sábado, 3 de junho de 2023

Um projeto para o Brasil

O Brasil carece de um projeto para o país. O arcabouço fiscal, a reforma tributária, e as políticas setoriais são de suma importância, mas não caracterizam um plano de desenvolvimento econômico, que case uma nova demanda e oferta. O crescimento de 2% a 3% ao ano não resolve nossos problemas.

Todo país que passou por crescimento econômico significativo experimentou casar nova oferta e demanda. Foi assim nos Estados Unidos com as políticas Keynesianas; na China, com ciência, urbanização e industrialização. E assim foi também no Brasil, com D. Pedro II na criação da Politécnica e da Escola de Minas de Ouro Preto e abertura da imigração; com Getúlio Vargas no pacto entre o capital e trabalho com a CLT; com Juscelino na substituição de importações; com Lula com crédito para as indústrias ociosas e programas sociais.

Um projeto de desenvolvimento do Brasil poderia, por exemplo, casar o assentamento de parcela da população em cidades agroindustriais com programas de aumento da produtividade na indústria e comércio.

Em relação às novas cidades agroindustriais, o Brasil conta com terras devolutas do Estado da ordem 23% de seu território. O contingente de pessoas vivendo em favelas é de cerca de 8% da nossa população. Estas cidades, em soluções distintas, mas complementares ao INCRA, poderiam ser desenvolvidas em PPP com o agribusiness e investimentos internacionais. Ativaria a construção pesada do país. A alocação, consentida, de parte dos 8% dos que vivem em favelas para o campo levaria ao aumento da produção agrícola e ao aumento dos salários urbanos devido à diminuição da oferta e manutenção da demanda por trabalho nas cidades. A recente experiência chinesa poderia em muito contribuir neste sentido.

Com relação ao aumento da produtividade, os trabalhos e webinars conduzidos por Paulo Paiva da Fundação Dom Cabral, ex-Ministro do Planejamento e do Trabalho, dentre vasto currículo, mostram que a produtividade no Brasil cresceu até 1980, a partir de quando permaneceu estável, indispensável seu aumento para o país. Segundo dados da FGV EESP, a produtividade do trabalhador americano é 4 vezes maior do que a do brasileiro, ou seja, o que toma 1 dia para se fazer nos Estados Unidos, toma 4 dias para fazer no Brasil. Se tivéssemos a produtividade americana, nosso PIB ao invés de US$ 1,6 bilhões estaria por volta de US$ 6,4 bilhões, como 3ª economia do planeta. Poderia ser criado um órgão em PPP e com a intelligentsia nacional de desenvolvimento da produtividade, um pouco diferente da FINEP, e do SEBRAE, focado em métodos e processos, nos moldes do que foi e tem sido a EMBRAPA para a agropecuária. Ressalte-se, também, a necessidade de forte investimento em indústrias de semicondutores, Data Science, e Inteligência Artificial, determinantes para os países neste século XXI. A fundação de uma Universidade de Information Technology seria propícia, trazendo os melhores talentos do exterior. As experiências da China, da Coreia do Sul e da Alemanha seriam significativas no aumento da produtividade.

Este é um exemplo de projeto possível. Afinal, isto nada mais é do que os conclames de José Bonifácio há 200 anos atrás, da “subdivisão de terras” e de uma “universidade”, ou intelligentsia, para o país. Velhos dilemas de nossa nação.

É difícil? Há capital para isto? Há tempo para tal? Quanto mais perto disso, melhor. O protótipo seria bem-vindo. Ou o Governo foca em um projeto de desenvolvimento econômico para o país ou poderá ter dificuldades eleitorais à frente.

Três vezes Brasil

A rigor, o título deste artigo deveria ser Relembrando Euclides da Cunha. O leitor com certeza sabe que o grande autor de Os Sertões foi também um notável ensaísta e, em particular, um exímio analista político.

Não vacilo em afirmar que seu Esboço de História Política, escrito no primeiro centenário da Independência, incluído no volume À Margem da História (reeditado pela Editora Lello em 1967), tem seu lugar assegurado entre os quatro ou cinco melhores textos brasileiros nessa área. Inventei outro título por uma razão muito simples: meu propósito não é resenhar Euclides, mas aproveitar o texto dele para reinterpretar e trazer o texto dele até o Brasil atual. Na primeira parte, apenas interpreto a linha-mestra do Esboço; na segunda e na terceira, exponho o que se passou desde 1891, superpondo o que veio à minha mente à medida que relia o original de Euclides.

O fio condutor da interpretação euclidiana parece-me ser este: “Somos o único caso histórico de uma nacionalidade feita por uma teoria política”. Complementado logo adiante por esta frase-manifesto: “Estávamos destinados a formar uma raça histórica, através de um longo curso de existência política autônoma. Violada a ordem natural dos fatos, a nossa integridade étnica teria de constituir-se e manter-se garantida pela evolução social. Condenávamos à civilização. Ou progredir ou desaparecer”.


A “teoria política” era a ponte de que nos valeríamos para a travessia, deixando para trás a tirania colonial e pondo os pés num futuro que talvez fosse a civilização. Reparem que aqui o Euclides simpatizante do evolucionismo de Augusto Comte faz uma crítica ao mestre e, portanto, a si mesmo. O espectro da regressão a um status colonial delineava claramente as alternativas: era o desmembramento em republiquetas turbulentas, instáveis, comandadas alternadamente por caudilhos, ou antecipar mentalmente o futuro desejado, deixar de lado a ilusão de um determinismo que a ele nos levasse. “Violando a ordem natural dos fatos”, acreditar, ainda que com pouca chance de sucesso, na teoria que nos serviria de ponte. Mas tal teoria não poderia ser uma abstração. Haveria de ser um fazerpolítico, que dependia de o destino nos dar líderes e pensadores à altura do empreendimento. O destino não nos faltou: os dois monarcas, Pedro I e Pedro II, Bernardo Pereira de Vasconcelos, Marquês do Paraná, Joaquim Nabuco, Rui Barbosa e outros mais, cada um a seu modo, deram-nos o impulso para a civilização. Acrescente-se que, naquele período, estávamos em condições de fornecer todo o café que o mundo demandasse. Descontados a anarquia da Regência (1831-1840), o prolongamento excessivo da escravidão e a instauração da República fruto não de uma visão política esclarecida, mas do fato de não ter o País um sucessor masculino, e sim uma princesa – casada com um estrangeiro, o Conde D’Eu –, o saldo foi positivo.

Mas, como diz o ditado popular, pau que dá em Chico dá em Francisco. Aqui, peço vênia para umas pinceladas no brilhante quadro de Euclides. Cedo ou tarde, a riqueza propiciada pelo café haveria de ser destroçada pela competição internacional. E, no lugar do Marquês do Paraná, artífice da pacificação, e de Joaquim Nabuco, o primeiro a denunciar sem meias palavras a ilegitimidade para a qual degenerava o Poder Moderador, veio, por um lado, uma chusma de pseudointelectuais siderados pela ascensão do fascismo na Europa e, pelo outro, os comediantes que personificaram a Política dos Governadores, que melhor fora epitetada como Política das Ditaduras Estaduais, que transformou cada Estado (exceto o Rio Grande do Sul) num regime de partido único. Em seguida, a rebelião de alguns Estados contra a “socialização das perdas”, o subsídio ao que restava da outrora pujante cafeicultura e, finalmente, a tragicomédia da Revolução de 1930, cujo desfecho só poderia ser a ditadura getulista, a polarização getulismo-antigetulismo e, no fim da linha, 21 anos de governos militares.

Essa passagem de nossa história não pode omitir a estrutura social que dela resultou: uma minúscula elite garroteando o patrimônio e a renda nacional; uma classe média esquálida, cada vez mais incrustada na máquina do Estado, eis que desprovida de bases para crescer, tanto no campo como na cidade; e um amazonas de miseráveis, exescravos, desempregados e analfabetos. Para supostamente superar esse estado de coisas, a obsessão com a chamada industrialização por substituição de instituições (ISI), que nos deixou onde estamos: na estagnação e com o maligno espectro da “armadilha do baixo crescimento”.

E agora, José? Agora são uma mediocridade política somente comparável, no passado, às antes mencionadas “ditaduras estaduais” e uma recuperação econômica que parece se distanciar no horizonte a cada minuto. Mas isso ainda não é o pior. É uma sociedade desordeira, que parece não enxergar a si mesma, vivendo da mão para a boca e quase totalmente destituída de valores coletivos.

sexta-feira, 2 de junho de 2023

Pensamento do Dia

 


Frequentador de estádio age como comprador do direito de consumir o jogador

Frequentador de estádio é personagem da sociedade de consumo. Ele julga comprar o jogador ao comprar o ingresso e não raro age como comprador do direito de consumir o jogador.

A deplorável demonstração de racismo de torcedores espanhóis contra o jogador brasileiro Vinicius Júnior, do Real Madrid, no último dia 21 na disputa contra o Valência - o vencedor -, não fica bem analisada e interpretada se reduzida à questão do preconceito nos estádios de futebol.

