quarta-feira, 19 de novembro de 2025

Pensamento do Dia

 


O mito da polarização

Direita e esquerda, da forma como se apresentam hoje, não caem nas graças da maioria. A dita polarização tampouco. Um passeio pela vida real dá a dimensão do que se passa longe da internet e do noticiário que reverbera as vozes engajadas.

Foi o que fizeram os pesquisadores Pablo Ortellado e Felipe Nunes ao elaborar um estudo com duas centenas de perguntas a 10 mil brasileiros. O resultado traduziu a realidade em números: os apaixonados extremos são 11%, e os levemente enamorados, 35% —enquanto 54% estão na pista, no aguardo de quem lhes desperte o interesse.

Pelo demonstrado, temos que a minoria barulhenta, embora insignificante em termos eleitorais, acaba conduzindo a eleição para a tal disputa de rejeições. Isso apesar de a quase totalidade do eleitorado ser permeável a escolhas diferentes das já oferecidas.

E é na ausência de gente capaz de encarnar uma nova bossa da conquista que a coisa enrosca e mantém o país preso a uma lógica em que a escolha do presidente se dá mais pelo medo de errar do que pela vontade de acertar.

Daí os índices de abstenção, votos nulos e brancos, diante da ausência de estímulo à maioria desinteressada em entrar numa guerra por ídolos de estimação, hoje simbolizados nas figuras de Luiz Inácio da Silva (PT) e Jair Bolsonaro (PL). Ambos gastos pelo tempo e por outras circunstâncias.

A existência de vasto eleitorado à deriva esbarra na inexistência de postulantes fluentes no idioma das demandas por um Estado que proteja a população, mas não atrapalhe e ofereça serviços públicos decentes, com governantes atentos aos cidadãos, que não os vejam como massa de manobra eleitoral e os incluam em projetos de desenvolvimento do país.

Os estrategistas de campanha sabem disso. O problema é que na receita falta o ingrediente principal: matéria-prima de qualidade. Assim como eleitor silencioso, os bons pretendentes a eleitos certamente estão por aí. Na encolha, sem espaço nem disposição para enfrentar o barulho dos extremos.
Dora Kramer

O avesso


Às vezes, nada mais distante do conceito de política do que um político.

Carlos Drummond de Andrade, "O Avesso das Coisas"

O Brasil onde a dor virou rotina

O massacre nos Complexos da Penha e do Alemão, no final de outubro, e o projeto de lei que tenta impedir meninas estupradas com menos de 14 anos de interromper uma gravidez podem parecer assuntos distantes. Mas vêm da mesma raiz: a incapacidade do Estado brasileiro de garantir dignidade e proteção justamente para quem mais precisa. O resultado é um país onde o bem viver – entendido como segurança, cuidado e possibilidade real de futuro – se torna exceção.

Quando uma favela é tratada como território inimigo e uma criança violentada enfrenta barreiras para exercer um direito previsto em lei há mais de 80 anos, o país revela seu padrão mais cruel: vidas negras, pobres e femininas seguem sendo tratadas como descartáveis.

As investigações sobre operações policiais confirmam o que moradores já sabem: a letalidade do Estado atinge principalmente pessoas negras, jovens e crianças. Dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública mostram que, ano após ano, a maioria das vítimas de intervenções policiais é composta por homens negros – e cada episódio deixa um rastro de trauma nas famílias e na comunidade.

Do outro lado, estudos médicos e psicológicos são unânimes: meninas e meninos vítimas de violência sexual têm risco significativamente maior de depressão, ansiedade e transtorno de estresse pós-traumático. Esses efeitos variam conforme a intensidade da violência, o ambiente familiar e o apoio recebido, mas pioram drasticamente quando as instituições que deveriam acolher produzem nova violência. A literatura chama isso de “traição institucional”: quando o sistema trai quem deveria proteger. E nenhum bem viver é possível quando até o acolhimento machuca.

A ONU e a UNICEF registram, repetidas vezes, que crianças expostas à violência – doméstica ou comunitária – podem desenvolver o chamado “estresse tóxico”: um desgaste emocional tão profundo que compromete aprendizagem, autorregulação e saúde mental, afetando o desenvolvimento ao longo da vida. Em outras palavras, impede que vivam bem agora e destrói as bases do seu florescimento no presente e no futuro.

No fim das contas, estamos falando do mesmo ciclo: uma sequência de violações que derruba os pilares básicos do desenvolvimento humano – segurança, pertencimento e a chance real de construir um futuro. Sem isso, ninguém floresce. E, sem florescimento, nenhum país se sustenta.


Com o tempo, esse acúmulo de tragédias gera outro problema: um entorpecimento social. Quanto mais vemos chacinas, abandono institucional e violência contra meninas e contra comunidades periféricas, mais corremos o risco de encarar tudo como “normal”. A psicologia chama isso de dessensibilização. Não é falta de empatia; é cansaço. É a sensação de que nada muda, de que reagir não adianta. Esse torpor coletivo enfraquece a mobilização social – e fortalece o ciclo da violência. Sociedades cansadas sobrevivem; não vivem bem.

Falar de felicidade nesse cenário pode parecer deslocado. Mas “felicidade”, aqui, não é euforia: é política pública. É bem-estar entendido como infraestrutura de país – parte central do bem viver. Pesquisadores das universidades da Pensilvânia e da Califórnia, nos Estados Unidos, e da Universidade de Tsinghua, na China, defendem isso há anos: saúde mental, vínculos comunitários, sensação de segurança e oportunidades de desenvolvimento devem valer tanto quanto indicadores econômicos. A Psicologia Positiva – no campo científico, não no comercial – demonstra que intervenções de bem-estar podem ajudar comunidades vulneráveis a se reconstruírem emocionalmente, desde que acompanhadas de políticas de proteção social e de atendimento em saúde mental.

A Colômbia é um exemplo – e também um alerta. Logo após o Acordo de Paz de 2016, escolas e centros comunitários implementaram programas de bem-estar para reduzir tensões e reconstruir vínculos entre jovens e famílias afetadas pelo conflito. Nos primeiros anos (2017-2020), parte das iniciativas se inspirou no trabalho de Mihaly Csikszentmihalyi, especialmente na noção de flow: atividades que ajudam populações traumatizadas a recuperar propósito, foco e a sensação de que podem agir e transformar sua própria realidade. Avaliações independentes registraram avanços modestos, porém consistentes, na convivência escolar e na percepção de segurança psicológica – resultados pequenos, mas estruturantes, capazes de sustentar processos de reparação e abrir brechas para o bem viver após décadas de violência.

Mas o caráter datado desse ciclo revela um limite: a partir dos anos seguintes, com mudanças de governo e prioridades orçamentárias, muitos desses programas perderam financiamento ou foram reduzidos, mesmo diante de evidências positivas. É um exemplo claro de como políticas eficazes podem ser interrompidas antes de amadurecer – e de como a falta de continuidade pública enfraquece justamente as soluções que exigem tempo, cuidado e persistência.

No cenário global, Butão e Nova Zelândia seguiram outro caminho. O Butão criou o índice de Felicidade Interna Bruta, que reúne dimensões como saúde, educação, cultura, governança, vitalidade comunitária e meio ambiente. A lógica é simples: uma política só é boa se melhora a vida das pessoas. Já a Nova Zelândia lançou, em 2019, o Wellbeing Budget, um orçamento nacional baseado em metas de bem-estar – com foco em saúde mental, enfrentamento da violência doméstica e redução das desigualdades. Não foi filosofia: foi evidência. Pesquisas mostram que investir em bem-estar reduz custos futuros em saúde, segurança e assistência social. São países que tratam o bem viver como política de Estado. Isso é felicidade no campo científico, com impacto social real.

O Brasil poderia estar nessa rota. Temos pesquisa, recomendações internacionais e uma Constituição que coloca a dignidade humana no centro. Falta transformar isso em prioridade. Porque comunidades continuam vivendo sob violência crônica; meninas violentadas continuam enfrentando violência institucional; e a anestesia coletiva continua crescendo – muitas vezes alimentada por parlamentares que defendem medidas na contramão das evidências científicas. É impossível falar em bem viver enquanto a sobrevivência ocupa todo o espaço. Fica difícil falar de esperança quando a realidade insiste em se acinzentar.

O país não precisa escolher entre combater a violência e promover bem-estar. Os dois caminhos andam juntos. Sociedades emocionalmente seguras são mais estáveis, mais criativas e mais prósperas. A pergunta que fica é direta: quando começamos a aceitar que bem-estar – saúde emocional, segurança, felicidade e dignidade – seria algo supérfluo?

Enquanto essa mudança não chega, seguimos tentando florescer em solo árido. Mas nenhum país floresce por acaso. Ele floresce quando decide que toda vida merece mais do que sobreviver. Merece bem viver – e ser feliz.

Sudão e Gaza: ecos de um mesmo império

As tragédias do nosso mundo não são separadas. Gaza, aqui, é chamada de “conflito”; o Sudão, ali, é reduzido a uma “guerra civil” que mal merece ser mencionada. Mas, se seguirmos o rastro do dinheiro, das armas e da propaganda, encontraremos as mesmas marcas ensanguentadas em ambos os crimes.

Os Emirados Árabes Unidos financiam as Forças de Apoio Rápido que massacram civis sudaneses, enquanto mantêm voos para Tel Aviv durante todo o genocídio. A Grã-Bretanha vende armas que acabam nas mãos da RSF, ao mesmo tempo em que abastece a campanha de extermínio de Israel. E os Estados Unidos, que declaram a crise do Sudão um genocídio, enviam mais 14,3 bilhões de dólares em ajuda militar a Israel – justamente no momento em que este conduz o seu próprio ataque genocida.

Em Gaza, pelo menos 63 mil palestinos foram assassinados e 1,9 milhão foram forçados a deixar suas casas. No Sudão, centenas de milhares de pessoas morreram, milhões estão deslocados e a insegurança alimentar já está em níveis de emergência ou fome extrema.


Em ambos os lugares, pais e mães veem os corpos de seus filhos se consumirem pela fome, enquanto aqueles que dizem combater a miséria continuam armando seus assassinos. A Dra. Tanya Haj-Hassan, que atuou como voluntária em Gaza e no Sudão, afirmou em entrevista ao Democracy Now: “As atrocidades na Palestina e no Sudão relacionadas à desnutrição e à fome são consequência de estruturas subjacentes que permitem que essas coisas aconteçam.”

As estruturas a que ela se refere têm nomes próprios: Charles George Gordon, Herbert Kitchener, Arthur James Balfour. O mesmo Império Britânico que dividiu o Sudão e a Palestina, que massacrou 12 mil sudaneses em Omdurman com metralhadoras contra lanças, e que prometeu a Palestina aos colonos sionistas enquanto silenciava a população indígena da terra.

Em 1898, Kitchener observou pelos binóculos os corpos sudaneses empilhados, comentou que haviam recebido uma “boa limpeza” e então se retirou para o dia. Essa brutalidade banal – essa convicção de que certas vidas não contam como perda – não morreu com o Império Britânico. Ela se transformou, espalhando-se nas estruturas de poder que hoje matam de fome Gaza e armam os senhores da guerra do Sudão.

