quarta-feira, 25 de março de 2015

A boa notícia da tranca do cofre

A doutora Dilma decidiu cancelar a festa de uma lei que sancionou em novembro. Melhor assim
Além da decisão da Standard & Poor’s de manter a classificação do Brasil, há outra boa notícia na praça. Seu método é meio girafa, mas vá lá. A repórter Vera Magalhães revelou que o governo decidiu congelar a regulamentação da lei que mudou o indexador das dívidas dos estados e municípios com a União. É girafa porque não fica bem para a doutora Dilma valer-se de um artifício burocrático (a regulamentação) para adiar o cumprimento de uma lei que sancionou em novembro. Contudo, é melhor fazer assim do que avançar no orçamento do andar de baixo.
No final do século passado, os estados e municípios repactuaram suas dividas com a União. Hoje, essa conta está em R$ 500 bilhões, que deveriam ser quitados em 25 anos. Com o novo indexador, as prefeituras do Rio e de São Paulo, bem como os governos de Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro e Alagoas livram-se de um espeto de R$ 176 bilhões. Noves fora Alagoas, estão entre as administrações mais ricas do país. Estima-se que esse refresco custe à União mais de R$ 3 bilhões a cada ano. Para um governo que pretende cortar benefícios de viúvas para economizar R$ 1 bilhão anuais nas despesas de Previdência, a ideia tem alguma lógica, pois num caso os cidadãos pagaram ao INSS, enquanto no outro os governadores e prefeitos não querem pagar o que devem.

Há aí uma aula de irresponsabilidade fiscal. Lá atrás os doutores endividaram suas administrações dentro da lógica do “eu faço e meus sucessores pagam”. Destruíram-se simultaneamente os orçamentos públicos e o valor da moeda. Veio o Plano Real e arrumou-se a casa repactuando-se as dívidas. Passou o tempo e os novos doutores, liderados pelo prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, quiseram mudar o indexador para pagar menos. Há lógica no pleito, pois todos estão com pouco dinheiro para investir.

Numa trapaça da história, Haddad, que está hoje no guichê de quem tem que pagar, em 2010 estava no balcão que produzia despesas. Como ministro da Educação, mudou o sistema de financiamento aos estudantes de faculdades privadas. Baixou os juros de 6,5% para 3,4% anuais, afrouxou o sistema de fianças e facilitou o acesso aos créditos. Os empresários das escolas viram na mudança a estatização do risco da inadimplência e estimularam a migração dos alunos para os empréstimos públicos. Segundo o ministro do Planejamento, em quatro anos, os contratos passaram de 80 mil para quase dois milhões. A carteira foi de R$ 1 bilhão para R$ 13,4 bilhões. Se a ideia era aumentar o percentual de estudantes no ensino superior privado, deu água. Os financiamentos cresceram 448%, mas as matrículas aumentaram 13%. O estudante tirava zero na prova de redação e conseguia o crédito. A própria doutora Dilma reconheceu o engano de ter entregue às escolas a porteira de acesso aos financiamentos: “O governo cometeu um erro.”

Quando a dívida dos estados e municípios foi repactuada, o professor Fernando Haddad não podia imaginar que o abacaxi acabaria na sua mesa. Quando o ministro Fernando Haddad afrouxou as regras do financiamento estudantil, sabia que o abacaxi só seria colhido 12 anos depois da formatura dos estudantes, quando começariam os resgates. Ele sustenta que uma eventual inadimplência dos alunos financiados sem fiadores será coberta por um fundo garantidor. Um problema para o caixa de 2026.

Elio Gaspari

Oportunistas de sempre

(...)Ao dar razão a Lula quando afirma que a Operação Mãos Limpas na Itália resultou em Berlusconi, observei que na terra arrasada costumam triunfar os piores oportunistas. Esqueci de registrar que no Brasil os piores oportunistas estão a postos desde sempre.

Alberto Dines

A arte de maldizer

Malditos sejais, ó mentirosos, negadores, defraudadores, vigaristas, intrujões, chupistas, tartufos e embusteiros! Que a peste negra vos cubra de feridas pútridas, que vossas línguas mentirosas sequem e que água alguma vos dessedente, que vossas mentiras, patranhas, fraudes, lérias e marandubas se transformem em cobras peçonhentas que se enrosquem em vossos pescoços, que entrem por vossos rabos, cus, rabiotes e fundilhos e lá depositem venenosos ovos que vos depauperem em diarreias torrenciais e devastadoras. Que vossas línguas se atrofiem em asquerosos sapos e bichos pustulentos que vos impedirão de beijar vossas amantes, barregãs e micheteiras que vos recebem nos lupanares de Brasília, nos prostíbulos mentais onde viveis, refocilando-se nas delícias da roubalheira.

Malditos sejais, ladrões, gatunos, ratoneiros, trabuqueiros dos dinheiros públicos, dos quais agadanhais, expropriais mais da metade de todos os orçamentos, deixando viadutos no ar, pontes no nada, esgotos a céu aberto e crianças mortas de fome, mortas de tudo.

Que a maldição de todas as pragas do Egito e do Deuteronômio vos impeça de comer os frutos de vossas fazendas escravistas, que não possais degustar o pão de vossos fornos, nem o milho de vossos campos, e que vossas amantes vos traiam e vos contaminem com escabrosas doenças e repugnantes furúnculos!

Malditos sejais, homúnculos dedicados a se infiltrarem nas brechas, nas breubas do Estado para malversar, rapinar, larapiar desde pequenas gorjetas embolsadas até essa doença nacional chamada petróleo, em que vos repastais no revezamento sinistro de “negociarrões” com empresas-fantasma em terrenos baldios, até a rapinagem dos mínimos picuás dos miseráveis.

Malditas sejam as caras de pau dos ladravazes, com seus ascorosos sorrisos, imunda honradez ostentada, gélido cinismo, baseado na crapulosa legislação que vos protege há quatro séculos, por compradiços juízes, repulsivos desembargadores, fariseus que vendilham sentenças por interesses políticos, ocultados por intrincados circunlóquios jurídicos, solenes lero-leros para compadrios e favores aos poderosos! Que vossas togas se virem em abutres famintos que vos devorem o fígado, acelerando vossas morte,s que virão pela ridícula sisudez esclerosada com que justificais liminares e chicanas que liberam criminosos ricos e apodrecem pobres pretos na boca do boi de nossas prisões!

