quarta-feira, 11 de junho de 2025

Deus da Desinfomação: O excesso de luz não ilumina, cega

Os mais otimistas dizem que vivemos um novo Iluminismo. A luz está por todo o lado. Mas não é daquela que inspira poetas, cientistas, santos ou até lunáticos. É a luz fria de hospital, dos ecrãs, das notificações a tocar, como sinos em aldeia onde já quase só vivem descrentes.

Se é verdade que nunca houve tanta informação, também não é mentira que nunca houve tanto ruído. Num universo cada vez mais carregado de respostas à distância de um polegar, nunca nos sentimos tão perdidos, tão desorientados, tão vulneráveis a intrujas que chegaram para nos caçar a atenção. Somos veados a meio da estrada, encandeados, não por faróis de carros, mas pelo atropelo violento da desinformação. Os condutores vão em excesso de tudo, menos de verdade, e raramente perdem alguma coisa, muito menos pontos na carta.


Há uma nova leva de vendedores porta-a-porta e de testemunhas beatas. Novos evangelistas de feed, vendedores de salvação, guardadores de segredos que a ciência rejeita e a imprensa desconfia. Já não nos batem à porta com aspiradores ou enciclopédias, mas vão vendendo verdades em segunda mão, milagres para todas as dores da alma, superstições adaptadas à constituição e aos demónios do parlamento. Se antes pediam licença para entrar, hoje atravessam-se sem cerimónia à nossa frente na timeline ou até no noticiário, à hora de jantar. Já não nos querem falar de Jesus, mas de pandemias, planos secretos para nos substituir, conspirações que vamos ouvindo passivamente em surdina, que o tempo não dá para tudo e questionar é luxo que não cai bem na nossa moleirinha formatada para o preconceito.

Ainda somos um país de portas entreabertas. Entre a cortesia e o cansaço, vamos deixando passar qualquer promessa de redenção, qualquer segurança de um perigo distante, mesmo que seja paga a pequenas prestações que nos sairão demasiado caras. Uns são feiticeiros de gravata, outros curandeiros de carrapito. Uns passam receitas para almas cansadas ou aborrecidas, vendem detox de espírito e mezinhas de autoconfiança; outros chafurdam de tanga em ethos lamacento manosferiano, convidando-nos a mergulhar em teorias de machões, mesmo quando parecem nem gostar assim tanto de mulheres. Outros, ainda, assumem-se como profetas do medo, espalhando a palavra, seja ela sobre Gates, a vacina, o refugiado ou o senhor estrangeiro da mercearia que olha durante demasiado tempo para as raparigas. Vendem livros quase sagrados, editados à pressa, e programas orçamentais de salvação, depois fazem queixinhas sobre o peso da cruz da perseguição de uma imprensa que insiste em apontar-lhes a mentira, onde juram a pés juntos encontrar verdade.

É uma nova forma de folclore. Respostas simples para acontecimentos complexos, que o escuro é farto em vilões quando a razão não topa o que ele esconde. Teorias conspirativas sedutoras, que acendem luz sobre o vazio, exímias a agregar medos e desconfianças que tendem a tocar à maioria. O problema é que o excesso de luz não ilumina, cega. Nesta estranha devoção ao novo deus da desinformação, quanto mais a ciência explica, mais o povo saliva por mistério, superstição e impulso medieval. Na falta de critério, atiram-se pedras em vez de perguntas.

Para alguns é pobreza de espírito, mas eu vejo mais pobreza de tempo. Dez horas de trabalho, mais um par delas no trânsito, os trabalhos de casa dos filhos, o jantar por fazer… Pouco nos sobra para pensar. Restam pequenas migalhas de energia, que juntamos e engolimos à pressa com a explicação que nos pareça mais fácil, mesmo que nos prometa um milagre de pedrinha debaixo da almofada.

Ainda há quem acredite que a verdade reaparece naturalmente com um mercado livre de ideias, mas essa teoria dificilmente cola nos dias que correm. Foi pensada para o minimercado do bairro, e não para a confusão de um hipermercado global, com produtos de validade cada vez mais reduzida. Com tanta oferta e tão pouco tempo para escolher, vai-se pelo rótulo mais colorido, pela promoção de última hora ou pelo jingle que é música para os nossos ouvidos. Depois, rodeamo-nos só de iguais, partilhamos indignações, ouvimos só aquilo que já sabíamos, reforçamos certezas e esfregamos as mãos no quentinho destas novas fogueiras tribais. Cada qual de perna alçada a marcar território nos limites da bolha que escolheu, ronronando com o que queremos ouvir e rosnando a quem nos desafia o conforto daquela paz que só se encontra na ignorância.

Abriram a porta das televisões a cuspidores de fogo, vendedores de banha da cobra e músicos de algibeira, e ainda esperavam que o telespetador não começasse a bater o pezinho ao som do bailarico. A música é boa para embalar preconceito, perfeita para as palminhas sincronizadas com o tempo certo da aldrabice. Nas últimas eleições já se desenhou mais um capítulo deste novo conto folclórico. A gente juntou-se sem paus nem pedras, mas com votos de quem alinhou no feitiço e, por ironia, decidiu começar a correr atrás de bruxas que a razão nunca chegou a encontrar. O populismo está a tornar-se no novo fado nacional. Todos sabem que é mentiroso, mas poucos parecem querer deixar de o cantarolar.
Luís Fonseca de Sousa

terça-feira, 10 de junho de 2025

Lauterpacht e Lemkin em Gaza

A cidade da Ucrânia a que hoje chamamos Lviv teve vários nomes — Lemberg, enquanto parte do Império Austro-húngaro; Lwów, denominação em polaco e a atual grafia, desde que foi anexada pela União Soviética, em 1939. É possível contar a história do longo século XX europeu a partir desta localidade. Uma história que se prolonga em forma de tragédia até aos nossos dias.

Há, contudo, uma outra história, porventura ainda mais crucial, cujo epicentro é também a cidade ucraniana: a do direito internacional moderno. Num livro magistral, felizmente com edição em português, Estrada Leste-Oeste – as origens do genocídio e dos crimes contra a humanidade, Philippe Sands, professor de direito em Londres e dos mais reputados advogados em tribunais internacionais, percorre essa história, reveladora dos nossos tempos.


No livro, construído quase como um romance policial, Sands cruza a vida do seu avô (um judeu sobrevivente ao holocausto) com as de dois dos mais eminentes juristas do século XX, Hersch Lauterpacht e Rafael Lemkin. Três “judeus errantes” que passaram a juventude em Lviv, não terão falado pessoalmente, mas foram fundamentais para Sands e para compreender o século XX. Há uma outra personagem neste livro, Hans Frank, conselheiro legal de Hitler, e governador da região durante a ocupação Nazi. Eminente jurista, Frank, o “carniceiro da Polónia”, seria condenado à morte em Nuremberg.

É na Alemanha do pós-Guerra que esta história se inicia, durante o julgamento que abriria uma nova fase nos direitos humanos, quando passou a ser possível julgar líderes de um país num tribunal internacional. Lauterpacht e Lemkin foram personagens centrais, mas discretos deste processo. Devemos-lhes a tipificação dos crimes pelos quais ficaria célebre o julgamento de Nuremberg: Lauterpacht é responsável pelo conceito de “crimes contra a humanidade”, enquanto Lemkin criou o de “genocídio”.

Os dois habitantes de Lviv tiveram uma longa discussão intelectual, mas não é líquido que se tenham conhecido pessoalmente. Tendo vivido e estudado na cidade ucraniana, ambos se exilaram. Lauterpacht fez carreira em Cambridge e, em Nuremberg, fez parte da equipa de acusação britânica. Lemkin conseguiu escapar da Polónia em plena guerra, e ensinaria em Duke. No julgamento foi conselheiro da delegação norte-americana. Os dois eram simpatizantes da causa sionista e o que estava em causa naquele tribunal era para eles, também, uma questão pessoal: tinham perdido quase toda a família no holocausto, às mãos do governador Hans Frank.

Os detalhes da história são fascinantes e o debate intelectual merece ser revisitado. Afinal, na discussão entre crimes contra a humanidade e genocídio trava-se, também, uma distinção fundamental. Conquanto o primeiro conceito remete para o extermínio de indivíduos em larga escala, o segundo sugere o aniquilamento de um grupo de pessoas com características partilhadas e assenta num termo criado por Lemkin: uma amálgama da palavra grega, genos (tribo ou raça) com o termo latim, cide (matar).

Desde outubro de 2023, morreram em Gaza cerca de 60 mil palestinianos, um terço dos quais crianças. Não podemos deixar de pensar no que diriam, hoje, sobre o que se passa neste território martirizado, estes dois homens justos e de simpatias sionistas que ajudaram a moldar o direito internacional. Já o descendente de judeus Philippe Sands, cujos restantes livros mereciam edição em português, é representante legal da Palestina no Tribunal Internacional de Justiça.
Pedro Adão

Somos viciados em pressa. Se a internet falha, ficamos neuróticos

O escritor e jornalista mexicano Juan Villoro, 68 anos, anda quase sempre de porta-chaves no bolso. Não sabe bem que fechaduras abrem aqueles quatro ou cinco sonoros objetos de metal, mas o seu manuseio ajuda-o a concentrar-se nos livros. No meio das chaves está um peão de xadrez, oferecido pelo filho, que de tanto ser manipulado transferiu-se das peças brancas para as negras. Villoro compara o seu “vício” inspirador a amuletos do budismo, do cristianismo e, também, da Grécia antiga, onde alguns dos pioneiros da Filosofia se cruzaram, muitos séculos antes de serem convidados para o mais recente livro dele, Não Sou um Robô (Zigurate).

Num destes dias, de passagem por Lisboa, este artesão das palavras sentou-se conosco a pretexto desta obra em que a leitura (de preferência, em papel) entra num tabuleiro de xadrez para medir forças com a sociedade digital. E se a Inteligência Artificial, noutros tempos, já dava muito que pensar a Garry Kasparov, agora coube a Villoro convocar uma assembleia de estrategos de várias artes e ciências para o ajudar a defender a sua dama. No fim, o empate basta-lhe – e não se fala mais nisso.


Somos os humanos mais alienados da História recente da Humanidade?