Tanto a Grã-Bretanha quanto seu império sucessor, os Estados Unidos, mantiveram deliberadamente suas colônias em estado de dependência. No Sudão, negaram a formação de um Estado centralizado forte, limitaram a economia à produção agrícola marginal subordinada aos interesses britânicos e aplicaram táticas de divisão e dominação, sustentadas por doutrinas raciais. Na Palestina, entregaram a terra aos colonos europeus sob o pretexto de “autodeterminação” e, nos 77 anos seguintes, financiaram o regime de apartheid de Israel. O padrão é o mesmo: fragmentar, explorar, dominar – e, por fim, deixar que as populações se destruam enquanto se lucra com os escombros.

E onde está o mundo? O apelo da ONU para o Sudão foi financiado em apenas 12%. A USAID sofreu cortes drásticos, enquanto a ajuda militar a Israel segue ininterrupta. A Europa reduz a assistência humanitária ao Sudão, mas continua vendendo armas que acabam nas mãos da RSF. Os mesmos governos que vetaram todas as resoluções de cessar-fogo da ONU para Gaza ignoram completamente o Sudão, a não ser quando há ouro a extrair ou rotas comerciais a proteger.

Foi isso que a Dra. Tanya Haj-Hassan testemunhou ao atravessar os campos agrícolas do Sudão para tratar crianças desnutridas: “Você pensa: como, neste mundo moderno?”. Ela recordou ter visto a fome na Etiópia quando era criança, acreditando que fosse causada pelo clima, um ato de Deus. “E então você cresce, amadurece e percebe que essas coisas são causadas pelo homem.”

Causadas pelo homem, sim. Mas por quais homens? Por aqueles mesmos arquitetos imperiais que decidiram que algumas populações merecem um Estado, enquanto outras merecem passar fome. Pelos fabricantes de armas que lucram com ambas as máquinas de morte. Pelas potências ocidentais que instalam ditadores, armam milícias e depois lavam as mãos quando os corpos se acumulam. Pelos Emirados Árabes Unidos, que disseminam propaganda divisória em todo o mundo muçulmano para conter a luta anti-imperialista, ao mesmo tempo em que colaboram com Israel para desmantelar qualquer forma de resistência à ocupação.

Alguns dirão que Gaza e o Sudão são diferentes – um seria um caso de colonialismo de povoamento; o outro, uma guerra civil entre milícias. Mas, se deixarmos de lado os rótulos, veremos os mesmos métodos de violência: potências externas armando representantes locais, usando a fome como arma, atacando civis de forma sistemática, bloqueando a ajuda humanitária e, depois, culpando as próprias vítimas por sua tragédia. É a mesma “comunidade internacional” que poderia pôr fim a ambos os “conflitos” amanhã, se quisesse – mas que lucra demais com a matança para fazê-lo.

Não podemos permitir que a visibilidade de Gaza ofusque a invisibilidade do Sudão. O mesmo fantasma assombra ambos. O legado de extração e dominação do Império Britânico sobrevive em cada comboio de ajuda bloqueado, em cada carregamento de armas, em cada cessar-fogo violado por aqueles que jamais tiveram a intenção de cumpri-lo.

Não podemos escolher quais demônios nomear. Os embargos de armas devem atingir não apenas Israel, mas também todos os governos que sustentam os senhores da guerra do Sudão. Devemos exigir sanções até que haja a retirada completa das forças de ocupação na Palestina e o julgamento dos criminosos de guerra do Sudão em Haia.

Mais do que isso, precisamos rejeitar a mentira de que se trata de crises isoladas, que pedem lutas e movimentos separados. Cada piquete que bloqueia o envio de armas a Israel deve também bloquear o fluxo de armas para a RSF. Cada sindicato que entra em greve pela Palestina deve fazê-lo também pelo Sudão. Cada apelo por responsabilização em Gaza deve incluir a responsabilização por Darfur. A solidariedade não pode ser seletiva, porque o sistema que mata ambas as populações tampouco é seletivo em quem devora.

Infelizmente, a revolta é abundante; a solidariedade, porém, é infinita. As conexões entre essas lutas não são exercícios teóricos: são fatos materiais escritos em remessas de armas, nas transações financeiras e nos despachos diplomáticos.

Enquanto não desmantelar por completo esse sistema, enquanto não rompermos as cadeias de abastecimento da morte que conectam Tel Aviv a Cartum, Londres e Washington, o padrão continuará se repetindo: novas populações, os mesmos fantasmas, os mesmos túmulos.
Rima Awada Zahra

Há hoje um palestiniano na liderança global dos evangélicos

No dia 30 de outubro, em Seul, teve lugar uma nomeação verdadeiramente histórica, quando a Assembleia Geral da WEA (World Evangelical Aliance) empossou o Rev. Botrus Mansour como novo secretário-geral da instituição que representa 650 milhões de cristãos em todo o mundo, confiando-lhe assim a liderança de uma comunhão global de alianças nacionais. Juntamente com ele, foi nomeado um novo Conselho Internacional.

Sendo uma das maiores comunidades de fé do mundo, a Aliança Evangélica Mundial inclui 161 alianças nacionais de 161 nações em todo o mundo, procura defender a liberdade religiosa, promover a unidade entre os evangélicos e difundir a mensagem do Evangelho em todo o mundo. A Assembleia Geral juntou 850 delegados de 124 países e ainda 4.000 pastores coreanos.

Segundo a WEA, “a nomeação do Rev. Mansour marca a conclusão culminante da Assembleia Geral da WEA, que durou uma semana e transformou Seul num centro global de unidade evangélica. A liderança anunciou uma nova fase de fortalecimento da voz coletiva e da participação das alianças membros, com o objetivo final de moldar o testemunho evangélico global.”


Mansour dirige a Escola Baptista de Nazaré desde 2004, a única escola evangélica reconhecida pelo Ministério da Educação de Israel, que funciona desde o jardim de infância até ao ensino médio.

Decerto que no processo de eleição foi considerada a vasta experiência de liderança do Rev. Mansour naquela região do mundo, a qual incluiu a presidência tanto da Convenção das Igrejas Evangélicas em Israel como da Aliança das Convenções Evangélicas na Jordânia e na Terra Santa.

Esta nomeação ocorre numa fase muito crítica para os cristãos do Médio Oriente, tendo em vista a guerra de Israel em Gaza, os ataques recorrentes dos colonos judeus ao povo palestiniano na Cisjordânia e o bloqueio político israelita ao princípio dos dois estados, mas também reflecte, por outro lado, o compromisso da Aliança Evangélica Mundial com o seu propósito de fazer repercutir ao mais alto nível uma representação global.

No discurso de posse, o Rev. Mansour declarou: “É algo profundo que, neste momento, um cristão palestiniano de Israel tenha sido convidado a servir como Secretário-Geral. Especialmente neste momento, quando há um cessar-fogo que, espero, se mantenha na nossa região após mais de dois anos de guerra, presto homenagem ao meu povo e ao meu país.”

A visão da WEA, que o Rev. Mansour partilha, é ver “o mundo inteiro alcançado pelo Evangelho até 2033”, marcando dois mil anos desde a ressurreição de Jesus Cristo, mas na base da unidade e na prática do discipulado.

Os estudos indicam que o cristianismo evangélico é hoje essencialmente um movimento do Sul Global, dada a transumância da fé cristã do hemisfério norte para o sul, visto que, atualmente, 70% dos evangélicos do mundo – e que são centenas de milhões de pessoas – se localizam em África, na Ásia e na América Latina.

Para isso tem contribuído de forma decisiva o avanço do secularismo na Europa, em particular depois da segunda guerra mundial, mas também as mudanças sócio-religiosas verificadas na América do Norte durante as últimas décadas.

A transição de liderança na Aliança Evangélica Mundial também inclui a posse do Rev. Dr. Godfrey Yogarajah, CEO da Aliança Evangélica Cristã Nacional do Sri Lanka e Presidente da Aliança Evangélica da Ásia, como novo Presidente. O Dr. Yogarajah afirmou: “Somos administradores de um grande legado e de uma missão global”.

O movimento evangélico mexe-se e surpreende. A Aliança Evangélica Mundial acabou de eleger um palestiniano como secretário-geral, um asiático como presidente e promete trabalhar em força na evangelização, com os olhos postos em 2033, que é já ali.

segunda-feira, 17 de novembro de 2025

Pensamento do Dia

 


É justo transformar tragédias reais em entretenimento?

Um dos principais streamings do Brasil acaba de estrear uma série que conta, em formato de ficção, algumas das tragédias e crimes que mais abalaram o país nos últimos anos. Tremembé, enquadrada na categoria de true crime, poderia facilmente se confundir com qualquer série de suspense ou ficção que estamos acostumados a maratonar, se não fosse o fato de as histórias ali serem reais e terem chocado toda uma nação. É como se estivéssemos novamente vivendo esse processo de luto coletivo. Eu acreditava que, em 2015, após as cerca de 3 horas de entrevista realizada por Augusto Liberato (Gugu) com Suzane Von Richthofen e toda a polêmica gerada na época, já havíamos consensado que a espetacularização de crimes e tragédias não era aceita pela sociedade brasileira. Na época, a pergunta mais recorrente nos meios de comunicação era: “Vale tudo pela audiência?”

Agora, novamente, nos vemos diante dessa pergunta: vale tudo pela audiência, pelo capital, pela geração de lucro para empresas privadas do setor de telecomunicações?

Pensei nos familiares dos envolvidos, nas famílias, nas vítimas. Acredito que tampouco foram consultados ou necessitaram emitir qualquer tipo de autorização prévia para que a série fosse realizada.

Ocorreu-me também pesquisar se os criminosos envolvidos tinham alguma participação na construção narrativa ou recebiam pela obra. As informações públicas que localizei afirmam que, por se tratar de informações de domínio público, já há muito reviradas pela mídia, trata-se de dados históricos.

Como mencionei, pensei então nos brasileiros: que sentido faz para nós revivermos essas histórias em formato de entretenimento? Além disso, ao que tudo indica, não estamos falando de uma obra acabada, com começo, meio e fim. Ao final do último episódio, fica evidente o gancho para que haja outras temporadas. Quantas? Não sabemos!

Os envolvidos são coisificados ao serem tratados como meros personagens e não como pessoas reais; o compromisso com a veracidade dos fatos se perde, afinal, não é um documentário. A espetacularização da tragédia vai, aos poucos, sendo banalizada, e somente um agente ganha: a empresa proprietária do streaming.

Impossível não lembrar de Hannah Arendt, filósofa que nos alerta sobre a banalização do mal. Acredito que a maior vilania, neste contexto, reside em uma empresa privada que decide revisitar algumas das maiores dores de uma nação sem qualquer compromisso público, ético ou social que não seja o de promover o próprio enriquecimento. Por fim, reflito: com uma legislação tão fraca nesse sentido, hoje são essas famílias, essas pessoas, essas histórias. Amanhã, pode ser qualquer um de nós. Qualquer história que ocorra no país e se torne de domínio público poderá ser revirada, exposta, devassada por uma rede de streaming?

