sexta-feira, 28 de novembro de 2025

A cruz, a cerca e o fuzil

Durante décadas, a análise política brasileira acostumou-se a separar os grupos de pressão em Brasília. Falava-se da bancada ruralista que defendia os interesses do agronegócio, da bancada evangélica que defendia uma moral religiosa e da bancada da bala que pleiteava o endurecimento penal. Eram vizinhos de corredor no Congresso, trocando favores ocasionais. Contudo, quem observa o Brasil contemporâneo com as lentes do passado corre o risco de não enxergar o monstro que se formou na sala. Aquelas fronteiras desapareceram e o que se assiste hoje não é mais uma coligação de interesses, mas a fusão de identidades em um projeto de poder totalizante: a Teocracia Agropastoril Miliciana.

Este conceito, embora soe distópico, é a descrição mais precisa para um fenômeno onde o fundamentalismo religioso fornece o “software” ideológico, o agronegócio predatório provê o “hardware” financeiro e territorial, e o ambiente miliciano (que contaminou parte das polícias, tanto estaduais quanto federais) oferece o braço armado. O objetivo? A refundação do Estado brasileiro, não mais como uma república laica e democrática, mas como um domínio sagrado, vigiado e armado, onde a dissidência e o protesto são tratados não como oposição política ou luta por direitos, mas como adversários em uma “guerra espiritual”.

A gênese desse fenômeno remonta à consolidação da chamada “Bancada BBB” (Boi, Bala e Bíblia). O termo, cunhado ironicamente pela deputada Erika Kokay em 2015, descrevia uma articulação conservadora que começava a mostrar suas garras em pautas como a redução da maioridade penal e o Estatuto da Família. No entanto, a ironia do apelido envelheceu mal e o que era uma aliança tática eventual tornou-se muito mais orgânica.

Parlamentares como o Capitão Augusto (PR-SP) já rejeitam a nomenclatura fragmentada. Para eles, não há distinção entre o policial que atira, o pastor que prega e o fazendeiro que desmata; eles se autodenominam a “Bancada da Vida” ou do “Bem”. Essa mudança semântica parece simples, mas na verdade é crucial já que na política democrática, adversários debatem ideias, enquanto na teocracia miliciana, o “Bem” combate o “Mal”. E contra o mal absoluto, qualquer violência é permitida, qualquer lei humana é secundária e qualquer supressão de direitos é, na verdade, um ato de saneamento moral.

A tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023 foi o cartão de visitas explícito dessa nova ordem, ali, a fusão se materializou: a “massa crítica” para a abolição do Estado de Direito foi financiada por empresários do agronegócio, inflamada por uma retórica religiosa de fim dos tempos e facilitada por uma omissão cúmplice das forças de segurança. Mas para entender como chegamos a esse ponto de ruptura, precisamos dissecar a anatomia dessa quimera, começando por sua alma.


Esqueça a velha Teologia da Prosperidade, focada apenas em fazer o indivíduo enriquecer através do dízimo, a força motriz da Teocracia Agropastoril Miliciana é a Teologia do Domínio. Importada do reconstrucionismo cristão norte-americano e adaptada ao neopentecostalismo brasileiro, essa doutrina postula que os cristãos têm um mandato divino para “ocupar” e governar as estruturas da sociedade antes que Cristo possa voltar.

A estratégia, conhecida como o “Mandato dos Sete Montes”, orienta os fiéis a tomarem o controle de sete áreas-chave: religião, família, educação, governo, mídia, artes e negócios. Sob essa ótica, um pastor eleito deputado não está lá apenas para representar seus fiéis, mas para submeter as leis dos homens à “Lei de Deus”. A laicidade do Estado é vista como um erro histórico a ser corrigido, uma brecha por onde o “inimigo” (a esquerda, os movimentos sociais, as religiões de matriz africana) entrou.

Essa visão de mundo cria o que pesquisadores chamam de Cristofascismo: um regime onde o autoritarismo político é sacralizado. A política deixa de ser o espaço da negociação para se tornar o palco da “Guerra Espiritual”. Opositores não são concidadãos com opiniões divergentes; são “filisteus”, “amalequitas” ou agentes demoníacos que precisam ser neutralizados para que a nação prospere.

É essa teologia que permite a um líder religioso subir à tribuna do Congresso e defender, com a Bíblia na mão, a retirada de direitos de minorias ou a posse de fuzis, argumentando que está cumprindo a vontade divina contra as forças do caos. A intolerância deixa de ser um preconceito pessoal e vira um projeto de santificação do território nacional.

Se a teologia fornece a justificativa moral, o agronegócio fornece o combustível material, mas não estamos falando do pequeno produtor rural. Falamos de um modelo de agronegócio financeirizado, tecnológico e expansionista que também passou por uma “conversão” teológica. O antigo slogan publicitário “Agro é Pop” foi subliminarmente substituído por “Agro é Santo”.

Em grandes feiras agrícolas no Centro-Oeste, a liturgia mudou e não é raro ver pastores abençoando colheitadeiras gigantescas e drones de última geração em cerimônias de ação de graças, onde a tecnologia de ponta é ungida como instrumento da providência divina para “alimentar o mundo”. A prosperidade da safra é vista como sinal da bênção de Deus; logo, qualquer entrave a essa produção, seja a demarcação de terras indígenas, a fiscalização ambiental ou leis trabalhistas, é uma afronta ao plano divino.

Essa sacralização do lucro cria uma blindagem ética perfeita para a predação. O desmatamento e a invasão de territórios tradicionais são ressignificados como a “sujeição da terra” ordenada no Gênesis. E para garantir essa expansão, o capital agrário não hesita em financiar a política radical. Investigações sobre os atos antidemocráticos revelaram que pelo menos 142 empresários do setor, concentrados em estados como Mato Grosso e Pará, financiaram a logística do caos em Brasília.

No campo, essa aliança se traduz nas Agromilícias. Grupos armados, muitas vezes compostos por ex-policiais ou agentes de segurança privada, atuam como exércitos particulares para “limpar” áreas de interesse, atacando indígenas e sem-terra. A violência no campo bate recordes, alimentada pela certeza da impunidade garantida por seus representantes no Congresso e pela bênção de seus líderes espirituais. Em alguns casos, “missões evangélicas” funcionam como ponta de lança, entrando em territórios indígenas para desestruturar a cultura local sob o pretexto de evangelização, abrindo caminho para a exploração econômica subsequente.

O terceiro e mais perigoso vértice desse triângulo é a captura ideológica das forças de segurança. A tese da Teocracia Agropastoril Miliciana alerta para um fato alarmante: a polícia brasileira está sendo catequizada para servir a Deus acima da Constituição.

O principal vetor desse movimento é o programa UFP (Universal nas Forças Policiais), da Igreja Universal do Reino de Deus. Sob o pretexto de oferecer assistência espiritual e palestras sobre ética e depressão, a igreja penetrou em batalhões e delegacias de todo o país. Em estados como São Paulo, a UFP chegou a ter acesso irrestrito a todas as guarnições, distribuindo livros de seus líderes e criando uma relação de dependência emocional com a tropa.

O perigo reside na dupla lealdade. Um policial que vê sua autoridade como uma concessão divina e seu pastor como um comandante espiritual tende a obedecer a diretrizes religiosas em detrimento da lei civil. Denúncias no Ministério Público apontam para a coação de policiais a frequentar cultos e a perigosa mistura de símbolos estatais com a logomarca da igreja.

Enquanto a polícia se “igrejifica”, a igreja se militariza. Projetos como os Gladiadores do Altar introduziram uma estética fascista no culto: jovens uniformizados, marchando em formação rígida, batendo continência e gritando palavras de ordem no altar. Embora a igreja alegue ser uma metáfora para a “batalha espiritual”, a semiótica é inequivocamente bélica. Prepara-se o imaginário do fiel para o confronto.

A consequência prática é a normalização do policial fardado no púlpito e do discurso de extermínio como caridade cristã. A “Bancada da Bala” trabalha no Congresso para legalizar o ativismo político de policiais, enquanto símbolos como a bandeira de Israel começam a ser usados não como homenagem diplomática, mas como insígnia de uma nação imaginária, guerreira e teocrática, que eles acreditam defender nas favelas brasileiras.

Se a teoria parece abstrata, a realidade do Rio de Janeiro oferece um vislumbre aterrorizante do futuro que este modelo propõe. No conjunto de favelas da Zona Norte conhecido como Complexo de Israel, liderado pelo traficante Álvaro Malaquias Santa Rosa, o “Peixão”, a teocracia miliciana já é realidade.

Ali, o crime organizado adotou o fundamentalismo como método de governo. Estrelas de Davi de néon brilham no topo dos morros, visíveis a quilômetros. A intolerância religiosa é a lei: terreiros de Candomblé e Umbanda são depredados, incendiados e seus sacerdotes expulsos sob a mira de fuzis. É o fenômeno do Narco-Pentecostalismo , onde o traficante se vê como um “ungido”, citando salmos enquanto executa rivais.

