Os regimes mais canalhas nascem e prosperam em nome da liberdadeNelson Rodrigues (1912-1980)
quarta-feira, 11 de março de 2015
Panelaço é só a ponta do iceberg
Corremos sério risco de ter uma presidente, por quatro anos, aprisionada nas redomas do Palácio do Planalto. Que reina, mas não governaO que foi dito pelo Palácio do Planalto logo após ser surpreendido pelo panelaço do último domingo não convence sequer o mais crédulo e fanático petista. Acusar a classe média, a burguesia e a oposição de querer um terceiro turno eleitoral, e desqualificar a barulhenta manifestação, é mero discurso para consumo interno. É a única e quase desesperada linha de defesa ao alcance das mãos de uma presidente isolada de tudo e todos.
Dilma e seus estrategistas sabem muito bem que o panelaço foi a ponta do iceberg de um estado de espírito existente em diversos segmentos da sociedade.A ira dos brasileiros vem crescendo desde as eleições e tende a se avolumar cada vez mais. Não é difícil entender as razões.
No mundo conectado de hoje, ninguém muda de discurso, da noite para o dia, impunemente. A transparência passou a ser um valor a partir do qual os brasileiros julgam seus políticos.
Ora, a presidente adotou durante a campanha o discurso de Alice no País das Maravilhas. Fez mais: acusou seu adversário, afirmando que, se vencesse, ele promoveria desemprego, recessão, aumento de juros e o diabo a quatro.
Pois bem, eleita Dilma deu um cavalo de pau na economia, e fez tudo o que disse que seu adversário faria. Legitimamente, os brasileiros, mesmo parte dos seus eleitores, se sentiram logrados, vítimas de grossas mentiras.
Perceberam que o país não vivia em um conto de fadas, como vendia a candidata Dilma, mas em um filme de terror, uma crise econômica gravíssima, na qual recessão e inflação andam de mãos juntas.
A ira do povo aumentou ao constatar que a presidente vinha com mais uma história da carochinha: a conversa de que a crise econômica era produto da situação externa e da seca, que ela repetiu no pronunciamento na TV no Dia da Mulher, na tentativa de transferir responsabilidades, de livrar a cara de seu governo.
Leia mais o artigo de Hubert Alquéres
Classe política não entende a raiva que está nas ruas
Nas últimas semanas, as autoridades brasileiras debocharam além dos limites. Cada dia a população tem nova surpresa. O presidente da Câmara oferece aos deputados o direito de custearem viagens de suas esposas com recursos públicos e apresenta o projeto para um novo edifício ao custo de R$ 1 bilhão; um juiz é fotografado dirigindo o carro de luxo de um réu; uma escola de samba ganha o título graças a financiamento de um ditador estrangeiro; a presidente da República coloca a culpa da degradação da Petrobras no antecessor que deixou o governo há 12 anos; outro ex-presidente ameaça colocar um exército na rua; o ministro da Justiça recebe advogados de réus do maior caso de corrupção da história; o ministro da Fazenda adota medidas totalmente opostas às promessas de campanha da candidata; o governo adota o slogan “Pátria educadora” mas corta parte importante do orçamento para a educação; as tarifas de eletricidade reduzidas no período eleitoral são substancialmente elevadas logo depois da eleição, o mesmo acontecendo com os preços dos combustíveis.
Como se esses deboches ativos não bastassem, a classe política se comporta com um generalizado deboche passivo: não reconhece a dimensão da crise, não debate suas causas nem aponta caminhos para reorientar o rumo do Brasil.
A sensação é de que a política está doente: não ouve, não vê, nem raciocina. Não ouve as vozes do futuro chamando o Brasil para um tempo radicalmente diferente, em que a economia deverá ser baseada no conhecimento, produzindo bens de alta tecnologia; em que a principal infraestrutura deverá ser educação, ciência e tecnologia.
Não ouve as vozes do exterior que mostram que não há futuro isolado e que precisamos agir para ingressar no mundo da competitividade internacional, na convivência econômica e cultural com o mundo global. E, pior, não ouve o clamor das ruas que indicam a necessidade de romper com os vícios do presente e reorientar o rumo para um futuro com economia dinâmica e integrada, e uma sociedade harmônica e sustentável.
A política tampouco vê as dívidas que os políticos têm com o país: com os pobres sem chance, com as crianças sem futuro e os jovens sem emprego; com a natureza depredada; a dívida decorrente da corrupção generalizada. Ao não reconhecer suas dívidas, a classe política não vê a raiva que está nas ruas.
Tudo isso leva a um comportamento esquizofrênico, pelo qual, de tanto vender ilusões, o governo e seus partidos passam a acreditar nelas. E os demais políticos se acostumam a elas.
Talvez esta seja a explicação para o deboche: não vemos, não ouvimos, nem pensamos. Até que o fim da paciência do povo nos desperte. Mas o custo poderá ser muito alto para a democracia, para a eficiência econômica, para a harmonia social e a sustentabilidade ecológica. Salvo se o despertar vier antes, com a descoberta de que o deboche é muito perigoso, como percebeu o presidente da Câmara, forçado a voltar atrás em sua decisão inicial.
Como se esses deboches ativos não bastassem, a classe política se comporta com um generalizado deboche passivo: não reconhece a dimensão da crise, não debate suas causas nem aponta caminhos para reorientar o rumo do Brasil.
A sensação é de que a política está doente: não ouve, não vê, nem raciocina. Não ouve as vozes do futuro chamando o Brasil para um tempo radicalmente diferente, em que a economia deverá ser baseada no conhecimento, produzindo bens de alta tecnologia; em que a principal infraestrutura deverá ser educação, ciência e tecnologia.
Não ouve as vozes do exterior que mostram que não há futuro isolado e que precisamos agir para ingressar no mundo da competitividade internacional, na convivência econômica e cultural com o mundo global. E, pior, não ouve o clamor das ruas que indicam a necessidade de romper com os vícios do presente e reorientar o rumo para um futuro com economia dinâmica e integrada, e uma sociedade harmônica e sustentável.
A política tampouco vê as dívidas que os políticos têm com o país: com os pobres sem chance, com as crianças sem futuro e os jovens sem emprego; com a natureza depredada; a dívida decorrente da corrupção generalizada. Ao não reconhecer suas dívidas, a classe política não vê a raiva que está nas ruas.
Tudo isso leva a um comportamento esquizofrênico, pelo qual, de tanto vender ilusões, o governo e seus partidos passam a acreditar nelas. E os demais políticos se acostumam a elas.
Talvez esta seja a explicação para o deboche: não vemos, não ouvimos, nem pensamos. Até que o fim da paciência do povo nos desperte. Mas o custo poderá ser muito alto para a democracia, para a eficiência econômica, para a harmonia social e a sustentabilidade ecológica. Salvo se o despertar vier antes, com a descoberta de que o deboche é muito perigoso, como percebeu o presidente da Câmara, forçado a voltar atrás em sua decisão inicial.
Sob suspeição

Toffoli presidirá julgamento da Lava-Jato no STF
(Chamada de capa de O Globo)
PS: Com Teori Zavascki na relatoria e Dias Toffoli na presidência, são dois votos chapa branca, na largada do julgamento
Um discurso para outro país e outro povo
Será exagero afirmar que foi um fracasso o pronunciamento da presidente Dilma na noite de domingo. Houve quem o entendesse e até aplaudisse. Mesmo assim, não se convenceu a maioria dos que assistiram as explicações da chefe do governo. Nenhuma pesquisa de vulto havia sido divulgada até a redação final destas linhas, mas está no ar que a gente respira a rejeição aos argumentos expostos por Madame. Acima e além dos buzinaços e panelaços verificados em todas as capitais e principais cidades, tem-se a impressão de um discurso feito para um país distante.
De início, não faltou a tradicional agressão aos meios de comunicação, quando disse que o noticiário mais confunde do que esclarece. Confunde quem, cara pálida? Depois, a falta de sintonia com a realidade pela afirmação de não haver crise, mas problemas conjunturais, diferentes do passado, quando quebravam o Brasil. Quebrados estamos, pois as medidas de ajuste do ministro Joaquim Levy, pelo contrário do que se ouviu, comprometem as conquistas anteriores. Aí estão a redução de direitos trabalhistas e a desoneração das folhas de pagamento das empresas, sem falar na elevação de impostos e de preços.
Nunca se comprovou que aumentos de impostos fossem temporários. Paciência e compreensão constituem produtos em falta nas prateleiras do cidadão comum. União de governo, Congresso e povo, uma ilusão. Chamar maldades de esforços é um eufemismo mas sua adoção não favorece as classes trabalhadoras e médias. Se a crise afetou os Estados Unidos, a Europa e o Japão, realmente já passou por lá, mas países em desenvolvimento, como o nosso, amargam suas conseqüências. Difícil aceitar que não temos crise financeira e cambial com o dólar passando dos 3 reais e o crédito sendo restringido. Como preservamos empregos se os índices revelam o contrário e os gêneros de primeira necessidade ficaram mais caros?