Diante desse cenário, cabe a nós, enquanto sociedade, refletir profundamente sobre os limites éticos entre informação, entretenimento e mercantilização da dor. O debate que se impõe não é apenas sobre uma série, mas sobre os valores que estamos dispostos a preservar em nome do lucro e do consumo cultural. Ao naturalizarmos a exploração da tragédia humana como espetáculo, corremos o risco de enfraquecer nossa sensibilidade coletiva e o respeito à dignidade das vítimas, de seus familiares e da própria memória social. O Brasil já viveu dores demais para que agora sejam transformadas em produto de entretenimento. É urgente que revisitemos nossos marcos legais, nossos valores e nossa responsabilidade enquanto público, para que o direito à privacidade, à memória e à dignidade não seja sacrificado no altar da audiência.

Tremembé e o risco de assassino virar influencer

Na primeira cena da série sensação do momento, Tremembé, o presídio dos famosos, Suzane von Richthofen, interpretada com maestria por Marina Ruy Barbosa, aparece atordoada e linda, sentada sozinha na sala de sua casa enquanto seus pais são assassinados a pauladas. Em seguida, a garota está assustada no meio de um presídio. A trilha sonora animada e a direção esperta já mostram o tom pop que a série da Amazon vai tomar, apesar dos acontecimentos horríveis que vai retratar, como pessoas mortas a pauladas, crianças jogadas de apartamentos e corpos esquartejados.

A direção moderna e a pegada jovem de Tremembé não seriam problema algum – muito pelo contrário –, se a série fosse somente uma peça totalmente de ficção. Mas a produção, baseada no livro do escritor e jornalista Ulisses Campbell, conta a história de presidiários famosos – um termo que já é esquisito em si, assim como o título da obra –, como Suzane von Richthofen e os irmãos Daniel e Cristian Cravinhos, responsáveis pelo assassinato dos pais de Richthofen; Elize Matsunaga, condenada por matar e esquartejar o então marido, Marcos Kitano; e Ana Carolina Jatobá e Alexandre Nardoni, condenados pela morte da menina Isabella Nardoni, que foi jogada de um prédio aos cinco anos.


Apesar de falar por alto de outros presos, a série conta principalmente a história de Suzane, que é a protagonista, Elize e Ana Carolina Jatobá. Os irmãos Cristian e Daniel Cravinhos figuram como espécies de galãs sensuais do presídio Tremembé. As moças, branquinhas e com jeito de boazinhas, contribuem para essa "fetichização" do crime.

Olhando para esses rostinhos inocentes de classe média, pensamos: "Como essa moça que tinha tudo foi fazer isso?" "Como essa menina loirinha e inocente pode ser tão cruel?" Entendo que esses casos causem fascinação em todos nós. Confesso que eu mesma corri para ver a série. É natural que histórias como as de Suzane e Elize causem um fascínio esquisito, aquele que faz com que a gente pense: "Como ela foi capaz?" Ou mesmo um alívio de "não sermos tão malvados assim". Isso é normal, demasiadamente humano e explica em parte a febre das histórias de "true crime" (os crimes reais).

Mas precisamos estar atentos e não podemos romantizar os personagens ou banalizar seus crimes. Na série, uma das trilhas sonoras de Suzane é "Perigosa", uma música antiga das Frenéticas que diz: "Sei que eu sou/ bonita e gostosa [...] cuidado, garoto/ eu sou perigosa." É preciso lembrar que Suzane não é uma "fofinha perigosa", mas uma assassina cruel, responsável – vamos repetir – pela morte dos pais a pauladas.

"Ah, mas é apenas entretenimento", alguém pode dizer. Pois então, é aí que mora o problema. No caso da série e de outros produtos do gênero "true crime" estamos nos entretendo com crimes reais, com dramas que realmente mataram pessoas e destruíram famílias.

E, por isso mesmo, precisamos ouvir Ana Carolina Oliveira, mãe de Isabella Nardoni. Ao comentar a série em sua conta no Instagram, ela disse: "O que me preocupa nessas questões é trazer criminosos para os holofotes e tratar como se eles fossem celebridades e não com a seriedade de cada caso. Nós que ficamos somos vítimas secundárias e isso faz parte da nossa vida; a gente tem que ser respeitado." Ela pediu para que os espectadores tomassem cuidado "para que eles [criminosos] não se tornem pessoas públicas e até virem aí os seus extremos de terem, como a gente já viu, pessoas idolatrando".

Ana Carolina identificou algo que, acredito, infelizmente já está acontecendo. As notícias sobre os "personagens" da série em páginas de fofoca, os vídeos de criminosos condenados comentando trechos da série sendo reproduzidos em todo canto e notícias do estilo "Suzane reativa página no Instagram e chega a 100 mil seguidores", provam que a mãe de Isabella está coberta de razão.

Os personagens da série caminham, com ajuda da nossa curiosidade mórbida e de parte da mídia, para ocupar um dos postos mais cobiçados do momento: o de "influenciadores". É tanto holofote que muitos estão esquecendo que os personagens de Tremembé são pessoas reais, que cometeram crimes terríveis. Se continuar nessa toada, logo veremos Suzane von Richthofen fazendo publi.

Ignorância ultraprocessada

Há tempos as escolas seguem repetindo em seus livros didáticos que o Brasil é o celeiro do mundo. Livros esses que agora passam pelo crivo de uma censura disfarçada, como deseja a Frente Parlamentar da Agropecuária que “busca a atualização de livros didáticos aplicados em escolas sobre a realidade da agropecuária”, seguindo a lógica falaciosa e arcaica de que temos que produzir mais alimento porque a população mundial está em crescimento.

O que não se fala é que há hoje no mundo alimento suficiente para eliminar a fome de todas as pessoas no planeta. Segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), temos uma produção de alimento de 2,5 bilhões de toneladas anuais suficiente para alimentar 10 milhões de pessoas (e a população mundial atual é de 8,2 bilhões). Ao mesmo tempo, há um desperdício 1,3 bilhão de toneladas anuais, ou ainda, mais de 1bilhão de refeições diárias.

Alimento sobrando e pessoas passando fome. Por que isso? Usando o Brasil como exemplo, temos que a produção, em grande maioria (70%), não é alimento, mas matéria-prima bruta para exportação, principalmente soja, milho, algodão e cana-de-açúcar, a ser transformada em ração animal, por exemplo. As chamadas commodities, sem valor agregado e que favorece/enriquece apenas os grandes latifúndios.

Com isso temos 750 milhões de pessoas no mundo ainda passando fome (escassez grave e generalizada de alimentos que leva à desnutrição, à inanição e à morte), ou ainda 2,3 bilhões de humanos (sobre)vivendo em insegurança alimentar (falta de acesso regular e permanente a alimentos de qualidade e em quantidade suficiente para uma vida saudável, sem saber se terão o que comer até a fome crônica, causada por fatores como falta de renda, crises econômicas, conflitos e mudanças climáticas).


Quando focamos apenas em crianças menores de 5 anos, essa fome (pela falta de distribuição de alimento e não pela falta de produção), anualmente são 6 milhões delas que morrem de fome! Apenas a título de curiosidade em 6 anos da 2ª Guerra Mundial, matou-se um décimo do que se mata hoje em relação às crianças pela fome (excluirei dessa análise as guerras que causam fome e miséria no Sudão, Congo, Somália, Haiti e até mesmo o holocausto palestino, que além do genocídio impetrado pelos sionistas aliados dos nazistas desde 1948, seguem sob cerco desde 2007, sob condições ainda mais desumanas, racistas e de limpeza étnica, que agora tenta novamente se reerguer sob um pseudo cessar-fogo).

A concentração de renda – e terras – promove a desigualdade social, como nos alertou Marx. Para se ter uma pequena – e revoltante – ideia sobre isso e a barbárie que esse sistema econômico impõe, lembremos que 1% da população mundial (o que corresponde a cerca de 80 milhões de pessoas, possui 45% da riqueza mundial (um patrimônio de 210 trilhões (!) de dólares. No Brasil, o relatório da Oxfam mostra que 63% da riqueza está nas mãos de apenas 1% da população, enquanto os 50% mais pobres detêm apenas 2% do patrimônio do país.

(Em tempos de COP30, é importante dizer também que a pequena porcentagem de 0,1% dos mais ricos do mundo, são os responsáveis diretos por emitirem mais carbono na atmosfera em um único dia.)

E de acordo com o relatório da Oxfam, apenas 1% da riqueza acumulada em dez anos no mundo poderia acabar com a pobreza mundial por 22 anos. Mas como sabemos, a fome é uma questão política. Ou seja, o que o mundo produz de riqueza hoje é suficiente para assegurar o bem-estar econômico de todas as pessoas do planeta.

Mas a questão é: por que não fazem isso? Por que esse 1% insiste em manter essa desigualdade e, mais ainda, ser o principal responsável pela destruição acelerado do planeta? Por que o 1% mais rico do planeta polui tanto quanto cerca de 5 bilhões de pessoas e não se preocupam em diminuir ou acabar com isso? O que parece teoria conspiratória, de que desejam acelerar a destruição para sobreviverem em seus bunkers de luxo e até colonizarem novos planetas, parece não ser tão conspiratório assim.

Como diz o diretor executivo da Oxfam Internacional, Amitabh Behar, a crise climática é uma crise de desigualdade. Os indivíduos mais ricos do planeta financiam e lucram com a destruição do clima, enquanto a maioria da população mundial paga o preço das consequências fatais do seu poder sem controle.

Mas voltando a questão dos alimentos. Atualmente atingimos um índice preocupante anunciado pela UNICEF: temos mais obesos do que pessoas desnutridas no mundo. A princípio isso pode parecer uma grande incoerência com o que foi escrito acima, afinal, se as pessoas estão obesas, é porque estão comendo mais, certo? Errado! Obesidade é uma doença séria e crônica. Há problemas sérios relacionados a tudo isso: primeiro que obesidade não significa necessariamente uma pessoa bem nutrida, e junto dela, além das doenças já conhecidas (diabetes, colesterol elevado, problemas articulares, invalidez etc.), os índices de obesidade estão sendo atingidos pelo modo de vida que temos adotado (leia-se, sedentarismo) e pelos tipos de alimentos ingeridos, com base em ultraprocessados.


E quem está por trás desse tipo de comida? Corporações globais de indústrias do agronegócio e farmacêutica. Uma sacada sensacional do sistema capitalista, afinal, os ingredientes usados nesse tipo de comida são de baixo custo, carregados de conservantes, aromatizantes viciantes, açúcar, sal e todas as formas que garantem não apenas uma produção à baixo custo, mas grande durabilidade e, principalmente, fácil acesso, seja para o transporte ou pelo preço acessível – em especial para a grande maioria das pessoas de baixa renda e que “em seu corre diário”, não tem tempo/dinheiro para se alimentarem de forma correta.

Esse tipo de postura imposta à sociedade (do cansaço, como diria Byung-Chul Han) é o que podemos chamar de nutricídio, termo criado na década de 90 pelo médico Llaila Afrika: dificuldade ou falta de acesso a alimentos saudáveis e que deveriam fazer parte da cultura alimentar, incluindo as consequências que isso traz à saúde.

Além de baixa qualidade, carente de nutrientes essenciais e repleto de aditivos sintéticos, usam como base produtos contaminados com agrotóxicos. Agrotóxicos, em sua grande maioria, banidos na própria Uniao Europeia, mas que seguem sendo liberados e usados no Brasil e em vários países do sul global em concentrações extremamente abusivas.