A questão é, sociologicamente, bem mais complicada. O futebol não teria se transformado em grande empreendimento econômico e mesmo político se não tivesse sido incorporado ao sistema de multiplicação da riqueza. Substituiu pelo conflito tópico e efêmero das partidas o conflito estrutural da luta de classes.

Ao se transformar em negócio, o futebol foi banalizado e destituído do seu caráter propriamente esportivo. Ficou vulnerável à concorrência em lugar da disputa.


Tornou-se o mais massificado dos esportes. Saiu do gramado da disputa entre 2 times de 11 jogadores, que se tornaram atores secundários em face da multidão das arquibancadas. É nas arquibancadas que o jogo é jogado. O jogo já não é nem mesmo o verdadeiro confronto esportivo. Outras motivações conflitivas dirigem muito do que acontece no desenrolar de uma partida.

No futebol de hoje o verdadeiro jogo é invisível. Os do gramado são cada vez mais coadjuvantes de um enredo de invisibilidades, de uma trama de interesses que são outros, bem diversos dos do espetáculo de beleza esportiva, de esporte criativo, de obra de arte.

O futebol revelou talentos ocultos do homem simples, do operário, do índio, do negro. Revelou-se instrumento de robustecimento da democracia nascente. Justamente por isso não é estranho que essa democracia da diversidade esteja sendo combatida nos estádios de futebol pelo racismo e pela violência do confronto entre torcidas. Expressam a intolerância à diferença e à pluralidade, ao que é próprio da cultura democrática. Num país como este, uma singularidade notável.

Essa conflitividade, embora patológica, não é anômala. O futebol foi capturado pela necessidade política de institucionalizar o conflito social próprio do advento da sociedade industrial e moderna. Ganhou sentido como instrumento de controle social em face do crescimento do protagonismo, fora de controle, da classe operária e da centralidade da luta de classes na estruturação da nova sociedade criada pela industrialização. A história do futebol é a história da invenção de técnicas sociais de neutralização e direcionamento de tensões. Isso não lhe tira a beleza. Apenas o enfeia e dele faz expressão de contradições sociais.

É que há outros problemas por trás de manifestações como aquela contra o jogador brasileiro. Se a variedade de causas e de determinações do ódio pós-moderno, como o que vitimou Vinicius Júnior, não forem consideradas, dificilmente será possível desenvolver técnicas sociais de contenção ou controle dos efeitos antissociais do que na verdade são carências e frustrações. As de uma sociedade que foi considerada monopólio de brancos. E por isso trata o negro como um usurpador de oportunidades sociais cada vez mais escassas, como a dos jogadores negros, ricos e de sucesso.

Nesta sociedade, que é de fato de classes, o futebol ganhou funções sociais alienativas, gerou ilusões de ascensão social, real para poucos, impossível para a maioria dos torcedores de futebol. Deu forma antissocial a um cotidiano de impossibilidades. A violência física e simbólica nos estádios deforma o conflito social próprio da sociedade de classes, perde a legitimidade não tolerada de um direito social para ser mera delinquência tolerada.

O racismo nos estádios de futebol é um modo de contestar e repudiar uma das características mais importantes da sociedade moderna: a diferença como atributo pessoal e um direito da pessoa. Mas não é a raça nem a cor que vem em primeiro lugar para motivar a violência racial, em casos como este, contra o negro. É a trama dos fatores sociais invisíveis da discriminação e da intolerância que decorrem da desigualdade social e dos seus êxitos diferenciais.

No futebol, tanto na Espanha quanto no Brasil, o ódio racial nos estádios é o do branco ressentido contra os negros vitoriosos que superaram a condição social adversa da pobreza a eles imputada e se tornaram ricos e famosos. Os brancos querem deles os seus gols, mas não os querem como pessoas e iguais. Chamá-los lá de “monos” e, aqui, de “macacos” é reviver concepções do tempo da escravidão, de dúvidas sobre a condição humana do escravo.

O frequentador de estádios é personagem da sociedade de consumo. Ele julga comprar o desempenho do jogador ao comprar o ingresso. Não raro age como comprador do direito de consumir o jogador. Esse racismo é isso: consumo covarde do atleta pelo torcedor.

O último Camacan

Era o último que restou da tribo. Apenas era um curumim quando viu o horror querendo arrancar seus olhos. Escondido atrás do jequitibá frondoso, escutava os gritos, os corpos abatidos com a saraivada de bala, a taba queimada. O sangue empapou o chão, correu no rio a mancha que deságua na alma. O que fez seu povo para merecer o extermínio? Pergunta que não tinha resposta apesar de ter visto a barbárie que fizeram com a sua gente.

Dormiu em cima de pé de pau para que não fosse comido pela onça. De dia não sabia que direção tomava. Comia inseto e bebia água do riacho com a folha larga da árvore grande. O que seria dele agora, sozinho no meio da mata? Até que duas mãos o prenderam. O homem de rosto manso sorriu para ele. Alisou seus cabelos finos. Apontou para o seu coração, depois para o dele, como se dissesse, o meu é igual ao seu, não tenha medo, curumim, vou tomar conta de você. Deu-lhe biscoito, um pedaço de carne charqueada, uma xícara de café, bebida que ele nunca tinha tomado.

Foi morar com o homem na cidade, entrou na escola, aprendeu a ler e a escrever. Quando ficou rapaz, disse ao homem, o dono de uma roça de cereais perto do local onde vivia a sua tribo, que queria ser motorista. Fez o curso para conseguir o que desejava, foi dado como apto para se submeter às provas para motorista no departamento de trânsito local. Conseguiu o que queria na prova final, estava habilitado para ser motorista de veículo pesado.

Não demorou, teve a carteira assinada como motorista de ônibus da Companhia de Viação Sul Baiano. Rolava pelas estradas do território onde cabiam mais de cem municípios. De vez em quando olhava pela janela do ônibus aquele território coberto de matas, roças espalhadas onde os moradores de umas não sabiam das outras, de tão distantes que estavam.

E dizer que todas aquelas terras pertenceram aos seus antepassados. Justamente onde estava a maloca de sua tribo, depois que tudo ficou arrasado, ergueram barracões como parte do plano para desmatar a mata e vender a madeira. O lugar tornou-se logo um entreposto de negócios para venda de terras, artigos de campo e cidade no armazém.

Assim, por ladeiras e aclives do terreno, foi surgindo o vilarejo de topografia acidentada. Todas as ladeiras convergiam para o centro lá embaixo, onde ficava a única parte plana. Quando o lugarejo se tornou cidade foi batizado com o nome de Camacan. Por quê? Nada ali existia que registrasse a passagem de um povo que vivia em paz com a natureza. Para que ficasse nele batendo e voltando a lembrança de uma trágica emboscada?

Depois que passou a ser motorista da empresa de transporte de passageiro teve que morar em Camacan. Às vezes sentia que um pássaro distante cantava no peito a fuga do vento sem rumo certo, o horror do sol vendo as águas que afogavam os nativos na mancha enorme formada com a vergonha.

Nunca conseguiu se libertar da lembrança que queria arrastá-lo para a escuridão do pior abismo. Quando percorria a pé estas ladeiras, onde antes estava a mata intacta, a gente de sua tribo morava, na parte baixa, atravessava-lhe a flecha quebrada, dispersa nas cores, cheiros e sentidos de todas as manhãs. Zunia a bala que baniu da taba em dó e lágrima, até o último gemido, aquelas vozes na dança.

O inteligentíssimo fim do mundo

O filósofo Adauto Novaes, com sua fala mineira, sem atropelos ou turbulências, gosta de lembrar uma frase do poeta francês Paul Valéry: “Nós, civilizações, sabemos agora que somos mortais”. Lembrança pertinente. Com essas palavras, Valéry faz a abertura de seu ensaio célebre A crise do espírito, publicado na França no ano de 1919, lá se vão mais de cem anos.

Eram tempos traumáticos. O desafio do pensamento era reconhecer que a utopia iluminista, com a sua promessa de que a ciência libertaria a humanidade da peste, da fome e das guerras, dava sinais de fadiga. O morticínio gerado pela Primeira Grande Guerra era a prova irrefutável desse fato. O que se viu foi a distopia. Cientistas desenvolveram gases tóxicos para dizimar adolescentes confinados nas trincheiras. Aviões se convertiam em armas letais. O poder era o crime perfeito. Ficava mais do que evidente que a civilização, impulsionada pelas mais estonteantes invenções da técnica, era capaz de matar, inclusive a si mesma.

Fim do mundo segundo a IA

Depois do veredicto de Valéry, as coisas pioraram. Vieram o Holocausto, a bomba atômica e o aquecimento global. Além das civilizações, a própria humanidade se descobriu mortal. Cães raivosos não alcançam essa ideia, mas assim é.

Anteontem, o jornal The New York Times noticiou que um grupo que reúne os principais pesquisadores e executivos dos maiores centros de inovação tecnológica no mundo lançou uma advertência: o crescimento indiscriminado da Inteligência Artificial (ou simplesmente IA), outra conquista do gênio humano, pode empurrar a nossa espécie para a “extinção”. Não, a palavra não é exagerada. O texto do Times, assinado pelo colunista de tecnologia Kevin Rose, não envereda por firulas especulativas. Vai aos nós objetivos do problema.

