quinta-feira, 12 de junho de 2025

Um grito frágil e alívio: bebê desnutrido Siwar é evacuado de Gaza

O grito era frágil, mas eu conseguia ouvir Siwar Ashour antes mesmo que ela fosse carregada para fora do veículo.

Foi o grito de uma voz que não desiste, de uma criança que nasceu nesta guerra e que agora, pelo menos por um tempo, conseguiu escapar dela.

Ao vivo, Siwar, de seis meses, é menor do que qualquer imagem pode transmitir. Ela pesa 3 kg, mas deveria pesar o dobro. Sua mãe, Najwa, de 23 anos, sorriu ao descrever seus sentimentos ao cruzar para a Jordânia na quarta-feira, quando sua filha foi evacuada de Gaza com outras crianças palestinas. A primeira coisa que ela notou foi o silêncio.

"Parece que há uma trégua", ela me disse. "Passaremos a noite sem foguetes e bombardeios, se Deus quiser."

Siwar também estava acompanhada de sua avó Reem e seu pai Saleh, que é cego.

"O primeiro e último objetivo desta viagem é Siwar", disse Saleh. "Queremos levá-la a uma praia segura. Quero ter certeza de que ela esteja segura e curada. Ela é minha filha, meu sangue. E estou profundamente preocupado com ela."


Foi Reem quem carregou Siwar para fora do ônibus em solo jordaniano, formando um sinal de V com os dedos enquanto caminhava.

"Até agora, não consigo acreditar que cheguei à Jordânia. Vi a foto do Rei Abdullah na fronteira e fiquei tão feliz que desci do ônibus e fiz o sinal da vitória... pelo bem de Siwar."

Em abril, quando a BBC filmou Siwar pela primeira vez no hospital Nasser, no sul de Gaza, sua mãe e seu médico disseram que ela sofria de desnutrição porque a fórmula láctea especial de que precisava não era encontrada em quantidade suficiente. Seu corpo estava emaciado. Najwa disse então que não podia amamentar Siwar porque ela própria sofria de desnutrição.

Latas de fórmula láctea foram encontradas e entregues pelo hospital de campanha da Jordânia e por arrecadadores de fundos privados. Mas, com o bloqueio israelense à ajuda, parcialmente aliviado há três semanas, e a escalada da ofensiva militar, ficou claro que a condição de Siwar precisava de testes e tratamento mais abrangentes.

Em um acordo anunciado entre o rei Abdullah e o presidente dos EUA, Donald Trump, em fevereiro, a Jordânia se ofereceu para levar 2.000 crianças gravemente doentes para tratamento em Amã.

O sistema médico devastado de Gaza não consegue lidar com o nível de doenças e feridos de guerra. Desde março, 57 crianças, juntamente com 113 acompanhantes familiares, foram evacuadas. Dezesseis crianças chegaram na quarta-feira, incluindo Siwar.

Aconchegada nos braços da avó, Siwar olhava com seus grandes olhos para a multidão desconhecida de policiais, profissionais de saúde e jornalistas reunidos na fronteira.

Ela foi levada para um salão com ar-condicionado, onde médicos jordanianos distribuíram bebidas e comida para as crianças. Havia paz e fartura.

O mais evidente foi o esgotamento de pais e filhos. Em vários meses de cobertura dessas evacuações, esta última foi a mais marcante em termos de trauma coletivo.

Todas essas famílias sabem o que é ser levada de uma área para outra por ordens de evacuação israelenses, ou enfrentar filas por horas na esperança de encontrar comida. Se não vivenciaram a morte de alguém na família, certamente conhecem amigos ou parentes que foram mortos.

Famílias são frequentemente separadas por conflitos enquanto os pais buscam comida ou tratamento médico. Um dia, Najwa levou Siwar ao hospital e essa foi a última vez que o marido Saleh esteve com eles por dois meses.

"Achei que ela ficaria fora por apenas três ou quatro dias e depois voltaria, com um tratamento simples e ela voltaria", lembrou ele. "Mas fiquei chocado com a demora... e acabei percebendo que a condição dela é muito séria e difícil."

Viajamos da fronteira para Amã com Siwar e sua família. Najwa está grávida e caiu em sono profundo. Siwar permaneceu acordada nos braços da avó. Na mesma ambulância estavam dois meninos com câncer, suas mães e dois irmãos mais novos. Um dos irmãos, um menino de quatro anos, chorava sem parar. Estava cansado e assustado.

Depois de uma hora, chegamos a Amã e Siwar foi transferida para os braços de uma enfermeira e depois para outra ambulância. Nos próximos dias, ela será testada e receberá o tipo de tratamento que é simplesmente impossível nas atuais condições em Gaza. E sua mãe, seu pai e sua avó – aqueles que cuidam dela – dormirão sem medo.

Fergal Keane

quarta-feira, 11 de junho de 2025

Pensamento do Dia

 


O imbrochável brochou

Quem já foi vítima de abuso sabe: basta uma frase, uma imagem, uma voz. O corpo inteiro responde. Não é escolha, é memória. O trauma volta antes do pensamento. Foi o que senti ao assistir a Jair Bolsonaro no depoimento a Alexandre de Moraes no STF.

E sei que não estou sozinha. Para milhões de brasileiros, Bolsonaro não é apenas um ex-presidente. É um gatilho. Apesar de me dar ojeriza, essa palavra que virou muleta linguística talvez seja o que melhor define a lembrança de viver com a sensação constante de uma mira na nuca durante seu governo. Quatro anos sem um minuto de sossego. Um país assediado moralmente, submetido à pedagogia do ódio.


Mas, diante do ministro, o imbrochável chipado brochou. Pediu desculpas, fez piada, riu de desespero —não chega a dar prazer porque a cara sebosa não permite. Convidou Moraes para ser seu vice em 2026. Foi o momento stand-up no corredor polonês. Inelegível, acuado, constrangendo até os próprios seguidores que esperavam ao menos um grito, um coice, um chilique digno do personagem. Em vez disso, um homem murcho, escolhendo frases domesticadas como quem já cheira o mofo da ficha criminal.

Seria só patético, não fosse o tamanho do estrago. Bolsonaro transformou almoços de domingo em zonas de guerra ideológica. Armou o tio do zap contra a sobrinha feminista, criou patriotas de rede social que confundem corrente do Telegram com Constituição. Fez do verde e amarelo um uniforme de seita. Ele não dividiu apenas o país, ensinou as pessoas a se odiarem com método, disciplina e memes. O preço dessa cartilha do ressentimento ainda será cobrado em prestações longas.

Não tenho alma punitivista, mas amém que Bolsonaro não será perdoado. Que a Justiça o condene. Que a história o engavete. Quero acreditar que nossa democracia saiu um pouco mais madura e preparada para reconhecer o rosto, o tom, a retórica de um abusador, mas sinto que ainda levará bastante tempo. A cada eleição, o país parece disposto a dar chance ao embusteiro da vez, contanto que ele prometa Deus, arma e gasolina barata.

E se os refugiados do clima formos nós?

Os Países Baixos tentaram combater a subida do nível das águas erguendo muralhas contra o mar, mas acabaram por falir e desaparecer de forma caótica. Mais avisada, a Dinamarca decretou o “fecho” do país, antes de ficar submersa, e definiu um calendário para a saída ordenada dos seus habitantes que, num espaço de poucos meses, viram-se forçados a separar-se de familiares e amigos e a partir para o exílio. Tudo isto se passa na Europa, num futuro não muito longínquo.

Os sete proféticos episódios de Families Like Ours, assinados pelo dinamarquês Thomas Vinterberg, foram estreados na última edição do Festival de Veneza ‒ “não havia outro lugar onde pudéssemos mostrar isso senão Veneza”, disse o cineasta, recordando que a cidade corre o risco de afundar-se ‒ e estão a ser exibidos em Portugal desde novembro, nos canais TV Cine. A série de ficção conta-nos a história de oito pessoas que, numa situação de crise ambiental, perdem o país, a casa e o emprego e sentem na pele as dificuldades que milhões de outros refugiados, políticos ou climáticos, tiveram e continuam a ter de enfrentar para obter um visto de residência ou um contrato de trabalho num país europeu.

Embora o realizador de filmes como A Festa, A Caça e Mais uma Rodada tenha afirmado que esta sua primeira série televisiva não é um alerta contra as alterações climáticas, é delas que nos lembramos quando pensamos nas grandes cheias de Valência, ocorridas no final de outubro, ou quando lemos as conclusões de um estudo recente da consultora Boston Consulting Group (BCG), intitulado To Understand Climate Mobility, Follow the Water, assinado por Torsten Kurth e Dean Muruven, quadros da empresa, em colaboração com investigadores da Universidade de Cambridge.


No pior cenário equacionado no estudo, as inundações, secas e tempestades decorrentes das alterações climáticas no planeta poderão obrigar a que, até 2050, cerca de 43 milhões de habitantes tenham de deslocar-se todos os anos – 32 milhões de pessoas dentro do seu próprio país; 11 milhões atravessando fronteiras. Em 2022, o último ano analisado no documento, 99% das deslocações provocadas por desastres naturais foram causadas por “eventos hídricos extremos”, relacionados com a água (e a sua escassez). A mobilidade climática é uma tendência que poderá acentuar-se nas próximas décadas, caso não seja possível mitigar as alterações no clima.
Mobilidade climática

Mas o que é a mobilidade climática? É a designação dada à deslocação, voluntária ou involuntária de pessoas “em busca de maior segurança, água mais limpa, alimentação adequada, meios de subsistência mais sustentáveis ​​e alívio dos conflitos provocados pelo clima.” No estudo da BCG, a água, mais do que qualquer outro fator, é apontada como a causa principal dos movimentos populacionais, uma vez que as perturbações causadas por secas, tempestades e inundações “podem provocar o fracasso das colheitas, degradar e desgastar os solos e as terras circundantes, danificar infraestruturas e propriedades e alterar significativamente os ecossistemas”. Além disso, a alteração dos padrões hídricos “afeta a qualidade e a quantidade de água, o que suscita instabilidade económica e política, agravando a capacidade da sociedade para atenuar e se adaptar aos efeitos do aquecimento global”, lê-se no documento.