Apenas para ilustrar, cito como exemplo o glifosato. De acordo com dados do USDA (Departamento de Agricultura dos Estados Unidos), mais de 90% do milho e da soja produzidos no país são geneticamente modificados (os chamados “transgênicos”) para tolerar esse herbicida. Em estudo publicado pela revista científica Journal of the American Medical Association (JAMA), foi constatado um aumento da exposição dos estadunidenses em 500% desde a introdução desse químico nas lavouras a partir de 1996. As amostras de urina de crianças e adultos, realizadas em 2022 pelo Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA, revelou a presença do agrotóxico em 80% das pessoas.

Não preciso falar novamente dos danos que esses agrotóxicos causam não apenas nos seres humanos, mas nos demais seres vivos e no ambiente como um todo – a quem interessar tenho outros artigos tratando especificamente sobre isso, além de relatar em um dos capítulos de meu livro Entre mitoses e revoluções.

E contrariando o desejo de omitir os fatos do agronegócio negacionista, mais evidências surgem do problema que o combo ultraprocessados/agrotóxicos causam nas pessoas.

Uma pesquisa publicada pela revista científica BMJ Oncology, mostra que no mundo houve um aumento de 79% nos novos casos de câncer entre pessoas com menos de 50 anos nas últimas três décadas (1990-2019). Entre os fatores estão o tabagismo, sedentarismo e obesidade. O que chamou a atenção foi o aumento expressivo, nas últimas décadas, de câncer de intestino em jovens, tornando esse a principal causa de morte por câncer em homens com menos de 50 anos.

No Brasil, a situação não é diferente. Dados apresentados pelo DataSUS também mostra um aumento significativo de 284% nos registros de câncer entre jovens até 50 anos no Sistema Único de Saúde (SUS) entre 2013 e 2024. Por um lado, isso se deve a melhoria nos diagnósticos, mas é inegável que fatores ambientais também respondem por esse incremento.

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e o Instituto Nacional de Câncer (Inca) foram enfáticos em afirmar e reconhecer que a exposição aos agrotóxicos sintéticos eleva o risco de alguns tumores, principalmente em trabalhadores rurais e populações vulneráveis (as mesmas que ingerem alta quantidade de ultraprocessados).

Outro aspecto que chama atenção é o boom de pessoas intolerantes ao glúten. É fato que existem sim pessoas intolerantes (a ciência prova isso através da genética), no entanto, estudo pouco conhecido e publicado em 2019 mostrou que muitas pessoas diagnosticadas como intolerantes a essa proteína apresentavam similaridades com uma intolerância/alergia ao glifosato (agrotóxico químico utilizado amplamente na sociedade – sendo o Brasil seu maio consumidor – o tal “mata-mato”).

E o que fazem as pessoas intolerantes ao glúten? Usam medicamentos para amenizar o problema ou são obrigadas a deixar de ingerir produtos à base de trigo (bolos e pães, por exemplo). E quando a inflação intestinal ocorre, mais medicamentos são necessários para amenizar o problema.

Ainda de acordo com a pesquisa, a American Cancer Society mostrou que a incidência de linfomas (um tipo de câncer no sangue) aumentou em 80% desde a introdução do glifosato no mercado (início da década de 1970).

E nunca é demais lembrar que há uma relação direta entre essas empresas que causam doenças e vendem a cura – lembremos do “casamento dos infernos” entre Bayer (produtora de medicamentos e suplementos) e Monsanto (produtora dos agrotóxicos e dos organismos geneticamente modificados).

Mas a questão como um todo não para por aí. Novos estudos relacionam também os ultraprocessados com danos cerebrais.

Estudo publicado na revista Neuropharmacology prova que esse tipo de alimento, presente cada vez mais na dieta de adolescentes (e de pessoas mais pobres), sendo ricos em gordura e açúcar, afetam a região cerebral do hipocampo e o córtex pré-frontal do adolescente, causando efeitos a longo prazo de ansiedade, dificuldade no controle de impulsos e efeitos duradouros na função de aprendizagem e memória.

Em uma sociedade cada vez mais hipnotizada pelas telas, sedentária e regada com má alimentação, teremos gerações não apenas mais doentes – sobrecarregando o sistema de saúde, consumindo mais remédios sintéticos – mas igualmente alienadas, sem memória e aptas a cometerem os mesmos erros do passado. Não seria esse o objetivo por parte da maioria desses políticos que hoje ocupam o Congresso Nacional sem qualquer preocupação com o povo?
Luiz Fernando Leal Padulla

A nova onda autoritária

O populismo autoritário se espraia em diversas regiões do mundo, sob uma avalanche de vitórias obtidas por partidos da Direita. Em 2024, das 63 eleições realizadas no mundo, 27 foram conquistadas por candidatos da direita, com destaque para Trump (EUA), Putin (Rússia) e Modi (Índia).

Na América Latina, as eleições municipais no Brasil, de outubro de 2024, os partidos de direita e centro-direita avançaram significativamente, vencendo em quase 60% das prefeituras do país, o que confirmou um país mais conservador.

Na Argentina, a demanda por populismo de direita permanece forte, como evidenciado pela ascensão de Javier Milei, candidato de extrema-direita, eleito no final de 2023.


A direita tem obtido vitórias significativas em países do Cone Sul e em outras nações da América do Sul. No Paraguai, Santiago Peña, do conservador Partido Colorado, venceu a eleição presidencial em abril de 2023, mantendo a direita no poder (o partido governa o país há décadas com uma breve interrupção). A direita também tem governos no Equador (Daniel Noboa, desde novembro de 2023) e no Peru (Dina Boluarte, desde dezembro de 2022, e seu sucessor em 2025). A Bolívia, em outubro passado, elegeu Rodrigo Paz, um presidente de centro-direita.

Na Venezuela, o autoritarismo se manifesta através do controle de instituições e meios de comunicação pelo governo, repressão a opositores e restrição de liberdades. Esse processo, intensificado sob o governo de Nicolás Maduro, inclui a detenção de jornalistas e opositores, o fechamento de veículos de mídia independentes, o controle da justiça e a supressão de protestos. As eleições de julho de 2024, que teriam dado vitória à Maduro, foram amplamente contestadas, sob a denúncia de fraudes.

No Paraguai, o autoritarismo se manifestou em diferentes períodos, com destaque para as ditaduras de José Gaspar Rodríguez de Francia (1814-1840), Francisco Solano López (1862-1870) e, principalmente, Alfredo Stroessner (1954-1989).

Nos Estados Unidos, Donald Trump continua a ser uma figura central do movimento populista de direita global. Na Europa, as eleições de junho de 2024 apontaram notável avanço dos partidos de extrema-direita em vários países-membros.

Na Áustria, o Partido da Liberdade (FPÖ), de ultradireita, venceu as eleições parlamentares de setembro de 2024, com quase 29% dos votos, embora a formação de uma coalizão governamental ainda esteja em negociação. Na Alemanha, o partido Alternativa para a Alemanha (AfD) alcançou resultados históricos em eleições estaduais e nas eleições europeias, obtendo seu melhor desempenho desde a Segunda Guerra Mundial em algumas regiões.

Na França, o Reunião Nacional (RN) de Marine Le Pen também registrou um forte avanço nas eleições europeias. Na Holanda, o Partido pela Liberdade (PVV), de Geert Wilders, também teve um bom desempenho, ficando em segundo lugar nas eleições para o Parlamento Europeu. Na Áustria, o Partido da Liberdade (FPÖ), de extrema-direita, obteve uma vitória inédita nas eleições parlamentares, tornando-se a força política mais votada do país, impulsionado por pautas anti-imigração e preocupações econômicas.

No Parlamento Europeu, houve um avanço notável dos partidos de extrema-direita em junho de 2024, especialmente na Itália, Alemanha e França, alterando o equilíbrio de poder no bloco e reforçando a presença dessas forças políticas no cenário continental

Em alguns Estados da Alemanha, o partido Alternativa para a Alemanha (AfD) obteve seus melhores resultados desde a Segunda Guerra Mundial, consolidando sua força regional. Nos EUA, a reeleição de Donald Trump em novembro de 2024 é vista como um marco significativo, com sua retórica populista e autoritária mantendo uma influência global, servindo de referência para outros líderes.

O autoritarismo na Venezuela, sob o governo de Nicolás Maduro, é uma realidade amplamente documentada, sob a denúncia de terem sido fraudadas as eleições de 28 de julho de 2024. No Paraguai, o autoritarismo se manifestou em diferentes períodos, com destaque para as ditaduras de José Gaspar Rodríguez de Francia (1814-1840), Francisco Solano López (1862-1870) e, principalmente, Alfredo Stroessner (1954-1989).

Na Argentina, Javier Milei, de extrema-direita, continua a obter vitórias, após vencer as eleições em 2023. Seu partido obteve vitórias expressivas nas eleições legislativas de outubro de 2025, o que fortalece sua base de apoio no Congresso.

No Paraguai, Santiago Peña, do conservador Partido Colorado, foi eleito presidente em abril de 2023, mantendo a hegemonia da direita no poder do país. Na Bolívia, a Direita também conquistou uma vitória significativa com a eleição de Rodrigo Paz, fazendo com que passasse a governar cinco dos doze países da América do Sul (incluindo Equador e Peru fora do Cone Sul).

No Chile, embora o presidente atual, Gabriel Boric, seja de esquerda, a direita e a extrema-direita conquistaram maioria no conselho constituinte em 2023, e eleições futuras podem alterar o mapa político.

Já na China, o sistema político é predominantemente caracterizado como autoritário, de partido único, liderado pelo Partido Comunista Chinês (PCC). Esse modelo se aprofundou sob a liderança de Xi Jinping, que centralizou ainda mais o poder.

Em tempos de medo e descrença, o populismo autoritário encontra solo fértil. O eleitor, indignado, está dando sua resposta à democracia, que não tem cumprido suas promessas. P.S. Voltaremos ao tema.

domingo, 16 de novembro de 2025

Pensamento do Dia

 


O duto do crime

A principal instituição financeira do País, segundo os usuários, não é o Itaú, o Bradesco ou o Banco do Brasil, inconfundíveis e tradicionais, com suas logomarcas e cores próprias em cada esquina do Brasil, mas o Nubank, fintech criada em 2013 que não tem agências físicas, não capta depósitos e opera totalmente online por meio de aplicativos e da internet. É o que apurou um levantamento da empresa de pesquisas de mercado Okiar. O Nubank é preferido por 21,7% da população, o Itaú por uma parcela de 14,2% e o Bradesco, por 12%. Em outubro, seu valor de mercado, de 77,7 bilhões de dólares, superou, pela primeira vez, aquele da Petrobras, maior estatal brasileira e detentora do direito à exploração de milhões de barris de petróleo. PicPay, PagSeguro, XP Investimentos, Mercado Pago e C6 Bank são outros integrantes do que poderia ser chamado “Lado A” das fintechs. O lado B inclui o 2Go Bank e o InvBank, citados pela Polícia Federal como suspeitos de utilização pelo PCC para lavagem de dinheiro, o T10 Bank, usado em esquemas de criptomoedas em conexão com o crime organizado, e o BK Bank, braço financeiro do Primeiro Comando da Capital, entre várias instituições menos conhecidas.