Malditos sejais, burocratas, sicofantas, enfiados na máquina pública, emperrando-a e sugando migalhas do Estado com voracidade e gula! Tomara que sejais devorados pelos carunchos que rastejam nos processos empoeirados da burocracia que impede o país de andar! Que a poeira dos arquivos mortos vos sufoque e envenene como o trigo roxo dos ratos!

Malditas sejam também as “consciências virginais”, as mentes “puras”; malditos os alienados e covardes, malditos os limpos, os não culpados, os indiferentes, que se acham superiores aos que sofrem e pecam; malditos intelectuais silenciosos que ficam agarrados em seus dogmas, que se “escandalizam” com os horrores, mas nada fazem diante dos erros óbvios que clamam por condenações. Maldito aquele que culpou os “brancos de olhos azuis” pela crise econômica mundial. Malditos os que só pensam em dividir os brasileiros entre “nós” e “eles”. Maldita seja a técnica de vitimização que funciona bem para ditadores que se dizem sempre “defensores do povo” – suas vítimas. Malditos os que condenam o passado, se eles são o passado.

Malditos os radicais de cervejaria, os radicais de enfermaria e os radicais de estrebaria. Os frívolos, os loucos e os burros. Uns bebem e falam em revolução; outros alucinam, e os terceiros zurram.
Maldita seja também a indiferença narcisista do déspota sindicalista que renegou a herança bendita que recebeu e que se esconde nas crises para voltar um dia como pai da pátria. Que gordos carrapatos infectem sua barba de estadista deslumbrado.

Malditos também os que desejam trazer de volta a irresponsabilidade fiscal, malditos anjos da cara suja, malditos os que inventaram as gorjetas de milhões, malditos espertos fugitivos da cassação, anatematizados e desgraçados sejam os que levam dólares na cueca e, mais que eles, os que levam dólares às Bahamas, malditos os que usam o “amor ao povo” para justificar suas ambições fracassadas, malditos bolchevistas que agora são arroz de festa de intelectuais mal-informados; malditos sejam, pois neles há o desejo de fazer regredir o Brasil para o velho atraso pustulento, em nome de suas ideologias infantis!

Se eles prevalecerem, voltará o dragão da inflação, com sete cabeças e dez chifres e sete coroas em cada cabeça e a prostituta do atraso virá montada nele, berrando todas as blasfêmias, vestida de vermelho, segurando uma taça cheia de abominações. E ela, a besta do atraso, estará bêbada com o sangue dos pobres, e em sua testa estará escrito: “Mãe de todas as meretrizes e mãe de todos os ladrões que paralisam nosso país”.

Só nos resta isso: maldizer.

Portanto: que a peste negra vos devore a alma, políticos canalhas, que vossos cabelos com brilhantina vos cubram de uma gosma repulsiva, que vossas gravatas bregas vos enforquem, que os arcanjos vingadores vos exterminem para sempre!

Arnaldo Jabor
*Não pude escrever o artigo da semana por doença (nada grave, inimigos meus), mas me lembrei de outro texto da época do mensalão e achei por bem republicá-lo, pois cabe perfeitamente nestes tempos de petrolão. 

Sair da crise é o desafio para a presidente

O jornal britânico Financial Time, matéria transcrita pelo Globo na edição de 23, prevê que a situação econômica brasileira pode se agravar em 2015 e até estender-se por mais tempo. De fato, esse é o desafio que se coloca à frente da presidente Dilma Rousseff: sair da crise o mais rapidamente possível, pois ela se reflete diretamente nos níveis de emprego e consumo. E sem ambos os setores funcionando normalmente, não existe atmosfera política que resista. A estabilidade do país depende da superação dos obstáculos colocados na rota do Planalto.

O primeiro deles causado pela onda de corruptos e corruptores que atingiu e aprisionou a Petrobrás. A culpa é desses atores somados aos operadores de câmbio e de falsas doações. Não se trata de influência externa, como sustentou o deputado Sibá Machado do PT, em artigo na mesma edição de O Globo, culpando a CIA. Os fatores são internos, entre eles ex-diretores e ex-gerentes da própria estatal alçados aos cargos ao longo de mais de uma década.

Não adianta tampouco dizer-se que a corrupção vem do período FHC. Pode ser. Mas cresceu de forma gigantesca durante os mandatos do presidente Lula até que atingiu seu ponto de explosão no final do primeiro mandato da presidente Dilma Rousseff. Esse bando de ladrões é o maior adversário real do governo atual, sobretudo em função do descrédito público a que foi conduzido o país. Os assaltantes são os maiores inimigos da administração federal e do próprio Brasil.

Pois ao conseguir abalar a Petrobrás, e a empresa é vital para o país, os assaltantes abalaram a nação. O que parecia impossível foi alcançado por um elenco de ladrões que tiveram força para comprometer o presente e ameaçar o futuro.

Não será com projetos do ministro Joaquim Levy que o Poder Executivo vencerá a etapa gigantesca que tem pela gente. Pois apertar as contas públicas conduz à redução do consumo e a diminuição deste projeta-se no mercado de trabalho, como já está acontecendo. Para livrar-se do espelho das contradições, em primeiro lugar Dilma tem que assumir uma posição bem mais firme e incisiva na órbita da estatal, de fato, onde estão os seus piores e verdadeiros inimigos.

De nada adiantará ouvir versões como a de Sibá Machado. São falsas. Imparciais. Ilusórias. Não enganam a pessoa alguma. Pelo contrário: só elevam o grau de desconfiança na ação do governo. Transformar inimigos totais em vítimas do acaso é entrar em colisão frontal com a essência da atuação do poder. Pois se ele não se mostra capaz de identificar a verdade à sua volta, como a opinião pública poderia reagir?

A sociedade não se sente representada através da omissão e do acobertamento dos verdadeiros traidores do Planalto. Só o processo da verdade e a transparência que descortina a realidade será capaz de impulsionar o governo, fazendo-o ultrapassar a etapa atual e dar início a um esforço de recuperação do tempo perdido. Mas está tentando recuperação com iniciativas que não mobilizam. Antes, ao contrário, desmobilizam o povo e o país.
 Pedro do Coutto

As maldades do Pato PT

A sujeira da ficha do ‘Pato’

Vá o cidadão tirar para conseguir emprego um levantamento sobre sua ficha e lá encontra estar respondendo por 18 inquéritos civis. Será que consegue o emprego?