As crises hídricas não são iguais em todo o lado. Os objetivos deste estudo passam também por identificar onde é que os riscos são maiores, quem será mais afetado e que medidas devem ser tomadas para diminuir os efeitos. África, Austrália, Médio Oriente e Europa Central são as geografias que enfrentam maior risco de aumento de inundações, enquanto a América Latina, o Sudeste Asiático e também a Europa Central são mais vulneráveis a secas. Na ausência de esforços mais robustos, no sentido da mitigação climática, os riscos aumentarão significativamente para outras regiões do globo.

Como exemplo do impacto das alterações climáticas relacionadas com a água, a BCG cita o caso da Somália, um dos países mais pobres do mundo, localizado na região do Corno de África. “As secas de longa duração fizeram com que o preço dos alimentos disparasse, levando ao que os especialistas chamam de crise de insegurança alimentar. A deterioração das condições sociais, políticas e económicas, incluindo uma governação fraca e tensões étnicas, levaram a conflitos prolongados no país, agravados à medida que grupos terroristas transformaram a água numa arma, destruindo infraestruturas, bloqueando o acesso a fontes de água e envenenando poços. Como resultado, mais de 1,6 milhões de pessoas foram deslocadas involuntariamente nos últimos anos.”
Três cenários…

Perante este estado de alerta ambiental, a BCG analisou os cenários do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), elaborados com base em diferentes níveis de mitigação das emissões de gases com efeito de estufa, para de seguida conceber um modelo de previsão dos movimentos internos e externos da Humanidade até 2050.

No primeiro dos três cenários, que os autores do estudo apelidaram de Seguir a Via Verde, admite-se a possibilidade de uma redução continuada das emissões de gases com efeito de estufa, assim como uma melhoria na gestão dos recursos do planeta, designadamente da água. Com base nestes pressupostos, a mobilidade climática interna aumentaria cerca de 1%, e a mobilidade externa 2,5% em 2050, em comparação com os dados de 2020. No caso da mobilidade interna, significaria que 24 milhões de pessoas (em 2020, foram 23,8 milhões) seriam forçadas a mudar-se para outro lugar, dentro dos seus países de origem.

O segundo cenário, que os investigadores situam no Meio da Estrada, prevê que nada mudará e o planeta atinja um pico de emissões em 2040. Nesse caso, a mobilidade interna crescerá cerca de 14% e a externa aproximadamente 3%. Finalmente, no terceiro e pior cenário, designado por Seguir a Autoestrada, pouco ou nenhum esforço será feito ao nível das políticas climáticas para mitigar as emissões de gases com efeito de estufa, da dependência dos combustíveis fósseis e do desenvolvimento de tecnologias amigas do ambiente. O aumento da mobilidade climática interna subirá 33% face a 2020, afetando 32 milhões de habitantes, e a deslocação além-fronteiras crescerá 3%, envolvendo 11 milhões de pessoas (em 2020, foram 10,7 milhões).
… e três medidas

As alterações climáticas são uma realidade e já estão a forçar pessoas a deslocarem-se, embora ainda não tenham obrigado ao “fecho” de países, como na série televisiva atrás referida. Além da urgência em reduzir as emissões de carbono, o abastecimento de água a nível mundial deve também ser gerido de forma mais eficaz, de modo a reduzir o número de refugiados do clima. O estudo da BCG propõe três medidas para reduzir o impacto das crises hídricas e proteger as populações mais vulneráveis: aumentar a resiliência hídrica, aumentar a resiliência social e colmatar a lacuna entre elas.

Para aumentar a capacidade de resistência a eventos hídricos extremos, como secas e inundações, o documento propõe o desenvolvimento de tecnologias de baixo custo “de captação, armazenamento e distribuição” da água, tais como previsão de caudais, monitorização em tempo real da qualidade e uso da água, irrigação de precisão e técnicas agrícolas regenerativas, e processamento e recuperação de águas residuais. Considerando que os grandes projetos de engenharia, como as megabarragens, não são viáveis para reduzir os desastre hídricos no futuro, os peritos defendem “soluções resilientes” que utilizem “o poder da Natureza juntamente com as infraestruturas existentes para se adaptarem à evolução dos eventos relacionados com a água”. Aconselham também a “pensar na água como um bem ‘comum’ e a tratar o acesso à água limpa e fresca, tanto para uso agrícola como para uso pessoal, como um direito humano, e não como uma commodity explorada para fins lucrativos privados.”

Além da melhoria na resiliência da água, é necessário garantir que os ganhos são duradouros e que os benefícios são distribuídos de forma equitativa. Por isso, os investigadores propõem, como segunda medida, um reforço da resiliência social, juntando “instituições públicas, decisores políticos e comunidades locais” para desenhar políticas e estratégias de governação que permitam aumentar a adaptabilidade hídrica e criar confiança junto da população.

Por fim, o estudo da BCG recomenda o preenchimento da lacuna entre a resiliência da água e a resiliência social, promovendo a interajuda entre pessoas e recursos, académicos e comunidades locais, na procura de soluções para os efeitos dos desastres hídricos. Sublinhando que a mitigação da mobilidade climática exigirá “mecanismos de financiamento inovadores”, entre os quais empréstimos, subsídios, incentivos, garantias governamentais e soluções alternativas como os créditos de carbono, defende ainda que “é crucial estruturar estes acordos para beneficiar as pessoas a nível local”.

“A mobilidade forçada das populaçõe a nível mundial tem como sua principal causa os desastres naturais relacionados com a água, o que reforça a necessidade de acelerar a transição energética e reduzir as emissões de carbono. Além disso, naqueles eventos que não serão possíveis de prevenir, torna-se imperativa a implementação de ações sociais que aliviem o impacto dos desastres hídricos na população”, diz Manuel Luiz, managing director e partner da BCG em Lisboa.

À medida que o planeta aquece e a mobilidade climática afeta cada vez mais habitantes, não teremos outra escolha senão limitar as causas e retardar os efeitos. Para que o mundo seja um lugar seguro e a realidade não ultrapasse a ficção.

Coisas que acontecem num certo país infeliz

Num certo país infeliz, espalha-se um enorme pessimismo sobre a economia e, aparentemente, resultados bastante positivos para a vida real de pobres e ricos são quase ignorados nas análises.

Nesse país infeliz, argumenta-se que a inflação está incontrolável, mas ela atingiu em média 4,73% ao ano nos dois últimos anos. Nos quatro anos anteriores, havia alcançado 6,17% ao ano. E a inflação média atual está abaixo da média dos últimos trinta anos (6,5% ao ano), desde que foi criada a atual moeda em circulação.

Nesse país, propala-se que o descontentamento advém das classes mais pobres, que estariam sendo fulminadas por uma inusual inflação dos produtos alimentícios. Mas os alimentos subiram 8% no ano passado, menos que a renda das famílias em geral, que cresceu 10%, e muito menos que a renda das famílias mais pobres, que aumentou 19%.


Nesse país mal-humorado, a taxa de desemprego vem recuando e estava em 6,6% da força de trabalho no primeiro trimestre, em nível próximo do mais baixo da série histórica para o período. A previsão atual é de que caia para 5,9% até dezembro. A informalidade no trabalho recuou para 37,9%, taxa situada entre as menores da série histórica iniciada em 2015.

A desigualdade de renda nesse país infeliz, medida pelo Índice de Gini, foi a mais baixa da história no ano passado. E a renda per capita domiciliar mensal, a maior desde o início da série histórica, em 2012.

Nesse país, segundo o Relatório das Nações Unidas sobre Estado de Insegurança Alimentar no Mundo, o número de pessoas em situação de fome diminuiu de 17,2 milhões em 2022 para 2,5 milhões em 2023. Portanto, cerca de 14,7 milhões de pessoas deixaram de passar fome de um ano para outro nesse país infeliz.

O PIB desse país surpreendeu novamente os pessimistas e cresceu 1,4% no primeiro trimestre, índice superior ao dos países da OCDE e do G7 - ambos os grupos avançaram minguado 0,1%. O crescimento se dá a despeito da imposição de uma assombrosa taxa básica de juros, de 14,75% ao ano, nove pontos percentuais acima da inflação, que desincentiva investimentos.

Essas surpresas do PIB ocorrem desde 2020 nesse país infeliz, quando se projetava recessão de 6,5% e ela foi de 3,3%. Em 2021, a expansão prevista era de 3,4% e a efetivada foi 4,8%. Em 2022, estimava-se 0,3% e deu 3%. Em 2023, o esperado era 1,4% e deu 2,9%. Em 2024, previa-se 1,6% e deu 3,4%.

Nesse país, observa-se que os empresários estariam insatisfeitos, mas os lucros das empresas no primeiro trimestre foram excepcionais e superaram as expectativas do mercado. O lucro líquido das 387 companhias abertas não financeiras subiu 30,3% no trimestre, para R$ 57 bilhões, e as receitas cresceram 13,9%, para R$ 976,7 bilhões.

Na área financeira, os lucros dos quatro maiores bancos no primeiro trimestre cresceram em média 7,3% e somaram R$ 28,2 bilhões. Um bancão aumentou seu resultado em 39% na comparação com o mesmo período do ano passado.

Nesse país pessimista, atingido há décadas pelo vírus da desindustrialização, a indústria voltou a crescer: 3,1% no ano passado. Em março, avançou 1,2% sobre fevereiro e 3,1% sobre março de 2024.

Por que, afinal, a bruma pessimista continua a embaçar toda a economia desse país infeliz? Se prevalecesse a “lei Carville” (É a economia, estúpido!), cunhada na campanha presidencial de Bill Clinton, em 1992, essa neblina não faria sentido.

Resumindo: nesse país infeliz, a inflação está abaixo da média nacional dos últimos 30 anos; a renda dos mais pobres cresce mais que a inflação de alimentos, principal item de consumo nessa faixa de rendimento; o nível de desemprego é o mais baixo da história; o número de pessoas em situação de fome caiu 85% em um ano; a desigualdade de renda é a mais baixa da história, e a renda per capita, a mais alta; o crescimento da produção surpreende positivamente há cinco anos; a safra de alimentos bate recorde; o lucro das empresas financeiras e não financeiras aumenta muito mais que a inflação; a bolsa de valores quebra recordes e rentistas/investidores das classes média e alta ampliam seus patrimônios com os juros de dois dígitos.