Enorme problema. Para começar, as ferramentas baseadas em IA vão devorar milhões e milhões de empregos hoje ocupados por pessoas feitas de átomos de carbono. Essas pessoas cederão seu lugar para traquitanas que levam átomos de silício em sua composição e serão expulsas do mundo do trabalho. Os laços sociais serão convulsionados.

Em outra frente, dispositivos atrelados a algoritmos inteligentes vêm desempenhando um papel tenebroso nas campanhas de ódio e disseminação das mentiras mais destrambelhadas. As multidões, presas fáceis, se aglomeram em tropas de fúria e fanatismo, o que corrói as instituições encarregadas de verificação da verdade factual, como a imprensa, a ciência e a justiça. Ato contínuo, os alicerces das instituições democráticas se desestruturam.

Diante disso, alguém levanta a mão para fazer a pergunta inevitável: mas essas mesmas tecnologias não podem ser usadas “para o bem”? Podem, sim, é lógico. O veneno de cobra e a arma de fogo também podem ser usados “para o bem”. O livro de Adolf Hitler, Minha Luta, quando estudado por historiadores ou pensadores comprometidos com a democracia e os direitos humanos, pode servir a bons propósitos, como o de nos ajudar a impedir uma recidiva no nazismo. Em tese, tudo pode servir “para o bem”. O cianureto, o pernilongo e a música brega podem ser utilizados “para o bem”. No entanto, não é bem esse “bem” que se projeta como tendência quando o tema é IA. Os que mais entendem do assunto estão assustados. Ouçamos o que eles dizem.

“Debelar o risco de extinção representado pela IA deve ser uma prioridade global ao lado de outros riscos de escala social, como pandemias e guerra nuclear”, afirma o manifesto de uma única frase assinado por cerca de 350 cientistas e dirigentes de empresas. Entre os signatários estão Sam Altman, presidente executivo da OpenAI, e Demis Hassabis, presidente executivo do Google DeepMind, além de Geoffrey Hinton e Yoshua Bengio, ganhadores do Prêmio Alan Turing, uma espécie de Nobel da tecnologia.

O risco da extinção de que eles falam não deve ser entendido como o risco de uma catástrofe nuclear. Não é que alguém vá lá, ligue o computador e, num estrondo, as populações de todos os países partirão desta para uma pior. Não será assim. A civilização, nesta hipótese da extinção por IA, desaparecerá aos poucos, num suspiro longo.

As ferramentas de IA vão aos poucos tomando posse dos protocolos discursivos que, desde sempre, orientam as condutas humanas. O jargão jurídico é um desses protocolos. O método científico é outro. A atividade dos médicos é um terceiro tipo. As religiões também têm os seus, que não se confundem com os anteriores. Todos esses protocolos têm um traço comum: eles são construídos na linguagem. Quando a IA aprende a falar, como se fosse gente, ela se apropria dos protocolos que formatam comportamentos individuais e sociais e, a partir daí, tudo muda de figura.

Como resultado, o ser humano perderá relevância, enquanto os protocolos desumanizados se expandirão. Da nossa irrelevância brotará o ciclo vicioso que vai nos escantear e, depois, nos extinguir. A menos que a democracia tome providências. Segundo o grupo seleto que assinou o manifesto de uma única frase, ainda há tempo.

Lula e Maduro, o amor é lindo

Entre as várias besteiras que tem cometido em vez de dedicar-se a reconstruir o país, Lula embarafustou-se por uma mixórdia verbal na segunda-feira (29) ao receber em palácio um convidado que entrou em surdina, quase que pelos fundos e sem limpar os pés: o ditador venezuelano Nicolás Maduro. Lula chamou de "narrativa" as acusações que pesam sobre Maduro e sua maneira de tratar os opositores —com prisões, sequestros, desaparecimentos, afogamentos, tortura, estupros e execuções, tudo isso possibilitado por asfixia da imprensa, degola do Poder Legislativo, pesada corrupção de militares e eleições de araque.


Esse é o violento diagnóstico contra Maduro pela Anistia Internacional, a Human Rights Watch, a Organização das Nações Unidas e o Tribunal Penal Internacional de Haia, entidades a que apelamos contra Bolsonaro por incitação a golpe de Estado, charlatanismo na pandemia e genocídio dos povos indígenas. Não por acaso, Bolsonaro também chamou a isso de "narrativa".

Narrativa, como se vê, é uma história cuja veracidade depende de quem a conta —ou de quem a escuta. Lula instou Maduro a "construir sua narrativa, para que possa efetivamente fazer as pessoas mudarem de opinião". Jurando por essa narrativa antes mesmo de ouvi-la, carimbou: "A sua narrativa vai ser infinitamente melhor do que a que eles têm contra você". O amor é lindo, não?

E então vem a mixórdia verbal: "Está nas suas mãos construir a sua narrativa e virar esse jogo, para a Venezuela voltar a ser um país soberano, onde somente seu povo, por meio de votação livre, diga quem vai governar o país".

Pois não é exatamente o que o mundo espera da Venezuela? Que volte a ser um país soberano, onde somente o povo, através de eleições livres, sem as mentiras, as gambiarras econômicas e o uso da máquina do Estado praticados por Bolsonaro, digo Maduro, escolha quem irá governá-lo.

quarta-feira, 31 de maio de 2023

Húbris, engodos e crenças: 5 erros fatais na política

Benjamin Franklin não se importaria se eu pegasse na frase dele e lhe acrescentasse que nada é mais certo neste mundo do que a morte, os impostos e os políticos a fazerem asneiras, mais ou menos percetíveis da opinião pública. Errar é humano, e a política não oferece exceção, muito pelo contrário. Aqui fica uma listagem de alguns erros fatais na política. E, sim, qualquer semelhança com a atualidade política não será coincidência.

1. Deixar-se toldar pela húbris. Vem de longe, pelo menos desde a Antiguidade, a ideia de que o poder vicia e corrompe até a mais bem-intencionada das almas. Já os romanos o sabiam com clareza, quando estipularam que, durante os desfiles de triunfo perante o povo, após uma batalha, os generais vitoriosos deviam ter um escravo ao lado para lhes sussurrar ao ouvido as palavras “memento mori”. Este “lembra-te de que és mortal”, repetido por várias vezes numa caminhada de glória, deveria fazê-los descer à terra e desinsuflar a sensação de superioridade e a arrogância que vem com ela. Não funcionou com Júlio César, mas a ideia era boa.


Foram os gregos que inventaram o conceito de húbris, que representa a insolência dos poderosos e que, segundo a mitologia, afrontava os deuses e acabava sempre em tragédia. Seriam precisos vários séculos até que a húbris fosse cunhada de síndrome, um transtorno de personalidade associado aos cargos de poder. São traços desta síndrome de que padecem muitos políticos que se prolongam no poder, a autoconfiança excessiva que se confunde com uma sensação de omnipotência, a perda de contacto com a realidade e a incompetência, que se traduz em desfechos negativos desvalorizados e causados por este distanciamento.

Se a política precisa de carisma e de autoconfiança, a húbris é fatal. Mais tarde ou mais cedo, o poder que sobe à cabeça traz péssimos resultados.

2. Tomar os eleitores por parvos. Eis um erro comum de muitos responsáveis políticos: desvalorizar a capacidade de compreensão e de análise dos eleitores, acreditando na ideia de que estes não percecionam o que está a correr mal, porque se concentram nas suas “pequenas” vidas. A economia importa, é um facto, e no topo das preocupações dos cidadãos está sempre a sua situação financeira. Já Maquiavel dizia que “os homens esquecem mais rapidamente a morte do pai do que a perda do património”. Mas, se uma situação pessoal pior se arrasta ou se agrava, é preciso encontrar um “culpado” – e a culpa recai facilmente em quem está no poder. Não há tolerância com o erro que sempre dure, sobretudo se as pessoas andarem infelizes e os bolsos estiverem mais vazios.

3. Relacionado com este erro está outro: manter uma relação difícil com a verdade. Há quem diga que a política é a arte de mentir de propósito. Não pode ser. Só há uma verdade, não várias. Só existe uma história rigorosa, não uma amálgama de versões moldáveis a bel-prazer. Os eleitores, lá está, não são parvos e gostam pouco de ser claramente enganados. Uma mentira continua a ser fatal para a credibilidade de um político.

4. Acreditar piamente nas sondagens. Eis um erro de palmatória, como se viu, aliás, nas eleições legislativas passadas. As sondagens, cujo tratamento jornalístico é muitas vezes enganador e superficial, não são profecias que se autoalimentam. Muita coisa pode influenciar negativamente a captação da perceção e das intenções de voto dos eleitores. Desde logo, as sondagens podem ser malfeitas, tendenciosas nas questões e subjetivas no tratamento. Por outro lado, elas têm efeitos dinâmicos sobre a realidade e acabam, muitas vezes, por condicionar desfechos diferentes dos que previam. Quanto maior o número de indecisos, mais perigoso é fazer previsões, até porque o eleitor puramente racional é um mito.