Numa empresa privada talvez nem sequer com pistolão. Mas quando se é prefeito e presidente regional do PT, o cargo na empresa pública é garantido e pode até se dar ao luxo de considerar normal uma “variação” patrimonial de meros e inúteis R$ 3,5 mil mensais.

Para o presidente do PT fluminense, essa “variação” não é causada por nenhuma irregularidade como se fosse normal entre os mortais trabalhadores, que precisam suar para conseguir até um aumentinho legal.

Numa das mais cínicas declarações, Washington Quaquá, de codinome Pato, considerou sobre reportagem mostrando a asséptica ficha dos prefeitos fluminense que é um sujeito limpo, apesar de estar inelegível por oito anos.

O cúmulo da cretinice é destacar que as 18 ações cíveis, a maior soma entre os prefeitos no estado, são “denúncias encaminhadas por motivações políticas”.

Ah, PT até quando vais abusar de nossa paciência?


A Sassá Mutema de Maricá

Apenas com o currículo de ser filha de Lula, Lurian Silva está a caminho de ser a dona de Maricá como o pai se tornou “o dono do Brasil”. Os petistas colocaram o bloco da sucessão de Quaquá nas ruas de Maricá inclusive com enquete (adivinha quem paga) para escolher o candidato do partido em 2016 em uma lista tríplice.

A 'baixinha' quer voar para o executivo

Há tempos “diretora” da revista Maricajá, de propriedade de Quaquá e da mulher, deputada estadual recém eleita, que se não tiver receita abocanha na bica pública, Lurian tem investido no município. Está em todas inclusive no desfile de 2014 da Grande Rio ao lado do casal 171.

A lista da pesquisa, que deve dar Lurian na cabeça, é completada pelo vice-prefeito, conhecido zero à esquerda, e por um forte candidato. Chiquinho, dono de trailer, ex-coordenador de campanha de madame Z, mulher de Quaquá, em 2010, hoje presidente da Câmara.

Em resumo, o PT continuar a cagar e andar para o município. Quer fazer mais sujeira para garantir a continuação no poder e no bolso público.

Quem nos livrará?

Por motivos ideológicos, obviamente contrários ao regime democrático, embora sempre se considerem seus arautos, nem a presidente, nem seus principais auxiliares são capazes de reconhecer que estão errados na condução do país. Querem, na verdade, apartá-lo entre ricos e pobres e não conseguem mostrar nada senão isso, vítimas que são (ou serão autores?) de uma esquerda autoritária e retrógrada.
A mentira como tática e a defesa intransigente de uma esquerda autoritária poderão levar a maioria da sociedade brasileira à aceitação do impeachment (que é, repito, um instrumento legítimo e de autodefesa do regime democrático), mas sem, hoje, as condições jurídicas necessárias, advertiu o ex-ministro (do STF) Carlos Ayres Brito.
Presidente: não entregue (só) a Deus o nosso destino. Convoque não apenas o país, mas, sobretudo, auxiliares competentes e comprometidos com a liberdade, e antes que a despachem para casa... E, depois, reze, como, aliás, farão todos os que têm juízo.
O Brasil é muito maior do que todos nós!
Acílio Lara Resende

E dos ricos, o governo não vai tomar nada?!

Na semana passada tratei da cota de sacrifícios que o governo deveria fazer e falei do que quer fazer contra os trabalhadores (nas pensões e no seguro-desemprego). Agora, vou tratar da parte que cabe aos ricos no ajuste fiscal. Esqueci-me, no entanto, do abono salarial que o governo também quer cortar: acho uma verdadeira crueldade mexer nesse benefício, que vai para quem menos ganha e que – pasmem! – foi criado por Médici no auge do arrocho salarial da ditadura.


Voltemos aos ricos. A gritaria agora é constante. E mostra direitinho o que separa cada fração da classe burguesa, essa nomenclatura tão desprezada hoje em dia, a ponto de alguém, nas recentes manifestações, ter desfilado com um curioso cartaz: “Prisão para Karl Marx”.

Os grandes empresários industriais, que querem capital de giro em longo prazo, agora chiam por causa dos juros estratosféricos e do fim das desonerações. Cadê o projeto de taxação das grandes fortunas apresentado pelo ex-senador FHC? É preciso dizer em alto e bom som: os grandes empresários no país não pagam Imposto de Renda. Isso mesmo. É ridículo imaginar que sobre o que recebem devem pagar os mesmos 27,5%, a maior alíquota existente, que incide sobre a classe média de maiores rendimentos. Só que o desconto da classe média – como de resto dos demais trabalhadores – já vem tungado no contracheque mensal. Ninguém tem como escapar. Eles, os ricos, por meio de vários mecanismos, acabam nada pagando ou pagando uma mixaria, como se pode ver em publicação dos procuradores da Fazenda nacional. Em folder amplamente distribuído, os procuradores listam algumas das maneiras de sonegar: lavagem a frio (com a propina embutida no serviço ou produto), “off-shores”, “laranjas” e “fantasmas” (todos sabem o que significam esses nomes), “dólar cabo” (um doleiro daqui tem conta no exterior e um doleiro de lá deposita na conta e depois faz uma compensação paralela), e por aí vai. Além disso, a estrutura de impostos no Brasil é regressiva, e todos pagam mais impostos indiretos que diretos (o que vai onerar quem vive de arroz com feijão).

Os bancos, estes nem piam. Consultem seus balanços. Agora, o Banco Central anda preocupado com os bancos públicos porque todos tiveram de participar dos financiamentos para os grandes da construção civil e pesada, que agora estão dando o calote com a operação Lava Jato.

Já o problema dos pupilos de Kátia Abreu e Ronaldo Caiado é de outra fonte: a China, grande importadora das commodities agrícolas, decidiu fechar a torneira e não vai fazer jorrar grana para a conta deles. Concorrendo com os importados, a indústria nacional não consegue ter preços competitivos. A patuleia, que antes havia sido mimada com créditos de toda ordem, agora nem compra mais, e muitos já ficaram inadimplentes, tendo de cortar até na comida.

É justo que Joaquim Levy fique negociando sem parar com os grandes empresários e ainda não tenha se reunido com os trabalhadores?

Enquanto isso, aqui, ao lado de onde moro, em Brasília, o ronco do helicóptero continua...

