domingo, 10 de março de 2024

Pobre Brasil: é espantoso que não haja condenação clara à trama de um golpe

Há algo muito errado com o Brasil. O contexto histórico da época (o que os alemães chamam de zeitgeist), marcado por diversos escândalos, explica que em 2018 o país tenha escolhido um presidente como Bolsonaro.

É espantoso, porém, para uma nação que pretenda se definir como tal, seguindo as palavras de Ortega y Gasset (“uma nação é um projeto de vida em comum”), que não haja uma condenação clara às barbaridades perpetradas por aqueles que, sem sombra de dúvida, tramaram um golpe de Estado na transição entre 2022 e 2023.


O fato de que, em função do receio de “cancelamento” por parte dos cangaceiros das mídias sociais, uma parte do corpo político do país conserve a ambiguidade diante daquelas manifestações criminosas revela que a nação está, em parte, doente.

Se aquele bando que tentou “virar a mesa”, revertendo o resultado das eleições e subvertendo a ordem constitucional, fez o que fez, foi por entender que forças relevantes do país iriam amparar tais disparates.

Se naquela época o que se tentou já era um despropósito completo, hoje, à luz do que se sabe da famosa gravação daquela reunião indecente, a ambiguidade é um atestado de falta de liderança.

A sociedade brasileira em peso, seus políticos, suas lideranças empresariais, os governadores etc. deveriam deixar cristalinamente claro que não há outra atitude diante daquelas aberrações que não um repúdio veemente. Não nos enganemos: o fato de que isso não tenha ocorrido revela muito sobre nossas deficiências.

O filósofo José Ingenieros, no seu magnífico “El hombre mediocre”, publicado em 1913, qualifica a mediocridade como uma “incapacidade de ideais”, definindo idealistas como aqueles “dispostos a emancipar-se do seu rebanho, procurando uma perfeição que vá além do atual”, reconhecendo que “a Humanidade não chega onde desejam os idealistas, mas sempre chega além de onde teria ido sem os seus esforços.”

Ele marca a devida distinção entre o que se espera de quem tem o dom de se destacar e aqueles que apenas copiam o que entendem que os outros esperam que seja feito, ao afirmar que “a personalidade individual começa no ponto preciso onde cada um se diferencia dos outros.”

Na definição do arquétipo que dá nome ao livro, ele escreve que “o homem medíocre está adaptado para viver em rebanho; sua característica é imitar aqueles que o cercam: pensar com cabeça alheia e ser incapaz de formar ideais próprios.”

E conclui que, no que qualifica de “mediocracia”, ou seja, no “governo dos medíocres”, o que se observa é que “os governantes que não pensam parecem prudentes; os que não roubam resultam exemplares. Ao invés de heróis, declaram-se administradores discretos.”

Ora, o papel de liderança vai muito além de apenas agir da forma que parte da população espera que o político atue e, sim, implica definir um rumo, com base em valores que deveriam ser inegociáveis. Há situações em que um governante — ou aspirante a sê-lo — deve fazer um risco de giz e deixar claro que, em relação a certos pontos, será intransigente.

Não importa se em um primeiro momento ele não tiver a compreensão de todos: com o tempo, ganhará o respeito e a admiração pela sua atitude.

É isso o que se deveria esperar de lideranças: que sinalizem claramente que nunca mais o país deveria assistir a um espetáculo deprimente como o que, desde os mais altos escalões da República, se tentou encenar em 2022.

Por uma ironia, a divulgação desses fatos se deu quando eu estava lendo o livro de Kissinger, “Liderança”. O contraste entre a coragem do general De Gaulle — quando, praticamente sozinho, baseado no que Kissinger descreve como o “senso nato de autoridade pessoal” de um “brigadeiro sem um tostão, exilado numa terra cuja língua não conhecia”, lançou as bases da Resistência francesa — e a atitude dócil dos nossos “caballeros de triste figura”, curvando-se diante do chefe quando estava se tramando uma atrocidade institucional, é a expressão de um país aviltado. Pobre Brasil.

Autocracia religiosa-nacionalista

Netanyahu e os seus parceiros deixaram claro que o objetivo do seu governo de pura direita é a supressão da liberdade de expressão e o estabelecimento de uma autocracia religioso-nacionalista que proíbe aqueles que pensam de forma diferente da esfera pública.

Israel abusou de detidos de guerra em Gaza

Um relatório interno da ONU visto pela BBC descreveu o abuso generalizado de palestinos que foram capturados e interrogados em centros de detenção israelenses improvisados ​​durante a guerra em curso em Gaza.

O projeto de documento compilado pela Agência das Nações Unidas de Assistência e Obras (Unrwa), a principal agência da ONU que apoia os palestinianos, inclui testemunhos detalhados de detidos que descrevem uma extensa gama de maus-tratos.

Eles incluem ser despido e espancado, ser forçado a ficar em gaiolas e atacado por cães, forçado a posições de estresse por longos períodos e submetido a "traumas contundentes", incluindo coronhas de armas e botas, resultando em alguns casos em "costelas quebradas, separadas ombros e lesões duradouras".

Afirma que tanto homens como mulheres relataram “ameaças e incidentes de violência e assédio sexual”, incluindo toques inadequados nas mulheres e espancamentos nos órgãos genitais dos homens.

Num comunicado fornecido à BBC, as Forças de Defesa de Israel (IDF) afirmaram: “Os maus-tratos aos detidos durante o seu tempo de detenção ou durante o interrogatório violam os valores das IDF e contrariam as IDF e são, portanto, absolutamente proibidos”.

Rejeitou alegações específicas, incluindo a negação de acesso a água, cuidados médicos e roupa de cama. As IDF também disseram que as alegações relativas ao abuso sexual eram "outra tentativa cínica de criar uma falsa equivalência com o uso sistemático do estupro como arma de guerra pelo Hamas".

Em declarações anteriores aos jornais New York Times e Guardian, os militares israelitas afirmaram estar cientes das mortes durante a detenção, incluindo aquelas com doenças e ferimentos pré-existentes, e afirmaram que todas as mortes estavam a ser investigadas.


Os relatos da Unrwa coincidem com outros relatos de abusos em centros de detenção israelitas publicados recentemente por grupos de direitos humanos israelitas e palestinianos, bem como com investigações separadas da ONU.

Este último relatório da ONU, que ainda não foi publicado, baseou-se em entrevistas com mais de 100 detidos, parte de um grupo de cerca de 1.000 detidos que a Unrwa conseguiu documentar desde Dezembro, depois de terem sido libertados de três instalações militares israelitas. Eles incluíram pessoas – homens e mulheres – com idades entre seis e 82 anos, incluindo 29 crianças.

A agência explica que esta informação foi obtida durante a sua função de coordenação da ajuda humanitária no ponto de passagem Kerem Shalom entre Gaza e Israel, onde as FDI têm libertado detidos. A informação também teria sido fornecida “de forma independente e voluntária” por palestinos libertados da detenção.

O relatório afirma que muitos palestinos foram detidos no norte de Gaza enquanto se refugiavam em hospitais ou escolas ou quando tentavam fugir para o sul em busca de abrigo. Outros eram habitantes de Gaza com autorização de trabalho para entrar em Israel. Eles ficaram presos em Israel quando a guerra eclodiu e mais tarde foram detidos.

A Unrwa estima que mais de 4.000 palestinianos foram detidos em Gaza desde o início das hostilidades desencadeadas pelo ataque do Hamas a 7 de Outubro, quando quase 1.200 israelitas, a maioria civis, foram mortos e mais de 250 israelitas e estrangeiros foram feitos reféns.

Na guerra que se seguiu, agora no seu quinto mês, mais de 30 mil palestinianos foram mortos, segundo o Ministério da Saúde de Gaza, gerido pelo Hamas.

A própria Unrwa tem sido o foco da investigação durante esta guerra. Israel acusou-o repetidamente de apoiar o Hamas e de contratar os seus membros.

A agência da ONU, cujos 13 mil funcionários são considerados a espinha dorsal das operações humanitárias em Gaza, negou as acusações. Mas rescindiu imediatamente os contratos dos funcionários acusados ​​num documento israelita de terem desempenhado um papel nos ataques de 7 de Outubro.

As alegações, também investigadas pela ONU, levaram quase 20 países e instituições a suspender o financiamento. Mas a UE retomou recentemente o seu apoio e outros estão supostamente a preparar-se para o fazer.

"A Unrwa está a enfrentar uma campanha deliberada e concertada para minar as suas operações e, em última análise, acabar com elas", disse recentemente o comissário-geral Philippe Lazzarini numa reunião especial da Assembleia Geral da ONU, no meio de apelos em Israel para que a agência fosse desmantelada.

Na introdução do seu relatório interno, a Unrwa destaca que não é um relato abrangente de todas as questões relativas às detenções durante a guerra, incluindo reféns detidos pelo Hamas, ou outras preocupações relativas ao tratamento de reféns em Gaza por grupos armados palestinianos.

O golpista e o assassino

No domingo, 25 de fevereiro, uma multidão de apoiadores convocados pelo ex-presidente Jair Bolsonaro lotou a principal avenida de São Paulo . Investigado como mentor de um golpe de Estado , o extremista de direita precisava demonstrar que ainda detém uma parte significativa dos corações e mentes dos brasileiros. Como esperado, ele conseguiu. Porém, para compreender mais profundamente o que Bolsonaro representa, é preciso ir muito além das grandes cidades do sudeste do país. É preciso desviar o olhar alguns milhares de quilômetros ao norte de São Paulo e olhar para uma cidade de 27 mil habitantes na rodovia Transamazônica chamada Medicilândia. Ali se instalou Darci Alves Pereira, assassino do ambientalista Chico Mendes . E começou uma nova vida como apoiador de Jair Bolsonaro.