Durante a Revolução Industrial, a alienação produzida pelo trabalho manual era muito óbvia. O esforço de passar dez horas numa fábrica ou numa mina tirava a pessoa de si mesma. Hoje, a alienação é totalmente diferente, porque é feliz. Passamos horas e horas no telemóvel a ver ofertas, propaganda, mulheres bonitas, jogos de futebol, notícias que aparentemente nos interessam, e percebemos isso como um benefício, quando na verdade estamos hipnotizados por um feitiço, como magia, e poderíamos estar a fazer coisas mais proveitosas.

Como escreve no livro, depender de uma prótese digital não é promessa de felicidade. Andamos equivocados?

Não, porque os telemóveis e os computadores em geral são muito úteis. A minha atitude não visa erradicar tudo isto nem considerar que cometemos um erro, mas sim valorizar outras coisas além da tecnologia digital. A literatura e a cultura em geral ajudam-nos a lidar melhor com a cultura digital, no sentido de a compreender e de a criticar.

Defende que a tecnologia digital traz mais ameaças do que benefícios. Quais são as principais ameaças?

Por um lado, a dependência total dos dispositivos. Por outro, a ameaça da automação da vida, o facto de contactarmos uma empresa do Estado e sermos atendidos por máquinas que nos passam a outras máquinas. É muito difícil estabelecer uma relação pessoal com um funcionário, que poderia encontrar uma forma de resolver o problema. Em vez disso, lidamos com uma máquina programada para dizer sim ou não. Outra ameaça ainda mais séria é a substituição de funções humanas pela Inteligência Artificial, algo que já acontece em muitos campos, como o jornalismo.

A dependência a que se refere inclui o scroll nas redes sociais e as consequências em termos de alienação e nas decisões que tomamos?

Temos medo de estar fora do jogo, da sensação de ficar à margem. Muitas vezes, não é que estejamos à procura de algo importante, apenas queremos estar presentes. E hoje o nível de presença é medido pelo digital. Se vamos a algum lado, tiramos uma selfie para provar, se é um restaurante, mostramos a comida para que saibam o que comemos. Isto leva a uma escalada de intimidade tão grande que alguns casais chegam a gravar as suas relações sexuais e a publicá-las na internet. Parece que, se assim não fosse, não tinha existido. A imagem digital tem valor notarial, certifica que aconteceu. Vale a pena distanciarmo-nos, como vimos no recente apagão na Península Ibérica. Eu estava em Madrid e, depois da ansiedade inicial, as pessoas saíram à rua, leram livros, jogaram às cartas, conversaram, fizeram exercício, reuniram-se a ouvir rádio. Esta vida comunitária pode existir. Não se trata de acabar com o digital, mas de combiná-lo com outras formas de convivência mais benéficas.

É tóxica a nossa relação com o telemóvel? Como ironiza no livro, o aparelho não reclama por afetos…

É uma relação de amor fundada numa farsa. Em última análise, é uma relação narcisista, porque o telemóvel conhece o dono melhor do que ninguém, portanto, responde o que o dono quer ouvir. Não o confronta e submete-se a tudo. O que lhe devolve é um espelho dele próprio. Já o livro é melhor companhia, porque interpela, desafia e obriga-nos a conhecer coisas que ignorávamos de nós mesmos. A diferença é que o telemóvel repete o que já sabíamos e o livro leva-nos a descobrir zonas ocultas das nossas vidas.

Além de narcisista, alega que a relação com o telemóvel é paranoica. Porquê?

Porque tudo o que dizemos fica gravado no telemóvel, inclusive quando não o estamos a ditar para o microfone. Falamos com alguém sobre uma viagem de praia, e o telemóvel começa a mostrar-nos ofertas de viagens de praia. Além de que muitos dos novos crimes são digitais.

Disse que ninguém nos conhece melhor do que o nosso telemóvel. Nem a CIA, a Mossad, os serviços secretos chineses…?

O Caso Snowden revelou que grande parte do trabalho da CIA é direcionado a cidadãos comuns. O que não sabemos é que esse dispositivo que nos conhece melhor do que qualquer pessoa pode transferir os nossos dados. Hoje, a maior mercadoria do planeta são os dados pessoais e não sabemos onde o seu tráfico acaba. Tanto podem acabar na CIA, no KGB, na China como podem acabar na Google ou na Amazon.

Somos a mercadoria mais valiosa do planeta?

Sim, tornámo-nos mercadorias e isso é tremendo. Também há muitas formas de monitorizarem os nossos hábitos. Mais cedo ou mais tarde, o telemóvel oferece-nos algo que queremos, mas nem havíamos expressado, como um automóvel à medida do nosso gosto e orçamento, levando-nos a pensar que chegámos lá sozinhos, porque o algoritmo opera por semelhança com pesquisas anteriores, das quais deixamos rasto, que se transforma numa espécie de ditadura. Ao contrário, a cultura muda o nosso paradigma. Abrimos um livro de um escritor russo, japonês ou mexicano e não sabemos onde nos vai levar, se vamos gostar e o que vai dizer sobre nós.

Se escolhermos um e-book, também nos expomos mais a algoritmos?

Sim, porque o e-book lê-nos. Sabe onde ficamos mais tempo, do que mais gostamos, que frase sublinhamos, tudo isso.

A informação em papel proporciona um maior potencial de conhecimento?

Claro. Uma das coisas mais gratificantes sobre jornais impressos é a sucessão de informações. Na primeira página está o jornalismo de necessidade, o novo campeão de futebol, o novo Papa, o que aconteceu nas negociações de paz para a Ucrânia. Mas, à medida que viramos páginas, surgem outras notícias e, de repente, deparamo-nos com algo que não sabíamos e que pode interessar-nos, seja uma situação pessoal, científica, religiosa ou desportiva. E isso é maravilhoso. O problema com a leitura online é que ela é muito útil quando já sabemos o que procuramos, mas, pelo caminho, ao fazermos scroll, aquele assunto parece infinito e não encontramos mais nada.

A voragem da informação online prejudica a capacidade de entender o mundo à nossa volta?

O mais importante sobre a cultura é que ela nos dá um mapa para entender a realidade. E esse mapa de compreensão pode ser tão amplo quanto os nossos interesses. Podemos aprender sobre o nosso bairro a partir de um romance local ou sobre o universo num livro científico. Esse mapa geral permite organizar o mundo e estabelecer associações entre diferentes partes da realidade. Portanto, se tivermos essa preparação, poderemos entrar mais facilmente no mundo digital e tirar dele o que é mais benéfico para o nosso mapa.

Confirmar informações divulgadas nas redes sociais parece dar muito trabalho. É mais fácil ler, dar crédito e comentar?

Vivemos no mundo da pós-verdade. O dicionário Oxford escolhe uma palavra a cada ano para retratar a realidade e, em 2016, quando Trump venceu a sua primeira eleição, escolheu essa, que nada mais é do que o uso ideológico da mentira. E o Washington Post deu-se ao trabalho de contabilizar as mentiras certificadas que Trump proferiu no seu primeiro ano no cargo, que foram cerca de duas mil, o que é uma loucura. Pode governar-se a mentir. Significa isto que a verdade já não importa? Pelo contrário, há tanta mentira, há tanta notícia falsa, sites que dizem que a Terra é plana, que os humanos nunca pisaram a Lua, que o Holocausto não aconteceu, etc., que a verdade tornou-se mais importante do que nunca. Nem sempre se alcança, mas acredito que o trabalho do jornalismo, da literatura e da cultura tem que ver justamente com manter viva a chama da verdade. Não podemos desistir de conhecer a realidade comprovável e verificável.

Ainda assim, tornou-se mais fácil para os políticos manipularem e atraírem pessoas com ideias populistas e extremistas?

Claro, porque as redes sociais também fomentaram uma lógica exclusivamente binária, na qual ou se é a favor ou se é contra, sem nada no meio, o que sem dúvida favorece os populistas extremistas, que tentam radicalizar o discurso e espalhar a ódio. E há uma esperança injustificada a dizer: “Vamos tornar a América grande novamente.” Isso não significa nada. É apenas um anúncio.

Resgatado ao passado.

Exatamente. E falhou no passado. É incrível como coisas que já falharam são apresentadas como novidades positivas. O facto de se tomarem decisões pelas redes sociais explica em grande parte a ascensão de políticos populistas como Bolsonaro, Trump, Milei e Salvini. Portanto, a cultura é um instrumento de resistência política ao pensamento único e ao pensamento binário, em defesa do pensamento complexo.

O conhecimento sobre esse passado poderia mudar os pratos na balança?

Temos uma crise de passado. As novas gerações vivem num eterno presente, o presente das redes, e consideram que o passado não só já passou como está obsoleto. É grave, porque a transmissão de valores que constroem uma tradição passava de geração em geração. Mas esse trânsito está muito fraco hoje. Milan Kundera disse que vivemos num planeta de inexperiência, porque acreditamos que tudo acontece pela primeira vez e começamos do zero. E isso permite que um partido político como o Vox, em Espanha, diga o mesmo que dizia o Falange de Franco antes da guerra civil. Uma das grandes virtudes da cultura é justamente obter lições do passado que podem ser atuais. É por isso que os povos indígenas da Amazónia, no Brasil, cunharam uma frase que considero muito preciosa: o futuro é ancestral, ou seja, as soluções para muitas coisas estão entre nós há muito tempo.

Por quanto estão os algoritmos a ganhar aos filósofos no campeonato de influenciar a opinião pública?

O problema é que os algoritmos são infinitos e, por outro lado, Spinoza, Schopenhauer ou Kierkegaard não vão falar connosco de uma maneira especial. Eles não vão sussurrar-nos coisas agradáveis ao ouvido, são professores exigentes, querem ver-nos a argumentar. O telemóvel é um espelho distorcido de nós mesmos, enquanto a Filosofia é uma janela. São cristais diferentes.

Como é a sua relação com os livros?

É caótica, mas espero que seja produtiva, porque é uma relação muito intensa. Perdi muitos livros. Escrevi um infantil, chamado O Livro Selvagem, que não quer ser lido. Muitas vezes tive a sensação de estar à procura de um livro que não está nas livrarias nem nas bibliotecas, e por isso encontrar este pareceu-me fascinante.

A julgar por este último, Não Sou um Robô, arrisco dizer que centenas de livros contribuíram para a sua escrita.