Sandra Starling

Vinagre com espinhos


Eu hoje estou pulando como sapo
Pra ver se escapo
Desta praga de urubu

(Noel Rosa)
Eis aí onde veio parar, em apenas dois meses de segundo mandato e exatamente como tinha de acontecer, o governo da presidente Dilma Rousseff – ficou sem roupa, como no samba de Noel, e agora está aí, todo santo dia, pulando dos desastres de ontem para os desastres de hoje, e já apavorado com os que virão amanhã. O último infortúnio a entrar em cena é essa lista do procurador-geral Rodrigo Janot, pedindo que o Supremo Tribunal Federal autorize a abertura de inquérito contra 54 políticos e agregados suspeitos de envolvimento na corrupção histórica da Petrobras – calamidade destinada a tornar-se, por sinal, o centro da biografia de Dilma e de sua passagem pela Presidência da República.
Leia mais o artigo de J. R.Guzzo

Ascensão e queda de Lula, brasileiro chamado Esperança

Lula teve duas fases desde a sua ascensão ao poder: a esperança e a decepção. Ao assumir pela primeira vez a presidência da República, Lula trazia consigo a expectativa de como um simples brasileiro comandaria a Nação. Havia muita esperança e seus primeiros anos de governo foram arrebatadores, com a economia em franca expansão e aumento substancial dos beneficiários do Bolsa Família.

A partir da metade da sua primeira gestão, começou a pipocar a corrupção: Escândalo dos Bingos; Assessor do deputado José Guimarães (PT-CE), irmão de José Genoino, transportando dinheiro numa mala e dólares na cueca; Mensalão; Quebra do sigilo de um caseiro e demissão de Palocci; Compra de um dossiê por parte de agentes da campanha do PT, em São Paulo.

Mesmo assim, Lula foi reeleito, porque teve massiva votação dos bolsistas e da classe média, com a economia em crescimento.

No seu segundo mandato, Lula enfrentou novos problemas graves: Desdobramento do mensalão; Crise no setor aéreo; Cartões Corporativos; Rosegate; Passaportes diplomáticos; Enriquecimento da família (seu filho era o “Ronaldinho” dos negócios); Erenice Guerra. E agora o escândalo da Petrobras mostra apenas a ponta do iceberg, pois falta apurar o BNDES, os Fundos de Pensão e as outras estatais.

A grande mídia brasileira tem sua parcela de culpa, ao endeusá-lo, ao inflar-lhe o ego de tal maneira que a fama lhe subiu à cabeça de forma inexorável e altamente prejudicial no desenrolar da sua trajetória como chefe da nação e, posteriormente, como “orientador” de Dilma Rousseff.

Lula deve ter imaginado que era de fato um milagreiro, que era “o cara”! Mas foi enganado e enganou a si mesmo, e hoje paga o preço pela sua furtiva glória, porém interminável desonra.

Daqui para a frente, Lula deve servir de exemplo para que o povo não caia mais em armadilhas políticas, tipo salvador da pátria e pai dos pobres. As duas administrações do ex-metalúrgico redundaram na maior crise moral e ética já registrada no país, culminando com a conclusão que venho escrevendo há tempos: Lula traiu o povo e País!

A experiência de tê-lo como presidente da República pode evitar que os próximos mandatários se comportem como ele, fiquem deslumbrados com o poder e se sintam onipotentes.

Francisco Bendl

terça-feira, 24 de março de 2015

O lado bom da crise

A crise é boa. Nada melhor do que uma crise para nos dar a sensação de que a vida muda, que a história anda, que a barra pesa. A crise nos tira o sono e nos faz alertas. A crise nos faz importantes, nós, a opinião pública, nós, o “povo”, nós, os ex-babacas que viviam na sombra, na modorra e que de repente saíram batendo panelas nas ruas. Na crise no Brasil, a política fica visível para a população. A crise nos lembra a maldição chinesa: “que você viva em tempos interessantes” – por “tempos interessantes” se entenderia uma época de calamidade, guerras e instabilidade. A crise é boa porque acabaram as antigas crises cegas, radiofônicas, anos 50. Hoje, as crises são online, na internet, nos celulares, com todas as roubalheiras ao vivo, imediatas, na velocidade da luz. A crise é uma aula, quase um videogame. A crise é um thriller em nossas vidas. A crise nos permite ver a verdade. Mas como, se todos mentem o tempo todo? A crise nos ensina a ver a verdade de cabeça para baixo, nos ensina que a verdade é o contrário de tudo que dizem os depoentes, testemunhas e réus. A verdade está em tudo que os políticos negam.

A crise é boa para conhecer tipos humanos. Temos de tudo – uma galeria de personas, de máscaras, de bonecos de engonço, temos um reality show sobre o Brasil, temos o desfile de caras, de bocas, de mãos trêmulas, temos as vaidades na fogueira, os clamores de honradez, os falsos testemunhos, a lama debaixo das dignidades, temos os intestinos, os nós nas tripas, os miasmas que nos envenenam, sujeiras escorrendo pelas frestas da lei.


E tudo vai diplomando o povo em ciência política. A crise é boa para acabar com a crença de que um operário tem uma aura de santidade e mostra que, para ser presidente, tem, sim, que estudar e ter competência. E nos mostra também o mal que um sujeito egoísta e deslumbrado pode fazer a um país.

A crise nos mostra que o crime político não é um defeito, mas uma instituição. A crise nos espanta: como um partido consegue esquecer qualquer resquício de grandeza e contaminar as instituições? A crise nos ensina o horror do narcisismo totalitário. A crise nos ensina que os velhos “revolucionários” ficaram iguais aos piores políticos oligárquicos – ambos trabalham na sombra, na dissimulação, no cabresto dos militantes. A crise nos lembra que a burrice é uma “força da natureza’, como os ciclones e terremotos. Crise também é cultura. A crise é Brecht, Shakespeare e revista “Caras”. A crise acabou com a mistificação de que o PT era o partido dos “puros”, como muitos intelectuais acreditaram e continuam acreditando, com a fé inquebrantável do “mesmo assim” – quebraram a Petrobras e o país, mas, “mesmo assim”, continuam acreditando, como religiosos: “Credo quia absurdum” (Creio mesmo sendo absurdo). A crise nos mostra que o petismo maculou as ideias de uma verdadeira esquerda no país, sequestraram as palavras, a linguagem romântica d’antanho. A crise prova que a velha esquerda ancorada no petismo não tem programa, nem projeto; tem um sonho que vira pesadelo. A crise acaba com os fins justificando os meios. A crise acaba com o “futuro” e nos traz o doce, o essencial presente. A crise nos ensina que ninguém se define apenas como “companheiros”, “comandantes”, “aventureiros”, “guerreiros do povo brasileiro”, pois as pessoas são compulsivas, agressivas, invejosas, narcisistas, fracassadas e com problemas sexuais. A crise nos ensina mais Freud do que Marx. A crise ensina que revolução no país tem de ser administrativa, e não de ruptura e utopia.

