segunda-feira, 26 de novembro de 2018

Conto do vigário

Nas eleições deste ano, o Senado Federal teve a maior renovação desde o fim da ditadura militar. Em 2018, coube a cada Estado eleger dois senadores. Eram, assim, 54 cadeiras em disputa. Desse total, os eleitores elegeram 46 novos nomes. A taxa de renovação foi de 85%, numa indiscutível demonstração de que o eleitor quer uma nova política. Mais do que cansado, pode-se dizer que o cidadão está enojado das práticas políticas que se tornaram habituais no País. Contrariando boa parte das projeções, que previam um pequeno nível de renovação dos membros do Congresso, o eleitor foi às urnas no dia 7 de outubro mostrar que deseja algo diferente, muito diferente, do que vem prevalecendo nos últimos anos em Brasília.

Conseguiu-se a almejada renovação da Câmara e, principalmente, do Senado. Mas o que ouve é que o nome que desponta para presidir o Senado no ano que vem é do alagoano Renan Calheiros, cabal personificação da velha política.

É assustador que, com tantos novos senadores, não se tenha conseguido pensar em nenhum outro nome para a presidência do Senado. Os hábitos e práticas políticas de Renan são conhecidos. Por exemplo, apesar de pertencer ao MDB, partido do presidente Michel Temer, Renan Calheiros fez insistente oposição à reforma da Previdência, com discursos demagógicos e populistas.

Em vez de apoiar as reformas de que o País tanto precisa, o senador alagoano preferiu aliar-se ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva em negociações que selam o atraso de Alagoas. O Estado natal de Renan Calheiros teve o pior Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) nas edições de 2000, 2010 e 2014. Em vídeo publicado em junho nas redes sociais, Renan declarou apoio à então pré-candidatura do presidiário petista. “Lula é candidato a voltar à Presidência da República, tem direito de fazer campanha porque não cometeu crime algum e foi condenado sem provas”, disse o senador, que tenta assumir pela quarta vez a presidência do Senado. Ele já presidiu a Casa de 2005 até 2007, de 2013 a 2015 e de 2015 a 2017. Em 2007, renunciou ao cargo após escândalo de corrupção.

Seus malabarismos político-partidários vêm de longa data. Se nos últimos anos tem sido um aliado habitual do sr. Lula da Silva, Renan Calheiros já esteve no lado oposto. Em 1989, filiado ao Partido da Reconstrução Nacional (PRN), foi um dos principais assessores do então candidato à presidência da República Fernando Collor de Mello. Meses depois, Renan, líder do governo no Congresso, foi quem defendeu o pacote de medidas econômicas de Collor, que incluía o famoso confisco da poupança.

Mas Renan Calheiros não é conhecido apenas pelos cargos que ocupou ao longo de quatro décadas de vida política. Fez-se notório por seu contumaz envolvimento com fatos definidos no Código Penal. Renan Calheiros responde a mais de uma dezena de processos e inquéritos criminais. Diversas vezes seu nome foi citado em escândalos de corrupção relacionados à Operação Lava Jato. Num dos casos, a Procuradoria-Geral da República (PGR) apresentou ao Supremo Tribunal Federal denúncia contra Renan Calheiros, entre outros políticos, por corrupção e lavagem de dinheiro envolvendo a Transpetro, subsidiária da Petrobrás. Noutro caso, ele é investigado por um suposto esquema de desvio de recursos do Postalis, fundo de pensão dos Correios.

Submete o eleitor a um conto do vigário a ampla campanha habilmente desenvolvida por Renan Calheiros para ocupar a presidência do Senado no próximo biênio. As eleições mostraram que a população deseja que o País ande para a frente e renove suas práticas políticas. Renan, de volta à presidência do Senado, representaria um total retrocesso e uma evidente quebra de expectativa. Seria como se o que ocorre no Congresso não tivesse nenhuma relação com a vontade da população. É uma lástima que Alagoas tenha sido capaz de eleger mais uma vez o senador Renan Calheiros, mas isso de forma alguma é pretexto para ampliar o problema, alçando-o à presidência da Casa. A tolerância do brasileiro tem limites.

sábado, 24 de novembro de 2018

Guru dos quadrados

Sou irresistível. Eles leem as coisas que eu escrevo e levam a sério
Olavo de Carvalho, guru dos Bolsonaro

Bolsonaro: pressões e apelo à unidade

O mais interessante das alternâncias de poder é ver o sujeito que dizia ser tudo muito simples ter, agora, que se moer no áspero da realidade. Fazer oposição é fácil. O difícil é o governo e seu duro ofício: administrar pressões e arbitrar interesses, sob a desconfiança de todos. Reunir, durante a campanha, vasta gama de apoios composta de grupos heterogêneos e contraditórios em torno de ideias amplas, principistas, abstratas e morais é a parte mais tranquila do processo. O governo, porém, requer escolhas e definições que alegrarão a poucos e, inevitavelmente, desagradarão muitos. Escolher é sempre “escolher contra”. Faz parte.

Passada a adrenalina da batalha eleitoral e a alegria da vitória, ficam as pressões; setores e colaboradores que esperam ser recompensados pelo apoio circunstancial ou decidido, de coração ou de oportunismo, de todo tipo. E todos, é claro, julgam-se capazes de ocupar os cargos e papéis mais elevados na administração; deter o poder. E, admitido que no primeiro escalão não haverá espaço para todos, iniciam-se coalizões internas, começa o jogo de desqualificação de antigos aliados. Não tem jeito, a disputa é inerente ao momento.

E é bom se conformar porque assim será por quase todo o governo, até que nova rinha eleitoral recomece o jogo e reaglutine em torno da manutenção do poder central os interesses que se dispersaram, sem rompimentos definitivos.


Também é certo é que sempre haverá defecções, cacos e restos de relacionamento espalhados pelo caminho sem conseguir se conjugar com os outros interesses do poder. Há intolerância também internamente e as ambições se tornam inconciliáveis. Foi assim com o PMDB de Tancredo, que deu em Sarney sob a tutela de Ulysses, despertando o quercismo, desaguando, enfim, no que viria a ser o PSDB da primeira fase.