Os lados A e B encontram-se tão distantes um do outro quanto as avenidas Faria Lima e Sapopemba, mas pertencem ao mesmo sistema financeiro, assim como as duas vias integram a cidade de São Paulo. Mas por que as fintechs passaram a ser usadas com tanta desenvoltura por criminosos? Há alguns motivos: regulação frouxa ou inexistente, dificuldade de rastreamento das transações e o uso desbragado de operações dissimuladas, entre elas as chamadas “contas-bolsão”, subterfúgio que permite esconder os donos do dinheiro. Essa flexibilidade, digamos assim, amparada no avanço tecnológico, transformou as instituições hitech­ na principal e mais eficiente alternativa aos bancos tradicionais para quem lava dinheiro e quer esconder o patrimônio. A lavanderia global tem novos sócios, está sob nova administração, e novos meios de entregar o serviço à clientela.


A existência de uma enorme zona cinzenta na qual operam as fintechs, a despeito do grupo de empreendimentos que aposta na idoneidade, deve-se, em grande medida, no caso brasileiro em particular, ao sucateamento das agências e atividades regulatórias, um dos entulhos criados pela criminalização do gasto público e da política fiscal pelo neoliberalismo, fato bem documentado em estudos de economistas. O uso crescente dessas instituições pelo crime organizado tem exigido um aperto fiscalizatório e tributário por iniciativa do Banco Central e do Ministério da Fazenda, mas o esforço encontra forte resistência no Congresso, dominado pelo Centrão, em conluio com o bolsonarismo. O Projeto de Lei que aumenta a tributação das bets e fintechs, gongado recentemente, continua a enfrentar resistências significativas no Parlamento, sob a desculpa esfarrapada de que os brasileiros não aguentam mais pagar impostos. Senadores avisaram o ministro Fernando Haddad ser alta a probabilidade de a medida, redesenhada pelo Executivo, ser novamente barrada.

O flagrante de fintechs a lavar dinheiro do crime na bem-sucedida Operação Carbono Oculto, da Polícia Federal, em plena Avenida Faria Lima, coração das finanças privadas nativas, alarmou o governo e ao menos três medidas foram tomadas. O BC aumentou as exigências de capital mínimo para as instituições, de 1 milhão para 9,2 milhões de reais, e decretou a extinção das “contas-bolsão”, usadas por facções. A Receita, por sua vez, anunciou a exigência de compartilhamento de informações a respeito das contas dos clientes, como se cobra das instituições tradicionais. Das cerca de 2 mil empresas em operação no mercado, estima-se que ao menos 500 teriam dificuldades para cumprir a regra de aumento de capital, o que tende a estimular um movimento de fusões e aquisições no setor.

Segundo Edemilson Paraná, professor de Economia Política na LUT University, da Finlândia, as medidas anunciadas pelas autoridades brasileiras representam um passo importante e necessário, mas não fecham todos os dutos. É preciso, defende, um esforço coordenado de regulação e controle, com supervisão ativa e colaborativa de diferentes órgãos e agências. Além de ampliar o escopo regulatório para alcançar as instituições financeiras não bancárias, ressalta Paraná, é preciso treinar e aparelhar adequadamente os órgãos de supervisão e controle, que hoje se encontram limitados em termos de infraestrutura de trabalho, particularmente de pessoal. É fundamental que esse esforço de supervisão, controle e até de coação seja articulado em termos de compartilhamento e ­coordenação de informações e ações entre os diferentes atores, frisa o economista.

“As medidas fecham algumas brechas, mas não todas, porque a questão principal são as normas de constituição de fundos de investimento pela Comissão de Valores Mobiliários. O Banco Central cobre uma parte do sistema, mas o principal está com a CVM. A identificação do CPF pela Receita é extremamente importante”, destaca Manfred Back, professor de Economia e ex-trader de renda variável. Para fechar ainda mais as válvulas de escape para a prática de crimes, prossegue Back, é necessária a unificação da fiscalização pelo BC. Hoje, só as fintechs que oferecem crédito dependem de uma aprovação da autoridade monetária. Com as medidas recentes, o problema não acaba, mas diminui. A questão maior, conclui o professor, é ética, e de livre iniciativa, de instituições aceitarem dinheiro sem perguntar a origem. “O problema a solucionar é o seguinte: quem fiscalizará os compliances?”

Para a advogada Lucía Ferrés, sócia da Ferrés Advogados, a CVM adota uma estratégia regulatória de comando e controle, o que demanda fiscalização intensiva e punição de todas as infrações apuradas. A escassez de recursos orçamentários frequentemente alegada pela autarquia compromete, entretanto, sua capacidade de executá-la. “O resultado inevitável é o comprometimento da supervisão preventiva eficaz no mercado, levando a uma atuação mais reativa, que responde a problemas estabelecidos em vez de antecipá-los. Uma fiscalização preventiva, ativa e abrangente é fundamental, e poderia, em tese, ter detectado vários esquemas fraudulentos como os investigados pela Operação Carbono Oculto. O que se viu ali e em inúmeros casos foi fiscalização muito aquém do necessário e investigação e reação tardia da CVM. O modelo regulatório atual da autarquia precisa ser debatido. É uma abordagem teórica que desencadeia resultados práticos”, sublinha Ferrés, autora de um livro sobre a regulação do mercado de valores mobiliários. CartaCapital perguntou à Comissão sobre a grave vulnerabilidade do sistema regulatório vigente no mercado de capitais, evidenciada nos crimes apontados pela Carbono Oculto, o modelo obsoleto e a falta de capacidade financeira. Recebeu uma resposta lacônica: “A CVM acompanha e analisa informações e movimentações relacionadas ao mercado de valores mobiliários, tomando medidas cabíveis, sempre que necessário. A Autarquia não comenta casos específicos”.

As normas editadas pelo Conselho Monetário Nacional e pelo BC vão na direção correta ao ampliar as exigências prudenciais e tratar pontos de fragilidade que favoreciam a utilização das fintechs e demais instituições reguladas para lavagem de dinheiro e outras atividades ilícitas, destaca Marcel Mascarenhas, sócio do Warde Advogados e ex-Procurador-Geral-Adjunto do Banco Central. Ainda há, porém, desafios relevantes para a prevenção e o combate à criminalidade no setor financeiro, que exigem fiscalização contínua, articulação institucional e inteligência. Um ponto de preocupação, sublinha Mascarenhas, é a insuficiência do quadro de pessoal do Banco Central, no menor nível histórico, e a ausência de recursos, ou mesmo de autonomia orçamentária, para fazer frente ao dinamismo do crime organizado, que parece estar sempre um passo à frente da ação estatal. Uma demanda recorrente no mercado, prossegue o advogado, é o acesso rápido a informações sobre operações suspeitas. Isto é, quando um banco ou ­fintech identifica operação suspeita com algum cliente e comunica os indícios ao BC ou ao Conselho de Controle da Atividade Financeira, a informação nem sempre chega às demais instituições do mercado.

O BC fez ajustes na regulação do Pix e de outros serviços de pagamento para possibilitar compartilhamento de alertas entre as instituições reguladas. “A Resolução Conjunta CMN/BCB nº 6, de 2023, foi um notável esforço nesse sentido. O Regulamento do Pix também foi atualizado algumas vezes para possibilitar acesso mais amplo aos alertas de segurança relacionados a transações suspeitas”, diz Mascarenhas.

A expansão das fintechs, a falta de regulação e seu uso pela criminalidade preo­cupam além das fronteiras brasileiras. Não são poucos os alertas de elevação significativa do risco de contaminação do conjunto do sistema financeiro, cada vez mais interligado, fator explosivo diante da probabilidade considerada elevada de uma nova crise financeira global. O mundo precisa ficar de olho em fintechs, fundos hedge, seguradoras, fundos de pensão, fundos de investimento e outras instituições não bancárias, menos supervisionadas, mas detentoras de metade dos ativos financeiros mundiais e do volume diário no mercado cambial, anotou o Fundo Monetário Internacional em alerta emitido em meados deste mês sobre novos riscos para a estabilidade financeira do planeta. “Os formuladores de políticas devem fortalecer a supervisão dos intermediários financeiros não bancários, cuja crescente interconexão com os bancos pode exacerbar choques adversos”, afirma o economista Tobias Adrian, conselheiro e diretor do Departamento de Mercados Monetários e de Capitais do FMI. Adrian lidera o trabalho da instituição em supervisão e capacitação, políticas monetárias e macroprudenciais, regulação financeira, gestão da dívida e mercados de capitais. Foi vice-presidente sênior do Federal Reserve de Nova York e lecionou nas universidades de Princeton e de Nova York.

A valorização excessiva de ativos e as pressões nos principais mercados de títulos soberanos, prossegue Adrian, mantêm elevados os riscos de instabilidade em meio à crescente incerteza econômica. As vulnerabilidades podem ser amplificadas pelo crescimento das instituições financeiras não bancárias, devido à sua importância cada vez maior como formadoras de mercado, provedoras de liquidez e intermediárias nos mercados de crédito privado, imobiliário e de criptomoedas. “Conforme detalhamos em nosso novo Relatório de Estabilidade Financeira Global, os testes de estresse mostram que as vulnerabilidades desses intermediários não bancários podem transmitir-se rapidamente ao sistema bancário central, amplificando os choques e complicando o gerenciamento de crises”, acrescenta o economista.

Seguradoras, fundos de pensão e fundos de investimento, apesar de não captarem depósitos, desempenham um papel cada vez mais importante nos mercados globais. Essa mudança na intermediação financeira exige uma abordagem mais abrangente e voltada para o futuro na avaliação de riscos. Ao contrário dos bancos, as instituições não bancárias, em sua maioria, operam sob uma regulamentação prudencial mais branda. Além disso, muitas proveem informações limitadas sobre ativos, alavancagem e liquidez, o que dificulta a detecção de vulnerabilidades. Elas podem facilitar as atividades do mercado de capitais e canalizar crédito para tomadores, prossegue Adrian, mas a sua expansão também “aumenta a tomada de riscos e a interconexão no sistema financeiro”. Nos Estados Unidos e na Zona do Euro, diz o economista do FMI, muitos bancos têm exposições a instituições não bancárias que excedem seu capital de Nível 1, reserva crucial que permite a uma instituição absorver perdas e manter-se estável em tempos de crise. Da mesma forma, as fintechs e assemelhadas agora respondem por metade do volume diário de negócios no mercado cambial, mais que o dobro de sua participação há 25 anos, como demonstramos no Relatório de Estabilidade Financeira Global.

Fontes do governo brasileiro confirmam um crescimento exponencial das chamadas NBFI, as Non-Bank Financial Intermediaries Institutions. Ou seja, instituições que não são bancos, mas fazem intermediação financeira. A participação dos hedge funds nos leilões do Tesouro, seja o canadense, o norte-americano ou o inglês, expandiu-se vertiginosamente. A liquidez hoje está muito mais nesses empreendimentos do que nos bancos, apontam relatórios internacionais. Muitas vezes um Banco Central ou autoriza e não regula e supervisiona adequadamente, ou nem autoriza, nem regula, nem supervisiona essas instituições. O BC brasileiro não tem nenhum poder sobre os ­hedge funds atualmente. E a maior parte dos títulos públicos do País, que é o que realmente importa para as oscilações da curva de juros, está nas mãos deles.