Sim, é uma discussão coletiva, pois não sou especialista no assunto. Ninguém o pode ser, porque somos os bárbaros de uma nova era. Não sabemos o que está a acontecer. Estamos na costa de um oceano cujos limites desconhecemos. Então, valia a pena conectar diferentes especialistas. Cito astronautas, espiões, economistas, teólogos, filósofos, romancistas, pessoas que refletiram sobre o assunto, porque nos diz respeito a todos. Tentei estabelecer uma conversa social porque não a encontrei na realidade. A literatura pode ser esse veículo.

Resultou num exemplar que traz outra capacidade que destaca na literatura: a de interligar conhecimentos.

Gostei muito de ouvir isso, porque o formato do livro é um pouco um espelho das preocupações contemporâneas. Há muita informação dispersa, há um limiar de atenção limitado, então eu queria criar passagens curtas e significativas que estabelecessem pontes entre diferentes formas de conhecimento para oferecer um retrato da realidade. Um dos grandes perigos da especialização é que os académicos sabem cada vez mais sobre cada vez menos. Falta conhecimento geral. Na Grécia Clássica, por exemplo, Aristóteles podia discutir ciência, astronomia, saúde, política, teologia. Este livro é sobre criar essa comunidade com recursos da crónica e do ensaio.

A velocidade a que hoje se vive é inimiga do conhecimento?

Uma das coisas mais interessantes sobre o Oráculo de Delfos eram os lemas, cujo mais conhecido é o “Conhece-te a ti mesmo”. Mas outro é fazer tudo com equilíbrio. No livro, falo sobre um diálogo com Platão em que Sócrates diz: a linguagem pode ser um alívio ou um veneno. Todas as coisas que curam também podem matar. Tudo depende do equilíbrio, da dose. E o mesmo ocorre com o uso do tempo. Há coisas para as quais precisamos de pressa, outras para as quais é melhor a lentidão. Hoje, somos viciados em pressa. Queremos chegar a todos os lugares mais rápido, queremos informações instantâneas na internet. Se a internet falha, ficamos neuróticos. Precisamos de uma nova liturgia, não religiosa mas laica, para gerir o tempo de maneiras diferentes, porque tudo isto é aprendizagem social, o mundo digital não cria a sua pedagogia. Seria muito útil se as escolas trabalhassem, por exemplo, com os pais, que não sabem como se relacionarem com os filhos. Há muitas coisas que estão a acontecer connosco e às quais não estamos a prestar atenção.

Com a licença de Mark Twain, os relatos sobre a morte do livro são manifestamente exagerados?

Sim, totalmente. O problema é que os humanos adoram notícias sobre o fim dos tempos. Quando um grande pensador morre, os jornais dizem: “O último humanista morreu.” É fascinante que algo seja o último e que sejamos testemunhas dele. Um grande paradoxo foi o do grande comunicador canadiano Marshall McLuhan, que profetizou o fim do livro num livro magnífico, chamado A Galáxia de Gutenberg. O sucesso da obra mostrou que o livro tinha futuro, por muito que a mensagem do autor versasse sobre o fim do livro. 

segunda-feira, 9 de junho de 2025

Pensamento do Dia

 


Vivemos crise da verdade e crise do clima

Na semana passada aconteceu algo estranho. Fui ao Rio Grande do Sul participar do programa Fronteiras do Pensamento e fiquei pouco mais de 40 horas desligado dos jornais. Quando voltei, levei um choque. Tudo me pareceu caótico e inquietante. Os voos que servem aos Correios tinham sido suspensos, Trump cortara o visto de estudantes estrangeiros, senadores e deputados estão envolvidos no escândalo do INSS, o governo gastara milhões em passagens num tempo de fáceis comunicações eletrônicas. Cheguei a dizer:

— Onde é que vamos parar?

Mas, imediatamente, lembrei que, noutras épocas, ironizava os velhos que reclamavam de um curso do mundo que já não podiam compreender. Será que agora é a minha vez de fazer esse papel? O único detalhe a meu favor é que, hoje mais que nunca, os contornos entre realidade e fantasia se dissolvem.


Não se trata apenas da discussão sobre bebês reborn com projetos na Câmara e longos comentários na televisão. Recebi no celular uma entrevista produzida por inteligência artificial em que entrevistados e entrevistador eram falsos. A especialista que analisava o vídeo registrou apenas alguns movimentos suspeitos na mão de uma entrevistada. Nenhum de nós percebeu, e é um tipo de problema que resolverão logo. O título do vídeo era “Acabou para nós”, pois ele foi analisado da perspectiva de editores, que se tornaram supérfluos com a IA.

Num mundo em que a quase totalidade das profissões pode desaparecer, é natural a inquietação. Assim como sermos dependentes das máquinas para um exame médico, uma operação, um trabalho intelectual e, o que já se mostrou espantoso, o protagonismo nas guerras. A Ucrânia ataca a Rússia com drones, Israel usou IA para definir alvos de bombardeio.

Vi um filme chamado “Mountainhead” na TV. Conta a história de um encontro de quatro bilionários da internet. Têm plataformas, produzem aplicativos e olham o mundo do alto de sua fortuna e poder. Trata-se de um filme apenas. Mas eles me interessam também porque, no fundo, esse tipo de pessoa é a grande adversária da tentativa de atenuar a crise climática. São aceleracionistas, querem ir para a frente, na suposição de que ciência e tecnologia resolvem tudo e, em último caso, a conquista espacial abrirá novos espaços de vida — e a própria imortalidade nos será dada pelos computadores.

Os gregos já advertiam sobre o perigo da prática humana que desconhece limites. Ela é o estopim da tragédia. Por isso diferenciavam sagacidade e sabedoria. O coro na obra de Sófocles afirma: a felicidade depende da sabedoria em todos os sentidos.

Todo este momento confuso me fez entender melhor os velhos que talvez ironizasse porque tinham dificuldade de compreender o curso do mundo. Onde é que vamos parar? Essa é a pergunta que faziam com insistência e que, hoje, sem subestimar sua perplexidade, parece-me muito mais angustiante. Estamos diante de uma catástrofe climática e da substituição da verdade pelas falsas versões. Os velhos não têm acesso a uma felicidade exuberante.

Sempre cito Samuel Beckett: não se passa um dia sem que algo seja acrescido a nosso saber, desde que suportemos as dores. Hoje imagino que Beckett tenha se inspirado no Eclesiastes, também citado por Giordano Bruno em 1588: “Aquele que aumenta seu saber, aumenta seu pesar”. Tudo isso não implica conformismo, pelo contrário. Sabendo distinguir o que é passível de transformação e o que não é, talvez seja possível conduzir a serenidade necessária para enfrentar este mundo confuso.

Resolvi abordar o tema pois há muitas maneiras, além do espelho, para descobrir que envelhecemos. Uma delas é essa inquietação sobre onde pararemos, num planeta ameaçado pelo desastre e por aqueles que querem marchar aceleradamente em sua direção, embalados pelos lucros e fantasias das 
big techs.

Há uma criança na rua

A esta hora, exatamente, há uma criança na rua.
É dever do homem proteger o que cresce,
Cuidar para que não tenha uma infância dispersa pelas ruas,
Evitar que naufrague seu coração de barco,
Sua enorme vontade de pão e chocolate,
Caminhar por seus países de bandidos e tesouros
Pondo-lhe a esperança no lugar da fome.


De outro modo é inútil ensaiar na terra a alegria e o canto,
De outro modo é absurdo porque de nada vale se há uma criança na rua.
Importam duas maneiras de conceber o mundo:
Uma, ser alguém como as outras pessoas ou
Arrancar cegamente dos demais a bolsa.
E a outra, um destino de salvar-se com todos,
Comprometer a vida até o último náufrago.

Como se pode dormir de noite se há uma criança na rua?
Exatamente agora, se chove nas cidades,
Se desce o nevoeiro gelado no ar
E o vento não é nenhuma canção nas janelas,
Não deve andar o mundo com o amor descalço
Levando um diário como uma asa na mão.

Trepando nos trens, provocando-nos o riso,
Golpeando-nos como um anjo de asa cansada,
Não deve andar a vida, recém-nascida, já lutando,
A meninice arriscada a um pequeno ganho,
Porque então as mãos são dois fardos inúteis
E o coração, apenas uma má palavra.

Eles esqueceram que há uma criança na rua,
Que há milhões de crianças que vivem na rua
E uma multidão de crianças que cresce nas ruas.
A esta hora, exatamente, há uma criança crescendo.

Eu a vejo apertando seu coração pequeno,
Olhando para todos com seus olhos de fantasia,
Percorrem e olham para o homem rico,
Um relâmpago forte cruza seu olhar,
Porque ninguém protege essa vida que cresce

E o amor se perdeu como uma criança na rua.

Armando Tejada Gómes

O estranho fenômeno dos bebês reborn

Havia algo de estranho no casal que embarcou comigo, algumas semanas atrás, num voo de São Paulo para o México. A mulher, em torno dos 20 anos, carregava um bebê nos braços que aparentava dormir.

Passei alguns minutos observando o bebê, que não se mexia. E que não se mexeu nem mesmo quando a mulher, que estava sentada atrás de mim, o embalou nos braços durante o voo.

Só algumas horas depois a ficha caiu para mim: era um bebê reborn. A expressão do rosto, a textura da pele, tudo levava a crer que se tratava de um bebê de verdade. Mas era uma boneca. Hiper-realista, mas boneca.

Difícil dizer se se trata de uma obra de arte hiper-realista ou de um pequeno Frankenstein. Desconfiei que a mulher levou o bebê junto para ter acesso prioritário ao voo. Vai saber...


Há quem diga que essas bonecas têm uma função terapêutica na superação de traumas. Elas já seriam usadas para isso nos Estados Unidos desde os anos 1990.

Para outros, elas parecem ser um objeto de coleção. Mas haveria também mulheres jovens que as utilizam para treinar para uma futura maternidade – eu, porém, não consigo entender como isso pode ser um treino para lidar com bebês de verdade.

Seja como for, a moda parece ter se espalhado pelo país. Na imprensa há relatos de encontros de mamães de bebês reborn, um deles no Parque Villa-Lobos, em São Paulo. Há clínicas onde o parto de uma criança é simulado com essas bonecas. Padres teriam rejeitado o batismo dessas "crianças" ou dar aulas de religião para elas. Em vez da Igreja, disseram, as mães deveriam procurar um psicólogo.