5. Pensar que não há alternativa. Eis um dos erros mais comuns em lugares de poder, seja na política seja nas empresas: achar-se insubstituível. Acredita-se na inércia das pessoas, na sua humana aversão ao risco, e desvaloriza-se assim o adversário ou o concorrente. Só que, perante a necessidade, as alternativas constroem-se. Em democracia, há sempre saídas e soluções. Estas podem, é um facto, ser piores do que as que existem, mas isso os eleitores só descobrem quando o mal está feito.

Pensamento do Dia

 


Mais Carros, Minha Vida

Se a nova política industrial brasileira — a neoindustrialização — for avançar nesta picada, melhor nem começar. Não se aprende com a História. Subsídio à indústria automotiva? Já foi. Já houve. Várias vezes. Não deu certo. Iniciativa fracassada, cuja volta só se explica sob a forma de carinho a empresário não competitivo.

Justo será apor o “mais” à questão. Mais subsídio à indústria automotiva? Em 2023? Sim. Neoindustrialização. Velhos recursos pela nova industrialização. A equação não fecha. Novos recursos para adiar a falência da indústria velha. Os termos adequados.

O governo acarinha; nós pagamos a conta — que ficará maior, acrescido o custo do improviso: programa ruim, de ineficiência comprovada e divulgado sem cálculos elementares; a Fazenda que rebole para que o esqueleto (o arcabouço) tenha caixa. Assim o presidente se engaja em campanha para minimizar prejuízo setorial.


Mais subsídio para a indústria automotiva, incentivo ora dedicado à figura do carro popular. É criativo. Desonera-se em nome de bem que não existe faz tempo — o carro popular. Sejamos criativos também. O pacote — a campanha — não será produto de trama muito diferente desta que fantasio. O industrial pátrio encontra Lula e chora miséria. A blitz do chororô. Padrão. A culpa é do mundo. Pede socorro. O presidente se compromete a ajudar. Mas, adverte, tem de ser para benefício do povo. Com impacto no preço do carro popular. Que — repita-se — não existe mais. Detalhe.

A intenção é boa. Né? Romântica. Avante! Na base do dá-teu-jeito-aí, Lula manda Geraldo Alckmin levantar o troço. Surge o “Mais Carros, Minha Vida”. Surge, no ritmo do chutão, sem qualquer estudo. No abafa. E não tardaria até que tivéssemos o presidente da República abrindo evento — suposta apresentação do pacote — para então anunciar que o anúncio, razão de ser do convescote, não ocorreria. O programa não estava pronto. Faltara a etapa matemática. Precisaria de mais 15 dias.

Na exposição de motivos para o projeto, que só chegaria ao jurídico à véspera do evento, a equipe de Alckmin, também vice-presidente, esteve à vontade para simular quanto a União deixaria de arrecadar com a medida rebatendo (abatendo) o impacto via projeção de aumento de receitas em decorrência das vendas de automóveis geradas pelo programa. Que tal? A esse nível de profissionalismo chegamos.

A Lei de Responsabilidade Fiscal — convém lembrar — continua vigente. Ainda. E veda essa modalidade de comércio de terrenos na Lua. Novos gastos, incluídos os tributários, precisam ser compensados, sob apontamento objetivo, ou com cortes de despesas — isso, nem pensar — ou novas receitas. Aumento de impostos, por exemplo. (Questão de tempo.) Nunca com a perspectiva de arrecadação sonhada sob projeto que pode dar errado. Dará.

Beabá. E frustração. O empresário queria a cousa para já. Fez beiço. Será que o governo poderia ao menos anunciar os parâmetros, os critérios? Sim. Não há cálculos, nem os simples. Nada que impedisse o informe de que serão contemplados os consumos de carros até R$ 120 mil, o mais barato entre nós a cerca de R$ 65 mil, sob descontos com teto de quase 11%. Programa temporário, que Fernando Haddad quer que dure entre três e quatro meses — a maneira que encontrou para expressar ser contrário ao bicho.

Programa de quatro meses é programa inexistente — deseja Haddad. Terá sorte se ficar em um ano. Esses impulsos sempre nascem provisórios. Acabam ficando. Fato é que nem o prazo — o prometido — sabe-se ao certo. Ao certo se sabe que, a — pechinchando — R$ 60 mil, um automóvel talvez seja acessível para a classe média. Talvez. Certamente não será popular. Nem para a classe média.

Isso, a fachada, não importa. A vida do “Mais Carros, Minha Vida” é a do industrial automotivo brasileiro. O programa é (popular) para ele. Para que ao menos mantenha os empregos. Não é o que se diz? Não é mais para abrir postos. É para manter. No mundo real, nem isso se pode garantir. Todo mundo sabe. Leva o subsídio; e não será cobrado quando demitir. Demitirá.

Desoneração, mais uma, setorial. Atraso. Que, destaque-se, afronta a lógica existencial do recém-aprovado arcabouço fiscal — que não parará de pé sem aumento de receitas. O que faz o governo? Abre mão de receitas. Ninguém fez a conta, mas é renúncia bilionária. O Planalto pendurando mais incentivo ineficaz. Carregando a copa da árvore que a reforma tributária terá de podar com rigor. Teria.

Você acredita? Um governo que não corta despesas promete entregar superávits. Promete entregar superávits o governo que engorda os gastos. Um governo gastador que, prometendo rever desonerações setoriais para entregar superávit, oferta (mais) desoneração para fabricante de automóvel a combustível fóssil. Em 2023. Acredita?

No churrasco da firma a carne servida é a sua

Faz algum tempo que a palavra família circula no mundo corporativo como se fosse a coisa mais natural do mundo. A analogia traz algumas contradições interessantes. É difícil imaginar uma família na qual todo mundo trabalha suado pelo luxo extremo de poucos. Geralmente acontece o contrário: os pais se esfalfam para dar conta da renca de filhos e idosos sob seus cuidados. Isso significa que os mais frágeis, em condições de maior dependência, são os mais assistidos. Nada mais inapropriado para pensar as empresas e sua lógica cumulativa de distribuição ultra desigual.

Laços familiares seriam baseados em amor e abnegação, mas, sejamos honestos, quantos colegas te doariam um rim? A competição e a cooperação são próprias das relações entre parentes, principalmente irmãos, mas as rasteiras que ocorrem nas empresas só são comparáveis ao que se passa em famílias notáveis pela disfuncionalidade. Se empresa fosse família, seria aquela na qual era melhor não ter nascido, como em “Succession“, “The Crown” e outras encenações da família-empresa. Aquela na qual você vende a alma para permanecer no jogo e não consegue mais sair por não ter alma para se sustentar fora dele.


Chefes abusivos, injustos ou sacanas e empresas com objetivo de extorquir a força de trabalho em troca de um contrato mal remunerado e sem garantias são a regra. Mas essa não é a única fonte de sofrimento. Um dos maiores ataques à saúde mental é o não reconhecimento da experiência, o desmentido que nos faz duvidar de nós mesmos. Nesse caso, muitas vezes o sujeito só consegue responder com o sintoma. A negação da exploração —embutida na ideologia da empresa-família— é tão preocupante quanto às más condições de trabalho.

Adoecer pode ser uma saída honrosa para uma situação indigna de trabalho. Inclusive o glamourizado: como posso estar sofrendo quando trabalho numa empresa que tem mesa de pingue-pongue, sala com pufes, horários flexíveis e uma decoração de parque de diversões? Não é o que todo mundo queria?

Para muitos resta a saída pelo diagnóstico de depressão e ansiedade. Ele surge como misteriosas condições trazidas pela falha dos neurotransmissores. Se está tudo bem e eu estou mal, devo estar fazendo algo errado. Faltou yoga, sal do Himalaia, meditação, psicanálise, triatlon! Poucos se perguntam se faz algum sentido trabalhar num esquema no qual se é totalmente descartável ao mesmo tempo em que se vende a ideia de alegria, trabalho coletivo e meritocracia.

Quando as pessoas se queixam de que a geração Z é menos propensa ao mercado de trabalho atual e à aquisição de patrimônio, esquecem de se perguntar a que esse comportamento responde. São jovens que viram os mais velhos se dedicarem ao trabalho de forma insana para chegarem na velhice com poucas perspectivas de uma aposentadoria decente. O tempo de aproveitar a vida, esse que se projeta para depois da árdua jornada em busca de estabilidade, se mostra pouco promissor para essa geração.

Outra questão é que o acúmulo de bens, tão valorizado entre nós, não se organiza mais no eixo carros-imóveis-previdência. Os jovens já não se imaginam lutando anos pela aquisição cada vez mais improvável desse patrimônio. Sendo geração que entendeu que o fim do mundo está sempre à espreita, só lhes resta viver o agora.

Por fim, se empresa fosse família, funcionários herdariam algo no final. Mas no mundo da uberização, nem indenização se pode esperar.

Ambientes saudáveis se fazem com justiça, lealdade e transparência. O resto vale tanto quanto o copo de plástico no churrasco da firma, na qual a carne servida é sempre a do funcionário.