Agora como “Pastor Daniel”, identidade associada às igrejas evangélicas, o autor confesso do crime que chocou o mundo foi empossado como presidente local do Partido Liberal em janeiro. O que permite que o homem que em 1988 executou com um tiro de espingarda no peito o mais renomado defensor da Amazônia assuma a presidência do partido de Bolsonaro – foi demitido após revelações na imprensa – e seja pré-candidato a vereador é exatamente o que mantém vivo o bolsonarismo.

O que hoje chamamos de bolsonarismo já existia muito antes, mas sem nome e sem rosto que lhe desse coesão e organização. Esta foi a contribuição decisiva de Bolsonaro para o fortalecimento da extrema direita fascista. Na Amazônia Legal, região que abrange nove Estados e mais da metade do território brasileiro, essa mentalidade – aqui entendida como forma de existir, pensar e se movimentar – domina as eleições e o cotidiano.

Se para o mundo Chico Mendes foi um “herói”, para uma parte significativa da população da Amazônia, formada por pessoas que vieram de outros Estados para ganhar a vida com a exploração da selva, o líder ambientalista nada mais foi do que um obstáculo que precisava ser eliminado. Seu assassino, portanto, teria prestado um “serviço” que consideram “legítimo”. Estas pessoas não se consideram criminosas, mas sim como “pioneiros”, “defensores do progresso”, “bons cidadãos”. E é assim que são reconhecidos nas cidades amazônicas, onde ladrões de terras, madeireiros e patrões da mineração ilegal ocupam os principais cargos políticos e possuem grande parte dos negócios.

Com a redemocratização do Brasil e a Constituição de 1988, que reconheceu os direitos dos povos indígenas, esses “pioneiros” começaram a ser vistos e tratados como feios, sujos e maus, e seu poder foi parcialmente limitado. Tal como o seu espelho, ao alcançar o poder com os seus votos, Bolsonaro redimiu-os e “libertou-os”, expandindo os limites para além da lei. O sabor desta redenção – e daquilo a que chamam “liberdade” – não será apagado cedo ou facilmente, talvez nunca.

Faltava ainda a redenção religiosa, uma vez que a Igreja Católica na Amazônia estava ligada à Teologia da Libertação e muitos dos atuais líderes da esquerda foram formados nas comunidades eclesiais de base. Com a ascensão e expansão das igrejas evangélicas, que hoje formam a base de apoio mais resiliente de Bolsonaro , elas alcançaram essa outra camada. Tanto é que, como diz o “Pastor Daniel”, o assassino de Chico Mendes costuma pregar sem nenhum pudor: “Em tudo que fazemos, devemos colocar Deus no meio”.

O fato de o assassino ter escolhido esta cidade da região transamazônica para sua redenção oferece um grau adicional de espanto. Medicilancia leva o nome de Emílio Garrastazu Médici, general e presidente do período em que ocorreram mais sequestros, torturas e assassinatos durante a ditadura brasileira, e que também transformou a destruição da Amazônia em um projeto de Estado. Essa é a filiação de Bolsonaro, do bolsonarismo e do “Pastor Daniel”. E sobreviverá até a Bolsonaro.

sexta-feira, 8 de março de 2024

Pensamento do Dia

 


O que está havendo com o mundo?

Apesar de investigado e provavelmente condenado, Trump aparece como favorito nas eleições americanas. Milei foi eleito na Argentina e continua cometendo erros sobretudo contra a população. Em El Salvador, o recém eleito Bukele, o presidente que se fantasia de jovem, decreta a prisão em massa de supostos milicianos sem se preocupar em envolver nisso pessoas inocentes. E não estou incluindo nem Putin, nem Zelensky e nem Netanyahu. No Brasil, depois das opiniões sensatas sobre o conflito em Gaza, Lula vê sua popularidade entre os evangélicos despencar mais ainda.

Se deixarmos, o Brasil também vai continuar sua trajetória rumo ao fascismo através do seu Congresso conservador e das forças reacionárias que ressurgiram depois do advento do bolsonarismo. Eu até insisto em não chamar de bolsonarismo. Bolsonaro não tem estofo para criar uma ideologia. Fascismo e extrema direita são termos mais apropriados e que apareceram de vez com o favorecimento, aí sim, de Bolsonaro. Tirando alguns países da Europa do norte, e assim mesmo são poucos, e outros em que o nível de desenvolvimento humano já chegou a um bom padrão, são poucos os países que colocam a população trabalhadora como prioridade. “Farinha pouca, meu pirão primeiro” é o ditado mais usado.


Temos a China como contraponto desta situação, mas com uma realidade bem diferente da nossa e com aquela população toda impossível exigir um governo com mais liberdade. Aliás, onde essa liberdade está sendo usada de modo democrático e por todos? É complicada a situação do mundo. Afora as guerras horríveis que vemos com o apoio dos países produtores de armas, assistimos também a espetáculos dantescos nos países bem pobres do Caribe, da América Latina ou da África em que a violência, a ausência do Estado e o abandono do resto do mundo agravam terrivelmente a situação. O que acontece no Haiti, no Sudão, em Gaza mesmo com o silêncio do mundo me deixa perplexo.

Claro que guerras sempre existiram e o ser humano não passou a ser perverso agora. O que mudou foi a comunicação. Ficamos sabendo de tudo imediatamente e sem filtro. E isso também espanta porque em tantos anos, usando como exemplo a minha trajetória de vida, muito pouca coisa mudou. Os ricos continuam mais ricos, os poderosos mais poderosos e explorando os mais fracos, as guerras e a fome matando, a religião oprimindo as pessoas e, a cereja do bolo, as big techs hoje se dando bem e estabelecendo novos padrões de comunicação, entretenimento e conhecimento.

Como sempre, o que sobra é para poucos e o que interessa é a ignorância disfarçada de informação para muitos. Não é por menos que as fake news se estabeleceram com tanto sucesso. A mentira tem mais sabor, é mais glamurosa e nos deixa livre para inventar o que quisermos. A verdade é insossa, apesar de real. Não interessa aos poderosos que ela exista. Espalhar mentiras virou o objetivo dessa gente no mundo. E que mundo este nosso se tornou? Um mundo de mentiras em que a verdade vai acabar determinando o prazo de validade. Esse não há mentira que transforme. Do jeito que está vai sobrar pouco tempo.

Vita brevis?

Não dispomos de pouco tempo, mas desperdiçamos muito. A vida é longa o bastante e nos foi generosamente concedida para a execução de ações as mais importantes, caso toda ela seja bem aplicada. Porém, quando se dilui no luxo e na preguiça, quando não é despendida em nada de bom, somente então, compelidos pela necessidade derradeira, aquela que não havíamos percebido passar, sentimos que já passou. É assim que acontece: não recebemos uma vida breve, mas a fazemos; dela não somos carentes, mas pródigos. Tal como amplos e magníficos recursos, quando vêm para um mau detentor, são dissipados num instante, ao passo que, por mais modestos que sejam, se entregues a um bom guardião, crescem pelo uso que se faz deles, assim também a nossa existência é bastante extensa para quem dela bem dispõe.

Sêneca, "Sobre a brevidade da vida"

Varsóvia e Gaza: 80 anos depois, dois guetos e o mesmo nazismo

O judeu assassinado e o judeu assassino. Oitenta anos separam essa brutal metamorfose de um povo perseguido em 1943 pela barbárie nazista na Polônia e convertido, em 2023, em um Estado vingativo que bombardeia impiedosamente hospitais, escolas, ambulâncias, mesquitas, mulheres, crianças e dois milhões de civis inocentes no enclave palestino de Gaza. A dramática inversão de papéis dos judeus atacados no Gueto de Varsóvia para os judeus atacantes no Gueto de Gaza – a inacreditável degeneração do judeu perseguido para o papel de judeu perseguidor – marca talvez o pior retrocesso moral e ético dos princípios civilizatórios de um povo no curto espaço das últimas oito décadas da Humanidade.

A impensável conversão de Israel ao horror nazista tem agora um pretexto de sangue e terror. O silêncio da manhã ensolarada de terça-feira, 7 de outubro, foi quebrado pelo silvo de aproximadamente três mil foguetes disparados de Gaza pelo grupo militar islâmico Hamas sobre a fronteira sul e cidades próximas de Israel, incluindo a capital, Tel Aviv, apenas 70 km ao norte. Eram tantos foguetes no ar que o poderoso “Domo de Ferro”, o sistema antimíssil de defesa de Israel que detecta alvos a até 70 km, ficou sobrecarregado e impotente diante de tantas ameaças desabando dos céus.


O pior viria a seguir. Os foguetes ainda fumegavam no ar quando um punhado de 1.500 homens da brigada Al-Qassam, o braço armado e terrorista do Hamas, ultrapassou as cercas da fronteira com tratores, motos e parapentes com duplas armadas de metralhadoras para o maior e mais brutal ataque ao território de Israel desde sua fundação, em 1948. Em poucas horas, em ação abominável, os terroristas massacraram quase 1.200 homens, mulheres e idosos, incluindo 33 crianças, numa operação que tinha como alvo indefesos civis israelenses, não militares. Quando retornaram a Gaza, os atacantes do Hamas levaram 240 reféns, incluindo 40 crianças. Foi o maior atentado terrorista no mundo desde o 11 de setembro de 2001, quando 19 membros da Al-Qaeda de Bin Laden sequestraram quatro aviões comerciais nos Estados Unidos – atingindo entre eles as torres gêmeas de 110 andares do World Trade Center, em Nova Iorque. Naquele dia morreram 2.996 pessoas em quatro ataques, incluindo os 19 terroristas.