Embora o termo seja controverso e debatido por acadêmicos que temem a estigmatização dos evangélicos de periferia, a prática de domínio territorial baseada na supressão da diversidade religiosa e na aliança com setores corruptos da polícia (a faceta miliciana) é inegável. O Complexo de Israel é o microcosmo da Teocracia Agropastoril Miliciana: um território onde o Estado laico morreu, substituído por um regime de terror santificado, onde a Bíblia serve de escudo para o fuzil e o lucro do crime.

Enquanto o terror se espalha nas pontas (no campo com as agromilícias e na favela com o narco-pentecostalismo), o centro de comando opera em carpetes azuis, sob o ar-condicionado de Brasília. A atuação da “Bancada da Vida” no Congresso Nacional demonstra uma coordenação impressionante.

Os dados mostram que os interesses se cruzam perfeitamente. A indústria de armas até recentemente financiava tanto os líderes da bancada ruralista quanto os da bancada da bala e evangélica. O dinheiro cria a fidelidade. Quando o assunto é o Marco Temporal das terras indígenas, 88% da Frente Parlamentar Evangélica votou contra os povos originários, alinhando-se automaticamente aos interesses do agronegócio.

A lógica é de troca mútua de proteção. O ruralista quer a terra e a arma; o policial quer a excludente de ilicitude para usar a arma que já tem; o fundamentalista quer a imposição moral e a demonização do “outro”. Juntos, eles aprovam leis que enfraquecem o licenciamento ambiental, facilitam o acesso a arsenais de guerra e tentam criminalizar movimentos sociais, uma verdadeira institucionalização da barbárie.

O conceito de Teocracia Agropastoril Miliciana não é um exagero retórico; é um diagnóstico de urgência. O Brasil não está apenas “polarizado”, ele está sendo disputado por um projeto de poder que visa subverter os princípios fundadores da República.

Não se trata de demonizar a fé evangélica, que é plural e muitas vezes serve como rede de proteção social onde o Estado falha. Trata-se de denunciar o sequestro da fé por um projeto político autoritário. Não se trata de atacar a agricultura, vital para a economia, mas de expor a facção predatória que usa a religião para lavar a grilagem e o sangue indígena. Não se trata de criticar a segurança pública, mas de apontar a contaminação das forças policiais por ideologias que transformam o cidadão em inimigo a ser abatido.

O avanço desse modelo representa o maior risco à democracia brasileira desde a redemocratização. Se a “cruz, a cerca e o fuzil” continuarem a avançar sem resistência, o Brasil corre o risco de se tornar um imenso “Complexo de Israel”: um país onde a liberdade é privilégio de quem reza para o deus certo, vota no candidato armado e lucra com a terra arrasada. A teocracia não está chegando; ela já está operando, votando e atirando. Resta saber se as instituições democráticas terão força para reafirmar que o Brasil é um Estado laico, de todos, e não uma propriedade privada de uma milícia santa.
Roberto Uchoa

Chacina como estratégia política e tática eleitoral

Neste dia 28 de novembro, completa um mês a chacina mais letal da história do Brasil, com 121 pessoas mortas no Complexo do Alemão e da Penha, no Rio de Janeiro. A economia política do crime (EPC), que controla e regulamenta pela força das armas esses territórios, continua a operar normalmente nas localidades massacradas, infelizmente, como é o caso do Comando Vermelho (CV), com a permissão e a organização do poder e a violência estatal.

Julgo ser importante ressaltar esse contexto factual. Sim, é uma realidade, o CV permanece naquelas comunidades, a espoliar aquelas populações, a recrutar jovens negros e pobres para o universo da economia criminal, etc., pois, para a economia política capitalista do crime, aqueles jovens são descartáveis, buchas de canhão e afins. Portanto, nessa altura, parece ser bastante óbvio que a operação policial ordenada pelo governador bolsonarista Cláudio Castro teve um objetivo evidentemente político e eleitoral, seja de dimensão regional, seja nacional e também internacional.

No Brasil, existe um histórico de operações político-policiais antes de eleições visando a obteção de dividendos eleitorais e a sinalização de quais são os candidatos “linha dura no combate ao crime”. A criminalidade nas grandes metrópoles é uma realidade que atinge muitas pessoas, trabalhadores e empobrecidos. Um quarto dos brasileiros vive sob a “governança” da economia política do crime. A extrema-direita tem reiterado a mesma proposta de “guerra às drogas”, endurecimento penal e repressivo sem colher resultados. Mas esse tipo de operação espetacularizada e com uma estética da morte ganha votos.

É nesse contexto que devemos compreender a chacina de 28 de outubro. O governador do Rio de Janeiro esperava conquistar votos para se eleger senador e fazer o seu sucessor. Do um ponto de vista nacional, o bolsonarismo — com Jair Bolsonaro, agora, preso — procura se reorganizar e sair da defensiva recolocando a questão da segurança pública no centro da agenda política do país. Esse grupo identifica ser a segurança pública um dos pontos mais fracos da esquerda e do atual governo, e usa o famigerado eufemístico “consórcio da paz”.

A face internacional da operação policial no Rio foi o de criar um ambiente político e retórico, já que, em termos legais, parece ter ficado sem efeito. E passa por legitimar uma intervenção dos Estados Unidos da América Latina, inclusive no Brasil, para combater os “narcoterroristas”. Ou seja, reconfigurando a velha proposta da direita de “guerra às drogas” com uma envergadura global que fortaleça os interesses mais imediato da administração de Donald Trump no tabuleiro das relações internacionais.

Duas notas finais. Primeira: o erro do Governo Lula ao capitular à lógica eleitoral e ceder à gramática política e à estratégia da direita e extrema-direita foi o de enviar um projeto de lei “antifacção” (de cariz punitivista) para o Congresso. A proposta foi reescrita pela direita bolsonarista, numa derrota política para a esquerda governista. Isso parecia evidente, pois fazer política com demarcações, soluções e gramática impostas pelo neofascismo brasileiro é, por si só, já estar derrotado politicamente.

A outra passa pelas imagens que vimos pela televisão no dia seguinte à chacina. Familiares foram obrigados a resgatar os corpos dos mortos na operação policial. Desde a colonização, o Brasil tem sido marcado por histórias de chacinas de pessoas consideradas sub-humanas, retrato do racismo. A síntese desse imaginário racista brotou da boca do governador Cláudio Castro ao dizer que as únicas vítimas daquela operação foram os policiais.
Carlos Hortmann

O que é ser homem?

O estudo State of UK Men, publicado na semana passada por duas organizações promotoras da igualdade entre os géneros (Equimundo e Beyond Equality), mostra-nos bem o estado de confusão emocional e cultural em que vivem hoje em dia os rapazes e os homens no Reino Unido. Uma realidade que atravessa atualmente todo o mundo ocidental e que as mulheres sentem bem na pele.

O inquérito foi feito a adultos entre os 18 e os 45 anos e 88% dos homens nesta faixa etária acredita que “ser homem significa prover à sua família” ou “ser forte” (83%), neste caso a mesma percentagem dos que respondem que “ser homem” é também “partilhar o trabalho doméstico”. Alguma coisa se interiorizou, pelo menos na teoria.

O problema com o papel do provedor é que já não é preciso ir para a floresta caçar presas, nem ser o único sustento da família, já que a maior parte das mulheres trabalha fora de casa. O sustento da família há muito deixou de ser um papel definido pelo género e, deste ponto de vista feminino de onde escrevo, não haveria razão nenhuma para tanta desorientação. Numa família “tradicional” heterossexual, são os dois a dançar o tango, qual é a dificuldade?

O problema é que a independência financeira das mulheres trouxe um maior equilíbrio nas relações de poder – os homens já não podem dizer “em minha casa, as minhas regras” porque a casa é muitas vezes comprada em conjunto, paga pelos dois, com a luz, a água e o gás bem divididos, assim como as despesas de supermercado. O galo já não canta de galo e parece-lhe o fim do mundo que a galinha já não precise dele numa união que só valha pelo afeto e não pela dependência.

No mesmo inquérito, um em cada quatro homens diz que nunca ninguém se irá apaixonar por ele, 63% acreditam que ninguém quer saber se os homens estão bem hoje em dia e 62% reclamam que “as mulheres têm muitas expectativas sobre como os homens devem ser dentro das relações amorosas atualmente”. Ao mesmo tempo, mais de metade dos inquiridos (54%) não se incomodariam se o seu país tivesse “um líder forte que não se importasse com o Parlamento ou com eleições”, e metade apoia ideias red pill (movimento de apoio à “masculinidade dominante” e ao “privilégio masculino”), através de ideias como “a vida é mais difícil para os homens do que para as mulheres”.

Não, os homens não têm a vida assim tão facilitada, desde logo porque são (mal) educados para um mundo que já não existe. Criados como uns “reizinhos” dentro de casa, os rapazes podem ficar no sofá enquanto as suas irmãs são chamadas para pôr a mesa e lavar a loiça. Depois crescem e não há quem os aguente na tortura desequilibrada do dia a dia e do trabalho doméstico.