Nesse país infeliz, um partido de oposição pôs no ar uma peça publicitária engraçadinha dizendo ter saudade de um ex-presidente porque está tudo “caro”, fazendo rima com o nome do ex. Mas, nos quatro anos desse governo “saudoso”, a inflação média anual foi de 6,17%, índice bem maior que o dos dois primeiros anos do governo atual desse país (4,73%). Os alimentos estariam subindo mais, argumenta-se. Falso. Nos quatro anos “saudosos”, os alimentos subiram em média 8,24% ao ano. Nos dois do atual mandato, 4,36% ao ano.

A peça publicitária foi contestada? Que se saiba, não. O debate econômico se dá basicamente em torno de problemas fiscais, que podem ter impacto nos próximos anos, mas não afetam hoje o humor e o dia a dia das pessoas. Ou esse país infeliz tem graves falhas na comunicação ou talvez sua infelicidade e seu pessimismo não venham da economia, estúpido.

No fundo da Terra também bate um coração

Quem diria: nosso planeta tem um coração. Ou melhor, não exatamente um coração — mas algo que se assemelha aos seus batimentos. A imagem da Terra pulsando chegou até mim pelo LinkedIn, numa postagem que imediatamente capturou minha atenção. O vídeo, criado a partir de dados de satélite, é uma das coisas mais impressionantes que já vi. E o que seriam esses “batimentos”? Nada menos do que plantas absorvendo CO₂. Em outras palavras, nossa boa e velha fotossíntese.

O vídeo é do @marshmallowlaserfeast, apresentado na experiência imersiva YOU:MATTER, parte da Bradford 2025 — United Kingdom City of Culture, patrocinada pelo UK National Science and Media Museum. Esta experiência artística imersiva tem como objetivo mostrar que tudo na Terra está conectado — inclusive nós — e como o espaço torna essa conexão visível. A exposição fica em cartaz até fevereiro de 2026. Os sortudos que estiverem em terras inglesas podem garantir seu ingresso em bradford2025.co.uk.


Também na Europa, mais precisamente em Berlim, começa a Conferência Global sobre as NDCs (Contribuições Nacionalmente Determinadas), um fórum internacional que reunirá representantes de mais de 200 países para discutir governança climática, mobilização de investimentos e o engajamento do setor privado no processo de transição climática.

A urgência por uma ação mais focada e coletiva foi evidenciada (mais uma vez) no último relatório da Organização Meteorológica Mundial (OMM). Entre dados preocupantes, destaca-se a probabilidade de 86% de que um dos próximos cinco anos seja 1,5°C mais quente do que a média entre 1850 e 1900 .

Pode parecer pouco – 1,5°C – mas as consequências são impactantes: estima-se que aproximadamente 350 milhões de pessoas a mais, vivendo em áreas urbanas, ficarão expostas à escassez de água; e cerca de 30 mil pessoas morrerão anualmente por ondas de calor na Europa, um salto significativo em relação às 2.750 mortes atuais.

Enfim, a frase de Christiana Figueres resume bem o cenário: “Negar a mudança climática equivale a dizer que você não acredita na gravidade. A ciência do clima não é uma crença, uma religião ou uma ideologia política. Assim como a gravidade exerce sua força sobre todos nós, acreditemos nela ou não, a mudança climática já está afetando a todos, não importa onde tenhamos nascido ou onde vivamos.”

Deus da Desinfomação: O excesso de luz não ilumina, cega

Os mais otimistas dizem que vivemos um novo Iluminismo. A luz está por todo o lado. Mas não é daquela que inspira poetas, cientistas, santos ou até lunáticos. É a luz fria de hospital, dos ecrãs, das notificações a tocar, como sinos em aldeia onde já quase só vivem descrentes.

Se é verdade que nunca houve tanta informação, também não é mentira que nunca houve tanto ruído. Num universo cada vez mais carregado de respostas à distância de um polegar, nunca nos sentimos tão perdidos, tão desorientados, tão vulneráveis a intrujas que chegaram para nos caçar a atenção. Somos veados a meio da estrada, encandeados, não por faróis de carros, mas pelo atropelo violento da desinformação. Os condutores vão em excesso de tudo, menos de verdade, e raramente perdem alguma coisa, muito menos pontos na carta.


Há uma nova leva de vendedores porta-a-porta e de testemunhas beatas. Novos evangelistas de feed, vendedores de salvação, guardadores de segredos que a ciência rejeita e a imprensa desconfia. Já não nos batem à porta com aspiradores ou enciclopédias, mas vão vendendo verdades em segunda mão, milagres para todas as dores da alma, superstições adaptadas à constituição e aos demónios do parlamento. Se antes pediam licença para entrar, hoje atravessam-se sem cerimónia à nossa frente na timeline ou até no noticiário, à hora de jantar. Já não nos querem falar de Jesus, mas de pandemias, planos secretos para nos substituir, conspirações que vamos ouvindo passivamente em surdina, que o tempo não dá para tudo e questionar é luxo que não cai bem na nossa moleirinha formatada para o preconceito.

Ainda somos um país de portas entreabertas. Entre a cortesia e o cansaço, vamos deixando passar qualquer promessa de redenção, qualquer segurança de um perigo distante, mesmo que seja paga a pequenas prestações que nos sairão demasiado caras. Uns são feiticeiros de gravata, outros curandeiros de carrapito. Uns passam receitas para almas cansadas ou aborrecidas, vendem detox de espírito e mezinhas de autoconfiança; outros chafurdam de tanga em ethos lamacento manosferiano, convidando-nos a mergulhar em teorias de machões, mesmo quando parecem nem gostar assim tanto de mulheres. Outros, ainda, assumem-se como profetas do medo, espalhando a palavra, seja ela sobre Gates, a vacina, o refugiado ou o senhor estrangeiro da mercearia que olha durante demasiado tempo para as raparigas. Vendem livros quase sagrados, editados à pressa, e programas orçamentais de salvação, depois fazem queixinhas sobre o peso da cruz da perseguição de uma imprensa que insiste em apontar-lhes a mentira, onde juram a pés juntos encontrar verdade.

É uma nova forma de folclore. Respostas simples para acontecimentos complexos, que o escuro é farto em vilões quando a razão não topa o que ele esconde. Teorias conspirativas sedutoras, que acendem luz sobre o vazio, exímias a agregar medos e desconfianças que tendem a tocar à maioria. O problema é que o excesso de luz não ilumina, cega. Nesta estranha devoção ao novo deus da desinformação, quanto mais a ciência explica, mais o povo saliva por mistério, superstição e impulso medieval. Na falta de critério, atiram-se pedras em vez de perguntas.

Para alguns é pobreza de espírito, mas eu vejo mais pobreza de tempo. Dez horas de trabalho, mais um par delas no trânsito, os trabalhos de casa dos filhos, o jantar por fazer… Pouco nos sobra para pensar. Restam pequenas migalhas de energia, que juntamos e engolimos à pressa com a explicação que nos pareça mais fácil, mesmo que nos prometa um milagre de pedrinha debaixo da almofada.

Ainda há quem acredite que a verdade reaparece naturalmente com um mercado livre de ideias, mas essa teoria dificilmente cola nos dias que correm. Foi pensada para o minimercado do bairro, e não para a confusão de um hipermercado global, com produtos de validade cada vez mais reduzida. Com tanta oferta e tão pouco tempo para escolher, vai-se pelo rótulo mais colorido, pela promoção de última hora ou pelo jingle que é música para os nossos ouvidos. Depois, rodeamo-nos só de iguais, partilhamos indignações, ouvimos só aquilo que já sabíamos, reforçamos certezas e esfregamos as mãos no quentinho destas novas fogueiras tribais. Cada qual de perna alçada a marcar território nos limites da bolha que escolheu, ronronando com o que queremos ouvir e rosnando a quem nos desafia o conforto daquela paz que só se encontra na ignorância.

Abriram a porta das televisões a cuspidores de fogo, vendedores de banha da cobra e músicos de algibeira, e ainda esperavam que o telespetador não começasse a bater o pezinho ao som do bailarico. A música é boa para embalar preconceito, perfeita para as palminhas sincronizadas com o tempo certo da aldrabice. Nas últimas eleições já se desenhou mais um capítulo deste novo conto folclórico. A gente juntou-se sem paus nem pedras, mas com votos de quem alinhou no feitiço e, por ironia, decidiu começar a correr atrás de bruxas que a razão nunca chegou a encontrar. O populismo está a tornar-se no novo fado nacional. Todos sabem que é mentiroso, mas poucos parecem querer deixar de o cantarolar.
Luís Fonseca de Sousa

terça-feira, 10 de junho de 2025

Lauterpacht e Lemkin em Gaza

A cidade da Ucrânia a que hoje chamamos Lviv teve vários nomes — Lemberg, enquanto parte do Império Austro-húngaro; Lwów, denominação em polaco e a atual grafia, desde que foi anexada pela União Soviética, em 1939. É possível contar a história do longo século XX europeu a partir desta localidade. Uma história que se prolonga em forma de tragédia até aos nossos dias.

Há, contudo, uma outra história, porventura ainda mais crucial, cujo epicentro é também a cidade ucraniana: a do direito internacional moderno. Num livro magistral, felizmente com edição em português, Estrada Leste-Oeste – as origens do genocídio e dos crimes contra a humanidade, Philippe Sands, professor de direito em Londres e dos mais reputados advogados em tribunais internacionais, percorre essa história, reveladora dos nossos tempos.


No livro, construído quase como um romance policial, Sands cruza a vida do seu avô (um judeu sobrevivente ao holocausto) com as de dois dos mais eminentes juristas do século XX, Hersch Lauterpacht e Rafael Lemkin. Três “judeus errantes” que passaram a juventude em Lviv, não terão falado pessoalmente, mas foram fundamentais para Sands e para compreender o século XX. Há uma outra personagem neste livro, Hans Frank, conselheiro legal de Hitler, e governador da região durante a ocupação Nazi. Eminente jurista, Frank, o “carniceiro da Polónia”, seria condenado à morte em Nuremberg.