A “contemporaneidade”, esse “faz-tudo” do novo vocabulário, inventou a “utopia da distopia”. Nada como uma boa distopia para saciar nossa fome de certezas. A crise ensina que não adianta mostrar apenas os horrores da miséria dos desvalidos; a verdadeira miséria está nos intestinos da própria política.

A crise nos mostra que existem fascistas de direita e de esquerda, que a verdadeira esquerda está em tudo que é profundo e que a direita está em tudo que é superficial – logo, o PT é de direita.
A crise nos revela que o país (e a vida) é mais complexo do que a divisão “opressores e oprimidos” e que o capitalismo não é uma pessoa malvada para conscientemente nos destruir; capitalismo não é um regime político – é um modo de produção.

A crise nos ensinou que a corrupção de hoje não é um pecado contra a lei de Deus – é um sistema, uma ferramenta de trabalho. A crise nos mostra que não há mais inocentes em Brasília – todos são cúmplices. E aprendemos que, mesmo com terríveis expectativas para 2015, as ruas provaram que a história é intempestiva (Nietzsche) e marcha no escuro quando nós dormimos. A crise nos lembra a frase de Baudrillard tão citada por mim: “O comunismo hoje desintegrado tornou-se viral, capaz de contaminar o mundo inteiro, não através da ideologia nem do seu modelo de funcionamento, mas através do seu modelo de des-funcionamento e de desestruturação da vida social”, vide o estrago do PT e o novo eixo do mal da América Latina. A crise está abrindo nossos olhos.

Ouso dizer que por vielas escuras e mal frequentadas a crise fará bem ao Brasil. A crise também é útil porque nos dá uma porrada na cara para deixarmos de ser bestas.

Cofre blindado ou caixa preta?

Nunca antes na História deste país, houve um tesoureiro de ferro. João Vaccari Neto, tesoureiro do PT, também conhecido na gangue do Petrolão como “Moch”, virou réu em mais um processo. Ainda assim a malta petista continua insistindo na defesa do responsável pelo dinheiro partidário.

Estranha-se uma blindagem tão grande, nunca aplicada a Delúbio Soares, condenado e que cumpre pena pelo Mensalão. Delúbio foi o antecessor de Vaccari, mas no processo nunca foi revelado que teria um codinome para atuar na clandestinidade. Também o PT nunca fez tanta defesa assim do tesoureiro, que inclusive deixou o partido.

Por que Vaccari merece tanta consideração? A resposta é que não passa de uma caixa preta do alto escalão. Até por que, apesar de réu, não está junto com outros na penitenciária.

Falou o inglês!

 

Quando os homens são puros, as leis são desnecessárias; quando são corruptos, as leis são inúteis
Benjamin Disraeli (1804-1881) 

O jeito cangaceiro de ser


O jornalista Hélio Fernandes, que dirigiu o combativo jornal “Tribuna da Imprensa”, destacou-se com seu texto corajoso e de permanente oposição aos regimes militares. Foi o jornalista mais vezes preso e exilado, teve a sede de seu jornal empastelada, sofreu ameaças, mas nunca se intimidou ou se calou. Paralelo à sua determinação com foco na crítica à ditadura, ele era também um olho vigilante da postura de políticos, parlamentares e executivos. Certa vez escreveu uma crônica dizendo que metade da Câmara Municipal do Rio de Janeiro era de ladrões. Interpelado judicialmente pela Casa, foi obrigado a retratar-se em artigo no mesmo jornal, com espaço e destaque iguais àquele entendido como ofensivo aos nobres edis. Respondeu na “Tribuna”: “esclarecendo a opinião desse articulista e cumprindo determinação judicial, como o fim de retratar-me, afirmo que metade da Câmara Municipal do Rio de Janeiro não é de ladrões”. Não desdisse, mas a edilidade deu-se por satisfeita e encerrou-se o assunto.

Na semana passada, teve fim a rápida e desastrada passagem do ministro Cid Gomes pelo ministério de Dilma. A família Gomes, exitosa nas urnas para o comando do Ceará, não é um primor nas ideias e muito menos na forma de expressá-las. Lembram um estilo cangaceiro de relacionarem-se. Ciro, seu padrinho e irmão, também ferrenho defensor da polêmica obra de transposição das águas do Rio São Francisco para irrigar o Nordeste, traz na sua biografia marcas notáveis. Uma delas, quando perguntado se a atriz Patrícia Pilar teria sido ouvida na concepção do programa de governo com o qual pretendia chegar à Presidência da República, retrucou: “ela apenas dorme comigo”. Uma pérola, um doce de companheiro. Colheu nas urnas a admiração das eleitoras.

O nefasto episódio que motivou a demissão de Cid foi a expressão de que o Congresso brasileiro tinha em sua composição mais de quatrocentos achacadores. Foi o bastante para que o presidente da Câmara, o deputado Eduardo Cunha, longe, longe, quilometricamente distante, da figura a quem se poderia atribuir tal pecha, tal vício ou imperfeição de caráter, comemorasse a deposição de Cid. Bem feito para o ex-ministro, que falou demais.

Não falou todavia que o governo a quem servia como Ministro da Educação, numa Pátria Educadora, mas com verbas contingenciadas, tem 39 ministérios, 128 autarquias e 140 empresas estatais, para abrigar apadrinhados, acolher conchavos e calar eventuais opositores. Não falou Cid Gomes que os encargos (juros) de sustentação da dívida pública, exorbitantemente cobrados pelos bancos ao tesouro representam em um mês apenas tudo que o orçamento nacional destina aos programas sociais. Não falou que o Congresso está sentado em cima da agenda de reformas que poderiam mudar nossa história política, econômica e social. Exemplos a que poderia alterar a lastimável composição da Câmara e do Senado, de improdutiva realidade, ambos. A reforma que reduziria em número expressivo esse debochado estoque de partidos, muitos deles instituições criadas unicamente para preencher cargos de confiança e conseguir favores.

