista Superinteressante reacendeu um debate que há décadas habita o limbo entre a filosofia e a ficção científica: a perturbadora possibilidade de que nossa realidade não passe de uma sofisticada simulação computacional. Essa hipótese, que já inspirou de Matrix até tratados acadêmicos, ganhou seus primeiros contornos filosóficos sólidos com o trabalho de Nick Bostrom, da Universidade de Oxford. Em seu artigo “Are You Living in a Computer Simulation?” (2003), o filósofo não afirma categoricamente que vivemos em uma simulação, mas propõe um trilema inquietante: ou (1) a humanidade desaparecerá antes de desenvolver a tecnologia para criar simulações conscientes; ou (2) civilizações pós-humanas não terão interesse em simular ancestrais; ou (3) — e aqui está o que faz tantos dormirem menos tranquilamente — quase certamente já somos entidades simuladas. Se o futuro trouxer impérios digitais capazes de rodar incontáveis simulações de universos, a probabilidade estatística de sermos os “verdadeiros” seria ínfima — como um grão de areia no deserto do possível.

Essa especulação ganhou uma roupagem, digamos, mais magnífica, nas mãos do físico Thomas Campbell, que, trabalhando em sistemas de simulação para a NASA nos anos 1980, começou a desenvolver uma teoria radical. Em My Big TOE (2003), ele propôs que nossa realidade não passa de uma simulação computacional renderizada no momento da observação — uma ideia que beira o místico, mas que ele tenta ancorar na física quântica. O famoso experimento da dupla fenda, no qual partículas subatômicas parecem “saber” quando estão sendo observadas, seria, em sua visão, não um mero paradoxo, mas um artefato de um universo regido por código. A consciência, longe de ser um acidente da matéria, seria parte fundamental da estrutura da realidade, um conceito que ecoa pensadores como David Bohm e John Wheeler, mas traduzido para a linguagem da era digital. Se o cosmos fosse um programa, argumenta Campbell, faria todo sentido que ele só processasse os detalhes quando necessário, economizando recursos computacionais. A implicação é vertiginosa: o que chamamos de “realidade” pode ser apenas uma interface, um véu de ilusão digital. 


A física quântica contemporânea oferece indícios intrigantes que ressoam com a hipótese da simulação. Pesquisas recentes em emaranhamento quântico demonstram correlações instantâneas entre partículas que desafiam a noção clássica de localidade — um fenômeno que o físico Silas Beane, da Universidade de Bonn, sugere que poderia revelar uma “grade computacional” subjacente à realidade. Seu estudo publicado no Physical Review A (2012) propõe que, se vivêssemos em uma simulação, haveria um limite fundamental para a energia das partículas, semelhante ao aliasing em processamento digital de sinais. Essa assinatura da simulação ainda não foi detectada, mas Grande Colisor de Hádrons continua buscando essas anomalias nos níveis mais fundamentais da matéria.

Porém, a comunidade científica tradicional recebe essas ideias com ceticismo. Físicos como Sean Carroll argumentam que a hipótese da simulação carece de falseabilidade — como poderíamos provar que não estamos em uma simulação? A mecânica quântica convencional explica fenômenos como o colapso da função de onda sem precisar invocar a consciência, e há uma resistência natural contra teorias que borram as fronteiras entre ciência e espiritualidade. Campbell, no entanto, navega nessas águas turvas com certa desenvoltura, citando desde meditação transcendental até experiências fora do corpo como evidências de seu modelo.

Ainda assim, o fascínio popular pela hipótese da simulação talvez não dependa de sua validade científica. Em um mundo em que a tecnologia digital remodelou não apenas nossas ferramentas, mas nossa própria percepção do real, a noção de que tudo pode ser uma simulação ressoa como um mito contemporâneo. Jean Baudrillard, em Simulacros e Simulação (1981), já antevia uma cultura obcecada por cópias sem original, em que o real e o virtual se confundem. Para Campbell, porém, não há original perdido — a simulação é tudo que existe. Essa visão oferece um tipo peculiar de reencantamento: se a modernidade, como argumentou Max Weber, desencantou o mundo ao substituir deuses por equações, a hipótese da simulação reintroduz o mistério, mas em uma roupagem tecnológica. O sagrado não está mais nas florestas ou nos céus, mas nos bits e algoritmos que supostamente sustentam nossa existência.