É na Alemanha do pós-Guerra que esta história se inicia, durante o julgamento que abriria uma nova fase nos direitos humanos, quando passou a ser possível julgar líderes de um país num tribunal internacional. Lauterpacht e Lemkin foram personagens centrais, mas discretos deste processo. Devemos-lhes a tipificação dos crimes pelos quais ficaria célebre o julgamento de Nuremberg: Lauterpacht é responsável pelo conceito de “crimes contra a humanidade”, enquanto Lemkin criou o de “genocídio”.

Os dois habitantes de Lviv tiveram uma longa discussão intelectual, mas não é líquido que se tenham conhecido pessoalmente. Tendo vivido e estudado na cidade ucraniana, ambos se exilaram. Lauterpacht fez carreira em Cambridge e, em Nuremberg, fez parte da equipa de acusação britânica. Lemkin conseguiu escapar da Polónia em plena guerra, e ensinaria em Duke. No julgamento foi conselheiro da delegação norte-americana. Os dois eram simpatizantes da causa sionista e o que estava em causa naquele tribunal era para eles, também, uma questão pessoal: tinham perdido quase toda a família no holocausto, às mãos do governador Hans Frank.

Os detalhes da história são fascinantes e o debate intelectual merece ser revisitado. Afinal, na discussão entre crimes contra a humanidade e genocídio trava-se, também, uma distinção fundamental. Conquanto o primeiro conceito remete para o extermínio de indivíduos em larga escala, o segundo sugere o aniquilamento de um grupo de pessoas com características partilhadas e assenta num termo criado por Lemkin: uma amálgama da palavra grega, genos (tribo ou raça) com o termo latim, cide (matar).

Desde outubro de 2023, morreram em Gaza cerca de 60 mil palestinianos, um terço dos quais crianças. Não podemos deixar de pensar no que diriam, hoje, sobre o que se passa neste território martirizado, estes dois homens justos e de simpatias sionistas que ajudaram a moldar o direito internacional. Já o descendente de judeus Philippe Sands, cujos restantes livros mereciam edição em português, é representante legal da Palestina no Tribunal Internacional de Justiça.
Pedro Adão

Somos viciados em pressa. Se a internet falha, ficamos neuróticos

O escritor e jornalista mexicano Juan Villoro, 68 anos, anda quase sempre de porta-chaves no bolso. Não sabe bem que fechaduras abrem aqueles quatro ou cinco sonoros objetos de metal, mas o seu manuseio ajuda-o a concentrar-se nos livros. No meio das chaves está um peão de xadrez, oferecido pelo filho, que de tanto ser manipulado transferiu-se das peças brancas para as negras. Villoro compara o seu “vício” inspirador a amuletos do budismo, do cristianismo e, também, da Grécia antiga, onde alguns dos pioneiros da Filosofia se cruzaram, muitos séculos antes de serem convidados para o mais recente livro dele, Não Sou um Robô (Zigurate).

Num destes dias, de passagem por Lisboa, este artesão das palavras sentou-se conosco a pretexto desta obra em que a leitura (de preferência, em papel) entra num tabuleiro de xadrez para medir forças com a sociedade digital. E se a Inteligência Artificial, noutros tempos, já dava muito que pensar a Garry Kasparov, agora coube a Villoro convocar uma assembleia de estrategos de várias artes e ciências para o ajudar a defender a sua dama. No fim, o empate basta-lhe – e não se fala mais nisso.


Somos os humanos mais alienados da História recente da Humanidade?

Durante a Revolução Industrial, a alienação produzida pelo trabalho manual era muito óbvia. O esforço de passar dez horas numa fábrica ou numa mina tirava a pessoa de si mesma. Hoje, a alienação é totalmente diferente, porque é feliz. Passamos horas e horas no telemóvel a ver ofertas, propaganda, mulheres bonitas, jogos de futebol, notícias que aparentemente nos interessam, e percebemos isso como um benefício, quando na verdade estamos hipnotizados por um feitiço, como magia, e poderíamos estar a fazer coisas mais proveitosas.

Como escreve no livro, depender de uma prótese digital não é promessa de felicidade. Andamos equivocados?

Não, porque os telemóveis e os computadores em geral são muito úteis. A minha atitude não visa erradicar tudo isto nem considerar que cometemos um erro, mas sim valorizar outras coisas além da tecnologia digital. A literatura e a cultura em geral ajudam-nos a lidar melhor com a cultura digital, no sentido de a compreender e de a criticar.

Defende que a tecnologia digital traz mais ameaças do que benefícios. Quais são as principais ameaças?

Por um lado, a dependência total dos dispositivos. Por outro, a ameaça da automação da vida, o facto de contactarmos uma empresa do Estado e sermos atendidos por máquinas que nos passam a outras máquinas. É muito difícil estabelecer uma relação pessoal com um funcionário, que poderia encontrar uma forma de resolver o problema. Em vez disso, lidamos com uma máquina programada para dizer sim ou não. Outra ameaça ainda mais séria é a substituição de funções humanas pela Inteligência Artificial, algo que já acontece em muitos campos, como o jornalismo.

A dependência a que se refere inclui o scroll nas redes sociais e as consequências em termos de alienação e nas decisões que tomamos?

Temos medo de estar fora do jogo, da sensação de ficar à margem. Muitas vezes, não é que estejamos à procura de algo importante, apenas queremos estar presentes. E hoje o nível de presença é medido pelo digital. Se vamos a algum lado, tiramos uma selfie para provar, se é um restaurante, mostramos a comida para que saibam o que comemos. Isto leva a uma escalada de intimidade tão grande que alguns casais chegam a gravar as suas relações sexuais e a publicá-las na internet. Parece que, se assim não fosse, não tinha existido. A imagem digital tem valor notarial, certifica que aconteceu. Vale a pena distanciarmo-nos, como vimos no recente apagão na Península Ibérica. Eu estava em Madrid e, depois da ansiedade inicial, as pessoas saíram à rua, leram livros, jogaram às cartas, conversaram, fizeram exercício, reuniram-se a ouvir rádio. Esta vida comunitária pode existir. Não se trata de acabar com o digital, mas de combiná-lo com outras formas de convivência mais benéficas.

É tóxica a nossa relação com o telemóvel? Como ironiza no livro, o aparelho não reclama por afetos…

É uma relação de amor fundada numa farsa. Em última análise, é uma relação narcisista, porque o telemóvel conhece o dono melhor do que ninguém, portanto, responde o que o dono quer ouvir. Não o confronta e submete-se a tudo. O que lhe devolve é um espelho dele próprio. Já o livro é melhor companhia, porque interpela, desafia e obriga-nos a conhecer coisas que ignorávamos de nós mesmos. A diferença é que o telemóvel repete o que já sabíamos e o livro leva-nos a descobrir zonas ocultas das nossas vidas.

Além de narcisista, alega que a relação com o telemóvel é paranoica. Porquê?

Porque tudo o que dizemos fica gravado no telemóvel, inclusive quando não o estamos a ditar para o microfone. Falamos com alguém sobre uma viagem de praia, e o telemóvel começa a mostrar-nos ofertas de viagens de praia. Além de que muitos dos novos crimes são digitais.

Disse que ninguém nos conhece melhor do que o nosso telemóvel. Nem a CIA, a Mossad, os serviços secretos chineses…?

O Caso Snowden revelou que grande parte do trabalho da CIA é direcionado a cidadãos comuns. O que não sabemos é que esse dispositivo que nos conhece melhor do que qualquer pessoa pode transferir os nossos dados. Hoje, a maior mercadoria do planeta são os dados pessoais e não sabemos onde o seu tráfico acaba. Tanto podem acabar na CIA, no KGB, na China como podem acabar na Google ou na Amazon.

Somos a mercadoria mais valiosa do planeta?

Sim, tornámo-nos mercadorias e isso é tremendo. Também há muitas formas de monitorizarem os nossos hábitos. Mais cedo ou mais tarde, o telemóvel oferece-nos algo que queremos, mas nem havíamos expressado, como um automóvel à medida do nosso gosto e orçamento, levando-nos a pensar que chegámos lá sozinhos, porque o algoritmo opera por semelhança com pesquisas anteriores, das quais deixamos rasto, que se transforma numa espécie de ditadura. Ao contrário, a cultura muda o nosso paradigma. Abrimos um livro de um escritor russo, japonês ou mexicano e não sabemos onde nos vai levar, se vamos gostar e o que vai dizer sobre nós.

Se escolhermos um e-book, também nos expomos mais a algoritmos?

Sim, porque o e-book lê-nos. Sabe onde ficamos mais tempo, do que mais gostamos, que frase sublinhamos, tudo isso.

A informação em papel proporciona um maior potencial de conhecimento?

Claro. Uma das coisas mais gratificantes sobre jornais impressos é a sucessão de informações. Na primeira página está o jornalismo de necessidade, o novo campeão de futebol, o novo Papa, o que aconteceu nas negociações de paz para a Ucrânia. Mas, à medida que viramos páginas, surgem outras notícias e, de repente, deparamo-nos com algo que não sabíamos e que pode interessar-nos, seja uma situação pessoal, científica, religiosa ou desportiva. E isso é maravilhoso. O problema com a leitura online é que ela é muito útil quando já sabemos o que procuramos, mas, pelo caminho, ao fazermos scroll, aquele assunto parece infinito e não encontramos mais nada.

A voragem da informação online prejudica a capacidade de entender o mundo à nossa volta?

O mais importante sobre a cultura é que ela nos dá um mapa para entender a realidade. E esse mapa de compreensão pode ser tão amplo quanto os nossos interesses. Podemos aprender sobre o nosso bairro a partir de um romance local ou sobre o universo num livro científico. Esse mapa geral permite organizar o mundo e estabelecer associações entre diferentes partes da realidade. Portanto, se tivermos essa preparação, poderemos entrar mais facilmente no mundo digital e tirar dele o que é mais benéfico para o nosso mapa.