Na Bahia, uma mulher processou o empregador porque este lhe negou a licença-maternidade. A negativa teria causado um profundo trauma psicológico nela por causa da relação forte que ela tem com a boneca, argumentou.

Há casos de casais que estão brigando pela guarda de um bebê reborn – ou pelas contas em redes sociais. Porque, ao que parece, mostrar a "vida" das bonecas em redes sociais é uma boa fonte de dinheiro.

Por que esse fenômeno estranho virou mania justamente no Brasil, e por que agora? Seria uma paixão de infância que foi reprimida pela pobreza e que uma mulher adulta poderia finalmente vivenciar? Seria uma maneira de superar a própria relação insatisfatória com os pais? Ou trata-se mesmo da superação de um trauma, seja de um sofrimento passado, seja o desejo não realizado de ser mãe?

Certo está que esse fenômeno tem uma relação com a popularidade das redes sociais. Nelas é possível dar plena vazão a sua paixão pelas bonecas e gerar muitos cliques e engajamento com vídeos onde elas aparecem. É o que se chama de criação de conteúdo. Há até mesmo casos de influenciadores que tiram onda dessa mania. Só que muitos não entendem o tom irônico dos vídeos, que acabaram viralizando.

Certo está também que as bonecas se encaixam no papel da mãe totalmente dedicada aos filhos que a sociedade brasileira determina às mulheres.

Dizem que o ser humano é um ser social. Enquanto ele for uma criança que depende de adultos, sem dúvida. Mas, quando paro para pensar no meu cotidiano, percebo que os avanços tecnológicos me tornam cada vez menos social.

O Whatsapp nos deu uma ferramenta para que possamos nos comunicar sem telefonar ou conversar. O IFood nos traz a comida sem termos de ir a um restaurante. Aceitamos de bom grado que a tecnologia torne nossos contatos sociais cada vez menos necessários, sem que para isso tenhamos de renunciar à realização dos nossos sonhos.

Isso também afeta nossa vida amorosa e afetiva. Já se fala em jovens que se apaixonaram por um avatar gerado por inteligência artificial: o parceiro ideal, que só existe como versão digital e é programado para atender perfeitamente a todas as nossas necessidades.

Fuga para a vida virtual porque a real se tornou muito estressante? Um casal de amigos está criando dois filhos pequenos – de carne e osso, é bom dizer. O estresse que isso lhes causa não é algo que alguém gostaria de ter. Seria bem mais fácil criar duas bonecas. Mas eu tenho minhas dúvidas de que isso fosse satisfazê-los.

Quando os números começam a contar outra história

Mesmo ainda vivendo um ciclo de instabilidades, desigualdades agravadas e crises políticas, o Brasil passa a mostrar, a cada dia, sinais de reconstrução. A economia surpreende positivamente, indicadores sociais apresentam avanços e dados internacionais revelam uma melhora — ainda tímida, mas significativa — na percepção de bem-estar da população. No entanto, esse movimento não é uniforme nem livre de contradições. É justamente na tensão entre os números e a experiência cotidiana que reside o desafio de compreender o país em transformação.

Em 2023, o Brasil subiu cinco posições no ranking global do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), atingindo 0,786 — o maior valor desde 2010. O avanço em longevidade, educação e renda colocou o país na 84ª posição entre as nações avaliadas. Esse salto pode parecer modesto, mas é suficiente para reposicionar o país entre as economias de alto desenvolvimento, influenciando decisões de negócios, investimentos e políticas públicas. Ao mesmo tempo, a taxa média de desemprego caiu para 6,6% em 2024, o menor patamar desde o início da série histórica do IBGE. A economia cresceu 3,4%, e o Brasil voltou a figurar entre as dez maiores economias do mundo. Para 2025, a projeção é de mais 2,4% de crescimento.


Esses dados, embora animadores, não esgotam a realidade. O crescimento precisa ser analisado à luz de uma pergunta essencial: a serviço de quem — e de quê — ele está? Desenvolvimento econômico não é sinônimo automático de progresso humano. Só faz sentido se for capaz de ampliar oportunidades, restaurar vínculos, garantir dignidade e criar condições para que as pessoas vivam com mais propósito e menos medo.

Nesse ponto, o Brasil se vê atravessado por forças opostas. Se, por um lado, os dados apontam avanços, por outro, o ambiente social e digital — muitas vezes alimentado por lideranças políticas — tem promovido uma cultura de medo, desesperança, intolerância e ansiedade coletiva. O uso sistemático das redes sociais como campo de batalha ideológica gera ruídos que afetam diretamente a saúde mental da população, distorcendo percepções e obscurecendo conquistas reais.

Ainda assim, o brasileiro tem demonstrado uma resiliência surpreendente. Segundo o World Happiness Report, o país ocupa hoje a 36ª colocação entre 147 nações, com nota 6,27 — uma melhora em relação aos anos anteriores, embora ainda distante dos níveis observados em 2012. O relatório avalia dimensões como apoio social, renda, saúde, liberdade e generosidade. É um sinal de que, apesar d



as adversidades, a sensação de bem-estar pode estar começando a se recuperar. 

Essa recuperação não deve ser lida como otimismo ingênuo, mas como um campo fértil para políticas públicas mais sensíveis às necessidades reais da população. A terceira onda da Psicologia Positiva tem se debruçado justamente sobre essa complexidade: não se trata apenas de buscar felicidade individual, mas de promover o florescimento humano como fenômeno social — que depende de uma trama complexa de acesso à saúde, justiça, liberdade, vínculos afetivos, reconhecimento e condições materiais mínimas para viver com dignidade.

Mais do que indicadores econômicos, precisamos de métricas que revelem o quanto a vida está, de fato, melhorando — no cotidiano das pessoas, nas relações que constroem, na perspectiva de futuro que alimentam. A ideia de bem viver passa a integrar o debate sobre desenvolvimento. E isso exige um novo tipo de economia: uma que não se esgote no crescimento do PIB, mas que se comprometa com a dignidade humana, o fortalecimento do tecido social, da confiança coletiva e da sustentabilidade do planeta.

Viver bem é mais do que ter. É poder ser. Ter tempo, autonomia, segurança, cuidado. É ter voz, pertencimento e espaço para imaginar futuros — algo que não se constrói apenas com políticas de mercado, mas com políticas de Estado voltadas à reconstrução do pacto social.

O Brasil não virou o país mais perfeito do mundo. Nenhuma potência, aliás, pode se arrogar esse posto. Estados Unidos e China, embora liderem em crescimento e influência, enfrentam sérios desafios em saúde mental, desigualdade e bem-estar subjetivo, sem compromissos claros com uma cultura de paz.

A diferença está em reconhecer que o futuro das nações não pode ser medido apenas por sua força econômica — mas pela capacidade de construir sociedades mais humanas, mais equilibradas e que ofereçam à sua população condições de bem viver para todos, sem nenhum tipo de distinção.

Para ser mais feliz, o Brasil precisa continuar reconstruindo com coragem e propósito. Isso passa por educação crítica, saúde integral, cidades que cuidam, políticas públicas voltadas ao florescimento coletivo e uma economia que respeite o tempo das pessoas e os limites do planeta. Passa por escuta, diversidade e por uma visão de país em que o crescimento seja o meio — e o bem viver, o verdadeiro fim.
Rodrigo de Aquino 

domingo, 8 de junho de 2025

Pensamento do Dia

 


De trem, vapor e saudade


Nada jamais acontece duas vezes do mesmo modo. Mas há dias em que as lembranças voltam com a precisão de um apito: cortam o ar, e nos atravessam.

Wislawa Szymborska, "Poemas"

Houve um tempo em que Pirapora era mais travessia que destino. Década de 1960: cidade encruzilhada, acostumada a despedidas. Os trilhos e o rio eram suas veias abertas. Trens e vapores chegavam, apitavam, partiam. Conduziam sonhos, malas, esperanças, desassossegos. Muitos iam, outros voltavam. Alguns ficavam. Esses últimos plantavam raízes na areia do tempo e transformavam o próprio suor em cimento de cidade.

Era uma terra que vivia ao som dos chamados. O apito do trem, despontando no Cerradinho. O apito do vapor, na curva do São Francisco. A cidade se movia conforme esses sons. Cada embarque era uma cena. Cada chegada, um alvoroço. A lógica dos trilhos era razoavelmente previsível. A do rio, jamais: vapor tem hora de partir, não de chegar. E quem esperava, aprendia a esperar.

Nos sobrados e nas varandas, corações batiam em compasso com os passos. Esperava-se o pai, o noivo, o filho. A mãe, o irmão, a esposa. Notícias vinham às vezes em radiograma — redigido com sobriedade por seu Vigilato Chagas, radiotelegrafista da Navegação, decifrado com ansiedade por todos nós. Era pouco, mas bastava: sabíamos o dia, podíamos imaginar a hora onde o vapor passara, onde estaria. E com esse cálculo, corríamos a avisar familiares de outros tripulantes.

Por um tempo, os vapores obedeciam à cadência dos dias para as partidas para Juazeiro: o “São Francisco”, no dia 7; o “Antônio Nascimento”, no 14; o “São Salvador”, no 21; o “Benjamim Guimarães”, no 28. O “Otávio Carneiro”, o do apito mais bonito, ficava em alerta, como sentinela do cais. O “Wenceslau Braz”, resguardando-se para os turistas. E havia o “Siqueira Campos”, sempre no dia 4, partindo com altivez para o Rio Corrente, rio de águas claras, rumo a Santa Maria da Vitória. Ainda vejo a reinauguração desse vapor: meu pai e a tripulação em fardas brancas, impecáveis, passadas a ferro de brasa. A garrafa de champagne estilhaçada pela esposa do Capitão Esmeraldo — cujo nome, infelizmente não lembro, mas cujo gesto permanece. Também presente, e parecia feliz, o Comandante Ramalho, diretor presidente da Franave.

A estação ferroviária era, por si só, um universo. O trem, ora madrugador, ora noturno, desenhava rotinas, o percurso era longo demais para que não se atrasasse. Táxis, carroças, meninos de pés rachados correndo atrás de malas. Um cruzeiro e um sorriso — pagamento insuficiente para carregar o pesado mundo de alguém. Daquelas janelas saíam rostos cansados e felizes. Lá no Cerradinho, o apito ecoava e surgiam moradores, figuras de um tempo encantado, nossos maluquinhos: Jacarepaguá, Angu-sem-sal, Porco Batuta, Joana Tantã, Júlia Doida… Gente da rua e do sonho, que nos acenava com a alma, figuras eternamente lembradas.