Vamos então culpar as mães que os educam? Também – não há aqui trincheiras de género e as crianças aprendem mais pelo exemplo do que pelas palavras no vento. Tal como as ideias ganham mais força quando o exemplo vem de cima, dos líderes eleitos em regimes democráticos ditos avançados que não se coíbem de chamar “piggy” a uma jornalista mulher, como fez Donald Trump há dias.

Ah, mas 68% dos homens britânicos têm medo de que a sua reputação seja destruída se disserem o que pensam. É a insegurança da masculinidade tóxica que prejudica todos, rapazes e raparigas. E isso não é de homem.

quinta-feira, 27 de novembro de 2025

Um sistema de justiça que só pensa naquilo

Um magistocrata de estirpe não pensa em crescer como pessoa. Pensa em crescer como pessoa remunerada, abusadamente remunerada. Pertence ao gênero dos que vieram ao mundo a negócios, e de uma espécie particular: explora a função de operador da justiça para se locupletar à margem da lei. Está num lugar mais seguro para torcer a legalidade em benefício próprio.

O extrativismo magistocrático é praticado por grileiros do orçamento público, os maiores grileiros do Estado brasileiro. A predação de recursos pela cúpula do serviço público fabrica instituições corruptas. Não é o preço inevitável do estado de direito, é o preço de um estado de direito sequestrado por uma minúscula fração de agentes do Estado.


Hoje foi lançado o relatório "Benchmark Internacional Sobre Teto Salarial no Setor Público", produzido por República.org e Movimento Pessoas à Frente, de autoria de Sérgio Guedes-Reis. O texto traz dados sempre chocantes, nunca surpreendentes.

A pesquisa analisou amostra de dados de remuneração de 4 milhões de servidores ativos e inativos no Brasil. Gastamos R$ 20 bilhões em remuneração acima do teto constitucional de R$ 46 mil entre agosto de 2024 e junho de 2025. O Estado brasileiro é líder por larga margem de ranking internacional de supersalários que inclui Alemanha, França, Estados Unidos, Itália, Reino Unido, México, Argentina, Colômbia etc.

Entre 4 milhões de servidores, 53 mil recebem acima do teto. Significa que pouco mais de 1% dos servidores públicos recebem remunerações ilegais legalizadas pela malandragem do legalismo magistocrático. Recebem acima do teto 21 mil juízes, o grupo mais numeroso (R$ 11 bilhões); também 10 mil membros do Ministério Público (R$ 3 bilhões) e 12 mil no Executivo Federal (R$ 4 bilhões), 82% nas carreiras de advogados públicos; 11 mil juízes receberam mais de R$ 1 milhão nesse período. O dinheiro gasto com supersalários dessa ínfima parcela corresponde a quase 716 mil vezes a mediana da renda nacional.

O privilégio exorbitante, nu e escancarado não é qualquer privilégio. É privilégio construído, protegido e ampliado nas quatro linhas da grosseira ilegalidade.

A proposta de reforma administrativa tenta enfrentar o descalabro. Conter supersalários fortalece o servidor público, contribui para a autoridade e legitimidade do Estado, não o contrário. Porque serviço público forte não pode ter grileiros do orçamento.

José Murilo de Carvalho emprestou de Aristides Lobo a frase que sintetizava sua decepção com a Proclamação da República em 1889: "o povo assistiu a tudo bestializado". O evento histórico nasceu com esse pecado original da "República que não foi" (livro "Os Bestializados").

A magistocracia vigia de forma violenta e persecutória os muros desse enclave que nunca aceitou a proclamação da República, sempre rejeitou a separação entre o público e o privado, a construção de noção não egoísta de valor a ser perseguido pelo Estado e pela lei. A magistocracia nunca perdeu nessa República que não foi, mas ainda tenta ser. Não será sem o controle dos grileiros.

Quando o discurso se torna mais importante que a realidade

Há algo de curioso e previsível no discurso da extrema-esquerda mundial. Basta assistir a um debate ou folhear as redes sociais: as mesmas palavras, os mesmos inimigos, a mesma indignação moral. “Elite opressora”, “ricos e poderosos”, “o povo contra o sistema”. O enredo é sempre épico, a retórica, infalivelmente emocional. Funciona bem para mobilizar. Mas quando olhamos de perto, sobra narrativa e falta realidade.


No poder do simples a extrema-esquerda aprendeu, há muito tempo, o valor da simplicidade. O discurso se baseia em contrastes morais fáceis de entender: o bem contra o mal, o fraco contra o forte, o justo contra o opressor. É um código universal que dispensa nuances e explica o mundo em duas cores – preto e branco.

Só que o mundo real raramente é tão binário. Quando os fatos não se encaixam na história, adapta-se o fato, não a história. É daí que surgem as distorções estatísticas, os gráficos “criativos” e os números fora de contexto. Tudo em nome da coerência moral.

Na Ideologia antes da evidência, o problema não está em ter ideologia, e sim em inverter a ordem natural das coisas. Primeiro vem a crença, depois o dado. A militância não pergunta “o que os fatos mostram?”, mas “como os fatos podem comprovar o que eu já acredito?”.


Essa lógica produz um viés de confirmação quase automático: dados inconvenientes são ignorados, minimizados ou tachados de “neoliberais”, “reacionários”, “elitistas”. Some-se a isso uma academia e uma imprensa percebidas como majoritariamente inclinadas à esquerda. Todo mundo reforça todo mundo.

Desde o colapso do socialismo real, a extrema-esquerda deixou a economia em segundo plano e concentrou-se em batalhas simbólicas: gênero, raça, meio ambiente, cultura. O campo é fértil porque, ali, a verdade é mais fluida. O que importa não é o que é comprovável, e sim o que soa moralmente certo.

Nas redes sociais deram o empurrão final. No universo dos algoritmos, quem ganha não é quem tem razão, mas quem emociona mais. Frases de efeito rendem curtidas, não estatísticas. A narrativa virou produto, e o clichê virou estilo.

Sejamos justos: líderes populistas mundo afora (principalmente de direita) aprenderam rapidamente. Copiaram o mesmo modelo emocional, apenas trocando os papéis. Agora, o “oprimido” é o conservador, e o “opressor” é o globalista, o intelectual ou a “ideologia de gênero”. Muda o figurino, o roteiro é o mesmo: O viés populista

No fundo, o problema é mais civilizacional do que partidário. Vivemos uma era em que o discurso vale mais que o dado, e a virtude moral substitui a evidência. É mais fácil parecer bom do que compreender o complexo. Talvez o desafio do nosso tempo seja reaprender a pensar antes de sentir – e checar antes de acreditar. Porque enquanto o discurso for mais sedutor que o fato, seguiremos discutindo narrativas, não realidades.

Refugiados do mar: a história de Diougop

Há poucos dias ouvi, pela primeira vez, o nome Diougop — um ponto no mapa do Senegal, afastado da costa, depois da cidade de Saint-Louis, onde a península de Langue de Barbarie deixou de ser certeza e passou a ser risco.

É lá, em Diougop, que cerca de 1.500 pessoas hoje se reconhecem como refugiados climáticos. A imagem distópica de um descampado árido, pontilhado por habitações idênticas, é uma realidade dura, prova de que os efeitos das mudanças climáticas não são abstrações: são vidas reviradas pelo vento e pela água.

Desde meados da década de 2010, bairros inteiros de Saint-Louis vêm sendo engolidos pela erosão costeira, pelas marés altas, pelas tempestades — por tudo aquilo que classificamos, com pudor técnico, como “eventos extremos”.


Entre 2015 e 2018, centenas de famílias viram o Atlântico avançar pela porta da frente. Primeiro foram levadas para acampamentos emergenciais — improvisados, frágeis, vulneráveis. Depois, com apoio do Banco Mundial e de parceiros internacionais, nasceu Diougop: uma tentativa de restabelecer alguma ordem após o caos, com casas pré-fabricadas fornecidas pela Better Shelter — um pedaço de chão firme depois de o mar ter levado tudo o que era sólido.

No excelente documentário Blue Carbon (do qual já falamos aqui), é possível ver como funciona Diougop. Há uma escola, espaços comunitários, algum atendimento de saúde. Os moradores reclamam do calor intenso e da falta que sentem do antigo lar. Falam do mar — da saudade e do sustento que tiravam dele. É evidente a dor causada pelo afrouxamento dos laços comunitários.

Diougop não é apenas consequência; é alerta. É o que acontece quando metas, números e gráficos não se traduzem em rosto, nome e dignidade.

Ali, famílias inteiras vivem hoje o que muitos ainda insistem em tratar como uma projeção futura. Não é futuro. É agora.

Por isso, Diougop se tornou um símbolo crescente da urgência de uma realocação planejada, que respeite direitos, culturas e meios de sobrevivência. Adaptação climática não é luxo — é sobrevivência.

quarta-feira, 26 de novembro de 2025

Pensamento do Dia

 


Velha ordem em agonia

Aposta-se no surgimento dessa nova ordem de uma nova política que substitua a obsoleta democracia liberal que, manifestamente, está caindo aos pedaços em todo o mundo, porque deixa de existir no único lugar em que pode perdurar: a mente dos cidadãos.

