quarta-feira, 14 de fevereiro de 2024

Deixe-os comer sujeira

Nunca houve qualquer possibilidade de o governo israelense concordar com uma pausa nos combates proposta pelo Secretário de Estado Antony Blinken, muito menos com um cessar-fogo. Israel está prestes a dar o golpe de misericórdia na sua guerra contra os palestinos em Gaza – fome em massa. Quando os líderes israelitas usam o termo “vitória absoluta”, querem dizer dizimação total, eliminação total. Os nazistas em 1942 fizeram sistematicamente passar fome os 500 mil homens, mulheres e crianças no Gueto de Varsóvia. Este é um número que Israel pretende ultrapassar.


Israel, e o seu principal patrono, os Estados Unidos, ao tentarem encerrar a Agência das Nações Unidas de Assistência e Obras aos Refugiados da Palestina no Próximo Oriente (UNRWA), que fornece alimentos e ajuda a Gaza, não só estão a cometer um crime de guerra, como também está em flagrante desafio ao Tribunal Penal Internacional (CIJ). O tribunal considerou plausíveis as acusações de genocídio apresentadas pela África do Sul, que incluíam declarações e factos recolhidos pela UNWRA. Ordenou que Israel cumprisse seis medidas provisórias para prevenir o genocídio e aliviar a catástrofe humanitária. A quarta medida provisória apela a Israel para que garanta medidas imediatas e eficazes para fornecer assistência humanitária e serviços essenciais em Gaza.

Os relatórios da UNRWA sobre as condições em Gaza, que cobri como repórter durante sete anos, e a sua documentação sobre ataques indiscriminados israelenses ilustram que, como disse a UNRWA, “as ‘zonas seguras’ declaradas unilateralmente não são nada seguras. Nenhum lugar em Gaza é seguro. ”

O papel da UNRWA na documentação do genocídio, bem como no fornecimento de alimentos e ajuda aos palestinos, enfurece o governo israelense. O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu acusou a UNRWA após a decisão de fornecer informações falsas à CIJ. Sendo já um alvo israelense há décadas, Israel decidiu que a UNRWA, que apoia 5,9 milhões de refugiados palestinos em todo o Médio Oriente com clínicas, escolas e alimentos, tinha de ser eliminada. A destruição da UNRWA por Israel serve um objetivo político e também material.

As acusações israelenses, sem provas, contra a UNRWA, de que uma dúzia dos 13 mil funcionários tinham ligações com aqueles que levaram a cabo os ataques em Israel em 7 de Outubro, resolveram o problema. Viu 16 grandes doadores, incluindo os Estados Unidos, o Reino Unido, a Alemanha, a Itália, os Países Baixos, a Áustria, a Suíça, a Finlândia, a Austrália, o Canadá, a Suécia, a Estónia e o Japão, suspenderem o apoio financeiro à agência de ajuda humanitária, na qual quase todos os palestinos em Gaza dependem de comida.

Israel matou 152 trabalhadores da UNRWA e danificou 147 instalações da UNRWA desde os ataques do Hamas e outros grupos de resistência em Israel, em 7 de outubro, que mataram cerca de 1.200 israelenses. Israel também bombardeou caminhões de ajuda humanitária da UNRWA.

Mais de 27.708 palestinos foram mortos em Gaza, cerca de 67 mil ficaram feridos e pelo menos 7 mil estão desaparecidos, provavelmente mortos e enterrados sob os escombros.

Mais de meio milhão de palestinos – um em cada quatro – estão a passar fome em Gaza, segundo a ONU. Os palestinianos em Gaza, 1,7 milhões dos quais foram deslocados internamente, carecem não só de alimentos suficientes, mas também de água potável, abrigo e medicamentos. Existem poucas frutas ou vegetais. Há pouca farinha para fazer pão. As massas, juntamente com a carne, o queijo e os ovos, desapareceram. Os preços do mercado negro para produtos secos, como lentilhas e feijões, aumentaram 25 vezes em relação aos preços anteriores à guerra. Um saco de farinha no mercado negro passou de US$ 8,00 para US$ 200 dólares.

O sistema de saúde em Gaza, com apenas três dos 36 hospitais de Gaza parcialmente a funcionar, entrou em colapso em grande parte. Cerca de 1,3 milhões de palestinos deslocados vivem nas ruas da cidade de Rafah, no sul do país, que Israel designou como “zona segura”, mas que começou a bombardear. As famílias tremem sob as chuvas de inverno sob lonas frágeis em meio a poças de esgoto bruto. Estima-se que 90 por cento dos 2,3 milhões de habitantes de Gaza foram expulsos das suas casas.

“Desde a Segunda Guerra Mundial, não houve nenhum caso em que uma população inteira tenha sido reduzida à fome extrema e à miséria com tanta rapidez”, escreve Alex de Waal, diretor executivo da Fundação para a Paz Mundial da Universidade Tufts e autor de “Mass Starvation: A História e o Futuro da Fome”, no Guardian. “E não há nenhum caso em que a obrigação internacional de acabar com isso tenha sido tão clara. ”

Os Estados Unidos, anteriormente o maior contribuinte da UNRWA, forneceram 422 milhões de dólares à agência em 2023. A separação de fundos garante que as entregas de alimentos da UNRWA, já escassas devido aos bloqueios de Israel, serão em grande parte interrompidas até ao final de fevereiro ou início de março.

Israel deu aos palestinos em Gaza duas opções. Vá embora ou morra.

Cobri a fome no Sudão em 1988, que ceifou 250 mil vidas. Há marcas em meus pulmões, cicatrizes por estar no meio de centenas de sudaneses que estavam morrendo de tuberculose. Eu era forte e saudável e lutei contra o contágio. Eles estavam fracos e emaciados e não o fizeram. A comunidade internacional, tal como acontece em Gaza, pouco fez para intervir.

O precursor da fome – a subnutrição – já afeta a maioria dos palestinos em Gaza. Aqueles que passam fome não têm calorias suficientes para se sustentar. Em desespero, as pessoas começam a comer ração animal, grama, folhas, insetos, roedores e até mesmo terra. Eles sofrem de diarreia e infecções respiratórias. Eles rasgam pedacinhos de comida, muitas vezes estragados, e os racionam.

Logo, com falta de ferro suficiente para produzir hemoglobina, uma proteína dos glóbulos vermelhos que transporta oxigênio dos pulmões para o corpo, e mioglobina, uma proteína que fornece oxigênio aos músculos, juntamente com a falta de vitamina B1, eles ficam anêmicos. O corpo se alimenta de si mesmo. Tecido e músculo são desperdiçados. É impossível regular a temperatura corporal. Os rins pararam. Falha do sistema imunológico. Órgãos vitais – cérebro, coração, pulmões, ovários e testículos – atrofiam. A circulação sanguínea fica mais lenta. O volume de sangue diminui. Doenças infecciosas como a febre tifoide, a tuberculose e a cólera tornam-se uma epidemia, matando milhares de pessoas.

É impossível concentrar-se. Vítimas emaciadas sucumbem ao retraimento mental e emocional e à apatia. Eles não querem ser tocados ou movidos. O músculo cardíaco está enfraquecido. As vítimas, mesmo em repouso, encontram-se em estado de virtual insuficiência cardíaca. As feridas não cicatrizam. A visão fica prejudicada com a catarata, mesmo entre os jovens. Finalmente, assolado por convulsões e alucinações, o coração para. Esse processo pode durar até 40 dias para um adulto. Crianças, idosos e doentes morrem mais rapidamente.

Vi centenas de figuras esqueléticas, espectros de seres humanos, movendo-se desamparadamente num ritmo glacial pela árida paisagem sudanesa. As hienas, acostumadas a comer carne humana, costumavam matar crianças pequenas. Fiquei sobre aglomerados de ossos humanos esbranquiçados nos arredores de aldeias onde dezenas de pessoas, fracas demais para andar, se deitaram em grupo e nunca mais se levantaram. Muitos eram os restos mortais de famílias inteiras.

Na cidade abandonada de Maya Abun, morcegos pendiam das vigas da destruída igreja missionária italiana. As ruas estavam cobertas de tufos de grama. A pista de pouso de terra era ladeada por centenas de ossos humanos, crânios e restos de pulseiras de ferro, contas coloridas, cestos e tiras de roupas esfarrapadas. As palmeiras foram cortadas ao meio. As pessoas comeram as folhas e a polpa de dentro. Corria o boato de que a comida seria entregue de avião. As pessoas caminharam durante dias até a pista de pouso. Eles esperaram e esperaram e esperaram. Nenhum avião chegou. Ninguém enterrou os mortos.

Agora, à distância, vejo isso acontecer em outra terra, em outro tempo. Conheço a indiferença que condenou os sudaneses, sobretudo os dinkas, e hoje condena os palestinos. Os pobres, especialmente quando são negros, não contam. Eles podem ser mortos como moscas. A fome em Gaza não é um desastre natural. É o plano mestre de Israel.

Haverá estudiosos e historiadores que escreverão sobre este genocídio, acreditando falsamente que podemos aprender com o passado, que somos diferentes, que a história pode impedir-nos de sermos, mais uma vez, bárbaros. Eles realizarão conferências acadêmicas. Eles dirão “Nunca mais! ” Eles se elogiarão por serem mais humanos e civilizados. Mas quando chegar a hora de falar abertamente sobre cada novo genocídio, com medo de perder o seu estatuto ou posições acadêmicas, eles correrão como ratos para as suas tocas. A história humana é uma longa atrocidade para os pobres e vulneráveis do mundo. Gaza é outro capítulo.

Batalhas pela memória

Israelenses estão com um problema de relações públicas.

Você, leitor, já ouviu falar nas Vésperas Efésias? Em 88 a.C., o imperador Mitrídates 6º, do Ponto, ordenou o assassinato de cidadãos romanos e aliados que viviam em cidades da Ásia Menor. Nem mulheres e crianças teriam sido poupadas. Estima-se que entre 80 mil e 150 mil morreram.