A mim, cabia-me uma honra: buscar o “Estado de Minas” no “Bar e Mercearia Colúmbia”, do Sr. Waldemar Guimarães. Era o trem quem o trazia, sempre atrasado, mas aguardado com fé. Enquanto o jornal não chegava, meus olhos se perdiam nos gibis — que meu pai, generoso, comprava sem hesitar. Comprava também a Revista do Esporte, a Revista do Rádio, a Vamos Cantar, que trazia as letras das canções que ouvíamos no rádio da sala.

Foi assim que aprendi a ler o mundo. E a me despedir dele. Pois da mesma estação partia o trem que levava minha mãe, tantas vezes, para o Sanatório Imaculada Conceição, em Belo Horizonte, ou ao Santa Tereza, no longínquo Rio de Janeiro. A tuberculose não levava só pulmões — levava presenças, instalava o preconceito, a segregação, impedia o contato. Quando era ela que partia, ficávamos com as mãos no ar, tentando deter o inevitável. Quando era meu pai que ia ao seu encontro, o adeus era com lágrimas e silêncios. Intuíamos, ainda sem conhecer Hermann Hesse, que “cada vez pode ser a última”.

Depois, tudo mudou. O progresso não pede licença. Vieram as rodovias. Os caminhões. Os ônibus. A pressa. O silêncio. Trem e vapor foram vencidos. Pirapora, enfim, ficou quieta.

Hoje, resta o eco. A memória do “Otávio Carneiro”, e o som do seu apito cortando a curva do rio. A imagem do trem surgindo no horizonte, como se ainda nos buscasse. Nos trilhos vazios viajam fantasmas bondosos, puxando vagões de lembranças. E, se escutarmos com atenção, ainda ouviremos a locomotiva, assombrando docemente nossos sonhos.

Talvez um dia a ferrovia retorne. Não será a mesma — e nem poderia. Mas não importa. O que importa é tê-la vivido. E tê-la amado, como se ama um tempo que não volta.

José Carlos Costa

Brasilidade é apelo forte à nação

Em meio à impressão desoladora de que o país possa estar perdendo o trem da história por decomposição de um Estado cansado, carente de profunda transformação subjetiva e objetiva, a dinâmica nacional revela-se animadora. São fatos de superestrutura, despercebidos nas análises de macroestrutura, eventualmente corretas, mas alheias à rica totalidade do ser social, que inclui criatividade de formas de vida e de formatividade estética.

Pelo menos é o que acorre à mente depois de assistir ao espetáculo extraordinário de João Bosco e seu quarteto, em que se reaviva o sentimento de brasilidade, invocado por Machado de Assis no século 19. Nada do nacionalismo fechado das autocracias, mas comunhão afetiva com o território. Antes, as performances de Chico, Gil, Caetano e Betânia nos palcos já pareciam ultrapassar a categoria show de entretenimento para se configurarem como convocações à partilha da alegria coletiva que ajuda a definir brasilidade. Ao mesmo tempo, filmes como "Ainda Estou Aqui", "O Agente Secreto" e "Malês" renovam a projeção do cinema nacional.


Há quem considere superficiais abordagens desse tipo, confrontadas com crise política, penúria econômica e corrosão social por criminalidade avassaladora. Mas existe também a falência das palavras e, logo, do pensamento. O conceito de formatividade (Luigi Pareyson, "Problemas da Estética"), que dilui o rigor da diferença arte/não-arte e aproxima vida cotidiana de atividade simbólica, sugere que o acontecimento criativo possa ser uma fresta no enquadramento com que se pensa o status-quo. Às elites cevadas no usufruto patrimonialista do Estado não importa o que mudou em termos de classes e de história. Cada vez mais ricas, hoje cúmplices de religiosos fake nutridos por corrupção e lavagem, aquecem-se com brasas do pior passado.

Mas o território sempre resistiu ao Estado pela "verdade" representativa com matriz no sentimento de nação, politicamente indeterminado, embora estável em termos históricos, culturais e psicológicos. Uma estabilidade próxima da identidade humana, ou seja, do complexo vinculativo que situa o indivíduo na intersecção de sua história individual com a do grupo. No século 19, o influente intelectual francês Ernest Renan definiu nação como "princípio espiritual".

Entre nós, acontecimentos reais na dinâmica nacional apontam para brasilidade, a celebração da diversidade, como modo subjetivo de ação. Ainda sem alcance eleitoral, mas com perspectiva diferente do uso genocida que o capitalismo atual faz da degradação do Estado: show de horrores dos Poderes, com o Legislativo na vanguarda da corrupção fisiológica. Nada disso dissolve a brasilidade, o "saber manejar sonhos e catalisar energia" (Marina Silva).

A formatividade ascendente (música, audiovisual, jogos cênicos, periferias criativas, literatura, intelectualidades afros e indígenas), e não patriotismo bélico, implica sinergia do espírito do tempo com o princípio espiritual aberto à compreensão, bloqueada por conceitos anacrônicos, dos acontecimentos proativos. Esses que são guiados por ideias com lugar próprio. O Estado brasileiro formou-se sem nação, mas nela vige hoje o que no povo é de fato potente.

Gaza: o novo holocausto

Se em tempos a Faixa de Gaza era considerada uma prisão a céu aberto, hoje, em resultado dos últimos desenvolvimentos, toda a gente compreende que se transformou num cemitério a céu aberto. Há um genocídio indiscutível a decorrer em Gaza, promovido pelas forças israelitas, que estão a eliminar sistematicamente a população palestiniana, quer à bomba quer pela fome e subnutrição.

O ataque terrorista do Hamas contra israelitas e pessoas de diversas nacionalidades, a 7 de outubro de 2023, e do qual resultaram mais de 1200 mortos e 251 reféns, foi o pretexto de que Netanyahu apoiado pelos extremistas de direita precisava para iniciar o projeto de aniquilar os palestinianos do enclave.

Aliás, o projeto passa por expulsar todos os palestinianos da sua terra, mesmo na Cisjordânia, para que Israel possa apossar-se da totalidade do território, como se vê pela política dos colonatos judeus. À intenção já antes manifestada de Israel expulsar o povo palestiniano de Gaza – talvez para oferecer a Trump e à trupe que o acompanha a tal “Riviera” – acresce a ameaça de anexar partes da Cisjordânia caso a comunidade internacional prossiga na intenção de reconhecer o estado da Palestina.


A louca fuga em frente do primeiro-ministro israelita assenta em duas razões essenciais. Primeiro, a tentativa de Netanyahu escapar à prisão, devido a uma eventual condenação por corrupção, e também para manter de pé o apoio da extrema-direita religiosa que sustenta o governo. O primeiro-ministro mostra não estar minimamente interessado em negociar a libertação dos reféns que estão nas mãos do Hamas, ao contrário do que diz.

Apesar de tudo, é claro que a sociedade americana mantém uma simpatia muito especial por Israel, não só devido à influência judaica nos EUA mas sobretudo nos meios cristãos devido a uma teologia abstrusa. A ideia é que aquela terra foi dada por Deus aos descendentes de Abraão, por isso aceitam com alguma naturalidade a expulsão dos palestinianos da sua terra – que, afinal, não é deles, segundo esta visão – ou mesmo o seu extermínio. Mas incorrem em dois erros de análise básicos.

Desde logo, os antigos israelitas interpretaram o exílio babilónico, a perda de soberania para outros povos ao longo da sua história e a dispersão pelo mundo como castigo de Deus devido à sua desobediência. Ora, se o Deus de Abraão estabeleceu com ele uma aliança, ela implica direitos e deveres. Partindo do princípio de que Deus não falha, os israelitas é que falharam repetidamente para com Deus rasgando assim o antigo pacto com Abraão.

Em segundo lugar já não vivemos nos tempos do Antigo Testamento e o moderno estado de Israel, fundado em 1948, nada tem que ver com o povo hebreu dos tempos neotestamentários da lei e dos profetas. Assim, o atual país chamado Israel não tem qualquer direito divino à posse daquela terra, e ainda menos terá o direito de expulsar dela os seus habitantes.

O direito internacional tem pugnado pelo princípio dos dois estados, coisa que Israel tem sempre recusado, o que revela a sua má-fé. Apesar de os extremistas palestinianos quererem lançar os judeus ao mar, isso não é mais do que o desespero de se sentirem prisioneiros na sua própria terra.

Na carnificina de Gaza, depois de assassinar famílias inteiras e gente de todas as idades, depois de matar dezenas de milhares de crianças com as bombas israelitas e à fome e subnutrição pela recusa de deixar entrar alimentação básica, fornecida pela comunidade internacional, o governo israelita tem as mãos manchadas de sangue. A macabra contabilidade já vai em mais de 54 mil mortos e 123 mil feridos. Talvez fosse boa ideia lerem o que escreveu o profeta Jeremias: “A língua do que mama fica pegada pela sede ao seu paladar, os meninos pedem pão, e ninguém lho reparte” (Lamentações 4:4).

É estranho que o povo que sofreu um holocausto brutal há oitenta anos pela besta nazi esteja agora a fazer o mesmo a outro povo. É estranho que um povo que se saúda com a palavra Shalom (Paz) esteja a bombardear escolas, hospitais, habitações e a reduzir a escombros toda uma comunidade étnica. E é estranho que um povo que viu o seu primeiro-ministro Yitzhak Rabin ser assassinado em 1995 por um jovem judeu extremista, apenas por ter iniciado o caminho da paz, esteja agora a justificar o genocídio palestiniano com os extremistas do Hamas.

Se o mundo se está a tornar um lugar cada vez mais estranho, é igualmente estranho não conseguir ver que Gaza é, de facto, o novo holocausto.