A crise dessa velha ordem política está adotando múltiplas formas. A subversão das instituições democráticas por caudilhos narcisistas que se apossam das molas do poder a partir da repugnância das pessoas com a podridão institucional e a injustiça social: a manipulação midiática das esperanças frustradas por encantadores de serpentes; a renovação aparente e transitória da representação política através da cooptação dos projetos de mudanças; a consolidação de máfias no poder e de teocracias fundamentalistas, aproveitando as estratégias geopolíticas dos poderes mundiais; a pura e simples volta à brutalidade irrestrita do Estado em boa parte do mundo, da Rússia à China, da África neocolonial aos neofascismos do Leste Europeu e às marés ditatoriais na América Latina.

E, enfim, o entrincheiramento no cinismo político, disfarçado de possibilismo realista dos restos da política partidária como forma de representação. Uma lenta agonia daquilo que foi essa ordem política.

Manuel Castells. "Ruptura – A crise da democracia liberal"

A direita dispensa Bolsonaro

A direita não precisa mais de Bolsonaro. Ela lhe deve o mérito de tê-la tirado do armário, mas seus surtos transformaram-no num encosto. O patrono da cloroquina, que dizia ter “o meu Exército”, tornou-se um mau espírito encostado no velho conservadorismo nacional.

Afinal, uma direita que teve Roberto Campos, Eugênio Gudin e Castelo Branco terá perdido muito em qualidade, mas com Bolsonaro ganhou em quantidade, elegendo um presidente e grandes bancadas parlamentares. Quem tem Tarcísio de Freitas e Ronaldo Caiado governando São Paulo e Goiás produziu quadros qualificados para novos voos. Esse é o caminho da lógica, mas a direita brasileira padece de um oportunismo suicida.


Em 1959, na União Democrática Nacional, berço do conservadorismo, havia um candidato à Presidência. Era Juracy Magalhães, tenente de 1930, ex-governador da Bahia e primeiro presidente da Petrobras. O partido resolveu atrelar-se à candidatura de Jânio Quadros. Um demagogo de carreira fulgurante, sem qualquer vínculo partidário, capaz de levá-la ao poder.

Segundo a piada, Jânio era “a UDN de porre”. Deu no que deu.

Anos depois, já na ditadura, o conservadorismo emplacou o marechal Castelo Branco, um reformador austero. O oportunismo suicida levou a base conservadora do regime a aninhar-se na anarquia militar e na candidatura do ministro da Guerra, general Costa e Silva. Deu no que deu, o Ato Institucional nº 5 e a crise decorrente da isquemia cerebral que o incapacitou em agosto de 1969.

Essa direita que come com garfo e faca achou em Jair Bolsonaro sua oportunidade. A eleição de 2018 foi um arrastão conservador, e o ex-capitão acabou no Palácio do Planalto muito mais pelos erros do PT que pelas suas qualidades.

O último surto de Bolsonaro, contra uma tornozeleira, espantou até mesmo seus aliados. Espanto tardio diante de um personagem que duvidava das vacinas durante uma epidemia que matou 700 mil pessoas e acreditava nas pesquisas de uma empresa americana que tentava transmitir eletricidade sem o uso de fios. (Na cena em que um finório vendeu a Bolsonaro essa maravilhosa ideia, o ministro da Infraestrutura, Tarcísio de Freitas, tomou distância.)

O ex-capitão que se lembra do que fez em 1987, desenhando um gráfico pueril de explosão de uma adutora e sendo exonerado de culpa pelo Superior Tribunal Militar, adquiriu incompreensão do que são as instituições em geral e o Poder Judiciário em particular. Chamou um ministro do Supremo de “canalha”. Anunciou que não cumpriria decisões de tribunais. Flertou com o golpismo da trama contra a posse de Lula.

Será árdua a tarefa de livrar-se do encosto sem ofendê-lo. Os filhos de Bolsonaro gastam mais tempo condenando Tarcísio do que Lula e seu governo. A UDN conseguiu se livrar do encosto de Jânio, e os comandantes militares da ditadura livraram-se do encosto de Costa e Silva com sua saída da cena, remetendo seu principal conselheiro militar, o general Jayme Portela, para um comando de segunda antes de mandá-lo para a reserva.

O que será grave para nos tirar da apatia coletiva?

Começo pelo Brasil, porque é impossível não começar por ele. No dia 28 de outubro, quando 121 pessoas foram mortas em uma ação policial malsucedida comandada pelo governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro, entre elas, quatro policiais trabalhando a seu serviço, na mais letal operação policial da história do país, pensei que o Brasil fosse parar. Imaginei que haveria uma grande greve geral, que a desumanização profunda das vítimas e de suas famílias, em especial de suas mães, faria com que até o mais sem coração dos homens corasse — e agisse.

Não aconteceu. Em vez disso, uma parte expressiva da população celebrou a operação, o saldo negativo e violento foi rapidamente diluído por uma cobertura midiática que priorizou a narrativa oficial, a ponto de um desavisado poder se perguntar se, no Brasil, há pena de morte sem necessidade de julgamento prévio ou mesmo identificação das vítimas — para além da cor da pele ou do local de nascimento. A execução e a gestão da tragédia narrada como guerra interna se mostraram eficaz na estratégia de comunicação política de Cláudio Castro, que, com isso, acenou para a agenda da extrema-direita interna e internacional, ganhou visibilidade e redirecionou a pauta brasileira.


Não foi a primeira vez que o limite ético no Brasil foi muito ultrapassado pelas mãos do Estado nos últimos 525 anos. A bem da verdade, essa é a regra mais do que a exceção. E, ainda assim, seguimos naturalizando a violência estatal como se fosse um custo aceitável da vida pública. “Naturalizando”, digo, sem excluir os posts revoltados nas redes sociais ou as vozes ativistas relevantes, as manifestações importantes. Estou falando da massa. Em algum momento a população irá se revoltar por ter seus cidadãos assassinados pelo Estado que deveria protegê-los? Ou, antes disso, em algum momento irá reconhecer essas pessoas como seus concidadãos, seus iguais?

Em Portugal, no dia 10 de novembro, um menino brasileiro de 9 anos teve as pontas de dois dedos decepadas por outros alunos de idade semelhante na escola em que estudava, no Distrito de Viseu. Criança torturando criança. Onde será que aprenderam tamanha desumanização?

Nas redes sociais, essa notícia compartilha espaço com gatos, memes, filhos de amigos, a Tempestade Cláudia, a COP30 e as ações e consequências das guerras recentes e crônicas na Palestina e no Sudão. Levanto o pescoço do celular, olho para o vagão de metrô ao meu redor e vejo todos os outros rostos em outros celulares. O real parece perder densidade, achatado no virtual, enquanto este oferece a promessa de um mundo mais suportável — ou pelo menos, mais editável. Até a revolta aqui é fácil.

Esse movimento permanente entre horror e distração produz um verdadeiro cansaço moral, um estado de hiperconsumo de tragédia em que já não conseguimos distinguir o que exige ação do que apenas exige um scroll. A desumanização também é cognitiva.

Então, será que já não somos humanos? Ou que essa “humanidade” sempre foi tão pouco? Ou será que estamos apenas treinados para tolerar o intolerável? Fico me perguntando o que mais é preciso acontecer para que a gente pare. Para que a história chegue a um ponto em que nós digamos: não, aqui é o limite. Não trabalharemos mais para o mundo em ruínas.

Nós temos tanta criatividade para criar grandes feitos. Por que não temos para parar a barbárie? Talvez porque, antes de criá-la, precisaríamos primeiro reconhecê-la, senti-la e arcar com as consequências. Quanto do intolerável ainda estamos dispostos a aceitar?

terça-feira, 25 de novembro de 2025

Pela dignidade comum

É inadmissível vivermos no século XXI, em países desenvolvidos, com excedente econômico, onde há pessoas a viver na rua. Hoje, educamos os nossos filhos para não olharem, mas, se a sociedade ainda reage quando vê uma criança na rua, também devia reagir de igual forma quando é um adulto. As pessoas convenceram-se de que é uma inevitabilidade e desistiram do lado humanista.

Não pode haver dignidade na nossa vida sem haver dignidade comum.

Américo Nave, cofundador da Crescer 

Água sacrificada para extrair matérias-primas essenciais

"Esta é a primeira vez que venho a esta conferência de uma região onde se encontram matérias-primas críticas. A ideia é bater às portas e dizer: ei, do que vocês estão falando? Por que falam de uma transição energética justa se o sacrifício é nosso? Nosso território fica na Puna, um lugar com pouquíssima água. E para extrair lítio, eles precisam de muita água. A contaminação dessa água será a nossa morte, tanto física quanto espiritual", disse Yber Sarapura, líder das comunidades da Bacia de Salinas Grandes em Jujuy, Argentina, durante a 12ª Semana das Matérias-Primas Críticas , realizada em Bruxelas entre 17 e 20 de novembro.

Yber Sarapura é um dos representantes de comunidades indígenas do sul global presente no encontro internacional, organizado pela Comissão Europeia , que reúne empresas, academia, sociedade civil, pesquisa e política em torno das matérias-primas críticas (MPC).

