quarta-feira, 15 de dezembro de 2021

Brasil vive o maior êxodo de sua história

Uma conjunção histórica de fatores tem feito com que muitos brasileiros achem mais verde a grama do vizinho. Em um fenômeno sem precedentes na história do país, este início de século registra o maior movimento de migração de cidadãos brasileiros rumo a outros países pelo mundo.

Segundo um levantamento do Ministério das Relações Exteriores, o número de brasileiros vivendo no exterior saltou de 1.898.762 em 2012 para 4.215.800 hoje — os últimos dados foram consolidados a partir de informações coletadas pelos consulados em 2020. No período, portanto, o aumento foi de 122%. E, pela quantidade atual de expatriados, pode-se dizer que cerca de 2% dos brasileiros moram hoje em um país estrangeiro.

"Esse movimento de saída de brasileiros nos últimos anos é inédito e, de fato, representa a maior diáspora da história brasileira", analisa Pedro Brites, professor na Fundação Getúlio Vargas.


Se o Brasil foi construído, desde a colonização portuguesa, por levas e levas de imigrantes — de várias partes do mundo, em ondas sucessivas — o atual momento indica uma virada de maré, como se o país que sempre recebeu agora tivesse se tornado um "exportador de gente". "O Brasil passou a ser um lugar de onde as pessoas saem. Isso significa que a sociedade de afluência que aqui se formou está extinta", comenta o sociólogo Rogério Baptistini Mendes, professor na Universidade Presbiteriana Mackenzie.

"Agora o horizonte é sombrio, com a experiência do desemprego estrutural contemporâneo, associado aos males herdados: a desigualdade e a exclusão do passado", completa o sociólogo.

E o fenômeno tende a prosseguir. Uma pesquisa realizada pelo Instituto Datafolha em 2018 indicou que, se pudessem, 70 milhões de brasileiros maiores de 16 anos se mudariam para o exterior. No recorte por qualificação, essa era uma vontade de 56% dos adultos com curso superior.

De acordo com levantamento publicado este ano pelo Centro de Políticas Sociais da Fundação Getúlio Vargas, 47% dos brasileiros entre 15 e 29 anos gostaria de deixar o país, se possível. É um recorde histórico. Entre 2005 e 2010, este era o desejo de 26,7% dos jovens; de 2011 a 2014, anseio de 20,1%.

"Em geral, todos movimentos migratórios são ocasionados por motivações religiosas, perseguições políticas, guerras ou questões econômicas. As crises econômicas pelas quais o Brasil tem passado nos últimos anos fez com que muitos decidissem emigrar buscando melhores condições de trabalho, quer sejam profissionais altamente qualificados, ou de baixa qualificação", contextualiza a historiadora Renata Geraissati Castro de Almeida, pesquisadora de imigração na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e na Universidade de Nova York, nos Estados Unidos.

"No cenário atual, de aumento da inflação, afetando o preço do que consumimos no dia a dia, a alta do dólar, e com a ausência de perspectivas de melhorias, a situação tende a piorar", acrescenta.

Brites enumera como sendo três as razões que motivam essa diáspora de brasileiros. Em primeiro lugar, "o mais relevante deles", segundo o professor: a economia. "Ao longo dos últimos anos, o Brasil tem perdido postos de emprego em pontos-chave, com enfraquecimento de setores como a engenharia civil, baixo investimento em tecnologia, pesquisa e desenvolvimento. Essa mão de obra qualificada tem procurado oportunidades fora", exemplifica.

"O Brasil atravessa um período de baixo crescimento econômico, estagnação relativa da economia. Isso efetivamente tira perspectivas de oportunidades de boa parte da população, que passa a procurar mecanismos para seguir sua vida", afirma.

O segundo fator é a instabilidade política, um cenário que se agravou com o movimento de impeachment da então presidente Dilma Rousseff e, em 2018, a eleição de Jair Bolsonaro. "Essa turbulência acirrada afasta parte da população do nosso país", reconhece o professor.

"Por fim, há a questão da violência urbana, uma chaga social brasileira crônica que sempre tem de ser considerada. As pessoas buscam outras opções, nos Estados Unidos e na Europa, para tentar levar uma vida um pouco mais tranquila e segura", diz o especialista.

