terça-feira, 29 de setembro de 2026

O sequestro do sagrado e a falência do debate

Enquanto a Santa Senhora Aparecida permanecia imóvel em seu lugar, cumprindo o papel secular de ouvir pedidos de graça e consolo dos aflitos, homens vis, gananciosos e oportunistas decidiram rebaixá-la à condição de mera participante de uma luta pelo poder terreno. O episódio não diz nada sobre a fé, mas diz tudo sobre o nível rasteiro daqueles que usam o sagrado como mercadoria eleitoral.

Em um país profundamente religioso como o Brasil, onde o Estado se define como laico, não é de hoje que isso acontece. É lamentável, porém, que o cenário se repita a cada dois e quatro anos com o mesmo objetivo: enganar os mais crédulos para se apoderar de seus votos. Não se trata de outra coisa. É a tentativa despudorada de sequestro da vontade e, para tanto, mandam-se às favas todos os escrúpulos.


O resultado mais imediato dessa tática rasteira é a completa falência do debate público. Quando a arena política se transforma em um tribunal inquisitório de aparências piedosas, as discussões urgentes que deveriam pautar o país são covardemente asfixiadas. Substituem-se os planos de metas pela contrição fingida; anulam-se os debates sobre saúde, segurança e economia para dar lugar a uma disputa coreografada de quem exibe a maior devoção. A política, que deveria ser o espaço da razão e da construção do futuro, retrocede ao palanque da encenação hipócrita.

Essa saturação do sagrado desidrata qualquer tentativa de propor soluções reais para os problemas estruturais do Brasil. É muito mais fácil e eleitoralmente lucrativo posar para fotos ao lado de altares e de imagens de santos do que debater, com seriedade, reformas estruturantes. Sob o manto da manipulação religiosa, os candidatos esquivam-se do escrutínio técnico e se blindam contra críticas legítimas. Afinal, questionar as propostas — ou a falta delas — de um candidato blindado por símbolos sagrados passa a ser visto, de forma canalha, como um ataque à própria fé.

Diante de um espetáculo tão repetitivo quanto ultrajante, o que mais assombra é a aparente apatia do eleitorado. Parcela significativa dos cidadãos assiste a esse sequestro da fé com uma complacência perturbadora, como se aceitasse a mercantilização do divino como uma regra inevitável do jogo democrático. Há uma normalização do absurdo: o fiel, que deveria ser o primeiro a se indignar com a profanação de seus símbolos, muitas vezes silencia ou, pior, justifica o cinismo do candidato de estimação sob o pretexto pragmático de que “na política vale tudo”.

Essa indiferença, contudo, não é simples cegueira, mas o reflexo de um cansaço crônico e de uma profunda desilusão com as instituições. Calejado por décadas de promessas vazias e traições institucionais, o eleitorado desenvolveu uma espécie de casca cínica, onde o pragmatismo substituiu o idealismo. Tolera-se a mentira porque já não se espera a verdade. Ao fechar os olhos para o estelionato espiritual, o cidadão abdica de sua própria dignidade política e aceita o papel de figurante em uma farsa teatral que se renova a cada ciclo das urnas.

Conclui-se que esse silêncio coletivo cobra um preço altíssimo. Ao não punir nas urnas aqueles que tratam a devoção popular como moeda de troca, a sociedade valida o método e pavimenta o caminho para que o próximo pleito seja ainda mais vazio de propostas e mais denso de hipocrisia. Enquanto a indignação ceder espaço à indiferença, os templos continuarão sendo usados como trampolins e o debate público permanecerá submetido à pequenez dos que só enxergam no sagrado um atalho para o poder.

Pânico moral, fervor evangélico e guerra cultural: a fórmula Bolsonaro

Brasília, 2016. O deputado Jair Messias Bolsonaro dedicou seu voto a favor do impeachment da presidente Dilma Rousseff, de esquerda, ao oficial militar que a torturou durante a ditadura, quando ela era guerrilheira. O gesto gerou indignação… e notoriedade. Dois anos depois, o militar, que havia sido afastado do Exército por indisciplina e era um parlamentar medíocre há três décadas, obteve uma vitória retumbante nas eleições presidenciais brasileiras. Ele capitalizou a frustração e a raiva, convencendo seus compatriotas de que lideraria a luta para enterrar as práticas políticas tradicionais e acabar com a corrupção que corrói o sistema desde os tempos coloniais. Posicionou-se como o campeão das guerras culturais contra o feminismo, as minorias e o meio ambiente. O caminho para a vitória foi pavimentado pela prisão de Luiz Inácio Lula da Silva às vésperas das eleições.


Dois mandatos depois, os papéis se inverteram. Bolsonaro, de 71 anos, está na prisão, e Lula, de 80, ocupa a presidência, agora focado em garantir um quarto mandato. Enfrentando-o está o filho de seu grande rival, Flávio Bolsonaro, de 45 anos, uma versão diluída do pai e sem o mesmo carisma. O Brasil realiza eleições no próximo domingo. Se nenhum candidato obtiver mais de 50% dos votos válidos, haverá um segundo turno em 25 de outubro.

Quem acompanhou de perto a evolução dos últimos oito anos percebe uma sociedade exausta, apática e resignada. O entusiasmo que antes eletrizava as multidões evaporou. A incipiente divisão social que dilacerava esta nação conciliadora transformou-se em uma polarização completa, em dois Brasis. O pêndulo oscila, mas a vida não melhora substancialmente. Os problemas estruturais persistem. As mesmas caras de sempre estão no poder, e a corrupção domina os noticiários . De novo. Muitos brasileiros votarão contra um candidato, não por uma visão para o país.

Como explicar que outro Bolsonaro, um candidato tão frágil, consiga angariar o apoio indicado pelas pesquisas? Há semanas, as pesquisas apresentam um quadro consistente: Lula, líder de uma esquerda unida aliada a parte da centro-direita, está empatado com Bolsonaro Jr., o candidato mais forte de uma direita dividida. É improvável, mas já não se descarta a possibilidade de o resultado ser decidido no primeiro turno. O filho mais velho de Bolsonaro ameaça seriamente a reeleição do político mais influente do Brasil e da América Latina no século XXI. Ele é, juntamente com a mexicana Claudia Sheinbaum, o único bastião contra a onda trumpista e conservadora que varre o continente.

Indicado como sucessor por seu pai, o senador Bolsonaro passou metade da vida na política, assim como seus irmãos. O ex-presidente de extrema direita ignorou o establishment, que preferia alguém sem o sobrenome Bolsonaro, menos palatável ao eleitorado moderado. Para piorar a situação, o candidato Bolsonaro está sendo investigado por corrupção e lavagem de dinheiro. E esta nem é a primeira vez que ele está na mira dos tribunais.

A partir daquela vitória em 2018, que pode ter parecido circunstancial, resultado da onda antipolítica do primeiro presidente Donald Trump, o clã Bolsonaro construiu uma identidade com a qual metade do Brasil se identifica, com diferentes graus de intensidade.

Desde o início, deu substância política a uma realidade latente. As aspirações de uma extrema-direita já existente entraram no debate, como aponta David Magalhães, pesquisador do Observatório da Extrema Direita: um populismo violento e reacionário, legado de uma sociedade patriarcal marcada pelo autoritarismo militar e por uma cultura de escravidão. São as pessoas que nunca perdem uma manifestação, sempre agitando a bandeira e vestindo a camisa da seleção nacional de futebol. Algumas delas são a minoria fanática que acompanhou o ex-presidente e os generais na tentativa de golpe para se manterem no poder após a derrota para Lula em 2022.

Mercia Alves, antropóloga política do Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento), destaca que “Bolsonaro não criou o conservadorismo moral. Ele não incentivou a entrada de amplos setores evangélicos na política, nem criou a extrema-direita brasileira. O que ele fez foi reunir, de forma muito eficaz, esses elementos em torno de uma única candidatura”.

Bolsonaro pai colocou questões morais — aborto, drogas e a chamada ideologia de gênero — no centro de seu discurso; as eleições não girariam mais em torno da economia ou da segurança. Ele elevou, assim, a batalha política ao status de missão divina para derrotar o mal. Autoproclamado instrumento de Deus, soube capitalizar a profunda transformação social provocada pela proliferação de igrejas evangélicas no Brasil, especialmente entre as classes trabalhadoras das periferias urbanas. De vilarejos remotos na Amazônia às cidades mais ricas do sul, incluindo Rio de Janeiro e São Paulo, pastores evangélicos estão substituindo padres católicos.

Grande parte daquela pobre congregação evangélica, que até 2010 preferia o Partido dos Trabalhadores à direita tradicional, mais liberal e elitista, identificava-se com o discurso de Bolsonaro.

O lema “Deus, pátria, família e liberdade” ressoou naqueles bairros onde a pobreza é abundante e as oportunidades escassas. Os brasileiros que lutam tanto para alimentar seus filhos não votam mais com a carteira, mas com base em seus valores.

Os líderes de muitas igrejas evangélicas adotaram um discurso baseado em falácias que desloca a luta entre o bem e o mal para a arena política, alimentando o pânico moral com uma narrativa sobre uma esquerda imaginária. “Lula ameaça nossa liberdade religiosa, ameaça a segurança de nossas crianças, ameaça nossas famílias e representa a degeneração de nossos valores morais”, é essencialmente esse discurso, explica o cientista político Alves. Pouco importa que os governos de Portugal defendam a liberdade de culto ou evitem o debate sobre o aborto.

A mensagem é incrivelmente poderosa quando vem do líder de uma igreja que transforma vidas com suas promessas de salvação e soluções para problemas cotidianos. E a força motriz por trás da mudança social se personifica na mulher negra pobre para quem a comunidade religiosa oferece uma rede de apoio mais eficaz do que o Estado. Ela é a brasileira cujo marido não a agride mais desde que parou de beber, que aprendeu a ler usando as Escrituras, ou que vê as aulas de violão dos filhos como uma alternativa segura às ruas, onde o crime oferece dinheiro fácil e status.

Michelle Bolsonaro, esposa do patriarca, evangélica e aspirante a política de alto escalão, é um grande trunfo para esse público graças ao empoderamento feminino conservador que prega, com parábolas bíblicas e vídeos no Instagram.