A ação da brigada assassina do Hamas destravou a linguagem mais encanzinada da elite governante de Israel, nivelando no fundo do poço a reação desproporcional de quem se move pela vingança, sem arrefecer sua fúria mesmo diante de bebês, crianças, mulheres e idosos palestinos. Líderes notórios máximos de Israel, incluindo generais, jornalistas, celebridades e destaques das redes sociais, se lambuzaram na defesa da punição coletiva em massa. Um constrangedor surto de desmemória para um povo que sempre lembra ao mundo a brutalidade de que foi vítima na barbárie do Holocausto nazista.

O primeiro ministro Benjamin Netanyahu declarou no mesmo dia do ataque um “estado de guerra” em Israel, e esbravejou com a convicção de quem não se envergonha de anunciar seu ímpeto homicida: “Vamos transformar Gaza em uma ilha deserta e mudar o Oriente Médio. O que faremos com nossos inimigos nos próximos dias repercutirá entre eles por gerações”. Rápido no gatilho, o major-general Yoav Galant, ministro da Defesa de Israel, ecoou o chefe anunciando o inferno iminente: “Estamos lutando contra animais humanos, e estamos agindo de acordo. Vamos impor um cerco completo a Gaza. Não haverá eletricidade, nem alimentos, nem água, nem combustível, tudo será cortado”. A mulher de Netanyahu, Sara, embora psicóloga, completou o desatino numa entrevista de rádio em 10 de outubro, 72 horas após o ataque: “Não os chamo de animais humanos porque isso seria um insulto aos animais”. Tsaji Hanegbi, conselheiro de Segurança Nacional, fez uma distinção para defender os bichinhos: “Dizem que terroristas são animais. Mas, quem tem um cão em casa, sabe que eles não são animais. São monstros”.

Yinon Magal, apresentadora do Canal 14 de direita em Israel, trovejou na sua TV, uma semana após o ataque:“Apaguem Gaza. Não deixem ninguém lá”. Na mesma emissora, um especialista militar de um instituto associado à Universidade de Tel Aviv, Eliyhau Yossian, insistiu: “Não existem inocentes em Gaza, apenas dois milhões de terroristas”. O ministro de Segurança Nacional e líder de um partido de extrema-direita, Itamar Ben-Gvir, repetiu na TV o mantra que extravaza o terror dos atacantes: “Qualquer pessoa que apoia o Hamas deve ser eliminada”.

Até o presidente Isaac Herzog, considerado a face moderada do governo mais extremista e ultradireita da curta história de Israel, perdeu a compostura e rotulou toda a população de mais de 2 milhões da Faixa de Gaza como terrorista, dando ao Hamas uma dimensão que ele não tem: “É uma nação inteira lá fora que é responsável. Não é verdade essa retórica de que os civis de Gaza não sabiam, não se envolveram. Absolutamente, não é verdade. Eles poderiam ter se levantado, poderiam ter lutado contra aquele regime maligno que assumiu o controle da Gaza”, protestou Herzog.

O desatino que afundou a cúpula governante de Israel na ideia de “punição coletiva, sem exceções” foi resumido, sem dó, por um dos militares mais influentes do país. Giora Eiland, 71 anos, hoje na reserva, é um paraquedista que chegou ao posto de general-brigadeiro e foi chefe em 2004, no governo linha dura de Ariel Sharon, do Conselho de Segurança Nacional. “Israel deve criar um desastre humanitário sem precedentes em Gaza. Somente a mobilização de dezenas de milhares e o clamor da comunidade internacional criarão a alavanca para que Gaza fique sem o Hamas ou sem pessoas. Estamos em uma guerra existencial”. A elite governante de Israel assumiu, em poucas horas, o discurso do extermínio do povo palestino. O Fake Repórter, um equilibrado grupo israelense que monitora a desinformação e o ódio, anotou apenas 16 apelos para que Gaza fosse “achatada”, “apagada” ou “destruída” nos 45 dias anteriores a 7 de outubro. Depois do ataque terrorista do Hamas, o sentimento de fúria varreu o país. Em poucas horas, o Twitter (atual X) foi invadido 18 mil vezes por expressões genocidas pedindo o apagamento, a destruição, o achatamento de Gaza e seu povo.

Consumado o ataque de 7 de outubro, as duas nações militarmente mais poderosas do Ocidente, Estados Unidos e Reino Unido, se apressaram em dar um “apoio incondicional”, sem meios-tons e sem ressalvas, a qualquer reação de Israel. O presidente Joe Biden e o premiê Rishi Sunak fizeram questão de ir pessoalmente a Tel Aviv para justificar uma irrestrita licença para matar – ao melhor estilo 007 de James Bond – aos militares de Netanyahu: “Israel tem o direito de se defender”, repetiram o americano e o britânico, sem esclarecer se isso incluiria o direito israelense de chacinar populações civis, mulheres e crianças e bombardear hospitais, escolas, ambulâncias e mesquitas.

Resultado sangrento dessa barbaridade retórica de Washington e Londres: em quase quatro meses, até 16 de fevereiro (dia 133 do conflito), Israel usou e abusou de seu matador “direito de defesa” para liquidar 27.238 mil palestinos, incluindo 11.500 crianças e bebês e 8 mil mulheres – um total cerca de 24 vezes maior do que os israelenses mortos. E 66.452 mil palestinos foram feridos, incluindo mais de 8,6 mil crianças e 6,3 mil mulheres – sete vezes mais do que no lado israelense (8.730 feridos). A lista inicial de 1.405 vítimas judias foi revisada para baixo, para 1.139 mortos, por dados consolidados do governo de Gaza, do Exército de Israel, do Crescente Vermelho, do Ministério da Saúde da Cisjordânia e da rede Al Jazeera. O porta-voz da chancelaria de Israel, Lior Haiat, reconheceu em 10 de novembro que o número caiu porque muitos corpos, não identificados, foram incluídos erradamente na contagem de israelenses mortos, mas descobriram depois que eram de “terroristas”.

A curva desproporcional da violência que mata muito mais palestinos fica evidente num quadro montado pelo jornal O Globo para o período de 55 dias entre 7 de outubro, data do ataque, e 1º de novembro. A contagem começa com uma disparidade entre mortos árabes (426) e judeus (677), equilibra rapidamente quatro dias depois (1.126 palestinos e 1.200 israelenses), vira dois dias mais tarde (1.943 árabes mortos contra 1.300), e dispara numa curva ascendente até o primeiro dia de outubro (8.796 contra 1.402, na lista depois rebaixada para 1.200). O detalhe intrigante é que o total de mortos de Israel estabiliza seis dias após o ataque e mantém a regularidade daí em diante, enquanto as vítimas palestinas disparam geometricamente, dia a dia.

A estatística do matadouro produzido por Israel em Gaza se renova e aumenta a cada hora assombrada por 200 ataques aéreos, como na madrugada de segunda-feira, 4 de dezembro. Nos primeiros seis dias de guerra, de acordo com o Exército israelense, foram jogadas em Gaza 42 bombas a cada 60 minutos. Segundo o escritório de Coordenação de Assuntos Humanitários da ONU (UNOCHA, na sigla em inglês), esse descomunal poder de fogo mata, por hora, 15 pessoas (seis delas crianças), fere outros 35 indivíduos e destrói 12 prédios. Já Agência para Refugiados Palestinos das Nações Unidas (UNRWA, na sigla em inglês), informou em 6 de novembro que um mês de guerra registrava, a cada 10 minutos, a morte de uma criança e ferimentos em outras duas. No início de dezembro, fontes da ONU calculavam mais de 360 mil residências (60% das moradias de Gaza) destruídas ou danificadas pelas dezenas de bombardeios aéreos diários, que atingiram 386 escolas, 122 ambulâncias, 56 mesquitas destruídas e outras 136 danificadas (matando 53 imãs e pregadores), deixando fora de ação 26 dos 35 hospitais de Gaza. Onze padarias foram demolidas, agravando o drama da fome numa população já privada de luz, de água e de combustível.
Luiz Cláudio Cunha (íntegra do artigo pode ser lida aqui

Os sistemas de defesa no caos climático

Nem as forças armadas escaparão da necessidade de se prepararem para as transformações do clima decorrentes do aquecimento global. Na verdade, principalmente elas precisarão correr para se adaptarem ao caos climático que avança a passos largos mundo afora.

Segundo a revista Diálogos Soberania e Clima (edição especial V3. Nº1 2024), os sistemas de defesa atuais sofrerão impactos de desastres naturais e de seus efeitos, da mesma forma que outros setores públicos e privados, ou com maior intensidade.

Para se ter uma ideia, segundo um relatório do Departamento de Defesa dos Estados Unidos, cerca de metade das 3.500 instalações de defesa norte-americanas relataram já terem sofrido algum efeito adverso de episódios climáticos como ventos fortes, inundações, incêndios florestais ou secas intensas.


Essa vulnerabilidade física (e da adequação tecnológica) das instalações e dos equipamentos de defesa diante dos extremos climáticos será, sem dúvida, um dos aspectos com maior relevância no planejamento de investimentos e atividades do setor nos próximos anos e já consta dos documentos oficiais de defesa de diversos países, inclusive no Brasil.

A mudança climática afetará também a própria capacidade operacional militar em assuntos como comunicações, eficiência de armamentos, mobilidade aérea, marítima e terrestre, entre outros itens da atividade cotidiana típica das missões de defesa, incluídas aqui as operações de defesa civil para emergências em casos de desastres ambientais, cada vez mais frequentes, intensos e imprevisíveis.

No entanto, o desafio mais importante que as mudanças climáticas vão impor aos sistemas de defesa é o aumento da ameaça às diferentes soberanias nacionais do modo como as conhecemos hoje. A pressão interna e externa, resultante dos desastres climáticos, sobre os Estados nacionais poderá ampliar conflitos entre países e a desestabilização de governos, segundo a revista Diálogos Soberania e Clima.