"A instabilidade econômica e política do país na última década, associada a um crescimento da violência, e das taxas de desemprego tem servido de gatilho para que muitos decidam buscar melhores oportunidades de emprego e qualidade de vida em outros países", resume a historiadora Castro de Almeida.
País do futuro?

Para o sociólogo Mendes, "a saída de brasileiros é indício de algo mais grave do que o encerramento de um ciclo de desenvolvimento". "É o processo civilizatório, de construção da nação imaginária, que sofre um abalo profundo", pondera.

"É fato que, do ponto de vista econômico, o Brasil moderno, com mercado interno forte sustentado no setor industrial e capaz de oferecer empregos de qualidade aos cidadãos, está quase que definitivamente sepultado", prossegue o sociólogo. "Mas o principal é que os grupos no poder promoveram uma ruptura com a própria história e, portanto, como o povo, sem oferecer nenhum tipo de projeto alternativo de futuro. O país é apresentado aos viventes como um acampamento de estranhos, não uma sociedade política. Um certo discurso que junta agentes do mercado, governantes e líderes religiosos neopentecostais conduz à lógica do salve-se quem puder ou, em termo mais brandos, o mundo é dos eleitos. Isso explica a fuga do desastre."

Em outras palavras, as gerações atuais já não se iludem mais com o discurso de que o Brasil é o tal "país do futuro". "Sem emprego, renda e assistência, em um cenário absolutamente hostil, sair passa a ser a solução", diz Mendes.

"O Brasil, terra do futuro, já não faz mais parte do imaginário de uma geração de brasileiros que vaga errante em busca daquilo que imagina ser uma boa vida: salário, segurança, educação, assistência. Ou seja: comunidade política organizada. É o paradoxo das ideias que conduziram ao poder o representante dos que negam o Estado e a própria política", contextualiza.

Em termos de destinos escolhidos, a América do Norte e a Europa estão entre as principais escolhas. Nos próximos dias, a DW Brasil vai contar histórias de emigrantes brasileiros nos destinos que mais os acolhem ao redor do mundo. São biografias distintas, ligadas por alguns pontos em comum: a superação e a esperança.

Ou, como comenta o sociólogo Mendes, "em todos os casos, o que está em causa é a ideia de que a vida vai mudar para melhor no país de chegada".

terça-feira, 14 de dezembro de 2021

Vendilhões


Há triunfos que só se conseguem pelo preço da alma, mas a alma é mais preciosa que todos os triunfos.
Rabindranath Tagore


Todos nós os conhecemos, os que vendem diariamente a alma ao diabo, para receberem mais uma honra, um prémio, um título, um penduricalho, uma homenagem. A caça ao triunfo é um desporto que abunda por aí. Discípulos do Rastignac, de Balzac, atropelam tudo e todos, denigrem aqui, autopromovem-se além, lisonjeiam acolá, prometem, ameaçam, namoram, prostituem-se, porque sabem que, não havendo verdadeiro mérito ou havendo-o diminuto, os caminhos para a glória são outros: duros, trabalhosos, obstinados, enviesados, torpes, se necessário, gastando nisso uma energia nervosa que teria podido ser melhor empregue, trabalhando mais e intrigando menos.

Na classe dos escritores, este tipo de esforçado puxador de cordelinhos, que alterna entre a manipulação subtil e o esticão grosseiro, que usa as graças sociais mas não desdenha, ocasionalmente, o pontapé boçal, encontra-se por todo o lado, mas alguns atingem, nisso, um apuramento genial, que de todo lhes falta na obra que assim promovem.