Há uma discussão crucial nessa área, não só no Brasil. O Banco Central da Inglaterra, após o fracasso do plano econômico da ex-primeira-ministra conservadora Liz Truss, criou infraestruturas para injetar liquidez nesses fundos, casos eles venham a enfrentar problemas. O motivo? Eles ficaram grandes demais para quebrar. Ou seja, oferecem um risco nada desprezível ao sistema financeiro da ilha. Ao contrário dos BCs usuais como concebidos originalmente, onde a infraestrutura para prover liquidez só pode ser acionada por bancos, na Inglaterra atual, a função abrange fundos de pensão e seguradoras. O Fed, Banco Central dos Estados Unidos, também criou uma ­­repo ­facility, mecanismo de recompra ao alcance de autoridades monetárias estrangeiras, para dar liquidez aos hedge funds. O Banco do Canadá aumentou, por sua vez, a abrangência da infraestrutura para prover liquidez. O Financial Stability Board, instituição da qual o Brasil faz parte, e os reguladores de mercado alemães têm afirmado que não pretendem apenas dar liquidez para instituições não bancárias quando preciso, mas supervisioná-las e regulá-las.

Economistas do setor financeiro e o próprio BC nacional defendem uma proposta de emenda constitucional que permita o aumento do perímetro regulatório para alcançar esse tipo de empreendimento e reduzir o risco do sistema, em sintonia com as tendências internacionais mais avançadas. Uma complicação adicional é a conexão direta entre as fintechs de pagamento e os criptoativos, principalmente stable coins vinculados ao dólar, com status formal elevado por decisão do governo Trump.

“Os sinais de alerta estão por toda parte e são perturbadoramente familiares. Os preços dos ativos estão subindo muito além do que pode ser justificado pelos fundamentos subjacentes, enquanto as instituições financeiras não bancárias agora desempenham um papel semelhante ao dos ‘bancos paralelos’ na crise financeira de 2008. Ao mesmo tempo, a ascensão das stable coins levou os bancos regulamentados para o mundo opaco das criptomoedas, e vastas somas de capital especulativo inundam as ações de Inteligência Artificial, impulsionadas mais pela euforia do que por retornos comprovados”, elencou em artigo recente a economista Jayati Ghosh, professora na Universidade­ de Massachusetts Amherst e copresidente da Comissão Independente para a Reforma da Tributação Corporativa Internacional. “O desmantelamento das já frágeis regulamentações financeiras sob o governo do presidente Donald Trump só agravou a ameaça.” Crime e crise, neste caso, andam perigosamente juntos.

Big deals

No dia 27 de outubro, a OpenAI publicou uma carta aberta, exortando o governo dos Estados Unidos da América a investir na rede energética. Não surpreende. Dias antes, tinha divulgado o acordo com a Oracle para a construção de novos data centers. Esta infraestrutura, a somar a outros data centers já anunciados, só será rentável com energia barata. No seu mais recente relatório, a Agência Internacional de Energia (AIE) estima que o consumo de energia dos data centers atinja 945TWh em 2030, o dobro face ao valor de 415TWh, no ano passado.

O custo ambiental associado é brutal. Atualmente, apenas 27% da energia consumida nos data centers provém de energias renováveis (solar, eólica e hídrica). O gás natural representa 26% da energia consumida, mas estima-se um crescimento significativo face às políticas pró-gás da Administração Trump e uma vez que os data centers serão na sua maioria construídos nos EUA.


Ao custo ambiental soma-se o custo financeiro da construção das infraestruturas de produção de energia. Esse, a ser partilhado com os consumidores. O objetivo da carta é que o Estado (americano e os demais onde data centers sejam anunciados – e há vários anunciados na Europa) suporte o investimento. O Estado são os cidadãos, como consumidores – cuja fatura de eletricidade aumenta – e como contribuintes, impostos que serão priorizados para este fim ou para suportar os juros da dívida pública emitida para construir a infraestrutura. E, embora não se questione o papel do Estado na construção de infraestruturas básicas, importa ter presente que este aumento exponencial de capacidade só é necessário porque as big tech recusam qualquer limitação à quantidade de energia consumida 24/h dia, sete dias por semana.

Ou seja, a OpenAI quer uma infraestrutura paga pelos consumidores/contribuintes para permitir um consumo a 100%, a 100% do tempo. Na perspetiva do seu negócio, é totalmente justificável. Se todos os utilizadores, às 24 horas do dia 31 de dezembro, pretenderem converter uma foto ao estilo de um desenho animado japonês, deverão poder fazê-lo. Mas numa perspetiva de gestão de recursos, que são finitos e que têm um impacto ambiental muito significativo, impõe-se regulação para uma gestão eficiente da rede elétrica, que é um bem comum.

O consumo de água e o stresse provocado nos lençóis freáticos é outro dark side do negócio, que a OpenAI prefere não abordar na carta aberta. Os chips são sensíveis e para garantir o seu bom funcionamento há que construir os data centers em locais de baixa humidade, com temperaturas amenas (idealmente entre 18°C e 27°C) e com acesso a água. E, embora água dessalinizada possa ser utilizada, as empresas preferem utilizar água doce, pois provoca menos danos no equipamento. Chama-se nuvem, mas os data centers não estão no céu, mas no solo, em zonas com climas áridos, onde os lençóis freáticos já estão muito stressados pelo consumo agrícola e humano.

As big tech têm recusado divulgar dados exatos sobre a utilização quer de energia, quer de água, nos data centers. Na sequência de um estudo aprofundado realizado pela conceituada MIT Technology Review (a revista do Instituto de Tecnologia de Massachusetts), a Google divulgou que cada promp consumia em média 0.26 mililitros de água. Mas o número por si não significa nada. O objetivo, aliás, parece ser tranquilizar-nos. Afinal, o que são cinco gotas de água… Mas tal é enganador. O Lawrence Berkeley National Laboratory estimou que, em 2023, o consumo de água pelos data centers localizados no território americano atingiu 64 mil milhões de litros e que, em 2028, tal valor poderá quadriplicar, face aos constantes anúncios de novas infraestruturas. Se a utilização de água potável de rios e lençóis freáticos não for regulada, o custo para a ecologia e as populações locais será suportado pela comunidade e não pelos acionistas das big tech. Afinal, em 2028 não vai chover quatro vezes mais…

As ações da Oracle e de outras big tech continuarão a valorizar-se a cada novo anúncio. E com razão… Afinal, grande parte dos investimentos (e dos custos associados) é suportada pelo contribuinte e não pelo acionista. Assim será, enquanto os Estados não assumirem uma regulação efetiva das infraestruturas.

As questões da Inteligência Artificial

Tudo está no começo, as questões surgem, possíveis soluções, expectantes afirmações quanto às derrotas e incertezas na rotina do mundo. Algumas profissões deixarão de existir, já sabemos. Os mais eufóricos aplaudem sem hesitar essa invenção no campo da ciência e tecnologia. Certamente fará com que a humanidade adquira mais conhecimento com muitos ganhos. Já começa a provar isso no uso de nossas atividades, gerando boas expectativas em setores diversos.


Com o abrigo dessa senhora que vem para solucionar questões, desamarrar nós, a humanidade caminhará por outros rumos, não há dúvida. Obstáculos intransponíveis serão superados na passagem da existência. Viveremos melhor com a sua chegada, ela não veio para fazer a maldade, alguns observam. Celebram a portentosa aparição da deusa com atuação incrível para melhorar o nível de vida em nosso estar no mundo.

Mas preocupa o seu uso por esse agente dotado de razão e emoção, o que se desvia da ternura com facilidade, se contradiz na essência porque ainda não conseguiu se libertar da fera que habita em si mesmo. Convive com ela entre incômodos, numa fome sem precedentes, desde o tempo das cavernas. Sanha que muitas vezes se apresenta com as manadas alucinadas e faz horrores em nosso planeta. Na busca do poder, incorrigível, gosta de inventar o extermínio de inocentes, milhões foram levados para o matadouro e reduzidos a cinzas. Como ele gosta de ser o dono de um poder absoluto no império da tragicidade. Às vezes, mata com prazer o semelhante e não enterra

Esse agente ativo, animal político e social, sempre foi a fera de si mesmo. Em sua caminhada famosa dominou o gigante Polifemo, desencantou medusas, descobriu novos mundos de gente remota habitado. Construiu arranha-céus, foi à lua e pretende instalar sua maneira de civilizar o mundo em outros planetas. Busca uma saída para sobreviver no aceno das galáxias ante as previsões temerárias. E, nessa chegada agora com uma inteligência metálica como outro suporte, anunciando que melhor será a vida, compreendida, dominada, usada para se obter benesses, faz pensar enquanto as estações passam indiferentes ao que nós somos em nossa mãe terra.

Outros momentos históricos foram marcados na humanidade como importantes por suas descobertas científicas, que impulsionaram a vida para o bem, e também para o mal. Recordemos o caso de Madame Curie, a primeira mulher que recebeu o Prêmio Nobel duas vezes, em áreas diferentes da ciência. A primeira que ingressou na Academia de Ciências da França. A primeira vítima do machismo cerrado em nações poderosas da Europa, como a França, mas que superou todas as adversidades que se colocaram na sua frente para que não fosse reconhecida a sua dignidade como uma genial cientista.

Pioneira nos estudos da radioatividade, descobriu os elementos rádio e polônio, foi fantástico como sua inteligência impactante abalou a Europa do século XX. Lançou as bases para a física nuclear. Suas pesquisas sobre a natureza da radiação, mesmo em condições precárias, que afetaram a sua saúde, forneceram a base teórica para o desenvolvimento da energia nuclear, que é a base da bomba atômica.

Encontramos na radioatividade descoberta por Curie resultados positivos e negativos. Se as suas descobertas revolucionárias têm aplicações na radioterapia para tratamento do câncer, por exemplo, foram utilizadas infelizmente na guerra com a bomba atômica. Foi então que se cometeu pelo mau uso da descoberta com amor à ciência e à humanidade as tragédias de Hiroshima e Nagasaki.

O que pode advir de negativo com a chegada da Inteligência Artificial? Eu me pergunto se eliminará os escritores de ficção e poesia. Na torcida para que isso nunca aconteça, seja o melhor para a humanidade, resolvi escrever o poema que transcrevo abaixo.

A Canção Reconquistada

O que me diz Hiroshima
negras vastidões desoladas,
o que me diz Nagasaki
ares roxos do sombrio cortejo,
o que me diz o ditador
galope insano do medo,
o que me diz a fera branca
fome louca de réu negro.

Sem esquecer a razão,
sem esquecer o coração,
sem esquecer a oração,
reconquista-se a canção,
é o que me diz a lição.
E sobre ti, vasta emoção
de rosa branca em floração,
cantares de amor choverão.

Cyro de Mattos

A nova vergonha: Quando o ódio tem wi-fi…

“A violência contra as mulheres já não se esconde. Está online. Ri-se em público. E tem fãs. O que devia chocar, diverte. O que devia ser crime, viraliza. O que devia ser punição, é conteúdo.”

Há uma violência que cresce em silêncio, mas à vista de todos. Não se ouve nos tribunais, não deixa nódoas negras, não chega à esquadra. Vive dentro de um ecrã. Respira em comentários. Propaga-se em partilhas e vídeos que se tornam virais.

É o ódio digital. E o mais assustador é que já não se esconde. Ri-se, tem público, faz likes.


Os novos agressores já não usam força física. Usam palavras, câmaras e redes. Usam o telemóvel como arma e a internet como plateia.