Os fatores envolvem a disputa por terras agricultáveis, fontes de energia, água, alimentos, locais de moradia, bem como migrações em massa, epidemias, fuga de secas, nevascas, ondas de calor ou frio e inundações, por exemplo. Tudo isso implica em deslocamentos de populações, mas também de governos, empresas e infraestruturas (e consequentemente de fronteiras…).

Nesse cenário, os principais aliados das forças armadas serão os organismos multilaterais, os órgãos de diplomacia e a sociedade civil, que funcionarão como amortecedores, negociadores e mediadores dos interesses geopolíticos sujeitos às adaptações compulsórias a uma realidade que ainda sequer conhecemos.

As chacinas de mercado

“Viu só? Tá pensando o quê? Batemos o recorde de mortes em São Paulo; não tem Rio, não tem Pernambuco, não tem pra ninguém, meu amigo. Foi o maior índice de homicídios em cinco anos. Cinco mil e trezentas pessoas entre janeiro e dezembro. Os jornais ficam dizendo que há uma crueldade banalizada por nós. Que é isso, ‘mermão’?

‘Nonada’ – não há mais a ‘crueldade’. As novas chacinas de São Paulo estão além do bem e do mal. Há crueldade num abatedouro de frangos? Não. Os frangos são decapitados por diligentes carrascos de branco, limpinhos, como num Auschwitz higiênico. Nem nos matadouros há crueldade, apenas operários mal pagos entre mugidos tristes. O mesmo nas chacinas. Ninguém sente nada. E nós nem nos preocupamos em tapar as pistas. Sabe por quê? Porque estávamos cumprindo tarefas, cuidando de nossos interesses. Fazemos parte de uma empresa escura, invisível, mas que progride muito nas periferias. O que vocês chamam de ‘crime organizado’ é organizado mesmo. Não é aquela criminalidade babaca do Rio e outros Estados primitivos. O dinheiro que o tráfico arrecada aqui, nesta cidade tão rica, é aplicado com seriedade em bens de capital e em rentáveis investimentos. Nossos chefes são sérios, previdentes. Eles investem muito em postos de gasolina adulterada que rende mais, claro, eles têm motéis meio escrotos, não são ‘Bahamas’ ou algo assim, mas a tigrada tem onde trepar numa boa, têm não digo supermercados, mas muitos mercadinhos legais. Claro que eles têm muito mais grana do que nós, mas nós fazemos parte do negócio, somos os peões de uma nova visão de mundo da periferia: o crime neoliberal, o crime copiado dos métodos de tantos ‘cachoeiras’ e de mensaleiros didáticos. Nós somos a base desse sistema e podemos subir na carreira se cumprirmos as ordens dos chefes – uma rede organizada, com amigos federais, estaduais e municipais. O PCC rege hoje todas as cadeias de São Paulo; temos até reunião plenária na prisão, com votação e tudo, temos a contribuição obrigatória (hoje está por volta de 800 paus por mês) para proteção e regalias da malandragem. Quem não paga vai pro lixo, em todos os sentidos. Nós pagamos com nossas ações de intimidação que a ‘mídia conservadora’ chama de ‘chacinas’.


Estamos aprendendo muito com os craques do Oriente. Nossos ataques, como os deles, não são previsíveis – a gente sai armado e o acaso nos leva às vítimas e é até melhor que sejam inocentes, para que ninguém mais se sinta ‘protegido’. Mas há uma diferença entre nossos ‘presuntos’ e os ‘presuntos’ do Oriente. Lá, eles matam e são mortos por religião ou se explodem felizes por uma causa política. Nós, não. A gente não pensa em ir para o céu feito os homens-bomba. Nós obedecemos às ordens dos celulares da chefia de dentro das prisões… Aliás, como podemos respeitar uma polícia que não consegue nem bloquear celulares? Mas, como você quer saber, sim, há um prazer nisso tudo, devo confessar. O grande prazer é matar neles a nossa vida escrota, ordinária, matar neles nosso destino miserável. Entendeu? A gente gosta até mesmo de exibir, jogar na cara dos playboys nossa ferocidade. Tem que dar medo neles. Outro dia, a gente decapitou dois X-9’s. Dá trabalho. Esguicha muito sangue, tanto que a gente cobre o quengo do elemento com uma toalha na hora da degola. Eu já tinha visto a decapitação de um refém no Iraque, na internet. Êta, gente competente! O árabe foi serrando com a faca, assim, devagar, o pescocinho duro e o americano só deu uma estrebuchada na hora do corte, só deu um mugidinho.

Matar ainda é a maior diversão… Você já matou alguém? Não? Não sabe o que está perdendo… O prazer de sair com uma metralhadora, ali, no tiro ao alvo, os otários levando susto, é de matar de rir; a cara do babaca voltando do trabalho e a gente acertando ele na porta de casa, a esposinha berrando, criancinhas chorando, dá uma adrenalina legal, parece que fica tudo bonito em volta. Outro dia, num botequim que tinha uns babacas dentro quando a gente tacou fogo, o néon ficou mais forte, tudo ficou luminoso! Aliás, a morte matada parece mesmo um milagre. Os caras que estavam ali, folgando, bebendo, rindo, levam chumbo e de repente ficam todos quietinhos, obedientes, não se mexem mais. É superlegal. Os caras viram coisas. Eu confesso que me sinto leve nessas ‘paradas’… E tem mais: a gente não gosta de matar na moita… Os ‘presuntos’ têm de ser vistos, ali, caídos; afinal, fomos nós que criamos tudo aquilo… Legal é o prazer de abrir uma cerveja, acender um baseado e ficar vendo na TV a nossa ‘obra’. É uma curtição irada; parece uma exposição de pintura, uma ‘instalação’ – aqueles corpos na estrada, em posições diferentes, as autoridades falando em ‘providências’, é o maior barato… Dá orgulho. Dá vontade de sair na rua e gritar: ‘Fui eu!!!’

Hoje em dia, somos obrigados a criar notícias, fazer ‘mídia’, temos de chamar atenção e cada vez está ficando mais difícil – é tanto crime, que a gente tem de caprichar… Você veja, a turminha lá do Elias Maluco inventou o ‘micro-ondas’. Bacana, obra de arte: o cara queimando dentro dos pneus é dos espetáculos mais emocionantes que já vi, chega a dar medo mesmo na gente que está acostumado – aqueles gritos e, aos poucos, o silêncio, com o cara virando cinza, dá um alívio, como uma purificação… É demais…

Mas, o que me dá tranquilidade, ‘mermão’, é que nós sabemos que no Brasil é impossível resolver o ‘problema da violência’, como os playboys chamam…

O que tinha de ser feito ninguém consegue fazer mais: atacar a rede do tráfico de pó e armas que começa nos oficiais graúdos, passa por políticos e autoridades até chegar a nós, os pés de chinelo. A gente é peão. Não há mais crueldade; apenas defesa de mercado, para que nossos chefes e nós possamos sustentar nossas famílias dignamente.”

Arnaldo Jabor

Em Gaza como em Odessa n’O Couraçado Potemkin

A Humanidade parece caminhar para um mundo ilógico e afastar-se de uma das características mais nobres dos seres humanos – os sentimentos que a fazem aproximar-se dos outros e estender a mão para ajudar.

Ao ver as imagens das forças israelenses a metralhar populares esfomeados junto dos camiões com ajuda humanitária, na passada quinta-feira, há naquela metralha a percepção de que quem dispara perdeu a essência que o faz distinguir de todos os outros animais.

Quem assim atira à queima-roupa contra gente maltrapilha nunca mais vai ser quem era por ter ultrapassado os limites do que a alma humana é capaz de suportar.


Eram esfomeados, perseguidos como presas de caça, corridos de todos os lugares de Gaza, sob a mais avançada tecnologia militar de matar, que o único mal que fizeram foi nascerem na Palestina e serem palestinianos.

Outrora, os nazis davam ordens para matar judeus, por serem judeus, ao preço mais barato.

Agora são os dirigentes de Israel que dão ordens às suas Forças Armadas para expulsar, como animais bravios, os famintos e doentes palestinos de Gaza, há cinco meses escorraçados do Norte para o Sul, do Sul para o Norte, de um canto para o outro apenas por serem palestinianos.

Não há espaço dentro do coração de cada ser humano para aguentar a suprema malvadez de disparar friamente sobre crianças, mulheres, idosos que para aliviar a fome, por já não terem ervas, raízes, rações de animais e procuravam comida junto dos camiões com ajuda.

Metralhar à queima-roupa gente indefesa só em cinema, como n’O Couraçado de Potemkin, de Serguei Eisenstein, quando os carrascos do czar dispararam sobre a população em fuga, em Odessa, dirigindo-se para uma escadaria monumental em que se estremece com a violência e se vê carros de bebés desgovernados serem projetados numa impiedade sem limites.

Em Gaza, mais de um século depois, um dos bastiões do Ocidente com regras, como alegam constantemente, assistiu-se a um episódio de igual ressonância. Palestinos baleados como presas, tal como nos comedouros de caça, pela tropa do novo Macbeth do Médio Oriente.

E, no entanto, as emoções não estão viradas para os palestinos que já “aceitamos” não serem exatamente iguais a outros seres humanos com o estatuto e a estirpe de ocidentais.

Eles estão do outro lado por não aceitarem que a sua terra não é deles. No caso, queriam comida que os dirigentes israelenses negam, como na Idade Média, para impor a rendição.

Para o Ocidente, Israel tem o direito a defender-se e os palestinos a morrer de fome ou baleados pelo grande aliado.

Esta Europa supercivilizada, em que só é permitido matar três perdizes e vinte tordos por caçada, convive com a brutalidade dos carniceiros que ordenaram a matança de mais de cem palestinos famintos, num total de mais de trinta mil, um terço crianças, nestes cinco meses.

terça-feira, 5 de março de 2024

Israel nega atos de genocídio em Gaza, mas e os de domicídio?