Neurocientistas como Anil Seth, da Universidade de Sussex, oferecem uma perspectiva biológica complementar. Seus experimentos com realidade virtual e ilusões perceptivas demonstram que nosso cérebro não processa a realidade objetiva, mas constrói continuamente uma simulação interna baseada em expectativas e inputs sensoriais limitados. Isso ecoa a hipótese do cérebro como máquina de inferência bayesiana1, em que a consciência seria um modelo probabilístico constantemente atualizado, uma simulação dentro de uma possível simulação maior. Esses achados sugerem que mesmo nossa percepção do “real” já é uma construção computacional sofisticada.

A teoria da informação quântica acrescenta outra camada a esse debate. Pesquisadores como Seth Lloyd (MIT) propõem que o universo poderia ser literalmente um computador quântico, com cada interação física representando operações lógicas em bits quânticos (qubits). A equação de Wheeler-DeWitt, que descreve a gravidade quântica, sugere que o universo pode não ter tempo fundamental, apenas relações entre eventos, como em uma simulação discreta. Essa visão recebeu impulso com experimentos recentes em gravidade quântica em loop, em que o espaço-tempo parece emergir de redes de spins, semelhante a pixels de uma tela cósmica2.

A astrofísica moderna também contribui para essa discussão. A descoberta de que as leis físicas parecem finamente ajustadas para permitir a vida (princípio antrópico) encontra explicações tanto na hipótese do multiverso quanto na da simulação. O astrofísico David Kipping (Columbia) calculou em 2020 que há cerca de 50% de probabilidade de estarmos em uma simulação, usando análise bayesiana dos limites computacionais necessários para simular consciências. Enquanto isso, projetos como o do Blue Brain Project na EPFL tentam recriar cérebros humanos em supercomputadores, testando os limites do que seria necessário para simular realidades conscientes. Um exercício que inverte provocativamente a hipótese: se podemos simular mentes, o que nos impede de sermos simulações?

O próprio êxito desses experimentos dá a probabilidade calculada de sermos simulações à recriação de mentes em silício – revela a essência paradoxal desse reencantamento digital. Enquanto essas conquistas científicas devolvem ao mundo uma camada de significado ao reabrir questões metafísicas fundamentais (transformando laboratórios em espaços de “teologia computacional”), elas simultaneamente corroem os fundamentos da ação humana, reduzindo até mesmo nossa busca por verdade a meros inputs de um possível programa cósmico. A ironia é reveladora: quanto mais dominamos a arte de simular consciências em projetos como o Blue Brain, mais fortalecemos a hipótese de que nós mesmos podemos ser simulações – e, consequentemente, mais alimentamos o niilismo digital que questiona o valor último de nossas escolhas éticas e políticas. Nesse contexto, a insistência de Campbell em que a simulação teria regras e um “objetivo” moral soa como um frágil antídoto contra a vertigem existencial que essas descobertas provocam.

Essa ambiguidade se manifesta de forma especialmente aguda em nosso momento histórico. Se, por um lado, o reencantamento tecnocientífico resgata o mistério que o racionalismo moderno havia dissipado, por outro, ele oferece uma justificativa perigosa para a inação – afinal, qual o sentido de combater crises ecológicas ou desigualdades em um universo potencialmente ilusório? O projeto Blue Brain, nesse sentido, simboliza tanto o ápice de nossa capacidade criativa quanto o abismo de nossa possível irrelevância: ao nos tornarmos arquitetos de mentes simuladas, confrontamos a possibilidade perturbadora de que também possamos ser criações digitais em um jogo cósmico cujas regras mal compreendemos. Campbell pode ver nisso um propósito evolutivo, mas na prática, essa visão corre o risco de ser instrumentalizada tanto como consolo espiritual para tempos incertos quanto como álibi para o fatalismo social – mostrando que o preço do reencantamento pode ser a erosão da própria noção de responsabilidade coletiva.

Ao refletir sobre a hipótese da simulação como teoria científica, metáfora ou mito contemporâneo, percebemos que ela revela algo essencial sobre nosso tempo. Vivemos numa era em que a inteligência artificial, a realidade virtual e a desinformação algorítmica tornaram o conceito de “realidade” mais frágil do que nunca – se antes buscávamos respostas em deuses ou verdades absolutas, hoje oscilamos entre o fascínio e o terror diante da possibilidade de que tudo não passe de um código complexo. Essa ideia encontra um paralelo perturbador na visão de Jorge Luis Borges em A Biblioteca de Babel, em que o universo é concebido como uma biblioteca infinita composta por galerias hexagonais intermináveis, contendo todas as combinações possíveis de conhecimento, incluindo um livro sagrado que seria a chave para entender todos os outros, um volume tão inacessível quanto divino.