O grande impasse

A análise dos cinco primeiros meses de gestão federal mostram impasses políticos e administrativos de um governo sem unidade e sem coalizão, com um parlamento mais preocupado com compromissos paroquiais e eleitoreiros imediatos do que com interesses da República e do povo no médio e longo prazo. A formulação e aprovação do arcabouço fiscal parecem exceção, graças ao ministro Fernando Haddad em sua competência técnica e habilidade política. Mas o grande impasse do governo é sinal de um tempo em que o crescimento econômico no curto prazo não satisfaz e a vontade por um desenvolvimento sustentável no longo prazo ainda não é suficiente para apoiar sacrifícios no presente em nome do futuro distante promissor.

A crise no governo envolvendo a exploração de petróleo no litoral amazônico é a ponta de um iceberg: que tipo de desenvolvimento desejamos? Queremos aumentar o Produto Interno Bruto (PIB), com subsídios a carros chamados ironicamente de populares, ou melhorar a qualidade de vida, com transporte público decente? Queremos oferecer royalties, com destino incerto ou levar a Petrobras a investir em fontes alternativas de energia? Aumentar a renda nacional ou proteger povos primitivos e bens culturais? Obter resultados no presente ou construir um futuro sustentável?


Este é o grande impasse. O presidente Lula não é culpado de seu governo ocorrer no momento da história em que um modelo de desenvolvimento termina antes de um novo surgir com apoio político. Mas será culpa dele se agir apenas pelo instinto eleitoral imediato, ignorando o instinto histórico de dar sustentabilidade. Ao mesmo tempo, mantendo a base parlamentar e o apoio popular necessários para evitar a volta do atraso radical nas eleições de 2026.

Para caminhar através do grande impasse, o presidente precisa convencer o parlamento, mas também usar o grupo selecionado tão cuidadosamente para compor o chamado Conselhão, usar as universidades e entidades sindicais de trabalhadores e de empresários, as organizações não governamentais para buscar respostas de como enfrentar o grande impasse. Pode provocar o pensamento à questão concreta sobre optar por Ibama ou Petrobras, símbolos conjunturais de um impasse histórico. Não se trata de substituir a política, nem que assessores votem para escolher o rumo, apenas que respondam a algumas perguntas.

O embate entre Petrobras e Ibama é apenas um ponto no debate entre crescimento econômico versus desenvolvimento sustentável, e entre aumento imediato de renda e proteção do meio ambiente. Esse debate poderá dar opinião sobre questões polêmicas:

1. A Petrobras explora petróleo no território da Amazônia há 50 anos, sem um único vazamento, mas também sem impacto social positivo na região, como estão prometendo agora ao povo do Amapá. A renda gerada foi para acionistas distantes e salários de profissionais de fora, o Índice de Desenvolvimento IDH continua o mesmo, ainda que cheguem alguns recursos por royalties. O Rio de Janeiro é um bom exemplo da falta de conexão entre exploração de petróleo e população próxima aos poços.

2. Ainda que o investimento seja feito pela Petrobras, são recursos que em grande parte poderiam ser destinados aos dividendos para o acionista governo federal, que poderia destiná-los a outros propósitos com impactos sociais muito maiores para a população local. A própria empresa poderia investir esses recursos no desenvolvimento de fontes alternativas de energia que substituam o petróleo.

3. Quando, há 50 anos, foram tomadas decisões de exploração na Amazônia, a crise ambiental ainda não era uma questão decisiva para a humanidade. A Amazônia não era uma preocupação internacional e o Brasil não era um pária no cenário internacional pelo descuido com florestas e rios da Amazônia. Além disso, o petróleo não era ainda vilão do equilíbrio ecológico.

4. Não havia a perspectiva atual de repúdio ao uso de petróleo como combustível, nem à política de redução de seu consumo e em consequência a queda das rendas que ele gera. Por isso, parece um equívoco aos interesses nacionais, econômicos, sociais, ecológicos e nas relações internacionais a possibilidade de exploração de petróleo no litoral amazônico.

5. Depois de anos visto como "grande destruidor de florestas e da Amazônia", o Brasil pagará alto preço no cenário internacional se depois de gritarmos "o Brasil voltou", agirmos como no tempo da "boiada passando".

Esse é o grande impasse: "passamos a boiada" para o Brasil crescer rápido ou controlamos a economia para dar sustentabilidade, mesmo reduzindo o tipo e a taxa de crescimento.

Se não está ficando gagá, Lula sofre um apagão de inteligência

Errar é humano. Diz-se que somos o único animal capaz de aprender com os próprios erros. Duvido, dados os erros que cometemos e repetimos. Qualquer ratinho de laboratório, depois de algumas tentativas, aprende a não fazer o que só o prejudica.

Lula fez muito bem em restabelecer as relações entre o Brasil e a Venezuela rompidas nos últimos quatro anos por seu antecessor pouco inteligente e candidato a governar o país da mesma maneira autoritária como Nicolás Maduro governa o dele.

Isolar uma ditadura, como a da Venezuela, na maioria das vezes só contribui para sua estratificação. Os Estados Unidos isolaram Cuba desde que Fidel Castro desceu de Sierra Maestra em 1959. Castro morreu e, no entanto, Cuba permanece como ele a deixou.


Na véspera, ao cortejar Maduro, Lula apresentou-o como um democrata. E aconselhou-o publicamente, como antes o fizera em particular, a construir uma narrativa para convencer o mundo que a democracia está viva na Venezuela. É tudo o que não está.

A oposição vive amordaçada. O simulacro de democracia que existe na Venezuela permitiu que Maduro se reelegesse depois de excluir do páreo seus dois principais adversários. São 7 milhões de refugiados, e todos compartilham a mesma narrativa de horror.

Os abusos do regime Maduro caem à vista de todos como frutas podres. Estão quase todos documentados pela Organização das Nações Unidas (ONU) e são investigados pelo Tribunal Penal Internacional, que apura crimes contra a Humanidade.

Lula, contudo, finge desconhecê-los. Disse:

“O preconceito contra a Venezuela é muito grande. […] Nossos adversários vão ter que pedir desculpas pelo estrago que eles fizeram na Venezuela”.

Nossos adversários, quem, cara pálida? Adversários de ditaduras de esquerda ou de direita são meus amigos; aliados, meus inimigos. Ontem, ao invés de corrigir-se, Lula admitiu não poder avaliar a situação da Venezuela porque não a visita há 10 anos.

Ler não dói. Se não sabia disso, Lula aprendeu nos 580 dias que passou preso em Curitiba, lendo. Relatório do Alto Comissariado da ONU para os Direitos Humanos fala em “detenções arbitrárias, maus-tratos e tortura” na Venezuela de Maduro.

Os Estados Unidos são culpados por ditaduras que instalaram ou ajudaram a instalar, mas a venezuelana não é obra deles. Lula sofre de um apagão de inteligência, na melhor das hipóteses. Ou o peso da idade e a falta de atualização o estão deixando gagá.

terça-feira, 30 de maio de 2023

Pensamento do Dia

 


Estou farto e cansado

Estou cansado e triste quando vejo os militantes dos partidos abdicarem de dizer o que pensam.

Sim, estou farto de quase tudo o que ouço e vejo à minha volta.

Mas também estou cansado de ouvir e ler sempre os mesmos a dizerem as mesmas coisas, como se conhecessem as soluções para todos os problemas, mas que nunca nos apresentaram uma única ideia ou proposta para a solução dos problemas com que o país se confronta.

Sim, estou farto de ver os políticos a criar conflitos inúteis, como estou farto de ver as televisões a massacrar os telespectadores com programas de futebol intermináveis e em que para entreter se criam conflitos sobre penalties, expulsões e foras-de-jogo.

Estou cansado de ler as notícias da corrupção que corrói a democracia e alimenta os populismos.


Estou cansado de ver os moderados sem voz e sem presença nos media.

Estou cansado e triste por ver pessoas “queimadas” na praça pública com notícias falsas ou com acusações infundadas.

Estou farto de ver títulos de jornais que não correspondem à notícia a que se referem.

Estou farto de conferências, colóquios e seminários em que os que falam e os que ouvem são sempre os mesmos.

Estou farto dos debates em que nós todos já sabemos o que cada um vai dizer.

Estou cansado e triste quando vejo os militantes dos partidos abdicarem de dizer o que pensam.

Estou farto de ver gente em lugares de responsabilidade comportarem-se como membros de uma associação de estudantes do ensino secundário.

Estou cansado e triste por ver deitados para o lixo trabalhos que foram feitos por organizações credíveis que só querem contribuir para melhores soluções para os problemas do país.

Estou farto da arrogância de alguns que querem impor as agendas das minorias.

Como também estou cansado dos excessos em torno da cultura de gênero.

Estou cansado das notícias que justificam que os processos judiciais se tornem intermináveis.

Estou farto dos que lucram com todo este emaranhado jurídico dos processos lançados pelo Ministério Público.

Estou também indignado com os processos lançados contra pessoas que, quando julgadas, provaram nada terem feito de mal.

Estou farto de ver incompetentes a exercer cargos para os quais não têm qualquer qualificação.