Níquel, cobre, manganês, cobalto, lítio e elementos de terras raras encabeçam a lista dessas matérias-primas, que são críticas devido à sua importância estratégica e econômica, bem como aos riscos em suas cadeias de suprimentos. Desde 2023, quando foi publicada a quinta versão da lista de matérias-primas críticas, Bruxelas firmou acordos com países ricos nesses materiais — Brasil, Chile, Argentina e Peru — para sua extração, visando garantir a transição energética. E agora, esses acordos também se estendem ao fornecimento para a indústria de defesa .

Vinte e três por cento dos elementos de terras raras (compostos por 17 minerais) estão no Brasil. Cinquenta e quatro por cento do lítio está na América do Sul. E as maiores reservas de cobre estão no Chile e no Peru, atualmente o primeiro e o segundo maiores exportadores mundiais.

Por outro lado, a UE precisará de 30% mais cobre e 60% mais lítio até 2050 (a partir de 2020). O interesse em parcerias é evidente. No entanto, é importante lembrar que o rio Trapiche secou em Catamarca; em Cajamarca, os rios apresentam cores diferentes devido aos resíduos minerais em seus leitos; e 1,3 quilômetros quadrados ao redor do Rio Blanco e da geleira Rinconada secaram.


Esses dados — provenientes de relatórios de organizações como a argentina FARN, a peruana CoperAcción e a Fundação Heinrich Böll — lançam uma luz diferente sobre essa cruzada europeia moderna pelas matérias-primas necessárias para supostamente alcançar um mundo mais verde.

No entanto, as comunidades locais e os ambientalistas estão se concentrando em um elemento que recebeu pouca atenção na conferência de Bruxelas: a água e o impacto de sua escassez na vida. Porque, entretanto, já é sabido: apesar de toda a inovação tecnológica em sua extração, a indústria de mineração requer água — muita água.

Vale ressaltar que representantes de instituições europeias afirmam o respeito aos direitos humanos, os mecanismos voluntários de diligência devida, o compromisso com a sustentabilidade e o progresso na indústria da reciclagem. Ao mesmo tempo, consideram essas matérias-primas essenciais, que em sua maioria se encontram fora da Europa, indispensáveis ​​para a independência energética e a competitividade europeia na atual corrida geopolítica.

"Para quem esses minerais são essenciais? Para a indústria de mobilidade pessoal?", questiona Laura Castillo, pesquisadora da FARN. "Para as populações nos territórios onde o lítio é encontrado, a situação crítica é a dos pântanos andinos, zonas áridas já sob pressão das mudanças climáticas. Chove muito pouco e a quantidade de água perdida por evaporação é maior do que a que entra no sistema", afirma.

Além de questionar o hiperconsumo das sociedades do "norte global", o especialista da FARN destaca a necessidade de aplicar ferramentas já existentes, como a avaliação ambiental estratégica, para planejar o território e isentar ecossistemas sensíveis da extração.

Nesse sentido, segundo fontes oficiais, o atual governo chileno tomou medidas para proteger 30% dos salares do país, onde não haverá extração de lítio. Além disso, no Chile, o lítio não é um mineral sujeito a concessão; o presidente concede o direito de extraí-lo por meio de licitação pública, após consulta às comunidades afetadas.

Representantes da Coligação Europeia de Matérias-Primas, uma plataforma de ONGs europeias que lidam com os impactos de projetos extrativistas, estão apresentando uma proposta semelhante a Bruxelas: que sejam determinadas "zonas proibidas", que seja realizada uma consulta prévia e que, em caso de consentimento, ou "licença social", seja acordada a partilha dos lucros.
Medo devido a experiências passadas

"O medo da escassez de água é o principal fator de oposição e de conflitos com a mineração", explica Johanna Sydow, chefe da divisão de política ambiental internacional da Fundação Heinrich Böll.

"Por um lado, são feitos estudos de impacto para cada projeto, sem levar em conta o valor cumulativo da escassez de água. Por outro lado, os governos continuam a baixar os padrões de proteção ambiental, deixando as pessoas desprotegidas. No Peru, na Sérvia e em Gana, mesmo recebendo água da mineradora, as pessoas têm que beber água contaminada", destaca Johanna Sydow.

Assim, em meio a painéis e debates sobre alta tecnologia para recuperação de lítio de baterias, mobilidade com emissão zero, tecnologia aeroespacial e visões de um futuro sustentável, Iber Sarapura apresenta o caso de Salinas Grandes e da Lagoa de Guayatayoc.

"É difícil dialogar com as mineradoras. Elas usam qualquer foto nossa como pré-consulta. Não usam nosso documento KachiYupi, 'as pegadas de sal', para nos consultar", aponta o líder comunitário. Ofereceram realocação ou outros benefícios? "Não queremos dinheiro, nem terras. Este território é nosso desde antes do Estado argentino, que busca qualquer forma de se livrar de nós. Nossa resposta é não", conclui.

Reflexões fáceis, problemas encardidos

Sabe o leitor que, na vida pública, existem indagações fáceis de responder, indagações difíceis e indagações rigorosamente irrespondíveis.

Hoje, eu gostaria de falar sobre uma que tem aparecido nas três categorias. Refiro-me à questão dos partidos políticos. Suponhamos que você vá a Brasília e pergunta a um indivíduo qualquer, escolhido a esmo: o que você entende por partido político? O mais provável é que ele nada responda ou então diga algo assim: partido é um grupo de pessoas que comungam certos valores e se reúnem para tentar realizálos, disputando eleições. Eu retrucaria: um grupo de pessoas que comungam certos valores? De onde você tirou isso? Aqui em Brasília é que não foi, não é?


Aí me dirijo a um segundo indivíduo, ali mesmo na Esplanada dos Ministérios. O que você entende por partido político? E ele: “Ora, só pode ser um grupo de sujeitos que fica à espreita, esperando a chance de destruir o País. Veja o caso da Argentina. Políticos, militares, trotskistas, anarquistas, achavam que o país era bom demais para o que os argentinos mereciam. Em vez de vários partidos, vamos trazer o Perón de volta da Espanha, ele vem com Isabelita, sua segunda mulher e a coloca como vice-presidente, por precaução, porque já está um pouco velho. Aí, o que aconteceu? Ora, na hora H, Perón morreu, ela foi posta em prisão domiciliar, todos quebraram o pau e pronto: não têm mais país, mas também não têm essa coisa abominável a que chamam partidos”.

A essa altura, resolvi dirigir-me a um senhor bem aparecido, com cara de cavalheiro, obviamente uma pessoa letrada. Fiz-lhe a pergunta e ele, com um sorriso de felicidade por ter sido inquirido, respondeu-me: “Ora, isso é comigo mesmo”.

E prosseguiu: “Partidos são a engrenagem fundamental da democracia representativa. Sem partidos, não há democracia. E a recíproca é verdadeira: sem democracia não há partidos, porque ditaduras não os toleram”.

Formidável, respondi a ele, mas o que, exatamente, é um partido?

Respondeu-me o cavalheiro que iríamos muito longe se fôssemos discorrer sobre outros países. Fiquemos no Brasil. Desde logo, o partido tem de ter caráter nacional, ou seja, não admitimos partidos regionais. Uma vez constituídos, têm direito a financiamento (recursos do Fundo Partidário) e a acesso gratuito ao rádio e à TV para divulgar seus programas, pois não é concebível que nosso imenso eleitorado compareça às urnas desprovido de informações idôneas sobre as alternativas entre as quais terá o direito e o dever de fazer sua escolha. E, naturalmente, a Constituição não estabelece restrições quantitativas quanto ao número de partidos.

Ótimo, ótimo, lhe respondi, mas continuo sem uma ideia exata sobre o que é, de fato, um partido. “Ora – respondeu-me – é muito simples. Primeiro, o grupo interessado em formar um partido precisa registrar sua intenção no Cartório de Pessoas Jurídicas do Distrito Federal. Observe que aí ele já começa a existir. Depois o referido grupo deve comparecer ao Tribunal Superior Eleitoral portando uma senhora maçaroca. Um catatau do qual haverá de constar os estatutos e o programa do partido, bem como algumas centenas de páginas com assinaturas de eleitores de vários Estados, sendo essa a prova do indispensável “caráter nacional” da recém-criada agremiação”.

E daí em diante, o que acontece? “Ora”, respondeu-me o interlocutor com a mesma distinção que demonstrara até esse ponto. “Daí em diante, desde que conquiste o desejado número de assentos parlamentares, o partido contribui para o bem do País na exata proporção da qualidade de seus membros. Tivemos em nossa história partidos que fizeram coisas admiráveis. É verdade que esses, nos dias de hoje, rarearam. Ocupam-se principalmente em inserir na legislação os chamados privilégios corporativistas, quero dizer, normas legais para a proteção e a progressão profissional de pequenos grupos, que os recompensam com apoio eleitoral; isso, naturalmente, nos níveis nacional, estadual e municipal. Dado que a vida política edulcora o coração das pessoas, muitos também se esforçam para arranjar empregos para amigos e parentes. E, sobretudo, trabalham com afinco para influenciar o Orçamento federal anual, pois, afinal de contas, nada há de mais execrável que a mania da chamada “área econômica” de querer equilibrar a arrecadação e o gasto.