Seu filho Flávio, um cristão evangélico apesar do catolicismo do pai, cresceu cercado por famílias militares. Estudou direito e, após 16 anos como vereador no Rio de Janeiro, chegou ao Senado. Embora sua campanha presidencial gire em torno da figura do pai e abrace grande parte da agenda da extrema-direita, o candidato do Partido Liberal é o menos ideológico dos filhos. Ele não compartilha da agressividade ou da grosseria do pai. Apresenta-se como um Bolsonaro moderado, vangloria-se de ter sido vacinado durante a pandemia e de que sua esposa e filhas o reeducaram. Ele sabe muito bem que o sexismo flagrante do pai afasta o eleitorado feminino.

Diferentemente de seus irmãos, ele mantém um diálogo fluido com os partidos ideologicamente neutros que dominam o centro-direita e tradicionalmente detêm o poder de decisão. Mas, refletindo sua fragilidade inicial, nenhum partido concordou em formar uma aliança com ele. Para surpresa de quase todos, Flávio Bolsonaro rapidamente herdou o capital eleitoral de seu pai, mas trata-se de um apoio marcado pela resignação, mesmo entre aqueles que encontraram sentido em suas vidas dentro do universo Bolsonaro.

No último dia 7 de setembro, Dia da Independência, o dia amanheceu cinzento, chuvoso e frio em São Paulo. Um daqueles dias em que os brasileiros não se aventuram a sair de casa, mas foi um dia de mobilização da direita. Sonia Jezabel Monteiro, de 75 anos, bancária aposentada, estava lá, firme e agasalhada. “Flávio é a solução? Ele é a única opção que temos”, confessou, ecoando outros manifestantes que vieram apoiar o candidato. “A primeira opção, claro, é o pai dele, o líder que veio para resgatar os grandes valores ocidentais”, explicou.

Mas o que ela realmente queria discutir era o assunto do momento. E foi então que ela lançou um de seus característicos discursos inflamados contra o Supremo Tribunal Federal e o ministro Alexandre de Moraes, o nêmesis de Bolsonaro e rival de Lula como a personificação do mal. “Somos escravos de um Supremo Tribunal Federal que condena e depois absolve presidentes. Vejam o caso Master. Deveriam ter afastado todos, porque ou são criminosos ou cúmplices, e nomeado pessoas que respeitam a Constituição.” O caso ao qual ela se refere é um grande escândalo de corrupção envolvendo um banco que deixou um rombo de quase 10 bilhões de euros, pelo qual o Supremo Tribunal Federal está investigando o filho de Bolsonaro. A investigação colocou o ministro Moraes sob suspeita de proteger o banqueiro acusado de fraude e implicou metade dos ministros da Suprema Corte.

O apoio dos seguidores de Bolsonaro não é incondicional, alerta Alves. O desprezo pelo sofrimento alheio demonstrado por Bolsonaro pai em sua gestão da pandemia os magoou; muitos detestam armas — Flávio já não as promove — e rejeitam a retórica virulenta. Suspeitas de corrupção alimentam suas dúvidas. Mas, acima de tudo, eles veem os Bolsonaros como os únicos capazes de derrotar o inimigo comum, aquele Lúcifer encarnado em Lula.

O discurso moralista encontrou terreno fértil porque a devoção à fé e à família se destaca entre os poucos traços comuns ao povo brasileiro, um dos mais diversos e desiguais do mundo. A folia desenfreada do Carnaval, a moral sexual liberal e a naturalidade com que abraçam mil estruturas familiares informais projetam uma imagem que pode ofuscar seu conservadorismo profundamente enraizado.

Sempre que a esquerda governou o Brasil, os presidentes foram depostos por golpe militar, pelo Congresso ou presos, após promoverem reformas trabalhistas, tributárias e agrárias, criarem a Comissão da Verdade sobre a ditadura ou redistribuirem a renda.

A política no Brasil se desenrola no ritmo de uma telenovela, com tramas intrincadas que se estendem por vários episódios. Os heróis de hoje são os vilões de amanhã; há traições, reviravoltas… e altas doses de expectativa alimentadas pelo universo midiático-político-judicial até que o escândalo que mudará tudo (ou não) exploda (ou não). E então, para o próximo assunto. Há semanas circula a ideia de que alguma revelação bombástica poderá decidir a eleição presidencial na reta final.

Embora a popularidade de Lula esteja em declínio, ele representa a única esperança para os brasileiros que ainda carecem até mesmo das necessidades mais básicas, para os progressistas e para as minorias. Mas é muito comum um brasileiro que nasceu pobre, recebeu assistência social, emigrou e trabalhou duro com grandes sacrifícios para alcançar um padrão mínimo de vida, falar mal de Lula (em quem talvez tenha votado duas décadas atrás, quando ele personificava a mudança) e criticar seus primos preguiçosos, que “vivem sem trabalhar” graças a subsídios pagos por todos os outros.

E é aí que entra outro ingrediente da identidade política de Bolsonaro: o discurso do individualismo, da meritocracia, a ideia de que o Estado atrapalha… todos elementos centrais da Teologia da Prosperidade pregada por pastores neopentecostais em igrejas, nas redes sociais e por meio de poderosas emissoras de televisão. Os empreendedores se multiplicam, enquanto os mais bem-sucedidos se gabam de serem seus próprios chefes e da liberdade que desfrutam.

A cada nova acusação legal ou escândalo contra os Bolsonaro, a esquerda mais militante esperava que fosse o golpe final, aquele que enterraria o clã. Mas inúmeras previsões se provaram erradas. O cadáver político ressuscitou repetidas vezes. Quando o patriarca foi impedido de exercer cargos públicos e condenado a 27 anos de prisão por liderar uma conspiração golpista, aqueles que estudam o universo Bolsonaro alertaram que seu movimento político era uma realidade consolidada que sobreviveria ao seu criador. Pouco depois, a segunda vitória de Trump injetou nova energia no movimento.

O fato de o juiz Moraes, que liderou a batalha judicial para levar Bolsonaro e os demais golpistas à justiça, ter passado de salvador da democracia a suspeito de corrupção só aprofunda a profunda desconfiança que os brasileiros nutrem pelas instituições que sustentam a democracia. Também alimenta a narrativa de vitimização que os Bolsonaro vêm explorando desde que o pai foi esfaqueado. Magalhães, do Observatório da Extrema Direita, explica que essas suspeitas “alimentam a ideia de que ele é vítima de um sistema que remove um mártir da arena eleitoral”. Em prisão domiciliar na casa da família em Brasília, ele confiou ao filho mais velho a missão de concluir o processo. Caso vença Lula, a prioridade é conceder anistia ao patriarca e inserir o Brasil na aliança diplomático-militar que Trump está promovendo na América Latina.

Pastor protagonizou chute em N. S. Aparecida

Era 12 de outubro de 1995, Dia de Nossa Senhora Aparecida, feriado no Brasil, quando o pastor Sérgio Von Helder, da Igreja Universal do Reino de Deus, aproveitou seu programa "O despertar da fé", na TV Record, para criticar a adoração à figura da padroeira do país. Durante um sermão, de microfone na mão, falando para a câmera, ele soca e chuta uma imagem da santa enquanto afirma, exaltado: "Estamos mostrando às pessoas que isso aqui não funciona" e "isso não é santo coisa nenhuma".

"Será que Deus, o Criador do universo, pode ser comparado a um boneco desse, tão feio, tão horrível, tão desgraçado!?", completou o pastor, expressando seu repúdio à chamada idolatria, algo combatido por religiões protestantes desde a época de Martinho Lutero. Foi esse monge e teólogo alemão, líder da Reforma Protestante, que, entre os séculos XV e XVI, começou a criticar a veneração de santos e relíquias em prol da salvação. Para protestantes, Cristo é o único mediador entre nós e Deus.

A atitude de Von Helder gerou comoção. Instituições como a Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), pronunciaram-se indignadas. A cena foi criticada até na Igreja Universal, cujo fundador, Edir Macedo, pediu perdão aos católicos. O pastor foi processado e chegou a ser condenado à prisão.

segunda-feira, 28 de setembro de 2026

Pensamento do Dia

 


Se Flávio Bolsonaro for eleito, Brasil vai virar Venezuela

Por uma dessas ironias latino-americanas, o Brasil vai virar a Venezuela se Flávio Bolsonaro for eleito presidente. Com Lula presidente, nunca virou.

Desde a invasão americana, o regime venezuelano pode ser caracterizado como um madurismo entreguista.

Ora, "madurismo entreguista" e "bolsonarismo" são sinônimos perfeitos.

Se você tirar de Maduro seu anti-imperialismo e seu bigode, ele estará a uma peruca do Jim Caviezel de distância de virar o Jair. Já poderá, inclusive, pedir dinheiro ao Vorcaro.


Ao contrário do que esperava a direita venezuelana, Trump deixou a ditadura madurista em paz, em troca de um acordo que permite aos americanos roubar o petróleo venezuelano ("ao vencedor, os espólios", disse Trump na ONU).

Nenhum governo venezuelano que dependesse de voto popular poderia oferecer a Trump um acordo tão lesivo à Venezuela.

Quando o acordo foi divulgado no dia 28 de agosto, Ricardo Hausmann, professor de economia em Harvard e membro da oposição venezuelana, postou no falecido Twitter: "Secretário Marco Rubio: você acaba de perder qualquer confiança que os venezuelanos tinham em você, e isso ainda voltará para lhe assombrar. Você optou por usar o poder dos Estados Unidos, não para libertar a Venezuela, mas para ir para a cama com nossos opressores".

Por outra dessas ironias latino-americanas, os dois grupos políticos sul-americanos com mais raiva de Marco Rubio neste exato momento devem ser o PT e a direita venezuelana.

Nos últimos meses, antigos assessores de Paulo Guedes andaram pela Faria Lima prometendo cortes de gastos gigantescos se Flávio for eleito. Ignore, por um momento, o quão pereba o sujeito precisa ser para ser reserva no time em que o Guedes é titular. Deixe de lado, também, o fato de que a essa altura, em 2018, o plano econômico do Guedes era zerar a dívida pública em um ano vendendo os imóveis da União.