Confirmar informações divulgadas nas redes sociais parece dar muito trabalho. É mais fácil ler, dar crédito e comentar?

Vivemos no mundo da pós-verdade. O dicionário Oxford escolhe uma palavra a cada ano para retratar a realidade e, em 2016, quando Trump venceu a sua primeira eleição, escolheu essa, que nada mais é do que o uso ideológico da mentira. E o Washington Post deu-se ao trabalho de contabilizar as mentiras certificadas que Trump proferiu no seu primeiro ano no cargo, que foram cerca de duas mil, o que é uma loucura. Pode governar-se a mentir. Significa isto que a verdade já não importa? Pelo contrário, há tanta mentira, há tanta notícia falsa, sites que dizem que a Terra é plana, que os humanos nunca pisaram a Lua, que o Holocausto não aconteceu, etc., que a verdade tornou-se mais importante do que nunca. Nem sempre se alcança, mas acredito que o trabalho do jornalismo, da literatura e da cultura tem que ver justamente com manter viva a chama da verdade. Não podemos desistir de conhecer a realidade comprovável e verificável.

Ainda assim, tornou-se mais fácil para os políticos manipularem e atraírem pessoas com ideias populistas e extremistas?

Claro, porque as redes sociais também fomentaram uma lógica exclusivamente binária, na qual ou se é a favor ou se é contra, sem nada no meio, o que sem dúvida favorece os populistas extremistas, que tentam radicalizar o discurso e espalhar a ódio. E há uma esperança injustificada a dizer: “Vamos tornar a América grande novamente.” Isso não significa nada. É apenas um anúncio.

Resgatado ao passado.

Exatamente. E falhou no passado. É incrível como coisas que já falharam são apresentadas como novidades positivas. O facto de se tomarem decisões pelas redes sociais explica em grande parte a ascensão de políticos populistas como Bolsonaro, Trump, Milei e Salvini. Portanto, a cultura é um instrumento de resistência política ao pensamento único e ao pensamento binário, em defesa do pensamento complexo.

O conhecimento sobre esse passado poderia mudar os pratos na balança?

Temos uma crise de passado. As novas gerações vivem num eterno presente, o presente das redes, e consideram que o passado não só já passou como está obsoleto. É grave, porque a transmissão de valores que constroem uma tradição passava de geração em geração. Mas esse trânsito está muito fraco hoje. Milan Kundera disse que vivemos num planeta de inexperiência, porque acreditamos que tudo acontece pela primeira vez e começamos do zero. E isso permite que um partido político como o Vox, em Espanha, diga o mesmo que dizia o Falange de Franco antes da guerra civil. Uma das grandes virtudes da cultura é justamente obter lições do passado que podem ser atuais. É por isso que os povos indígenas da Amazónia, no Brasil, cunharam uma frase que considero muito preciosa: o futuro é ancestral, ou seja, as soluções para muitas coisas estão entre nós há muito tempo.

Por quanto estão os algoritmos a ganhar aos filósofos no campeonato de influenciar a opinião pública?

O problema é que os algoritmos são infinitos e, por outro lado, Spinoza, Schopenhauer ou Kierkegaard não vão falar connosco de uma maneira especial. Eles não vão sussurrar-nos coisas agradáveis ao ouvido, são professores exigentes, querem ver-nos a argumentar. O telemóvel é um espelho distorcido de nós mesmos, enquanto a Filosofia é uma janela. São cristais diferentes.

Como é a sua relação com os livros?

É caótica, mas espero que seja produtiva, porque é uma relação muito intensa. Perdi muitos livros. Escrevi um infantil, chamado O Livro Selvagem, que não quer ser lido. Muitas vezes tive a sensação de estar à procura de um livro que não está nas livrarias nem nas bibliotecas, e por isso encontrar este pareceu-me fascinante.

A julgar por este último, Não Sou um Robô, arrisco dizer que centenas de livros contribuíram para a sua escrita.

Sim, é uma discussão coletiva, pois não sou especialista no assunto. Ninguém o pode ser, porque somos os bárbaros de uma nova era. Não sabemos o que está a acontecer. Estamos na costa de um oceano cujos limites desconhecemos. Então, valia a pena conectar diferentes especialistas. Cito astronautas, espiões, economistas, teólogos, filósofos, romancistas, pessoas que refletiram sobre o assunto, porque nos diz respeito a todos. Tentei estabelecer uma conversa social porque não a encontrei na realidade. A literatura pode ser esse veículo.

Resultou num exemplar que traz outra capacidade que destaca na literatura: a de interligar conhecimentos.

Gostei muito de ouvir isso, porque o formato do livro é um pouco um espelho das preocupações contemporâneas. Há muita informação dispersa, há um limiar de atenção limitado, então eu queria criar passagens curtas e significativas que estabelecessem pontes entre diferentes formas de conhecimento para oferecer um retrato da realidade. Um dos grandes perigos da especialização é que os académicos sabem cada vez mais sobre cada vez menos. Falta conhecimento geral. Na Grécia Clássica, por exemplo, Aristóteles podia discutir ciência, astronomia, saúde, política, teologia. Este livro é sobre criar essa comunidade com recursos da crónica e do ensaio.

A velocidade a que hoje se vive é inimiga do conhecimento?

Uma das coisas mais interessantes sobre o Oráculo de Delfos eram os lemas, cujo mais conhecido é o “Conhece-te a ti mesmo”. Mas outro é fazer tudo com equilíbrio. No livro, falo sobre um diálogo com Platão em que Sócrates diz: a linguagem pode ser um alívio ou um veneno. Todas as coisas que curam também podem matar. Tudo depende do equilíbrio, da dose. E o mesmo ocorre com o uso do tempo. Há coisas para as quais precisamos de pressa, outras para as quais é melhor a lentidão. Hoje, somos viciados em pressa. Queremos chegar a todos os lugares mais rápido, queremos informações instantâneas na internet. Se a internet falha, ficamos neuróticos. Precisamos de uma nova liturgia, não religiosa mas laica, para gerir o tempo de maneiras diferentes, porque tudo isto é aprendizagem social, o mundo digital não cria a sua pedagogia. Seria muito útil se as escolas trabalhassem, por exemplo, com os pais, que não sabem como se relacionarem com os filhos. Há muitas coisas que estão a acontecer connosco e às quais não estamos a prestar atenção.

Com a licença de Mark Twain, os relatos sobre a morte do livro são manifestamente exagerados?

Sim, totalmente. O problema é que os humanos adoram notícias sobre o fim dos tempos. Quando um grande pensador morre, os jornais dizem: “O último humanista morreu.” É fascinante que algo seja o último e que sejamos testemunhas dele. Um grande paradoxo foi o do grande comunicador canadiano Marshall McLuhan, que profetizou o fim do livro num livro magnífico, chamado A Galáxia de Gutenberg. O sucesso da obra mostrou que o livro tinha futuro, por muito que a mensagem do autor versasse sobre o fim do livro. 

segunda-feira, 9 de junho de 2025

Pensamento do Dia

 


Vivemos crise da verdade e crise do clima

Na semana passada aconteceu algo estranho. Fui ao Rio Grande do Sul participar do programa Fronteiras do Pensamento e fiquei pouco mais de 40 horas desligado dos jornais. Quando voltei, levei um choque. Tudo me pareceu caótico e inquietante. Os voos que servem aos Correios tinham sido suspensos, Trump cortara o visto de estudantes estrangeiros, senadores e deputados estão envolvidos no escândalo do INSS, o governo gastara milhões em passagens num tempo de fáceis comunicações eletrônicas. Cheguei a dizer:

— Onde é que vamos parar?

Mas, imediatamente, lembrei que, noutras épocas, ironizava os velhos que reclamavam de um curso do mundo que já não podiam compreender. Será que agora é a minha vez de fazer esse papel? O único detalhe a meu favor é que, hoje mais que nunca, os contornos entre realidade e fantasia se dissolvem.


Não se trata apenas da discussão sobre bebês reborn com projetos na Câmara e longos comentários na televisão. Recebi no celular uma entrevista produzida por inteligência artificial em que entrevistados e entrevistador eram falsos. A especialista que analisava o vídeo registrou apenas alguns movimentos suspeitos na mão de uma entrevistada. Nenhum de nós percebeu, e é um tipo de problema que resolverão logo. O título do vídeo era “Acabou para nós”, pois ele foi analisado da perspectiva de editores, que se tornaram supérfluos com a IA.

Num mundo em que a quase totalidade das profissões pode desaparecer, é natural a inquietação. Assim como sermos dependentes das máquinas para um exame médico, uma operação, um trabalho intelectual e, o que já se mostrou espantoso, o protagonismo nas guerras. A Ucrânia ataca a Rússia com drones, Israel usou IA para definir alvos de bombardeio.

Vi um filme chamado “Mountainhead” na TV. Conta a história de um encontro de quatro bilionários da internet. Têm plataformas, produzem aplicativos e olham o mundo do alto de sua fortuna e poder. Trata-se de um filme apenas. Mas eles me interessam também porque, no fundo, esse tipo de pessoa é a grande adversária da tentativa de atenuar a crise climática. São aceleracionistas, querem ir para a frente, na suposição de que ciência e tecnologia resolvem tudo e, em último caso, a conquista espacial abrirá novos espaços de vida — e a própria imortalidade nos será dada pelos computadores.

Os gregos já advertiam sobre o perigo da prática humana que desconhece limites. Ela é o estopim da tragédia. Por isso diferenciavam sagacidade e sabedoria. O coro na obra de Sófocles afirma: a felicidade depende da sabedoria em todos os sentidos.

Todo este momento confuso me fez entender melhor os velhos que talvez ironizasse porque tinham dificuldade de compreender o curso do mundo. Onde é que vamos parar? Essa é a pergunta que faziam com insistência e que, hoje, sem subestimar sua perplexidade, parece-me muito mais angustiante. Estamos diante de uma catástrofe climática e da substituição da verdade pelas falsas versões. Os velhos não têm acesso a uma felicidade exuberante.