O Governo israelita está a lutar contra as acusações de genocídio apresentadas pela África do Sul no Tribunal Internacional de Justiça, em Haia. Enquanto nega estes atos, também surgem cada vez mais denúncias a dar conta da destruição em Gaza, provocada pela guerra entre Israel e o Hamas, e a rotular estas ações como domicídio (domicide, em inglês). “O domicídio tem sido, de facto, implacável”, afirma o relator especial das Nações Unidas sobre o direito à habitação, Balakrishnan Rajagopal. Em janeiro, “mais de 70% das habitações de Gaza e cerca de 82% das habitações do Norte de Gaza foram destruídas. E os bombardeamentos continuam a ocorrer”.

Desde o início do conflito, quase dois milhões de pessoas tiveram de deixar as suas casas. Uma investigação do jornal The Guardian refere inclusive que, na Faixa de Gaza, foram destruídos mais de 250 edifícios residenciais, 16 mesquitas, 17 escolas, três cemitérios e três hospitais e ainda 150 estufas. Balakrishnan Rajagopal adiciona a esta lista escolas, bibliotecas, universidades, museus, tesouros culturais e a paisagem que envolve a cidade.

Para o relator das Nações Unidas, os danos não se resumem apenas à destruição física dos edifícios. Por escrito, ao PÚBLICO, explicou que “a destruição sistemática ou generalizada do direito a uma habitação adequada”, ou seja, o domicídio, estende-se às esperanças, às memórias, aos sonhos futuros, à dignidade, ao orgulho e às poupanças dos cidadãos — a “tudo aquilo que nos define como humanos”.

Balakrishnan Rajagopal vai mais longe e diz que Israel está a destruir não só as vidas dos palestinianos e as suas habitações, mas também a identidade coletiva de um povo e a tornar Gaza inabitável. “Israel está a violar a própria essência do que significa ser humano.”


E, se por um lado, estes casos parecem acontecimentos que afetam exclusivamente a zona em que ocorrem, Balakrishnan Rajagopal refere que não. “O domicídio prejudica sociedades inteiras, porque é um dano coletivo e não apenas individual. Não é só moralmente errado, como também é socialmente destrutivo, economicamente catastrófico e politicamente perigoso, quando vemos sociedades e comunidades inteiras a serem destruídas”, nota. “Todas as pessoas com algum sentido de decência e autoconsciência e como seres humanos deveriam preocupar-se”, acrescenta.

A habitação é um direito consagrado na Declaração Universal dos Direitos Humanos. É por isto que, segundo Balakrishnan Rajagopal, as casas, enquanto objectos protegidos ao abrigo do direito humanitário, não podem ser destruídas em combate, a não ser que haja uma necessidade militar.

No entanto, quando falamos de “bairros inteiros a serem destruídos e a destruição maciça de habitações”, não podemos falar de “um crime por si só”. Portanto, para o relator da ONU, existe “uma lacuna no direito internacional que precisa de ser preenchida”.

Apesar de este termo não ser reconhecido aos olhos da lei, alguns especialistas como Balakrishnan Rajagopal defendem que o domicídio deveria efetivamente ser considerado um crime internacional. Isto seria através de uma alteração ao Estatuto de Roma – um tratado internacional assinado por 123 países que criou o Tribunal Penal Internacional (TPI), instituição que tem “jurisdição sobre as pessoas responsáveis pelos crimes de maior gravidade com alcance internacional” e que julga crimes como o de genocídio, de guerra, de agressão e contra a humanidade.

“Há precedentes para tais alterações — a fome foi introduzida como crime em 2019”, aponta Balakrishnan Rajagopal. “Qualquer país que seja signatário do Estatuto de Roma pode introduzir uma alteração deste tipo”, diz. Se isto não acontecer, um tribunal pode considerar a destruição maciça de habitações um crime, mas isso depende da interpretação jurídica.

Apesar de Israel não ser um país signatário do tratado internacional, pode ser investigado por crimes contra o Estado da Palestina, já que este último território ratificou o Estatuto de Roma em 2015. Tendo em conta a inação dos países, Balakrishnan Rajagopal diz ser necessário questionarmos “se os direitos humanos são ou não universais e se todas as vidas têm a mesma importância”.

Depoimento de general: ‘tiro de misericórdia’ em Bolsonaro e fim da agonia do Exército

O depoimento do general Marco Antonio Freire Gomes à PF é visto como o “tiro de misericórdia” contra o ex-presidente Jair Bolsonaro. Não só pelas informações que revela, esclarece ou confirma, mas também pelo significado que tem a palavra do ex-comandante do Exército. Ela traz parte do peso institucional da voz do Grande Mudo da República. E a expectativa de ser o fim da agonia para a Força Terrestre.

Freire Gomes confirmou não só a discussão sobre a “minuta do golpe” com Bolsonaro e a participação em reuniões no Palácio do Planalto, onde a tentativa de subverter a ordem democrática era planejada. Ele corroborou o depoimento do tenente-coronel Mauro Cid, chefe da Ajudância de Ordens da Presidência da República, que assinou um acordo de delação com a Polícia Federal.

Cid atualizava o general sobre as discussões no Planalto. Às 15h30 do dia 9 de dezembro de 2022, ele contou que Bolsonaro fora pressionado “por vários atores a tomar uma medida mais radical”: as prisões dos ministros Alexandre de Moraes e Gilmar Mendes, do STF, além do presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG). O tenente-coronel asseverou, no entanto, que Bolsonaro permanecia “na linha do que fora discutido com os comandantes das Forças e com o ministro da Defesa (Paulo Sérgio Nogueira de Oliveira)”. “Hoje, ele mexeu muito naquele decreto, né. Ele reduziu bastante. Fez algo mais direto, objetivo e curto e limitado.”


Ouvido como testemunha, o general respondeu a todas as perguntas durante mais de oito horas. Contou que não desmontou os acampamentos em frente ao Exército por causa de Jair Bolsonaro. O general vivia um drama pessoal. Sua mãe, Maria Freire Gomes, estava enferma ao mesmo tempo em que o filho enfrentava outra situação que o deixava atormentado: as pressões do governo para que embarcasse em uma aventura. Gomes sabia que a maioria ordeira e silenciosa no Exército era contrária à bagunça institucional, que levaria à divisão da instituição, tão necessária ao golpe.

Em agosto de 2022, Freire Gomes pediu aos subordinados que os contatos com jornalistas, empresários e políticos ficassem restritos. Tentava afastar o Exército do ambiente polarizado da campanha eleitoral e fechar as portas dos quartéis para as vivandeiras que rondaram os bivaques em 2018. Em novembro, viu-se enredado no movimento nascido entre bolsonaristas que tinha o objetivo de emparedar Luiz Inácio Lula da Silva: passar o comando das Forças aos indicados pela nova gestão ainda sob Bolsonaro, como forma de mostrar que ninguém prestaria continência ao “ladrão”, como então se referiam ao presidente eleito.

No Planalto, acusavam o brigadeiro Carlos de Almeida Baptista Junior, então comandante da Aeronáutica, de ter deixado vazar a informação, o que fez fracassar a trama – só o comandante da Marinha, Almir Garnier, que teria se colocado à disposição do golpe, se recusaria a comparecer à posse de seu sucessor, o almirante Marcos Olsen. Houve ainda a carta dos comandantes das Forças, em 11 de novembro, na qual diziam condenar excessos nas manifestações após o voto bem como as restrições à liberdade de expressão dos manifestantes que se aglomeravam então em frente aos quartéis.

O documento parecia dar aval aos que pediam a “intrervenção militar”. Freire Gomes afirmou que os acampamentos não foram desfeitos em razão de Bolsonaro. No dia 29 de dezembro, o comandante militar do Planalto, general Gustavo Henrique Dutra de Menezes, mandou desmontar as barracas em frente ao quartel-general do Exército, em Brasília. Não avisou Freire Gomes. Quando soube da ação do subordinado, Gomes telefonou para Dutra e o chamou de “maluco”. E cancelou a ordem.

É que o comandante tinha receio de que Bolsonaro usasse o incidente para justificar uma ruptura. Ou nomear outro general para seu lugar, que decidisse levar adiante o plano do golpe. Seus colegas de Alto Comando do Exército (ACE) sabiam que Freire Gomes não estava entre os mais decididos apoiadores da ideia de se garantir a legalidade, mas confiavam que ele se manteria com a maioria. De fato, 11 dos 16 generais do ACE não admitiam a hipótese de uma ruptura institucional para impedir a posse de Lula.

Os companheiros de Freire Gomes afirmam agora que, se ele entregasse Bolsonaro à Justiça ou denunciasse o golpe, não teria como provar a trama e seria ele mesmo destituído. Mesmo assim, há quem fale em omissão do general, que ao saber do intento urdido no Planalto, teria o dever de procurar o Ministério Público. Do ponto de vista legal, o desembargador aposentado Walter Maierovitch afirma que não. “A condição de subordinados do presidente descaracteriza o crime. A questão hierárquica se impõe. Encaminhar ou não a notícia-crime suscita apenas um debate ético ou ainda, moral, mas não o legal.”

Até as vésperas de seu depoimento, os bolsonaristas tinham a esperança de envolver Freire Gomes na investigação. O objetivo era um só: servir-se da figura institucional do ex-comandante para se colocar atrás do biombo da instituição, vender a imagem de que todo o Exército era o alvo da investigação da PF e, assim, poder contar com a solidariedade dos quartéis. Todo mau militar busca essa manobra: a proteção dos pares, dos quais empresta o respeito e a honra para suprir o que lhe falta.Não é à toa que Bolsonaro nunca mais compareceu a solenidades de “seu Exército” depois que as investigações começaram a revelar a trama de deslealdades e de ofensas planejadas e executadas por antigos camaradas contra colegas, uma campanha que não poupou nem mesmo as famílias de quem zelou pelo profissionalismo e pela disciplina da tropa. De fato, o ex-presidente só é visto agora em solenidades da Polícia Militar de São Paulo, Estado governado por Tarcísio de Freitas.