A organização jurídica, como veem, é impecável. Nada escapou à atenção da Constituição de 1988 e à subsequente legislação ordinária. O único senão é que continuamos aprisionados na chamada “armadilha do baixo crescimento”. Incapaz de crescer pelo menos dois e meio por cento ao ano, levaremos uma geração inteira para dobrar nossa já pífia renda anual per capita. Com Lula na Presidência, pleiteando a reeleição e uma entidade chamada Centrão funcionando como a estufa que cedo ou tarde nos trará uma plêiade de estadistas, o distinto cavalheiro que tão bem me atendeu em Brasília terá de me explicar melhor como sobrevive um país desprovido de verdadeiros partidos políticos.

Aznar, o oráculo

Podemos dormir descansados, o aquecimento global não existe, é um invento malicioso dos ecologistas na linha estratégica da sua “ideologia em deriva totalitária”, consoante a definiu o implacável observador da política planetária e dos fenómenos do universo que é José María Aznar. Não saberíamos como viver sem este homem. Não importa que qualquer dia comecem a nascer flores no Árctico, não importa que os glaciares da Patagónia se reduzam de cada vez que alguém suspira fazendo aumentar a temperatura ambiente uma milionésima de grau, não importa que a Gronelândia tenha perdido uma parte importante do seu território, não importa a seca, não importam as inundações que tudo arrasam e tantas vidas levam consigo, não importa a igualização cada vez mais evidente das estações do ano, nada disto importa se o emérito sábio José María vem negar a existência do aquecimento global, baseando-se nas peregrinas páginas de um livro do presidente checo Vaclav Klaus que o próprio Aznar, em uma bonita atitude de solidariedade científica e institucional, apresentará em breve. Já o estamos a ouvir. No entanto, uma dúvida muito séria nos atormenta e que é altura de expender à consideração do leitor. Onde estará a origem, o manancial, a fonte desta sistemática atitude negacionista? Terá resultado de um ovo dialéctico deposto por Aznar no útero do Partido Popular quando foi seu amo e senhor? Quando Rajoy, com aquela composta seriedade que o caracteriza, nos informou de que um seu primo catedrático, parece que de física, lhe havia dito que isso do aquecimento climático era uma treta, tão ousada afirmação foi apenas o fruto de uma imaginação celta sobreaquecida que não havia sabido compreender o que lhe estava a ser explicado, ou, para tornar ao ovo dialéctico, é isso uma doutrina, uma regra, um princípio exarado em letra pequena na cartilha do Partido Popular, caso em que, se Rajoy teria sido somente o repetidor infeliz da palavra do primo catedrático, já o oráculo em que o seu ex-chefe se transformou não quis perder a oportunidade de marcar uma vez mais a pauta ao gentio ignaro?

Não me resta muito mais espaço, mas talvez ainda caiba nele um breve apelo ao senso comum. Sendo certo que o planeta em que vivemos já passou por seis ou sete eras glaciais, não estaremos nós no limiar de outra dessas eras? Não será que a coincidência entre tal possibilidade e as contínuas acções operadas pelo ser humano contra o meio ambiente se parece muito àqueles casos, tão comuns, em que uma doença esconde outra doença? Pensem nisto, por favor. Na próxima era glacial, ou nesta que já está principiando, o gelo cobrirá Paris. Tranquilizemo-nos, não será para amanhã. Mas temos, pelo menos, um dever para hoje: não ajudemos a era glacial que aí vem. E, recordem, Aznar é um mero episódio. Não se assustem.

José Saramago, "O caderno"

segunda-feira, 24 de novembro de 2025

Bolsonaro, o farsante de sempre

No início da madrugada do sábado, ao ser perguntado por uma agente da Justiça porque violara a tornozeleira que o prendia desde agosto último, Bolsonaro, em voz baixa, mas perfeitamente audível, respondeu que o fez por “curiosidade”.

Naquele mesmo dia, levado preso para a Superintendência da Polícia Federal, em Brasília, o exame de corpo de delito ao qual se submeteu indicou que o estado de saúde de Bolsonaro era bom. Não havia crise de soluço, nem ele vomitava ou estava estressado.

Na tarde de ontem, em audiência de custódia, Bolsonaro, orientado por seus advogados de defesa, disse que a tentativa de avariar a tornozeleira teve a ver com “uma certa paranoia”, provavelmente relacionada com o uso de medicamentos.


Um surto de confusão mental provocado por remédios torna impossível que uma pessoa, carente de habilidade no ofício, use solda elétrica de modo eficaz para romper uma tornozeleira eletrônica sem causar danos à própria pele. Elementar.

Ninguém é obrigado a produzir provas contra si, diz a lei. Pode mentir à vontade, bem como seus advogados. Bolsonaro domina a arte de mentir como poucos, do contrário não teria chegado onde chegou. Cabe à Justiça provar que ele mentiu. Não será difícil.

Desconfio que nós, jornalistas, em breve, sentiremos falta de Bolsonaro. Adeus à likes fáceis a propósito de qualquer coisa que ele diga por mais absurdo que soe. O jornalismo político fast food não desaparecerá, mas perderá parte da atração que exerce.

As pessoas preferem escutar ou ler mentiras a se verem confrontadas com verdades. Principalmente mentiras que reforcem suas convicções. Mentiras estimulam a imaginação, dão ensejo a debates, desatam polêmicas e muitas vezes divertem.

Quanto custa ao Estado brasileiro manter Bolsonaro preso em sua casa e impedido de fugir? Logo ele que já planejou fugir no mínimo duas vezes. Sai mais barato transferi-lo para outro lugar onde a vigilância é permanente, coletiva, e não incomoda a vizinhança.

Se a lei é de fato para todos, isso seria mais justo, mais igualitário. Bolsonaro é um bandido como outro qualquer. Foi julgado, condenado e aguarda o início do cumprimento de sua pena. Quis destruir a democracia. Cometeu o mais infame dos crimes.

Que pague por isso, portanto. Merece pagar. Se outro tratamento lhe fosse reservado equivaleria a abrir as portas para a passagem de novas manadas de golpistas. A história do Brasil está marcada por uma sucessão de golpes seguidos de torturas e de mortes.

O mais bem-sucedido dos golpes resultou numa ditadura que durou 21 anos. Estima-se que cerca de 20 mil pessoas foram torturadas e 434 mortas ou cujos corpos desapareceram. Os criminosos nunca foram punidos, mas sim anistiados.

Ditadura nunca mais, tampouco anistia para os seus responsáveis. Prisão domiciliar só para os que correm risco de morte. Não é o caso de Bolsonaro, um comprovado farsante.
Ricardo Noblat

sexta-feira, 21 de novembro de 2025

Pensamento do Dia

 


O Pedro, o lobo e a Inteligência Artificial

A encomenda ao Copilot, ferramenta da Inteligência Artificial, era simples: quero um poema romântico sobre a liberdade e a IA nos próximos anos.

A resposta chegou de pronto:

“No sopro elétrico do tempo que avança, ergue-se a promessa, frágil esperança. Circuitos sonham, frios, mas tão profundos, tecendo destinos, moldando os mundos.

Democracia, flor de voz e escolha, dança ao vento que a tecnologia acolha. Mas quem guia o código, quem guarda a razão, quando a máquina sussurra ao coração?

Se o amor é humano, feito de imperfeição, pode a IA aprender a compaixão? Ou será que, no cálculo exato e preciso, perdemos o riso, o toque, o improviso?

Que os próximos cinquenta anos sejam luz, onde a ética, como estrela, nos conduz. Que a inteligência não roube, mas inspire, um mundo onde a liberdade nunca expire.”

Circuitos tecem destino? Perdemos “o riso, o toque, o improviso”?


Apesar do pobre versejar, segura de si, a IA não se esconde. O ChatGPT admite que em 50 anos “a tecnologia concentre o poder: Estados e megacorporações controlam dados, comunicação e decisões políticas” e a “opinião pública é gerida por sistemas de algoritmos de propaganda”.

Verdade que este é o cenário mais desfavorável que o ChatGPT admite, pois a “tendência provável” é que “as democracias formais continuem a existir, mas com forte influência tecnológica e económica”. Note-se o “forte”.

Se houvesse dúvidas sobre a ameaça que já por cá anda, estas confissões serviriam de sobreaviso.

Há dias, um apoiante de Noronha Lopes à presidência do Benfica contava a um defensor de Rui Costa que tinha estado certo da vitória, por só lhe terem chegado boas notícias, e muitas, sobre o seu apoiado. Riu-se o interlocutor: a ele só chegaram novas sobre o favoritismo de Rui Costa.

Já passaram anos suficientes para se saber que os algoritmos não mostram a verdade, exibem o que sabem que gostamos de ler. É experimentar perguntar ao Google se as facas de cerâmica são boas e ver como nos dias seguintes se multiplicam anúncios e propostas de desconto sobre estes utensílios.