A presidente anunciou mudança de métodos, precisamente a razão da queda de sua popularidade. O controle dos gastos públicos atinge a educação, a saúde e a segurança. Se cada um deve fazer a sua parte, precisaria começar reduzindo o número de ministérios e dispensando parte dos 32 mil companheiros incrustados em cargos em comissão, com ênfase para as empresas estatais. Prometeu a normalização para o final do segundo semestre, sem saber se chegaremos ou se ela mesmo chegará lá. Suportáveis para quem serão essas “medidas de esforço”? Para as elites, por certo, já que o imposto sobre grandes fortunas continua sonho de noite de verão e a elevação do preços dos combustíveis, das tarifas de água e luz e dos transportes públicos tornou-se uma realidade.
O país não vai parar, porque já parou, e se coisas continuam a acontecer, será através da revelação dos escândalos na Petrobrás e outras estatais. Grandes obras arrastam-se e atropelam as promessas, como o desvio das águas do rio São Francisco. Melhor qualidade não há nos serviços de saúde e transportes. É preciso provar com fatos que os corruptos serão punidos e que a corrupção se interrompeu. Por fim, com todo respeito ao feminismo e às feministas, crime hediondo é o assassinato de qualquer ser humano, independente de sexo, raça ou cor.
Em suma, o discurso da presidente parece ter sido feito para outro país e outro povo.
Carlos Chagas
De início, não faltou a tradicional agressão aos meios de comunicação, quando disse que o noticiário mais confunde do que esclarece. Confunde quem, cara pálida? Depois, a falta de sintonia com a realidade pela afirmação de não haver crise, mas problemas conjunturais, diferentes do passado, quando quebravam o Brasil. Quebrados estamos, pois as medidas de ajuste do ministro Joaquim Levy, pelo contrário do que se ouviu, comprometem as conquistas anteriores. Aí estão a redução de direitos trabalhistas e a desoneração das folhas de pagamento das empresas, sem falar na elevação de impostos e de preços.
Nunca se comprovou que aumentos de impostos fossem temporários. Paciência e compreensão constituem produtos em falta nas prateleiras do cidadão comum. União de governo, Congresso e povo, uma ilusão. Chamar maldades de esforços é um eufemismo mas sua adoção não favorece as classes trabalhadoras e médias. Se a crise afetou os Estados Unidos, a Europa e o Japão, realmente já passou por lá, mas países em desenvolvimento, como o nosso, amargam suas conseqüências. Difícil aceitar que não temos crise financeira e cambial com o dólar passando dos 3 reais e o crédito sendo restringido. Como preservamos empregos se os índices revelam o contrário e os gêneros de primeira necessidade ficaram mais caros?
A presidente anunciou mudança de métodos, precisamente a razão da queda de sua popularidade. O controle dos gastos públicos atinge a educação, a saúde e a segurança. Se cada um deve fazer a sua parte, precisaria começar reduzindo o número de ministérios e dispensando parte dos 32 mil companheiros incrustados em cargos em comissão, com ênfase para as empresas estatais. Prometeu a normalização para o final do segundo semestre, sem saber se chegaremos ou se ela mesmo chegará lá. Suportáveis para quem serão essas “medidas de esforço”? Para as elites, por certo, já que o imposto sobre grandes fortunas continua sonho de noite de verão e a elevação do preços dos combustíveis, das tarifas de água e luz e dos transportes públicos tornou-se uma realidade.
O país não vai parar, porque já parou, e se coisas continuam a acontecer, será através da revelação dos escândalos na Petrobrás e outras estatais. Grandes obras arrastam-se e atropelam as promessas, como o desvio das águas do rio São Francisco. Melhor qualidade não há nos serviços de saúde e transportes. É preciso provar com fatos que os corruptos serão punidos e que a corrupção se interrompeu. Por fim, com todo respeito ao feminismo e às feministas, crime hediondo é o assassinato de qualquer ser humano, independente de sexo, raça ou cor.
Em suma, o discurso da presidente parece ter sido feito para outro país e outro povo.
Carlos Chagas
Atendendo a pedidos, Lula volta a controlar governo
Já que avião está desgovernado, é melhor deixar Lula no comandoO ex-presidente Lula tem uma sorte realmente invejável, não se pode negar. No início do ano passado, ele estava pronto para se candidatar à Presidência e achava que Dilma Rousseff gentilmente iria lhe ceder a vez. Mas a ingratidão falou mais alto, Dilma se esqueceu de que deve tudo a Lula, fincou pé, disse que sua popularidade estava em alta e tinha tudo para ganhar a reeleição.
Lula insistiu, Dilma então tirou as cartas da mangas e mandou que os assessores do Planalto começassem a plantar notícias desabonadoras sobre Rosemary Noronha, a favorita da corte. Nessa época, o escândalo da Petrobras já ocupava as manchetes, Lula estava enfraquecido e Dilma usou a bala de prata, ameaçando divulgar os gastos abusivos de Rosemary com o cartão corporativo da Presidência da República, em compras feitas no Brasil e no exterior, e Lula teve de jogar a toalha.
Dilma Rousseff se reelegeu com muita dificuldade, para dizermos o mínimo, e a crise política, econômica e social foi se agravando progressivamente. Na quinta-feira antes do carnaval, já entrando no desespero, a presidente deixou a arrogância de lado, embarcou no Aerolula e viajou a São Paulo para se desculpar e pedir ajuda a seu antecessor.
Lula disse-lhe poucas e boas, claro, e mandou que Dilma se reaproximasse do PMDB e prestigiasse Michel Temer, Renan Calheiros e Eduardo Cunha, para tentar recompor a base aliada, fragmentada desde a malograda tentativa de eleger Arlindo Chinaglia para a presidência da Câmara.
Lula realmente tentou ajudar. Em nome da sobrevivência do PT, ele viajou para Brasília na primeira semana após o Carnaval e passou três dias fazendo contatos com o PMDB e outros partidos da coalizão.
O esforço de Lula foi em vão, porque Dilma é como o cavalo da Átila – por onde passa, destrói tudo, não nasce mais grama. Ao invés de se aproximar de Renan e Cunha, a presidente fez exatamente o contrário. Recebeu do procurador-geral Rodrigo Janot as informações secretas sobre a lista de políticos envolvidos no esquema da Petrobras e mandou que fosse “vazada” para a mídia a notícia de que o Planalto “avisara” Renan e Cunha de que eles estavam incluídos na reação.
Ao publicarem as reportagens, os jornalistas que cobrem a Presidência da República tiveram o cuidado de registrar que a informação havia sido passada por “assessores do Planalto”. Foi o que bastou para Renan Calheiros e Eduardo Cunha entrarem em rota de colisão com a presidente da República, criando uma das mais graves crises institucionais desde a redemocratização do país, em 1985.
Agora, o Planalto (leia-se: Dilma Rousseff e Aloizio Mercadante) sonha em se reaproximar de Renan e Calheiros. Sonhar ainda não é proibido, mas não têm a menor condição de concretizar nada, tudo depende hoje de Lula, que, atendendo a pedidos, volta a controlar o governo.
Esta terça-feira, Dilma viaja novamente a São Paulo para pedir a benção ao padrinho. O encontro com Lula está previsto para a hora do almoço, após agenda oficial da presidente na capital paulista. Dilma, é claro, vai receber nova reprimenda, pela sucessivas trapalhadas que andou aprontando com ajuda de Mercadante.
Já está provado que a Sra. Dilma Rousseff não tem a menor condição de governar este país. Portanto, é melhor deixar Lula no comando, porque parece que o piloto sumiu e o avião está quase caindo.
Carlos Newton
terça-feira, 10 de março de 2015
A nova era
Branco, rico e golpista
Caso resolva aderir a uma manifestação de massa, saiba que a desqualificará. Seu lugar não é na rua protestando.
Se for visto na rua protestando poderá ser acusado pelo PT de ser golpista. Certamente o será.
Não há nenhum dispositivo na Constituição que proíba o rico de pensar e de dizer o que pensa, mas ele que suporte as consequências.
Da mesma forma o branco. Pior ainda se ele for branco e rico.
É fato que a elite branca e rica lucrou uma enormidade com os governos de Lula e de Dilma. E que os mais ricos e brancos da elite pressionaram Lula para que ele voltasse a ser candidato no ano passado.
Não importa. A eles deve apenas ser assegurado o direito de apoiar o PT. De preferência sem condições. E de financiar o PT tirando dinheiro do seu próprio bolso ou desviando recursos públicos.
Quantos negros e pobres você vê no comando das maiores empreiteiras envolvidas com a corrupção na Petrobras?
Só vê ricos e brancos. E todos parceiros do PT. Deram mais dinheiro para o PT ganhar as eleições do ano passado do que para outros partidos.
Bem, se além de rico e de branco o cidadão morar em São Paulo, aí qualquer margem de tolerância com ele deve ser abolida.
Dilma e o PT perderam feio em São Paulo. O candidato de Lula ao governo colheu ali uma votação humilhante.
O que venha de lá, portanto, não deve ser levado em consideração. Antigamente foi a saúva. Agora, o paulista rico e branco é a praga que mais infelicita o Brasil.
Quem sabe o Congresso não aprova alguma lei que desconsidere o voto de São Paulo na hora de se contar os votos para presidente da República?
O radicalismo da proposta talvez possa ser suavizado com a restrição ao voto apenas nos bairros povoados por uma maioria branca, rica e golpista.