Bolsonaro sumiu das cerimônias da Academia Militar da Agulhas Negras (Aman). Também não esteve no Comando Militar do Leste quando o general André Luis Novaes de Miranda passou o comando ao general Kleber Nunes de Vasconcellos – o general Walter Braga Netto, cujo teor abjeto das mensagens para o major Ailton Barros ainda era desconhecido, compareceu sozinho à cerimônia, no fim de 2023. Em situação não muito diferente está o general Augusto Heleno, o homem que falava o que não devia nas reuniões gravadas do Planalto e era repreendido por Bolsonaro.

E é melhor que seja assim, pensam os generais ouvidos pela coluna. Eles questionam: imagina depois de todas as mensagens reveladas o tamanho do constrangimento que seria ter em um mesmo palanque o ex-presidente e o comandante do Exército, Tomás Miguel Ribeiro Paiva? Como olhar na cara de Braga Netto depois que este chamou Freire Gomes de “cagão” e mandou oferecer a cabeça do comandante aos leões? O que esperar do ex-comandante diante da deslealdade em relação aos antigos companheiros?

Muita gente sabia que os artífices da campanha difamatória contra os generais legalistas em novembro e dezembro de 2022 tinham informações privilegiadas do Planalto. Ou seja, as revelações da PF apenas deram nomes aos bois. Agora, todos avaliam que o depoimento de Freire Gomes deve abrir as portas da cadeia para Bolsonaro. Nenhuma surpresa. Para os generais, o próprio ex-presidente e seus subordinados demonstravam ter consciência de que cometiam ilegalidades quando diziam em mensagens saber que seriam presos ou quando questionavam se as reuniões no Palácio estavam sendo gravadas.

É cada vez mais forte na caserna o sentimento de que o depoimento do ex-comandante deve acelerar também o fim das investigações e sepultar de uma vez qualquer tipo de pensamento intervencionista nas Forças Armadas. A instituição saiu arranhada depois de ser posta à prova pela coincidência de Bolsonaro ter chegado ao poder em 2018, justamente no momento em que seus colegas de turma e contemporâneos de AMAN dos anos 1970 ocupavam o Alto Comando do Exército. Muitos sabiam quem era o “Cavalão”, mas os laços de camaradagem impediam de vê-lo como aquilo que ele sempre foi: um mau militar.

Não se verá mais a Força Terrestre envolvida com urnas eletrônicas, com cloroquina ou com os extremistas de direita. Mas, para além de afastar os militares da política por meio do reforço da profissionalização e do controle civil objetivo, seria importante, segundo analistas ouvidos pela coluna, que a quarentena estudada pelo Congresso fosse aprovada. Ela deveria também atingir outras carreiras de Estado, como a magistratura e o MInistério Público. A República precisa preservar as instituições dos interesses políticos e pessoais de alguns de seus integrantes, uns movidos pela vaidade, outros por razões financeiras ou até mesmo pela obtenção de privilégios reservados ao exercício do poder.

segunda-feira, 4 de março de 2024

Pensamento do Dia

 


A vida tem marchado

A vida tem marchado como um desfile militar,
com seus horários,
com seus uniformes,
com suas armas de guerra
apontadas para a plateia,
que aplaude esse
sangue
que
não
é
seu.
Mas poderia.

Diego Ruas, "A Fome é a Mãe de Todas as Bombas"

Como Israel perdeu a sua 'vitória total' em Gaza

A “vitória total”, ao que parece, é algo como o equivalente israelita ao Santo Graal do Rei Artur. O cálice, sagrado e mágico, com o suposto poder de conceder ao seu detentor força, riqueza, honra e estatuto – e no caso israelita, muitos legisladores da coligação que poderão manter os seus assentos no Knesset – desapareceu.

Todos estão em busca do Graal da vitória – o exército e o governo, os partidos e facções, a direita e a extrema direita, os indiciados e os suspeitos. Eles estão procurando e não conseguiram encontrar. Há pouco mais de cinco meses, parecia estar ao seu alcance, mas a sua estupidez afastou-o.

Isto foi no dia 8 de outubro, um dia após o ataque às comunidades fronteiriças de Gaza (ou talvez na noite de 7 de outubro), quando Israel entrou em guerra, não só com os terroristas do Hamas, mas uma guerra total.

O porta-voz das Forças de Defesa de Israel, um robô falante, relatou naquele dia sobre “milhares de vítimas em Gaza – 426 alvos atacados, túneis, infraestruturas militares, dezenas de edifícios terroristas [nada menos] com 10 andares de altura, e mais e mais. A Força Aérea iniciou nesse mesmo dia a sua campanha de morte e destruição que não teve interrupção até hoje.

Assim, em 36 horas, sem um pingo de preparação e planeamento, sem qualquer ideia sobre qual era o seu propósito ou uma estratégia de saída, Israel embarcou numa guerra selvagem – uma guerra ditada pela bílis, delírios de grandeza, um ego ferido e a sua nudez. expor. Um país são não iria para uma guerra assim. É assim que você conduz um linchamento.

No dia seguinte, 9 de Outubro, o Ministro da Defesa Yoav Gallant anunciou um “bloqueio total” de Gaza – nem água, nem comida, nem eletricidade, nem medicamentos chegariam até lá. Este foi o momento em que nos privamos para sempre da “vitória total”.


Se Israel tivesse demonstrado um mínimo de bom senso, teria contido as suas paixões violentas. Ter-se-ia baseado na moderação demonstrada por Golda Meir após o massacre de Munique, pelo presidente dos EUA, George Bush, após o 11 de Setembro e até mesmo pelos iranianos, que respondem com um lacónico “responderemos no momento e no lugar apropriados” após cada “assassinato” israelita. ” ou outra operação contra eles.

Se tivéssemos agido corretamente, Israel teria se encontrado na sua posição favorita de todos – a vítima, o perseguido, o sofredor, o infeliz. E desta vez, para variar, também teria havido bastante justiça nisso. O mundo inteiro teria sentido a nossa dor e nos inundado de amor. Teríamos sido convidados com prazer para a Eurovisão . O Hamas teria sido considerado um mal absoluto; Israel, o melhor absoluto.

Mas Israel não é dado ao bom senso. Seus instintos levaram a melhor novamente. Era mais importante estimular o ego, distrair todos do desastre, deliciar as massas com uma grande dose de vingança. Não é assim que você alcança a “vitória total”, mas sim como você adquire a marca de Caim.

E à medida que a montanha de cadáveres palestinianos e de casas arruinadas cresce cada vez mais, também cresce a marca de Caim na testa de Israel. E quando atingimos dezenas de milhares de vítimas, mais de metade das quais crianças e mulheres, Israel juntou-se ao clube dos países condenados ao ostracismo, marcados e leprosos, alvo de indignação, protestos e sanções, um país indesejável na sociedade educada.

Hoje, não podemos sequer sonhar com a “vitória total” (na verdade, qualquer vitória) decorrente deste mal ou ainda mais desta estupidez.

E o auge do grotesco é que o “Estado Judeu”, que durante anos se irritou com o silêncio do mundo cruel durante o Holocausto, está agora a exigir em voz alta que o mundo se mantenha quieto e não interfira no nosso trabalho.

Dia infame

A última entrega de alimentos da ONU aos famintos da cidade de Gaza fora no dia 23 de janeiro. Perto de 250 mil civis palestinos vagavam entre as ruínas de suas vidas passadas havia 37 dias e 37 noites. Todo vestígio de comando ou estrutura administrativa havia sido erradicado pelos bombardeios e pela ocupação militar israelense. Mais de 1 milhão de famílias já haviam sido desterradas a fórceps para o sul. Os que permaneceram formavam um amontoado humano em meio ao nada, sem amanhã. O fundo do poço era ali: muitos alimentavam os filhos com ração animal, enquanto cães igualmente errantes se alimentavam de pedaços de carne humana entre destroços.

Foi nessas condições que Gaza chegou às primeiras horas da madrugada de quinta-feira, 29 de fevereiro deste ano bissexto. Dia infame.


Quando 39 caminhões da agência humanitária UNRWA foram percebidos adentrando a principal via litorânea, a notícia rastilhou na escuridão desértica. E o comboio que deveria levar a preciosa carga até o depósito de abastecimento, para distribuição in loco, se viu cercado por massas esfomeadas. Como não saquear?

— Trocamos a alma por um saco de farinha — resumiu o médico palestino Yehia Al Masri no New York Times.

A 250 metros de distância havia dois tanques israelenses; e um pouco mais adiante, uma base avançada das forças de ocupação. Foi das armas desses militares, segundo porta-vozes do próprio comando israelense, que partiram os disparos. Teriam sido “defensivos, só ocorreram porque a multidão se moveu de forma a colocar em perigo os soldados”. Não para o resto do mundo, nem para boa parte de judeus não radicalizados pelo desgoverno Netanyahu. A extinção de vidas que já dura quase cinco meses é consequência do ódio — ódio ao palestino. Palestino terrorista ou palestino civil, de esquerda ou de direita, homem, mulher ou criança, esse estorvo de gente que teima em se dizer palestino nem sequer deveria existir.

Ao final do dia sangrento em que se misturaram mortos a tiros, sufocados na multidão e atropelados pelos caminhões em fuga, restaram indagações cruciais. O comando militar de Israel divulgou imagens de vídeo feitas por drones, sem áudio, em que se percebe claramente haver cortes, edição — dos fragmentos divulgados não constam imagens anteriores ao momento em que as massas humanas se põem a correr para longe dos caminhões. Há pessoas se arrastando no chão, buscando proteção ao abrigo de muros. Fugiam do quê?