O verdadeiro programa econômico de Flávio foi escrito em Washington.

Em resumo, a proposta de Trump é que o Brasil compre tudo dos Estados Unidos mesmo que os chineses cobrem mais barato; e vendam tudo para os Estados Unidos mesmo que os chineses aceitem pagar mais caro. Teremos que pedir permissão para vender nossos minérios, desistiremos do Pix e compraremos aviões americanos piores que os feitos pela Embraer. Em outros termos, todos os setores internacionalmente competitivos da economia brasileira terão que começar a trabalhar para enriquecer os americanos.

O próprio Marco Rubio já nos contou que Flávio Bolsonaro concordou em estabelecer um comitê de transição, após as eleições, para implementar o plano.

Em entrevista recente ao ICL, o cientista político Steve Levitsky, autor, com Daniel Ziblatt, do já clássico "Como as Democracias Morrem", afirmou que há um risco real de Trump não reconhecer uma vitória eleitoral de Lula.

Isso daria margem a novas ofensivas da extrema direita global contra a democracia brasileira.

Afinal, Trump vê o autoritarismo da família Bolsonaro como uma vantagem, pelos mesmos motivos que o fazem gostar do autoritarismo madurista. Nenhum governo brasileiro que dependa de voto popular poderá oferecer a Trump um acordo tão lesivo ao Brasil quanto o que Flávio já prometeu aceitar.

As mentiras de Flávio Bolsonaro sobre as apostas online

Em uma eleição, costuma-se dizer, que a primeira vítima é a verdade. Então a construção de uma versão que não corresponde a fatos acontece. Mas no caso do senador Flávio Bolsonaro as mentiras são grandes demais e viram uma forma de engodo e manipulação.

Sobre as apostas esportivas a verdade é que a permissão foi aprovada no governo de Michel Temer para serem regulamentadas no governo seguinte. Jair Bolsonaro não regulamentou de propósito, as empresas não queriam limitações, nem o pagamento de impostos. O lobby era este. Nessa terra sem lei, que foi o governo de Jair Bolsonaro, elas cresceram sem regulamentação.


O governo Lula decidiu regulamentar e cobrar impostos. Enfrentou um duro lobby no Congresso. A autorização para os cassinos tipo Jogo do Tigrinho, foi incluída na Câmara dos Deputados. O Senado tentou tirar, mas a Câmara restabeleceu. O governo Lula propôs 18% de impostos e o Congresso baixou para 12%. Esses são os fatos.

A questão é que, mesmo regulamentadas, o que se vê agora é que essas empresas estão provocando um problema econômico e social, o que tornou o tema crucial na campanha eleitoral. A expectativa é que o presidente Lula assine nesta sexta-feira uma Medida Provisória que passará a proibir a atividade no Brasil, mas isso não encerrará a questão. Isso porque a medida provisória vai tramitar no Congresso, precisa ser aprovada pelos parlamentares e, se isso não acontecer, perde a validade. Então, vamos ver, nos próximos meses, qual será o resultado final. As bets têm um lobby muito forte no Congresso, e já se sabe que essa não será uma batalha simples.

O que está claro é que as bets precisam de contenção.

Flávio e a milícia

Em um debate na quarta-feira, Simone Tebet (PSB), candidata ao Senado por São Paulo, pôs o dedo na ferida: “o país corre o risco de colocar a milícia do Rio de Janeiro na Presidência da República”. O alerta provocou reações veementes de apoiadores de Flávio Bolsonaro, mas, curiosamente, não foi contestado pelos advogados da campanha do senador, que costumam litigar por pelo em ovo. Uma forma de evitar o tema na última semana antes do primeiro turno das eleições, visto que as ligações de Flávio com milicianos são incontestáveis.

Os vínculos de Flávio com a milícia são antigos. Os mais vistoso deles com o ex-capitão do Bope Adriano da Nóbrega, chefe do “Escritório do Crime” – uma gangue de matadores de aluguel que atuava junto às milícias de Rio das Pedras e Muzema, Zona Oeste do Rio -, morto (ou apagado) em um confronto policial na Bahia, há seis anos.


Estreante como deputado estadual do Rio, o primogênito de Jair Bolsonaro apresentou uma moção de louvor a Adriano. Acusado de homicídio, ele já estava em prisão preventiva havia mais de um ano quando, em 2005, Flávio não só lhe concedeu a Medalha Tiradentes, maior honraria do Estado, como foi pessoalmente entregá-la no Batalhão Especial Prisional da Polícia Militar.

Em sua defesa, Flávio diz que tudo isso faz mais de 20 anos e que à época Adriano era “louvado por bravura”. Mentira pura, como tantas outras do Zero Um, que continua sem ter como explicar a condecoração a um criminoso. Amparou também a família de Adriano, contratando a mulher do ex-capitão, Danielle Nóbrega, e a mãe, Raimunda Vera Magalhães, para o seu gabinete em 2010 e 2015, respectivamente. Elas só deixaram os cargos em 2018, ano em que eclodiu o escândalo das rachadinhas – desvios comprovados mas varridos para debaixo do tapete por firulas judiciais.

Em 2008, durante os debates em torno da criação da CPI das Milícias na Assembleia do Rio, Flávio chegou a defender o poder de polícia paralelo. Dizia que os grupos paramilitares se organizavam “para impedir que o tráfico imperasse nas regiões” e que policiais faziam segurança privada para complementar o salário.

De iniciativa do então deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL), hoje candidato à Câmara Federal, a CPI das Milícias só contou com dois votos contrários: de Flávio Bolsonaro e Domingos Brazão, condenado, ao lado do irmão Chiquinho, como mandante do assassinato da vereadora Marielle Franco e de seu motorista Anderson Gomes. Os irmãos Brazão tiveram penas fixadas em 76 anos e três meses pelos crimes de duplo homicídio qualificado e organização criminosa armada.

O fantasma de Marielle voltou a assombrar Flávio na semana passada. Segundo investigações da Polícia Federal, o senador negociou emenda parlamentar de quase R$ 200 mil para o Instituto de Formação Profissional José Carlos Procópio, também na Zona Oeste do Rio. O repasse teria sido articulado por Robson Calixto, miliciano conhecido como Peixe, assessor de Domingos Brazão. Cabe repetir: o mesmo Domingos Brazão, mentor do assassinato da vereadora e de seu motorista, e que, ao lado de Flávio, votou contra a criação da CPI das Milícias. Em nota, Flávio negou qualquer ilicitude, mas não deu um pio quanto aos diálogos incriminadores entre Peixe e Maria de Fátima, sua secretária.

Desde muito jovem, Flávio tem vida pública no mínimo controversa. Iniciou sua carreira como funcionário fantasma do PPB na Câmara dos Deputados, partido pelo qual seu pai se elegeu à época. Tinha 19 anos, estudava Direito no Rio e recebia salário em Brasília. Dois anos mais tarde, chegou ao Legislativo fluminense e lá ficou por quatro mandatos, com atuação voltada à segurança pública e, como se viu, por vezes em defesa da parte podre das polícias.

Está no Senado há quase sete anos, com baixíssimo rendimento – apenas um projeto aprovado e outro em análise na Câmara. Não apareceu para votar a proposta trumpista, afinal derrotada, de enquadrar facções criminosas como terroristas, agora incluída em seu programa de governo. E como presidente da Comissão de Segurança da Casa faltou em dois terços das sessões. De 2024 para cá, enrolou-se com o ex-dono do Master, Daniel Vorcaro, a quem pediu R$ 130 milhões e recebeu mais de R$ 60 milhões para, supostamente, custear o filme “Dark Horse”, cinebiografia sobre o pai.

Seu currículo definitivamente não combina com a explosiva multiplicação de seu patrimônio. Em 2002, Flávio declarou possuir apenas um carro popular. Em 2018, R$ 1,76 milhão, que saltaram nada menos do que 370%, batendo em R$ 8,1 milhões em 2026. Diz ele que a fortuna se deve à sua atuação como advogado e empresário, embora não seja de conhecimento público causas judiciais defendidas por ele, ou negócios rentáveis além da franquia da loja de chocolates que ele detinha.

Enriquecer não é pecado. Mas no caso de homens públicos a declaração de renda tem de vir acompanhada de confissão, sob pena de alimentar suspeições. Mais ainda quando o histórico inclui relações próximas com criminosos condenados.

Ao fazer o alerta, Simone Tebet acertou em cheio.

Daqui a dias

Falta pouco para as eleições e o clima anda tenso. Há um medo generalizado de que o brasileiro vote errado e ponha tudo a perder, mergulhando o país num futuro incerto, desastroso para a maioria.

Somos esperançosos por natureza, mas o marketing do lado de lá é de boa qualidade e pode iludir os incautos. Como convencê-los de que o que foi conquistado a duras penas pode desaparecer, se o candidato da oposição vencer, seja ele quem for, pois todos rezam na mesma cartilha?

E mais: não adianta apenas elegermos o presidente ideal, se Câmara e Senado permanecerem nas mãos de oposicionistas nebulosos, dispostos a boicotar qualquer medida progressista que traga mais prestígio aos governantes e novos benefícios para o povo. Diminuir a distância entre as diversas camadas sociais é a meta da esquerda, mas manter cada uma em sua casta faz parte dos planos nada secretos da direita.


Há outros riscos, igualmente assustadores. O namoro com Trump pode se tornar casamento e o dote serão nossas terras raras, nosso modelo independente de economia, nossa soberania até agora preservada, sem falar na anistia geral e irrestrita aos lesa-pátria que tanto nos prejudicaram e ainda prejudicarão.

Na acirrada disputa, os idosos tornam-se a bola da vez: todos querem seus votos que podem ser decisivos. Os que estrearão como eleitores igualmente estão na mira dos candidatos. E há, ainda, os indecisos cuja quantidade diminui a cada pesquisa prévia, sem tornar mais nítido o cenário. Impossível prever quantos serão os votos nulos ou em branco…

Tenho assistido a vários depoimentos de eleitores sobre sua preferência partidária. Alguns se dizem desesperados com a concorrência mentirosa e desleal que desfila ante nossos olhos, prometendo maravilhas. Outros, aturam o horário gratuito eleitoral à procura de candidaturas aceitáveis, mas a velha fórmula deixada por Tiririca e afins fez escola e expõe seu show de horrores duas vezes ao dia.