Burgueses!
Há quanto tempo eu não enchia a boca para chamar de “burgueses” os adversários das mudanças sociais, que só fazem enriquecer à custa dos miseráveis.
É verdade que a maior parte dos miseráveis ascendeu socialmente e compra o que os brancos e ricos lhe oferecem. E que quanto mais ascenderem e comprarem, mais os brancos e ricos se tornarão mais ricos.
Mas esse é um dilema que a esquerda corporativa, ávida por emprego público e órfã de ideologia, não sabe ainda como resolver.
Um Nero no Planalto
No Dia Internacional da Mulher, a Suprema baixava o Pai Santana em plena fogueira da crise nacional. Com o país descendo a ladeira devido ao fogo que ateou por quatro anos em todos os setores, a soprano Dilma (faltou a toga) acusou a crise internacional pelos dissabores brasileiros. Era descaradamente a imagem do imperador romano, acusando os outros pelo próprio crime. Aqui no caso, apenas o Cristo é a crise internacional, da qual mal ou bem os países estão saindo e só o Brasil entrando pelo cano.
Todo mundo está careca de saber que a presidente em competência administrativa é zero à esquerda. Pior ainda em política. Enfia os pés pelas mãos porque não é apenas um poste, mas imenso absorvente para estancar a sangria do PT, que pode (deve) respingar nela e em seus "Deus".
Acreditar na enxurrada de bobagens, baixadas por Pai Santana, é assinar um atestado de idiotice mórbida. E o pior que Dilma acredita piamente que reverteu a crise e está a salvo do maremoto que provocou. Ainda falta muita água para rolar, e não é marolinha.
Fogo ex-amigo

Em meio a gritos de protestos, buzinas e panelaço, São Paulo assistiu, atônita e perplexa, o pronunciamento da Presidenta Dilma nesta noite de 8 de março. Tentando se apoiar na ultrapassada justificativa da crise internacional, Dilma negou, mais uma vez, a gravidade e dimensão da atual crise econômica, as responsabilidades de seu governo e as consequências de seus desdobramentos para o povo brasileiro. O que mais me preocupa, neste momento, é que, a cada ação de seu governo, assistimos ao aumento do grau de seu isolamento e a ampliação de seu distanciamento da sociedade. Tão séria e grave quanto os problemas econômicos é a crise política e o consequente aprofundamento da falta de confiança e credibilidade
Senadora Marta Suplicy (PT-SP), ex-ministra da Cultura de Dilma, em mais uma investida
Liderança de Dilma Rousseff desmorona
Rejeição a seu discurso se deve ao acúmulo de dados negativos em três frentes de seu Governo: a econômica, a política e a ética
A rejeição ao discurso da presidenta foi mais significativa por ter se dado no momento de começar a falar, antes de se saber o conteúdo de suas palavras. Era um sinal de que para uma parte da população, em especial a classe média mais bem informada, sua credibilidade está seriamente comprometida.
Mais que contra sua pessoa, já que ninguém a considera uma política corrupta, a rejeição a seu discurso se deve ao acúmulo de dados negativos em três frentes de seu Governo: a econômica, a política e a ética.
Desde a redemocratização do país o Brasil não vivia um momento tão crítico. O anúncio de cortes que afetam tanto a classe média quanto os mais pobres, com o país à beira da recessão, onde só crescem a inflação, o valor do dólar, o déficit público, os juros dos bancos e até o fantasma do desemprego, junto com os escândalos de corrupção política, criou um curto-circuito entre a opinião pública e a Presidência da República.
Dilma, bode expiatório ou talvez vítima? Pouca diferença faz para uma população desencantada e irritada. A ela se atribui falta de traquejo político, dificuldade de delegar, falta de tato e de vontade de lidar com um Congresso no qual acabou perseguida e encurralada inclusive por boa parte de sua ampla maioria de dez partidos.
A isso se junta o fato de a presidenta nunca ter contado, menos ainda neste momento, com o apoio pleno de seu partido (PT), e a sua relação com seu criador e tutor, o ex-presidente Lula da Silva, ter acabado por se deteriorar.
Se um dia se falava do dilmismo como continuação gloriosa do lulismo e dos anseios não confessos da presidenta de empreender um voo político próprio, sem a muleta do carismático Lula, hoje o escândalo da Petrobras, que viveu sua maior virulência nos governos Lula-Dilma, perpetrada pelas figuras por eles colocadas na empresa, que acabou saqueada para financiar fundamentalmente os partidos governistas, isso parece ter se tornado um sonho já apagado.
As ruas pedem a saída de Dilma do governo e gritam “fora PT”. Talvez ainda não saibam o que querem em seu lugar. Não sabem o que desejam para amanhã, mas sim o que exigem para hoje.
Leia mais o artigo de Juan Arias
Cairão os mais frágeis
Tudo bloqueado
Quaquá vai dar porrada em burgueses. Onde vai encontrá-los? Quem é classe média?Um amigo no exterior me perguntou se no Brasil estava tudo dominado. Referia-se ao habeas corpus dado por Teori Zavascki a Renato Duque, indicado do PT na Petrobras. Dominado não sei, respondi. Mas, naquele momento, estava tudo bloqueado: as estradas, pelos caminhoneiros, as contas bancárias, pela Justiça. Tantos bloqueios que a conta do ex-governador petista de Brasília, Agnelo Queiroz, foram bloqueadas duas vezes na mesma semana. Há bloqueio na relação Dilma- Congresso, e bloquearam o juiz que bloqueou os bens de Eike Batista.
O bloqueio se estendeu às cabeças: Washington Quaquá, um dirigente do PT fluminense, afirmou que daria porradas nos burgueses. Lula disse que chamaria o exército dos sem-terra para as ruas.
Às vezes temo que minha visão também fique bloqueada. Mas encaro esse movimento como a busca do golpe perfeito. O governo do PT arruinou a Petrobras, quer que os empreiteiros fiquem presos e que os sem-terra levem e deem porrada para defendê-lo. Em ruas indignadas com a corrupção, será difícil evitar os conflitos.
Bloqueados os caminhos para entender o assalto à casa do procurador Janot nas vésperas de apresentar a denúncia. Ele se limitou a dizer que os assaltantes estiveram por oito minutos em sua casa. Nada levaram de valor, apenas o controle remoto do portão. Se um grupo entra na casa de um procurador e não rouba nada, está apenas querendo dizer que entra quando quiser. E se leva o controle remoto do portão é apenas para mostrar como é inútil, pois conseguiram entrar sem ele. Ou será que seriam tolos o suficiente para acreditar que o controle remoto continuaria a abrir o portão depois do assalto?
O bloqueio mental se estende a Dilma. Ela despachou o embaixador da Indonésia pela porta lateral, como se fosse o entregador de pizza. O homem estava vestido com roupas típicas de seu país e compareceu na data marcada para apresentar credenciais.
Ninguém do Itamaraty percebeu essa grosseria. Ninguém no Congresso foi à embaixada da Indonésia pedir desculpas. Apagão diplomático. A política foi conduzida, nesse caso, por reflexos de uma dona de casa estressada. E ainda temos um brasileiro no pelotão da morte na Indonésia, compras de avião da Embraer que podem ser suspensas.
O bloqueio maior é na convivência política. A filósofa Marilena Chaui disse uma vez que odiava a classe média. Quaquá vai dar porrada em burgueses. Onde vai encontrá-los? Nos restaurantes de luxo nas ilhas do litoral de Angra? Quem é classe média? Vão atacar as lojas de conveniência nas noites de sábado, as academias de pilates?
Tudo muito confuso. CGU e TCU, provavelmente mais alguma coisa terminada em u, preparam um acordo de leniência. Os empreiteiros pagam multa e voltam a realizar obras públicas.
Enquanto isso, o BNDES estuda um empréstimo de R$ 31 bilhões para as empreiteiras. Com essa grana, pagam a multa e ainda podem mandar um pouco para os partidos do governo. E essa grana vai para os marqueteiros, que inventarão outros heróis do povo brasileiro, corações valentes e outras babaquices eleitorais. É assim que a banda vai tocar? Desta vez não só há um grande volume de informações como também a reação externa.
Leia mais o artigo de Fernando Gabeira
Motivo: Dilma
Uma faixa fixada na avenida Raja Gabaglia, na altura do bairro Estoril, em Belo Horizonte, na semana passada, chamava a atenção. Um comerciante colocou à venda uma loja do bairro Buritis, na mesma área, e afirmou que o “motivo” seria a presidente Dilma Rousseff.O anúncio oferece o espaço todo em granito, que tem 70 m², vidro blindex, painéis de madeira e duas vagas de garagem, por R$ 550 mil. A ideia do protesto é do empresário Eduardo Moura, de 44 anos, dono de uma imobiliária. “Pela alta dos preços e por tudo que o país está passando, no lugar de colocar 'urgente', preferi colocar que o motivo é a Dilma. Pra mim, ela é a culpada da situação enfrentada pelo Brasil”, disse.
Qualé, Cantalice?