Foi assim com o “collorato” que derreteu tão logo a popularidade se esvaiu, abandonando Fernando Collor, deixando-o só, como implorou que não o fizessem. Foi assim com os tucanos, de esquerda e socialdemocratas, unidos à oligarquia do PFL; bloco que se fragmentou primeiro nas escaramuças sempre presentes entre supostos desenvolvimentistas e denominados monetaristas, depois, na disputa entre Roseana Sarney e José Serra, na sucessão de Fernando Henrique Cardoso.

Não foi diferente com o PT de empolgação socialista e natureza pragmática, que logo de saída gerou rachas que resultaram no PSOL. Depois, na disputa surda entre Dirceu e Palocci, e mais tarde na emergência da confusão dilmista, que foi a assunção do PT de verdade o qual se urdiu e lascou-se por si próprio.

De modo que, antes de afundarem por efeito da oposição, os grandes blocos de poder naufragam na trama interna, pelas disputas de grupos, pelo cansaço e pela carnificina comum que se dá na sucessão do líder. É questão de tempo. Pode durar 20 anos, dois mandatos, apenas um, alguns meses… É nesse momento que se testa a resiliência do líder.

Pois o líder não é o mais preparado tecnicamente, nem o mais respeitado na relação entre os poderes ou o mais esperto para escapar às armadilhas dos inimigos. O líder é aquele que, antes de tudo, vocaliza o geral do grupo e o aglutina em torno de si.

Já se percebe esse processo nesses primeiros movimentos da formação do governo Bolsonaro, sem que se saiba, ainda, se o ex-capitão tem habilidades para reunir os seus em torno de si.

O bastidor de qualquer transição é feito desse material e isto é inerente aos jogos de poder desse momento. Nada tem a ver com honestidade e boas intenções; é da natureza humana. Tolice supor que com Jair Bolsonaro pudesse ser diferente. O tiroteio amigo despertado com a definição do nome de Joaquim Levy, acolhido com enorme má vontade, ou no balão de ensaio que fritou Mozart Neves para o ministério da Educação, que foi sem nunca ter sido, são casos típicos, sujeitos a tornarem-se apenas mais dois casos que ilustram justamente a dificuldade do poder.

***

O bolsonarismo se supõe capaz de governar acima do fisiologismo e a despeito dos partidos. Indica que pode fazê-lo por meio de bancadas temáticas, que perpassam quase todas as legendas e que se autonomizam das direções partidárias. Pode ser, mas esta é uma tese que ainda deverá ser provada. Parece pouco provável, no entanto.

Porque as tais bancadas “da bala”, “do boi”, “da bola” e “da bíblia” operam por pactos mínimos, se coesionam em torno de interesses básicos e são divergentes em muitos aspectos, mesmo dentro de seus temas originais. Logo, não foram um todo monolítico, sendo eivadas de conflitos e pressões internas.

Ora, é fácil compreender: nem todo evangélico opera no mesmo software que Magno Malta, por exemplo. Nem todo deputado-delegado professa a liberação das armas, nem todo ruralista é latifundiário; nem todo latifundiário é improdutivo. Há nuances internas e nuances ainda maiores entre um grupo e os outros. A agenda da sociedade rural não é igual ao pessoal da bola; e estes não se aproximam necessariamente dos “da bíblia”, que se distinguem em muitos aspectos da moçada “da bala”.

Não será, portanto, em torno de princípios gerais que se operará a unidade política, pois são muitos, diversificados e pouco convergentes, quando não contraditórios. Sabe também Jair Bolsonaro que a ele não estarão tão livres e facilitadas as portas do fisiologismo, pois foi ele mesmo quem tratou de colocar uma trava entre elas. E morderá a língua e perderá apoio e respeito se agora recorrer àquilo que amaldiçoou com tanta ênfase.

Não foi por outro motivo que na última quarta-feira, reunido com parlamentares eleitos pelo seu PSL, Bolsonaro declarou a seus parceiros: “O parlamento é muito importante, precisamos do parlamento e precisamos, acima de tudo, dar o exemplo. […] Estamos no mesmo barco. Se eu afundar, não é vocês não, é o Brasil todo que vai afundar junto. E não teremos retorno”.

Premido por pressões dentro de casa, o presidente eleito parece ter percebido que sua alternativa de início é busca um clima de emergência e risco, onde o “pior” seja entendido como o pior para todos. É o apelo de um homem que pede compreensão, entendimento e moderação — sem ser ele exatamente moderado. É a tentativa de fazer-se o líder que coesiona seu grupo em torno de si. Resta ver se isto bastará.
Carlos Melo

'Os privilegiados são analisados por pessoas; as massas, por máquinas'

Cathy O’Neil (Cambridge, 1972), doutora em matemática pela Universidade Harvard, trocou o mundo acadêmico pela análise de risco de investimento dos bancos. Achava que esses recursos eram neutros do ponto de vista ético, mas sua ideia não tardou a desmoronar. Percebeu como a matemática poderia ser “destrutiva” e empreendeu uma mudança radical: somou-se ao grupo de finanças alternativas do movimento Occupy Wall Street, que nasceu em 2011 em Nova York para protestar contra os abusos do poder financeiro, e começou sua luta para conscientizar sobre como o big data “aumenta” a desigualdade e "ameaça" a democracia.

Os conteúdos são ordenados em função de quem fala mais no Twitter ou no Facebook. Isso não é matemática, são discriminações feitas por humanos. A pessoa que desenvolve o algoritmo define o que é o sucesso

A autora do livro Weapons of Math Destruction (“armas de destruição matemática”, um trocadilho com a expressão “armas de destruição em massa”, inédito no Brasil), que também assessora start-ups, defende que os algoritmos geram injustiças porque se baseiam em modelos matemáticos concebidos para reproduzir preconceitos, equívocos e vieses humanos. "A crise financeira deixou claro que a matemática não está apenas envolvida em muitos dos problemas do mundo, como também os agravam", considera.

O’Neil, que participou há algumas semanas de um fórum sobre o impacto dos algoritmos nas democracias, organizado pelo Aspen Institute da Espanha e pela Fundação Teléfonica, respondeu às perguntas do EL PAÍS.
Você afirma em seu livro que a matemática é mais importante do que nunca nos assuntos humanos.