Nossos ídolos ainda são os mesmos, mais idosos a cada eleição. Velhas raposas também sobrevivem à passagem do tempo, pregando credibilidade com seus cabelos brancos. Cínicos profissionais tentam passar jovialidade com promessas vazias e muitos fazem uso de jargões tradicionais que envolvem crianças, deficientes, minorias, sem apresentar medidas efetivas em sua defesa.

Vivemos um tempo de promessas que só poderemos cobrar após a definição dos escolhidos. Que frases de efeito não nos impressionem e nossa escolha seja consciente, consequente.

JB Carvalho defendeu em livro retirar NS Aparecida como padroeira do Brasil

A informação de que Flávio Bolsonaro pretende retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil é uma fake news e isso foi amplamente divulgado. O candidato, inclusive, negou a existência deste plano.

Mas há um fato documentado que precisa ser distinguido desta falsa acusação: JB Carvalho, pastor da igreja frequentada por Flávio e onde ele e a esposa foram batizados, defendeu expressamente a retirada do reconhecimento nacional de Aparecida e registrou esta posição em livro.

Em A Bomba: A verdade pode ser explosiva, publicado em 2001, o bispo não se limita a criticar a devoção católica. Ele questiona a legalidade do feriado de 12 de outubro, defende que Aparecida deixe de ser reconhecida como padroeira e convoca cristãos e parlamentares a se mobilizarem pela mudança.


No capítulo 10, intitulado A Rainha dos Céus no Brasil, Carvalho argumenta que o reconhecimento nacional de Aparecida seria incompatível com a separação entre Igreja e Estado. No livro, afirma que a lei que estabelece a padroeira é ilegal e sustenta que Jesus Cristo seja reconhecido como único Senhor do Brasil. Trata-se da interpretação jurídica do pastor, não de uma declaração de inconstitucionalidade feita pela Justiça.

A proposta reaparece na nota final da obra. JB Carvalho convoca os cristãos a protestarem contra o que considera a institucionalização da adoração pagã no país. Ele também pede que deputados e senadores se manifestem para que Aparecida deixe de ser reconhecida como padroeira nacional.

A relação entre JB Carvalho e Flávio Bolsonaro vai além de uma participação ocasional em eventos religiosos.

Em 2024, Flávio e sua esposa, Fernanda Bolsonaro, foram batizados na Comunidade das Nações, igreja fundada pelo bispo em Brasília. O senador passou a frequentar os cultos e manteve sua ligação pública com a instituição.

Em 7 de dezembro de 2025, dois dias depois de anunciar sua pré-candidatura à Presidência da República, Flávio escolheu a mesma igreja para sua primeira aparição pública após o anúncio.

A proximidade religiosa também alcança outros integrantes da família Bolsonaro. Em novembro de 2025, Flávio levou ao pai, Jair Bolsonaro, um exemplar de Metanoia: A chave está em sua mente, escrito por JB Carvalho. Em janeiro de 2026, Michelle Bolsonaro também levou ao marido outra obra do bispo, A jornada de meninos a homens.

Esses episódios documentam a relação entre o pastor e a família Bolsonaro. Não demonstram, entretanto, que Flávio tenha adotado todas as posições religiosas ou políticas publicadas por Carvalho.

Em vídeo divulgado em agosto de 2026, Flávio Bolsonaro prometeu que, se fosse eleito presidente, um de seus primeiros atos seria decretar que o Brasil pertence a Jesus Cristo.

A declaração se aproxima da formulação utilizada por JB Carvalho em seu livro.

Há, porém, uma diferença decisiva: enquanto o pastor defendeu expressamente a retirada do reconhecimento nacional de Aparecida, Flávio não mencionou a padroeira em sua declaração.

A relação entre ambos torna pertinente perguntar se o candidato conhece a proposta do bispo e se concorda com ela, mas a semelhança entre as declarações não comprova que exista um plano conjunto.

Diante da repercussão de publicações que lhe atribuíam apoio a uma proposta para retirar o título de Nossa Senhora Aparecida, Flávio Bolsonaro negou que pretendesse adotar essa medida.

Em meio à controvérsia, a campanha de Flávio também realizou uma transmissão ao vivo com representantes de diferentes religiões, incluindo Sérgio Pina, pai de santo do candomblé.
Matheus Leitão

domingo, 27 de setembro de 2026

Pensamento do Dia

 


'Monopólio total'

Apoiadora fiel de Donald Trump e mulher mais rica da Austrália, a bilionária Gina Rinehart está por trás de uma mineradora estrangeira que quer explorar terras raras na Bahia. O plano é vendido como uma oportunidade de desenvolvimento econômico e social para o estado.

O projeto, no entanto, quer explorar até em área de preservação ambiental e pressiona moradores de uma comunidade rural a venderem seus terrenos no Vale do Jiquiriçá, na região sul do recôncavo baiano.

Além disso, tem a intenção de explorar urânio na região – o que omite da comunidade, que teme o risco de contaminação radioativa. E tem mais: a iniciativa mira implantar uma refinaria de terras raras de escala industrial para destinar a produção para combater o domínio da China, algo que interessa diretamente aos Estados Unidos.

Batizada de Monte Alto, a iniciativa é uma das maiores de exploração de terras raras no Brasil. É liderada pela empresa australiana Brazilian Rare Earths, a BRE, que já declarou se tratar da “descoberta de terras raras mais significativa do mundo”.


Rinehart, que é propagadora da ideologia MAGA (Make America Great Again ou Tornar a América Grande Novamente, em tradução livre), é a maior investidora em elementos de terras raras fora da China. Por meio de sua empresa Hancock Prospecting, ela é uma das acionistas da BRE, que no Brasil é representada pela subsidiária Borborema Recursos Estratégicos.

As terras raras são um um grupo de elementos químicos cada vez mais valorizados por sua importância estratégica, em especial para a produção de tecnologia, o que inclui desde telefones e carros elétricos até aparatos militares, e para desenvolver a inteligência artificial.

O Brasil é alvo de uma ofensiva estrangeira porque tem mais de 20% das reservas mundiais de terras raras – fica atrás só da China. Não à toa os Estados Unidos investiram mais de 1 bilhão de dólares, inclusive com financiamento do governo Trump, para comprar a única mineradora especializada já em operação no nosso país: a Serra Verde, localizada em Goiás.

Mas é a Bahia quem lidera as pesquisas por terras raras no Brasil. Um levantamento do Intercept Brasil feito a partir dos dados do Sistema de Informações Geográficas da Mineração da Agência Nacional de Mineração, a ANM, mostra que o estado alcança quase um em cada três processos minerários ativos dessas substâncias no país – são 1.204 no total, o equivalente a 31% dos registros. Destes, mais da metade estão na região do Vale do Jiquiriçá, território onde moram cerca de 20 mil famílias da agricultura familiar, segundo a Secretaria de Desenvolvimento Rural da Bahia.

“Vivenciamos uma nova corrida, o chamado neoextrativismo. Isso perpetua a situação do Brasil como um país dependente da exploração de matérias-primas e da mercantilização da natureza. A Bahia está no centro desse foco”, pontua Lucas Zenha Antonino, professor da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia, a UFRB, e pesquisador do grupo Geografar, da Universidade Federal da Bahia, a UFBA.

Neste cenário, a BRE não está perdendo tempo. Sozinha, a empresa responde por 230 requisições que envolvem a mineração de terras raras – 19,1% dos processos ativos na Bahia. De todas, a lavra mais próxima de começar a exploração é a do projeto Monte Alto, batizado pela Borborema com o mesmo nome da comunidade que pode ser expulsa da região.

Até o momento, o avanço do projeto tem recebido o aval do governo da Bahia e dos órgãos federais responsáveis. A ANM liberou a extração de lavra experimental, que está agora em análise pelo Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos, o Inema, órgão ambiental baiano.

De competência federal, o licenciamento ambiental para a extração comercial depende de aprovação do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis, o Ibama, que informou ao Intercept ainda estar no aguardo do estudo e do relatório de impacto ambiental da mineradora.

Por ter minerais radioativos, o empreendimento também tem um processo em tramitação na Autoridade Nacional de Segurança Nuclear, a ANSN. Segundo a autarquia, ele está em fase inicial de avaliação regulatória.

A BRE informa publicamente que 167,6 mil hectares estão sob o seu controle na região, com pesquisas minerárias ativas liberadas pela ANM. Elas fazem parte do que a mineradora chama de Província Mineral Rocha da Rocha, zona com 124 processos minerários ativos.

A região tem minérios com teores de terras raras cuja concentração chega a até 100 vezes acima na comparação com a Serra Verde, única operação em produção comercial no Brasil, em Minaçu, Goiás – o que, na prática, significa que são encontradas em maior quantidade, de acordo com o parâmetro de concentração de Óxidos de Terras Raras Totais, o TREO.

Para se ter uma ideia, a Serra Verde opera com 0,12% de TREO, enquanto, em Monte Alto, o teor médio chega a 11,3%, de acordo com um estudo de escopo publicado pela BRE no dia 13 de agosto.

Mas o que empolga a BRE não é motivo de alegria na comunidade rural de Monte Alto. Nós fomos até lá e ouvimos dos moradores que a circulação de caminhões e máquinas de sonda, o barulho e o alargamento da estrada já estão mudando o cotidiano e causando transtornos.

Berenice*, uma moradora que pediu para não ter o seu nome revelado porque teme represálias, relatou ao Intercept que as investidas da mineradora para comprar os terrenos da comunidade estão “causando medo, pressão psicológica, até mesmo o adoecimento”.

Das cerca de 120 famílias que vivem na comunidade Monte Alto, 17 já venderam seus imóveis para a Borborema, de acordo com os moradores. A reportagem pediu esses números à mineradora, mas a empresa não os informou. “Enquanto eles avançam, sentimos o peso de deixar para trás nossas vidas, a nossa paz e a separação de várias famílias”, conta Berenice.