Estou cansado e farto de ver nas televisões o rigor substituído pelo espetáculo.

Estou farto de ver muita gente mais interessada em estar do lado do problema do que do lado das soluções.

E também estou cansado de ver que em certos casos são eles mesmos o problema.

Como também estou cansado dos que gostam mais de destruir do que construir.

Estou cansado de ver tanta inveja e tanta vontade de deitar abaixo os que fazem qualquer coisa que se veja.

Confesso igualmente que estou cansado das notícias sensacionais que duram menos de 24 horas, porque foram forjadas com objetivos inconfessáveis.

Estou cansado de não ver enaltecido o que de muito bom se faz em Portugal, seja nas empresas, nas universidades, nas escolas ou nos hospitais.

Como estou farto de ver aqueles que, como portugueses, gostam de se autoflagelar.

Estou cansado de ver televisão e até de ler jornais.

Sim, estou cansado de viver num país que adoro, mas que me traz grandes frustrações quase todos os dias.

Tanta frustração deve talvez ser da idade e da falta de paciência que tenho para aturar tantos disparates.

Nota final: estou triste, cansado e farto de muitas coisas, mas não sou um desistente.

Estarei sempre disponível para lutar contra os populismos e contra os inimigos da democracia, procurando que não nos toquem na liberdade e que, sem complexos ideológicos, se encontrem, com moderação, equilíbrio e bom senso, as soluções para os problemas que enfrentamos.
Eduardo Marçal Grilo

Cupinzada nacional

 


No silêncio da noite
não me deixa dormir
a nênia dos cupins.
Abbas Kiarostami, "Nuvens de algodão"

O berço do futuro

A proposta de exploração do petróleo na foz do rio Amazonas pode ser um desastre político ou a nascente para um novo conceito de desenvolvimento. Mesmo que os resultados econômicos sejam incertos e poucos benefícios fiquem na região, optar pelo Ibama, a ecologia e o futuro, descontentará aos eleitores da região. A opção pela Petrobras contra a recomendação do Ibama abalará o prestígio da ministra Marina Silva e do presidente Lula no cenário mundial como zeladores da Amazônia, comprometidos com o desenvolvimento sustentável. Não faltarão aqueles que façam a comparação com ministro anterior que defendia “deixar passar a boiada” por cima dos órgãos técnicos relacionados ao meio ambiente.

Esta indecisão ideológica mostra que o governo Lula não está preparado politicamente para enfrentar o dilema entre necessidades presentes e sustentabilidade futura, até porque não há conhecimento científico para saber exatamente o que acontecerá social e ecologicamente, nem conhecimento técnico para evitar os riscos decorrentes. Neste cenário, a decisão deve ser adiada para evitar riscos e aprofundar o debate relacionado à relação entre crescimento, meio ambiente e pobreza.

Nenhum outro país tem, ao mesmo tempo: o desafio de explorar petróleo em um santuário natural, governo comprometido com o respeito à Amazônia e uma massa crítica intelectual para aprofundar este debate que aflige a humanidade: como compatibilizar as necessidades sociais e econômicas do momento com as limitações e os riscos do futuro. Responder perguntas como: justifica deixar a riqueza do petróleo debaixo da terra, com milhões de pessoas pobres caminhando sobre ela? a exploração de petróleo já em marcha no território amazônico reduziu a pobreza da população local? deixou benefícios sociais marcantes para os habitantes das cidades com royalties no litoral carioca? investir centenas de bilhões de reais na exploração do petróleo é a melhor forma de atender às necessidades sociais dos pobres locais? o petróleo será fonte de renda por quantas décadas ainda, antes de seu uso ficar obsoleto, devido às mudanças climáticas e outras fontes de energia? quais as consequências econômicas se o Brasil voltar a ser pária mundial por executar este projeto, sobretudo se ocorrer possível vazamento no oceano?

Estas dúvidas são maiores do que a avaliação do projeto específico na foz do Amazonas. Para o Brasil, a questão é escolher entre o desenvolvimento apenas para o presente ou sustentável no futuro; para o Presidente e a Ministra, saber se desejam os votos locais ou serem os líderes políticos mundiais de um novo rumo para o desenvolvimento. Outros dilemas surgirão como buscar ouro ou construir estradas em terras indígenas; proteger patrimônios culturais ou investir na produção.

Com o adiamento da decisão e a promoção do debate, o atual governo estaria transformando a crise da Foz do Amazonas na Nascente de um novo rumo do desenvolvimento.

Foi uma pena que antes mesmo de promover este debate, políticos locais preferiram vender ilusões para o presente, olhando a próxima eleição. Eles teriam ajudado na reflexão sobre o futuro e no apoio para termos a ministra Marina Silva e o presidente Lula como líderes mundiais de um novo desenvolvimento econômico sustentável e com responsabilidade social: um berço do futuro.

Tiro no pé ambiental

O Congresso pressionou, e o governo cedeu justamente nas áreas —climática e ambiental— que fazem este país ser relevante aos olhos do mundo. Ao desidratar parte das pastas do Meio Ambiente e dos Povos Originários, a nova estrutura ministerial atira nos pés do próprio país, apequenando a política que Lula passa horas e horas em voos internacionais defendendo como prioritária.

No chão da realpolitik, o Congresso está disposto a vender o protagonismo climático do país a preço de banana (cargos), deveras barato perto do que ser líder mundial nos traria, inclusive economicamente.


Faltou ao governo, ademais, cacifar a agenda climática como inegociável, porque (queiram ou não) é central ao sucesso do Lula 3, como o próprio presidente bem sabe.

No espaço de uma semana, o governo titubeou e tardou para arbitrar disputas internas quanto a petróleo na foz do Amazonas, viu seu ministro da Agricultura falar a favor do marco legal na TV e testemunhou o Congresso atropelar as pastas do Meio Ambiente e dos Povos Indígenas, enquanto Marina Silva, com a altivez que lhe é peculiar, era sabatinada duramente por parlamentares.

Custo a acreditar na tese da inevitabilidade da desidratação das pastas de Marina e Sonia Guajajara: de um lado, o Congresso não impôs à Casa Civil o mesmo destino e, de outro, ou o governo estaria sem nenhuma carta na manga para ceder em outras áreas (o que denotaria sua fraqueza) ou o centrão estaria com tanta fome que seria mais vantajoso ao primeiro-ministro, Arthur Lira, agradar à bancada ruralista do que ao governo (o que denotaria desarticulação). Ou um ou outro, o sinal não é positivo.

Enquanto mulheres pretas e indígenas no poder são vistas como "ideológicas", cabe perguntar a qual ideologia os homens brancos, ditos técnicos, servem senão a si mesmos.

Ou Lula coloca a casa em ordem, alinhando articulação ao discurso ambiental, ou vai ter que justificar por que a boiada continua a passar sob sua guarda.

domingo, 28 de maio de 2023

Lavagem do Brasil

 


Espécie animal

A parte mais sensível do corpo de um urso é seu focinho. A informação, inútil para a maioria da população global, nunca foi mero fait divers para as seculares etnias de ciganos da Bulgária. Naquele pedaço dos Bálcãs, o controle de ursos pelo focinho era essencial para garantir a milenar forma de ganha-pão e entretenimento do povo roma: capturar, domesticar e treinar esses mamíferos de grande porte até que se tornassem servidores dóceis e atração ambulante. Com as narinas perfuradas por argolas de metal, os animais se sujeitavam a toda sorte de comandos inglórios, como dançar sobre patas traseiras ou ingerir bebidas alcoólicas.

Essa forma de entretenimento para humanos durou até o final do século XX. Foi somente com a implosão do bloco soviético, a que a Bulgária estava atrelada, que os ursos domesticados puderam empreender, também eles, a difícil transição do cativeiro para a liberdade. Não foi fácil. Quem melhor a descreveu foi o jornalista polonês Witold Szablowski, com “Dancing bears — True stories of people nostalgic for life under tyranny”, publicado cinco anos atrás, traduzido para uma dezena de línguas e já citado neste mesmo espaço. Retoma-se aqui o ângulo central da obra, mas para virá-la do avesso. O episódio de racismo escancarado contra o jogador brasileiro Vinícius Jr. , testemunhado pelo mundo na semana passada, serve de gancho para a releitura.


O livro de Szablowski, cujo estilo é equivocadamente comparado ao de seu portentoso conterrâneo Ryszard Kapuscinski, se divide em duas partes simétricas. Cada uma tem nove capítulos de títulos iguais, e eles se espelham. A primeira narra a história dos ursos, cujo cativeiro foi afrouxado por ONGs bem-intencionadas. A segunda trata da também complexa transição de sociedades comunistas para o capitalismo. Para os animais, a primeira etapa iniciou-se por liberdade vigiada (ou cativeiro mais civilizado) — eles precisaram ser ensinados a hibernar, foram castrados e, portanto, não conseguem se reproduzir, não sabiam sequer copular. Para horror dos ativistas encarregados de devolvê-los à natureza, alguns ursos, mesmo libertos de suas argolas, continuavam a erguer o corpanzil sobre duas patas para dançar como foram ensinados.