Sempre cito Samuel Beckett: não se passa um dia sem que algo seja acrescido a nosso saber, desde que suportemos as dores. Hoje imagino que Beckett tenha se inspirado no Eclesiastes, também citado por Giordano Bruno em 1588: “Aquele que aumenta seu saber, aumenta seu pesar”. Tudo isso não implica conformismo, pelo contrário. Sabendo distinguir o que é passível de transformação e o que não é, talvez seja possível conduzir a serenidade necessária para enfrentar este mundo confuso.

Resolvi abordar o tema pois há muitas maneiras, além do espelho, para descobrir que envelhecemos. Uma delas é essa inquietação sobre onde pararemos, num planeta ameaçado pelo desastre e por aqueles que querem marchar aceleradamente em sua direção, embalados pelos lucros e fantasias das 
big techs.

Há uma criança na rua

A esta hora, exatamente, há uma criança na rua.
É dever do homem proteger o que cresce,
Cuidar para que não tenha uma infância dispersa pelas ruas,
Evitar que naufrague seu coração de barco,
Sua enorme vontade de pão e chocolate,
Caminhar por seus países de bandidos e tesouros
Pondo-lhe a esperança no lugar da fome.


De outro modo é inútil ensaiar na terra a alegria e o canto,
De outro modo é absurdo porque de nada vale se há uma criança na rua.
Importam duas maneiras de conceber o mundo:
Uma, ser alguém como as outras pessoas ou
Arrancar cegamente dos demais a bolsa.
E a outra, um destino de salvar-se com todos,
Comprometer a vida até o último náufrago.

Como se pode dormir de noite se há uma criança na rua?
Exatamente agora, se chove nas cidades,
Se desce o nevoeiro gelado no ar
E o vento não é nenhuma canção nas janelas,
Não deve andar o mundo com o amor descalço
Levando um diário como uma asa na mão.

Trepando nos trens, provocando-nos o riso,
Golpeando-nos como um anjo de asa cansada,
Não deve andar a vida, recém-nascida, já lutando,
A meninice arriscada a um pequeno ganho,
Porque então as mãos são dois fardos inúteis
E o coração, apenas uma má palavra.

Eles esqueceram que há uma criança na rua,
Que há milhões de crianças que vivem na rua
E uma multidão de crianças que cresce nas ruas.
A esta hora, exatamente, há uma criança crescendo.

Eu a vejo apertando seu coração pequeno,
Olhando para todos com seus olhos de fantasia,
Percorrem e olham para o homem rico,
Um relâmpago forte cruza seu olhar,
Porque ninguém protege essa vida que cresce

E o amor se perdeu como uma criança na rua.

Armando Tejada Gómes

O estranho fenômeno dos bebês reborn

Havia algo de estranho no casal que embarcou comigo, algumas semanas atrás, num voo de São Paulo para o México. A mulher, em torno dos 20 anos, carregava um bebê nos braços que aparentava dormir.

Passei alguns minutos observando o bebê, que não se mexia. E que não se mexeu nem mesmo quando a mulher, que estava sentada atrás de mim, o embalou nos braços durante o voo.

Só algumas horas depois a ficha caiu para mim: era um bebê reborn. A expressão do rosto, a textura da pele, tudo levava a crer que se tratava de um bebê de verdade. Mas era uma boneca. Hiper-realista, mas boneca.

Difícil dizer se se trata de uma obra de arte hiper-realista ou de um pequeno Frankenstein. Desconfiei que a mulher levou o bebê junto para ter acesso prioritário ao voo. Vai saber...


Há quem diga que essas bonecas têm uma função terapêutica na superação de traumas. Elas já seriam usadas para isso nos Estados Unidos desde os anos 1990.

Para outros, elas parecem ser um objeto de coleção. Mas haveria também mulheres jovens que as utilizam para treinar para uma futura maternidade – eu, porém, não consigo entender como isso pode ser um treino para lidar com bebês de verdade.

Seja como for, a moda parece ter se espalhado pelo país. Na imprensa há relatos de encontros de mamães de bebês reborn, um deles no Parque Villa-Lobos, em São Paulo. Há clínicas onde o parto de uma criança é simulado com essas bonecas. Padres teriam rejeitado o batismo dessas "crianças" ou dar aulas de religião para elas. Em vez da Igreja, disseram, as mães deveriam procurar um psicólogo.

Na Bahia, uma mulher processou o empregador porque este lhe negou a licença-maternidade. A negativa teria causado um profundo trauma psicológico nela por causa da relação forte que ela tem com a boneca, argumentou.

Há casos de casais que estão brigando pela guarda de um bebê reborn – ou pelas contas em redes sociais. Porque, ao que parece, mostrar a "vida" das bonecas em redes sociais é uma boa fonte de dinheiro.

Por que esse fenômeno estranho virou mania justamente no Brasil, e por que agora? Seria uma paixão de infância que foi reprimida pela pobreza e que uma mulher adulta poderia finalmente vivenciar? Seria uma maneira de superar a própria relação insatisfatória com os pais? Ou trata-se mesmo da superação de um trauma, seja de um sofrimento passado, seja o desejo não realizado de ser mãe?

Certo está que esse fenômeno tem uma relação com a popularidade das redes sociais. Nelas é possível dar plena vazão a sua paixão pelas bonecas e gerar muitos cliques e engajamento com vídeos onde elas aparecem. É o que se chama de criação de conteúdo. Há até mesmo casos de influenciadores que tiram onda dessa mania. Só que muitos não entendem o tom irônico dos vídeos, que acabaram viralizando.

Certo está também que as bonecas se encaixam no papel da mãe totalmente dedicada aos filhos que a sociedade brasileira determina às mulheres.

Dizem que o ser humano é um ser social. Enquanto ele for uma criança que depende de adultos, sem dúvida. Mas, quando paro para pensar no meu cotidiano, percebo que os avanços tecnológicos me tornam cada vez menos social.

O Whatsapp nos deu uma ferramenta para que possamos nos comunicar sem telefonar ou conversar. O IFood nos traz a comida sem termos de ir a um restaurante. Aceitamos de bom grado que a tecnologia torne nossos contatos sociais cada vez menos necessários, sem que para isso tenhamos de renunciar à realização dos nossos sonhos.

Isso também afeta nossa vida amorosa e afetiva. Já se fala em jovens que se apaixonaram por um avatar gerado por inteligência artificial: o parceiro ideal, que só existe como versão digital e é programado para atender perfeitamente a todas as nossas necessidades.

Fuga para a vida virtual porque a real se tornou muito estressante? Um casal de amigos está criando dois filhos pequenos – de carne e osso, é bom dizer. O estresse que isso lhes causa não é algo que alguém gostaria de ter. Seria bem mais fácil criar duas bonecas. Mas eu tenho minhas dúvidas de que isso fosse satisfazê-los.

Quando os números começam a contar outra história

Mesmo ainda vivendo um ciclo de instabilidades, desigualdades agravadas e crises políticas, o Brasil passa a mostrar, a cada dia, sinais de reconstrução. A economia surpreende positivamente, indicadores sociais apresentam avanços e dados internacionais revelam uma melhora — ainda tímida, mas significativa — na percepção de bem-estar da população. No entanto, esse movimento não é uniforme nem livre de contradições. É justamente na tensão entre os números e a experiência cotidiana que reside o desafio de compreender o país em transformação.

Em 2023, o Brasil subiu cinco posições no ranking global do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), atingindo 0,786 — o maior valor desde 2010. O avanço em longevidade, educação e renda colocou o país na 84ª posição entre as nações avaliadas. Esse salto pode parecer modesto, mas é suficiente para reposicionar o país entre as economias de alto desenvolvimento, influenciando decisões de negócios, investimentos e políticas públicas. Ao mesmo tempo, a taxa média de desemprego caiu para 6,6% em 2024, o menor patamar desde o início da série histórica do IBGE. A economia cresceu 3,4%, e o Brasil voltou a figurar entre as dez maiores economias do mundo. Para 2025, a projeção é de mais 2,4% de crescimento.


Esses dados, embora animadores, não esgotam a realidade. O crescimento precisa ser analisado à luz de uma pergunta essencial: a serviço de quem — e de quê — ele está? Desenvolvimento econômico não é sinônimo automático de progresso humano. Só faz sentido se for capaz de ampliar oportunidades, restaurar vínculos, garantir dignidade e criar condições para que as pessoas vivam com mais propósito e menos medo.

Nesse ponto, o Brasil se vê atravessado por forças opostas. Se, por um lado, os dados apontam avanços, por outro, o ambiente social e digital — muitas vezes alimentado por lideranças políticas — tem promovido uma cultura de medo, desesperança, intolerância e ansiedade coletiva. O uso sistemático das redes sociais como campo de batalha ideológica gera ruídos que afetam diretamente a saúde mental da população, distorcendo percepções e obscurecendo conquistas reais.

Ainda assim, o brasileiro tem demonstrado uma resiliência surpreendente. Segundo o World Happiness Report, o país ocupa hoje a 36ª colocação entre 147 nações, com nota 6,27 — uma melhora em relação aos anos anteriores, embora ainda distante dos níveis observados em 2012. O relatório avalia dimensões como apoio social, renda, saúde, liberdade e generosidade. É um sinal de que, apesar d



as adversidades, a sensação de bem-estar pode estar começando a se recuperar. 

Essa recuperação não deve ser lida como otimismo ingênuo, mas como um campo fértil para políticas públicas mais sensíveis às necessidades reais da população. A terceira onda da Psicologia Positiva tem se debruçado justamente sobre essa complexidade: não se trata apenas de buscar felicidade individual, mas de promover o florescimento humano como fenômeno social — que depende de uma trama complexa de acesso à saúde, justiça, liberdade, vínculos afetivos, reconhecimento e condições materiais mínimas para viver com dignidade.

Mais do que indicadores econômicos, precisamos de métricas que revelem o quanto a vida está, de fato, melhorando — no cotidiano das pessoas, nas relações que constroem, na perspectiva de futuro que alimentam. A ideia de bem viver passa a integrar o debate sobre desenvolvimento. E isso exige um novo tipo de economia: uma que não se esgote no crescimento do PIB, mas que se comprometa com a dignidade humana, o fortalecimento do tecido social, da confiança coletiva e da sustentabilidade do planeta.