A comunidade tem resistido como pode. Já chegou até a entregar um manifesto no escritório da Borborema, em abril, reiterando a “insatisfação coletiva” com a mineradora, por gerar “insegurança”, “desinformação” e “desgaste social”.

Outra preocupação é com o impacto ambiental. No caso do projeto Monte Alto, a poligonal minerária – delimitação geográfica da área sobre a qual uma empresa requisita o direito para minerar – não está em um lugar qualquer. Cerca de metade dela está sobreposta à Área de Preservação Ambiental, ou APA, Caminhos Ecológicos da Boa Esperança, com nascentes e quedas d’água como a cachoeira do Guigó.

A lei não veda a exploração mineral em APA, desde que autorizada – no caso, pela ANM, uma autarquia federal vinculada ao Ministério de Minas e Energia, o MME, e pelo órgão ambiental responsável. Mas o apetite da BRE vai além e chega até a Estação Ecológica de Wenceslau Guimarães, uma unidade de proteção integral em que a mineração é proibida por lei.

A preocupação é crescente na região porque, apesar de o projeto estar na fase do “direito de requerer lavra” – a terceira de cinco etapas para a concessão do direito de exploração comercial das terras raras —, a Borborema já conseguiu um atalho para antecipar o início dos trabalhos.

Em março deste ano, a ANM concedeu uma Guia de Utilização à mineradora. Na prática, isso permite que a lavra comece a ser explorada antes do licenciamento definitivo. Assim, foi autorizada a extração de 2 mil toneladas de minério por ano, ao longo de três anos. 

Procurada pelo Intercept, a Borborema garantiu que ainda não começou a extração. Apenas informou que a operação depende das “autorizações ambientais e radiológicas aplicáveis”. O caso está em análise pelo governo da Bahia – sob gestão de Jerônimo Rodrigues, do PT, candidato à reeleição –, que nos explicou que a “lavra experimental” só poderá começar a ser explorada após receber autorização.

Ainda que a operação não tenha iniciado oficialmente, um cronograma da BRE feito em agosto deste ano prevê a entrega do Estudo de Impacto Ambiental, o EIA/RIMA, ao Ibama entre o fim de 2026 e o primeiro semestre de 2027. Na projeção feita pela mineradora australiana aos seus investidores, a licença para instalar a infraestrutura física da mina deve sair entre 2028 e 2029. Já a concessão definitiva de lavra, entre 2029 e 2031.

Embora isso ainda dependa de validação, o diretor-geral e CEO da BRE, Bernardo da Veiga, vangloriou-se, em entrevista ao canal canadense Investor News, que a empresa tem “um monopólio total dessa província de terras raras”, tendo passado de 40 mil para 400 mil hectares sob seu controle em três anos. E foi além: disse que o Brasil é excelente para os negócios porque “é uma jurisdição de baixo custo, com baixo custo de energia e mão de obra barata”.

“Trouxemos investidores muito importantes, investidores de peso, por assim dizer. Eles nos financiaram para adquirir toda aquela província”, afirmou Veiga, citando nominalmente a bilionária Gina Rinehart. “Somos muito honrados por ter alguém tão importante e, além disso, tão qualificado em nosso quadro de acionistas”.

Por meio da Hancock Prospecting, Rinehart detinha uma participação de 6,4% na BRE em fevereiro de 2025 – embora o site Investing.com, que disponibiliza dados do mercado financeiro, indique que a parcela seja de 4,89%. A bilionária, que construiu sua fortuna com grandes ativos de minério de ferro no oeste da Austrália, integra um grupo de mulheres ricas e influentes autodenominado “trumpettes”.

Pela afinidade ideológica e pelo estilo, aliados do grupo passaram a chamar Rinehart de “Donald Trump feminina”. Ela chegou até mesmo a redesenhar a sede da Hancock Prospecting, em Perth, com elementos da estética MAGA.

Na noite da eleição estadunidense em 2024, a bilionária participou da festa da vitória de Trump na residência do republicano, em Mar-a-Lago.

Dias antes, ela já havia aparecido no mesmo local com Tiffany Trump, filha do presidente, segurando um cartaz com o slogan “drill, baby, drill” (“perfure, baby, perfure”, em tradução livre), que passou a usar para incentivar o aumento da exploração de petróleo e da mineração.

Entusiasta da exploração de carvão e gás, Rinehart defende que a Austrália abandone o Acordo de Paris sobre o clima e afirma que as energias renováveis são pouco confiáveis.

Além da BRE, a Hancock Prospecting tornou-se a maior acionista da St George Mining, empresa australiana que desenvolve o Projeto Araxá, de terras raras e nióbio, em Minas Gerais. Em junho de 2026, a Hancock investiu mais 20 milhões de dólares australianos na empresa, elevando sua participação para cerca de 10,5% após a conclusão da operação.

Já nos Estados Unidos, a empresa de Rinehart tornou-se a maior acionista da MP Materials, empresa que opera Mountain Pass, na Califórnia, o maior depósito de terras raras do país.

Procurada pelo Intercept, a Hancock Prospecting não quis se manifestar sobre o andamento do Projeto Monte Alto. A empresa de Rinehart se resumiu a dizer que, por ser “uma pequena acionista” da Brazilian Rare Earths, “questões dessa natureza devem ser direcionadas à Brazilian Rare Earths, que é responsável por administrar e conduzir o projeto”.
Moradores se mobilizam após pressão da mineradora

Para o plano da BRE com apoio da bilionária trumpette sair do papel, a subsidiária Borborema precisa ser dona das terras de Monte Alto. No caminho, entretanto, está uma comunidade tradicional.

Moradores contaram ao Intercept que a empresa não foi transparente quando chegou à região. “Em alguns lugares, pediam autorização para fazer coleta de solo para análise. Depois, chegaram as sondas, que faziam furos maiores. E aí foram tentando adquirir propriedades por preços muito abaixo, não deixando claro para as pessoas o que tinha no solo e o porquê da pressa”, conta Berenice.

Segundo ela, a Borborema comprou um imóvel na região, onde montou sua sede. Depois, outros três. A empresa não confirmou essa informação ao Intercept. “E aí começaram a criar um cerco”, afirma a moradora que, como seus bisavós, avós e pais, nasceu e se criou ali.

Quem trafega por Monte Alto percebe que o alargamento das ruas de terra é recente. Entre as casas espaçadas e plantações de cacau, circulam caminhões e caminhonetes com os logos da Borborema e da consultora Synergia Socioambiental. Tendo entre seus clientes o Banco Mundial, a Braskem, a Vale e a Hydro, a Synergia foi contratada pela Borborema para intermediar as negociações fundiárias com a comunidade.

“A primeira equipe chegou usando pressão psicológica. [Disseram] que eles só fariam três visitas para adquirir o terreno e, caso isso não fosse possível, partiriam para processo judicial”, relata Berenice. “Criaram um abismo entre comunidade e empresa”, complementa.

Em abril deste ano, um manifesto com a assinatura de 104 das 117 famílias de Monte Alto foi entregue à Borborema com críticas à atuação da mineradora.

O documento, ao qual o Intercept teve acesso, ainda cita que houve “pressão excessiva” da Synergia para “fechamento de acordo”, bem como “abordagens que geram constrangimento” e “falta de clareza e transparência nas informações prestadas”.

Os moradores de Monte Alto disseram, ainda, que a Synergia passou a “conduzir as tratativas com foco exclusivo na compra das propriedades, sem abertura para diálogo sobre alternativas”.

Manifestando “profunda preocupação” com os “impactos ambientais do empreendimento”, a carta termina informando que “a comunidade e os proprietários rurais” estão “formalmente organizados, buscando garantir seus direitos”.

A mobilização, explica João*, outro morador de Monte Alto, ocorreu após se darem conta do risco de os moradores saírem “do conforto para a miséria”. “A gente era tido como roceiros, ignorantes, pessoas sem conhecimento, fácil de serem manipulados. E eles viram que não somos”, enfatiza Berenice.

Os moradores também contam que, após a entrega do manifesto, pessoas vistas como impulsionadoras da mobilização foram chamadas para conversas particulares com representantes da mineradora. “Eles têm medo que a comunidade se inflame”, diz Luciene*, outra moradora de Monte Alto. “Os mais velhos falaram para a gente: ‘Vocês tenham cuidado com a vida de vocês’”, relata.

Em resposta ao manifesto, a Borborema marcou uma reunião com os moradores em maio deste ano. Entre as demandas, ouviu que a Synergia fosse destituída – mas não acatou. De acordo com moradores, as únicas mudanças foram a troca da equipe e uma melhora “ínfima” nos valores oferecidos para comprar os terrenos.

Edgar*, agricultor de Monte Alto visitado pelo Intercept, tem cerca de 15 hectares dedicados ao cacau e outros cultivos. Segundo ele, a proposta da Borborema pela área foi de R$ 50 mil. Somando os secadores de cacau e a casa existente, que tem três quartos e uma suíte, a oferta chegou a R$ 800 mil. Até o momento, ele não quis.

“No início, falaram que a terra seria indenizada por seu valor minerário, não rural. Depois, quando questionei, falaram que não tinha isso e que a proposta é feita de acordo com o valor da terra nua e as benfeitorias”, critica Berenice. “Estão nessas investidas. Passam duas, três vezes na semana na casa das pessoas”, conta.

Berenice também pontua que as pessoas que aceitaram vender seus imóveis o fizeram, em sua maioria, por medo de permanecer e por acreditarem que vai ser impossível barrar o avanço da mineração.

Firmino*, agricultor que vive do cacau que vende em um armazém em Jiquiriçá, diz que a mineradora já argumentou que os moradores não podem ficar na área. “O povo se junta, mas eles falam que deu minério e vai ter que explorar”, afirma. “A gente tem medo, porque a gente já nasceu, foi criado aqui. Para sair, acostumar lá fora… Aqui é sossegado, é bom demais”, pontua. 

Questionada pelo Intercept, a Borborema informou, em nota, que “não admite pressão, constrangimento ou conduta inadequada por parte de empregados, prestadores de serviços ou representantes”. Ainda disse estar “disponível para apurar formalmente qualquer relato dessa natureza” e tomar “as providências cabíveis”.