Imagino que esse massacre, um dos muitos da história, não o comova muito. Ele ocorreu há mais de 2.000 anos e, por alguma razão, descontamos o passado. Somos quase imunes às carnificinas muito antigas, nos importamos moderadamente com hemoclismos recentes e reagimos com vívida emoção aos massacres presentes. Está na programação de nossas mentes, ainda que a diferença temporal seja difícil de explicar filosoficamente. Por que a morte de uma pessoa há 2.000 anos valeria menos que a de uma morta há 80 anos?
O problema de Israel é que o tempo está passando. Foi sob o impacto do Holocausto nazista que a ONU aprovou, em 1947, o plano de partilha da Palestina que viabilizou o Estado judeu. Mas a memória viva do Holocausto, que ainda chegou à minha geração através das histórias de meus avós e tios-avós, vai aos poucos se apagando. Os registros históricos sempre podem ser consultados, mas o aspecto afetivo desaparece. Reportagem recente do New York Times mostra que é crescente o número de jovens judeus americanos que se identificam com a causa palestina.

Faz sentido. As histórias de injustiças cometidas contra palestinos estão ocorrendo ao vivo e numa era de hiperconexão. E quanto mais mortos as operações militares israelenses deixarem em Gaza, mais esse efeito se materializará. Ainda que não haja paralelo entre o que fizeram os nazistas e o que fazem os israelenses, civis palestinos estão morrendo aos borbotões.

Que a carnificina em Gaza sirva ao menos para viabilizar o Estado palestino. Sem ele, Israel jamais encontrará uma paz sustentável.

terça-feira, 13 de fevereiro de 2024

É o clima, estúpido

"The Earth Transformed", de Peter Frankopan (Oxford), é uma obra importante. Ela coloca o clima como personagem central da história humana. Uma das figuras que mais aparecem ao longo das mais de 700 páginas do livro é Enos, a sigla para El Niño-Oscilação do Sul, um fenômeno relativamente regular, mas que pode ter grandes repercussões sobre a temperatura e a hidrologia do globo.


Humanos gostamos de nos imaginar como algo distinto da natureza, mas esse é apenas um viés —e bem tolo. Somos e sempre seremos parte dela. O clima sempre nos afetou. É até possível que o Homo sapiens tenha desbancado outros hominínios como o H. neanderthalensis devido a mudanças climáticas. Uma hipótese é que sobrevivemos –e eles não— não porque éramos mais adaptados para enfrentar os tempos frios que atingiram a Europa 35 mil anos atrás, mas mais simplesmente porque éramos em maior número.

Variações climáticas e ecológicas às vezes influíram em nossos destinos como agentes principais e sempre ao menos como coadjuvantes. O aquecimento registrado entre 200 a.C. e 100 d.C., por exemplo, ajudou Roma a obter melhores colheitas e tornar-se um império. O resfriamento entre 1100 e 1800 explica a maior prevalência de ataques a judeus devido a "preços altos" de comida. E há mais. Gêngis Khan teve o sucesso militar que teve porque a maior umidade nas estepes favoreceu a formação de seu exército.

O trabalho de Frankopan foi possível por causa de uma série de desenvolvimentos tecnológicos recentes que nos permitem estabelecer com precisão os padrões climáticos em diferentes tempos e lugares. Antes, esse tipo de variação só entrava para a história se algum autor percebesse a mudança enquanto ela ocorria e resolvesse registrá-la.

A moral da história é que dinâmicas ecológicas já extinguiram vários grupos e civilizações. Só sobraram os que souberam adaptar-se. Teremos muito trabalho nas próximas décadas.

A própria extinção

Falar de amor enquanto a mata chora/É luta sem flecha, da boca pra fora/Tirania na bateia, militando por quinhão/E teu povo na plateia/ vendo a própria extinção
Samba-enredo de Salgueiro, em homenagem ao povo Yanomami

Plantar árvores está trazendo água limpa para uma nação tropical

Dominga Reynoso abriu a torneira enferrujada e barulhenta acima da pia da cozinha. Não saiu nada, nem uma gota. Até os canos, que geralmente gorgolejavam em antecipação, permaneceram em silêncio. Reynoso e os seus vizinhos, que vivem em Santo Domingo, capital da República Dominicana, ficariam sem água corrente durante 22 dias – uma ocorrência cada vez mais comum na montanhosa ilha caribenha de Hispaniola, que o país partilha com o Haiti.

Historicamente, o país tem dependido de abundantes fontes naturais de água, que são livremente acessíveis a entidades públicas e privadas. Ao longo do século passado, no entanto, essa oferta esteve ameaçada. O aumento da procura por parte das indústrias turística, mineira e agrícola significou que resta menos para a população local.

“O crescimento económico e populacional está a exercer grande pressão sobre os recursos hídricos tradicionalmente abundantes da República Dominicana”, afirma Chloe Oliver Viola, especialista sénior em abastecimento de água e saneamento do Banco Mundial. “São urgentemente necessários reformas e maiores investimentos para garantir a utilização sustentável e o abastecimento seguro de água às empresas e às famílias.”

Décadas de desmatamento para dar lugar ao pastoreio de gado , desastres naturais como furacões que destroem sistemas e infraestruturas de esgoto já frágeis e má gestão dos recursos hídricos fizeram com que o país enfrentasse uma crise hídrica nunca vista antes, diz Francisco Núñez, do Caribe Central diretor da The Nature Conservancy, uma organização sem fins lucrativos especializada na conservação da água e da terra. “Estamos passando por uma seca severa”, diz ele. "Os animais têm morrido e as colheitas falharam. Construir uma barragem para conservar o abastecimento de água não é suficiente – precisamos da natureza para fornecer água, precisamos de voltar ao ecossistema e reconstruí-lo desde o início."

Em 2011, Núñez ajudou a lançar um projeto multinacional denominado Parceria Latino-Americana de Fundos de Água , trazendo milhões de dólares de financiamento de conglomerados como o maior engarrafador mundial de refrigerantes, para investir em projetos de água nas regiões da América Latina e do Caribe. A parceria estabeleceu 24 fundos de água em toda a região, formando um conjunto de diretrizes para definir padrões e melhores práticas para cada fundo.

Núñez, que nasceu e cresceu na República Dominicana, liderou dois fundos hídricos em seu país natal – um para restaurar três bacias hidrográficas na região de Santo Domingo, e outro no alto das montanhas, na bacia hidrográfica do Yaque del Norte, o mais longo rio no país. O objetivo dos fundos de água é simples, diz Patricia Abreu, chefe do Fundo de Água de Santo Domingo: “concentrar-se em soluções baseadas na natureza que contribuam para alcançar a segurança hídrica para o futuro”.

Para conseguir isso, os projetos têm aumentado as copas das árvores, garantindo que a água é gerida de forma eficiente, fornecendo água limpa às comunidades locais e trazendo capacitação económica sustentável e de longo prazo às zonas rurais – através de indústrias ambientalmente benéficas.

A bacia do rio Yaque del Norte abriga uma produção agrícola significativa, além de ser a segunda maior área metropolitana do país, o que tem levado ao aumento da tensão entre os usuários da água. “Como Estado insular, somos muito vulneráveis ​​às alterações climáticas”, acrescenta Abreu. “E os efeitos estão alterando a forma como o ciclo da água funciona.”


De toda a água da Terra, apenas 0,5% é água doce disponível para uso industrial, agrícola e doméstico. Esta água encontra-se em aquíferos subterrâneos, lagos de água doce e rios – áreas vitais para o abastecimento de água mundial e que estão sob ameaça de desflorestação, degradação de habitats e expansão das cidades. Embora a América Latina tenha o maior número de fontes de água do mundo, 36 milhões de pessoas na região não têm acesso a água potável.

Núñez e Abreu estimam que a seca está em curso desde 2015, embora haja falta de investigação científica no país quando se trata de questões ambientais. “É um desafio enorme”, diz Abreu. “Como país, precisamos de obter melhores dados sobre as nossas fontes de água – tanto as águas superficiais como os aquíferos subterrâneos. descobrir como abordamos as ameaças de um sistema degradado."

Grande parte do trabalho da The Nature Conservancy tem sido em torno da recolha de dados, da educação e do envolvimento de todos os utilizadores de água – desde serviços públicos a empresas privadas e comunidades agrícolas rurais. “Nosso objetivo é envolver todos e educar todos sobre a importância de conservar e administrar adequadamente a água”, diz Núñez. "Este modelo consiste em todos se unirem para trabalhar no mesmo objetivo."

O trabalho da organização começa logo no início do ecossistema da bacia hidrográfica, a 3.030 km (10.000 pés) na cordilheira da Cordilheira Central, também conhecida como Madre de las Aguas (Mãe das Águas). Cerca de 80% da população do país depende da água desta área, que também é a fonte do Yaque del Norte.

A reportagem desta história foi conduzida enquanto o escritor estava em outra missão. A viagem incluiu um voo de regresso (emissões de CO2 de 530kg), mas como não era o objetivo principal da viagem, não contabilizamos as emissões. As emissões digitais desta história são estimadas em 1,2g a 3,6g de CO2 por visualização de página. Saiba mais sobre como calculamos esse valor aqui.

A terra, que costumava ser coberta por uma vegetação verdejante, está agora gravemente degradada, com estradas cortando a paisagem seca, despojada de árvores nativas e fortemente pastoreada pelo gado. “Agora existe um entendimento de que se quisermos resolver a crise hídrica, precisamos reconstruir as bacias hidrográficas”, diz Núñez.

A equipe começou a abordar pequenos agricultores que vivem nestas áreas rurais e montanhosas com uma proposta: a The Nature Conservancy ajudaria a plantar culturas de café ou de cacau – ambas as plantas ajudam a prevenir a erosão do solo, o que leva a uma melhor retenção de água na bacia hidrográfica. Eles também são altamente valiosos economicamente; o país é um grande exportador de cacau orgânico de comércio justo . Plantar uma cultura valiosa significa que o dinheiro está a ser trazido para estas zonas rurais e é mais provável que os agricultores se apeguem a essa cultura.