Outros, desnorteados, procuravam insistentemente com as patas dianteiras as argolas que não lhes aprisionavam mais as narinas. Um zoólogo ouvido pelo autor relatou que as equipes passavam horas observando os ursos para aferir o grau de liberdade de agressão instintiva que os animais conquistavam aos poucos.

— Eles passaram a viver numa espécie de laboratório de liberdade, onde os humanos lhes ensinavam a ser livres — explicou o autor em entrevista à National Public Radio dos Estados Unidos — A liberdade é complicada. Ela pode, até, ser muito penosa.

Assim como os ursos cativos não sabiam hibernar, não se alimentavam o suficiente no outono, por isso viravam osso no inverno, também as sociedades fechadas estavam mal preparadas para transitar por regimes mais democráticos, sempre sujeitos às turbulências do contraditório. Szablowski, inicialmente, colocara o atual czar russo Vladimir Putin na categoria dos adestradores, “o cara que sempre teve ursos, os usava e nunca soube fazer outra coisa na vida”. Mais recentemente, começou a se indagar se Putin e outros autocratas semelhantes não seriam, também, ursos amestrados, por não conhecerem outra vida. Cresceram não confiando em ninguém, desconhecem o funcionamento de instituições democráticas, são também prisioneiros do sistema por eles mantido.

É aqui que entra uma pergunta incômoda para o racismo secular que nesta semana mostrou seu focinho no estádio na Espanha. E se os aprisionados neste mundo desigual não forem os ursos, e sim seus amestradores — a civilização branca, incapaz de se libertar de sua própria desumanidade? O supremacismo branco grita por medo de perder a razão de ser. Não suporta a realidade de pertencermos todos à mesma espécie animal. Quanto mais náufrago, maior a violência do negacionista. Toda sociedade alicerçada no racismo tem medo de extirpá-lo, pois ele lhe aufere privilégios. O Brasil é o primeiro da lista a precisar se olhar no espelho para ter vergonha do que vê. A dor de ser negro, preto ou pardo, no Brasil é de uma infâmia superlativa. Somos todos coniventes.

Racismo nosso de cada dia


O Brasil tem que enfiar a carapuça. Ele também não é, assim, um país tão maravilhoso nessa matéria. Ao contrário. Aqui tem muitos incidentes desse tipo. E nós também temos muito o que aprender.
Rubens Ricupero, ex-subsecretário-geral da ONU

O racismo e uma cidade no estado mais negro do Brasil

Nas ruas de Cachoeira, cada passante é parente socioestético de Vini Jr. Conhecida como "cidade heroica" no Recôncavo Baiano, dos seus 33 mil habitantes, 84% autodeclarados negros. Dali partiram as tropas de lavradores, comerciantes, escravos e forros que lutaram pela independência da Bahia em 1823.

Ativo centro cultural, é citada como cidade-monumento, pelo casario barroco, igrejas, irmandades e comunidades afrolitúrgicas.

Eleita pelo Republicanos, a atual prefeita é lavradora de profissão, curso médio completo. Sempre acompanhada por dois seguranças, mora em Salvador, capital, porque sobre ela pesam ameaças de morte. O motivo é único e claro como a cor da pele de onde procedem: ela é negra, a primeira a ocupar o cargo na cidade multicentenária.


Vale frisar que essa aberração não é sulista, isto é, não é coisa de nenhum desses estados onde neofascismo brota como pinhão nas árvores ou bergamota à beira dos cercados. Muito menos da Espanha, onde despertaram zumbis franquistas. Ocorre na matriz mais afro da federação. Planta daninha transgênica, racismo não escolhe terreno para medrar.

A questão volta à cena com as massivas agressões espanholas a Vini Jr., mas também com críticas ponderáveis ao identitarismo. Argumenta-se que a adesão das esquerdas ao movimento identitário (gênero, antirracismo etc.) empurra o povo para a extrema direita. De fato, a esquerda clássica deslocou-se ideologicamente da metafísica revolucionária, caucionada pelo operariado como classe histórica, para a trama da dominação constituída por patriarcado e colonialidade.

O novo eco libertário fragmenta-se na dispersão das minorias. A comunicação progressista não se apoia, como na ideologia obreira, numa unidade comparável ao mito do trabalho feito "essência perdurável do homem" (Marx). Simplesmente afrouxar a camisa de força das hierarquias raciais, sexuais e coloniais periga ressuscitar o pior. Reacionário não discute: é só aparelho de ódio.

Mas perder discurso não é perder razão. É um aviso de que a justa argumentação não consegue transitar na pluralidade dos canais de diálogo, por estreiteza conceitual frente ao patriarcalismo, "poder habitado por um espírito-cão, um espírito-porco e um espírito-canalha" (Achile Mbembe). É o poder colonial de esvaziar o outro de seu conteúdo histórico. Contra isso é fraco o progressismo embalado pelos belos, mas abstratos, metadiscursos explicativos do mundo.

Assim o impasse identitário. Por um lado, atrai o ódio visceral de extremos, desde elites malévolas a neofascistas em flor. Por outro, mobiliza estratos até agora silenciados. A prefeita e seus eleitores são bom exemplo: convite à nação brasileira e à Espanha a tomar um banho de Cachoeira.

A vitória de Flaubert

Ainda me lembro das férias de verão em que fiquei enfurnado, numa casa de pescador, lendo uma velha edição de Madame Bovary. Fui abduzido por aquele percurso em direção ao abismo, mas ao contrário do que aconteceu com Vargas Llosa, numa experiência parecida (só que mais chique, em Paris), não me apaixonei por Emma Bovary. Senti pena. Não exatamente dela, mas da miséria que ela conta sobre todos nós. E confesso que o que realmente me fascinou foi ler sobre o processo sofrido por Flaubert, pelos pecados de Emma e de toda aquela história. Seu algoz foi o procurador Ernest Pinard, um tipo mordaz, que faria carreira na França bonapartista. A questão fascinante naquilo tudo era: Flaubert seria culpado pela perversão de seus personagens? Pinard não tinha dúvidas. Não era besta de cair na conversa malandra sobre separar ficção e realidade. A ideia de que “a arte devia ser livre”, que não devia ser moralizada, que o escritor era uma coisa, e outra sua criação.

Flaubert escapou por pouco, mas Pinard não desistiu. Estava decidido a ser o grande moralizador da França, e meses depois voltou à carga, dessa vez contra Baudelaire e seu As Flores do Mal. Sua lógica seguiu intacta. Aquele livro era obviamente pecaminoso. Cita os versos mais ofensivos, faz drama, tenta chocar a audiência, e de certo modo consegue. Ele até admite que o autor possa estar sendo irônico, que ele apenas “retrata o mal e seus arrebatamentos”, como disse o próprio Baudelaire, e que tudo aquilo não reflete suas crenças pessoais. Mas como confiar nisso? Como garantir que as pessoas saberiam julgar? A verdade é que era preciso proteger a sociedade, e que por isso caberia ao Ministério Público impor os “limites que não podem ser ultrapassados”.


Na virada para o século XX, a arte foi se emancipando dessa carcaça moral. Um momento óbvio desse caminho sinuoso foi a suprema provocação de Duchamp colocando seu urinol naquela exposição nova-iorquina de 1917. A partir dali ganhou um quê de ridículo perguntar sobre a “função” ou o “sentido” de um objeto artístico. Há muita coisa misturada quando Duchamp diz que “a arte é o que eu disser que é”. Uma hipótese é dizer que minha arte pode ser fake, como de certo modo era não só o urinol, mas a assinatura que ele levava. Outra pode ser que há um espaço próprio para a arte, o museu, o teatro ou o vídeo no YouTube, e que este lugar define o objeto estético. E há ainda a ideia sedutora de que há ali uma performance. Ele vai ali na Quinta Avenida, compra o urinol, assina um nome que lhe der na telha e põe na exposição. O que a partir daí está perfeitamente desobrigado de qualquer narrativa externa ao próprio gesto, à performance, ao objeto. A decisão, em última instância, será do mercado. Se aquilo fará sentido para as pessoas, se elas ficarão irritadas, fascinadas ou quem sabe darão apenas uma sonora gargalhada. De qualquer maneira, a arte se converte no oposto da pregação por Pinard, e o artista é liberto da condição de sentinela moral de alguma coisa. Tudo perfeito. Não haveria mais procuradores investigando peças, versos ou imagens, nem fiscais em teatros e exposições, à procura de algum pecado. Pinard perdeu. Se tornou um tipo arcaico e virtualmente esquecido, na memória triste do século XIX.