Resposta. Não acho que seja a matemática, e sim os algoritmos. Essa é parte do problema; estamos transferindo nossa confiança da matemática para certos modelos que não entendemos como funcionam. Por trás deles há sempre uma opinião, alguém que decide o que é importante. Se olharmos as redes sociais, há vieses. Por exemplo, os conteúdos são ordenados em função de quem fala mais no Twitter ou no Facebook. Isso não é matemática, são discriminações feitas por humanos. A pessoa que desenvolve o algoritmo define o que é o sucesso.

Por trás dos algoritmos há matemáticos. Eles têm consciência do sistema de vieses que estão criando?

Não são necessariamente matemáticos, e sim especialistas capazes de lidar com fórmulas lógicas e com conhecimentos de programação, estatística e matemática. Sabem traduzir a forma de pensar dos humanos para os sistemas de processamento de dados. Muitos deles ganham muito dinheiro com isso e, embora do ponto de vista técnico sejam capazes de detectar essas falhas, preferem não pensar nisso. Em empresas como o Google, há quem se dê conta, mas, se manifestarem seu compromisso com a justiça, os advogados da companhia lhes farão se lembrar do compromisso com os acionistas. É preciso maximizar os lucros. Não há incentivos suficientes para transformar o sistema, para torná-lo mais justo. O objetivo ético não costuma ir acompanhado de dinheiro.

Você denuncia que os algoritmos não são transparentes, que não prestam contas do seu funcionamento. Acha que os Governos deveriam regulamentá-los?

São opacos inclusive para os que os desenvolvem, que, muitas vezes, não são suficientemente pagos para entender como funcionam. Tampouco comprovam se cumprem as leis. Os Governos devem legislar e definir, por exemplo, o que torna um algoritmo racista ou sexista.

Em seu livro, você menciona o caso de uma professora norte-americana que foi demitida por decisão de um algoritmo. Acha possível medir a qualidade humana com um sistema informático?

O distrito escolar de Washington começou a usar o sistema de pontuação Mathematica para identificar os professores menos produtivos. Foram demitidos 205 docentes depois que esse modelo os considerou maus professores. Atualmente não temos como saber apenas com dados se um trabalhador é eficiente. O dilema se você é ou não um bom professor não pode ser resolvido com tecnologia, é um problema humano. Muitos desses professores não puderam reclamar, porque o secretismo sobre como o algoritmo funciona lhes priva desse direito. Ao esconder os detalhes do funcionamento, fica mais difícil questionar a pontuação ou protestar.

Qual é a chave para poder fazer isso no futuro?

É um experimento complicado. Primeiro é preciso haver um consenso na comunidade educacional sobre quais elementos definem um bom professor. Se a intenção é avaliar se ele gera suficiente curiosidade nos alunos para que aprendam, qual é a melhor fórmula para medir isso? Se entrarmos numa classe e observarmos, poderemos determinar se o docente está incluindo todos os alunos na conversa, ou se consegue que trabalhem em grupo e cheguem a conclusões, ou se só falam entre si em aula. Seria muito difícil programar um computador para isso. Os especialistas em dados têm a arrogância de acreditar que podem resolver essas questões. Ignoram que primeiro é preciso um consenso no campo educacional. Um algoritmo estúpido não vai resolver uma questão sobre a qual ninguém está de acordo.

sexta-feira, 23 de novembro de 2018

Pensamento do Dia

Angel Boligan

Evangélicos derrotam Bolsonaro

A bancada dos deputados evangélicos da Câmara celebrou, ontem, sua primeira vitória sobre o presidente eleito Jair Bolsonaro. Ele havia convidado Mozart Neves Ramos, diretor do Instituto Ayrton Senna, para ser o próximo ministro da Educação.

Como Mozart, aos olhos dos evangélicos, é um educador liberal a ponto de ser elogiado pela esquerda, o nome dele foi vetado. O que fez Bolsonaro? Trocou Mozart pelo colombiano Ricardo Vélez Rodríguez, professor emérito da Escola de Comando e estado Maior do Exército.


Fogos de artifício espocaram no Rio onde mora o pastor Silas Malafaia, que se revoltara com a escolha de Mozart. E em Richmond, no estado norte-americano de Virgínia, onde mora o ensaísta de direita Olavo de Carvalho, padrinho da indicação de Vélez Rodríguez.

O ensaísta e o futuro ministro têm pelo menos duas coisas em comum. Primeira: Olavo foi comunista por dois anos no final dos anos 60 do século passado, e Vélez Rodríguez de esquerda no seu país. Segunda: os dois migraram para a direita tão logo se viram em apuros.

Para quem se apresentou durante a campanha como não político apesar de ser deputado há 30 anos, disposto, uma vez eleito, a enfrentar as pressões dos seus pares por cargos aqui e acolá, Bolsonaro demonstrou que não será bem assim.

Prometeu fazer um governo “sem concessões a ideologias” para se contrapor a quase 14 anos de governos do PT marcadamente ideológicos. Era conversa para enganar eleitores, e deve ter enganado muitos deles, talvez o suficiente para vencer.

Inexiste governo ideológico porque é impossível encarar as questões sem partir de um ponto de vista. A visão do PT sempre foi de esquerda. A de Bolsonaro, de extrema direita com um viés militarista. Nada a ver apenas com o conservadorismo que é outra coisa.

A democracia restaurada por aqui desde 1985 passará por seu mais estressante teste a partir de janeiro de 2019. Deus é Pai!

Velhinho privilegiado

Há 7.072 detentos idosos em todo o país, segundo dados do CNJ de agosto deste ano. Desses 1.492 estão com 71 anos ou mais

Jair, o que a gente vai dizer?

O grande espetáculo geopolítico do século ganhou mais ritmo. O Departamento de Comércio do governo americano acaba de divulgar uma lista de novas tecnologias que terão exportação restringida. Elas incluem inteligência artificial, computação quântica e robotics. A lista de restrições às exportações dessas tecnologias é claramente desenhada para preservar o avanço americano em relação à China.