Na folha de pagamentos da União, há 114 mil cargos de confiança. A reforma fiscal, que reduziria impostos que hoje são desperdiçados pela ineficiência do poder público e a corrupção. A reforma trabalhista, necessária para proteger o trabalhador e seu trabalho e não ser o incentivo a que hoje assistimos de uma juventude que busca emprego sem compromisso, como se fosse possível alargarmos o contingente dos que pagam para que outros, muitas vezes com condições, não produzam nem sequer o próprio sustento.

O Brasil é muito viável. Temos que acreditar nisso todos os dias. E trabalhar para tal, cobrar, brigar e indignar-se. 

Resta esperar

A forma não substitui o conteúdo, da mesma maneira que o adjetivo não pode entrar no lugar do substantivo. Nos dois casos, ambos se completam e até se complementam. A presidente da República editou, por exemplo, medidas provisórias que reduzem direitos trabalhistas em vigor. Sem discutir ainda o mérito de tais questões, comprova-se que as posições da candidata na campanha eleitoral não coincidem com os posicionamentos da presidente. Por isso mesmo, torna-se difícil articular-se sua aprovação, sobretudo pelo reflexo negativo que apresentaram através da voz das ruas. Pois uma coisa é falar sobre intenções, outra coisa é confirmá-las na prática.

As dificuldades maiores do Planalto, portanto, não começam e terminam nos diálogos com o Parlamento, mas se desenvolvem atravessando o campo das reações populares e deságuam no mar de impossibilidades. As manifestações populares tornam-se cada vez mais importantes e decisivas no encaminhamento das decisões políticas. Assim, a substituição de Mercadante apresenta um peso relativo na sequência de insucessos que se projetou ao longo de apenas dois meses e meio. Não foi a única causa, embora tenha ele reunido em torno de si fortes ondas de reação contrárias. Entretanto, a entrada em cena de Lula modificou o quadro existente em Brasília para que ele se reflita nas ruas melhor do que está acontecendo até agora. Conseguirá? Vamos esperar os fatos que vão surgir. 

Pedro do Coutto

O outono do PT

Há que se ter uma certa grandeza, mesmo no pecado,e o PT não foi elegante nem nisso
Temos que reconhecer: chegamos ao fim de uma era. O PT vive seu outono. Melhor voltar para o pátio da fábrica onde nasceu e de onde nunca deveria ter saído.

Há que se ter uma certa grandeza, mesmo no pecado (o desejo de poder é o pecado máximo de toda a política), e o PT se revelou incapaz até de pecar com elegância.

Este outono do PT não se deve apenas às manifestações contra seu governo. Essas manifestações, diferentes das patrocinadas pelo "PT e Associados", manifestações com todos os tiques de política de cabresto e mazelas sindicalistas (passeata chapa branca), trazem algo de novo para o cenário, que deixa o "PT e Associados" em pânico. A tendência é a elevação da violência por parte da militância.

O Brasil perdeu o medo do PT e da esquerdinha pseudo. As pessoas descobriram que o mal-estar com essa turminha não é coisa de "gente do mal" (não é coisa de gente do mal, é coisa de gente bem informada), como a turminha pseudo diz, mas sim que somaram 2 + 2 e deu 4: o PT é incompetente para governar. Afundou quase tudo em que tocou, seja municipal, estadual ou federal (e a Petrobras). Mas essa morte do PT significa mais do que o fim de um partido que será esquecido em cem anos.

O fim do PT significa que o ciclo pós-ditadura se fechou. No momento pós-ditadura, a esquerda detinha a reserva de virtude política e moral, assim como de toda a crítica política e social. Ainda que a história já tivesse provado que todos os regimes de esquerda quebram a economia (como o PT quebrou a nossa) ou destroem a democracia (como os setores mais militantes do partido gostariam de fazê-lo).

Vide o caso mais recente e mais próximo, a Venezuela: economia destruída (e com petróleo!) e democracia encerrada de uma vez por todas. Como será que nossa diplomacia, ridícula como quase tudo que o governo do PT toca, reagirá ao fato de ele, Maduro, ter se dado plenos poderes para matar e torturar em nome do socialismo?

Resta pouco espaço para o governo. A tendência é que a presidente fale apenas a portas fechadas para plateias seletas por medo de tomar mais uma panelada. Com a economia em frangalhos, fica difícil para a presidente enterrar o petrolão em consumo, como seu antecessor o fez durante o escândalo do mensalão.

Quando as pessoas estão felizes comprando é fácil fazer vista grossa à corrupção. Quando o bolso esvazia, o saco fica cheio.

Dizer que a corrupção da Petrobras nada tem a ver com o partido no poder é piada. A ganância do novo rico (o PT) aqui mostra seus dentes: querendo enriquecer rápido, meteu os pés pelas mãos e com isso sacrificou a imagem de redentor que o partido tinha para grande parte da classe média. Ele ainda detém o controle de parte da população mais pobre (como a Arena no final da ditadura), mas logo perderá esse trunfo.

É verdade que ainda muitos professores, estudantes, artistas, jornalistas e intelectuais permanecem sob a esfera de influência da "estrela mentirosa". Mas isso também vai passar na hora em que muitos deles perderem o medo de serem chamados de "reacionários". Reacionário hoje é quem se fecha ao fato de que a história andou e as pessoas já não têm mais medo do PT e da sua turminha.

Infelizmente, o governo, diante da história que arromba a porta, parece um grupo de náufragos num barquinho, fugindo da traição que perpetrou, xingando a água, dizendo que as ondas são fascistas e que a tempestade é mal-intencionada.

Não, quem discorda hoje do governo federal não é gente "fascista", é gente que viu que o projeto do PT para o Brasil acabou. É gente educada, bem preparada, autônoma e que está de saco cheio do tatibitate do PT. Sem líderes significativos, sem propostas que criem a credibilidade necessária para sair da lama, a melhor coisa que o PT pode fazer é pedir licença e sair de cena.

Não acho que haja justificativa (ainda) para o impeachment, e devemos preservar as instituições. Mas a água passa debaixo da ponte. Quatro anos é tempo bastante para se afogar na vergonha. E, aí, a humildade será mesmo essencial, não? Sim, mas o PT é pura empáfia.