Os ventos agora parecem estar mudando. Por curioso que possa parecer, o espírito do velho procurador parece voltar a nos assombrar. Ele vem, por óbvio, de roupa nova, ajustado à moralidade da nossa época, mas seu sentido é o mesmo: enquadrar a cultura em uma régua moral. Não é difícil perceber essas coisas quando se observa com um pouco mais de calma o debate em torno da censura ao humor no Brasil atual. A história todos conhecem, e diz respeito ao banimento do humorista Léo Lins, obrigado a apagar seus vídeos e proibido de sair de São Paulo por mais de dez dias, sem autorização judicial. Na primeira vez que li aquilo, achei que fosse uma pegadinha, mas me enganei. E o mais interessante: a juíza que determinou a censura agiu perfeitamente amparada pela lei. O Congresso de fato aprovou uma lei agravando as penas para “discriminações” feitas “em contexto de descontração, diversão ou recreação”. E fez mais: deu ao juiz amplo poder para decidir o que define uma minoria, e qual o significado de expressões como “vergonha, medo ou exposição indevida”. A juíza cumpriu seu papel. Fez sua lista de minorias e atendeu a uma justificativa que anima todo o processo: aquelas piadas reproduzem “discursos que hoje são repudiados”. Foi aí que me caiu os butiás dos bolsos, como se diz lá na Campanha. É a mesma lógica das leis limitando a liberdade de expressão na França do século XIX, e que levaram àqueles processos. A proteção da “moral pública”. Os costumes da época, chancelados pela maioria cultural. Ou ao menos o que o Ministério Público da época imaginava ser a maioria cultural.

O interessante foi a rapidez da mudança. Ainda me lembro dos Trapalhões sendo homenageados no Carnaval. Nem eles, com seu humor tosco, nem o Casseta & Planeta e sua arte bem mais crescidinha teriam muita chance no atual Brasil puritano. Já fomos um país capaz de rir de si mesmo, mas agora o tempo fechou. Ainda me lembro de ter defendido a tese da “liberdade da arte” em um debate em Porto Alegre, à época de uma exposição tida como imoral, em um centro cultural da cidade. Disse o que me parecia óbvio, que a arte era frequentemente insuportável, e que quem se sentisse ofendido deveria passar longe da exposição e quem sabe escrever uma crítica pesada no jornal. Não colou, e o detalhe é que eram os “conservadores” que me contestavam na plateia. Agora são os “progressistas” que andam de dedo em riste, correndo atrás dos tribunais para censurar. Ao menos nisso, são perfeitamente iguais. Ambos desejam regular a cultura, ajustar a arte, a linguagem, os costumes a sua visão muito particular de mundo. E suspeito que eles são maioria. É só observar a fúria das redes, os xingamentos ao Fabio Porchat e ao Antonio Tabet, por estes dias, pela defesa de alguns valores que há poucos anos teriam parecido perfeitamente evidentes. O fato é que nosso Zeit­geist, o sentido do pêndulo, de nossa época, se move na direção do controle, não da liberdade. Decidimos novamente moralizar a arte e a cultura. Um Pinard politicamente correto ganharia fácil de um Flaubert ou de um Baudelaire, nos tribunais ou no manicômio digital, nestes tempos ácidos.

De minha parte, prefiro andar na contramão. Na verdade, é um certo olhar liberal que termina sempre meio marginal nesse debate. Mas um dia as pessoas cansam, o mundo vai se tornando sem graça, a quantidade de gente banida vai ficando constrangedora, e o pêndulo muda de novo de direção. É assim que tem sido, ao menos desde a revolução iluminista. Pode demorar, mas a derrota, como aconteceu naquele processo perdido no tempo, será sempre de Pinard e sua virtude. E a vitória de Flaubert, com todos os seus pecados.

sábado, 27 de maio de 2023

Um país viciado no smartphone

Os brasileiros se acostumaram a receber constantemente novos estímulos e atenção pelo celular. Passam o equivalente a seis dias por mês olhando para o aparelho. O problema é particularmente grave entre os jovens.

De duas a três vezes por semana, vou de bicicleta até um mirante popular no Rio de Janeiro. Fica abaixo do Corcovado, e de lá se tem uma vista fantástica do Rio. O lugar é movimentado especialmente nos feriados e fins de semana. Não só cariocas, mas centenas de visitantes de todas as regiões do Brasil vão até lá: famílias, casais, grupos organizados. Duas coisas me impressionaram nos últimos anos: primeiro, quantos brasileiros estão acima do peso ou até obesos, incluindo um número alarmante de crianças. Em segundo lugar, vi confirmada a piada de que o brasileiro nasce com dois braços, duas pernas e um smartphone nas mãos.

Poucos chegam ao mirante para apreciar a vista do mar, da baía, das montanhas, da cidade ou da Floresta da Tijuca, para se deixar encantar pelo local e sua atmosfera sublime. Muitos chegam já com o smartphone na mão, filmando, e não veem mais o local com os próprios olhos, mas pela tela do celular.

Quem não está filmando, começa imediatamente a tirar fotos. O que é fotografado não é a paisagem, mas sim as próprias pessoas. Posam, colocam um sorriso artificial, procuram o melhor lugar para tirar centenas de selfies. Mulheres e homens jovens dão rédea solta à sua vaidade. Logo depois, eles vão embora – sem ter visto nada. Ainda no caminho para baixo, alimentarão suas redes sociais com fotos com filtro, esperando conseguir o máximo possível de corações, curtidas e comentários positivos, que vão checar minuto a minuto.

Quem recebe atenção, incentivo e confirmação – mesmo que apenas virtual – produz dopamina. A substância é responsável por estados de excitação e também é incorretamente chamada de "hormônio da felicidade". Acostumar-se com uma dose alta de dopamina é como se acostumar com uma dose alta de açúcar ou álcool. Sem ela, a pessoa tem a sensação de que está faltando alguma coisa e faz de tudo para consegui-la.

Milhões de pessoas se acostumaram a receber constantemente novos estímulos em intervalos cada vez mais curtos. É por isso que estão constantemente olhando para seus telefones e que não conseguem mais se concentrar em tarefas mais longas e complexas, textos, conversas e discussões. Ou numa bela paisagem, vista apenas pelo celular.

O problema existe em todo o mundo. Mas no Brasil ele é particularmente virulento. Enquanto o alemão médio passa duas horas e meia todos os dias olhando para o celular, o brasileiro olha para o aparelho quase cinco horas e meia por dia, quer dizer, mais que o dobro do tempo. Ao lado da Indonésia, esse é o maior volume de utilização de celulares do mundo, de acordo com um estudo baseado em dados da iOS App Store, Google Play e outras lojas online.

Isso significa que os brasileiros passam cerca de seis dias por mês olhando para o celular. Esse tempo é, na maioria das vezes, perdido, pois não serve para crescimento pessoal ou profissional, mas para a busca por dopamina. O problema é maior entre os jovens. Das cerca de 28 mil pessoas entre 15 e 29 anos entrevistadas numa pesquisa, 27% disseram que poderiam ficar sem celular por no máximo 24 horas. Já 11% disseram que conseguiriam por no máximo 6 horas, enquanto 3% disseram que se sentiram desconfortáveis após 30 minutos sem o celular. Basicamente, esses jovens precisam de ajuda, porque seus cérebros estão se desenvolvendo de maneira totalmente errada.

Felicidade é ter passado o dia inteiro com os amigos, se divertir, ser criativo, descobrir coisas novas, sair de casa e cair na cama à noite exausto e cheio de impressões. Quem passa o dia todo na frente do celular, rolando a tela e buscando autoafirmação, vai dormir estressado, insatisfeito e vazio porque não viveu nada verdadeiro, mas seguramente viu muita ninharia, horror, besteira, publicidade, fake news e muito mais que provavelmente esqueceu imediatamente.

No Brasil, está crescendo uma juventude que acredita que atenção é sucesso e que esse sucesso pode ser conquistado sem esforço e apenas com aparências. O problema é particularmente evidente entre os jovens sem oportunidades educacionais e perspectivas no mercado de trabalho. Frequentemente, eles tentam chamar a atenção com sua aparência e seus corpos, coisa para a qual diversas plataformas lhes dão ampla oportunidade.

Quando desenvolvedores de empresas de tecnologia americanas ou asiáticas criam novos aplicativos, eles conversam com psicólogos e neurologistas. Por quê? Porque o objetivo deles é tornar os usuários de um aplicativo emocionalmente dependentes. Não é sem razão que o governo da China introduziu um limite para o aplicativo Douyin, a versão do TikTok utilizada na China. O uso do aplicativo por crianças menores de 14 anos é limitado a 40 minutos por dia.

Quando deixei de seguir uma amiga brasileira no Instagram porque não estava interessado em suas selfies de biquíni, ela imediatamente me escreveu indignada, perguntando por que não a seguia mais. Existe um aplicativo que mostra quem deixou de seguir você no Instagram!

Jovens acostumados a receber atenção e aprovação constantemente têm baixa tolerância a críticas e não são mais capazes de argumentar. Eles imediatamente se sentem atacados e ofendidos. Basta que não chamem atenção por um momento para que seu mundo desmorone.

Fala-se atualmente sobre o perigo de uma juventude digitalmente negligenciada. Isso está longe de ser um problema brasileiro, mas é particularmente grande por aqui. Carl Sagan, o astrofísico profético, previu algumas décadas atrás que os desenvolvimentos tecnológicos aconteceriam mais rápidos do que o desenvolvimento de nossos cérebros. Não somos mais capazes de diferenciar entre o que parece bom e o que é bom e verdadeiro.