A Borborema destacou que “as negociações são realizadas de forma individualizada, com base em avaliações técnicas”. Segundo a companhia, “eventuais direitos legais do proprietário da superfície relacionados a uma futura produção mineral permanecem preservados e são distintos da negociação imobiliária”. A Synergia não respondeu aos questionamentos feitos pelo Intercept. 

Além do impasse com moradores, os impactos ambientais do projeto da BRE e da Borborema também são alvo de polêmica. Em maio de 2025, o Ibama inspecionou o local e apontou em relatório que “a cava prevista impactará nascente e curso d’água, além de atingir remanescentes de Mata Atlântica e áreas próximas a sete comunidades”.

Mas tem mais: a área do processo minerário do projeto Monte Alto inclui cerca de 18,4% da APA Caminhos Ecológicos da Boa Esperança, abrangendo 42,2 mil hectares. Um levantamento feito pelo Intercept com dados da ANM mostra haver 29 requisições minerárias da Borborema no local.

Além da sua relevância ecológica e hídrica, a área é a morada de animais considerados ameaçados de extinção pelo Inema. Entre eles, estão o tamanduá-mirim, o bicho-preguiça, o quati e o mico-estrela.

A lei do Sistema Nacional de Unidades de Conservação da Natureza, o SNUC, que rege as unidades de conservação, exige que todas tenham um plano de manejo. Apesar de ter sido criada em 2003, a APA Caminhos Ecológicos da Boa Esperança até hoje não tem um. Questionado, o governo da Bahia informou que “a elaboração ainda não foi iniciada”, sem explicar por que tanta demora.

Embora a lei do SNUC não vete a exploração mineral em uma APA, desde que haja autorização prévia, existe um pequeno pedaço do terreno da Caminhos Ecológicos da Boa Esperança que não pode ser utilizado de jeito nenhum para este fim: os 2,4 mil hectares que compõem a Estação Ecológica de Wenceslau Guimarães.

O motivo é que este local, a cerca de 30 quilômetros da comunidade de Monte Alto, é uma unidade de proteção integral dentro da APA. Na prática, isso significa que ali não só a mineração como até mesmo a visitação pública são proibidas pela lei do SNUC.

Apesar disso, há quatro processos minerários ativos na ANM sobrepostos à Estação Ecológica Wenceslau Guimarães – todos da Borborema. Os dois mais avançados visam a exploração de terras raras, e estão na etapa do “direito de requerer lavra” – terceira de cinco fases do processo.

Questionada, a ANM afirmou que, se chegar o momento de a mineradora requisitar o aval para fazer a lavra, a autarquia fará a análise dos “procedimentos de retirada de interferências com as áreas em que eventualmente a mineração não é permitida”. A extração, reiterou a ANM, só é autorizada “mediante a devida a licença ambiental expedida pelo órgão ambiental competente”. Neste caso, por ser uma unidade de conservação estadual, seria o Inema.

Já a Borborema informou que este direito minerário integra o projeto Amargosa/Alurion, em análise para ser cedido pela companhia. Sem entrar em mais detalhes, a mineradora reforçou que o fato de ser titular deste processo ativo na ANM não quer dizer que ela já está autorizada a fazer mineração na área.

“A gente tem observado, a partir dos dados oficiais, a expansão da fronteira mineral para a Bahia em um ritmo muito acelerado”, pontua a pesquisadora e professora do Instituto Federal Baiano, Valdirene Rocha.

Segundo ela, entre 2021 e 2025, houve um aumento de mais de 46% das autorizações de pesquisa mineral no estado. “Atualmente, são 22.875 processos com autorização de pesquisa mineral e outros 1.075 requerimentos de pesquisa. Esses números continuam em crescente e estão associados ao discurso da transição energética”, destaca Rocha, que é também pesquisadora do Geografar, da UFBA.

A Borborema tem falado pouco à imprensa e nada às famílias de Monte Alto de que o seu interesse não está apenas nos minérios de terras raras – como neodímio, praseodímio, ítrio e térbio. Há, também, a intenção de explorar urânio na região – o que exige cuidados especiais diante do risco de contaminação radioativa.

Em áudios enviados no WhatsApp e cartazes espalhados por Monte Alto, a Borborema informa prezar pelo diálogo e garantir uma “conversa aberta” com a comunidade.

A própria subsidiária da BRE disse ao Intercept que “a presença natural de urânio e tório associados à mineralização” está sendo “abordada nas atividades de relacionamento com a comunidade”. Mas moradores ouvidos pela reportagem relataram que o tema não foi debatido nas reuniões.

A empresa ainda garantiu que “Monte Alto não é uma mina de urânio e não produzirá o concentrado de urânio, nem realizará enriquecimento ou processamento químico de urânio no local”. 

No mais recente encontro que a empresa convocou com a comunidade, em 24 de julho, foram apresentadas “informações sobre a formação geológica dos minerais identificados na região”, conforme a ata. Mas a palavra urânio não consta no documento – e moradores que estavam na reunião disseram ao Intercept que o assunto não foi discutido.

Embora não converse com a comunidade sobre isso, o CEO da BRE, Bernardo da Veiga, fala abertamente a respeito do tema com a imprensa estrangeira. Em entrevista a um veículo do Canadá voltado a investidores, ele citou que a região de Monte Alto tem “níveis muito elevados de urânio”.

A constatação, relatou Veiga na entrevista, foi crucial para atrair investidores. “Nós sempre soubemos que não seria um problema. O Brasil é um país nuclear e está confortável com o urânio”, afirmou o empresário.

De acordo com a BRE, o urânio será um coproduto no projeto Monte Alto, e testes metalúrgicos confirmaram que poderá ser transformado em yellow cake – uma etapa na cadeia da produção do combustível nuclear. O urânio, porém, não aparece no processo minerário registrado pela Borborema na ANM. Questionada, a autarquia federal disse que “vai verificar a situação”.

Ao Intercept, a Borborema informou que a produção, o enriquecimento e o processamento químico de urânio não vão acontecer no local da mina de Monte Alto. “A potencial recuperação de urânio na forma de concentrado de urânio está prevista apenas para uma futura planta industrial centralizada em Camaçari”, disse a empresa.

“Essa planta dependerá de estudos adicionais, do licenciamento, das autorizações da ANSN [Autoridade Nacional de Segurança Nuclear], dos acordos necessários com a INB [Indústrias Nucleares do Brasil] e da decisão final de investimento”, destacou a Borborema.

A ANSN – autarquia reguladora que responde pelo licenciamento de processos minerários quando envolvem material radioativo – afirmou à reportagem que existe um processo da Borborema em “fase inicial de avaliação regulatória”, mas que “não emitiu autorização para produção de concentrado de urânio no empreendimento Monte Alto”.

Em um de seus relatórios, no entanto, a mineradora afirma que já obteve autorização de operação da ANSN para a planta-piloto em Camaçari e que a ANSN aprovou a categorização do projeto, permitindo que a BRE avance com o relatório de análise de segurança nuclear.

Já a Indústrias Nucleares do Brasil, a INB, empresa estatal que representa a União na cadeia do urânio e combustível nuclear no país, disse que firmou um “protocolo de intenções” com a BRE. O objetivo, informou a INB, é “avaliar e desenvolver conjuntamente o potencial de aproveitamento do urânio como coproduto dos projetos de terras raras da empresa”.

O plano da BRE é beneficiar os minerais de terras raras extraídos em Monte Alto por britagem no próprio Vale do Jiquiriçá. O concentrado, então, vai ser transportado por cerca de 260 quilômetros até o Complexo Industrial de Camaçari, que fica próximo ao Porto de Aratu.

Perto dali, em Salvador, a mineradora está construindo uma planta piloto, com 58% do financiamento vindo do Senai Cimatec por meio da Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial, a Embrapii, uma organização social movida a contratos de gestão com o governo federal.

A partir dela, a BRE quer implantar uma refinaria de terras raras de escala industrial. A ideia da mineradora é produzir óxido de neodímio-praseodímio (NdPr), concentrado de terras raras pesadas (HRE+) e yellowcake de urânio.

O destino principal da produção é a França. Mas, em um relatório de julho deste ano, a BRE destaca, além da Europa, o Japão e os Estados Unidos como possíveis rotas. Os indícios de que os minérios vão para o país adorado pela trumpette são fortes.

Em outubro de 2025, a BRE inclusive assinou um acordo com a empresa francesa Carester que é, em parte, da estadunidense USA Rare Earth. A parceria prevê que, na próxima década, o concentrado de terras raras pesadas produzido pela BRE vai ser comprado pela Carester.

Além disso, a empresa francesa se comprometeu a prestar serviços de engenharia e assistência para a futura refinaria da BRE em Camaçari, que tem a pretensão de ser a primeira unidade a fazer separação de óxidos de terras raras em escala industrial no Brasil.

Isso é estratégico porque aumenta o valor agregado da produção e, em nível global, fortalece a Carester na rivalidade direta com a China. Mas também pode atender a interesses dos EUA, já que o Departamento de Guerra do país declarou que os ímãs permanentes de terras raras, em especial o térbio – escasso no mundo e presente em grande quantidade na região de Monte Alto –, são fundamentais para seus sistemas militares, incluindo submarinos, drones, mísseis e bombas.

Falta uma carta nesta campanha

O senador Flávio Bolsonaro nunca assinou uma carta compromisso com a democracia, nem dele foi exigido. Devia ter sido. Estamos a uma semana do primeiro turno. Ele tem chances reais de ser eleito e carrega um enorme passivo autoritário, decorrente dos atos e palavras dele e da família toda. Em 2002, o país exigiu do então candidato Lula da Silva que se comprometesse com as bases econômicas do Plano Real. Havia dúvidas razoáveis sobre o programa econômico do PT. Lula escreveu a “Carta aos Brasileiros” e a cumpriu.

Há dúvidas razoáveis sobre o candidato do PL. O senador teve relações com integrantes da facção criminosa conhecida como milícia, está sendo investigado pelo dinheiro recebido do ex-banqueiro corruptor Daniel Vorcaro, teve uma loja de chocolate com faturamento atípico, nunca ficou claro como conseguiu comprar uma mansão em Brasília. Sua amizade estreita com o advogado Willer Tomaz é outro foco de incerteza. Willer é reincidente em casos de corrupção. Chegou a ser preso por envolvimento na Operação Greenfield, em 2017, que apurou fraudes com fundos de pensão, e agora é investigado no caso do INSS.