Além do plantio de café e cacau, a organização semeia outras plantas para abrigar essas culturas e ajudá-las a crescer – prática conhecida como agrossilvicultura. Descobriu-se também que a técnica melhora a resiliência à água , à medida que as árvores retiram água do solo e a liberam na atmosfera na forma de vapor por meio de um processo chamado transpiração, que leva à precipitação local.

Os agricultores também são treinados em como monitorar a terra, auxiliando na coleta de dados vitais que são enviados à The Nature Conservancy, ajudando a informar projetos futuros e a observar o progresso. “Os técnicos vieram e nos deram cursos e palestras sobre como plantar cacau”, diz Digno Pacheco, agricultor participante do projeto Santo Domingo. “Aqui nesta pequena cidade não há muito trabalho. E vemos os benefícios de empreender este projecto de cacau porque no futuro poderemos colher cacau, mais pessoas poderão trabalhar e a nossa situação económica poderá melhorar”.

No início foi difícil convencer os agricultores, diz Núñez, pois havia pouca confiança em programas externos e pouca compreensão sobre como funcionavam as bacias hidrográficas. Demorou meses para convencer o primeiro grupo, mas agora “temos uma lista de espera”, explica. “Os agricultores veem o desempenho dos seus vizinhos com o nosso programa e querem inscrever-se!” Os agricultores são compensados ​​pela plantação de árvores nas suas terras agrícolas e a The Nature Conservancy fornece as sementes e fertilizantes. Até o momento, nenhum agricultor desistiu do projeto.

O projecto visa impactar as bacias hidrográficas que produzem água para consumo humano, agrícola e eléctrico, o que beneficiaria mais de 60% da população do país, melhorando o abastecimento de água nas comunidades urbanas e rurais e aumentando o saneamento e o tratamento de resíduos. O projeto também treinou 370 dominicanos em práticas de conservação de água e restaurou 8.000 acres (3.237 hectares) de ecossistemas produtores de água.

“Não existe plano B quando se trata de água”, afirma Abreu, que viu em primeira mão como a gestão da bacia hidrográfica nas montanhas pode impactar positivamente as pessoas da cidade – como Dominga Reynoso. “A segurança hídrica é muito importante para meios de subsistência sustentáveis, para a saúde humana e para o desenvolvimento económico em países como o nosso”, afirma. Até 40% dos agregados familiares gastam 12% do seu rendimento em água engarrafada, enquanto seis em cada 10 agregados familiares urbanos relatam um abastecimento de água intermitente. Mais de dois terços utilizam garrafas ou tanques para armazenar água para consumo diário.

A qualidade da água é tão importante quanto a quantidade disponível, destaca Walkiria Estévez, diretora do projeto Yaque del Norte. Os residentes em zonas atingidas pela pobreza relatam repetidamente a descoloração da água e os odores das torneiras geridas pelo governo, o que os deixa em risco de contrair doenças graves , incluindo a cólera. Dois terços das residências dominicanas não têm ligações de esgoto que tratem as águas residuais, o que leva à contaminação das águas subterrâneas, concluiu uma análise do Banco Mundial em 2021. Na capital, que tem o maior índice de água tratada, apenas 28% é tratada.

“É um problema que realmente precisávamos resolver”, diz Estévez, “e por isso começámos a construir zonas húmidas artificiais para tratar naturalmente águas residuais em áreas rurais e suburbanas para as comunidades”.

A Nature Conservancy construiu até agora 23 zonas húmidas nas bacias hidrográficas de Yaque del Norte, Nizao, Ozama e Haina, sendo que a maior delas trata o esgoto de 1.500 famílias. Esses sistemas de filtragem natural, construídos com camadas de areia e cascalho e plantas nativas como o vetiver, reduzem os poluentes em até 98% sem usar qualquer tipo de produto químico ou eletricidade, de acordo com a The Nature Conservancy. A água é absorvida pelas bacias escavadas manualmente e escoada por uma tubulação depois de filtrada pelas camadas de sedimentos. A água então volta para os rios ou é usada para irrigar projetos comunitários de cultivo de culturas de pequena escala.

Após a construção das zonas húmidas, 300.000 metros cúbicos (10,6 milhões de pés cúbicos) de águas residuais são agora tratados todos os anos, desviando a água contaminada dos rios, que muitos habitantes locais ainda utilizam para recolher água para lavar roupa, cozinhar, tomar banho e limpar. A zona húmida mais recente foi construída numa escola e a equipa treinou professores para utilizarem o ecossistema artificial para educar os alunos sobre ambiente e ecologia.

O Banco Mundial emprestou recentemente ao governo da República Dominicana 43,5 milhões de dólares (35,4 milhões de libras) para expandir e melhorar o abastecimento de água potável e os serviços de saneamento em dois municípios na costa norte do país. O projecto visa fornecer serviços de tratamento de águas residuais a 90.000 pessoas e acesso a água potável a 105.000 pessoas – 12.700 das quais serão ligadas a um abastecimento de água pela primeira vez.

O governo começou a avançar com reformas políticas para resolver o quadro fragmentado que actualmente abrange os recursos hídricos, a irrigação e os serviços de saneamento, e que está na origem da má gestão da água. (Um relatório do Banco Mundial de 2021 descreveu o sector da água e do saneamento como preso num “ciclo vicioso”.) Além disso, o governo propôs a criação de uma Autoridade Nacional da Água para definir directrizes para a gestão dos recursos hídricos. Em 2023, o governo lançou um programa para melhorar a eficiência dos fornecedores estatais de água.

Enquanto o governo promove as suas reformas legislativas de cima para baixo, Abreu continua a lutar pela água no terreno. “O mais importante para mim é a forma como integramos todos no país, para nos unirmos e cooperarmos para um objectivo maior”, diz ela. “A recolha de dados é importante, mas estamos a traduzi-los em projectos abrangentes que podem realmente responder ao desafio da segurança hídrica.”

E os resultados sugerem que a abordagem funciona. Os terrenos que passaram por uma cuidadosa restauração são totalmente diferentes das áreas intocadas: árvores saudáveis ​​e com folhagem plena pontilham a paisagem; os riachos são fluidos e claros, com vegetação margeando as margens; a grama verdejante cobre as colinas. É uma grande melhoria em relação às condições secas e áridas que Abreu e a sua equipa enfrentaram há uma década.

Nos próximos 10 anos, esperam duplicar o seu impacto, expandindo-se para mais 15 comunidades, ajudando outras 6.000 pessoas a terem acesso a água potável e restaurando outros 12.000 acres (4.856 hectares).

sábado, 10 de fevereiro de 2024

Pensamento do Dia

 


O banimento dos idosos

Estudo recente, da Universidade Federal de Minas Gerais, mostrou que há no país quase 24 mil idosos vivendo nas ruas, quase 10% de todas as pessoas que estão nessa condição. O número delas, entre nós, aumentou sete vezes nos últimos dez anos. Estamos, portanto, em face de uma tendência na demografia etária dos brasileiros.

É compreensível que seja difícil explicar essa anomalia social. Em parte porque a busca das causas prováveis tende a ser a das mais simples, mais óbvias ainda que menos prováveis, não as invisíveis.

Chama atenção que diferentes estudos sobre moradores de rua tendam a identificar como causa de sua situação de abandono os chamados defeitos de caráter, como alcoolismo e droga. Ou seja, nessa perspectiva, a culpa é da vítima.


O que, na verdade, nada explica. É muito mais fácil culpar o frágil pelos problemas sociais que protagoniza do que buscar causas, e não culpas, na própria estrutura social e em suas disfunções, num país em que as irracionalidades da economia se expressam como anomia social.

As sociedades são relacionais, tramas de causas recíprocas, tanto no que dá certo quanto no que dá errado, tanto em relação ao rico quanto em relação ao pobre. No caso de São Paulo, na chamada cracolândia, a incidência da marginalização decorrente do uso de drogas sugere o protagonismo da classe média. Observei isso na cracolândia da rua Helvétia, há alguns anos.

Caso em que se pode levantar a hipótese legítima de que o viciado desses ajuntamentos é alguém que busca a sociabilidade coletiva da rua porque é ela não excludente.

Ela se dá fora dos mecanismos de controle social dos diferentes grupos sociais de pertencimento e de referência. Como a família e a vizinhança e outros grupos de orientação social comunitária e afetiva.

Pessoas repelidas e reprimidas pela sociabilidade individualista dos agrupamentos formais, societários, os do indivíduo e não os da pessoa. Os do sujeito da cultura da produção lucrativa e não os da cultura do afeto.

As dificuldades do morador de rua para permanecer na sociabilidade da família parecem provir do fato de que a família em boa parte se tornou complemento e instrumento do sistema produtivo e lucrativo, isto é, da racionalidade econômica e não mais exclusivamente da afetividade social.

Sociologicamente, efeitos socialmente desorganizadores da vida em família, em muitos casos, não contam com a reação afetiva, compensatória e reintegradora do grupo familiar. Em boa parte porque os laços de família estão significativamente mediados e abalados pelo primado de relações de interesse.

A afetividade familista permanece na estrutura familiar, especialmente dos mais velhos em relação aos mais novos. E só residualmente presente, porque no sentido oposto e negativo, antissocial, dos mais novos em relação aos mais velhos. Avós tendem a ser muito mais generosos no acolhimento e proteção a netos e filhos do que os mais novos em relação aos mais velhos.

Isso tem muito a ver com as cada vez mais limitadas condições de vida das famílias. Com o chamado arrocho salarial dos anos iniciais da ditadura militar, o salário de duas pessoas em cada família tornou-se necessário para cobrir o que antes um único salário cobria. Aqui, isso tornou-se estrutural. Essa dificuldade desenvolveu um egoísmo peculiar nas gerações mais jovens, em começo de vida adulta, mesmo na família.