Tal como na biblioteca borgiana, em que a verdade absoluta existe, mas permanece fora de alcance, nossa suposta realidade simulada também nos confronta com a possibilidade de existir um código-fonte fundamental que jamais compreenderemos plenamente. Para pensadores como Campbell, decifrar essa simulação exigiria uma espécie de upgrade existencial, mas num mundo em que a tecnologia mais segrega do que liberta, cabe perguntar: quem teria o privilégio desse acesso transformador? A genialidade de Borges estava em mostrar que, seja numa biblioteca cósmica ou numa matriz digital, estamos sempre diante do mesmo paradoxo – a busca por significado em sistemas que podem ser, eles mesmos, meras construções arbitrárias, em que o próprio desejo de verdade talvez seja apenas mais uma peça no jogo.

Assim, o que nasceu como cálculo de físicos transforma-se em espelho: reflete não só átomos, mas o desejo humano de ser mais que um acidente cósmico. A hipótese da simulação, essa metáfora vestida de equação, talvez nunca prove se vivemos em linhas de código — mas desnuda nossa sede de sentido em um mundo em que máquinas já sonham por nós. Entre o cogito de Descartes e o render de pixels, espreita a mesma pergunta: somos avatares de um deus-programador ou poetas inconscientes de um universo que se escreve a si mesmo? Não importa. Como na inquietante fábula de Borges — aquela em que cartógrafos imperiais tecem um mapa tão perfeito que acaba por devorar o território real —, essa narrativa da simulação nos salva do vazio existencial: ainda que seja apenas uma alegoria, ela substitui o silêncio cósmico por uma história onde dúvida e sentido coexistem. Mesmo que a Matrix seja ficção, ela nos concede o direito sagrado de duvidar — e, nesse ato, reencantar o real.
Nicolás Gonçalves

Não sei o que posso falar, nem você

Leo Lins diz a auditórios frases assim: "Tem ser humano que não é 100% humano. O nordestino do avião? 72%." "Como vou emagrecer?’ Pegando Aids! Você não adora comer de tudo? Sai comendo gay sem camisinha!" Foi condenado a prisão, multa e indenização. O Brasil tem lei contra discriminação. Mas Leo Lins usa crachá de humorista. Por isso, diz, pode caçar risada por qualquer bagatela.

Gilmar Mendes processou dois jornalistas por reportagem que descrevia investigação da compra, pelo governo de Mato Grosso, de universidade da qual o ministro era sócio. Derrotado em primeira e segunda instâncias, ganhou no STJ.

Os ministros Ricardo Cueva, Humberto Martins, Daniela Teixeira, Moura Ribeiro e Nancy Andrighi condenaram revista a pagar R$ 150 mil. Alegam "excesso de ironia", "limites do direito de informar". Destacam a "honra de uma autoridade pública" e ensinam que liberdade de expressão não se confunde com "irresponsabilidade de afirmação".


A desembargadora Iris Helena Nogueira processou jornalista que divulgou salários de magistrados. No mês de abril de 2023, ela teria sido a campeã ao receber R$ 662 mil. A juíza Káren Bertoncello condenou repórter a indenização de R$ 600 mil. Disse que, apesar de ser informação pública, foi descontextualizada e teve efeito sensacionalista. Defendeu equilíbrio entre direito de informar e integridade moral.

Cada nova decisão sobre usos da liberdade de expressão provoca a esfera pública a opinar sobre seu erro ou acerto. Até que venha o caso seguinte e recomecemos a opinar, com indignação, surpresa ou alívio, sobre seu erro ou acerto.

E assim vamos gastando tempo no varejo apaixonado do caso a caso e perdemos de vista uma questão preliminar. Sabemos que liberdade de expressão tem limite, mas o Judiciário não demonstra interesse nem capacidade em definir onde ele se encontra. Muito menos em estabilizar esse limite de forma coerente.

A jurisprudência da liberdade de expressão tem muito pouco de "juris" e de "prudência". Chamamos assim por vício vocabular e por apego ao ilusionismo conceitual. No atacado, percebe-se que decisões sobre o tema têm se limitado à fórmula do "acho que sim, acho que não", conforme manda o coração.

Frases de efeito substituem critérios decisórios, instinto apressado substitui análise das nuances do caso concreto. Nesse festival retórico de um amontoado de decisões que não dialogam, os mesmos slogans fundamentam absolvição ou punição. Sem que entendamos o porquê da diferença.

Enquanto não houver tentativa sincera de construir critério compartilhado e previsibilidade, o Judiciário continuará a simular proteger direitos enquanto nos entrega particularismo irracional, discriminatório e arbitrário. "Cada caso é um caso" e "cada cabeça uma sentença" são máximas do decisionismo. Com prática judicial assim, a liberdade desaparece.