A divulgação da lista ocorreu poucas horas depois de um áspero duelo de discursos no encontro da cúpula econômica dos países da Ásia e do Pacífico entre o presidente da China (ao qual a imprensa internacional já se refere como imperador) e o vice-presidente americano Mike Pence (Trump esnobou o encontro). A guerra de palavras entre Beijing e Washington tornou mais difícil acreditar numa solução breve para a declarada guerra comercial entre os dois gigantes da economia mundial.


Mais ainda: na guerra de discursos, China e Estados Unidos descreveram-se mutuamente como potências coloniais na Ásia. Pence pediu aos países da região (e outros fora dela) que não aceitem “dívida externa” (uma referência à grande iniciativa estratégica chinesa de projetos de infraestrutura em vários países) que possa “comprometer sua soberania”. E Xi Jinping acusou os EUA (embora não tivesse mencionado o nome) de solapar o sistema de regras internacionais “por motivos egoísticos”.

Se alguém ainda tinha alguma dúvida, a ascensão da China resulta num confronto geopolítico de proporções inéditas, e tanto o desafiante (a China) como o desafiado (os Estados Unidos) comportam-se totalmente de acordo ao que previam algumas teorias sobre Relações Internacionais: a superpotência americana não pode tolerar o surgimento de uma outra superpotência capaz de dominar sozinha uma parte do mundo. E, inicialmente, dedica-se a uma clássica política de “containment” (comparável à da Guerra Fria com a União Soviética). A China já denuncia esse tipo de “cerco”.

As mesmas teorias supõem que inicialmente a China crescerá de forma harmônica e pacífica, até sentir que sua própria segurança (e crescimento) estão em risco – o ponto já parece ultrapassado. É esse tipo de tensão geopolítica que tem trazido medo nos últimos meses aos mercados internacionais – mais até do que as disputas comerciais travadas em termos de “guerras”. Aqui entra o papel de indivíduos. Xi Jinping, o novo imperador chinês, não deixa de maneira alguma a impressão de ser um dirigente propenso a ceder a pressões externas. Ao contrário: ele parece convencido de que o único objetivo dos Estados Unidos é o de conter a China.

Xi vai se encontrar dentro de alguns dias na cúpula do G20 com Donald Trump, o homem que acredita que conflitos geopolíticos dessa magnitude colossal se resolvem com “amigos” conversando ao redor de um campo de golfe (como ele fez com Xi Jinping na Florida). De fato, a cúpula chinesa aparentemente diferencia entre as instâncias tradicionais de formulação de condutas externas americanas (departamentos de Defesa e Estado), que se engajaram no “containment” como estratégia frente à China, e a figura de Trump.

O problema, porém, ficou claro para as outras potências que lidaram com chineses e americanos nos últimos tempos. Cada vez mais Washington e Beijing pedem aos líderes de outros países que assumam um lado nessa disputa monumental. Mesmo com tantos oceanos nos separando dos EUA e da China, não vamos escapar de ouvir a mesma pergunta: qual o lado?

E aí, Jair, o que a gente vai responder?

Filhos da época

Somos filhos da época
e a época é política.

Todas as tuas, nossas, vossas coisas
diurnas e noturnas,
são coisas políticas.



Querendo ou não querendo,
teus genes têm um passado político,
tua pele, um matiz político,
teus olhos, um aspecto político.

O que você diz tem ressonância,
o que silencia tem um eco
de um jeito ou de outro político.

Até caminhando e cantando a canção
você dá passos políticos
sobre um solo político.

Versos apolíticos também são políticos,
e no alto a lua ilumina
com um brilho já pouco lunar.
Ser ou não ser, eis a questão.
Qual questão, me dirão.
Uma questão política.

Não precisa nem mesmo ser gente
para ter significado político.
Basta ser petróleo bruto,
ração concentrada ou matéria reciclável.
Ou mesa de conferência cuja forma
se discuta por meses a fio:
deve-se arbitrar sobre a vida e a morte
numa mesa redonda ou quadrada.

Enquanto isso matavam-se os homens,
morriam os animais,
ardiam as casas,
ficavam ermos os campos,
como em épocas passadas
e menos políticas.

Wislawa Szymborska, "Poemas"

Quem julga quem?

Teoricamente, quem julga os juízes é o Conselho Nacional de Justiça, mas, na prática, é a única categoria profissional que, em caso de crime provado, venda de sentenças, propinas, tem como punição máxima a aposentadoria com salário integral. É um prêmio, não um castigo. E um dos mais vergonhosos símbolos de injustiça do Judiciário.


É difícil acreditar que cidadãos de bem, que estudam muito e trabalham demais, que têm como escolha e missão aplicar a justiça para todos, não tenham tentado mudar essa regra que prova que o crime compensa no Brasil, para alguns. Em contraponto ao aumento salarial do Judiciário, o CNJ deveria abolir esse prêmio por mau comportamento que depõe contra a corporação.

Não se imagina que um juiz como o futuro ministro da Justiça, Sergio Moro, concorde com a manutenção desses privilégios vergonhosos sustentados com dinheiro público. Claro que não é só isso, nem são só os juízes.

São vantagens e privilégios que vão se acumulando com a ajuda de parlamentares que transformam em lei os desejos das categorias mais poderosas, entre elas a que talvez os julgará um dia.

Como entender bonificações por triênios, quinquênios, licença-prêmio para funcionários?

Então a pessoa é premiada por se manter no emprego (vitalício) durante três ou cinco ou dez anos? Não é obrigação?

Por que juízes têm dois meses de férias por ano? Sua atividade profissional seria mais cansativa e desgastante do que a de médicos, dentistas ou motoristas de caminhão? Será que trabalham mais e em piores condições do que outras carreiras públicas? Policiais, bombeiros, professores...

Não me julguem mal, juízes amigos, com todo o respeito, estamos falando de justiça e exemplo. Os magistrados, por sua autoridade moral, devem ser os primeiros a praticar a justiça, dando o exemplo. Não basta ser justo, é preciso parecer justo. Certamente, há muitos juízes contrários a essas injustiças — e também muito medo da pressão corporativista e do poder do sindicato da toga. É difícil julgar a si mesmo.

Paisagem brasileira

Lençois (BA)

O que Bolsonaro dirá aos pobres?

Ainda há criação de empregos com carteira assinada, neste ano. Mas está devagar e, de novo, quase parando, como deu para notar pelos dados divulgados pelo Ministério do Trabalho.