São miúdos. Alguns ainda nem são adultos. Crescem a ouvir que ser homem é dominar e ser mulher é provocar. Aprendem em fóruns escondidos que o problema não é a violência, é a recusa. Que o corpo das mulheres é uma dívida, não um limite.

Chamam-se incels, um nome que parece inofensivo mas que carrega raiva. São jovens que se dizem celibatários involuntários e que culpam as mulheres por isso. Transformam a frustração em ideologia e a rejeição em discurso de ódio. Entre memes, vídeos e piadas, normalizam a ideia de que as mulheres merecem castigo.

E há quem ache que isto é exagero. Não é. Há fóruns inteiros dedicados a ensinar rapazes a controlar, a humilhar, a vingar. Há vídeos com milhões de visualizações onde se explica que elas pedem respeito mas não o merecem. Há adolescentes que acham que filmar, partilhar e expor é apenas uma brincadeira. Não é. É crime. O artigo 199º do Código Penal é claro. Divulgar imagens íntimas sem consentimento é punido com prisão até cinco anos. Mas quando o autor tem dezasseis ou dezassete anos, o sistema hesita. A lei tutelar educativa fala em reeducação, em reintegração, em proteção. Mas quem protege as vítimas? Quem apaga os vídeos? Quem limpa a vergonha de uma rapariga cuja intimidade foi vista por toda a escola?

A imaturidade pode explicar, mas não absolve. Um miúdo que grava e partilha sabe o que faz. Sabe que humilha. Sabe que destrói. E mesmo assim faz.

E quando o tribunal decide, já passou tempo demais. O vídeo já circulou. O dano já se tornou permanente. A justiça chega tarde e chega fria. E a vítima fica sozinha a tentar continuar uma vida que nunca mais será a mesma.

Vivemos num país onde a lei é exemplar, mas a prática é tímida. Onde o crime é punido, mas o sofrimento é esquecido. Onde o sistema trata a violência digital como se fosse menos grave por não deixar sangue. Mas há feridas que o corpo não mostra.

As redes correm à velocidade da luz. A justiça move-se à velocidade do papel. Enquanto o processo anda, a dor multiplica-se em partilhas. O vídeo nunca desaparece. O insulto nunca é esquecido. E o silêncio ganha espaço.

As escolas não ensinam empatia digital. Os pais acham que são coisas de internet. O Estado continua a olhar para o lado. E as plataformas fingem que não veem. Entretanto, cresce uma geração inteira a acreditar que o respeito é opcional.

O Direito tem de acordar. Tem de reagir com firmeza e com pressa. Tem de proteger antes que destrua. Tem de punir sem hesitar. E tem de ensinar o que parece esquecido, que a dignidade não se negoceia.

A violência contra as mulheres já não se esconde. Está online. Ri-se em público. E tem fãs.

O que devia chocar, diverte. O que devia ser crime, viraliza. O que devia ser punição, é conteúdo.

Não é a violência que aumentou. É a vergonha que desapareceu. E quando a vergonha desaparece, o que vem depois já não é sociedade. É sobrevivência.

'Safári' humano expõe indiferença ao mal

O preço do silêncio é sempre alto. Os mortos no Valle de los Caídos (hoje Valle de Cuelgamuros) na Espanha, em Auschwitz, Sarajevo ou Gaza não puderam falar. E os que ousaram abrir nossos olhos não foram ouvidos à sua época. Os muitos abismos de indiferença humana levam tempo até receber uma primeira lufada de verdade. Mas, uma vez aberta a comporta, ela — a verdade — emerge e matura, ora em jorro, ora aos pingos. E graças a uma característica tão humana quanto a indiferença: a perseverança. A busca por justiça, mesmo que tardia, responde a nossa incontornável obrigação de confrontar traumas coletivos e responsabilizar seus perpetradores.

— Toda a bondade e o heroísmo ressurgirão, para depois ser destruídos e ressurgir novamente. Não é que o mal vença (nunca vencerá), mas ele apenas não morre — escreveu John Steinbeck a um amigo no auge da Segunda Guerra.

Na semana passada, a Justiça italiana desenterrou um dos capítulos mais infames de crueldade humana, ocorrido na Guerra da Bósnia três décadas atrás. Sarajevo, que sofria o cerco mais longo a uma cidade na história moderna da Europa, resistiu durante quatro anos ao estrangulamento promovido pelo exército sérvio-bósnio. Mais de 11 mil civis foram abatidos a troco de nada, a qualquer hora. Às sextas-feiras, diz a investigação aberta pela Procuradoria de Milão, ocorriam “safáris” especiais que se estendiam pelo fim de semana. Os caçadores? Cidadãos em sua maioria italianos abastados, socialmente inseridos. Reuniam-se em Trieste, cidade fronteiriça à antiga Iugoslávia, de onde eram transportados pela empresa iugoslavo-sérvia Aviogenex até as colinas ao redor da Sarajevo sitiada. A caça? Cidadãos bósnios indefesos, alvejados enquanto transitavam por determinadas ruas ou becos.


A investigação, liderada pelo procurador Alessandro Gobbis, foi iniciada após o jornalista e romancista Ezio Gavazzeni, em colaboração com os advogados Nicola Brigida e o ex-juiz Guido Salvini, apresentar uma denúncia de “homicídio qualificado por crueldade e motivos desprezíveis” contra esses grupos de “turistas-assassinos”.

— São pessoas com paixão por armas, que preferem ir para a cama com um rifle, com dinheiro à disposição e contatos certos de facilitadores entre a Itália e a Sérvia. É a indiferença do mal: tornar-se Deus e permanecer impune — descreveu Gavazzeni em entrevista ao La Repubblica.

Contou que um dos cinco participantes já identificados na ação voltou do fim de semana de extermínio “e continuou sua vida normalmente, respeitável aos olhos de todos”. Outro é dono de uma clínica de cirurgia plástica de Milão.

Ainda não se sabe quem organizava as viagens. Segundo a denúncia de 17 páginas, cada um desses “turistas-assassinos” pagava o equivalente a até R$ 600 mil em moeda anterior à introdução do euro na União Europeia. Mulheres e idosos podiam ser mortos gratuitamente. Quando o alvo era uma criança ou homem, havia cobrança adicional por parte das milícias leais a Radovan Karadzic, primeiro presidente daquela Sérvia independente. Demorou mais de duas décadas para Karadzic ser condenado pelo Tribunal Penal Internacional da ONU para a ex-Iugoslávia (TJPI) por genocídio e crimes contra a humanidade e cumprir prisão perpétua.

Tampouco ainda se sabe a real extensão da indiferença ou conivência de autoridades com o horror. Pelo menos um depoente no inquérito —um ex-oficial militar bósnio — alegou ter alertado a agência de inteligência militar da Itália (Sismi) sobre a prática macabra ainda em 1994 e disse ter sido informado de que a operação fora interrompida. A Sérvia, por seu lado, negou qualquer envolvimento nos assassinatos.

Faz um mal danado à alma e à mente investigar como transcorriam essas caçadas covardes, em que o matador nem precisava ser exímio — sua presa indefesa já estava à vista. O caçador também sabia que não levaria a carcaça humana para casa, como troféu. A excitação se resumia à aventura de matar civis cercados, por mero esporte.

Não há tribunal no mundo capaz de cassar a humanidade dessas criaturas. Mas é imperioso levá-las a julgamento para não apagar a História.

Tantas palavras para esconderem um vício!

Deslumbra-me quotidianamente ver o esforço desenvolvido por certos articulistas mais ou menos colados à esquerda dura ou dinossáurica, no sentido de “situarem” ou “contextualizarem” a guerra brutal e ilegal de Putine. De um lado, temos a realidade boçal, brutal e assassina da guerra, que destrói, mata, mutila e reduz a escombros um belo país; do outro, temos um inefável tecido filológico, uma teia de palavras desinfectadas, um colar de fonemas quase inocentes, a justificarem ou a ”explicarem” um crime horroroso. Quando lemos as “justificações” ou “contextualizações” de Manuel Loff, saímos confortavelmente da brutalidade destrutiva da guerra, para entrarmos no universo da filologia asséptica: palavras bem procuradas e lavadinhas envolvem-nos numa cumplicidade doce e afastam-nos do ruído mortífero das bombas. A filologia lava tudo, até as mãos cheias de sangue do carrasco. “Contextualizar” o crime é o mesmo que lavá-lo ou até apagá-lo.


Tudo isto me traz â memória uma extraordinária peça de Ionesco, que vi vezes sem conta no Théatre de la Huchette, em Paris, juntamente com a célebre Cantora Careca. Refiro-me à pecinha em um acto (curto), La Leçon (A Lição). Nela, um professor de filologia vai, numa lição que dá a uma aluna, envolvê-la, a pouco e pouco e cada vez mais, numa teia de palavras gradativamente mais apertada, que atordoam a aluna, diante das teorias desvairadas do mestre. Por fim, aterrada com aquela artilharia filológica, a pobre aluna, sem ter para onde fugir, acaba estrangulada pelo professor e pela sua aquecida e assassina filologia. A conclusão célebre é: a filologia leva ao crime. Temos visto que sim: a filologia levou ao crime, ou foi ajudante do crime ou “contextualizou” o crime (em massa), na Alemanha de Hitler, na Itália de Mussolini, na Rússia de Staline, na Espanha de Franco, no Cambodja de Pol Pot, para nos ficarmos por estes.

Os recados “contextualizantes” que os serventuários daqueles regimes mandavam, devidamente enlatados, para serem distribuídos urbi et orbi eram o colar de palavras que os discípulos penduravam ao pescoço, para com elas “apagarem” a visão das atrocidades cometidas, ao som da música filológica. A filologia sempre foi amiga dos tiranos (Nero ter-se-ia servido dela para cantar o incêndio de Roma), sempre cobriu os seus açougues com o manto diáfano dos fonemas. Como dizia o ardido Rei Ferrante, da peça La Reine Morte, de Montherlant, “tantas palavras para esconderem um vício!”

Os porta-vozes de serviço de Putine aprenderam há muito a arte de perverter o uso das palavras, para assim lavarem a sujidade e o sangue que as suas guerras deixam como rasto.
Eugénio Lisboa

sábado, 15 de novembro de 2025

Pensamento do Dia

 


O problema não é a queda, é a aterragem

Sidhir Venkatesh começou, em 1989, a fazer o doutoramento em Sociologia na Universidade de Chicago. Passou três meses a seguir o grupo musical Grateful Dead. Mas o seu orientador, especialista em pobreza, William Julius Wilson, reorientou-o para visitar os bairros negros mais pobres de Chicago.

Chegou ao bairro social para fazer um inquérito e ficou seis anos a trabalhar e a estudar um grupo de traficantes de crack, de nome Black Disciples. “Isto é uma guerra, meu”, disse-lhe um traficante. “Todos os dias as pessoas lutam para sobreviver; por isso, estás a ver, fazemos o que podemos. Não temos qualquer escolha, se isso significa ser morto que se lixe, o que é que um preto por aqui pode fazer para dar de comer à família?”

No livro Freakonomics, no qual se conta esta história, conclui-se que para um negro dos bairros a maior hipótese de triunfo económico está no tráfico de droga. Isto apesar de em quatro anos haver uma hipótese em quatro de acabar morto. E o que recebe um soldado proletário do crime é inferior a 3,5 dólares à hora.