Faltou falar em russo, porque a declaração de Alberto Cantalice, vice-presidente e coordenador das redes sociais do PT, fedeu como coisa velha dos tempos da extinta União Soviética. Seria glorioso, para ele, que estivesse falando para o Pravda (Verdade), jornal oficial do Partido Comunista da URSS até até 1991.
“Existe uma orquestração com viés golpista que parte principalmente dos setores da burguesia e da classe média alta”. Mas em Brazilândia, nos confins paulistanos vive a classe média criada pelo PT, serão eles também burgueses?
Qualé, Cantalice? A burguesia (êta palavra rançosa dos tempos da Guerra Fria) e a classe média alta não podem demonstrar sua insatisfação? Qual a autoridade inconteste de Cantalice para dizer a esses brasileiros que se falarem serão taxados de golpistas?
O empregado do PT, maior agência de empregos do país financiada com dinheiro público, deveria se dignar ao silêncio de sua insignificância. Não é ninguém para criticar os brasileiros que não sejam coniventes com a roubalheira sejam de que classe for. Mesmo que pertençam à burguesia ou classe média, trabalham e pagam impostos, não vivem às custas de partido político, sanguessuga dos cofres públicos ou estatais.
Como demonstrou o ex-presidente da regional fluminense do PT, manifestação só com o devido selo partidário. Caso contrário, é "reação de setores que pretendem um golpe contra a atual gestão". Cantalice, isso não é democracia é autoritarismo tão descarado como a ditadura militar. O exército de hoje, no poder, só mudou a cor da farda.
“Existe uma orquestração com viés golpista que parte principalmente dos setores da burguesia e da classe média alta”. Mas em Brazilândia, nos confins paulistanos vive a classe média criada pelo PT, serão eles também burgueses?
Qualé, Cantalice? A burguesia (êta palavra rançosa dos tempos da Guerra Fria) e a classe média alta não podem demonstrar sua insatisfação? Qual a autoridade inconteste de Cantalice para dizer a esses brasileiros que se falarem serão taxados de golpistas?
O empregado do PT, maior agência de empregos do país financiada com dinheiro público, deveria se dignar ao silêncio de sua insignificância. Não é ninguém para criticar os brasileiros que não sejam coniventes com a roubalheira sejam de que classe for. Mesmo que pertençam à burguesia ou classe média, trabalham e pagam impostos, não vivem às custas de partido político, sanguessuga dos cofres públicos ou estatais.
Como demonstrou o ex-presidente da regional fluminense do PT, manifestação só com o devido selo partidário. Caso contrário, é "reação de setores que pretendem um golpe contra a atual gestão". Cantalice, isso não é democracia é autoritarismo tão descarado como a ditadura militar. O exército de hoje, no poder, só mudou a cor da farda.
segunda-feira, 9 de março de 2015
Governo Dilma se arrisca a acabar mais cedo
No passado, quando um tsunami econômico varria o mundo, o então presidente Lula dizia que tudo não passava por aqui de uma “marolinha”. Nem “marolinha” havia no país da candidata à reeleição.
Inflação? Esqueça. Estava sob controle. E jamais deixaria de estar. Sem falar em pleno emprego. Lembra como Dilma enchia a boca para falar do paraíso do pleno emprego?
E do Pronatec! O Protanec viera para ficar, prometeu Dilma também de boca cheia. Como ela parecia se orgulhar do Pronatec!
Por falar nele, está suspenso. Trombou com o país da vida real.
E a obra de integração do rio São Francisco, concebida para acabar com a seca que aflige os nordestinos há tantos séculos?
Obra ambiciosa. Gigantesca. A ser entregue no final deste ano.
Pois sim. Está atrasadíssima. Somente em Pernambuco, no final do ano passado, foram demitidas 2.300 pessoas empregadas na obra. Uma tristeza. Outra mentira da propaganda.
Nada como morar no país da propaganda do PT. Na propaganda de qualquer partido.
Nem que a vaca tossisse, Dilma deixaria que mexessem nos direitos dos trabalhadores.
A vaca não tossiu. Não foi necessário. Mexeram nos direitos. Afinal, para manter o poder, Dilma disse que faria o diabo. E fez.
Agora, pede que tenhamos paciência. Porque os problemas são apenas conjunturais. Porque eles passarão em breve, muito em breve. E ao passarem deixarão um legado de soluções perenes.
Minha nossa senhora. É mentira em cima de mentira.
Minha Casa, Minha Vida era um programa estupendo. Complementado pelo programa Minha Casa Melhor, que financiava a compra do que fosse indispensável para se viver feliz dentro de casa.
Minha Casa Melhor foi interrompido. O governo culpa por isso quem se endividou além do que poderia pagar.
O calendário gregoriano não serve para balizar certas coisas. Por exemplo: este século de fato começou com os atentados do 11 de setembro de 2011 nos Estados Unidos. Antes deles nada de relevante aconteceu.
O segundo governo de Dilma deveria acabar no próximo dia 31 de dezembro de 2018. Pois bem: arrisca-se a acabar mais cedo.
Dilma, a incorrigível
Uma abordagem sobre a obstinação errática de Dilma Rousseff.Ao vencer a eleição de 2014, Dilma Rousseff não percebeu que a “guerra poderia estar ganha, mas que sua paz fora irremediavelmente perdida”. A presidente comprometera-se com um mundo e uma economia que não mais existiam; armara para si uma cilada política: como satisfazer o eleitor a quem prometeu direitos e recursos sem fundos e, ao mesmo tempo, reparar a economia que degringolava, num processo de gastos insustentáveis e escolhas incorretas? O crescimento minguara e os bons ventos que conduziram grande parte dos mandatos de Lula se esgotaram; à Dilma restaria o difícil ajuste e a prova (de arte) do recomeçar.
Além disso, o processo eleitoral fora muito abrasivo, no mais agudo conflito e na mais renhida disputa da jovem e incompleta democracia do país. A eleição não somou, dividiu. Criou desconfianças não apenas no sistema partidário, mas, pior, na própria sociedade. O discurso se radicalizou e a polarização que já era um transtorno para o diálogo se afigurou como irreconciliável. A campanha de Dilma estimulou o “nós contra eles”, o que pode até ser um recurso de disputa, mas requereria saber construir caminhos de volta que a presidente não soube fazer.
O certo é que inúmeras as frentes de conflito brotaram ou se consolidaram naquele processo. Mas, a tensão da disputa e a vitória eleitoral, ao que parece, comprometeram o raciocínio e o diagnóstico da presidente que não admitiu que aquela eleição demarcava também uma derrota política que precisaria ser revertida: a presidente saíra, pessoalmente, alquebrada e o país dividido. Até mesmo com seu padrinho e fiador, Lula, as relações careciam de remendos. Seria hora de reforma, antes de tudo, de mentalidade.
Mas, isto é um prodígio que requer certo dom: juntar os cacos da política; construir uma nova governabilidade, apontar para um novo projeto, reinventar-se não é coisa à toa. Gênios não existem; estadistas são raros; políticos estão escassos. Seriam necessárias incomuns – mas não impossíveis – habilidades de articulação e capacidade de comunicação para explicar e convencer que se tratava de pisar no freio e rearrumar a bagagem para seguir viagem.
Um líder político de verdade sabe que seu caráter é sempre nacional: por isso, reúne, agrupa, concilia, recompõe o todo. E Dilma teve, para isso, várias oportunidades. Mas seus discursos de vitória e de posse – ocasiões clássicas para esse tipo de operação – foram solenemente desperdiçados com generalidades, colocações laterais, provocações e triunfalismo. Em nenhum momento mencionou a oposição como legítima, sequer se dispôs ao tradicional cumprimento do adversário; tudo foi mágoa e irreverência. A presidente faz política com o fígado (e os intestinos).
Em outras ocasiões, não olhou para frente; ocultou-se em sofismas. A propósito de se defender, buscou ferir o antecessor já longínquo, Fernando Henrique Cardoso – desprezando a possibilidade de um dia se ver forçada a procurar FHC. O que, de fato, ganhou com isso? Falou à sua tribo, apenas. E pavimentou caminhos sem volta. Se defender atirando tornou-se uma coisa tão chata e repetitiva quanto ineficaz. Há as tais “elites”, a “oposição”, a “mídia”… Os fantasmas de sempre? Dados de realidade. E daí? Para frente é que se deveria andar.
Mas se esse tratamento fosse exclusivo aos adversários seria apenas a negação da estadista que, de fato, não é; ressaltaria somente a inexistência de visão de longo prazo e um temperamento ressentido. Uma democracia deve estar preparada para, de tempos em tempos, suportar governantes assim. Todavia, esse comportamento se espalhou também para aliados e até inimigos íntimos: o PMDB, independente da má fama e da avaliação negativa que se lhe faça, foi tratado com ojeriza e humilhação. E mesmo Lula sentiu o distanciamento, o pouco-caso, a incapacidade de se fazer ouvir. De fato, como se imaginava, o “Volta Lula” deixou marcas, talvez, irreparáveis.
Dilma demonstra um péssimo defeito: desconhecer a força dos adversários e, ao mesmo tempo, não admitir a própria fraqueza. Fez enfrentamentos, como na Câmara do Deputados, tão desnecessários quanto desastrosos, não sabendo, após, admitir e assimilar derrotas e reconstruir vínculos. Política é também arte de engolir sapos. Ainda hoje, suspeita-se que tenha engolido Joaquim Levy apenas como concessão; não digerindo seu cardápio e não admitindo críticas ao passado. Desse modo, os sapos não descem goela abaixo. Entalam.