O número de empregos formais cresce a 1,2% ao ano, praticamente nada, ritmo um tico menor que o de setembro.

O número de empregos formais na indústria parou de crescer. Voltou ao patamar de outubro de 2017. Ao menos a situação parou de piorar na construção civil. Há avanço melhorzinho no setor de serviços. Mas o quadro geral é de estagnação.


A taxa de desemprego geral, medida pelo IBGE, deve chegar a uns 12,2% em 2018, progresso ínfimo em relação aos 12,7% da média do ano passado. Pelas previsões, deve ficar perto de 11,7% em 2019, melhoria outra vez pequena, embora mais gente deva estar empregada.

Mesmo que o ritmo de crescimento da economia aumente, como se prevê para 2019, os danos socioeconômicos ainda serão extensos e há pouco o que fazer.

Obviamente, um crescimento de pelo menos 2,5% no ano que vem, que é o chute informado dos economistas, seria um alívio em relação ao 1,4% deste 2018. Mas alívio para quem?

O que Jair Bolsonaro dirá ao eleitorado? Pode, claro, dizer sem mentir que o estrago é grande e o remédio é difícil. Como vai dizê-lo, e o que as pessoas vão ouvir, é outra conversa.

Em tese, o governo vai começar o ano propondo uma reforma da Previdência, até aqui majoritariamente rejeitada pela população, e um plano de aumento mínimo do salário mínimo, se é que vai haver reajuste além da inflação (isto é, zero de aumento real). Sem medidas dessa espécie, dificilmente haverá crescimento maior da economia em 2019, se é que não sobreviria nova deterioração.

Ou seja, só é bom se for ruim, por assim dizer.

Uma recuperação mais rápida da construção civil tende a minorar o desemprego entre os mais pobres. Com reformas em andamento, é possível que as taxas de juros de prazo mais longo até baixem e a confiança econômica cresça, o que pode animar vendas e construção de imóveis residenciais.

Quanto à infraestrutura, tão cedo a coisa não andará mais rápido, pois o governo não tem dinheiro e terá de se organizar para tocar a construção pesada, o que leva tempo. De resto, falta muito para que as concessões à iniciativa privada resultem em abertura de canteiros de obras.

O crescimento regional será desigual, um tanto menor na região Nordeste, onde a vida é mais dura, estimam economistas do Bradesco, em relatório publicado nesta quarta-feira (21). Muitos pobres, de resto, estão cronicamente desempregados ou precarizados.

No que diz respeito a programas sociais ou serviços públicos, um grande feito será evitar que mais governos estaduais entrem em colapso.

O governo federal pode compartilhar algum dinheiro que receberá em 2019 com leilões de petróleo, como já indicou que vai fazer, mas os estados voltarão à breca logo em 2020 se não fizerem ajustes duros, na Previdência e no funcionalismo.

Ou seja, as providências mais sensatas ainda serão impopulares. Dificilmente o povo vai notar que se evitou degradação adicional dos serviços públicos.

Bolsonaro não tem até agora um discurso para os mais pobres, no que diz respeito a problemas socioeconômicos. Não terá recursos para nada em 2019. As melhorias possíveis dependem, pois, de reformas, de habilidade política.

Quanto mais energia gastar em planos econômicos muito ambiciosos ou mirabolâncias de outra espécie, mais implausível será seu sucesso.

Progredimos!?

Fizemos progressos desde a Idade Média. Pelo menos já não se esquarteja em público
George R. R. Martin

Um professor de História

O professor de História, no seu primeiro dia de aula, entra e os alunos nem percebem, conversando, falando ou jogando no celular. Ele escreve na velha lousa um imenso H, e depois vai desenhando cabeças com bigodes e barbas, enxada, foice. A turma foi prestando atenção, trocando risinhos, e agora espera curiosa. Finalmente ele fala:

– Não vamos estudar aquela História com H, só com heróis e grandes eventos! Vamos estudar a partir da nossa história, da onde e como viemos. Por exemplo, como é seu sobrenome?

– Oliveira.

– Pois é, muitos Oliveiras têm esse nome porque eram imigrantes europeus, fugidos de perseguições religiosas, então adotavam nomes de árvores ou plantas, Oliveira, Pereira, Trigueiro e tantos outros. E o seu sobrenome?

_ Santos.

– Foi o nome adotado por muitos ex-escravos ou filhos mestiços de fazendeiros com escravas. Você é, como diz o IBGE, pardo, o que não é vergonha nem demérito algum, ao contrário, a maioria do povo brasileiro é pardo. E o seu sobrenome?

– Vicentini.

– Origem italiana. Os italianos, como os espanhóis, alemães, japoneses, vieram para cá para bater enxada, trabalhar nos cafezais quando os escravos foram libertados.

O engraçadinho da turma levanta o braço:

– Meu sobrenome é Silva, professor. Tem mais Silva na lista telefônica que formiga em formigueiro. Daonde eu vim?

– Da selva. Silva é selva, em latim. Foi o nome dado pelos romanos antigos aos que vinham das florestas para morar na cidade, eram os “da selva”. Se a gente pensar que a maioria das pessoas morava no campo há meio século, e depois se mudou em massa para as cidades, a origem do nome até se justifica.

A turma espera em silêncio: aonde ele quer chegar?

– Proponho o seguinte. Vocês conversem com seus pais, avós, tios, para saber dos antepassados. Daonde vieram, por que, trabalharam e viveram onde e como. Cada um contará então a história de sua família, e daí vamos situar essa história familiar na história social. Vamos falar da cafeicultura, por exemplo, depois que alguém falar que seu avô trabalhou com café.

Uma mocinha levanta a mão:

– Não só meu avô, professor, minha avó conta que também trabalhava. Levantava às cinco, fazia café, dava de mamar ao nenê, porque ela diz que sempre tinha um nenê no ombro, outro na barriga e uma criança na barra da saia. Depois de fazer o café e tratar das galinhas, recolher os ovos, tirar leite das vacas e cuidar da horta, ela ia levar marmita pro meu avô e os filhos maiores no cafezal, e ficava lá também batendo enxada até o meio da tarde, quando voltava pra preparar e janta e...