Mas não só nem principalmente isso. O sistema econômico, cada vez mais, tem transformado o trabalhador em matéria-prima da produção ao privá-lo dos meios de sua própria reprodução social, ao consumi-lo. E nele negar o meio de realização do capital. É um equívoco político supor que, na teoria das classes sociais, o trabalhador se explica apenas pela produção e não, também, pelo consumo de bens e serviços, condição da reprodução do capital.

É significativo que em São Paulo, o estado mais rico, estejam 40% dos idosos moradores de rua do Brasil. Entre as anomalias e contradições do sistema econômico brasileiro está a do banimento de seres humanos para os espaços de deterioração social, como os define Lewis Mumford.

O idoso de rua é o ser humano que chegou ao limite da procura de reintegração no mercado de trabalho. Da crescente dificuldade para conseguir emprego, o tempo cada vez maior de desemprego entre um emprego e outro define o ritmo da dessocialização do idoso no grupo familiar e na sociabilidade do trabalho, os vínculos sociais cotidianos mutilados pelo desemprego.

Sobram-lhe a necessidade de ressocialização para um modo de vida, um cotidiano marginal e não integrativo, na referência social dos grupos de rua a do viver de restos, ele próprio reduzido a resto da condição humana.

Sempre tragédias



O sistema esvazia nossa memória, ou enche a nossa memória de lixo, e assim nos ensina a repetir a história em vez de fazê-la. As tragédias se repetem como farsas, anunciava a célebre profecia. Mas entre nós, é pior: as tragédias se repetem como tragédias.
Eduardo Galeano

A trama da desatenção

‘Eu não sei dizer, nada por dizer, então eu escuto’ — diz a bonita letra musical. Podia ser frase de psicanalista à espera de um sinal do inconsciente, em meio ao jorro de falas do analisando. Mas também um canto retraído e perplexo do sujeito atual, diante dos absurdos que o cercam. Afinal, dizer o quê? Como se a palavra já tivesse morrido, tamanha sua inocuidade. E o escritor, enquanto nada articula, escuta sua alma discutir a função e a utilidade da escrita. O dilema paralisante pode ser injusto com os que precisam manter o espírito aceso por ideias que os ajudem a encontrar sentido para suas perplexidades.


Será o escritor capaz de atender à expectativa, emergir da banalidade e articular ideias instigantes, ressuscitando a palavra — como na arte que se afasta ou distorce a realidade para, em seguida, desvelar suas nuances? Pois bem. Uma conspiração mundial estaria em curso — anônima, inconsciente, coletiva. Mas, ao mesmo tempo, como se houvesse um desígnio subterrâneo, um projeto intencional, tão efetivo que se expressa em sua universalidade automática. Com a cumplicidade das vítimas. A estratégia é deixar todos os indivíduos desatentos. É uma conspiração da desatenção, de manter os seres entorpecidos — mesmo aqueles que, na superfície, parecem resistir e criticar.

Sabemos muito bem dos meios usados para esse fim, todos os desfrutamos diariamente — aliás, acertaram em cheio, nos oferecendo preencher a incurável falta que nos habita. Não temos consciência de que aspectos a trama nos impede de enxergar e pensar, e esse é um dos êxitos de sua ação. Ela se alia a nosso dispositivo inato de negação da realidade frustrante. As questões podem ser as mais íntimas do ser, familiares, ou também as mais próximas da sociedade, da política e do planeta. E tais questões se agravam à medida que aumenta a desatenção individual e coletiva. A grande esperteza da conspiração é nos convencer, enquanto isso, de que seus meios foram feitos para aumentar o entretenimento, o conhecimento, a democracia e a comunicação.

Enquanto acreditamos que tudo se resume a essa dimensão positiva, a boiada da pulsão inata destrutiva vai passando e carrega consigo a deterioração da civilização que se infiltra de forma sorrateira. Ela expande a barbárie das guerras, agrava os riscos climáticos, produz soluções políticas com líderes extremos, em meio a conflitos sociais e disparidade de renda cada vez maior. Entre os mais lúcidos, cresce de forma assustadora o sentimento de que não é possível fazer nada — muito menos escrever alguma coisa. A máquina do mundo roda guiada por mãos invisíveis, com engrenagens anônimas, desígnios sinistros autônomos que já escaparam do alcance voluntário, mesmo de seus criadores e das esferas de maior poder.

O sentimento de impotência substitui o idealismo, e um realismo conformista e utilitário ocupa o lugar que outrora era do romantismo. Salve-se quem puder nesta feira moderna. Aqui, o convite é sensual, e a distância já morreu — numa livre citação da profética música do saudoso Som Imaginário. E a curiosa contradição é que, numa sociedade cada vez mais dispersa e desatenta, que tudo esquece, os indivíduos ainda lutem, na esfera mundana — às vezes de forma desesperada —, por conquistar atenção e lembrança, mesmo que seja por aqueles 15 segundos fugidios de fama. Mas a cultura da desatenção, da ausência de foco e do esquecimento de tantas questões cruciais de uma sociedade provoca nos sujeitos desnorteados o sentimento de desamparo e orfandade. A História já mostrou qual é o risco político desse virtual cenário.

A polarização política e a polarização social

A polarização política que inquieta especialistas por sua persistência não é o mesmo fenômeno da polarização social. Faz diferença a dimensão afetiva, em que episódios de vida são mais reveladores do que conceitos. Assim, um indivíduo convicto do momento de "pacificação" decide aproximar-se do vizinho percebido como pacato, respeitoso, mas de quem se diz votar no lado violento. Na afabilidade da piscina condominial, aborda-o com tato, a resposta é tranquila: "Sim, sou bolsonarista, mas do bem". Acrescenta: "Isso existe".

O fato é real, recente, ao pé-da-letra. Vale cotejá-lo com um outro, relativo ao zap-grupo, também declaradamente bolsonarista, de uma mesma profissão pública. Um deles posta uma mensagem segundo a qual importante figura da República teria sido flagrada com cocaína. Ninguém acredita, porém. Não é verossímil para o perfil em questão. Depois de alguma ponderação, o autor admite ser fofoca. Arremata: "Mas daria uma excelente fake news".

Os episódios estão ligados por um grau peculiar de complexidade. O primeiro, benigno pela singeleza da confirmação, é ao mesmo tempo contundente pela admissão lógica de que trafega numa esfera oposta ao bem, mas com excepcional isenção própria. O segundo parte de autodeclarados liberais econômicos, respeitáveis em público, porém com inequívoca malignidade em seu caldeirão privado de veneno emocional: um bunker de linchadores virtuais.

É provável que o wokismo, transformado em terrorismo intelectual do politicamente correto, gere um ressentimento exasperado em frações de classe de leitura escassa, passageiras de ego-trips. Confundindo com política o avanço de um novo tipo de controle social por normatizações moralizadoras, abrem-se à fascistização das redes. Haverá quem possa se expressar em termos racionais. Mas o gozo vertiginoso da fake news consiste em surfar na onda irrefletida da ignorância e do falseamento.

Apesar do voto implícito, não é mesmo de política que se trata. Eleitoralismo é hoje a fibrose do corpo social, problema de saúde cívica. Não faz sentido ser bolsonarista, é como dizer "eu sou o que já era". Ou seja, jornal de ontem, agarrado a nome como a um balão murcho, resto de uma festa (da Selma?) que deu chabu. Senão, identidade de bolha, fixada num polo sem geografia humana. Daí uma comoção primitiva, pré-política, aparentemente inconsequente.

Mas cada indivíduo é um mínimo múltiplo comum: um é multi. O vizinho talvez acredite pertencer a outra espécie humana, aspirante a algo ausente no horizonte social. Afinal, o próprio governo acaba de anunciar um plano de industrialização com metas "aspiracionais", sabe-se lá o que seja isso. Já o zap-grupo, entubado na máquina da mentira, o que demanda mesmo é oxigenação cívico-cultural.

Quem matou Karl Marx

Não seria exagero afirmar que a desigualdade social anda meio fora de moda nos últimos tempos. O assunto ganhou projeção principalmente a partir dos anos 1960, no auge do debate mundial pós-guerra sobre a independência das últimas colônias europeias do ‘terceiro mundo’ e fortalecido pela multiplicação de organismos multilaterais, ongs e estudos acadêmicos.

Enquanto isso, na América Latina o debate foi abafado durante a epidemia de ditaduras ao longo de três décadas, recobrando o fôlego nos anos 1980 com a redemocratização da maior parte dos governos da região.

Nessa época, mundo afora, pensadores progressistas deram destaque ao agravamento abissal da desigualdade de renda e concentração de riqueza, alavancado pela globalização financeira e produtiva da economia e turbinado por um consumismo insaciável.

Na verdade, o assunto da pobreza como expressão da injustiça social já era debatido desde o final do século XVIII, associado principalmente às formas de exploração do trabalho e ao imperialismo internacional, que aqui e ali resultaram ora em revoltas sociais, ora na humanização do capitalismo liberal. Em 1912 o matemático italiano Conrado Gini anunciou seu Índice de Gini, que media a distância entre pobres e ricos.

As duas guerras mundiais embolaram o meio de campo dessa discussão, que ainda enfrentou resistências políticas expressivas durante a chamada guerra fria. Contudo, o debate da desigualdade social chegaria à virada do milênio de vento em popa. Exemplo disso, é a publicação do IDH Índice de Desenvolvimento Humano, idealizado pelo indiano Amartya Sen nos anos 1990.

O século XXI chegou repleto de esperança e novas ideias. O Fórum Social Mundial estava no auge, com suas edições em Porto Alegre atraindo palestrantes como o pensador Noam Chomsky e o recém-eleito presidente Lula. Autores como Boaventura Sousa Santos, Viviane Forrester, Naomi Klein e Paul Singer pregavam que outro mundo era possível. Manifestações como a batalha de Seattle e outras na Europa contra a OMC davam o tom o movimento antiglobalização.