De cara pintada a cara de pau
Lindbergh Farias, de codinome Lindinho, quem diria, acaba junto com Fernando Collor de Mello na mesma lista de envolvidos no Petrolão entregue ao STF. O ex-líder dos Caras Pintadas, que ajudaram a derrubar o ex-presidente, passou a conviver com esse e agora estão unidos no assalto à Petrobras.Mas de cara pintada agora o ex-prefeito de Nova Iguaçu, que desse cargo deixou um corolário de ações judiciais, agora virou cara de pau. Sempre negando qualquer envolvimento no esquemão político, em entrevista no fim de semana, admitiu que foi à Petrobras pedir doação de campanha ao ex-diretor Paulo Roberto Costa, depois de participar de inaugurações da empresa no Rio junto com o presidente Lula.
Ou o rapaz é de uma pureza virginal, ou é pilantragem na veia. Ir ao prédio da empresa, procurar Costa, íntimo da petizada, e pedir indicação de alguém da Andrade Gutierrez, é no mínimo uma confissão. "Você pode até dizer que é impróprio. Só que não é ilegal".
A confissão tem todas as digitais de intenção criminosa. O que parece desconhecer é que doação de campanha, segundo a legislação eleitoral, não é dedutível do Imposto de Renda. Portanto, é um agrado. Também como explicar legalmente que sabia da "boca do caixa" na empresa. E por que não bateu logo na Andrade Gutierrez, que poderia dar o dinheiro legalmente? Precisou de intermediação de agente conhecidíssimo de distribuição de propinas e ainda se declara o maior inocente.
"Pedi doação legal e entrei na lista de gente que fez atos bárbaros de corrupção. Isso pode estar destruindo minha carreira política"Merece o nome na lista pela cretinice da frase. Quando o parafuso aperta e faz doer, os santos logo se mostram cara de bebê chorão.
Noticiário político de hoje é uma agressão a qualquer um
O noticiário político, em todos os seus formatos, é uma agressão ao estômago de qualquer um de nós. Não posso, porém, deixar de dizer algo sobre o ex-presidente Lula. Poderia ter tido a oportunidade de conhecê-lo pessoalmente quando o ex-prefeito Pimenta da Veiga (cuja derrota para o governo de Minas foi uma perda para o Estado e para o país), já no segundo turno das eleições de 1990, o recebeu em casa da prefeitura na Pampulha (que não sei se ainda existe). Uma visita cordial, mas que teve significado político. Não foram poucos os tucanos que, com o insucesso de Mário Covas, optaram pelo voto no líder petista.
Não vai aqui, embutido no parêntesis supra, juízo de valor sobre o governador eleito, Fernando Pimentel, também ex-prefeito de Belo Horizonte, a quem desejo sucesso não só no governo, mas, principalmente, e por ser no Estado o seu chefe supremo, na condução em Minas do seu partido, que se distanciou da ética que sempre pregou.
Na época, aquele Lula se preparava para alcançar o maior e mais difícil cargo no país, mas perdeu a Presidência da República para Fernando Collor de Melo – um mal que desabou sobre nós e que tem reflexos até hoje. Voltei à era Collor não para trazê-la de volta, mas para fundamentar o que desejo dizer. Ou seja: Lula era um líder sindical que precisava ser lapidado. Comandava um partido recém-nascido, que teve incrível chance de iniciar um novo rumo para o país. E mais: poderia ter nascido, naquelas eleições, uma aliança entre PSDB e PT, se os seus principais líderes pensassem, juntos, no bem do país.
Nada do que imaginava, porém, aconteceu: primeiro, a vitória do tucano Mário Covas, e, depois, a de Lula, afinal abatido por quem acabou defenestrado da Presidência da República. Lula só foi aceito depois dos dois governos de Fernando Henrique Cardoso: por alguns poderosos porque viam nele “certo glamour”; por outros, como eu, porque viam nele mistério e esperança; pelo povo sofrido porque representava a certeza do resgate de uma dívida social que não foi paga até hoje. No primeiro mandato, no seu início, e antes do mensalão, reacendeu por pouco tempo o sonho de um governo voltado para as classes mais necessitadas. No segundo, já não era o mesmo e, no fim, não soube indicar o sucessor: tirou-o do bolso do colete. Esqueceu-se de que, quando isso ocorre, o candidato é sempre menor do que o bolso…
No início, sem influência de qualquer ideologia, Lula queria, apenas, promover os trabalhadores, mas, depois, o poder lhe subiu à cabeça. Por isso, não soube governar e não soube, repito, indicar o sucessor. Lula poderia ter sido um bem infungível, que não se desgasta com o tempo. Só melhora. Sua trajetória, na vida pública, se deu de modo inverso: em vez de se aprimorar, piorou. Senão, vejamos.
Dentre as inúmeras e toscas intervenções, trago à baila, leitor, somente estas três preciosas pérolas: a primeira quando, em defesa da candidatura de Dilma, afirmou que “eles não sabem do que seríamos capazes de fazer para elegê-la”; a segunda quando foi a Caracas para apoiar a candidatura do ditador Nicolás Maduro à Presidência da Venezuela; a terceira quando, em ato supostamente a favor da Petrobras, ameaçou chamar às ruas o “exército do Stédile”, líder do MST, para enfrentar os inimigos do seu partido e do atual governo.
Lula, possuído pela vertigem do poder, fragiliza ou ameaça agora, leitor, claramente, o que mais desejamos – a democracia.
Até quando?
Acílio Lara Resende
Não vai aqui, embutido no parêntesis supra, juízo de valor sobre o governador eleito, Fernando Pimentel, também ex-prefeito de Belo Horizonte, a quem desejo sucesso não só no governo, mas, principalmente, e por ser no Estado o seu chefe supremo, na condução em Minas do seu partido, que se distanciou da ética que sempre pregou.
Na época, aquele Lula se preparava para alcançar o maior e mais difícil cargo no país, mas perdeu a Presidência da República para Fernando Collor de Melo – um mal que desabou sobre nós e que tem reflexos até hoje. Voltei à era Collor não para trazê-la de volta, mas para fundamentar o que desejo dizer. Ou seja: Lula era um líder sindical que precisava ser lapidado. Comandava um partido recém-nascido, que teve incrível chance de iniciar um novo rumo para o país. E mais: poderia ter nascido, naquelas eleições, uma aliança entre PSDB e PT, se os seus principais líderes pensassem, juntos, no bem do país.
Nada do que imaginava, porém, aconteceu: primeiro, a vitória do tucano Mário Covas, e, depois, a de Lula, afinal abatido por quem acabou defenestrado da Presidência da República. Lula só foi aceito depois dos dois governos de Fernando Henrique Cardoso: por alguns poderosos porque viam nele “certo glamour”; por outros, como eu, porque viam nele mistério e esperança; pelo povo sofrido porque representava a certeza do resgate de uma dívida social que não foi paga até hoje. No primeiro mandato, no seu início, e antes do mensalão, reacendeu por pouco tempo o sonho de um governo voltado para as classes mais necessitadas. No segundo, já não era o mesmo e, no fim, não soube indicar o sucessor: tirou-o do bolso do colete. Esqueceu-se de que, quando isso ocorre, o candidato é sempre menor do que o bolso…
No início, sem influência de qualquer ideologia, Lula queria, apenas, promover os trabalhadores, mas, depois, o poder lhe subiu à cabeça. Por isso, não soube governar e não soube, repito, indicar o sucessor. Lula poderia ter sido um bem infungível, que não se desgasta com o tempo. Só melhora. Sua trajetória, na vida pública, se deu de modo inverso: em vez de se aprimorar, piorou. Senão, vejamos.
Dentre as inúmeras e toscas intervenções, trago à baila, leitor, somente estas três preciosas pérolas: a primeira quando, em defesa da candidatura de Dilma, afirmou que “eles não sabem do que seríamos capazes de fazer para elegê-la”; a segunda quando foi a Caracas para apoiar a candidatura do ditador Nicolás Maduro à Presidência da Venezuela; a terceira quando, em ato supostamente a favor da Petrobras, ameaçou chamar às ruas o “exército do Stédile”, líder do MST, para enfrentar os inimigos do seu partido e do atual governo.
Lula, possuído pela vertigem do poder, fragiliza ou ameaça agora, leitor, claramente, o que mais desejamos – a democracia.
Até quando?
Acílio Lara Resende
Olho vivo
Cabe aos tribunais, em vez de se imaginarem acima e além da sujeira, extirpá-la. Para começar, agilizando as investigações e os processos. O Brasil não aguentará mais do que um ano assistindo revelarem-se a conta-gotas suas podridões. Torna-se necessário pular por cima de expedientes e filigranas jurídicos que em vez de aprimorar, só conspurcam a Lei e o Direito. Cultivar o contraditório e a prerrogativa de defesa não impedem a urgência.