Viver bem é mais do que ter. É poder ser. Ter tempo, autonomia, segurança, cuidado. É ter voz, pertencimento e espaço para imaginar futuros — algo que não se constrói apenas com políticas de mercado, mas com políticas de Estado voltadas à reconstrução do pacto social.

O Brasil não virou o país mais perfeito do mundo. Nenhuma potência, aliás, pode se arrogar esse posto. Estados Unidos e China, embora liderem em crescimento e influência, enfrentam sérios desafios em saúde mental, desigualdade e bem-estar subjetivo, sem compromissos claros com uma cultura de paz.

A diferença está em reconhecer que o futuro das nações não pode ser medido apenas por sua força econômica — mas pela capacidade de construir sociedades mais humanas, mais equilibradas e que ofereçam à sua população condições de bem viver para todos, sem nenhum tipo de distinção.

Para ser mais feliz, o Brasil precisa continuar reconstruindo com coragem e propósito. Isso passa por educação crítica, saúde integral, cidades que cuidam, políticas públicas voltadas ao florescimento coletivo e uma economia que respeite o tempo das pessoas e os limites do planeta. Passa por escuta, diversidade e por uma visão de país em que o crescimento seja o meio — e o bem viver, o verdadeiro fim.
Rodrigo de Aquino 

domingo, 8 de junho de 2025

Pensamento do Dia

 


De trem, vapor e saudade


Nada jamais acontece duas vezes do mesmo modo. Mas há dias em que as lembranças voltam com a precisão de um apito: cortam o ar, e nos atravessam.

Wislawa Szymborska, "Poemas"

Houve um tempo em que Pirapora era mais travessia que destino. Década de 1960: cidade encruzilhada, acostumada a despedidas. Os trilhos e o rio eram suas veias abertas. Trens e vapores chegavam, apitavam, partiam. Conduziam sonhos, malas, esperanças, desassossegos. Muitos iam, outros voltavam. Alguns ficavam. Esses últimos plantavam raízes na areia do tempo e transformavam o próprio suor em cimento de cidade.

Era uma terra que vivia ao som dos chamados. O apito do trem, despontando no Cerradinho. O apito do vapor, na curva do São Francisco. A cidade se movia conforme esses sons. Cada embarque era uma cena. Cada chegada, um alvoroço. A lógica dos trilhos era razoavelmente previsível. A do rio, jamais: vapor tem hora de partir, não de chegar. E quem esperava, aprendia a esperar.

Nos sobrados e nas varandas, corações batiam em compasso com os passos. Esperava-se o pai, o noivo, o filho. A mãe, o irmão, a esposa. Notícias vinham às vezes em radiograma — redigido com sobriedade por seu Vigilato Chagas, radiotelegrafista da Navegação, decifrado com ansiedade por todos nós. Era pouco, mas bastava: sabíamos o dia, podíamos imaginar a hora onde o vapor passara, onde estaria. E com esse cálculo, corríamos a avisar familiares de outros tripulantes.

Por um tempo, os vapores obedeciam à cadência dos dias para as partidas para Juazeiro: o “São Francisco”, no dia 7; o “Antônio Nascimento”, no 14; o “São Salvador”, no 21; o “Benjamim Guimarães”, no 28. O “Otávio Carneiro”, o do apito mais bonito, ficava em alerta, como sentinela do cais. O “Wenceslau Braz”, resguardando-se para os turistas. E havia o “Siqueira Campos”, sempre no dia 4, partindo com altivez para o Rio Corrente, rio de águas claras, rumo a Santa Maria da Vitória. Ainda vejo a reinauguração desse vapor: meu pai e a tripulação em fardas brancas, impecáveis, passadas a ferro de brasa. A garrafa de champagne estilhaçada pela esposa do Capitão Esmeraldo — cujo nome, infelizmente não lembro, mas cujo gesto permanece. Também presente, e parecia feliz, o Comandante Ramalho, diretor presidente da Franave.

A estação ferroviária era, por si só, um universo. O trem, ora madrugador, ora noturno, desenhava rotinas, o percurso era longo demais para que não se atrasasse. Táxis, carroças, meninos de pés rachados correndo atrás de malas. Um cruzeiro e um sorriso — pagamento insuficiente para carregar o pesado mundo de alguém. Daquelas janelas saíam rostos cansados e felizes. Lá no Cerradinho, o apito ecoava e surgiam moradores, figuras de um tempo encantado, nossos maluquinhos: Jacarepaguá, Angu-sem-sal, Porco Batuta, Joana Tantã, Júlia Doida… Gente da rua e do sonho, que nos acenava com a alma, figuras eternamente lembradas.

A mim, cabia-me uma honra: buscar o “Estado de Minas” no “Bar e Mercearia Colúmbia”, do Sr. Waldemar Guimarães. Era o trem quem o trazia, sempre atrasado, mas aguardado com fé. Enquanto o jornal não chegava, meus olhos se perdiam nos gibis — que meu pai, generoso, comprava sem hesitar. Comprava também a Revista do Esporte, a Revista do Rádio, a Vamos Cantar, que trazia as letras das canções que ouvíamos no rádio da sala.

Foi assim que aprendi a ler o mundo. E a me despedir dele. Pois da mesma estação partia o trem que levava minha mãe, tantas vezes, para o Sanatório Imaculada Conceição, em Belo Horizonte, ou ao Santa Tereza, no longínquo Rio de Janeiro. A tuberculose não levava só pulmões — levava presenças, instalava o preconceito, a segregação, impedia o contato. Quando era ela que partia, ficávamos com as mãos no ar, tentando deter o inevitável. Quando era meu pai que ia ao seu encontro, o adeus era com lágrimas e silêncios. Intuíamos, ainda sem conhecer Hermann Hesse, que “cada vez pode ser a última”.

Depois, tudo mudou. O progresso não pede licença. Vieram as rodovias. Os caminhões. Os ônibus. A pressa. O silêncio. Trem e vapor foram vencidos. Pirapora, enfim, ficou quieta.

Hoje, resta o eco. A memória do “Otávio Carneiro”, e o som do seu apito cortando a curva do rio. A imagem do trem surgindo no horizonte, como se ainda nos buscasse. Nos trilhos vazios viajam fantasmas bondosos, puxando vagões de lembranças. E, se escutarmos com atenção, ainda ouviremos a locomotiva, assombrando docemente nossos sonhos.

Talvez um dia a ferrovia retorne. Não será a mesma — e nem poderia. Mas não importa. O que importa é tê-la vivido. E tê-la amado, como se ama um tempo que não volta.

José Carlos Costa

Brasilidade é apelo forte à nação

Em meio à impressão desoladora de que o país possa estar perdendo o trem da história por decomposição de um Estado cansado, carente de profunda transformação subjetiva e objetiva, a dinâmica nacional revela-se animadora. São fatos de superestrutura, despercebidos nas análises de macroestrutura, eventualmente corretas, mas alheias à rica totalidade do ser social, que inclui criatividade de formas de vida e de formatividade estética.

Pelo menos é o que acorre à mente depois de assistir ao espetáculo extraordinário de João Bosco e seu quarteto, em que se reaviva o sentimento de brasilidade, invocado por Machado de Assis no século 19. Nada do nacionalismo fechado das autocracias, mas comunhão afetiva com o território. Antes, as performances de Chico, Gil, Caetano e Betânia nos palcos já pareciam ultrapassar a categoria show de entretenimento para se configurarem como convocações à partilha da alegria coletiva que ajuda a definir brasilidade. Ao mesmo tempo, filmes como "Ainda Estou Aqui", "O Agente Secreto" e "Malês" renovam a projeção do cinema nacional.


Há quem considere superficiais abordagens desse tipo, confrontadas com crise política, penúria econômica e corrosão social por criminalidade avassaladora. Mas existe também a falência das palavras e, logo, do pensamento. O conceito de formatividade (Luigi Pareyson, "Problemas da Estética"), que dilui o rigor da diferença arte/não-arte e aproxima vida cotidiana de atividade simbólica, sugere que o acontecimento criativo possa ser uma fresta no enquadramento com que se pensa o status-quo. Às elites cevadas no usufruto patrimonialista do Estado não importa o que mudou em termos de classes e de história. Cada vez mais ricas, hoje cúmplices de religiosos fake nutridos por corrupção e lavagem, aquecem-se com brasas do pior passado.

Mas o território sempre resistiu ao Estado pela "verdade" representativa com matriz no sentimento de nação, politicamente indeterminado, embora estável em termos históricos, culturais e psicológicos. Uma estabilidade próxima da identidade humana, ou seja, do complexo vinculativo que situa o indivíduo na intersecção de sua história individual com a do grupo. No século 19, o influente intelectual francês Ernest Renan definiu nação como "princípio espiritual".

Entre nós, acontecimentos reais na dinâmica nacional apontam para brasilidade, a celebração da diversidade, como modo subjetivo de ação. Ainda sem alcance eleitoral, mas com perspectiva diferente do uso genocida que o capitalismo atual faz da degradação do Estado: show de horrores dos Poderes, com o Legislativo na vanguarda da corrupção fisiológica. Nada disso dissolve a brasilidade, o "saber manejar sonhos e catalisar energia" (Marina Silva).

A formatividade ascendente (música, audiovisual, jogos cênicos, periferias criativas, literatura, intelectualidades afros e indígenas), e não patriotismo bélico, implica sinergia do espírito do tempo com o princípio espiritual aberto à compreensão, bloqueada por conceitos anacrônicos, dos acontecimentos proativos. Esses que são guiados por ideias com lugar próprio. O Estado brasileiro formou-se sem nação, mas nela vige hoje o que no povo é de fato potente.

Gaza: o novo holocausto

Se em tempos a Faixa de Gaza era considerada uma prisão a céu aberto, hoje, em resultado dos últimos desenvolvimentos, toda a gente compreende que se transformou num cemitério a céu aberto. Há um genocídio indiscutível a decorrer em Gaza, promovido pelas forças israelitas, que estão a eliminar sistematicamente a população palestiniana, quer à bomba quer pela fome e subnutrição.