Esse currículo de dúvidas sobre o senador já seria suficiente para ele ser escrutinado com mais objetividade. No entanto, Flávio Bolsonaro foge das explicações necessárias, com a velha artimanha de atacar como se não tivesse enorme telhado de vidro.

De todas as questões que pesam sobre o senador Flávio Bolsonaro, a maior é o seu déficit democrático. Ele professa o mesmo ideário autoritário do pai e dos irmãos. Nisso, a família é bem unida. O Brasil não pode alegar desconhecimento desse risco, porque viu o projeto em ação. Foram anos de ataques sistemáticos às instituições, de defesa da ditadura militar, de demanda pela volta do AI-5, de tentativa de sedução das lideranças militares, de mobilização dos seus seguidores para não respeitar o resultado das urnas de 2022. A investigação da tentativa de golpe de 8 de janeiro revelou que a conspiração havia ido mais longe do que se pensara. Não cabe o benefício da dúvida quando os fatos são tão sólidos.

A pátria caminha para as urnas distraída. A extrema direita sempre foi muito competente em usar as ferramentas digitais para criar realidades paralelas. Em 2018, houve a onda das fake news. A partir de 2019, o chamado “gabinete do ódio” instalou-se no Palácio do Planalto e disparou contra todos os que via como adversários. Os jornalistas, principalmente as mulheres, foram alvo preferencial. Na pandemia, as mentiras contra a ciência elevaram o número de mortes e reduziram a cobertura vacinal de várias doenças. Até hoje o país luta contra as sequelas do atentado à confiança no programa de imunização. A urna eletrônica sobreviveu a um bombardeio, cujo objetivo era minar o processo eleitoral. Sabedor de tudo isso, o Brasil não pode subestimar o risco.

Em 2002, o medo principal era o retrocesso na economia. O país havia vencido a hiperinflação depois de uma luta muito árdua, de anos. O programa econômico do PT tinha propostas que poderiam abalar as bases da política econômica que mantinha a inflação sob controle. Era chamado de risco Lula. O mercado financeiro, então, exigiu um compromisso com a estabilização da moeda e Lula fez algo mais amplo. Falou para o país como um todo, na “Carta aos Brasileiros”. Acertou. O medo de perder o Real era da população em geral e não apenas dos gestores de investimento.

O risco democrático nunca preocupou o mercado financeiro. Deveria. Não há liberdade econômica, sem liberdade política. O poder sem limites, sem o sistema de freios e contrapesos, é um risco econômico também.

O senador Flávio Bolsonaro disse em entrevista à Folha de S.Paulo, em junho do ano passado, que o eleito em 2026 tinha que se comprometer com o “uso da força” contra o Supremo, caso o STF considerasse inconstitucional o indulto aos condenados pelo 8 de janeiro. Ele não falava de impeachment de ministros dentro de um processo constitucional. Queria algo mais forte. “A gente está falando do uso da força. A gente está falando de interferência direta entre os poderes”. O senador Bolsonaro sempre negou ter havido tentativa de golpe, trata de forma anedótica o ataque físico e institucional aos poderes, promete subir a rampa com o pai. Nunca fez qualquer esforço para aplacar essas dúvidas. Esse é o risco Flávio Bolsonaro.
Míriam Leitão

Flávio Bolsonaro dá dinheiro aos 'peixes' da milícia

Ao lançar a campanha da reeleição, em agosto, Lula bateu duro no atual sistema de emendas parlamentares. O plano apresentado defende o estabelecimento de limites e controles e classifica as emendas impositivas como "grave distorção" que sequestra recursos do Executivo.

O tema, contudo, está submerso, intocável. A dinâmica da disputa contra o bolsonarismo impôs à campanha outros rumos de discussão — crise do STF, Lulinha, vazamentos do Master, interferência dos Estados Unidos, endividamento das famílias, escala 6x1, guerra contra a jogatina eletrônica.

O Congresso, que deverá ter baixa renovação, agradece o refresco. Prepara a proposta orçamentária de 2027 prevendo que, até 2030, o espaço disponível para emendas parlamentares crescerá em ritmo três vezes maior que as despesas escolhidas pelo Executivo. Não é mais uma farra, uma baderna institucional.


É preciso arranjar outra palavra para descrever a voracidade de deputados e senadores, os donos do país.

Apesar das denúncias na imprensa e de mais de cem inquéritos no STF, os casos de desvio de finalidade e corrupção se multiplicam. O mais recente aponta o senador Flávio Bolsonaro, um candidato a presidente da República campeão de escândalos.

O filho 01 mandou uma emenda de quase R$ 200 mil para Robson Calixto, o Peixe, miliciano condenado por envolvimento na morte de Marielle Franco. O dinheiro foi destinado a um projeto de escolinha de futebol no bairro da Taquara, área de influência do ex-deputado Chiquinho Brazão e do conselheiro do TCE Domingos Brazão —condenados pela morte da vereadora.

A convivência da família Bolsonaro com milícias não é novidade. Pelos diálogos coletados pela PF no celular do Peixe (gíria carioca usada para se referir a alguém de confiança), nota-se a naturalidade com que a transação é realizada: "Amiga, vê com o nosso senador se consegue nos ajudar".

Flávio Bolsonaro desenhou o mapa da mina: desvio de emendas e infiltração do crime organizado na política convergem para o mesmo ponto.
Alvaro Costa e Silva

Só resta para o chamado 'arco democrático' apoiar Lula outra vez

Não foi unicamente o antipetismo, como hoje se diz com pressa e frequência, que elegeu Jair Bolsonaro — deputado federal do baixo clero — presidente da República em 2018. Foi também a facada que ele levou em Juiz de Fora e o fato de que Lula, à época, estava preso em Curitiba, condenado pelo juiz Sérgio Moro, promovido meses mais tarde a ministro da Justiça do novo governo.

Até o final de agosto, trancado em uma cela de 15 metros quadrados da Polícia Federal, Lula liderou todas as pesquisas de intenção de voto. Seu substituto como candidato, Fernando Haddad, teve apenas 26 dias para fazer campanha durante o primeiro turno. Mesmo assim, no segundo turno, ainda obteve 44,87% do total dos votos válidos. Convenhamos: um desempenho e tanto, dadas as circunstâncias.


Em condições normais de temperatura e pressão, o antipetismo nunca derrotou o petismo desde que Lula se elegeu presidente pela primeira vez em 2002 — lá se vão 24 anos. Fernando Collor venceu Lula em 1989, quando o PT sequer completara 10 anos de existência. Foi a primeira eleição presidencial pelo voto popular depois que os militares bateram em retirada, devolvendo o poder aos civis.

Collor sofreu impeachment, acusado de corrupção, e assumiu seu vice, Itamar Franco. As eleições seguintes (1994 e 1998) transcorreram sob o impacto do Plano Real. Somente Nossa Senhora Aparecida teria sido capaz de derrotar Fernando Henrique Cardoso, apresentado aos eleitores como o pai do plano que dominou a inflação. Por aproximadamente quatro anos e meio, o real valeu um dólar. Beleza.

Lula se reelegeu presidente em 2006, apesar do escândalo do Mensalão do PT — a compra de votos de deputados para aprovar no Congresso projetos de interesse do governo. A oposição preferiu deixá-lo sangrar ao invés de tentar impichá-lo, porque estava convencida de que o derrotaria nas urnas, àquela altura já eletrônicas. Dilma Rousseff sucedeu a Lula em 2010 e se reelegeu em 2014.

Não foram as chamadas “pedaladas fiscais”, como a história oficial registra, que derrubaram Dilma em 2016. Como disse o senador Romero Jucá, do MDB, era preciso fazer um “grande acordo nacional” para “estancar a sangria” da Operação Lava Jato, “com o Supremo, com tudo”. E se fez o acordo que resultou no impeachment de Dilma. Michel Temer assumiu a Presidência.

Para livrar-se de Bolsonaro, o tal do “arco democrático” (leia-se: a direita que se diz civilizada) ajudou Lula a se eleger em 2022. Se esse arco for de fato democrático, tapando ou não o nariz, se sentirá obrigado a ajudá-lo a se reeleger daqui a sete dias por falta de melhor opção. Nenhum dos candidatos com pretensão à terceira via decolou. Ou se vota em Lula, ou em Flávio, uma cópia mal ajambrada do pai.

A hora da verdade chegou para todo mundo. Valei-nos, Senhora Aparecida.

sexta-feira, 25 de setembro de 2026

Pensamento do Dia

 


Macunaíma no poder

Os políticos brasileiros, desde a Proclamação da República, no geral, têm sido representantes de si mesmos no poder. Têm se empenhado em criar e demolir partidos para gestar variantes de um partido nacional macunaímico, com a diabólica estrutura de que é de todos e de nenhum ao mesmo tempo. De esquerda ou de direita ou de extremo centro, basta olhar a cena com a lupa do pensamento crítico e veremos que Macunaíma está lá e, portanto, nós não estamos lá.

Macunaíma é o herói sem nenhum caráter. É todos e não é nenhum. Tenta, mas não consegue ser. Nasceu em Araraquara (SP), na Chácara Sapucaia, em que Mário de Andrade passava um mês de férias, entre o fim de 1926 e o começo de 1927.

Na chácara de seu tio, Pio Lourenço Corrêa, cuja avó, em Araritaguaba, ainda falara nheengatu, a “língua bonita” dos mamelucos, mestiços de branco e índia, brasileiros da servidão, que se tornarão o caipira e tudo o que o caipira representará na história do Brasil.

E que será não só a língua de quem obedece, mas a de quem manda para fazer-se obedecer. Mas língua de quem fala afirmando para negar. Expressão da consciência reprimida pela servidão dos nativos, como fala inacabada de quem diz pela metade o que quer dizer, mas não pode porque o falar na sociedade do medo é o mesmo que desobediência, revolta e insurgência.


Quem fala sob servidão e repressão diz apenas o fragmento do que deve ser dito por todos para que a sociedade exista como pacto de iguais. Sendo fragmento, já é negação da condição humana de quem fala não falando.