Carlos Chagas
Por um Brasil otimista
“Bad news, good news”. É o que aprendemos na faculdade e na prática jornalística. Papel de jornalista é mesmo apontar o que está errado, criticar e atuar com altivez em defesa do interesse coletivo contra os desmandos do poder. Nestes dias, essa missão se pinta extremamente útil para o nosso país. Útil, mas delicada.
Pois bem, hoje, no jornal, no rádio, na televisão, na internet, é só uma onda maciça de más notícias. Sem razão? Não mesmo. A crise existe e é uma hidra de sete cabeças, cada uma mais hedionda e de uma espécie distinta. Logo, motivos jornalísticos para noticiar a ruindade há de sobra, e ela deve ser noticiada. Entretanto, devemos ter a consciência da nossa responsabilidade na construção daquilo que, nas estranjas, é chamado de “national mood”. No nosso caso presente, “the mood is blue, deep blue”. Cada má notícia de abrangência nacional que pautamos, apuramos, redigimos, editamos e publicamos é um tijolinho a mais nessa muralha de profundo azul melancólico.
O que fazer? Jornalismo não existe para falar de coisa boa. Vá lá, mas precisamos ir além da última página ou da subida da ficha técnica, senão como jornalistas, como cidadãos.
O que constatamos no Brasil hoje é uma espécie de câncer, que, de fato, entristece, dói e traumatiza. Acontece que, diferentemente de qualquer tumor, por mais agressivo que seja, que acometa um ser humano, nosso país sobreviverá à doença: ele é mais antigo, mais forte e maior do que qualquer mal. O Brasil é maior do que a Petrobras, maior do que o Clube das Empreiteiras Unidas (CEU), maior do que o PT, a Dilma ou o Aécio. Todos eles passarão, e o país, passarinho.
Câncer existe mesmo é para purgar a alma dos pecados cometidos. E, se ele é incapaz de matar o paciente, vai fortalecê-lo. Não há razão para não crer que teremos, depois da tempestade, instituições mais sólidas, regras mais transparentes, cidadãos mais bem esclarecidos e, sim, empresários e homens públicos ao menos mais cautelosos.
Daremos um passo à frente no caminho da boa vocação confiada a nossa nação, um passo evolutivo, como deve ser, sem saltos. Saltos revolucionários não existem. Só há golpes, assim como impeachment sem dolo é golpe.
Trabalha e confia, como nos lembra a bandeira capixaba. O melhor virá amanhã? No ano que vem? Na próxima eleição? Quem pode ter certeza do quando? A certeza é que virá, a cada dia, como resultado do nosso trabalho coletivo erigido sobre essa convicção otimista, apesar da corrupção, do “blue mood” e da avalanche de más notícias de hoje.
Ao acusar Cunha, Janot agravou a crise
O procurador-geral Janot aceitou acusações frágeis demaisDepois do verdadeiro furacão causado pela chamada “lista de Janot”, a poeira começa a assentar e vão surgindo informações que verdadeiramente comprometem o trabalho do procurador-geral da República.
Como se sabe, Rodrigo Janot assumiu claramente a defesa da presidente Dilma Rousseff, ao fazer uma criativa interpretação da Constituição Federal e se recusar a pedir investigação sobre ela, alegando simplesmente que os crimes foram cometidos no mandato anterior. Contraditoriamente, Janot pediu abertura de inquérito contra o presidente da Câmara, Eduardo Cunha, e o senador tucano Antonio Anastasia, sem que nos autos existam provas materiais ou sequer acusações sólidas contra ele. Quer dizer, pode haver algo de podre na “lista de Janot”.
Todos sabem que o deputado Eduardo Cunha é um político altamente polêmico, para se dizer o mínimo. Sabe-se que o deputado fluminense presidiu a Telerj no governo Collor, depois integrou o governo de Anthony Garotinho no Estado do Rio, quando sofreu algumas acusações de irregularidades, mas nada ficou provado contra ele, foi diretor da Rádio Melodia de programação evangélica, elegeu-se deputado na condição de líder religioso, é considerado altamente conservador e se tornou um dos parlamentares mais influentes do Congresso.
No caso da lista de Janot, a denúncia contra Eduardo Cunha é baseada num depoimento confuso do policial Jayme Alves de Oliveira Filho, que informou ter levado dinheiro do doleiro Alberto Youssef para o deputado do PMDB e entregue numa casa no Rio, mas quem mora no local é o advogado do deputado estadual Jorge Picciani. Logo em seguida, o próprio Youssef desmentiu o policial, dizendo que jamais mandar entregar propina a Cunha.
Em sua delação premiada, o que Youssef disse sobre Cunha foi ter sido informado de que o deputado pressionara a empresa Mitsui, que supostamente suspendera o pagamento de propina ao PMDB. E essa informação, segundo a denúncia de Janot, teria sido reforçada por um pedido de informações sobre a Mitsui, apresentado na Câmara por uma deputada do PMDB-RJ, Solange Almeida, por suposto pedido de Cunha. Ou seja, ainda não há, diretamente, nada de concreto contra o presidente da Câmara.
O caso do senador Antonio Anastasia (PSDB-MG) é pior ainda. O parlamentar mineiro também foi indiciado com base apenas no mesmo depoimento confuso do ex-policial que trabalhava para o Youssef e que disse ter reconhecido depois o senador por fotos vistas em jornal. O próprio doleiro desmentiu a acusação, afirmando que jamais enviou propina a Anastasia. Mesmo assim, o procurador Janot incluiu o senador tucano na lista.
Nos autos, havia muito mais provas contra José Dirceu, por exemplo. Segundo Youssef, Dirceu mantinha uma estreita relação com o empresário Julio Camargo, da Toyo Setal, um dos operadores dos desvios de recursos da Petrobras para o bolso de políticos e partidos. Na contabilidade de Camargo, Dirceu era chamado de “Bob”. Mas Janot não quis abrir denúncia contra o ex-ministro. Se o juiz não o fez, ele poderia fazê-lo.
Com esse comportamento dúbio, poupando Lula, Dilma e José Dirceu e incriminando Cunha e Anastasia sem provas contundentes, o que o procurador Janot conseguiu foi o agravamento da crise institucional. Agora, o presidente da Câmara está convicto de que Janot foi instruído pelo Planalto e não descansará enquanto não demolir o governo da presidente Dilma Rousseff.Carlos Newton
domingo, 8 de março de 2015
Efeito Brasil?
Corrupção atinge indígenas bolivianos
Morales intervém em uma instituição e prende dois ex-executivos por má administraçãoUm escândalo no Fundo Indígena da Bolívia desestabiliza o discurso oficial sobre a probidade dos indígenas, considerados certa vez pelo presidente Evo Morales como a “reserva moral da humanidade”. O Governo teve de intervir nessa instituição, que recebe uma importante quantidade de dinheiro proveniente das exportações de gás do país para realizar projetos produtivos nas comunidades “originárias”. Seus dois ex-executivos foram presos. A Controladoria do Estado moveu uma ação contra eles dois e contra vários dirigentes camponeses e indígenas envolvidos na má administração de um montante que pode chegar a 277 milhões de bolivianos (mais de 120 milhões de reais).
O presidente Morales requereu a investigação do Fundo Indígena depois de receber várias denúncias sobre a existência de uma trama para financiar projetos que acabavam não sendo realizados (“projetos fantasma”). Até agora foram detectados 153 projetos desse tipo e há suspeita de mais 100.
Um caso ilustrativo é o do financiamento para plantar um hectare de alho para cada uma das famílias de um grupo de 500 que vivem em Puerto Acosta, povoado situado a 194 quilômetros de La Paz. Segundo a denúncia que processam as autoridades, três diretoras da Federação de Mulheres Camponesas Bartolina Sisa –organização fundadora do partido do Governo, o Movimento ao Socialismo (MAS)– enganaram as famílias e conseguiram que as mesmas assinassem testemunhos de que receberam o benefício completo em troca de meio quilo de alho para cada uma. As diretoras, por seu lado, obtiveram 1,2 milhão de bolivianos do Fundo Indígena.
Leia mais a reportagem
Tiririca
Não é democrático discriminar qualquer profissão, inclusive os palhaços – mas, com voto distrital, um palhaço só conseguiria candidatura, e só se elegeria, se fizesse muito mais que apenas palhaçadas, como o Tiririca, que diz não saber o que um deputado faz.
Na Inglaterra – que não tem horário eleitoral gratuito – os candidatos tem de ganhar voto em incontáveis reuniões com eleitores de seu distrito. Para faltar a uma sessão no Parlamento, um deputado trabalhista tem de pedir autorização a seu líder, que só consente se outro deputado de outro partido também faltar.
Aqui, os deputados faltam quando e quanto querem, e cada um emprega mais assessores que o primeiro-ministro da Inglaterra.
A palavra “candidatos” vem da Roma Antiga, quando os que queriam ser senadores saíam às ruas vestidos de branco (a cor “cândida”, da pureza e da inocência…). Assim simbolizavam que não tinham manchas no caráter e na vida, eram imaculados. A lei da ficha limpa é a versão atual disso.
O cerco está apertando tanto, com tantas exigências de transparência e fiscalização pelo eleitorado consciente (ainda minoria no entanto), que é bem capaz que logo-logo (daqui a umas décadas) os candidatos passem a ser na maioria honestos.