O homem, a guerra, o desastre e o infortúnio

Que estranho bicho o homem. O que ele mais deseja no convívio inter-humano não é afinal a paz, a concórdia, o sossego coletivo. O que ele deseja realmente é a guerra, o risco ao menos disso, e no fundo o desastre, o infortúnio. Ele não foi feito para a conquista de seja o que for, mas só para o conquistar seja o que for. Poucos homens afirmaram que a guerra é um bem (Hegel, por exemplo), mas é isso que no fundo desejam. A guerra é o perigo, o desafio ao destino, a possibilidade de triunfo, mas sobretudo a inquietação em ação. Da paz se diz que é podre, porque é o estarmos recaídos sobre nós, a inatividade, a derrota que sobrevém não apenas ao que ficou derrotado, mas ainda ou sobretudo ao que venceu. O que ficou derrotado é o mais feliz pela necessidade iniludível de tentar de novo a sorte. Mas o que venceu não tem paz senão por algum tempo no seu coração alvoroçado. A guerra é o estado natural do bicho humano, ele não pode suportar a felicidade a que aspirou. Como o grupo de futebol, qualquer vitória alcançada é o estímulo insuportável para vencer outra vez.

Imaginar o mundo pacificado em aceitação e contentamento consigo é apenas o mito que justifique a continuação da guerra. A paz é insuportável como a pasmaceira. Nas situações mais vulgares, nós vemos a imperiosa necessidade de desafiar, irritar, provocar, agredir, sem razão nenhuma que não seja a de agitar a quietude, destruir a estagnação, fazer surgir o risco, a aventura. É o que leva o jogador a jogar, mesmo que não necessite de ganhar, pelo puro prazer de saborear o poder perder para a hipótese de não perder e ganhar. A excelência de nós próprios só se entende se se afirmar sobre o que o não é.

Numa sociedade de ricaços ninguém era feliz. Seria então necessário que por qualquer coisa houvesse alguns felizes sobre a infelicidade dos outros. O homem é o lobo do homem para que este possa ser o cordeiro daquele. Nenhuma luta se destina a criar a justiça, mas apenas a instaurar a injustiça. O homem é um ser sem remédio. Todo o remédio que ele quiser inventar é só para sobrepor a razão ao irracional que de fato é. Toda a história das guerras é uma parada de comédia para iludir a sua invencível condição de tragédia. A verdade dele é o crime. E tudo o mais é um pretexto para o disfarçar. A fábula do lobo e do cordeiro já disse tudo. A superioridade do homem sobre o lobo é que ele tem mais imaginação para inventar razões. A superioridade do homem sobre o lobo é que ele tem mais hábitos de educação. E a razão é uma forma de sermos educados.

Vergílio Ferreira, "Conta-Corrente IV"

A ideologia do Fascismo

A Democracia vem de ideias. Rousseau disse que a única maneira do homem fugir da “barbárie” é o “Contrato Social”, com representatividade e distribuição de renda, em objetivos não alcançados. E Marx preconizou o Socialismo, onde, na plenitude da igualdade social, o homem iria “caçar de manhã, pescar à tarde, criar gado à noite, e exercer a crítica após o jantar”, na utopia que nunca ocorreu. E quando os dois falham, surge o Fascismo, do Socialismo que não levou à igualdade, e da Democracia que não distribuiu renda.

O Fascismo não tem ideologia própria, mas o pragmatismo, que se apropria de ideias conjunturais. O Fascismo ocorre quando as classes médias são comprimidas, como hoje, sujeitas à fúria de líderes despóticos.


Georg Simmel, um dos mais importantes teóricos do pensamento social, contemporâneo de Freud, em “Philosophie des Geldes” (“A Filosofia do Dinheiro”), diz que o liderado precisa de um líder para que possa “se eximir da responsabilidade da ação social”. E que, às vezes, “o mestre torna-se escravo de seus próprios escravos”, na simbiose entre o líder e os liderados.

Compatível com este paradigma, Albert Speer, Arquiteto e Ideólogo da Alemanha Nazista, em “Inside the Third Reich”, escreveu que “Hitler e Goebbels foram, de fato, moldados pela própria multidão. Certamente, as massas rugiam ao ritmo da batuta de Hitler e Goebbels; mas eles não eram os verdadeiros maestros. A multidão determinava o tema. Para compensar a miséria, a insegurança, o desemprego e a desesperança, essa assembleia anônima chafurdava por horas a fio em obsessões, selvageria e licenciosidade. A infelicidade pessoal causada pelo colapso da economia foi substituída por um frenesi que exigia vítimas. Ao atacar seus oponentes e difamar os judeus, eles deram expressão e direção a ferozes paixões primárias”.

O Fascismo se antepõe à cultura e ao raciocínio lógico. Como expresso na fala de Hans Jost, durante a ascensão do Nazismo, “quando ouço alguém falar em cultura, lanço logo a mão a minha arma”. E Goebbels, Ministro da Propaganda de Hitler, disse que “uma mentira dita mil vezes torna-se verdade”.

As ações de Trump contra a cultura e Harvard expressam a profunda anemia na maior Democracia que a história já teve, tão admirada por tantos nós. Harvard expressa o projeto de uma nação, com 21 mil Alunos, 2.400 Professores, e 163 Prêmios Nobel. Lá estudaram David Rockefeller, Bill Gates, Mark Zuckerberg, Frank D. Roosevelt, John Kennedy, George Bush, Barack Obama, Pierre Trudeau (Primeiro Ministro do Canadá), Mary Robinson (Presidente da Irlanda), Oppenheimer, T. S. Eliot, Talcott Parsons, Leonard Bernstein, Jack Lemmon, Matt Damon, e outros tantos. Harvard é grande porque ali está o mundo. By the way, lá estudam a futura Rainha da Bélgica e a filha do Primeiro Ministro do Canadá, hoje com os seus vistos ameaçados.


E assim vamos nós, da frente pra trás.

“Oh Deus, oh dor”!

sábado, 7 de junho de 2025

Pensamento do Dia

 


Mentiras israelenses e cumplicidade ocidental: engano se tornou uma arma de guerra

Ao longo de sua longa história de limpeza étnica e ocupação, Israel manteve-se consistente em suas táticas: mentir, negar e distorcer a verdade — muitas vezes com o apoio, ou pelo menos a indulgência, das potências ocidentais. Mentir tornou-se uma forma de arte israelense, aprimorada ao longo de décadas, praticada impunemente e amplificada por uma mídia global cúmplice que não apenas tolera, mas legitima ativamente essas falsidades.

O mais recente massacre no centro de distribuição de alimentos em Gaza oferece mais um lembrete gritante e repugnante desse padrão. Na madrugada de domingo, 1º de junho, mais de 30 palestinos foram assassinados enquanto aguardavam ajuda alimentar em Rafah. Como de costume, Israel negou responsabilidade, alegando que seu exército desconhecia qualquer tiroteio perto do centro de distribuição liderado pelos americanos. Mas testemunhas oculares, sobreviventes, organizações humanitárias e hospitais contaram uma história contraditória.

A negação de Israel foi imediatamente ecoada — e defendida por autoridades americanas. O embaixador americano — melhor descrito como emissário de Israel no Departamento de Estado — descartou as notícias sobre o massacre como "notícias falsas". Essa grotesca inversão da verdade é uma manobra comum, que lembra o Massacre da Farinha em 29 de fevereiro de 2024, quando as forças israelenses abriram fogo contra civis que coletavam farinha, matando 112 e ferindo mais de 760.

Mais uma vez, Israel negou responsabilidade, alegando que as mortes resultaram de "debandadas" e atropelamentos de civis por caminhões de ajuda humanitária. No entanto, mesmo depois que as Nações Unidas e veículos de comunicação como a Al Jazeera contestaram a desinformação israelense e apresentaram imagens de vídeo mostrando claramente as forças israelenses atirando contra civis desarmados, não houve responsabilização.


Em Gaza, não são apenas os postos de distribuição de alimentos que se tornaram armadilhas mortais. Ambulâncias são alvos. Socorristas, médicos e até mesmo seus filhos se tornaram alvos militares "legítimos".

Na semana passada, Israel atacou a casa da Dra. Alaa al-Najjar, matando nove de seus dez filhos — Yahya (12), Eve (9), Rival (5), Sadeen (3), Rakan (10), Ruslan (7), Jibran (8), Luqman (2) e Sedar, que ainda não tinha um ano de idade. Seu marido, Dr. Hamdi al-Najjar, não resistiu aos ferimentos dias depois. Seu décimo filho, Adma, de 11 anos, sofreu um ferimento grave na cabeça e é improvável que sobreviva devido ao bloqueio médico de Gaza.

A resposta padrão e insensível de Israel veio em seguida, explicando que sua aeronave havia atingido “vários suspeitos” em Khan Younis.

Em março, o exército israelense assassinou oito médicos, seis funcionários da defesa civil e um funcionário das Nações Unidas — e os enterrou na areia. Posteriormente, os militares culparam o "comportamento suspeito" de uma ambulância pelo ataque. Ao se depararem com evidências em vídeo que refutavam a alegação, o exército voltou ao seu roteiro habitual: "um erro", "uma decisão equivocada", "medida disciplinar tomada". Quinze vidas apagadas com um dar de ombros burocrático.

Quando Israel assassinou sete trabalhadores humanitários da World Central Kitchen em abril de 2024, o governo Biden inicialmente expressou indignação. Vinte e quatro horas depois, essa indignação foi apaziguada por israelenses pioneiros em Washington. O porta-voz da Casa Branca, John Kirby, mudou de ideia, alegando não haver evidências de ataque deliberado — absolvendo Israel ao mesmo tempo em que o condenava. Um massacre virou nota de rodapé.

Isso não é nenhuma novidade.

Em outubro de 2023, quase 500 civis foram mortos em uma explosão no Hospital Árabe Al-Ahli, em Gaza. Israel imediatamente atribuiu a culpa a um foguete palestino que falhou. Poucas horas após o pouso em Tel Aviv, o presidente Joe Biden repetiu publicamente a narrativa israelense — apesar dos relatos contundentes de testemunhas oculares, das evidências crescentes e do ceticismo de observadores independentes.

E há também o caso de Shireen Abu Akleh , a jornalista palestino-americana morta a tiros em 2022. Inicialmente, Israel alegou que ela foi morta por fogo cruzado palestino e divulgou um vídeo que foi rapidamente desacreditado. No entanto, a mídia ocidental deu mais espaço às alegações israelenses do que aos depoimentos de testemunhas oculares. Meses depois, sob o peso de evidências irrefutáveis, Israel admitiu a responsabilidade — chamando-a, mais uma vez, de " erro ".