– Bem, só com isso que você contou podemos estudar a cafeicultura e o feminismo, comparando as famílias daquele tempo e de hoje, tantas mudanças. Cada um de vocês, com sua história, vai acender o fogo do conhecimento em cada aula. Eu só vou botar lenha, dar as informações, vocês vão dar vida à História, que aí, sim, vai merecer H maiúsculo! Combinado?

Os alunos aplaudem, entusiasmados, comentam: nossa, massa, uau, professor maneiro!... Saem, e depois ele, saindo, dá com o diretor nervoso:

– Eu ouvi sua aula, professor, aqui ao lado da porta, como faço com todo novato! O senhor tire essas ideias da cabeça, viu? Vai ensinar conforme o programa, começando pelo descobrimento, as três caravelas, a calmaria etc. Entendido? Ora, onde já se viu, História viva... Só por cima do meu cadáver!

O professor novato vai pelo corredor, sentindo-se morrer por dentro. Na sala dos professores, nas paredes estão Tiradentes e o crucifixo de Jesus, dois mártires. Ele chora, perguntam por que, apenas consegue dizer “não é nada, é uma longa História”.
Domingos Pellegrini

Faltou a Bolsonaro o Posto Ipiranga da Educação

Bolsonaro cogitou a sério nomear um craque: o educador Mozart Ramos. Vetado pela bancada da Bíblia, Mozart foi trocado pelo colombiano Ricardo Vélez Rodríguez, indicado pelo polemista Olavo de Carvalho.

Guru ideológico da família Bolsonaro, Olavo de Carvalho já havia apadrinhado o chanceler Ernesto Araújo. Está prestes a empatar com o DEM em número de ministros. Eis o placar: Olavo 2 X 3 DEM.

Nada é mais desesperador no Brasil do que a unanimidade educacional. Entre os políticos, não há quem discorde: reverter a deterioração do ensino público é uma prioridade máxima. A despeito disso, a educação nunca dá o prometido salto.

Bolsonaro ajuda a entender o motivo. Enquanto o presidente eleito transitava na área educacional entre o acerto e o desastre, Paulo Guedes, o czar econômico do capitão, concluía a composição de sua equipe livre de pressões.

Se um deputado evangélico se dirigisse ao Posto Ipiranga para vetar um dos técnicos selecionados para o BC, BB, BNDES e Caixa seria tratado a pontapés. Se Olavo de Carvalho ligasse para apadrinhar fulano ou beltrano seria ignorado.

As estatísticas sobre analfabetismo funcional revelam que as escolas brasileiras ainda não conseguem ensinar adequadamente o A-E-I-O-U. Mas a prioridade do novo ministro é implantar uma escola sem partido e livre da educação de gênero.

Evangélicos e aliados já estão providenciando uma lei no Congresso. Proselitismo político em sala de aula terminará na cadeia. Resta explicar como se dará a fiscalização do trabalho dos 2,4 milhões de professores que atuam nas mais de 200 mil escolas de ensino fundamental e médio.

Na reta final da composição da nova Esplanada dos Ministérios, faltou a Bolsonaro discernimento e coragem para providenciar um Posto Ipiranga para a área da educação.

Em vez de tirar um partido para colocar outro, talvez fosse mais produtivo providenciar escolas nas quais os adolescentes não tivessem que aprender coisas inúteis de pessoas que não entendem do que falam, para receber ao final um certificado de que sabem o que ignoram, estando perfeitamente aptos a engrossar as estatísticas do subemprego.

quinta-feira, 22 de novembro de 2018

Gente fora do mapa


Os pecados da esquerda

"Até os 30 anos de idade, você quer ser socialista, depois muda para capitalista." Nunca me esqueci dessa frase dita por um empresário brasileiro que entrevistei muito tempo atrás. Devagarzinho, ela foi conquistando o meu subconsciente, e agora, chegou a hora de assumir que meus sonhos socialistas se dissolveram.

Não é porque me sinto mais atraída pelo populismo de direita. Nem por um capitalismo selvagem. É porque a esquerda entregou muitas bandeiras politicas para a direita. De repente, um Donald Trump da vida levanta a bandeira contra o livre comércio e a globalização. E uma ditadura como a China quer promover o multilateralismo e abrir os mercados.

A vitória de Trump nas eleições dos Estados Unidos, dois anos atrás, mostra que o sonho de um mundo melhor e mais justo ainda vive. Mas ele foi capturado pela direita. Para mim, o pior não foi o triunfo do Trump. Foi a derrota do Partido Democrata.


Foi uma derrota desnecessária, causada pelos próprios democratas. Pois Trump saiu ganhando com a longa disputa política entre os candidatos Hillary Clinton e Bernie Sanders, o qual saiu derrotado das primárias do Partido Democrata. O debate programático sobre a direção do partido durante a campanha – mais para o centro ou mais para esquerda – foi um dos motivos que fizeram os democratas perderem as eleições.

A vitória de Trump foi a segunda grande derrota do centro político e da esquerda em pouco tempo. O primeiro ponto de viragem foi o referendo sobre o Brexit, em 23 de junho de 2016. A dramaturgia parece seguir sempre o mesmo esquema: brigas internas e subestimação do adversário político resultando em fracasso nas urnas.

É difícil e doloroso assistir a esse espetáculo. Especialmente olhando para Jeremy Corbyn, líder do Partido Trabalhista britânico. Ele não desmentiu as mentiras espalhadas pelos chamados "Brexiteers". Eles alegaram que o Serviço Nacional de Saúde (NHS) do Reino Unido melhoraria com a saída do país da União Europeia (UE). Que a imigração estava fora de controle. E que era mais vantajoso negociar acordos de livre comércio do que permanecer no mercado comum da UE.

Para mim, um politico de esquerda que não alerta para a falta de milhares de médicos e enfermeiros no NHS que deve ser provocada pela saída da UE está entregando conquistas sociais básicas. Um líder da oposição que não desmente os cenários cor-de-rosa dos "Brexiteers" é corresponsável pelas graves consequências econômicas do Brexit que o Reino Unido já está começando a sentir.

No Brasil, como mostra a atual briga política sobre o programa Mais Médicos, o atendimento básico à população também virou uma questão ideológica. Mas a critica de "colaboração com a ditadura comunista cubana" é uma coisa, e a apresentação de soluções, outra.