Gente é a única espécie, neste planeta, cujo destino é melhorar. Eleições já foram bem piores.
Lembro do dia dos baldes. Jânio Quadros foi candidato a deputado pelo Paraná em 1958, e eu, com nove anos, vi a rua ficar coberta por grossa camada de santinhos dele, despejados de baldes por caminhonetas. Bitucas de cigarro provocaram vários incêndios, que os moradores apagavam com baldes de água.
Postes, muros, ruas, paredes, estradas, tudo era emporcalhado por pichações e cartazes até começo da década passada! Um dia, meu filho Jerônimo, menino, perguntou:
- Pai, se eles querem governar, por que fazem tanta bagunça?
No tempo das células eleitorais de papel, lembro de um escrutinador eleitoral vangloriar-se de “arranjar” até centenas de votos para seus candidatos, apenas “votando” nas células em branco com uma canetinha curta que escondia na mão. Nós éramos do velho PMDB resistente à ditadura, e falei que aquilo era errado, ele disse que não:
- Contra a ditadura, vale tudo.
Retruquei que, assim, trocaríamos a ditadura por uma republiqueta. Depois, acabada a ditadura, ele continuava com sua canetinha, a “arranjar” votos para candidatos que lhe molhavam a mão esperta… Mas a urna eletrônica acabou com isso.
Até pouco mais de um século, mulheres não podiam votar, e houve um tempo em que só ricos podiam votar!
Embora ainda vivamos num tempo em que os ingênuos e desocupados cultuam ditaduras de esquerda, a democracia parece ser o caminho para melhorar, desde que melhorem as eleições e a política.
Tiririca não é o pior que podia acontecer. Pior é desacreditar e desistir de acreditar e melhorar porque muitos ingênuos se deixam enganar por um palhaço. Ou como diria o caboclo:
- Não é porque o padre é ruim que vou deixar de ter fé!
Deus deixou de ser brasileiro?
Fazia muitos anos, segundo os especialistas, que o Brasil não passava por uma conjuntura tão negativaDesde sexta-feira à noite parece que os astros confabularam contra o “país maravilha”, e que Deus deixou de ser brasileiro, já que, além da crise econômica que assola a nação onde tudo aumenta — recessão, inflação, taxas de juros mais altas do mundo, déficit fiscal e comercial, divórcio entre Governo e Congresso —, adiciona-se agora, oficialmente, o terremoto do Petrolão.
O relator do maior escândalo de corrupção política e corporativa na história do país, o juiz do Supremo Tribunal Federal, Teori Zavascki, autorizou a investigação de 49 políticos de seis partidos, do Governo e da oposição, supostamente envolvidos no escândalo da Petrobras. Entre eles, nomes de peso do mundo político, até então estrelas do Congresso, de governos federais e estaduais.
Há muitos anos, segundo especialistas, que o Brasil não passava por uma série tão extensa de fatos negativos. Isso pode colocar em risco o atual equilíbrio político, e não deixará de ter um forte impacto nas ruas.
A situação política brasileira está tão tensa que, segundo o jornal Folha de S. Paulo, há rumores de que a presidenta Dilma Rousseff, cada vez mais fragilizada e pressionada no Congresso, estaria avaliando a possibilidade de tentar um pacto político que incluiria até o maior partido de oposição, o PSDB, eterno adversário do PT, legenda de Dilma, e que também parece envolvido no escândalo da Petrobras, na figura de um de seus senadores de peso, Antonio Anastasia, ex-governador do importante Estado de Minas Gerais.
Tudo isso, com certeza, para que o Governo tente sair do ringue no qual se encontra contra as cordas, num beco do qual por enquanto não se enxerga uma saída, enquanto a sociedade anuncia uma manifestação nacional para o dia 15 de março, para exigir a saída de Dilma.
Antes, no dia 13, para complicar ainda mais a situação política já tão emaranhada, os sindicatos que apoiam o Governo pretendem levar seus ativistas às ruas contra as medidas de austeridade fiscal e redução de direitos trabalhistas que o Governo prepara para colocar em ordem suas despesas sobrecarregadas.
Ainda é cedo para poder medir o impacto que essa lista de 49 políticos de seis partidos que deverão ser investigados pelo escândalo do Petrolão terá sobre uma opinião pública já esmagada e irritada com a crise econômica, e perplexa diante de uma crise política de tal magnitude.
Na própria sexta-feira à noite, nos noticiários e nas redes sociais, a revelação dos nomes dos políticos envolvidos obteve os maiores índices de audiência.
Talvez a única notícia positiva em meio ao desastre político seja esse interesse da opinião pública brasileira, tantas vezes acusada de excessiva passividade diante dos escândalos de corrupção.
Essa reação positiva dos cidadãos comuns e a demonstração dada pela Procuradoria-Geral e pelo Supremo, de que os poderes do Estado mantêm sua independência e autonomia, poderiam resultar numa luz no fim do túnel e numa esperança de que as coisas precisam mudar.
De que forma, ninguém é capaz de imaginar por enquanto. Sem dúvida, o país terá que passar por uma séria transformação, capaz de superar o terremoto político e econômico que o oprime, se não quiser continuar escorregando em direção ao abismo que se abriu diante de seus pés.
A última esperança é que os cidadãos de bem, os que ainda não sujaram as mãos e continuam apostando apesar de tudo nos valores da democracia, especialmente os jovens, aos quais o futuro pertence por direito e biologia, não pareçam dispostos a permitir que Deus deixe de ser brasileiro.
A implicação do PT
E se a lista criar novos delatores?
A lista fala mais pelo o que não diz. Aponta quem recebeu propina e esquece-se de quem mandou pagá-las
Pronto. A tão esperada lista dos políticos envolvidos na roubalheira da Petrobras veio a público na noite de sexta-feira. Com algumas estranhezas, como a fartura de 32 integrantes do PP, a relação, de imediato, pouco mexeu na acelerada pulsação do Congresso. Mas a taquicardia por lá, e também no Planalto, continuará fora de controle. Até porque com mais gente na mira abrem-se fartas possibilidades de traições e novas trincheiras para se percorrer a trilha da dinheirama.
Como em qualquer caso de polícia, os caminhos do dinheiro unem os criminosos aos beneficiários do crime – os que mandam executar e nunca sujam as próprias mãos.
Os rastros costumam valer mais do que o número de gente metida na encrenca. Percorrê-los tem sido a obsessão dos investigadores da Operação Lava Jato. E passam a ser agora tarefa primeira das investigações e diligências autorizadas pelo ministro Teori Zavascki, do STF.
A lista fala mais pelo o que não diz. Aponta quem recebeu propina e esquece-se de quem mandou pagá-las.
Debate embaralhado
Defender a Petrobras é querer restaurar sua credibilidade e reerguê-la o mais rápido possível, não é negar a corrupção

No entanto, o que se vê, em grande parte, é o embaralhamento de afirmações rasteiras ou falsas, slogans, superficialismo, xingamentos, distorções de fatos, visando a apresentar mentiras como se fossem verdades e a evitar a discussão franca dos reais problemas.
Não faz qualquer sentido, por exemplo, pedir o impeachment de uma presidente legitimamente eleita, sem que ela seja alvo de qualquer investigação policial ou indiciamento. Nem atacar o ex-ministro da Economia por levar a esposa para tratamento médico num hospital particular, em vez de procurar o SUS. Nem criticar a presidente por ter escolhido um ministro que se compromete a fazer um ajuste fiscal (e se ela mentiu na campanha a esse respeito, que se critique a mentira, não o ajuste). Nem achar que dá para fazer ajuste sem cortes. Nem afirmar que o rebaixamento do grau de investimento da Petrobras, pela Moody’s, se deve a um desconhecimento da situação por parte da agência, e não à falta de um balanço auditado e às sucessivas descobertas de um esquema de corrupção sistêmica — fatos inegáveis, que precisam ser admitidos e não dependem de que se atribua sua causa a aparelhamento, projeto partidário de poder e intromissão política em decisões que deviam ser técnicas ou que, por outro lado, se acredite realmente que só ocorreram por artes do capeta ou de FH.
´É ainda puro embaralhamento comparar delação premiada a extorsão ou tortura. Ou confundir o sigilo exigido por esse instrumento legal e a divulgação de depoimentos dados à polícia, chamando estes de vazamento seletivo.
Também não faz qualquer sentido achar que quem quer ver punida a corrupção na Petrobras está atacando a pobre estatal que precisa ser defendida contra o imperialismo ianque. Defender a Petrobras é querer restaurar sua credibilidade e reerguê-la o mais rapidamente possível, não é negar a corrupção que vinha ocorrendo nela e botar a culpa nos outros, insultando a inteligência alheia. Não dá para imaginar que a oposição conseguiu, em 12 anos de governo petista, infiltrar gente nos quadros da empresa especialmente para criar o crime perfeito: fazer contratos superfaturados com empreiteiras e acertar que o dinheiro a mais, além de calar a boca de uns e outros, seria depois lavado para ser doado legalmente a partidos políticos, sobretudo da base aliada. Tudo “de acordo com a lei".