No entanto, numa direção oposta, o atendado de 11 de setembro contra as torres do WTC desencadeou a guerra ao terror, reeditando uma espécie de macarthismo (no estilo quem não estiver com o capitalismo está contra ele), muito bem representado pelas invasões do Iraque e do Afeganistão e as execuções de Bin Laden dentro do Paquistão e do general iraniano Soleimani em Bagdá.

O efeito foi como um balde de água fria nos movimentos, ativistas e organizações que atuavam no enfrentamento das desigualdades sociais, que tocavam na ferida aberta das diferenças sociopolíticas entre os países do norte e do sul do mundo, o que poderia ameaçar ainda mais a liderança geopolítica dos países ricos naquele período.

Nesse cenário, desencadeou-se uma fragmentação das causas sociais em temas diversos, como aquecimento global, opção de gênero, direito à cidade, raça e cor, segurança alimentar, justiça climática, entre outros.

Sem desconsiderar a importância desses enfoques para o desenvolvimento humano e a sustentabilidade da natureza, é preciso retomar o foco primordial sobre a questão política central de todos esses problemas da humanidade, seja como causa, seja como consequência: a desigualdade social.

E agora, Jair?

(Com licença de Carlos Drummond de Andrade)

E agora, Jair?

A festa acabou,
a luz apagou,

o povo sumiu,
a noite esfriou,

e agora, Jair?
e agora, você?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, Jair?

Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, Jair?



E agora, Jair?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio — e agora?

Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
Jair, e agora?

Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse…
Mas você não morre,
você é duro, Jair!

Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, Jair!

Jair, para onde?
Ricardo Noblat

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2024

Pensamento do Dia

 


A delícia de ser roubado

Porque é que se come tão mal em restaurantes caríssimos? Finalmente posso responder: porque se come bem nos restaurantes baratos.

Depois de mais um suplício num restaurante caríssimo, a sondar a ementa com um detector de metais, a ver se localizo um tesouro que não se consiga estragar, fitei os olhos do empregado a quem me estava a queixar e vi a resposta: é impossível respeitar quem paga tanto para comer mal.

Respeitam-nos mais nos restaurantes baratos, onde a única coisa difícil de encontrar é a margem de lucro.


 Estamos ali para comer bem e o facto de pagarmos pouco por esse serviço não é chamado para o caso. Pelo contrário, amigo: já que só tenho isto para gastar no almoço, ao menos que almoce bem, porra!

Porque é que as pessoas que vão a restaurantes caríssimos não vão aos restaurantes baratos onde se come bem? Para já, para evitar a companhia dos pobres. Os pobres estragam as dietas porque vê-los comer, com aquele entusiasmo que é próprio deles, aumenta o apetite.

Outro nome que dão a esse entusiasmo é “fome” e também a fome dá vontade de comer. Vê-se um pobre a comer e fica-se com a ideia de que estamos na presença da última refeição do século XXI. E lá se vai a dieta.

Vai-se a restaurantes caríssimos por todas as razões excepto comer bem. Uma delas é fingir que não se liga nada à comida: não somos nenhuns animais.

Ser-se desprezado pelos empregados faz parte do prazer. Demonstra fidalguia ser-se odiado por quem nos serve o jantar. É normal que a faca de trinchar o assado faça lembrar a guilhotina. Não há nada a fazer senão ter pena dos pobres desgraçados que nasceram para ser servos da gleba.

Se passarmos a vida a comer comida feita por quem nos odeia, tudo o que for feito com mera indiferença sabe-nos como maná. Querer comer bem num restaurante caríssimo é como ir ver um filme de Dreyer à espera de rir. A comida é apenas um pretexto para pagar uma fortuna, na companhia de outros afortunados.

Mais vale ir almoçado.

Instituições funcionam como uma fossa entupida

"As instituições estão funcionando" é uma frase de quem passa pano para a crise democrática e econômica brasileira. De tão batida, no seu emprego irrealista ou picareta, se tornou cediça, podre, e motivo de sarcasmo gaiato.

Além de defeitos de base, por beneficiar quem tem mais poder ou sustentar hierarquias nefastas, o funcionamento das instituições se tornou ainda pior desde 2013, lama da qual não saímos.

Basta dar uma olhada no noticiário para notar várias instituições funcionando como uma fossa séptica entupida.

A Polícia Federal deu uma batida na casa e em escritórios do deputado federal Alexandre Ramagem (PL-RJ) e de agentes da PF, suspeitos de montarem um centro de espionagem na Abin, a serviço dos Bolsonaro.

Por causa disso e algo mais, Valdemar Costa Neto, presidente do PL, maior partido da Câmara, chamou o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), de "frouxo".

Costa Neto, velho corrupto, ora bolsonarista, reclama que Pacheco não defende parlamentares de avanços do Supremo, queixa que é um ponto programático do parlamento negocista desde a Lava Jato, um dos motivos do levante contra Dilma Rousseff e mote de projetos de manietar o Judiciário.

A queixinha pega bem no Congresso também porque, de fato, o Supremo faz década e meia mete os pés pelas mãos, em patadas da esquerda à direita; politizou-se por iniciativa própria e com a ajuda de presidentes da República —há bancadas políticas no STF.

É um mafuá institucional.


Reportagens desta Folha têm mostrado como a cúpula militar e a do sistema de Justiça (Judiciário e Ministério Público) abocanham fatia desproporcional e despropositada dos fundos públicos por meio de salários, aposentadorias e pensões exorbitantes e gordos de penduricalhos.

Pacheco, aliás, quer inflar ainda mais os dinheiros do pessoal do sistema de Justiça.

Aqui, uma instituição informal está funcionando. Até onde a vista alcança, desde quando começou a se formar uma burocracia estatal profissional, nos anos 1930 e 1940, as classes médias altas ou altas dão um jeito de legitimar a extração de renda do Estado com a conversa de que precisam de compensação legítima pelos serviços prestados à ordem ou ao progresso nacional.

Precisam, sim, mas a conta foi muito além da que pode pagar este país pobre. Essa instituição informal perverte a instituição do serviço público, que precisa de reforma.

Por falar em rendas estatais, considerem-se as políticas industriais, ditas desenvolvimentistas. A maior parte da esquerda brasileira é engraçada. Faz 70 anos e lá vai fumaça, se dedica a promover a "burguesia nacional" ou apelidos sucedâneos mais modernos.

Muita fortuna foi engordada dos anos 1950 aos 1990 com proteção tarifária, juros de pai para filho, subsídios diretos ou taxas de câmbio amigas, tudo em nome do "desenvolvimento nacional". É um tanto menos agora, mas ainda é. Nunca privatizaram os sócios da Fiesp.

Essa esquerda mal fala de creche e escola para criança pobre, de SUS ou de contribuições da universidade para fomentar a pesquisa para o "desenvolvimento nacional", universidade bancada com dinheiro público e autônoma além da conta.

Logo depois de aparecer a nova política industrial, que até dá para discutir, o governo diz que quer ajudar a indústria naval e criar um fundo de socorro para companhias aéreas falidas.

Com base em quê? Em qual estudo? Qual instituição relativamente autônoma vai controlar o custo, a eficácia e os beneficiários da nova política de desenvolvimento, para não falar da inauguração desse novo hospital de empresas? Não existe uma instituição específica para colocar um cabresto nos favores para empresas e cobrar resultados.

O mau funcionamento do país é institucionalizado.

Há Homens e homens

Há homens que lutam um dia e são bons.

Há outros que lutam um ano e são melhores.
Há os que lutam muitos anos e são muito bons.
Porém, há os que lutam toda a vida.

Esses são os imprescindíveis.

Bertolt Brecht

A voz da pós-informação

Agora que boato, rumor e fake news, cartas viciadas do jogo político, ganharam status oficial de ameaça às eleições, vale reexaminar o estatuto do falso. Ponto de partida é a suspeita de jornalistas americanos de que a investigação aprofundada sobre fake news possa contribuir para fortalecê-las, na medida em que a busca da refutação não vá além da própria internet, seu berço. Resumo da suspeita: como pode a mentira desmentir-se?

No século 17, o moralista francês La Bruyère descomplicava a questão: "O contrário das notícias que correm costuma ser a verdade" ("le contraire des bruits qui courent, c´est souvent la vérité"). Tempo depois, a lógica pediu a palavra. O inglês Conan Doyle pôs na boca de seu Sherlock Holmes que "quando se elimina o impossível, o que fica, por mais improvável, é a verdade."

Com La Bruyère, notícia era ruído, longe da verossimilhança que a imprensa moderna elevaria a regra profissional. Factoide e boato foram logicamente descartáveis, mas sem abominação moral. A famosa e falsa narrativa radiofônica de invasão alienígena, eticamente condenável, não impediu Orson Welles de despontar para a glória.

A questão atual, complexa como digerir um elefante, não se resolve por fact-checking, um mata-formigas. Falsificam-se as próprias checagens. Problema mesmo é a naturalização do fluxo artificial, em que mentiras e deep-fake são linguagem de outra realidade, superposta ao real-histórico. Na rede, a substância do que se diz não pertence à consciência psicológica, mas à potência lógica da máquina, que a ultrapassa. Verdade é de menos, basta a aderência tátil do sujeito.

O que vigora na empiria científica, assim como no senso comum ilustrado, é a verdade positivista dos fatos. De certo modo, entretanto, a rede refaz o mundinho de La Bruyère, onde bastaria colocar-se a contrário dos rumores para encontrar um evento moralmente plausível.

Hoje, é insuportável a desigual realidade externa, da qual se tenta fugir. Os fatos exaurem a consciência comum, fazendo da mentira droga de escape. Verdade é fumaça offline, cara ao espírito liberal, mas reclame hipócrita na politicagem eleitoral.