O soldado que assassinou um cidadão americano "inferior", assim como outros assassinos de jornalistas , nunca enfrentou a justiça. Na verdade, ele foi promovido a capitão e continuou matando impunemente — até que surgiram relatos de sua morte durante uma batalha em Jenin.

Assim como as crianças assassinadas em Gaza, a própria verdade se tornou mais um dano colateral na guerra de desinformação de Israel. E aqueles encarregados de defendê-la — a mídia e as instituições democráticas — muitas vezes serviram como marqueteiros e propagadores de mentiras e propaganda israelenses.

O povo de Gaza não está apenas sendo vítima de fome, bombardeio e assassinato. Ele está sendo apagado da consciência global por um muro de mentiras. E até que o mundo comece a valorizar as vidas palestinas tanto quanto valoriza as narrativas israelenses (comprovadamente falsas), o teatro israelense de sangue e mentiras continuará.

Israel não está apenas se safando de crimes de guerra — está se safando de mentir sobre eles. A impunidade não é apenas militar; é moral, política e informacional. Israel domina há muito tempo a arte da mentira, desde a criação do sionismo político. O Ocidente e sua mídia controlada normalizaram essas falsidades — assim como normalizaram a fome e o cerco a Gaza.

Israel jaz impune porque o mundo — especialmente os Estados Unidos e grande parte do Ocidente — não apenas permite, como também promove. Governos e a mídia ocidentais construíram uma câmara de eco onde as narrativas israelenses sempre têm precedência — não por credibilidade, mas para evitar o acerto de contas que a verdade exigiria. Ao escolher a falsidade em vez dos fatos, eles se esquivam da responsabilidade moral e ignoram a necessidade de conciliar os valores que professam com o genocídio que possibilitam.

Não se trata mais apenas de mentiras israelenses. Trata-se de um sistema global cúmplice em sustentar as mentiras habituais e o engano sistemático de Israel para encobrir a fome e um genocídio transmitido ao vivo.

A geopolítica tecnológica

O império contra-ataca. Donald Trump começou com um slogan de campanha política: MAGA (Make America Great Again). Mas o MAGA tornou-se mais do que um slogan. É o embrião da construção de uma nova ordem imaginada.

A ideia de ordem imaginada foi popularizada recentemente por Yuval Harari. Para ele, a ideia se refere a sistemas sociais e políticos que se baseiam “na crença compartilhada em histórias e mitos, não em instintos e relações pessoais”. Tais mitos são cruciais para a coesão social em sociedades complexas, mesmo que baseados em crenças subjetivas.

Trump entendeu a nova natureza da geopolítica mundial, que requer a modernização e reconfiguração da força militar e do complexo industrial militar. Numa geopolítica de predominância das disputas imperiais entre os Estados Unidos, a China e a Rússia.

A reconstrução do império americano requer consenso e coesão. Daí a construção de nova ordem imaginada. Mesmo que erraticamente, Trump está nesta direção.


A reconfiguração da geopolítica mundial terá como alicerce a inovação tecnológica. Uma espécie de geopolítica tecnológica. Agora, o século do software na indústria armamentista dos impérios e da política de autodefesa na Europa e no mundo.

A dependência inicial do Vale do Silício ao Estado-Nação e às Forças Armadas – desde a década de 1940 – gerou a união entre a ciência e o Estado com fins militares. Resultou na bomba atômica, nos compostos farmacêuticos, na teoria da relatividade, nos foguetes intercontinentais e satélites e nos precursores da Inteligência Artificial (IA).

A era atômica, era da estratégia de dissuasão que gerou a Pax Americana dos últimos 80 anos, está chegando ao fim. Uma nova era de dissuasão, baseada em Inteligência Artificial, está para começar. Essa nova era requer a reaproximação do Vale do Silício do Estado-Nação. A ordem imaginada do MAGA mira essa reaproximação entre ciência e Estado.

No meio do caminho, o Vale do Silício mudou de rumo e mirou o mercado, a propaganda e o consumo. Distanciou-se das inovações voltadas para a segurança, a medicina, a educação e o bem-estar coletivo. Gerou as Big Techs.

Alexander Karp e Nicholas Zamiska, em “A República Tecnológica”, produziram uma instigante análise factual do processo de inovação nos Estados Unidos e no mundo e um olhar com foco nas relações do Vale do Silício e o Estado-Nação.

Mostram que o Vale do Silício se voltou para dentro, “concentrando sua energia em produtos de consumo restrito, em vez de projetos de segurança coletiva e bem-estar”. Trata-se da evolução da era digital das Big Techs, “dominada pela publicidade e compras on-line, bem como pelas redes sociais e plataformas de compartilhamento de vídeos”.

O século XXI é o Século do software. Pesquisas de pontas mostram o potencial de revolucionar tudo, desde operações militares, incluindo operações policiais urbanas, até a medicina.

Karp e Zamiska, então, enfatizam que os Estados Unidos deveriam retornar à tradição de estreita colaboração entre a indústria de tecnologia e o governo. Produziu-se a bomba atômica e a internet. Agora, para eles, 80 anos depois há uma encruzilhada no campo da ciência da computação, na esteira da IA.

A próxima era de conflitos será vencida ou perdida com softwares.

Para eles, “é essencial que redirecionemos nossa atenção no sentido da construção da próxima geração de armamentos de IA que determinará o equilíbrio de poder neste século, conforme a era atômica termine, e no próximo”. A era da dissuasão pelo software. Eis a realidade da geopolítica tecnológica.

As políticas de defesa estão envolvidas em um novo tipo de corrida armamentista. Esta nova ênfase tem implicações para conflitos em ambiente urbano. Dotar as polícias de softwares de IA. Karp e Zamiska se referem ao que chamam de enxames de drones “para lidar com cenários dinâmicos de combate de larga escala” – que hoje são objetos de pedidos de patentes para lidar com conflitos urbanos.

Em “A República Tecnológica” os autores insistem na necessidade de alinhamento de concepções de interesse coletivo entre o Estado e o setor de tecnologia. “As pré-condições para uma paz duradoura em geral só decorrem de uma ameaça plausível de guerra”. Outra vez: a dissuasão do software, com o “hard power” do software.

Tudo somado, para eles os resultados que mais interessam às pessoas e à sociedade (redução da fome, do crime e da doença) dependem cada vez mais de inovações da República tecnológica dos softwares.

O MEGA visaria reforçar um senso de identidade nacional e coletiva. Ao longo da história este senso, para Karp e Zamiska”, serviu de pedra fundamental para o progresso humano. Ressalvados os limites do nacionalismo exacerbado.

Ordem imaginada na direção da República tecnológica e da geopolítica tecnológica.

São os caminhos e contradições do processo de inovação em curso.

O Vale do Silício será capaz de sair da bolha do individualismo e materialismo para a lógica do interesse coletivo e da identidade coletiva com mitologia compartilhada?

Polêmicas e dilemas contemporâneos.

Não aprendemos nada com a história?

O mundo de hoje caminha perigosamente por trilhas já percorridas na primeira metade do século XX. Ainda que a história não se repita de forma idêntica, ela rima, e os versos atuais carregam uma métrica sinistra. A ascensão de lideranças autoritárias, o colapso do centro político, o descrédito nas instituições democráticas, a desigualdade estrutural, a crise de refugiados e a falência do multilateralismo internacional configuram um cenário que, para quem conhece a história do entreguerras, soa tragicamente familiar.


O ressentimento social volta a ser capitalizado por discursos de ódio, por soluções fáceis para problemas complexos, por um nacionalismo excludente que aponta inimigos internos e externos a serem eliminados. A democracia liberal, cansada e desacreditada, assiste à sua própria erosão sem força para reagir, enquanto o mundo desliza, sorrateiro, rumo a um novo precipício histórico.

Nas décadas de 1920 e 1930, o mundo viu emergir líderes como Benito Mussolini, Adolf Hitler, Antonio de Oliveira Salazar, Francisco Franco e outros que se aproveitaram do medo coletivo, das crises econômicas profundas e de um ressentimento nacionalista exacerbado. Hoje, assistimos a fenômenos muito similares com Viktor Orbán na Hungria, Recep Tayyip Erdoğan na Turquia, Narendra Modi na Índia, Javier Milei na Argentina, Benjamin Netanyahu em Israel, Donald Trump nos EUA e Jair Bolsonaro no Brasil, entre outros.

Mesmo em contextos distintos, reproduzem uma cartilha conhecida: minam o judiciário, deslegitimam a imprensa, estimulam o ódio a minorias, exaltam soluções autoritárias e simplistas, alimentam uma nostalgia idealizada de um passado que nunca existiu. Esse padrão evidencia que o autoritarismo não é um acidente histórico, mas um risco recorrente quando instituições democráticas são enfraquecidas e o medo coletivo se torna combustível para líderes messiânicos e projetos regressivos de poder.

Essa nova onda autoritária, disfarçada de "vontade popular", não é episódica, é um fenômeno sistêmico nascido das inúmeras crises vivenciadas pelo capitalismo. As democracias liberais estão corroídas por dentro, o descrédito nas instituições, a captura das políticas públicas por interesses corporativos e a sensação difusa de que "a política não serve mais" criam um vácuo ocupado pelos populismos e a antipolítica se tornou capital político e a negação dela um instrumento da extrema-direita.

O centro político, que outrora funcionava como moderador entre extremos, esvaziou-se, a República de Weimar, precursora da ascensão do nazismo, também padeceu da ausência de forças moderadas capazes de sustentar um pacto democrático. A fragmentação atual da esquerda, ainda com vários dos sintomas do fim da União Soviética, além do esgarçamento da social-democracia global, contribui indiretamente para tudo isso, assim como o crescimento da extrema-direita mundial, agora mais articulada, porém sob os mesmos signos do passado, nacionalismo, armamentismo, negação do diverso e fortemente alicerçado nas teologias.

As redes sociais aceleram esse processo, se Goebbels compreendia o poder de uma mentira repetida mil vezes, hoje os algoritmos potencializam isso em escala exponencial. Fake news, deepfakes, discursos de ódio e teorias da conspiração circulam com uma velocidade incomensurável, criando realidades paralelas, a verdade tornou-se relativa. A confiança no conhecimento científico, na imprensa livre, nas universidades e nas instituições caiu drasticamente, o chão da razão foi minado e o fato real não importa mais, apenas as narrativas desses fatos.