Também é absurdo querer impingir que a solução para evitar que isso se repita não deve passar pela Justiça e pelas punições previstas em lei, mas virá por um novo sistema de votação em lista partidária, em que o eleitor só escolhe o partido, mas elege quem os dirigentes escolheram. Mais uma manobra diversionista para embaralhar o debate. Aproveita-se que a opinião pública quer ver o fim desse descalabro de campanhas milionárias bancadas pelo poder econômico (até a CNBB já se manifestou nesse sentido). Então, em vez de discutir regras que limitem as doações das empresas, ou até as proíbam se for o caso, tira-se novamente do bolsinho da calça a ideia de financiamento público e voto em lista fechada. O que tem isso a ver com as calças? É mais uma manobra para confundir. A discussão deveria ser em torno do barateamento das campanhas, mais curtas, em programas de TV menores e mais enxutos, sem atores fingindo de eleitores, sem filmetes milionários, sem marqueteiros inflacionados — apenas algo como o candidato diante da câmara se apresentando, ou entrevistado por um jornalista, ou debatendo com adversários.
Embaralhar o debate só serve para criar confusão, acirrar um clima emocional já acentuado, desviar a atenção. Não faz bem à democracia. Acaba em apelos para se partir para cima ou ameaça de chamar exércitos. O mínimo que o cidadão bem intencionado pode fazer é voltar ao assunto sem morder a isca. Mas que cansa, cansa.
Ana Maria Machado
No 'governo dos pobres', bilionários se multiplicam
Desde os tempos de Getúlio Vargas nada produz melhor dividendo político do que rotular-se defensor dos pobres. É um discurso que agrada pobres e ricos. Tanto isso é verdade que o PT, em seus anos de credibilidade, enquanto distante das decisões administrativas e dos recursos públicos, era o partido campeão de votos nos bairros mais aristocráticos de Porto Alegre.Lula, no entanto, precisa dizer o contrário. Ele e seu partido, não se contentam com propagandear o zelo pelos mais necessitados. Eles precisam, também, repetir à exaustão que os ricos ficam contrariados com isso. Falam, Lula e os seus, como se rico fosse idiota e não soubesse, na experiência própria e na internacional, que nada ajuda mais a prosperidade dos ricos do que a prosperidade de todos. É mais riqueza gerada, mais PIB, mais mercado, mais consumo, maior competitividade. Pobreza é atraso e culto à pobreza deveria ser catalogado como conduta antissocial.
A sedução produzida pelo discurso em favor dos pobres se abastece das próprias palavras. Fala-se no Brasil de uma estranha ascensão social em que o número de dependentes do socorro direto do governo aumenta indefinidamente através das décadas. O bolsa-família é um campo de concentração de ingresso voluntário, onde quem entra não sai nem que a vaca tussa. E o seguro-desemprego tornou-se o amigo número um da rotatividade no emprego, desestimulando a permanência no trabalho remunerado. Enquanto isso, o sistema educacional das classes favorecidas no discurso e desfavorecidas nas ações de governo continua reproduzindo a miséria nas salas de aula que o Brasil destina às suas populações carentes.
Enquanto isso, em dez anos de governo dos que supostamente privilegiam a pobreza, o número de bilionários brasileiros pulou de seis para 63, regredindo para 54 com as marolinhas do ano passado. Nenhum crescimento semelhante ocorreu, no mundo, durante esse período. E aí, amigos, dêem-se vivas não a um desenvolvimento harmônico da sociedade, mas ao BNDES e seus juros de pai para filho, subsidiados com o suor do nosso rosto. De 2009 para cá, o banco passou a esguichar dinheiro grosso para a zelite das empresas nacionais. Só do Tesouro Nacional, R$ 360 bilhões foram repassados ao banco para acelerar o desenvolvimento de empresas amigas do governo, muitas das quais com credibilidade semelhante à do próprio governo. Não vou falar dos financiamentos negociados através do itinerante ex-presidente Lula em suas agendas comerciais com ditadores latino-americanos e africanos, porque essa é uma outra história.
Bilhões foram pelo ralo das análises mal feitas e dos negócios mal explicados. Há um clamor nacional pela CPI do BNDES. O governo que diz zelar pelos pobres (mas que precisa deles em sua pobreza) destinou muito mais recursos aos bilionários (porque precisa deles em sua riqueza). Afinal, ninguém tira centenas de milhões de reais do próprio bolso para custear campanhas eleitorais. Esse é o tipo de coisa que só se faz com o dinheiro alheio, vale dizer, com o nosso próprio dinheiro, devidamente levado pelo fisco e, depois, lavado pelo governo nas lavanderias dos negócios públicos.
Percival Puggina
A boca fechada de Dilma
Dilma sai à cata de dinheiro, arrecadando ainda mais impostos. Ela sabe que quebrou

Está emparedada pelo Congresso, que se amotina por causas nobres e motivos espúrios. Está isolada do povo por não ter condições financeiras para manter um governo assistencialista e populista. Corta programas sociais para não ver o Brasil se desmilinguir. Com um Estado inchado que custa 40% do PIB – repetindo, um Estado que consome quase metade do PIB, um dos Estados mais caros do mundo –, Dilma sai à cata de dinheiro, arrecadando ainda mais impostos. Ela sabe que quebrou.
Da mesma forma que reduziu a barriga e os quadris, Dilma terá de encolher o Estado e as estatais, coisa que já deveria ter feito em tempos gordos, antes da dieta. Em 2005, há dez anos, havia um projeto de ajuste fiscal de longo prazo, com uma meta de deficit zero nas contas públicas. Dilma achou “rudimentar” esse regime. Deu no que deu, o Estado ficou obeso, e só mesmo uma cirurgia radical nos salvará.
Não será o médico argentino Máximo Ravenna que fará emagrecer a gulosa máquina petista. Esse método reduz apenas quilos, rapidamente, e visa queimar as reservas de gordura do corpo. Associa cardápio de baixa caloria a atividade física e acompanhamento psicológico. Dilma é obediente, ingere apenas 800 calorias por dia e ajusta seu figurino. No corpo, tinha muitas reservas a queimar. Já no país...
Para ajustar as finanças, ainda bem que Dilma não chamou um argentino. O mago Joaquim Levy, sorridente e pragmático, precisa mostrar resultados rápidos na economia. O ajuste de Levy é draconiano, mas será que seu cliente, o governo do PT, se ajustará às regras da dieta? Ou se viciou no desperdício? Dilma e Levy precisarão se entender às mil maravilhas, porque, se houver uma quebra de discurso e de confiança entre médico e paciente, neste caso, quem sofrerá será nosso corpinho, quem sofrerá será o Brasil.
Dilma prova hoje o sabor amargo de uma vitória eleitoral conquistada em cima de mentiras, ilusões, conchavos, acusações irresponsáveis e promessas vãs. O eleitorado militante petista está mais calado que a presidente. Se existe alguém, hoje, que não provoca inveja no Brasil, é Dilma. Também não inspira pena. Chegou aonde chegou por suas próprias pernas, arrogância, omissão e temperamento. Dilma II só pode culpar Dilma I. Também pode culpar seu criador, Lula, que a fez acreditar num futuro mirabolante.
Metida no inferno astral, o que faz Dilma? Come menos e fala menos. Quase some. A imprensa a acusa de “letargia” e “inércia”. Chama a presidente de “zumbi” e “surda”. Parece telespectadora de si mesma. Vê a lista dos políticos acusados de corrupção, divulgada pelo procurador-geral da República, Rodrigo Janot, felizmente sem seu nome. Vê a paralisação dos caminhoneiros. Vê a greve de professores. Vê a revolta das mulheres dos sem-terra, armadas com facões. Vê despencar a venda de carros em fevereiro. Vê sua Medida Provisória devolvida por Renan Calheiros, logo quem. Vê que perdeu até a chance de indicar cinco novos ministros para o Supremo Tribunal Federal, porque a Câmara aumentou a idade máxima, no STF, de 70 para 75 anos. Vê um movimento nas ruas e redes sociais por seu impeachment. Vê o povo insatisfeito e temeroso com a volta da inflação e do desemprego.
Pois eu acho que Dilma está certa ao se recolher. Comer menos, falar menos, evitar gafes, entender o que se passa, recosturar suas alianças, esperar passar a borrasca e não fazer besteira. Pode até divulgar fotos suas comprando doce de leite num supermercado no Uruguai, para parecer uma avó e dona de casa comum. Mas terá de trabalhar mais e direito nos 46 meses que lhe restam. Não basta se repaginar, ondular o cabelo e refazer os terninhos. Terá de se reinventar. Mudar a postura. E assumir responsabilidade real com a vida de 200 milhões de brasileiros e suas famílias.
Dilma errou demais da conta. Mas a hora é de um pacto para evitar o pior panorama: uma recessão sem luz no fim do túnel. Não importa mais quem votou em Dilma ou contra ela. Importa o voto em nosso país, importa evitar uma crise institucional e econômica sem volta. Vale acompanhar o ensaio de uma aproximação entre setores do PT e do PSDB, unidos por dois interesses: tornar o PMDB um pouco mais humilde e salvar o Brasil. Há interlocutores no PSDB que Dilma já disse admirar e respeitar. Um deles é o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Mas, por enquanto, é melhor ficar de boca fechada.
Ruth de Aquino
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