Desinformação não é mais palavra-chave: o tempo é de pós-informação, o mais puro e obsceno controle social. Não há limites para a inteligência artificial generativa. Já é banal desconstruir a coerência factual pela fragmentação dos acontecimentos, redefinindo notícia como uma fogueira emocional que cada adicto está livre para alimentar na mídia social com seu pedaço de lenha moral.

Saber que informação online é o caos do sentido ao menos relativiza o falatório, em favor de contramedidas cívicas. Na real, Moraes cobra a regulamentação das redes, Lula derruba as grades da praça.

O preço do desenvolvimento predatório na Amazônia

Na mira de grandes investimentos em obras de infraestrutura e de projetos de mineração, de energia e do agronegócio, a Amazônia é vítima de um conjunto amplo de crimes ambientais. Na maioria das vezes, são empreendimentos privados que, com o apoio dos governos estaduais e federal, aceleram o processo de desmatamento predatório e a destruição dos territórios e da vida dos povos amazônicos.

Esperada com entusiasmo pelo agronegócio, a Ferrogrão é um exemplo clássico dos projetos de infraestrutura que geram danos ambientais e violações de direitos. A ferrovia, que promete impulsionar o escoamento de grãos com um corredor de 933 quilômetros entre Sinop, no Mato Grosso, e Miritituba, no Pará, impactará 48 áreas protegidas, entre terras indígenas e unidades de conservação, e pode levar o Brasil a renunciar à Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), da qual é signatário.

O padre e ativista José Boeing, membro do Núcleo de Direitos Humanos e Incidência da Rede Eclesial Pan-Amazônica (Repam), chama atenção para o modelo de desenvolvimento adotado na região, que desconsidera a natureza e a cultura dos povos da Amazônia. “Essa ferrovia vai formar um corredor de exportação que só trará benefícios para o agronegócio. E o agronegócio não é sustentável”, afirma.


Estão previstos para a região inúmeros projetos minero-metalúrgicos, petroquímicos, hidrelétricos, hidrovias e ferrovias que não priorizam o respeito ao meio ambiente e aos povos e comunidades tradicionais. Essa é disputa entre dois modelos de desenvolvimento: o predatório e o socioambiental, segundo o bispo de Roraima e presidente da Repam, Dom Evaristo Pascoal Splengler. O primeiro, das grandes corporações e do poder financeiro, busca o lucro por meio da exploração exaustiva dos recursos da região. O segundo, considera a convivência harmoniosa com a floresta e os povos originários.

Para padre Dário Bossi, missionário e assessor da Rede Igreja e Mineração, a Amazônia sempre foi considerada como uma terra a ser conquistada e ocupada. “Amazônia foi pensada de fora para dentro, com grandes projetos considerados desenvolvimento, caracterizados pelo viés do extrativismo predatório: retirar matérias prima como látex, madeira, ouro, outros minérios, petróleo, gás, água, os quais necessitam de grandes infraestruturas para o escoamento dos produtos e de mão de obra barata”.

O missionário alerta que as obras de infraestrutura na Amazônia são criadas para atender demandas e produzir riqueza para fora da região, enquanto resta para os povos amazônicos os prejuízos sociais, ambientais e econômicos. “Infelizmente é uma Amazônia pensada de fora para dentro, onde os territórios sagrados, os bens comuns da natureza, a fauna e a flora e a manutenção da vida dos povos da floresta estão em constante ameaça por conta da expansão desses grandes projetos econômicos”, conclui.

O último relatório da Rede Amazônica de Informação Socioambiental Georreferenciada, divulgado em 2019, apontou que 68% das terras indígenas e áreas naturais protegidas estão sob pressão de estradas, mineração, barragens, perfuração de petróleo, incêndios e desmatamento.

O levantamento citado mostrou que, dos 6.345 territórios indígenas localizados nos nove países amazônicos pesquisados (Brasil, Venezuela, Colômbia, Bolívia, Peru, Equador, Guiana, Suriname e Guiana Francesa), 2.042 (32%) estão ameaçados ou pressionados por dois tipos de projetos de infraestrutura, enquanto 2.548 (41%) estão ameaçados ou pressionados por pelo menos um. Apenas 8% não estão em situação de ameaça ou pressão.

O procurador regional da República e assessor da Repam, Felício Pontes, afirma que o primeiro problema desses grandes projetos é que eles não levam em consideração os grupos e comunidades impactadas, conforme previsto na Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho, que determina a realização da consulta prévia, livre e informada aos povos atingidos. “Se a consulta fosse realizada, problemas já seriam equacionados antes do início das obras, porque já sabíamos pelas pessoas que moram lá algumas consequências desses projetos que não são normalmente mencionados no Estudo de Impacto Ambiental”, destaca.

“Os projetos afetam como um todo a região, em alguns lugares, por exemplo, no caso de Belo Monte, já estamos vivenciando o ecocídio da volta grande do Xingu. A hidrelétrica mata o próprio ecossistema com a possibilidade de extinção de espécies de peixes e isso traz uma consequência terrível para essas comunidades”, conta o procurador.

Ele cita outros projetos que afetam a região, como é o caso das rodovias, que impactam no desmatamento na Amazônia e no próprio clima do planeta. “Nós já sabemos e é cientificamente comprovado que as estradas são os maiores vetores de desmatamento na Amazônia e isso atinge também aqueles que dependem da floresta para sobreviver”, afirma.

O rastro de destruição começa antes mesmo das obras, pois essas iniciativas costumam valorizar as terras e chamar atenção da especulação imobiliária. “Quando esses projetos são realizados existe uma especulação imobiliária, uma migração que em alguns lugares em até dois anos, a população local dobra. Então você imagina numa cidade em que não existe infraestrutura suficiente para dar conta da população existente no local, em termos de saúde e educação, e essa cidade vê a sua população dobrando rapidamente”, explica Felício.

À medida que se intensificam as pressões na Amazônia, fica claro o preço que se paga pelo “desenvolvimento”, pois a lógica desses grandes projetos leva a impactos ambientais irreversíveis, apresentando grandes mudanças socioambientais, o que inclui o aumento da pobreza, o deslocamento forçado de famílias, a violência e o surto de doenças.

A solução está na promoção das práticas sustentáveis, na fiscalização e aplicação das leis ambientais e no apoio de alternativas econômicas que valorizem a proteção da biodiversidade e dos ecossistemas. A adoção de medidas eficazes, a conscientização global e o compromisso com a sustentabilidade são fundamentais para assegurar que a Amazônia continue desempenhando seu papel vital na manutenção do equilíbrio ambiental.

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2024

A forretice dos ricos

Graças à loquacidade oferecida pelo malte escocês, pude finalmente conversar com um rico sobre o defeito que mais se atribui aos ricos: a forretice.

Este era particularmente forreta. É verdade que me ofereceu um livro, mas era um livro escrito por ele e, mal mo passou para as mãos, pôs-se a discursar sobre quanto custaria num alfarrabista, por estar esgotado e cheio de reproduções caríssimas.

Eis o que apanhei da conversa: sim, os ricos são forretas. Mas isso de ser forreta é coisa de pobre — segundo os ricos.

Um forreta, para um rico, é o que o pobre chama ao rico que não estoura o dinheiro todo. Os ricos são forretas porque têm medo de ficar pobres. Ficar pobre, para um rico, é ficar como nós: obcecados com o dinheiro.


Os ricos contam os cêntimos porque nós não contamos. Nós, para compensar o não sermos ricos, gastamos o dinheiro todo até acabar, e depois ficamos à espera de que venha mais no fim do mês.

Os ricos têm horror a ficar assim, sem dinheiro. E, por isso, são forretas. São mais forretas ainda porque têm muito dinheiro. Têm mais a perder. A angústia é redobrada. Ter muito é ter muito medo de deixar de ter muito. “Mas ainda ficas com muito!”, dizem os pobres, a tentar convencê-los a comer uma lagosta em vez de uma navalheira.

“Sim”, respondem os ricos, “mas já não fico com tanto.”

Nós sabemos que o mundo não acaba quando não temos dinheiro: é apenas interrompido. Mas os ricos têm medo de não conseguir sobreviver. Têm medo de estar completamente dependentes do dinheiro. Podem até odiar o dinheiro. Mas não passam sem ele. Não são como os pobres. São ricos.

Os ricos horrorizam-se com os esquemas que os pobres arranjam para lhes sacar o dinheiro: investe aqui, empresta-me dali, filantropiza-me aquilo.

Nós não descansamos enquanto não forem pobres como nós — até para podermos ser amigos deles a sério. Os ricos pensam que só gostamos deles por causa do dinheiro. E, como querem que gostemos deles, agarram-se ao dinheiro.

Pensamento do Dia

 


Será antissemitismo denunciar coisas como essas?

Soldados de Israel começaram nas últimas semanas a atear fogo a casas na Faixa de Gaza, seguindo ordens diretas dos seus comandantes e sem a necessária autorização legal para o fazer, segundo informa o jornal israelense Haaretz. Os soldados destruíram centenas de edifícios usando esse método no último mês. Depois que a estrutura é incendiada junto com tudo dentro dela, pode queimar até tornar-se inutilizável.

Quando questionado sobre a nova prática, um comandante do exército disse ao Haaretz que as estruturas são selecionadas para serem queimadas com base em informações. Ao ser questionado sobre um prédio que foi incendiado não muito longe de onde ocorreu a entrevista, o comandante disse:

“Deve ter havido informações sobre o proprietário, ou talvez tenha sido encontrado alguma coisa lá. Não sei exatamente por que aquela casa foi incendiada”.

A emissora de televisão Al-Jazeera noticiou a descoberta, no Norte da Faixa de Gaza, de cerca de 30 corpos que estavam enterrados sob um monte de escombros num pátio de uma escola em Beit Lahia.
Os corpos, em decomposição, tinham “fitas de plástico nas mãos e pernas e panos à volta dos olhos e cabeças”. Não se sabe ainda de quem são, mas a descoberta levanta suspeitas de que possam ter sido mortos depois de detidos.