Em paralelo, a desigualdade atinge níveis obscenos, o relatório da Oxfam de 2024 apontava que as cinco pessoas mais ricas do mundo dobraram suas fortunas desde a pandemia, enquanto bilhões de pessoas enfrentam insegurança alimentar e falta de acesso à saúde básica. A crise de 1929, que devastou as economias capitalistas e criou uma legião de desempregados, é um espelho sombrio desse presente, a humilhação econômica, ontem como hoje, é fértil para o ódio, para o nacionalismo tóxico, para as crenças messiânicas e para a ascensão do extremismo nos moldes do século passado

A fragmentação social, o hiperindividualismo promovido pelo neoliberalismo e o culto ao empreendedorismo como a nova solução mágica para a miséria desestruturaram o tecido coletivo e criam uma cunha na base da sociedade que não se unifica e ainda com parcela dos deserdados defendendo quem os mantém na vida miserável que levam. O Estado e a democracia foram demonizados e a lógica do “cada um por si” tornou-se o mantra dominante. Não à toa, ideias de supremacia racial, xenofobia, misoginia e lgbtfobia retornam com força, como se nunca tivessem sido derrotadas. O ressentimento de quem se sente “prejudicado” pela inclusão do outro é manipulado com precisão cirúrgica pelos neofascistas.

As guerras atuais também ecoam os ensaios trágicos do passado: a invasão da Ucrânia pela Rússia, o massacre em Gaza, os conflitos étnicos na Etiópia, Sudão e Congo, as tensões entre Índia e Paquistão, os Estados Unidos com a retórica de anexar o Canadá e a Groenlândia, além de ameaçar tomar o canal do Panamá: tudo aponta para um cenário de instabilidade crônica, onde alianças frágeis e nacionalismos armados podem facilmente escalar para confrontos maiores. O clima de pré-guerra está no ar, e a comunidade internacional, como a antiga Liga das Nações, aparentemente pouco faz ou não demonstra a força necessária para estancar a escalada belicosa e agora armamentista, que arrastou agora até mesmo a Europa.

Além disso, o mundo vive uma nova crise de refugiados, causada não apenas por guerras, mas também pelo colapso climático e pela pobreza estrutural. Milhões de pessoas são forçadas a abandonar seus lares, mas enfrentam fronteiras fechadas, políticas de rejeição e discursos que os tratam como “ameaça civilizacional”. Nos anos 1930, países como os Estados Unidos, o Reino Unido, França, México e o Brasil recusaram judeus em fuga do nazismo. Hoje, corpos boiam no Mediterrâneo, crianças são separadas de pais na fronteira estadunidense e tudo isso se normalizou de forma escandalosa.

As instituições multilaterais mostram-se tão frágeis quanto a ONU está paralisada, refém de vetos no Conselho de Segurança e da geopolítica das grandes potências. Os tratados de paz, meio ambiente e direitos humanos são ignorados sem consequências. O Acordo de Paris claudica, enquanto corporações continuam explorando recursos com voracidade insustentável, enquanto isso o Sul Global paga a conta ambiental de um modelo que nunca construiu e nem aproveitou.

No campo simbólico, a banalização do mal, conceito cunhado pela judia Hannah Arendt para explicar como pessoas comuns se tornam cúmplices de crimes abjetos em nome da obediência, volta a ser cada vez mais atual. Hoje, soldados bombardeiam civis com drones como se jogassem videogames. Funcionários em escritórios elaboram algoritmos que excluem populações inteiras de serviços públicos, o horror é terceirizado, automatizado, e normalizado. A frieza burocrática da máquina estatal é revestida por eufemismos: "colateral", "operação de pacificação", "ajuste fiscal", "intervenção técnica". Por trás dessas palavras, vidas são esmagadas, direitos são diluídos e a empatia é substituída por relatórios e gráficos, é a ética anestesiada pela rotina, o crime tornado rotina, a justiça substituída por uma pretensa eficiência.

Mas nem tudo está perdido, nosso século também nos oferece ferramentas que inexistiam no passado, temos redes de solidariedade internacional, movimentos sociais articulados globalmente, juventudes politizadas, tecnologias livres que podem ser usadas para construir alternativas. A luta antirracista, feminista, ambiental e anticapitalista floresce em todos os continentes. A memória histórica pode e deve ser um antídoto, e ela está sendo resgatada por educadores, artistas, ativistas e acadêmicos.

A crise atual, se trabalhada, pode virar uma oportunidade, como descreveu Walter Benjamin, outro judeu que vivenciou a ascensão do nazifascismo: “a tradição dos oprimidos nos ensina que o ‘estado de exceção’ em que vivemos é a regra”. Cabe a nós interromper esse ciclo. A democracia, a justiça social, os direitos humanos e o planeta não serão preservados por inércia.

É preciso um desejo coletivo, com organização e coragem política, e o urgente renascimento do movimento socialista internacional, esse é um elemento fundamental para barrar a onda fascista, exatamente como ocorreu no século passado, mas a luta contra o autoritarismo começa no cotidiano: na escola, na vizinhança, no trabalho, na internet, na igreja, onde cada um de nós esteja.

A história não apenas rima, ela cobra caro quando ignorada. Caminhamos hoje sobre os escombros mal varridos do século XX, repetindo padrões que acreditávamos superados. O autoritarismo já não bate à porta, ele senta-se à mesa, veste terno, discursa em palanques e governa sob aplausos dos incautos. O colapso do centro político, o descrédito das instituições e o avanço de discursos de ódio não são fenômenos espontâneos, são sintomas de uma democracia adoecida e de uma memória histórica maltratada.

Persistir na ilusão de que “dessa vez será diferente” é um risco que a humanidade já não pode se dar ao luxo de correr. O antídoto está na reconstrução da vida democrática como experiência coletiva: fortalecendo instituições, combatendo a desigualdade que alimenta o ressentimento e, sobretudo, ensinando história não como uma sucessão de datas, mas como um alerta permanente.

Se não aprendermos com o passado, ele deixará de ser apenas uma sombra incômoda, e voltará a ser nossa prisão, para muitos literalmente. O futuro ainda é um campo aberto, mas só permanecerá livre se tivermos coragem de confrontar os fantasmas que insistem em retornar com novas máscaras.

Na briga de Trump com Musk, quem sai pior na foto é a democracia americana

Nem Donald Trump, nem Elon Musk. Quem saiu mais chamuscada daquele que, na prática, é o terceiro, e provavelmente mais custoso, processo de divórcio do presidente dos Estados Unidos, foi a já cambaleante democracia americana.

Fonte inesgotável de memes e alegria dos tabloides, o bate-boca entre os dois donos de redes sociais incluiu, entre outros golpes abaixo da barriga, insinuação sobre uso abusivo de drogas por um e participação em escândalo sexual criminoso do outro. Mas as declarações mais substantivas do rompimento parecem ter sido gestadas em embalo de música de fossa. Magoado, o homem mais rico do planeta cometeu um "quanta ingratidão" após argumentar que, sem seu cofre, os republicanos jamais teriam voltado à Casa Branca. Ressentido, o presidente coçou a cabeça por não compreender tal fel após “ter feito tanto por Musk no governo”. Poucas vezes se viu um atestado de toma-lá-dá-cá tão explícito.


É arriscado meter a colher em briga de parceiros, especialmente recém-separados por interesses bilionários. Mas fica difícil, apesar dos movimentos de gente graúda pelo deixa-disso, imaginar uma reconciliação em curto prazo. Mesmo levando-se em conta a postagem de Musk no começo do ano, no auge do bromance com Trump: "Eu amo @realdonaldtrump com a intensidade que um homem hétero ama um outro". Insanos fevereiros.

Quatro meses depois, ao passar a relação a limpo, Musk bate no peito certo de que seu apoio foi central para a vitória de Trump. Para além do show do milhão na decisiva Pensilvânia e dos muitos dólares legalmente investidos no retorno do ex-presidente à Casa Branca, sua presença ativa na campanha teve efeito simbólico de fato importante. Por um lado, personificou a migração das big tech do colo do Partido Democrata para a coalizão antirregulamentação da direita. Por outro, ofereceu aos eleitores alegoria repetida por muitos ao GLOBO na reta final do pleito: a de que o time da oposição levaria para Washington versão política de "Os vingadores", com o superempresário no comando, o superbilionário ao seu lado e até o super-Kennedy na Saúde, referência ao controverso RFK Jr.

Trump não aceita o argumento e acusa o ex-amigo de dissimulação. A desativação dos supergêmeos, jura, deu-se não por conta da oposição de Musk a seu plano orçamentário, que aumenta o déficit americano em pelo menos US$ 2,4 trilhões na próxima década, e elimina qualquer economia alcançada pelo departamento de corte de custos capitaneado até outro dia pelo bilionário. Que nada. O motivo teria sido o corte de subsídios federais a carros elétricos, que afeta o bolso do dono da Tesla, e uma nomeação a cargo público de amigo do ex-amigo vetada pelo presidente.

Como Musk também é o manda-chuva da SpaceX, o suspense segue em torno dos US$ 22 bilhões de contratos do governo com a empresa. Também não se sabe se países da África e Ásia recuarão de contratos pré-assinados com a empresa, declaradamente com a intenção de "agradar o presidente dos EUA".

Mestre em cortinas de fumaça, Trump aumentou o volume da briga com Musk no exato momento em que detalhava o corte de verbas para as redes públicas PBS e NPR, fundamentais, por sua capilaridade e excelência jornalística, para a fiscalização de prefeitos e legislaturas locais EUA afora. E quando, com a justificativa de estar combatendo o antissemistismo, anunciou a proibição de novas matrículas de estudantes estrangeiros em Harvard e o veto da entrada no país de cidadãos de 12 países, em sua maioria África e Oriente Médio. Também encontrou tempo para avisar, como se não tratasse de um dos maiores fracassos de sua política externa, que "às vezes, em briga de dois meninos, é preciso sair de cena, e deixá-los resolver sozinhos o entrevero". O presidente falava da Rússia e da Ucrânia.

No flanco político e no econômico Trump e Musk têm muito a perder com o divórcio público. Mas, neste affair, a única vítima que interessa é a democracia americana.