Todas as novas tecnologias assustam. No Paleolítico, quando os nossos antepassados começaram a usar o fogo (a Wikipedia assegura que foi há 1,7 milhões de anos, mas não consegui confirmar nas velhas enciclopédias de papel e muitos volumes) que medo devem ter sentido daquelas chamas. A fissão nuclear, que aterrorizou o mundo em Hiroshima e Nagasaki, também é hoje essencial na medicina e na engenharia. Sabe-se: o que o conhecimento traz de novo pode ter bom ou mau uso.

O perigo acrescido da IA é que nos manipula, seleciona os dados e condiciona o pensamento. Nenhum dos anteriores avanços tecnológicos ambicionou ultrapassar a Humanidade. É este o perigo novo.

“E o mais preocupante é que, à medida que estes modelos se tornam mais fluentes, mais acessíveis e mais integrados nos nossos hábitos quotidianos, torna-se cada vez mais improvável desconfiar”, alerta Adolfo Mesquita Nunes, no seu Algoritmocracia.

E quanto mais se usam, mais dados obtêm, alimentando-se vorazmente. Como a mitológica Hidra, por cada cabeça cortada, crescem duas.

Pior do que estar mal informado é ser enganado. Acreditar na verdade única quase sempre leva à maior das mentiras.

“A mentira já não gera vergonha: gera cliques, partilhas, convites para programas. O que antes destruía reputações, agora rende dividendos políticos”, escreveu Mesquita Nunes. Como diz, a informação sempre teve viés. A diferença – grande – é que sabíamos de onde vinha o enviesamento e sabíamos onde procurar o contraponto. Sabíamos quem responsabilizar e podíamos fazê-lo. Agora desconhecemos o que está por detrás do ecrã juntando letras e criando ilusões.

Daniel Innerarity, em O Novo Espaço Público, já em 2010, dizia que “sem a adequada representação, isto é, sem o trabalho de mediação institucional [de jornalistas, entre outros] que concretiza e integra o diverso num espaço público, a sociedade encontra grandes dificuldades para se ver, para decifrar e tornar operativa a multiplicidade”.

O problema que os algoritmos trouxeram é que, “como em tantas coisas, também à política se aplica o aviso de que a profusão de dados não substitui a necessidade de formar uma ideia geral e de se organizar coerentemente”, reforça o mesmo autor. E o algoritmo dá-nos sempre mais do mesmo.

Daqui nascem bolhas, discute-se e lê-se sobre o que se concorda, estreita-se o conhecimento, conversa-se em pequenas comunidades que se autoalimentam. Como o apoiante de Noronha Lopes…

Mesquita Nunes propõe a regulação dos algoritmos. O problema da regulação é que, por norma, quando é aceite, já minou o terreno. Vejam-se os tratados para o desarmamento nuclear. Quando conseguiram fixar uma meta, já havia ogivas mais do que suficientes para destruir toda a vida humana.

Karen Hao, uma das pioneiras da IA e agora feroz adversária das grandes tecnológicas, em Empire of AI, veio alertar para que “a forma de dissolver o império [das grandes tecnológicas] exige uma redistribuição dos seus poderes”, através da criação de uma rede de investigadores independentes das corporações.

Agora, “qualquer gigante tecnológico está na corrida para deixar os adversários fora de prova, em prol de um novo desenvolvimento da IA”. Karen Hao quer dividir, para reinar.

Yuval Noah Harari, sem deixar de parte as questões políticas e cívicas, alerta em Nexus que “IA e automação serão um desafio ainda maior para os países em desenvolvimento”. Sem capacidade para entrarem na corrida, vão ver os produtos que tradicionalmente fabricavam passarem a ser produzidos por autómatos nos países em que são consumidos. A mão de obra barata daqueles países será mais cara do que os robots. “O que lhes acontecerá quando for mais barato produzir têxteis na Europa?”, interroga.

Mesquita Nunes não se fica pela necessidade de regular, como a Europa tem tibiamente tentado. Ele aborda a questão da educação e do ensino das novas gerações: “A primeira condição é simples: reconhecer que existe. Não como um detalhe técnico, não como uma curiosidade de especialistas, mas como um problema central para as democracias liberais.”

Voltemos às previsões do Copilot: daqui por 50 anos, “a IA não será apenas uma ferramenta tecnológica; será um fator estruturante da política global. Sem governança robusta e cooperação internacional, os riscos de erosão democrática são elevados. Por outro lado, se bem regulada, a IA pode ser um catalisador para sistemas mais transparentes, inclusivos e resilientes”. Fica o alerta. Alguém acredita que esta seja uma bandeira dos que influenciam a sociedade?

Harari, que não dá tréguas à IA, nas suas 21 Lições Para o Século XXI, defende a teoria dos quatro C, com origem em alguns pedagogos: pensamento crítico, comunicação, colaboração e criatividade. “As escolas devem dar menos atenção às aptidões técnicas e colocar a ênfase nas aptidões de vida polivalente. Acima de tudo estará a capacidade de lidar com a mudança.”

Eis-nos chegados ao que dificilmente se fará: perceber que, mais do que ensinar que um ácido e uma base dão um sal e água, ou mesmo quem era o pai de D. Sancho I, o núcleo do conhecimento terá de caminhar para o ensino das novas tecnologias, dos seus proveitos e dos seus perigos. A questão não é proibir telemóveis, é ensinar a usá-los, é explicar truques e técnicas que nos defendam das artimanhas. É fazer destas matérias verdadeiras e exigentes áreas de ensino.

Há coisas simples de explicar: numa fotografia gerada pela IA é usual que as sombras não batam certo, assim como a iluminação dos objetos. Ensinar a ser crítico, com a importância e o empenho com que se ensina a ler.

Ou corremos o risco de termos académicos a gritar que vem aí o lobo, quando já está no meio do rebanho e só não queremos vê-lo.

Chegamos sempre tarde.

Assassinos das palavras


O dicionário também foi assassinado pela organização criminosa do mundo. As palavras já não dizem o que dizem ou não sabemos o que dizem.
Eduardo Galeano

Cartografia do genocídio: As fronteiras da subjugação perpétua em Gaza

Mesmo aqueles que não estão totalmente familiarizados com a história profunda e dolorosa de Gaza devem perceber que manter a Linha Amarela de Gaza nada mais é do que uma ilusão perigosa e sangrenta.

O chamado cessar-fogo em Gaza não foi uma cessação genuína das hostilidades, mas sim uma mudança estratégica e cínica no genocídio israelense e na campanha contínua de destruição.

A partir de 10 de outubro, primeiro dia do cessar-fogo anunciado, Israel mudou de tática: passou de bombardeios aéreos indiscriminados para a demolição calculada e planejada de casas e infraestrutura vital. Imagens de satélite, corroboradas por relatos da mídia e do terreno quase que a cada hora, confirmaram essa mudança metódica.

Enquanto as forças de combate direto aparentemente se retiravam para a região adjacente ao "envoltório de Gaza", uma nova vanguarda de soldados israelenses avançou para a área a leste da chamada Linha Amarela, com o objetivo de desmantelar sistematicamente qualquer vestígio de vida, raízes e civilização que ainda restasse após o genocídio israelense. Entre 10 de outubro e 2 de novembro, Israel demoliu 1.500 edifícios, utilizando suas unidades especializadas de engenharia militar.


O acordo de cessar-fogo dividiu Gaza em duas metades: uma a oeste da Linha Amarela, onde os sobreviventes do genocídio israelense foram confinados, e uma maior, a leste da linha, onde o exército israelense manteve uma presença militar ativa e continuou a operar impunemente.

Se Israel realmente tivesse a intenção de evacuar a área após a segunda fase do cessar-fogo, não estaria empenhado na destruição sistemática e estrutural dessa região já devastada. Claramente, os motivos de Israel são muito mais insidiosos, centrados em tornar a região perpetuamente inabitável.

Além de destruir infraestruturas, Israel também realiza uma campanha contínua de ataques aéreos e navais, visando implacavelmente Rafah e Khan Yunis, no sul. Posteriormente, e com maior intensidade, Israel também começou a realizar ataques em áreas que, em teoria, deveriam estar sob o controle dos habitantes de Gaza.

Segundo o Ministério da Saúde palestino em Gaza, 260 palestinos foram mortos e 632 ficaram feridos desde o início do chamado cessar-fogo.

Na prática, esse cessar-fogo equivale a uma trégua unilateral, na qual Israel pode conduzir uma guerra implacável e de baixa intensidade contra Gaza, enquanto os palestinos são sistematicamente privados do direito de responder ou se defender. Gaza fica, portanto, condenada a reviver o mesmo ciclo trágico de violência histórica: uma região indefesa e empobrecida, presa sob o jugo dos cálculos militares de Israel, que operam consistentemente à margem do direito internacional.

Antes da criação do Estado de Israel sobre as ruínas da Palestina histórica em 1948, a demarcação das fronteiras de Gaza não era motivada por cálculos militares. A região de Gaza, um dos berços das civilizações mais antigas do mundo, sempre esteve perfeitamente integrada a um espaço geográfico e socioeconômico mais amplo.

Antes de os britânicos a denominarem Distrito de Gaza (1920-1948), os otomanos a consideravam um subdistrito (Kaza) dentro do Mutasarrifado de Jerusalém – o Distrito Independente de Jerusalém.