Luiz Felipe Pondé

Para limpar a sujeira governamental



Se na história bíblica as corruptas cidades de Sodoma e Gomorra foram aniquiladas porque Deus não encontrou nelas sete homens justos, é certo que, apesar de tanta corrupção, há no Brasil não sete, mas milhões de brasileiros com as mãos e a consciência ainda limpas. Eles terminarão por devolver inclusive internacionalmente o respeito que este grande país merece. E o farão com seus protestos, com sua rejeição a uma classe política que parece ter se tornado indigna de ser guia do país. E com gestos de honradez pessoal como o do meu taxista mulato de São Paulo.

Aceitação do inaceitável

Aceitar explicações insatisfatórias pode ser conveniente. Evita o trabalho e o desastre de consertar erros do presente e do passado. Mas perpetua e multiplica os problemas

Do jeito que vai, não sobra razão para otimismo. O desfile aparentemente eterno de fatos inaceitáveis praticados por gente esquisita não cansa de desandar em show de horror. A realidade se revela em sua mais dura pele.


O cheiro é sempre ruim. Tão ruim que a gente pode acabar se acostumando. E talvez esteja aí o maior perigo. A tentação de ceder ao cansaço e aceitar ao inaceitável é forte. Pouparia indignação, energia, desgaste emocional. Mas confundiria noções muito diferentes.

Frequência não é normalidade. O número de vezes em que ações inaceitáveis são praticadas não as faz mais aceitáveis. Não as torna normais. Não as transforma em exemplo a ser seguido. Não as torna normal. Delitos são delitos. Apenas isso.

O passado também não justifica o futuro. Talvez o explique. Mas somente isso. Justificar ações presentes baseadas nos padrões passados, na melhor das hipóteses, projeta no futuro os vícios do passado sem corrigi-los. Na pior hipótese, elimina a responsabilidade ao transferi-la a outras épocas e pessoas. E, sem responsabilidade, acaba o maior incentivo para boa conduta.

Práticas aceitas podem ser de fato, práticas inaceitáveis. Espalhar lama por todos os lados não resulta na purificação dos enlameados. Gera ou revela apenas que a sujeira é grande. O que todo mundo faz não é necessariamente o certo. O tamanho da multidão que pratica delitos não é atenuante.

São explicações que mascaram o cheiro ruim. Mas não os eliminam. Anestesiam os sentidos na esperança de que seja passageiro. Ignora sem a eliminação da fonte, o cheiro continuará existindo. Narizes insensíveis colaboram para a aceitação de padrões inferiores. E futuro pior.

Ao fim e ao cabo, aceitar explicações insatisfatórias pode ser conveniente no curto prazo. Evita o trabalho e o desastre de consertar os erros do presente e do passado. Mas perpetua e multiplica os problemas. Torna o inaceitável em norma. Transforma o otimismo em coisa de quem ainda não soube das noticias.

Pacote de Dilma é a favor da corrupção

As medidas de combate à corrupção anunciadas pela presidente da República dia 18 aprofundam ainda mais a falta de credibilidade do governo, tanto no plano nacional quanto no exterior.

Em decorrência da devastadora corrupção que se alastrou no governo federal, o Brasil, outrora país emergente, hoje sofre um desprestígio no mundo parecido com os tempos da inflação galopante e dos calotes internacionais dos anos 1980.

Dilma fez careta do dentinho para Eduardo Cunha


O pacote anticorrupção, solenemente anunciado pela presidente, insere-se nesse quadro melancólico, pois não é crível que um governo marcado e devastado pela prática generalizada de apropriação de recursos públicos em benefício dos partidos no poder venha, agora, colocar-se na posição de combatente do mal que ele mesmo diariamente pratica.

Nesse quadro patético, as propostas legislativas são mais do mesmo, pois o crime do caixa 2 está previsto no vigente Código Eleitoral, de 1965, no artigo 350. Quanto ao dramático confisco de bens dos corruptos, a matéria está plenamente contemplada na lei vigente de Improbidade Administrativa, de 1992, artigos 9º, 12 e 16. As demais “providências” legislativas da presidente são objeto de projetos de lei em curso no Congresso, razão pela qual nada de novo foi traduzido pelo alardeado pacote.

Quanto ao decreto que “regulamenta” a Lei Anticorrupção, ressalta desde logo tratar-se de um monstrengo que visa, sob todas as formas possíveis, a promover a anistia ampla, geral e irrestrita das empreiteiras e fornecedoras envolvidas na Operação Lava Jato, procurando mesmo imunizá-las a qualquer outra conduta corruptiva que tenham praticado fora do âmbito da Petrobrás e ainda não reveladas.

Assim, o atual governo, na esteira dos três últimos que o precederam, demonstra que no Brasil ainda impera a república das empreiteiras, embora estas já estejam muito combalidas, em decorrência da firme atuação da Polícia Federal, do Ministério Público, da Justiça Federal, do STJ e do STF.

O referido “decreto regulamentador” da Presidência demonstra, às escancaras, a firme determinação do governo de proteger as empresas que com ele contratam, mantendo os mesmos termos viciados no futuro.

Ao invés de concentrar a competência de processar as referidas empresas corruptas na Controladoria-Geral da União, o decreto outorga esse poder aos ministros do Estado (pasmem!), que são, desde 2003, os principais atores da prática de corrupção no Brasil.

Só do último governo três deles estão sob investigação no STF e dez outros já haviam sido flagrados em atos de corrupção, só no ano de 2011. São essas as “autoridades” que vão processar as empreiteiras. Pode-se imaginar o nível de corrupção que vai surgir dessa “competência ministerial”.

Será um novo núcleo de propinas, de tráfico de influência, de advocacia administrativa e de prevaricação. Surge um novo negócio de corrupção jamais imaginado, para grande proveito dos titulares de 39 pastas e dos partidos que os indicaram.

Não bastasse, a eventual condenação das empreiteiras pelo “ministro competente” pode ser objeto de “reconsideração” com efeito suspensivo, o que encarece ainda mais o comércio de favores ilícitos que será gerado por essa instância administrativa. A Lei Anticorrupção não fala de instância de reconsideração.

Também o decreto presidencial de 18/3 cria a figura da “investigação preliminar sigilosa”, anterior à instalação do chamado Processo Administrativo de Responsabilização. Eis aí outro foco de corrupção, pois de suas conclusões secretas pode decorrer o arquivamento do pedido de instalação do processo.