O ataque terrorista do Hamas contra israelitas e pessoas de diversas nacionalidades, a 7 de outubro de 2023, e do qual resultaram mais de 1200 mortos e 251 reféns, foi o pretexto de que Netanyahu apoiado pelos extremistas de direita precisava para iniciar o projeto de aniquilar os palestinianos do enclave.

Aliás, o projeto passa por expulsar todos os palestinianos da sua terra, mesmo na Cisjordânia, para que Israel possa apossar-se da totalidade do território, como se vê pela política dos colonatos judeus. À intenção já antes manifestada de Israel expulsar o povo palestiniano de Gaza – talvez para oferecer a Trump e à trupe que o acompanha a tal “Riviera” – acresce a ameaça de anexar partes da Cisjordânia caso a comunidade internacional prossiga na intenção de reconhecer o estado da Palestina.


A louca fuga em frente do primeiro-ministro israelita assenta em duas razões essenciais. Primeiro, a tentativa de Netanyahu escapar à prisão, devido a uma eventual condenação por corrupção, e também para manter de pé o apoio da extrema-direita religiosa que sustenta o governo. O primeiro-ministro mostra não estar minimamente interessado em negociar a libertação dos reféns que estão nas mãos do Hamas, ao contrário do que diz.

Apesar de tudo, é claro que a sociedade americana mantém uma simpatia muito especial por Israel, não só devido à influência judaica nos EUA mas sobretudo nos meios cristãos devido a uma teologia abstrusa. A ideia é que aquela terra foi dada por Deus aos descendentes de Abraão, por isso aceitam com alguma naturalidade a expulsão dos palestinianos da sua terra – que, afinal, não é deles, segundo esta visão – ou mesmo o seu extermínio. Mas incorrem em dois erros de análise básicos.

Desde logo, os antigos israelitas interpretaram o exílio babilónico, a perda de soberania para outros povos ao longo da sua história e a dispersão pelo mundo como castigo de Deus devido à sua desobediência. Ora, se o Deus de Abraão estabeleceu com ele uma aliança, ela implica direitos e deveres. Partindo do princípio de que Deus não falha, os israelitas é que falharam repetidamente para com Deus rasgando assim o antigo pacto com Abraão.

Em segundo lugar já não vivemos nos tempos do Antigo Testamento e o moderno estado de Israel, fundado em 1948, nada tem que ver com o povo hebreu dos tempos neotestamentários da lei e dos profetas. Assim, o atual país chamado Israel não tem qualquer direito divino à posse daquela terra, e ainda menos terá o direito de expulsar dela os seus habitantes.

O direito internacional tem pugnado pelo princípio dos dois estados, coisa que Israel tem sempre recusado, o que revela a sua má-fé. Apesar de os extremistas palestinianos quererem lançar os judeus ao mar, isso não é mais do que o desespero de se sentirem prisioneiros na sua própria terra.

Na carnificina de Gaza, depois de assassinar famílias inteiras e gente de todas as idades, depois de matar dezenas de milhares de crianças com as bombas israelitas e à fome e subnutrição pela recusa de deixar entrar alimentação básica, fornecida pela comunidade internacional, o governo israelita tem as mãos manchadas de sangue. A macabra contabilidade já vai em mais de 54 mil mortos e 123 mil feridos. Talvez fosse boa ideia lerem o que escreveu o profeta Jeremias: “A língua do que mama fica pegada pela sede ao seu paladar, os meninos pedem pão, e ninguém lho reparte” (Lamentações 4:4).

É estranho que o povo que sofreu um holocausto brutal há oitenta anos pela besta nazi esteja agora a fazer o mesmo a outro povo. É estranho que um povo que se saúda com a palavra Shalom (Paz) esteja a bombardear escolas, hospitais, habitações e a reduzir a escombros toda uma comunidade étnica. E é estranho que um povo que viu o seu primeiro-ministro Yitzhak Rabin ser assassinado em 1995 por um jovem judeu extremista, apenas por ter iniciado o caminho da paz, esteja agora a justificar o genocídio palestiniano com os extremistas do Hamas.

Se o mundo se está a tornar um lugar cada vez mais estranho, é igualmente estranho não conseguir ver que Gaza é, de facto, o novo holocausto.

O homem, a guerra, o desastre e o infortúnio

Que estranho bicho o homem. O que ele mais deseja no convívio inter-humano não é afinal a paz, a concórdia, o sossego coletivo. O que ele deseja realmente é a guerra, o risco ao menos disso, e no fundo o desastre, o infortúnio. Ele não foi feito para a conquista de seja o que for, mas só para o conquistar seja o que for. Poucos homens afirmaram que a guerra é um bem (Hegel, por exemplo), mas é isso que no fundo desejam. A guerra é o perigo, o desafio ao destino, a possibilidade de triunfo, mas sobretudo a inquietação em ação. Da paz se diz que é podre, porque é o estarmos recaídos sobre nós, a inatividade, a derrota que sobrevém não apenas ao que ficou derrotado, mas ainda ou sobretudo ao que venceu. O que ficou derrotado é o mais feliz pela necessidade iniludível de tentar de novo a sorte. Mas o que venceu não tem paz senão por algum tempo no seu coração alvoroçado. A guerra é o estado natural do bicho humano, ele não pode suportar a felicidade a que aspirou. Como o grupo de futebol, qualquer vitória alcançada é o estímulo insuportável para vencer outra vez.

Imaginar o mundo pacificado em aceitação e contentamento consigo é apenas o mito que justifique a continuação da guerra. A paz é insuportável como a pasmaceira. Nas situações mais vulgares, nós vemos a imperiosa necessidade de desafiar, irritar, provocar, agredir, sem razão nenhuma que não seja a de agitar a quietude, destruir a estagnação, fazer surgir o risco, a aventura. É o que leva o jogador a jogar, mesmo que não necessite de ganhar, pelo puro prazer de saborear o poder perder para a hipótese de não perder e ganhar. A excelência de nós próprios só se entende se se afirmar sobre o que o não é.

Numa sociedade de ricaços ninguém era feliz. Seria então necessário que por qualquer coisa houvesse alguns felizes sobre a infelicidade dos outros. O homem é o lobo do homem para que este possa ser o cordeiro daquele. Nenhuma luta se destina a criar a justiça, mas apenas a instaurar a injustiça. O homem é um ser sem remédio. Todo o remédio que ele quiser inventar é só para sobrepor a razão ao irracional que de fato é. Toda a história das guerras é uma parada de comédia para iludir a sua invencível condição de tragédia. A verdade dele é o crime. E tudo o mais é um pretexto para o disfarçar. A fábula do lobo e do cordeiro já disse tudo. A superioridade do homem sobre o lobo é que ele tem mais imaginação para inventar razões. A superioridade do homem sobre o lobo é que ele tem mais hábitos de educação. E a razão é uma forma de sermos educados.

Vergílio Ferreira, "Conta-Corrente IV"

A ideologia do Fascismo

A Democracia vem de ideias. Rousseau disse que a única maneira do homem fugir da “barbárie” é o “Contrato Social”, com representatividade e distribuição de renda, em objetivos não alcançados. E Marx preconizou o Socialismo, onde, na plenitude da igualdade social, o homem iria “caçar de manhã, pescar à tarde, criar gado à noite, e exercer a crítica após o jantar”, na utopia que nunca ocorreu. E quando os dois falham, surge o Fascismo, do Socialismo que não levou à igualdade, e da Democracia que não distribuiu renda.

O Fascismo não tem ideologia própria, mas o pragmatismo, que se apropria de ideias conjunturais. O Fascismo ocorre quando as classes médias são comprimidas, como hoje, sujeitas à fúria de líderes despóticos.


Georg Simmel, um dos mais importantes teóricos do pensamento social, contemporâneo de Freud, em “Philosophie des Geldes” (“A Filosofia do Dinheiro”), diz que o liderado precisa de um líder para que possa “se eximir da responsabilidade da ação social”. E que, às vezes, “o mestre torna-se escravo de seus próprios escravos”, na simbiose entre o líder e os liderados.

Compatível com este paradigma, Albert Speer, Arquiteto e Ideólogo da Alemanha Nazista, em “Inside the Third Reich”, escreveu que “Hitler e Goebbels foram, de fato, moldados pela própria multidão. Certamente, as massas rugiam ao ritmo da batuta de Hitler e Goebbels; mas eles não eram os verdadeiros maestros. A multidão determinava o tema. Para compensar a miséria, a insegurança, o desemprego e a desesperança, essa assembleia anônima chafurdava por horas a fio em obsessões, selvageria e licenciosidade. A infelicidade pessoal causada pelo colapso da economia foi substituída por um frenesi que exigia vítimas. Ao atacar seus oponentes e difamar os judeus, eles deram expressão e direção a ferozes paixões primárias”.

O Fascismo se antepõe à cultura e ao raciocínio lógico. Como expresso na fala de Hans Jost, durante a ascensão do Nazismo, “quando ouço alguém falar em cultura, lanço logo a mão a minha arma”. E Goebbels, Ministro da Propaganda de Hitler, disse que “uma mentira dita mil vezes torna-se verdade”.

As ações de Trump contra a cultura e Harvard expressam a profunda anemia na maior Democracia que a história já teve, tão admirada por tantos nós. Harvard expressa o projeto de uma nação, com 21 mil Alunos, 2.400 Professores, e 163 Prêmios Nobel. Lá estudaram David Rockefeller, Bill Gates, Mark Zuckerberg, Frank D. Roosevelt, John Kennedy, George Bush, Barack Obama, Pierre Trudeau (Primeiro Ministro do Canadá), Mary Robinson (Presidente da Irlanda), Oppenheimer, T. S. Eliot, Talcott Parsons, Leonard Bernstein, Jack Lemmon, Matt Damon, e outros tantos. Harvard é grande porque ali está o mundo. By the way, lá estudam a futura Rainha da Bélgica e a filha do Primeiro Ministro do Canadá, hoje com os seus vistos ameaçados.


E assim vamos nós, da frente pra trás.

“Oh Deus, oh dor”!