A fuzilaria virou gatilho para desencadear cobranças, pedidos de investigação e acusações por parte de aliados históricos de Israel, repentinamente mais impacientes com Netanyahu que os países-irmãos árabes. Por ora, o presidente francês Emmanuel Macron é quem está em situação mais confortável, tem direito a arroubos tonitruantes. Ele é o único chefe de Estado que, desde o final do ano passado, tem um porta-helicópteros anfíbio da Marinha ancorado no litoral de Gaza, atendendo a feridos da invasão israelense. Também são franceses os aviões que despejam sobre Gaza suprimentos que nem sempre chegam a quem mais precisa deles — toda guerra, assim como a paz, tem seus atravessadores. Mas ao menos tentativas são feitas.

Nem isso o governo de Joe Biden tinha coragem de tentar até semana passada. Compreende-se: é de fato incongruente conciliar uma ação humanitária dos Estados Unidos para palestinos, quando estes são estraçalhados por armamentos israelenses financiados por Washington. Por três vezes desde o atentado terrorista do Hamas contra Israel, a embaixadora dos EUA na ONU ergueu o braço para votar no Conselho de Segurança. Por três vezes desde o atentado terrorista do Hamas contra Israel, a embaixadora dos Estados Unidos na ONU ergueu o braço direito para votar no Conselho de Segurança. Nas três vezes ela, Linda Thomas-Greenfield, vetou as diferentes propostas de cessar-fogo em Gaza, começando pela do Brasil. Receberá julgamento da História semelhante ao do ex-secretário de Estado do governo George Bush que forneceu dados falsos à ONU para favorecer a invasão do Iraque pelos americanos em 2003.

Quantos civis palestinos não precisariam ter morrido nestes quatro meses e 27 dias sem cessar-fogo? Quantos mais morrerão de fome, doenças, pisoteados ou a tiros antes que o mundo, envergonhado, force Israel a parar a insânia? Já são perto de 30 mil (e 70 mil feridos), segundo dados do Hamas que até mesmo o governo Biden aceita — mesmo número de soldados ucranianos mortos em dois anos de guerra. Melhor nem pensar por enquanto no que escondem os escombros de Gaza.

P.S.: Recomenda-se aqui um pequeno livro de grande utilidade para abrir mentes desarmadas, interessadas no viver alheio: “Tornar-se Palestina”, de Lina Meruane. Nascida no Chile e residente em Nova York, a escritora de ascendência palestina convida o leitor a acompanhá-la na compreensão do que é ser palestino. Para quem não quer perder tempo com introitos, pode começar a viagem no capítulo II. Será uma viagem civilizatória que não necessita de concordância. Basta ser humano.

Os malabaristas

O convívio intenso e longo com o poder gera poderoso efeito narcotizante. Transforma seres mortais, pessoas simples e humildes, gente com histórias iguais a de seus semelhantes, em “divindades”. A que se deve essa distorção? À armadilha do falso retrato, da autocontemplação, que prende os homens públicos à paisagem de Narciso, aquele que foi condenado pelos deuses a se apaixonar pela própria imagem. Como conta a lenda, ele tomou-se de amores pela imagem quando se contemplava nas águas transparentes de uma fonte. Obcecado pelo reflexo, Narciso não mais se afastava da água, definhando até a morte.


O Brasil está recheado de narcisistas, pessoas fascinadas pelo próprio brilho, um brilho ilusório, porque muitas perderam poder, não o orgulho. Que tipo de mal os narcisistas cometem contra si mesmos e contra a sociedade? O maior dos males é a inação, a inércia, a perda do sentido de realidade. Presos no simulacro do poder, exibem um prestígio falso, que frequentemente conduz ao ócio. Aliás, praestigium, do latim, significa nada mais nada menos que artifício, ilusão, malabarismo. Os malabaristas da política, conscientes ou não, acabam promovendo a mistificação das massas, fazendo-as crer que seu discurso é a ação, o verbo é tão importante como a verba, a palavra é a extensão da verdade. O falatório no oceano da política é intenso. Cada qual com sua onda.

O brasileiro tem predileção pela cultura oral, uma das tradições mais ricas do país. Um passeio pela monumental obra do insuperável Luís da Câmara Cascudo, potiguar boêmio, bonachão e denso, que produziu a mais fecunda obra sobre a cultura popular brasileira, nos propicia abrangente visão. A tradição de oralidade penetrou profundamente nas veias, mentes e corações da representação política, a ponto de se atribuir, por muito tempo, a grandeza dos homens públicos não aos projetos e feitos empreendidos, mas ao domínio do verbo no palanque ou na tribuna parlamentar.

Duas historinhas mostram as faces da peroração tradicional da política. A primeira é a do baiano, embevecido com a retórica complicada, cheia de palavras difíceis de seu candidato, em um comício numa pequena cidade interiorana. Não se cansou de bater palmas, concluindo categórico: “não entendi nada do que o homem falou, mas falou bonito; vai levar meu voto”. A segunda historinha é a do candidato a deputado, que, arrebatado, enérgico, espumando de civismo, discorria sobre o valor da liberdade. Argumentava que um povo livre sabe escolher seus caminhos, seus governantes, eleger os seus representantes, fazer as melhores escolhas. Para entusiasmar a multidão, levou um passarinho numa gaiola, que deveria ser solto no clímax do discurso.

No momento que julgou oportuno, puxou o passarinho da gaiola, e com ele na mão direita, gritou para a massa: “a liberdade é o sonho do homem, o desejo de construir seu espaço, sua vida, com orgulho, sem subserviência, sem opressão; Deus (citar Deus é um recurso muito usado) nos deu a liberdade para fazermos dela o instrumento de nossa dignidade; quero que todos vocês, hoje, aqui e agora, comprometam-se com o ideal do homem livre. Para simbolizar esse compromisso, vamos aplaudir a soltura deste belo canário, que vai ganhar o céu da liberdade”. Ao abrir a mão, viu que esmagara o passarinho, sem perceber a mão contraída. Quanta decepção. A frustração por ter matado o bichinho acabou com a euforia e as vaias substituíram os aplausos. Um desastre. É sempre assim quando não se controla a emoção. O discurso político atira, frequentemente, na razão.

Juntando-se, então, o narcisista e o demagogo, o verborrágico e o reizinho cheio de empáfia, obtém-se a receita do perfil que pretende ser o modelo de representação das massas. É a junção do ruim com o péssimo, de Narciso com Justo Veríssimo, canhestro personagem do saudoso Chico Anísio. Quando essa moldura aparece na parede, a política volta a ser aquilo que Paul Valéry mais temia: “a arte de impedir que as pessoas cuidem do que lhes dizem respeito”. Nesses tempos de redes sociais, de surgimento de novas fontes de poder, de intercomunicação entre os influenciadores da sociedade, urge ter cuidado. O discurso com firulas pode arruinar os atores. Não se engana mais como antigamente; os atores são flagrados quando escondem o lixo debaixo do tapete; ou, ainda, quando a maquiagem expressiva procura disfarçar a deficiência do pensamento.

Criar adornos populistas nas falas de palanques, carregar passarinhos em gaiolas para soltá-los em comícios, enfim, enfeitar o verbo com dribles linguísticos já não puxam a aclamação das multidões. Promessas mirabolantes não entram na cachola do eleitor. Esse é um alerta para o ano eleitoral em curso.

sexta-feira, 1 de março de 2024

Vale a quantidade

Se matamos uma pessoa, somos assassinos. Se matamos milhões de homens, celebram-nos como heróis.
Charles Chaplin

Estratégias de sobrevivência em Gaza

O dia havia amanhecido com a notícia de que o presidente dos EUA, Joe Biden, esperava um cessar-fogo iminente entre Israel e o Hamas, mas a maioria da população na Faixa de Gaza não conseguia pensar em nada além de em preparar algo para comer no café da manhã.

"Antes da guerra, costumávamos comprar pão, agora nós fazemos o nosso", disse a jornalista Aseel Mousa, de 26 anos.

A BBC passou o dia acompanhando a vida de algumas pessoas em Gaza — enquanto vasculhavam os mercados em busca de alimentos, trabalhavam em hospitais superlotados e tentavam manter os filhos entretidos.

Houve períodos em que ficamos sem notícias dos nossos contatos — as mensagens enviadas permaneciam com apenas um tique no WhatsApp, e os telefonemas caiam direto na caixa postal.

O conflito Israel-Hamas eclodiu em 7 de outubro do ano passado, quando homens armados do Hamas se infiltraram no sul de Israel, matando mais de 1,2 mil pessoas e fazendo outras 253 reféns.

Aproximadamente 130 reféns ainda estão sendo mantidos em Gaza — e não é possível falar com eles. Os familiares em Israel ficam à espera, sem qualquer ideia das condições em que estão sendo mantidos.

Pelo menos 29.800 palestinos foram mortos, segundo o Ministério da Saúde de Gaza, administrado pelo Hamas.


5h: Em Rafah, Sami Abu Omar, de 59 anos, acorda cedo depois de uma "noite difícil".

"Qualquer pessoa nesta situação precisa se acostumar a dormir apenas por uma hora a uma hora e meia", diz ele, descrevendo o som dos bombardeios.

Depois de sair da tenda, ele faz uma oração e segue para um centro de distribuição, onde vai servir sopa de lentilha a famílias desalojadas.

7h: Na cidade de Deir al-Balah, a enfermeira Rewaa Mohsen troca as fraldas das duas filhas pequenas. Uma delas nasceu dois dias antes da guerra.

Ela conta que todos os dias agora segue a mesma rotina de tentar sobreviver e cuidar das crianças. Depois de trocar as fraldas, ela prepara o café da manhã.

9h: Também em Deir al-Balah, a estudante de Medicina e médica voluntária Nagham Mezied, de 22 anos, tira uma foto do seu café da manhã.