Para se perceber o nível de perigosidade nos gangues, citemos o Departamento de Estatísticas do Trabalho nos Estados Unidos da América que apresenta lenhador como sendo a profissão considerada mais arriscada, com uma média de uma morte por 200 trabalhadores.

A mortalidade nos traficantes dos bairros é superior até à de mais de uma centena de pessoas que esperam ser executadas no corredor da morte no Texas.

O investigador interroga-se como é possível que nessas condições tantos jovens sigam a carreira do crime nos bairros pobres de Chicago. Para muitos adolescentes dos bairros poder ser chefe de quadrilha é o único sonho visível. Mais de 56% das crianças do bairro vivem abaixo do limiar da pobreza. São muito poucos os que chegam à universidade. O caminho para um trabalho decente legítimo é praticamente impossível.

“O cheiro acre de morte no ar, misturado com o do orvalho, espalhava-se pela Praça São Lucas, onde termina o bairro da Penha e começam as favelas do complexo com o mesmo nome, na Zona Norte do Rio. Já passava da meia-noite e meia. Em frente ao supermercado Inter formava-se uma roda com cerca de duzentas pessoas, entre trabalhadores, estudantes, aposentados e pessoas ligadas ao tráfico. Diante delas, 25 cadáveres jaziam no chão, enfileirados um ao lado do outro, todos homens, todos também apontados pelos presentes como moradores da região.”

“Magros, gordos, pardos, pretos, brancos, tatuados, velhos, jovens, os corpos foram-se multiplicando conforme uma camioneta preta os trazia de diferentes pontos da favela. Eram carregados por um grupo de moradores liderado por Erivelton Vidal Correia, presidente da Associação Comunitária do Parque Proletário da Penha. Usando pares de luvas cirúrgicas, enfileiravam os corpos lado a lado, cabeça com cabeça, sobre uma extensa lona preta e azul, na imagem que mais tarde ganhou os portais de notícia. ‘Espaço, espaço, espaço’, gritava Correia quando as pessoas que caminhavam por ali atrapalhavam o trabalho”, assim começa uma reportagem da revista Piauí, escrita pelos jornalistas Matheus de Moura e Leonardo Coelho, sobre a chacina policial no Complexo do Alemão e na favela da Penha.

Durante dias, as famílias procuraram, desesperadas, os desaparecidos. São já cerca de 132 mortos conhecidos, o maior massacre policial da História do Brasil. Um país em que anualmente há mais de 60 mil mortos por violência, grande parte por balas da polícia.

Uma mãe tenta desesperadamente saber se o seu filho está vivo. Um dos inspetores pergunta: “Seu filho veio para cá pra traficar aqui, né?” Ao que a mãe responde: “Não, ele não era bandido.” O polícia continua, rindo: “Se não era bandido, então por que morreu?”

Uns dias depois, um pano no cenário de um concerto relembrava: “Quem lucra com o tráfico na favela não vive lá.”

“As políticas de segurança pública baseadas no confronto armado e no extermínio de suspeitos proporcionam custos altíssimos à sociedade e não contribuem para a diminuição da ocorrência de crimes, mas proporcionam ganhos eleitorais”, continua a reportagem

As chacinas policiais são inúteis para diminuir a criminalidade, apenas servem para reprimir as populações, mostrar-lhes que não são cidadãos. Já não se trata de uma questão de segurança pública, mas da própria democracia.

A 23 de junho de 1993, ocorreu o massacre da Candelária, onde milícias pagas por comerciantes, constituídas por polícias, assassinaram oito jovens sem-abrigo que dormiam à porta dessa igreja do Rio de Janeiro.

Quando estive no Brasil, como participante no primeiro Fórum Social Mundial, conheci um ativista austríaco que acompanhava crianças de rua e tinha conhecido alguns dos miúdos mortos. Contou-me que num encontro entre o responsável da polícia brasileira e o seu homólogo da capital austríaca, o primeiro perguntou “quantas pessoas matava a polícia austríaca?”, tendo o europeu respondido, surpreso, que “não é suposto a polícia matar pessoas”.

Há uns anos, moradores de favelas do Rio de Janeiro denunciaram uma série de violações praticadas por militares. No relatório parcial Circuito de Favelas por Direitos, elaborado pela Defensoria Pública do Rio de Janeiro, em 2018, registam-se roubos, invasões de casas, agressões físicas e até violações.

Conforme conta um morador no relatório, numa dessas invasões militares das favelas teriam ocorrido as violações: “Eles entraram numa casa que era ocupada pelo tráfico. Lá tinha dois garotos e três meninas. As meninas eram namoradas de traficantes. Era pra ser todo o mundo preso, mas o que aconteceu é que os policiais ficaram horas na casa, violaram as três meninas e espancaram os garotos. Isto não pode estar certo.”

"Homo Sacer: O Poder Soberano e Vida Nua" é um livro do filósofo italiano Giorgio Agamben, publicado em 1995. O termo homo sacer refere-se a um indivíduo que é excluído da comunidade política e, portanto, é submetido ao poder, sem limites, das autoridades soberanas. Na antiga lei romana, um homo sacer é uma pessoa que pode ser morta sem que quem o mate enfrente consequências legais.

Agamben introduz a noção de “vida nua”, referindo-se a uma forma de existência despojada de direitos e proteções políticas. Essa noção revela uma vida que é simplesmente biológica, desprovida de qualquer significação social ou política. O homo sacer está reduzido à mera existência, sem os direitos conferidos pela cidadania.

O filósofo explora a relação entre soberania e o conceito de estado de exceção, em que as leis normais são suspensas em favor de medidas extraordinárias. Essa condição muitas vezes surge em tempos de crise, evidenciando como os governos podem contornar normas legais em nome da segurança ou da emergência.

Os processos de inclusão e exclusão, juntamente com a gestão da vida e da morte, revelam como o poder molda a existência humana num nível fundamental.

Em 1974, o economista brasileiro Edmar Lisboa Bacha cunhou o conceito Belíndia. O Brasil é um país que tem dez milhões de pessoas que vivem como na Bélgica e o resto vive como na Índia. A violência policial é um instrumento fundamental para que num país riquíssimo a maior produção seja a da grande pobreza. Uma situação que só pode mudar se a maioria perceber a sua situação e a sua força.

No mítico livro Capitães da Areia, do escritor brasileiro Jorge Amado, conta-se a história de um grupo de meninos de rua que vão crescendo e politizando-se, saindo da criminalidade e adquirindo consciência da sua situação. O herói Pedro Bala, uma alusão a Peter Pan, passa de pequeno criminoso a revolucionário.

Na realidade as coisas são mais complexas. Nos bairros, a grande maioria da população é trabalhadora e não gente ligada ao tráfico de droga. Aqui sempre que a criminalidade cresce, a esperança revolucionária diminui, e o contrário também é verdade.

No seu livro City of Quartz, sobre a história de Los Angeles, o historiador Mike Davis relata a implantação do partido revolucionário Black Panters (Panteras Negras) e a repressão a que foi sujeito.

A execução dos seus líderes pela polícia, abatendo os militantes, deixou um vazio de poder nos bairros que permitiu que os grupos criminais voltassem a dominar as ruas.

A entrada do crack nos bairros veio mudar tudo ainda mais. Mudou a economia local e a violência, multiplicou as guerras entre bandos nas ruas. Mas também destruiu uma geração de jovens.

“Estes jovens negros toxicodependentes e apáticos, que choramos hoje, são o resultado da nossa incapacidade de proteger os Panteras Negras nos anos 60”, dizia, ao jornal britânico The Guardian, Sonia Sanchez, poetiza e ativista negra.

Em fevereiro de 1969, Carter e Huggins, dois líderes dos Panters, em Los Angeles, foram assassinados por um grupo nacionalista infiltrado pela polícia. A forte repressão policial com recurso à liquidação física dos principais militantes criou um vazio, que o próprio jornal The Los Angeles Times reconheceu ter aberto a via ao recrudescimento dos gangues nos anos 70. Como dizia um jovem de 16 anos, do gangue dos Crips, citado por Mike Davis, “os gangues jamais vão desaparecer. Acreditas que vão dar-nos emprego a todos?”

Um imigrante nicaraguense chamado Oscar Danilo Blandón foi considerado o maior importador de cocaína colombiana. Blandón vendia muito crack aos traficantes que brotavam em Los Angeles. Mais tarde, veio confessar que o fazia, com o apoio da CIA, para obter dinheiro para a guerrilha anti-sandinista dos Contra da Nicarágua.

Ainda hoje, para muitos militantes negros a introdução da droga nos guetos teve mão da CIA e serviu para financiar a contrarrevolução na América Latina e destruir o envolvimento político dos jovens negros.

Este processo de divisão espacial, que cria cidades de condomínios vigiados para os ricos e subúrbios cada vez mais degradados e empobrecidos para os trabalhadores mais pobres, não é um exclusivo do Brasil e dos EUA.

Nos subúrbios de Paris e Lisboa vive-se a mesma realidade numa escala de violência diferente.

Mas também aqui as operações militarizadas nos bairros sucedem-se. As detenções, sem culpa formada, multiplicam-se. A violência sistemática da polícia contra os jovens dos bairros é algo estrutural.

Alinhar 100 moradores contra uma parede, sem poderem mover-se, na rua principal de um bairro como o Casal da Mira é algo considerado normal pela polícia. As autoridades baseiam-se em diretivas, como a que cria as Zonas Urbanas Sensíveis, que classificam os bairros pela classe social das pessoas que lá vivem e a sua “composição étnico-social”. Estes bairros identificam-se pela quase total ausência das políticas públicas. As pessoas não são tratadas como cidadãos. Estamos num território em que as autoridades atuam como forças de ocupação. Há poucos mortos comparando com o Brasil, mas há muito que há gente morta a mais.

Odair Moniz, Romão Monteiro, Ângelo “Angoi” Semedo, Manuel António Tavares Pereira (Tony), Carlos Reis (PTB), José Carlos Vicente, conhecido por “Teti”, João, Edson Sanches (Kuku) são algumas destas vidas muito cedo ceifadas.

Alinhar 100 moradores contra uma parede, sem poderem mover-se, na rua principal de um bairro como o Casal da Mira é algo considerado normal pela polícia. As autoridades baseiam-se em diretivas, como a que cria as Zonas Urbanas Sensíveis, que classificam os bairros pela classe social das pessoas

Nestes espaços com poucos direitos, a polícia parece ser o único serviço público que conhecem. Por vezes, há alguns programas sociais para dar muito menos dinheiro do que custariam políticas sociais justas e equitativas, mas que servem para tornar dependente parte das lideranças locais.

Ali vivem muitas das pessoas que mantiveram o País a trabalhar durante a pandemia, gente que labora, mas que é invisível do ponto de vista da representação política e dos direitos.

Se, no próximo dia 11 de dezembro, os muito milhares de habitantes dos bairros e os imigrantes que trabalham todos os dias pararem pelos seus direitos a ter uma vida melhor – salários, transportes, papéis, educação, habitação e contra o pacote laboral –, o País vai sentir. E uma grande força que é invisível vai fazer frente à xenofobia daqueles que são pagos para manter estas pessoas como gente sem nenhum direito.