Assim como na campanha para o Brexit, a direita usa os problemas do sistema de saúde para se promover politicamente no Brasil. E a esquerda? Ela apostou na "importação" de mão de obra e conseguiu resolver o problema gravíssimo da falta de médicos, mas o preço era a dependência de um governo estrangeiro.

Antes ter tido sucesso e agora se encontrar na defensiva – essa é a situação de muitos partidos de centro esquerda. O Partido Social-Democrata da Alemanha (SPD), que governa junto com a União Democrata Cristã (CDU), da chanceler federal Angela Merkel, também passa por isso.

Pois a ascensão política do partido de direita Alternativa para a Alemanha (AfD) mudou a agenda política. De repente, são os populistas que muitas vezes colocam o dedo na ferida, uma tarefa que até pouco tempo atrás era marca registrada da esquerda. Diagnósticos não faltam. O que faltam são soluções verdadeiras, que não aparecem apenas quando servem a algum interesse político.

Confesso que me cansei desse jogo. Não quero mais ler inúmeras notícias sobre as "decisões erradas" de Jair Bolsonaro, Trump ou dos premiês Theresa May, do Reino Unido, e Viktor Orbán, da Hungria. Quero ler também notícias sobre iniciativas da oposição para tentar criar alternativas aos rumos políticos atuais. Quero que a esquerda e o centro saiam da defensiva.

Os meus sonhos socialistas acabaram. Mas minha convicção política de que é preciso se unir contra populistas em vez de imitá-los ou tentar agradá-los se mantém.

Astrid Prange de Oliveira

Quando chumbo era jujuba

[A Hungria] é um país que sofreu muito com o comunismo no passado. É um povo que sabe o que é ditadura. O povo brasileiro não sabe o que é ditadura aqui ainda, o que é sofrer nas mãos dessas pessoas
Jair Bolsonaro sobre a Hungria do primeiro-ministro da Hungria, Viktor Orbán, líder de ultradireita

Passada anestesia do Mais Médicos, vem a dor

Alguém já disse, não me lembro quem, que se o Brasil fosse um deserto, já estaria importando areia. Mal comparando, é mais ou menos isso o que aconteceu no caso dos médicos. Sobram médicos no Brasil como sobra areia no Saara. Mas o país decidiu importar médicos estrangeiros em 2013, sob Dilma Rousseff. Tratou anestesia como solução. Passado o efeito do sedativo, vem a dor.


Nos próximos dias, o noticiário será inundado por dramas de pacientes que perderam seus médicos do dia para a noite. Doentes sem diagnóstico, diagnosticados sem tratamento, grávidas submetidas à interrupção abrupta do pré-natal, o diabo. Isso não é previsão. Já está acontecendo em vários municípios, que perderam seus médicos. Num estalar de dedos da ditadura de Cuba, os cubanos estão voltando para Havana.

O curto-circuito que a chegada de Jair Bolsonaro provocou no Mais Médicos revela que a ideologia é mesmo o caminho mais longo entre um projeto e sua realização. Ao receber um xeque-mate de Cuba, o Brasil faz por pressão o que deixou de fazer por opção. Sem planejamento, o Ministério da Saúde abriu 8.500 vagas para médicos brasileiros. O site de recrutamento entrou em pane no primeiro dia. Tudo é correria e improviso.

Estudo feito pela Faculdade de Medicina da USP revelou que há no Brasil 452 mil médicos. Seria mais do que suficiente. Mas 63% deles estão nas regiões Sudeste, Sul e Centro-Oeste. E 55%, encontram-se nas capitais. Num aperto, uma parte desse contingente pode até se deslocar para os fundões do Brasil, de onde estão saindo os cubanos. Mas o improviso não é o melhor estímulo para que eles fiquem lá.

Calma, que o Brasil é nosso

Comemorar a vitória do adversário não é usual na natureza humana. Vencedores festejam e derrotados tomam fel no velório. Mas aos Nostradamus de xepa de feira e Cassandras de ocasião convém receitar boas doses de Rivotril e baldes de suco de maracujá geladinho. Esta não terá sido a última eleição do século: o mais tardar daqui a dois anos serão disputados pleitos municipais, nos quais mais uma vez o humor popular será testado e nenhum eleitor será obrigado a contrariar seus interesses votando em quem não atender à vontade comum. Quem chora agora pode comemorar em outra ocasião, pois, todo mundo sabe, um dos maiores e mais ministrados tônicos da velha democracia é o rodízio do poder.

Convém, de início, reconhecer que poucas disputas mobilizaram o ímpeto bélico da cidadania brasileira como esta. Mas um curso bem frequentado de História do Brasil bastará para esclarecer que a polarização nunca foi algo tão inusitado assim. Em 1930, no meu Estado natal, a Paraíba, liberais queimaram negócios de perrepistas depois do assassinato do presidente do Estado, João Pessoa, em Recife. Suicida vocacional, Getúlio Vargas disparou contra o próprio coração, parte por não suportar o opróbrio do “mar de lama” de que era acusado pelos inimigos da UDN, parte por saber que o tiro de seu revólver levaria seus devotos à rua para evitar a subida ao poder dos desafetos. E assim foi: jornais da oposição foram empastelados e uma multidão seguiu o féretro pelas ruas da então capital federal do Catete ao aeroporto, onde o cadáver pranteado como nunca nenhum outro antes embarcou para a última morada, em São Borja. Entrou em meus compêndios escolares o tiroteio na Praça da Bandeira, em Campina Grande, em 1950, e nele se enfrentaram antigos correligionários, os amarelos de José Américo, fundador da UDN e candidato do PSD, contra os brancos do ainda udenista Argemiro de Figueiredo. Dois operários e um bancário morreram na refrega. Não foram os únicos imolados nas disputas políticas brasileiras. Baleado por João Dantas, João Pessoa, candidato a vice na chapa derrotada de Getúlio na eleição de 1930, inspirou hino, deu nome à capital de nosso Estado e a muitas ruas e avenidas de cidades brasileiras, depois que seu corpo inanimado ter animado a revolução dos tenentes, que virou a política de pernas para o ar.