Ela costumava comer às 6h, mas recentemente vem postergando a refeição para tentar evitar ficar com fome no fim do dia. O prato desta manhã chama-se mankouche — queijo, ervas, pimenta e azeite no pão.

"Isso é tudo que como até de noite, se tivermos sorte de fazer outra refeição, caso contrário, isso é tudo até amanhã."

9h30: O advogado Mosa Aldous caminha por Rafah depois de uma noite agitada em sua tenda. "Estava muito frio", diz ele.

Ele avista longas filas em busca de água e comida, mas sua atenção nesta manhã está voltada a encontrar conexão com a internet.

"Agora estou a dois quilômetros da minha barraca, tentando encontrar sinal, mas ainda está muito fraco. Estou andando devagar, devagar, cada vez mais distante da tenda", afirma.

11h: A jornalista Aseel Mousa também está em Rafah, mas num apartamento. Ela "aproveitou a oportunidade" para trabalhar um pouco pela manhã, depois de descobrir que tinha energia elétrica e conexão com a internet.

Agora, ela está fazendo pão com a mãe. "Pegamos lenha, acendemos o fogo, preparamos a massa, dividimos em porções, deixamos crescer. É isso que estamos fazendo agora. Esse processo leva pelo menos três horas", diz ela.

11h: Por volta mais ou menos do mesmo horário, há uma comoção em Rafah, quando o advogado Mosa Aldous vê ajuda sendo entregue de avião. Uma multidão se reúne na praia.

"De repente, ouvimos um barulho alto no céu, então saímos e vimos grandes aviões lançando paraquedas com ajuda", ele conta.

11h30: De volta ao centro de distribuição de alimentos, Sami Abu Omar avisa que quatro panelas grandes de sopa já foram servidas.

"Hoje está nublado e pode chover em breve. Nossas mães, quando o tempo fica assim, fazem sopa de lentilha, então preparamos também para os desalojados, para que se sintam mais em casa", explica.

12h40: Aseel Mousa e a mãe terminaram de fazer o pão, que comeram com feijão enlatado e ovos.

"Não estava bom, não gosto de comida enlatada, mas é isso que está disponível em Gaza", ela diz.

"Eu costumava comer queijo e torrada de manhã, mas agora esse tipo de comida não está disponível. Então não foi bom. Mas o pão estava perfeito porque eu e minha mãe o preparamos."

No passado, Aseel recorda que pedia para entregar o café da manhã em seu escritório: rolinhos de canela ou outro tipo de doce.

Ela deixou o laptop na casa de um vizinho que tem painéis solares para conseguir carregá-lo. Ela faz isso todos os dias.

14h30: A enfermeira Rewaa Mohsen está tentando manter a filha mais velha entretida.

"Ela tem os primos para brincar. Também tem brinquedos", diz ela por mensagem no WhatsApp. "Tentamos mantê-la ocupada para que não ouça as bombas."

Ela planeja tirar uma soneca em breve com as duas filhas.

14h40: De volta a Rafah, o advogado Mosa Aldous conta que desistiu de tentar encontrar uma conexão de internet. Em uma ligação cortada, ele avisa que está novamente com sua família na tenda. A ligação cai.

15h30: A expectativa de Rewaa de tirar uma soneca não sai conforme o planejado. Ela envia um vídeo da filha com os olhos arregalados olhando para a câmera e adiciona um emoji sorridente.

"Ela recusa o leite engarrafado. Dei um pouco para ela no primeiro mês, e depois disso não estava disponível, por isso ela depende do leite materno", escreveu.

"Minha mãe e minha única irmã foram mortas em novembro, e não tenho ninguém para me ajudar com elas [as filhas]."

16h13: No Hospital dos Mártires de al-Aqsa, onde é voluntária, Nagham Mezied faz uma reflexão sobre as "duras realidades da guerra".

"Transbordando de pessoas desalojadas em busca de abrigo — (o hospital) se tornou um refúgio para aqueles que perderam tudo: suas casas, seus entes queridos, sua sensação de segurança."

Ela diz que as doenças estão se espalhando — e que eles enfrentam escassez de equipamentos e suprimentos básicos.

16h37: Rewaa manda uma foto do seu almoço — frango com pimentão e azeitonas. Ela diz que os ingredientes custaram mais de US$ 40. Vai ser a última refeição que ela vai fazer hoje.

"Somos abençoados por podermos nos dar ao luxo de duas refeições. Algumas pessoas não conseguem pagar por nenhuma", diz ela.

Enquanto alimenta as filhas, ela também pensa em como o aumento dos preços está afetando a vida da família.

A filha mais velha usa as mesmas roupas de quando a guerra começou. E ela se esforça para conseguir pagar pelas fraldas.

17h17: Aseel, a jornalista, relembra como sua vida era antes.

"Antes da guerra, neste horário, eu costumava voltar do trabalho para casa, depois relaxava na cama e conversava com a minha mãe sobre como havia sido meu dia. Agora, não é apenas tédio — é ansiedade e tensão o tempo todo", diz ela por mensagem no WhatsApp.

"Agora vamos preparar o almoço, que vai ser ervilha em lata, porque não tem nada fresco. Na verdade, só comemos comida enlatada."

19h45: A médica voluntária Nagham Mezied terminou seu turno há algumas horas.

Ela sonha em tomar um banho quente "para aliviar o cansaço do dia", mas não tem gás nem água.

Ela se prepara para fazer o jantar — provavelmente grão de bico e fava enlatados — e depois vai dormir.

"O dia em Gaza termina cedo porque não temos internet nem eletricidade -- não temos nada para fazer. Tentamos dormir cedo e descansar um pouco, caso a noite traga bombas e terror."

Em legítima defesa, Israel atira em multidão de palestinos famintos

Palestinos famintos de Gaza foram os culpados pela morte de mais de 100 deles, soube ontem à noite pelo Jornal Nacional. Foi assim, segundo um porta-voz militar do governo de Israel: uma multidão atacou caminhões com comida que davam entrada na Faixa de Gaza, e muitas pessoas acabaram atropeladas, feridas e mortas.

Eram pessoas famintas, que sobrevivem a duras penas comendo cactos e vendo os filhos desnutridos. Em mais de quatro meses de guerra, chegaram a entrar em Gaza cerca de 500 caminhões por dia com comida, água, remédios e combustível. Ultimamente, o número caiu para 50, e há dias que Israel os impede de entrar.

Instalada a confusão, o que o Exército de Israel fez para restabelecer um mínimo de ordem? Primeiro, tanques e drones atiraram para o alto em sinal de advertência. Veja só: não adiantou. Ou porque os palestinos estão com muita fome a ponto de não se assustarem com tiros, ou porque são indisciplinados.

Aí, com todo o cuidado, os soldados de Israel atiraram na direção dos pés dos palestinos, com a preocupação de não provocar uma tragédia, contou o porta-voz do governo de extrema-direita do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu. Mas, acredite e veja como são os palestinos: continuaram avançando sobre os caminhões.

Quem seria capaz de ignorar os tiros de advertência do mais poderoso Exército do Oriente Médio, primeiro para o alto, depois na direção dos pés sem os quais, ou com eles feridos, qualquer pessoa para de andar e cai? Vai ver que só palestinos são capazes de uma proeza como essa. Foi, porém, o que aconteceu. O que fazer?


Então os soldados de Israel, segundo a versão oficial do governo de Israel, naturalmente sentiram-se ameaçados. Quem não se sentiria? Afinal, o alvo da multidão poderia não ser só os caminhões, mas também os tanques e os soldados que os cercavam. Os drones, não, porque seria impossível derrubá-los, a não ser com armas.

Ali, no cenário do conflito, fora as tropas de Israel, ninguém tinha armas. Essa é uma característica desta guerra: de um lado, um exército armado até os dentes, dispondo das mais modernas armas do arsenal dos Estados Unidos e de países europeus; do outro… Bem, o outro lado não tem Exército, a não ser um grupo de terroristas em fuga.

Se os tiros para o alto, e depois para os pés, não detiveram a multidão, os soldados de Israel atiraram na multidão. Correr o risco de serem mortos por uma multidão desarmada? E se parte dela escondesse armas? Mata-se também com as mãos. Portanto, é o que concluo, foi um ato de legítima defesa dos soldados de Israel, e ponto final.

Ponto final, ainda não, porque o presidente da França, Emmanuel Macron, saiu logo a escrever no X, ex-Twitter:

“Expresso a minha mais veemente condenação destes tiroteios e apelo à verdade, à justiça e ao respeito pelo direito internacional”.

De todo modo, Macron foi prudente. Ele falou em tiroteios, mas não apontou culpados. Até Israel admite que atirou na multidão. Mas, se mais tarde ficar provado que Israel acertou ao atirar? Acertou no sentido de que não lhe restava outra coisa a fazer, não no sentido de acertar nos palestinos? Como se vê, Macron é um estadista.

Joe Biden, presidente dos Estados Unidos, ainda foi mais prudente do que Macron. Agências de notícias informaram de imediato:

“Biden diz que ataque de Israel a palestinos dificulta cessar-fogo”.

Que mais ele poderia ter dito no calor da hora? Momentos antes, seu principal assessor para assuntos militares, em depoimento a uma comissão do Congresso, admitiu a morte de 25 mil mulheres palestinas. A fala dele foi gravada, embora a Casa Branca tenha, mais tarde, tentado corrigi-la, mas sem sucesso.

Israel é o grande porta-aviões dos Estados Unidos no Oriente Médio, afirmou Biden à época em que era senador. Não só por isso, mas também por isso, Israel dita parte da política externa americana. Os Estados Unidos acabam fazendo o que Israel quer. Não há sinais de que isso mudará um dia. A matança em Gaza não cessará tão cedo.