Esse novo produto de corrupção obviamente não está previsto na Lei Anticorrupção de 2013 que a presidente resolveu agora “regulamentar”. Essa lei, aliás, não comporta nenhuma regulamentação, na medida em que é autoaplicável a partir de 29/1/2014, abrangendo todos os crimes continuados de corrupção, caso dos listados na Lava Jato.

Mas não para aí o “regulamento presidencial”. Em cinco artigos propositadamente confusos, o diploma do Executivo limita a multa a 5% sobre o faturamento do último exercício das empresas corruptas. A Lei Anticorrupção, todavia, fala em até 20%. Derroga, portanto, o “ato presidencial” a Lei Anticorrupção também nesse aspecto.

Ademais, os cálculos de aplicação dessas multas com teto quatro vezes reduzido são propositadamente de alta complexidade para permitir que as empreiteiras consigam suspender e, em seguida, anular no Judiciário as decisões condenatórias que muito raramente os ilibados ministros de Estado lhes aplicarão.

Outro aspecto absurdo do “regulamento presidencial” é a tentativa de alijamento do Ministério Público das iniciativas de responsabilizar judicialmente as empresas corruptas, buscando outorgar essa competência de propositura de ação civil pública de reparação de danos a órgãos jurídicos da própria administração federal. Essa tentativa é risível.

Inúmeras outras manobras de absolvição plena das empreiteiras estão espalhadas ao longo texto do decreto de 19 de março.

Por outro lado, o próprio decreto reproduz a impossibilidade de firmar acordos de leniência a não ser com a primeira empreiteira componente do cartel que opera na Petrobrás.

Diante desse impasse, socorre-se o decreto do regime de conformidade (compliance), que é um dos fatores que passam a propiciar a anistia das empreiteiras.

Se elas instituírem o regime de conformidade poderão, inclusive, ser absolvidas sem o pagamento de nenhuma multa, o que é absolutamente contrário ao texto da Lei Anticorrupção.

Seria como alguém que praticou latrocínio deixar de ser condenado a 30 anos de prisão só porque fez profissão de fé numa igreja pentecostal prometendo seguir, a partir de agora, os ensinamentos da Bíblia Sagrada.

Por todo esse absurdo, a cidadania pede socorro ao Ministério Público para que requeira imediatamente ao Judiciário a anulação desse regulamento espúrio que procura derrogar, revogar, neutralizar e tornar letra morta a Lei Anticorrupção.

Modesto Carvalhosa

segunda-feira, 23 de março de 2015

Está na hora de mudar de casa

Nem trabalhadores no partido, nem partido dos trabalhadores

A lição vem de Luis Carlos Prestes, que por sua vez a tirou de Lenin: um grupo intelectualizado, com conhecimentos profundos de política, economia, História, sociologia e congêneres, forma um partido e imprime nele diretrizes sólidas capazes de sensibilizar e conduzir o proletariado. Aos poucos, esse grupo vai traduzindo e repassando para a militância as noções básicas de seus objetivos.

O proletariado percebe serem aqueles os seus sentimentos e anseios. Esforça-se para compreender o máximo da teoria que lhe é oferecida. Deve estudar. Absorver os ensinamentos, acoplá-los à sua vida e, aos poucos, assume a direção do partido, exprimindo, pela ação, a busca da igualdade e do bem comum que representa, maioria que é.

O singular está em que o PT começou mais ou menos assim, trinta anos atrás. Um núcleo de intelectuais, inclusive da Igreja, envolveu lideranças proletárias, inclusive a maior delas, o Lula. Imaginaram aproveitar o potencial humano do metalúrgico e de seus companheiros, repassando a eles conhecimento e deles recebendo lições práticas de suas necessidades e de sua capacidade de luta e de resistência. Assim formou-se o PT, entusiasmando a juventude e assustando as elites.

O diabo é que concluímos, hoje, que o Partido dos Trabalhadores deixou de ter trabalhadores e cansou de ser partido. Ao conquistar o poder, transformou-se num aglomerado de burocratas empenhados em afastar-se do proletariado, sem falar nos aproveitadores que se aproximam dos cofres públicos. Com o passar do tempo das lutas, os intelectuais foram saindo de mansinho, depois da Igreja.

Ganha uma viagem a Cuba quem citar um pensador de renome, um intelectual do tipo Florestan Fernandes orientando o PT. Hoje, o ideal dos companheiros é alçar-se à classe média ou chegar acima dela, de preferência como funcionário público e dirigente de uma empresa estatal. O próprio Lula aburguesou-se. Encontram-se nas bancadas do partido uns poucos ex-sindicalistas, mas nenhum operário eleito nessa condição.

Quem quiser explicar o sufoco porque passa o governo Dilma deve buscar as origens na metamorfose petista. Aliás, ela nunca foi do PT, até o dia em que precisou tratar de sua carreira política. Era brizolista. Por isso faz caretas sempre que telefona alguém do PT.

Ainda agora, quando a presidente da República propôs ao Congresso a redução do seguro-desemprego ou a extinção de pensões para viúvas abaixo dos 45 anos, onde se encontrava o partido? Qual a proposta que seus ministros, seus deputados e senadores apresentaram nos últimos doze anos para ampliar direitos sociais? Fica-se apenas no programa de renda mínima do isolado Eduardo Suplicy. O resto é assistencialismo, do tipo bolsa-família, porque conquistas, mesmo, sobram as implantadas por Getúlio Vargas, muitas suprimidas ao longo das últimas décadas.

Nada como o tempo para passar, já dizia o poeta. O sonho da fundação do PT desfez-se de forma melancólica. Tornou-se um partido igual aos outros. O proletariado dá-se por feliz se mantiver o trabalho de ridícula remuneração. O operário não acredita quando o avô lembra que já houve estabilidade no emprego.

Assistimos a um novo surto de maldades, entre os sucessivos praticados com regularidade pelas elites e pelos governos. Nos tempos recentes, Eurico Dutra congelou por cinco anos o salário-minimo. Depois Castello Branco suprimiu a estabilidade e o salário-família. Fernando Henrique optou por criar empregos no estrangeiro e demissões no Brasil. Pois não é que agora, em pleno governo do PT, Dilma ameaça direitos do trabalhador? Adota o mesmo modelo neoliberal do mundo desenvolvido, ou seja, para os subdesenvolvidos superarem suas crises, nada como demissões em massa, supressão de direitos sociais, cortes de gastos públicos, endividamento externo, aumento de impostos e de preços de combustíveis, transportes, luz e gás.