Pode-se dizer – e quem o disser não mentirá – que a polarização se tornou mais aguda com o segundo turno, que privilegia o “ele não” desde sempre. E que se fez odienta com a campanha do “nós contra eles”, tática de Lula para reduzir o impacto do mensalão contra sua reeleição, repetida desde então na versão maniqueísta de romance de capa e espada.


O pleito do mês passado introduziu um elemento novo no panorama, antes controlado de cima da ponte que dá acesso ao castelo do poder: a interferência da cidadania, usando um instrumento da velha guarda, à qual a esquerda se associou gostosamente na rapina do erário com o baronato político, contra os manipuladores de sempre. Refiro-me à democracia dita direta. Ludibriada no desgoverno da chefe de Estado menos aquinhoada de inteligência desde Tomé de Souza, governador da Bahia, a classe média, após ter ocupado as ruas para reclamar da desídia do Estado, recorreu às mídias eletrônicas não convencionais para dar o drible da vaca nas organizações criminosas, ditas partidárias. Estas recorreram aos truques mais sórdidos para se manterem no topo. Primeiramente, patrocinaram candidatos exclusivos das legendas, financiamento público bilionário das campanhas pagas por propinas desmedidas, foro de prerrogativa de função e outros truques canalhas.

Depois, veio a guerra ideológica. Um best-seller do New York Times, Como as Democracias Morrem, de Steven Levitsky & Daniel Ziblatt, socorreu os ignorantes que denominaram a tomada de poder pelo cidadão de “neofascismo” e “protonazismo”. Com a desastrada adesão do fake Pink Floyd Roger Waters, mexendo Mussolini, Hitler, Trump, Putin e Bolsonaro no mesmo caldeirão. O povo nem ligou e demoliu a farsa, que fez daintelligentsia a versão acadêmica e artística da “jumentice”, e sapecou na farsa o peso de quase 58 milhões de votos para o capitão deputado.

Em plena ressaca do mau humor da derrota, a patota organizada da “resistência” contra o empurrão da velha política para fora do poder republicano por quatro anos inspirou-se nas pragas rogadas por Tirésias na Roma antiga. A executiva Mônica de Bolle clamou contra a indicação de Roberto Campos Neto para a presidência do Banco Central (BC) pela precariedade intelectual de seu currículo. Faltava-lhe, segundo ela, um doutorado, um mestrado que fosse. Como se Henrique Meirelles, presidente tucano do BC de Sir Luiz Inácio tivesse defendido teses nos anos em que foi corretor na Bolsa de Valores de São Paulo do Banco de Boston, no qual chegou sem diploma a ocupar a presidência internacional.

Os salões e corredores do Itamaraty fervilharam de fofocas contra o embaixador Ernesto Araújo por ele não ter ocupado uma embaixada do circuito Elizabeth Arden antes de chegar à chancelaria. O primeiro ministro das Relações Exteriores da República foi Quintino Bocaiúva, de profissão político. O atual, Aloysio Nunes Ferreira, praticou a diplomacia como segurança do chefe guerrilheiro Carlos Marighela, no exílio em Paris e na política profissional no Estado de São Paulo. Entre eles, ilustres chanceleres não cumpriram a última condição para o cargo: os ex-presidentes Campos Salles e Fernando Henrique Cardoso, verba gratia. Ou o melhor exemplo: Osvaldo Aranha, revolucionário de 1030, pau pra toda obra nos governos de Vargas e o maior ocupante do posto na História.

Quem não sabia fique sabendo e, para tanto, como no caso de Bolle, basta consultar o Google. Aranha foi o que nenhum outro brasileiro foi: secretário-geral das Nações Unidas, tendo presidido a sessão histórica em que as colônias de judeus no Oriente Médio se transformaram no Estado de Israel, cuja bandeira, aliás, o oficial presidente eleito reverencia, abrindo a exceção de único filonazista da História que é também filossionista, e não anti-semita, como os citados precedentes históricos de Alfred e Benito.

Do mau humor tornado mau agouro não escapa, é claro, Sergio Moro, que ultimamente tem substituído na condição, antes conferida a Chico Buarque, protomártir da esquerda Rouanet, de “unanimidade nacional”. Como é público e notório, o juiz federal, que teve o topete de condenar o çábio de Caetés à cela “de estado maior” na Superintendência da Polícia Federal em Curitiba, renunciou à carreira na magistratura para ocupar o Ministério da Justiça no futuro governo. Das sombras de seu merecidíssimo oblívio o emérito professor Tomas Turbando emergiu para exigir do colega a chamada “quarentena ética”. O rábula diplomado, que mereceu o epíteto que usou em piada de mau gosto, chama-se na vida civil José Eduardo Martins Cardozo e disparou direto das sombras o seguinte petardo, em entrevista à Folha: “É uma situação que exigia dele, no mínimo, uma quarentena ética. Não é ilegal, porque não existe uma situação legal, mas deveria ter uma quarentena ética. Alguém que influencia o processo eleitoral tem que se considerar impedido de assumir cargos de livre nomeação de um governo que foi eleito a partir de decisões que ele tomou. Isso é questão de moralidade, questão de ética.”

Há apenas dois anos e meio, o referido causídico da causa perdida assomou às luzes da ribalta, como um Chaplin de circo, na condição de advogado particular da acima citada Dilma no processo do impeachment, recebendo, para isso, vencimentos pagos pela distinta plateia. Ademais, antes de ocupar qualquer magistério de ética, Sua Ex-Excelência deveria, em primeiro lugar, explicar ao público furtado por que sequer lamentou ou pediu perdão pela cumplicidade exercida durante os 13 anos e meio em que seus patrões de partido executaram o maior assalto da História. Em vez disso, faz parte da patota que joga areia nos olhos dos ocupantes do poleiro do circo mambembe da velha política republicana tupiniquim da justificativa mentirosa da perseguição ao chefe do chamado “quadrilhão do PT”, ora em julgamento em Brasília. À falta de sabão, ele está convidado a lavar a língua com juá, como faziam os ancestrais de seu ídolo e padim no interior de Pernambuco.

Dou-lhes um piedoso aviso: “calma, que o Brasil é nosso”. Estamos todos no mesmo barco e um eventual naufrágio a ninguém poupará.