Em dezembro último, imagens de uma série de detidos na Faixa de Gaza a serem levados sem roupa, algemados e de olhos vendados – o que fora apresentado como uma “rendição em massa” do Hamas – provocaram fortes críticas a Israel, que mais tarde admitiu que apenas 10% a 15% daqueles detidos eram de fato membros do Hamas.

A acusação em relação aos 30 cadáveres surge um dia depois de uma operação de um grupo de militares israelenses num hospital de Jenin. Vestindo batas de pessoal de saúde e outros vestidos de mulher com lenço a cobrir a cabeça, em cerca de dez minutos, o grupo entrou num quarto e matou três palestinos usando armas com silenciador. Israel diz que os mortos faziam parte de uma célula do Hamas. O porta-voz do hospital Ibn Sina, onde ocorreu o ataque, disse que não houve trocas de tiros depois da entrada dos militares disfarçados.

“O que aconteceu é um precedente”, declarou. “Nunca houve um assassinato dentro de um hospital. Houve detenções e ataques, mas não um assassinato.” Israel diz que matou o líder de uma célula terrorista, Muhammad Jalamneh, que era também porta-voz do Hamas no campo de refugiados de Jenin.“Executaram os três homens enquanto eles dormiam no quarto”, descreveu à agência Reuters o diretor do hospital, Naji Nazzal. “Executaram-nos a sangue frio, disparando balas diretamente nas suas cabeças, no quarto onde estavam a ser tratados”.

Dezesseis países, incluindo EUA, Reino Unido, Alemanha e França, anunciaram a suspensão de financiamento da agência da ONU para os refugiados palestinos (UNRWA) depois de Israel ter denunciado que funcionários da agência teriam ajudado o Hamas a preparar e a cometer o ataque de 7 de Outubro. O secretário-geral da ONU, António Guterres, disse que nove funcionários foram imediatamente identificados e despedidos”.

Em Gaza, 500 mil pessoas passam fome, e morreram, desde o início de outubro, cerca de 24 mil palestinos, metade dos quais crianças.

O todo pela pior parte

É muito comum, nos meios progressistas, escutar que a postura verdadeiramente democrática consiste em estabelecer um amplo diálogo com todas as correntes de opinião, da direita à esquerda, desde que a conversa aconteça dentro do marco do respeito aos direitos humanos. Em seguida, normalmente se esclarece que o conservadorismo está fora desse marco. (Estou usando o termo não personalista “conservadorismo” para me referir ao que normalmente chamamos de “bolsonarismo”.) Mas será mesmo que os conservadores não respeitam os direitos humanos?

Por trás desse pressuposto amplamente difundido, há uma redução do todo à pior parte. O desacordo — e mesmo o desgosto — de progressistas pelos conservadores faz com que procurem seus piores elementos e os tratem como se fossem casos típicos, casos exemplares. Dessa maneira, distorcem e caricaturam o conservadorismo, tratando-o como meio essencialmente machista, obscurantista, antidemocrático e violento. A realidade, porém, é mais complicada.

Os conservadores valorizam a família, querem uma abordagem mais dura contra a criminalidade e são desconfiados de mudanças muito aceleradas nos costumes. Porém, como mostram as pesquisas, a grande maioria é contra a violência doméstica, é contra a perseguição e a discriminação de homossexuais, defende o respeito às escolhas das mulheres e a igualdade salarial entre os sexos.

O reducionismo e a distorção progressista destacam e amplificam no conservadorismo apenas o ridículo, o grotesco e o caricato, seja para atacar o adversário, seja para reafirmar o sentimento de pertencer ao lado “certo”, o lado “anti-eles”. Na imaginação progressista, o comportamento conservador típico não é aquele das igrejas que combatem a violência doméstica, a discriminação e promovem o respeito entre marido e mulher, mas o dos pequenos nichos de coaches de conquista, das tradwives que defendem a submissão aos maridos e dos ultratradicionalistas de toda sorte.


É verdade que esses elementos caricatos, violentos, reacionários e antidemocráticos existem e se abrigam no campo político conservador. Os progressistas podem perguntar por que então são tolerados ali. A resposta pode ser encontrada devolvendo a pergunta aos progressistas e pedindo que façam, eles também, um esforço de autoexame.

Por que nós, progressistas, toleramos em nosso meio apoiadores de ditaduras como Cuba, Nicarágua ou Venezuela? Por que toleramos em nosso meio feministas que dizem que toda relação heterossexual é um estupro? A resposta honesta é que toleramos essas posições nos meios progressistas porque partilhamos com elas alguns pressupostos e valores sobre como a sociedade deveria se organizar. Isso vale também para os conservadores.

O drama de nossa época politicamente polarizada é que essa caricatura que fazemos do adversário termina, no longo prazo, por moldá-lo. Ao reduzirmos o campo adversário a seus piores elementos, sinalizamos que são esses elementos os que mais nos incomodam. No outro lado, o ódio do adversário aparecerá como prestígio. Os grupos odiados pela esquerda se apresentarão na direita como os que mais incomodam, os que são verdadeiramente “anti-eles”. Pouco a pouco, vamos nos transformando na caricatura que o adversário faz de nós. Vamos nos tornando, nos dois lados, monstros.

A saída, um pouco contraintuitiva, é tentar escapar do jogo da polarização e se concentrar em cuidar da própria casa. Nossa principal responsabilidade é evitar que os piores elementos do nosso campo se desenvolvam e prosperem, com o empurrãozinho que recebem do adversário. Em resumo, precisamos de menos polarização e mais autocrítica.

De sapiens a humildes aprendizes

Certa espécie de mamífero se disse e acreditou ser sapiens! Colocou-se, arrogante, acima das demais, cuja extinção em massa tem provocado. No processo, destrói também suas próprias condições de vida!!

O suposto sapiens não aprende! Continua a fazer as mesmas coisas que causam tal destruição, uma forma de genocídio!!! E o faz por quê? Para quê? Se sobressair? O faz sem saber ou recusando-se a saber? Ciente, mas enganando-se? Constrangido a optar por ignorar a realidade? A história oficial diz que é para melhorar a qualidade de vida, mas mantém 70% da sua espécie em abjeta pobreza!

Extinguir ou tentar extinguir povos é crime; exterminar espécies também deveria ser, com agravante! Afinal, em cada espécie há muitos povos.


São apenas alguns dias de treinamento, ou talvez poucos meses, e os rebentos de quase todas as espécies aprendem a sobreviver, e sobrevivem, cientes de que um predador pode interromper sua trajetória. Os autonomeados sapiens levam décadas para aprender o básico, e a grande maioria mal consegue sobreviver! E, no processo, o sapiens se condena à extinção, não em decorrência do surgimento de um novo predador, mas em razão de suas próprias ações. Sapiens?

Mais que sapiens, é necessário que nós os membros dessa espécie nos tornemos “humildes aprendizes”! De Homo Sapiens a Homo Humilis Discipulus! Deixar a arrogância de lado e passar a aprender com as iterações dos diversos elementos da biosfera, de forma a nos tornarmos resilientes como ela é! Ou era, pois as ações daqueles “sábios” estão a detonar as bases da vida!

Parece, dizem os cientistas, que ainda há tempo para evitar o pior, mas é urgente abandonar o mito de sapiens e reconhecermo-nos como aprendizes, com humildade e vontade de aprender! Nas demais espécies, ninguém come além das suas necessidades, tornando-se obesos e de saúde frágil, exceto aqueles indivíduos que viraram animas domésticos dos “sábios”. Raríssimas guerreiam entre si, como fazem os ditos sábios!

É fundamental mudar as cabeças e os estilos de vida não apenas dos nossos dirigentes, mas de muito mais gente, se quisermos que nossos filhos possam evitar viver sob constantes e cada vez mais graves desastres que já não são mais “naturais”. Também não será agradável ver nossos descendentes presos em guetos, mesmo que luxuosos, como fazem hoje muitos europeus e norte americanos, buscando segurança (armada) contra os “outros da mesma espécie” que fogem da vida que sofrem!

Sim, enquanto nos acreditarmos sapiens, acima de todas as demais criaturas, continuaremos a maltratar todas elas, assim como convivemos com a maioria da nossa espécie sendo maltratada em razão das carências que caracterizam suas vidas! Se nos convencermos de que essa coisa de sapiens é uma fake news, que somos na realidade aprendizes que sequer sabemos conservar a nossa única casa, teremos chances de, humildemente, reconhecer o estrago que fizemos na nossa espécie e nos meios necessários para sobrevivermos. E agir para reparar tais 
danos!

Eduardo Fernandez Silva

sábado, 3 de fevereiro de 2024

Pensamento do Dia


 

Por que dão a Bolsonaro uma importância que ele já não tem?

Quando cairá a ficha dos que ainda enxergam em Bolsonaro uma importância que ele só faz perder desde sua derrota para Lula nas eleições de 2022, e os passos em falso que deu depois disso?

Antes também quando em pelo menos duas ocasiões planejou dar um golpe e não conseguiu, tentou comprar a reeleição gastando além do que tinha e não conseguiu, e por fim fugiu do país.

De longe, assistiu a uma tentativa amadora dos seus devotos de apear Lula do poder mal ele assumiu a presidência, e de perto, amargou a decisão da justiça que o tornou inelegível por oito anos.


Se não bastasse, está no centro do recém-descoberto escândalo de espionagem praticada pela Agência Brasileira de Inteligência (ou de Intimidação) à época em que (des)governava o país.

Ou a Abin, órgão de assessoramento do presidente da República, sob comando do seu cão de guarda, o delegado Alexandre Ramagem, seria capaz de espionar milhares de pessoas sem que Bolsonaro soubesse?