Mas nem mesmo a designação britânica de Gaza a isolou do resto da geografia palestina, já que as fronteiras do novo distrito alcançavam Al-Majdal (atual Ashkelon) ao norte, Bir al-Saba' (Beersheba) ao leste e a linha de Rafah na fronteira egípcia.

Após os Acordos de Armistício de 1949 , que codificaram as linhas pós-Nakba, o tormento coletivo de Gaza, ilustrado pela redução de suas fronteiras, começou de fato. O extenso Distrito de Gaza foi brutalmente reduzido à Faixa de Gaza, meros 1,3% da área total da Palestina histórica. Sua população, devido à Nakba, cresceu exponencialmente, com mais de 200.000 refugiados desesperados que, juntamente com várias gerações de seus descendentes, estão presos e confinados nesta pequena faixa de terra há mais de 77 anos.

Quando Israel ocupou Gaza permanentemente em junho de 1967, as linhas que a separavam do restante do território palestino e árabe tornaram-se parte integrante e permanente da própria Gaza. Logo após a ocupação da Faixa, Israel começou a restringir ainda mais a circulação dos palestinos, dividindo Gaza em várias regiões. O tamanho e a localização dessas linhas internas foram amplamente determinados por dois motivos principais: fragmentar a sociedade palestina para garantir sua subjugação e criar "zonas tampão" militares ao redor dos acampamentos militares israelenses e assentamentos ilegais.

Entre 1967 e a chamada "retirada" de Israel da Faixa de Gaza, Israel construiu 21 assentamentos ilegais e inúmeros corredores militares e postos de controle, dividindo efetivamente a Faixa ao meio e confiscando quase 40% de seu território.

Após a redistribuição de tropas, Israel manteve o controle absoluto e unilateral sobre as fronteiras de Gaza, o acesso ao mar, o espaço aéreo e até mesmo o registro populacional. Além disso, Israel criou outra fronteira interna dentro de Gaza, uma " zona tampão" fortemente fortificada que se estende pelas fronteiras norte e leste. Essa nova área testemunhou o assassinato a sangue frio de centenas de manifestantes desarmados e o ferimento de milhares que ousaram se aproximar do que muitas vezes era chamado de "zona da morte".

Até mesmo o mar de Gaza foi efetivamente proibido. Os pescadores eram confinados de forma desumana a espaços minúsculos, às vezes com menos de três milhas náuticas, enquanto simultaneamente estavam cercados pela marinha israelense, que rotineiramente atirava em pescadores, afundava barcos e detinha tripulações à vontade.

A nova Linha Amarela de Gaza é apenas a mais recente e mais flagrante demarcação militar em uma longa e cruel história de linhas destinadas a tornar a vida dos palestinos impossível. A linha atual, no entanto, é pior do que qualquer outra anterior, pois sufoca completamente a população deslocada em uma área totalmente destruída, sem hospitais em funcionamento e com apenas um fluxo mínimo de ajuda humanitária.

Para os palestinos, que lutam contra o confinamento e a fragmentação há gerações, esse novo acordo representa o culminar intolerável e inevitável de seu prolongado desapossamento multigeneracional.

Se Israel acredita que pode impor a nova demarcação de Gaza como um novo status quo, os próximos meses provarão que essa convicção está terrivelmente errada. Tel Aviv simplesmente recriou uma versão muito pior e inerentemente instável da realidade violenta que existia antes de 7 de outubro e do genocídio. Mesmo aqueles que não estão totalmente familiarizados com a história profunda e dolorosa de Gaza devem perceber que manter a Linha Amarela de Gaza nada mais é do que uma ilusão perigosa e sangrenta.

A luta contra o sistema que escolhe quem deve ou não deve morrer é universal

Nos últimos tempos, tenho recebido múltiplas mensagens e lido pelas redes sociais inúmeras críticas de gente que nada faz, mas adora apontar o dedo. Acusam de “hipocrisia” quem se indigna com o genocídio na Palestina e, num gesto de falsa moralidade, perguntam: “E a Nigéria? E o Sudão?” São sempre os mesmos, os que nunca se importaram verdadeiramente com as populações africanas. O objetivo deles não é defender os povos esquecidos. É deslegitimar as organizações que denunciam crimes de guerra e desmontar qualquer movimento solidário que confronte Israel ou os poderes instalados.

É enganador e intelectualmente desonesto sugerir que a ONU e a Anistia Internacional estão em “silêncio” sobre a Nigéria ou o Sudão. Essa perceção nasce da dependência acrítica das redes sociais. Embora a ONU demonstre muitas vezes uma fragilidade política, as suas agências, como o Programa Alimentar Mundial (PAM), denunciaram a falta de fundos que as obrigou a cortar ajuda a milhões de pessoas, e os seus relatórios não cessam de alertar para todas estas crises. A hipocrisia não está em quem luta pela Palestina; está em quem instrumentaliza o sofrimento humano para fins eleitorais ou ideológicos. Está, sobretudo, em quem fala de África apenas quando quer atacar quem defende a Palestina.

Comparar o ativismo em torno da Palestina à crise nigeriana ou sudanesa é, além de demagógico, moralmente reprovável. O envolvimento global com a Palestina tem raízes históricas profundas: décadas de ocupação, um conflito com impacto direto nas relações internacionais, e a existência de uma enorme e politicamente ativa diáspora palestiniana que se organiza e com o apoio da opinião pública expõe a causa e mantém o debate ativo lutando assim contra o esquecimento. Usar esse envolvimento para diminuir outras causas é apenas mais uma forma de manipulação.


A hipocrisia mais gritante reside na duplicidade moral que revela que o compromisso com os direitos humanos não é universal, dependendo da geografia, da conveniência política e da cor da pele dos afetados. A rapidez do apoio internacional à Ucrânia, por exemplo, contrasta brutalmente com a indiferença perante conflitos africanos ou asiáticos e escandalosamente com o genocídio palestiniano.

E há uma hipocrisia que nos toca a todos: o Mediterrâneo, hoje o maior cemitério marítimo do mundo, onde milhares de pessoas se afogam, todos os anos, fugindo da guerra, da seca extrema, da fome e da miséria.

A mesma lógica que permite a brutalidade contínua sobre o povo palestiniano e que ignora as crises africanas é a que transforma o Mediterrâneo num palco de disputa, onde vidas são ativamente tratadas como descartáveis para proteger a “Fortaleza Europeia”.

O que é preciso exigir, portanto, é coerência: defender todas as vidas, sem distinção, e exigir dos países ricos e grandes potências que cumpram as suas obrigações, coibindo-se de fabricar armas que abastecem conflitos os e que deixem de instrumentalizar a ajuda humanitária em função dos seus interesses geopolíticos

Não pode haver vidas descartáveis.

Para que não restem dúvidas, quando se fala da Palestina fala-se também de todas as lutas contra a opressão.

Fala-se do Sudão, onde milhões fogem de uma guerra pouco noticiada, apesar de o país estar no centro de disputas entre grandes potências. Fala-se da República Democrática do Congo, onde comunidades são destruídas para alimentar a indústria tecnológica com minerais extraídos à custa da violência e exploração infantil. Fala-se do Iémen, destruído por anos de bombardeamentos sauditas sustentados pelo apoio militar e político dos USA e aliados ocidentais. Fala-se da Síria, um país dilacerado por uma guerra civil transformada num palco de guerra por procuração, onde potências regionais e internacionais testaram as suas armas e condenaram uma geração ao deslocamento e à ruína, perante a passividade do mundo.Fala-se de Mianmar e do povo Rohingya, vítima de limpeza étnica e empurrado para o esquecimento por um silêncio global que protege os responsáveis. Fala-se também do Haiti, onde o povo resiste a décadas de ocupações, ingerências internacionais e governos moldados segundo interesses externos. Fala-se do Bangladesh, onde trabalhadores explorados pagam com a vida para sustentar a fast fashion que enche o Ocidente de roupa barata..Fala-se destes e de todos.

O padrão é o mesmo: vidas descartáveis, territórios transformados em zonas de conflito permanente e um sistema internacional que escolhe quem merece solidariedade e quem pode ser abandonado. A mesma lógica que permite a brutalidade contínua sobre o povo palestiniano é a que mantém estas crises fora do debate público. Fala-se destes e de todos os que são oprimidos.

Fala-se da crise climática, que obriga populações inteiras a fugirem de territórios destruídos, inaugurando uma era de refugiados climáticos que o mundo ainda finge não ver. Fala-se das queimadas que expulsam comunidades indígenas na Amazónia e de todos os que fogem da seca extrema no Corno de África e das inundações no Paquistão.

Estas lutas não são paralelas nem concorrentes: são a mesma batalha contra uma estrutura global de interesses, indústria de armas e neocolonialismo económico que determina quem vive e quem morre.

E há muitas outras situações e geografias preocupantes que permanecem fora do debate público. A lista de vidas em risco é longa, mas o compromisso com a justiça não pode ser seletivo.

A luta pelos direitos humanos é universal. E só seremos livres quando todos, todos, sem exceção formos livres.