O não falar, o só gaguejar e imitar, em país como o nosso, é gravíssima indicação de não ser, não ter, não poder. É com base nessa privação que existe o poder dos poderosos. A sociabilidade carneiril do faz de conta e da imitação. Faz de conta que temos leis, que temos direito, que temos justiça, que somos gente. Gente não é quem manda nos outros. É quem se reconhece como gente no outro.

Essa língua nasceu literariamente em “Selvas e choças”, título do livro inaugural do regionalismo literário paulista, de Otoniel Mota, que foi pastor presbiteriano e missionário no sertão, aí por 1912, e, mais tarde, catedrático de linguística na Faculdade de Filosofia da USP. Foi publicado pela Imprensa Metodista, em 1922.

Ele foi membro da Academia Paulista de Letras, como Amadeu Amaral, que o foi da Paulista e da Brasileira, autor do imprescindível “O dialeto caipira” da mesma quadra em que Mário de Andrade está cogitando sobre o nenhum caráter do que somos.

Já estivemos mais perto de ser alguém no intervalo democrático entre o fim do Estado Novo e o golpe militar da madrugada de 1º de abril de 1964. O período mais denso do chamado nacional-desenvolvimentismo. O da economia voltada para dentro, para a formação do mercado interno como fator do desenvolvimento industrial. E, claro, de criação de renda e emprego para criar mais renda e mais emprego.

O nacional-desenvolvimentismo era de inspiração keynesiana, de John Maynard Keynes, professor de economia em Cambridge, no Reino Unido. No ápice agônico dessa tendência histórica aqui, o perfil do nosso governo, que era o de João Goulart, era o que vagamente se poderia definir como de esquerda. Trabalhista e um tanto social-democrático.

Mas o sistema político brasileiro continha um regime político paralelo, arcaico e retrógrado, essencialmente anticapitalista. Num Brasil em que havia segmentos políticos inspirados no comunismo sem ter realizado antes o capitalismo. Um regime que sobreviveu como parasita do Estado mediante trocas de favores das oligarquias políticas com o poder. A economia da mamata. Um regime antagônico ao do nacional-desenvolvimentismo, essencialmente latifundista e do latifúndio dependente. Um antagonismo estrutural e comprometedor para o desenvolvimento do capitalismo no Brasil.

É que o Brasil, embora não tenha patenteado a invenção, “inventou” o capitalismo anticapitalista, que é o que temos, o do lucro privado baseado no prejuízo coletivo, contra o país. O capitalismo do herói sem nenhum caráter.

É capitalismo, ainda que fundado em técnicas econômicas e sociais de acumulação originária de capital e de sua reprodução ampliada decorrente da manutenção das mesmas técnicas retrógradas. Acabamos com a escravidão indígena do índio capturado como caça para viabilizar e escravidão negra do africano comprado legalmente no mercado de gente na África.

Acabamos com a escravidão negra para viabilizar a escravidão branca, escravidão por dívida em que o trabalhador trabalha para escravizar-se, como viu e observou Euclides da Cunha na região amazônica, quando lá estava, a serviço do Itamaraty, trabalhando na demarcação de nossa fronteira.

Longe do bafo do povo,

Ninguém precisa acreditar, mas, há pouco mais de cem anos, ministros de Estado, parlamentares da pesada e juízes superiores iam de bonde para o trabalho. Aguardavam na fila, subiam pelo estribo e sentavam-se ao lado de pessoas como você e eu. Todos moravam no Rio, em casa comprada com seus recursos ou alugada de particulares. Suas mulheres organizavam chás de caridade, lanchavam na Colombo e participavam de saraus literários. Seus filhos estudavam em escolas públicas, remavam no Flamengo e trabalhavam no comércio. O Rio era a capital federal e, em torno do poder, situado no centro da cidade, havia uma coisa chamada povo.


A mudança da capital para Brasília, promovida por JK em 1960, criou um problema: ninguém queria ir para lá. O Executivo, o Legislativo e o Judiciário eram obrigados, mas seus membros, individualmente, precisaram ser subornados para aceitar a transferência. E dá-lhe de salários duplicados, bônus por comparecimento, casas à beira do lago construídas para eles, carro com motorista e, mais importante, passagens aéreas para o Rio ou para seus estados. O mesmo, em escala menor, se fez com os funcionários públicos. O que era descarado suborno cristalizou-se no que hoje se chama mordomia. E a cornucópia nunca estancou.

Até por isso, o material humano de que se compõe o poder piorou muito nesses 66 anos. Provincianizou-se, acafonou-se. Nossos maiores são uns deslumbrados que dão expediente em palácios na praça dos Três Poderes, a 300 metros um do outro e a um infinito de distância de um brasileiro normal. Como não têm de ir à esquina nem para comprar um retrós (não há mais retroses e, esquinas, nunca houve), não sentem o bafo do povo e acham natural ser movidos a agrados.

Daí, tome-lhe também de bocas-livres, putas, surubas, charutos, uísques, jatinhos, desconto em hotéis de luxo, temporadas de esqui, ingressos para a Fórmula 1, camarote na Sapucaí, contratos em nome de terceiros, comissões.

Só provincianos, cafonas e deslumbrados se deixam vender por tão pouco.

A nova classe média não é mais a mesma

A primeira década do século representou os anos dourados da Classe C, também chamada de Nova Classe Média. Nesse período, ela tornou-se majoritária, reunindo cerca de 50% da população. Mais brasileiros passaram a ter acesso a bens de consumo sofisticados, realizaram o sonho do carro zero, puderam, pela primeira vez, viajar de avião e chegaram ao ensino superior.

A partir de 2013, porém, começaram a aparecer os sinais de esgotamento daquele ciclo de mobilidade social. A Nova Classe Média não voltou ao ponto de partida, mas viu interrompida a trajetória de ascensão dos anos anteriores. Os padrões de consumo estagnaram e a expectativa de continuar subindo na vida deu lugar à frustração.

O livro O Brasil da Maioria, de Renato Meirelles, fundador do Instituto Locomotiva, ajuda a compreender essa transformação e, sobretudo, o que aconteceu com essa população depois que a mobilidade social perdeu força.


A ascensão da Classe C foi resultado de um processo que atravessou diferentes governos. Começou com a estabilização da economia e ganhou força na primeira década do século. A expansão do ensino superior, impulsionada também pelo Prouni e pelo Fies, levou à universidade milhões de brasileiros que antes dificilmente chegavam a ela. Bolsa Família e outras políticas de proteção social aumentaram a renda dos mais pobres.

O otimismo econômico produziu também uma mudança de comportamento e de expectativas. Sua melhor tradução cultural talvez tenha sido Avenida Brasil, de 2012. O cenário e os protagonistas já não eram os apartamentos e personagens da Zona Sul carioca. Eram os subúrbios e sua classe média emergente.

Mas aquele ciclo começou a perder força. A ascensão da Classe C havia sido impulsionada por uma combinação de crescimento econômico, aumento do emprego e da renda, expansão do crédito e políticas sociais. Quando esses motores perderam força e, pouco depois, o país mergulhou na profunda recessão de 2014 a 2016, a mobilidade social também estancou. E, como cantava Gilberto Gil, “o sonho acabou, foi terrível o sono para quem não sonhou”

As jornadas de 2013 deram expressão a outra contradição. A nova classe média tinha melhorado de vida, mas continuava dependente de serviços públicos de baixa qualidade em áreas vitais como saúde, educação e segurança. Daí a cobrança por serviços ‘padrão-FIFA’. As pesquisas de Renato Meirelles mostram que também mudou sua relação com o Estado: continuou a exigir proteção e serviços públicos, mas passou a vê-lo também como aquele que cobra impostos, impõe burocracia e dificulta o empreendedorismo.

No imaginário da classe média emergente, a felicidade se concretizava no tripé “casa própria, carro zero e filho na faculdade”. Esses sonhos foram sendo adiados. E o diploma do ensino superior deixou de ser garantia de acesso a um mercado de trabalho de maior qualidade.

A mudança econômica veio acompanhada de uma mudança de sentimentos. Na fase áurea, havia otimismo e sensação de conquista. Com a estagnação, vieram a frustração e o medo de perder o que havia sido conquistado.

Renato Meirelles resume bem essa mudança: uma coisa é deixar de ganhar; outra coisa é perder. A dor é maior para quem colocou um filho numa escola privada e depois teve de tirá-lo porque já não podia pagar. Ou para quem comprou o primeiro carro e depois precisou vendê-lo para completar o orçamento.

Mas há um aspecto decisivo nessa história. A nova classe média não voltou a ser o que era antes.

Passou pela expansão do ensino superior e, sobretudo, por uma revolução digital. Em 2010, apenas 24% dos domicílios da Classe C tinham internet. Em 2024, eram 91%. A Classe C que assistia a Avenida Brasil em 2012 não é social, cultural ou politicamente a mesma que chega a 2026.

Essa transformação teve consequências políticas. A população que ascendeu principalmente durante os governos Lula atravessou depois as jornadas de 2013, a recessão, o impeachment, o bolsonarismo e o retorno de Lula. A Classe C tornou-se um território decisivo da disputa política brasileira.

Também nesse período cresceu fortemente a presença das igrejas evangélicas, especialmente nas periferias. Elas passaram a ocupar espaços importantes de sociabilidade, pertencimento e formação de valores. Não explicam sozinhas as mudanças políticas da Classe C, mas fazem parte de uma transformação que não pode ser ignorada.

É por isso que a história da Nova Classe Média não pode ser resumida à passagem da prosperidade para a estagnação. A renda perdeu dinamismo, mas as mudanças produzidas durante a ascensão permaneceram. A população que experimentou novos padrões de consumo, chegou à universidade, entrou no mundo digital e elevou suas expectativas não voltou à situação anterior.

A nova classe média não é mais tão nova. Suas demandas hoje são muito mais complexas do que há duas décadas. Por isso, as políticas capazes de colocá-la novamente numa trajetória de prosperidade não poderão ser uma simples repetição das que funcionaram no início do século. O Brasil que produziu a ascensão da Classe C já não existe. E a Classe C que emergiu daquele processo também não é mais a mesma.