Bolsonaro confessou o crime antes de o crime começar a ser executado. Era preciso dispor de um sistema para evitar que ele, sua família e seus amigos se “fodessem”, foi o que disse e está gravado.

O sistema foi posto em ação, e sabe-se agora que bisbilhotou a vida de adversários do governo, de supostos adversários, e até de aliados que causaram ou poderiam causar incômodos a Bolsonaro.

O “Metrópoles” já revelou alguns nomes. O jornal da BAND, ontem à noite, revelou outros – entre eles, três ex-ministros de Bolsonaro, a saber:

* Abraham Weintraub, da Educação;

* Anderson Torres, da Justiça;

* e Flávia Arruda, da Secretaria de Governo.

O antecessor de Flávia também foi espionado, assim como o general e ex-ministro-chefe da Secretaria de Governo da Presidência, Carlos Alberto dos Santos Cruz, amigo há décadas de Bolsonaro.

Santos Cruz foi um dos primeiros-ministros de Bolsonaro a ser demitido por ele. O primeiro foi Gustavo Bebianno, ex-ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência.

A Bebianno, Carlos Bolsonaro, chefe do gabinete do ódio no Palácio do Planalto, contou que pretendia criar uma Abin paralela. Por exigência de Carlos, Bebianno e Santos Cruz acabaram desempregados.

Deputados federais que passaram a divergir do governo não escaparam à vigilância da Abin: Kim Kataguiri, Alexandre Frota e Joice Cristina Hasselmann; essa, sequer se reelegeu.

Entre os senadores, há nomes de todos os partidos: Otto Alencar, Rogério Carvalho, Omar Aziz, Humberto Costa, Alessandro Vieira, Renan Calheiros, Simone Tebet e Soraya Thronicke.

Ramagem piscou primeiro. Depois de negar que a Abin tenha espionado quem quer que seja, admitiu em entrevista ao “Metrópoles” que ocorreram por lá “atividades ilícitas”.

Para desviar a atenção de si e de Bolsonaro, Ramagem levantou suspeitas sobre a atuação de Paulo Maurício Fortunato, diretor de Operações da Abin ao longo de sua gestão:

“Foi na casa [de Fortunato] que foram encontrados 170 mil dólares, quase R$ 1 milhão. Fui eu que fiz toda a apuração que gerou a exoneração dele. Por que eu agora estou sendo investigado? É perseguição.”

A Polícia Federal já tem fortes indícios de que Bolsonaro seria um dos destinatários das informações do esquema de espionagem da Abin. Os relatórios da agência eram impressos e entregues a ele.

Dê-se, Bolsonaro, por satisfeito se emplacar o vice de Ricardo Nunes, prefeito de São Paulo e candidato à reeleição. Mas até isso está difícil. A proximidade com Bolsonaro aumentaria a rejeição de Nunes.

Esse eu conheço!

Salta aos olhos a trivialidade da expressão acima. No entanto, quanto mais a usamos, menos penetramos em seu significado. Veja como ela pouco diz traduzida para o inglês, justamente porque, como diria Gilberto Freyre, ela — como o carnaval — é um “brasileirismo”.

É um “conhecer cultural” inscrito no nosso inconsciente. Na escondida hierarquia das nossas relações sociais, e no modo como as vivenciamos.

Todos conhecem X, mas nem todos podem dizer com orgulho, revelação ou desprezo: “Esse eu conheço!” — o que equivale a revelar um elo pessoal. Um laço instaurador de um conhecimento íntimo, cotidiano e familiar. Tudo o que socialmente faz diferença, porque afasta o demônio do informal e do impessoal que não sabe quem somos.

Realmente, nossa aversão à impessoalidade chega às raias da repulsa. De tal modo que a regra universal é tida como desgraça ou castigo, jamais como regulador informal de um hábito ou costume.


Como o tal sinal vermelho que fechou justamente “contra” mim! Ouvi esse absurdo numa pesquisa sobre o trânsito, uma esfera social que — como a economia ou o Direito — opera por meio de normas gerais que valem para todos, inclusive para quem tem carro importado ou “se acha” melhor, mais rico, mais importante e, por nobreza autoatribuída, é dispensado de seguir os hábitos “deprimentes” como entrar numa fila (veja-se o livro “Fila e democracia”, Editora Rocco, escrito com Alberto Junqueira).

O vandalismo pode ser visto como um clone perverso dos privilégios abusivos das elites que — para começo de conversa — imaginam não cometer crimes e, se criticadas, sentem-se vítimas de mentiras, tramoias, má-fé e, como bem definiu nosso primeiro mandatário, “mancomunações”.

Aliás, um lado meu quase diz “macumbas”, reveladoras dessa naturalidade de seguir certos costumes, mas achar absurdo cumprir leis que são formalidades reguladoras de costumes, como as normas do trânsito ou as regras de comensalidade ou de controle financeiro. Como não arrotar, roubar o Erário ou, exceto no carnaval, mijar na rua.

Leis e costumes devem ser coerentes, mas temos leis que inutilmente proíbem o avunculato — numa demonstração notória do “esse eu conheço” — e, assim sendo, trago-o de volta, apesar de sua desonestidade ou incompetência.

Eis um conhecer que desmonta qualquer sistema fundado na norma do prêmio ao mais competente e de justiça ao criminoso. Pois a competência — essa inimiga da incapacidade de sanar a pátria desenhada para ser roubada — exclui os que Nélson Rodrigues chamava de “bestas quadradas”, e eu tenho testemunhado como “burros doutores”...

Mas o pior é que todos são “conhecidos” daquele “eu” que é o dono dos donos do poder. Do mandão geral que não erra e de quem todos puxam o saco, naquele cordão que jamais termina, como diz a marchinha de 1945, criada por Roberto Martins e Eratóstenes Frazão. Marchinha definitiva como teoria da esfera política brasileira. Um “marchar” revelador de como o “cordão” ou partido dos puxa-sacos (apadrinhados, compadres, companheiros etc.) dão vivas a seus maiorais e, no outro verso, crava a vergonhosa verdade que estão nos impingindo: a interminável repetição como apagamento da História: Quem está na frente é passado pra trás, e o cordão [seria melhor dizer partidos] dos puxa-sacos [dos esses eu conheço!] cada vez aumenta mais.

Como eu disse — puxa vida — há 45 anos, em “Carnavais, malandros e heróis”, Editora Rocco, o carnaval ritualiza nossas verdades verdadeiras. Pois em sua forma, ritmo e discurso, em sua aliança entre o legal e o impessoal, no consentimento festivo da competição que todos entendem, ele aponta como não conseguimos escapar das repetições que uma estúpida polarização formaliza. E, de quebra e lambuja, desmascara quem são as eminências e excelências que — à direita e à esquerda, em cima e embaixo — reinam entre nós.

Nosso dever

Nós passamos as nossas vidas a lutar para conseguir que pessoas ligeiramente mais estúpidas que nós aceitem as verdades que os grandes homens conheceram desde sempre. Já há milhares de anos que eles sabiam que fechar uma pessoa doente num ambiente solitário torna-a ainda pior. Já há milhares de anos que eles sabiam que um homem pobre que é assustado, pelo seu patrão, e pela polícia, é um escravo. Eles sabiam. Nós sabemos. Mas será que a grande massa iluminada dos britânicos o sabem? Não. É o nosso dever, Ella, o teu e o meu, de lhes dizer. Porque os grandes homens são demasiado grandes para serem incomodados. Estão já a descobrir como colonizar Vênus e como irrigar a Lua. Isso é que é o mais importante para o nosso tempo. Tu e eu somos os empurradores da pedra. Todas as nossas vidas, tu e eu, temos que empregar as nossas energias, e todo o nosso talento, a empurrar uma enorme pedra por uma montanha acima. A pedra é a verdade que os grandes homens sabem por instinto, e a montanha é a estupidez da humanidade.
Doris Lessing, "The golden notebook"

Prefiro não saber

Agora toda a gente quer saber tudo e, se não lhes dizem o que querem saber, desconfiam a redobrar.

As confissões, por muito chorosas, já não convencem ninguém. Os pedidos de desculpa muito menos — então quando cheiram a dedos de advogado… Querem mais. Mais lágrimas.

Já ninguém acredita que houve um tempo em que isto de querer sempre saber tudo era visto como uma obsessão mesquinha, uma curiosidade insana, um caminho certo para a infelicidade.

Lembro-me do meu pai a ler, e a levantar os olhos do livro para registar a realidade da minha interrupção. Num olho meio-amarelo, meio-castanho, estava a consciência do dever de um pai para com um filho. No outro, meio-castanho, meio verde-azeitona, estava a revolta: “Deixa cá ver o que este quer…”

Mal eu me tinha lançado a fazer a minha confissão, aproveitando a frescura do ensaio que um minuto antes tinha feito à frente do espelho da casa de banho, ele dizia estas três palavras, enquanto a cabeça baixava outra vez para o livro: “Prefiro não saber.”

Se eu protestasse, ele apaziguava-me: “Deixa estar, Miguel, eu também já fui novo. Tenho a certeza que aquilo que tens para me dizer é muito importante, mas acredita que assim é melhor para todos, está bem?” E depois lá vinham as três palavras, já com um pingo de nitroglicerina: “Prefiro não saber.”

Hoje dou-lhe razão. Guardemos a nossa curiosidade para as coisas que, uma vez sabidas, nos trazem riso e excitação. Guardemos a nossa curiosidade para as coisas e para as pessoas que se deixam descobrir, sem resistência ou esperteza, ou estratégia, ou manipulação.

Numa vida, só temos tempo para saber tão poucas coisas, porque é que havemos de arranjar espaço para os pormenores que nunca mais acabam, das confissões que outros nos fazem?

Dizem-nos que é por termos direito a saber, mas é mais pelo direito que eles acham que têm, de desabafar. Eles ficam aliviados. Nós ficamos pressionados a reagir. Quem é que ficou a perder? Quem é que ficou a ganhar?