Sabemos muito pouco sobre o que podemos falar. No campo da incerteza absoluta, a liberdade fica arriscada demais.

Mais um serviço que STF e Judiciário prestam ao projeto autocrático: a absoluta imprevisibilidade do significado da liberdade de expressão facilita a vida de quem a invoca para atacar a democracia e violar direitos. Um conceito deixado vazio é mais fácil de ser manipulado. Fica mais barato gritar pela liberdade e praticar o seu contrário.

Pax israelensis

Em fevereiro, foi o Procurador-Geral do Tribunal Penal Internacional (TPI), Karim Khan. Agora, os EUA impuseram sanções contra quatro juízas do TPI que abriram investigações sobre crimes de guerra e/ou contra a Humanidade praticados pelos EUA no Afeganistão e por Israel na Palestina. Todas mulheres, duas delas africanas (cidadãs do Benim e do Uganda), uma peruana, outra eslovena. Nesta linguagem descarada que a ultradireita tem, o TPI é acusado de “politização e de abuso de poder” O objetivo é intimidar todo o pessoal do TPI e bloquear as investigações em curso.

Dir-se-á que relação de Trump com o direito internacional é a mesma que tem com a justiça do seu próprio país. Depois de Biden e os seus antecessores terem aceite todas as violações possíveis do direito internacional que Israel pratica desde 2023 (aliás, desde 1948), Trump associou-se ativamente ao ataque descabelado que Israel tem feito à ONU, sem precedentes na história da organização: insultos ao Secretário-Geral e aos responsáveis de todas as agências da ONU, intimidação direta de todos relatores especiais dos Direitos Humanos (a começar por Francesca Albanese), interdição de uma agência da ONU (a UNRWA) com 75 anos de atividade incessante na Palestina, acusada diretamente de “terrorismo”, e, sobretudo, o assassinato de centenas de profissionais e funcionários da ONU. Sem precedentes.


No quadro daquilo que no Ocidente se quis descrever como a “reação” ao 7 de outubro, Israel já fez praticamente de tudo na Palestina: assassinou deliberadamente população civil de um território ilegalmente ocupado, um terço dos quais crianças, a uma escala que não deixa dúvidas sobre a intenção de genocídio; forçou a deslocação em massa da população, e várias vezes, o próprio exército ocupante deteve e deportou milhares de palestinos; matou centenas, milhares, de médicos, enfermeiros, jornalistas, pessoal de ONGs; destruiu praticamente todos os edifícios, especialmente hospitais e escolas, reduzindo Gaza a ruínas e tendas improvisadas. Como mais de 30 relatores especiais da ONU para os direitos humanos denunciaram há um mês, “a comida e a água foram cortadas durante meses, induzindo a fome, a desidratação e a doença, o que fará com que mais mortes se tornem a realidade quotidiana para muitos, especialmente para os mais vulneráveis.”

O que se vive em Gaza não é imaginável para nenhum de nós. E, contudo, a impunidade permanece, comprovando à saciedade que, afinal, a aplicação do direito decorre apenas da força. E quem a tem, hoje ainda, são os EUA, um estado que os tratados assinados por Portugal classificam como “aliado”.

Desde há muito que Israel se tem revelado o modelo de sociedade no qual se revê a ultradireita neofascista do mundo. Supremacia de uma etnia (os judeus), cuja identidade nacional se construiu no próprio processo de colonização e não antes; regime de apartheid e de securitização militar impostos à etnia autóctone (os palestinos) cujo território se ocupou; uma engenharia social feita da fusão de militarismo social, investimento tecnológico sem precedentes no controlo e vigilância totalitários; uma ideologia de orgulho nacionalista, religioso e colonialista de uma etnia que se descreve a si própria como resgatando um território da barbárie e protegendo o “Ocidente” do “inimigo”; a visão paranoica de um mundo que inveja e odeia “o povo eleito”. A semelhança com o fascismo histórico de há um século é evidente.

Se, antes de Trump, a repugnante impunidade da ocupação israelita vinha acompanhada da encenação de um plano original de dois Estados que nunca saiu do papel, com Trump e Netanyahu do que se trata é da concretização final de limpeza étnica e genocídio. Exatamente o que Hitler quis fazer: uma Nova Ordem europeia construída pela morte, pelo extermínio.

A nova ordem que se quer construir hoje com o rearmamento e a tese de que estamos, por todo o lado, em guerra, tem os contornos da Pax israelensis. E é também por isso que nunca como hoje foi tão importante criar um movimento popular e universal pela paz e pela democracia antifascista. Como em 1945.