Somerset Maugham, homem amargo e cínico, mas exímio observador das bizarrias humanas, escreveu, sobre estes manipuladores incansáveis da própria glória, um romance admirável: 'Cakes and ale", que recomendo calorosamente aos nossos aspirantes à glória, como exaustivo manual de operações que lhes afine a técnica de que precisa a sua desmedida ambição. Nada se ensina melhor, nesse romance perfidamente analítico, do que a arte de esconder uma ambição devoradora por detrás de uma falsa humildade. Tartufos consumados, vestem os vícios com os trajos das virtudes e, depois de se servirem dos outros como seus servidores e promotores, dão-se ares de nada daquilo lhes dizer respeito, fazendo-se muito surpreendidos por uma honra afinal buscada e arrancada sem elegância. No mundo da escrita, como no mundo da religião, como no mundo das universidades, raramente sopra o vento do sagrado. São mundos darwinianos, em que triunfam, frequentemente, não os mais fortes, mas os mais desmunidos de escrúpulos. Conheci e conheço alguns destes exemplares, que habitam o meu zoo privativo. Tenho a certeza de que povoam também o jardim zoológico de La Bruyère. Mas não estou agora com pachorra para o ir confirmar. Molière também os não deixou escapar, marcando-os, para a eternidade, com o ferrete mordente do seu génio.
Eugénio Lisboa

Um passaporte para o absurdo

O ano se encerra com mais uma das melancólicas polêmicas entre o negacionismo e a ciência. O tema, estimulado pela variante Ômicron, é a exigência de um passaporte sanitário para a entrada de estrangeiros no Brasil.

Bolsonaro é contra e disse que a Anvisa queria fechar o espaço aéreo brasileiro, uma conclusão absurda diante de um conselho mais que sensato. O ministro da Saúde foi mais longe com sua frase bombástica: “É melhor perder a vida do que a liberdade”.

Não dá para argumentar com pessoas tão fora da realidade. São tão malucos que diziam no princípio que o passaporte sanitário era ruim para a economia.

Acham que os turistas preferem mesmo os lugares onde não há preocupações sérias com a segurança. Supõem que a maioria das pessoas prefere viajar num mesmo avião com passageiros não vacinados e compartilhar hotéis, restaurantes, passeios com esses mártires da liberdade, que, na verdade, preferem morrer a se vacinar.


A solução econômica que encontraram é determinar quarentena de cinco dias para quem não for vacinado. Ao cabo desse período, eles podem não ter o vírus, mas continuarão não vacinados; portanto, vulneráveis, aumentando o risco coletivo.

Se fôssemos argumentar com o mesmo grau de absurdo, deveríamos lembrar as intensas campanhas que o Brasil fez contra a prostituição infantil. O país dizia claramente nos cartazes e na própria atuação da PF que era uma prática condenável, passível de cadeia. Os estrangeiros que vinham para o Nordeste fazer turismo sexual não eram bem-vindos. Era um tipo de liberdade que violava as leis nacionais. E os eventuais dólares que gastavam aqui não justificam nenhum nível de tolerância com suas práticas.

Quem recusa a vacina não entra em choque com a lei. Mas precisa assumir as consequências de sua decisão. Não é racional a frase de Queiroga, creio que ele dá uma banana para a racionalidade, que condena a discriminação aos não vacinados.

Bolsonaro diz que é Flamengo, algo em que não acredito, pois é apenas um caçador de votos. Se quiser visitar o clube de sua hipotética predileção, será justamente barrado. Ali, a norma é a aceitação de vacinados.

Dentro desse delírio negacionista, Onyx Lorenzoni queria impedir as empresas de exigir a vacinação de funcionários. Todas essas bobagens são ditas em nome da liberdade.

Existe a possibilidade de a variante Ômicron não ser tão pesada assim. Mas é necessário lembrar que no Hemisfério Norte ainda há ondas de contágio. Estão entrando no inverno e, possivelmente, veio da lá a influenza que se propaga rapidamente no Rio.

Talvez seja a última batalha do negacionismo, essa do passaporte. Bolsonaro tentou desacreditar a vacina, investiu contra a CoronaVac, insinuou que a Pfizer nos transformaria em jacaré.

Apesar de todo o esforço negacionista, a enxurrada de fake news na rede, a vacinação no Brasil tem sido um sucesso. Jornais da Alemanha mencionam esse êxito.

Derrotados em todas as linhas, os homens do governo investem contra o passaporte sanitário. A fórmula que encontraram para aceitar não vacinados pelo menos encarecerá em mais ou menos US$ 300 a estadia no Brasil, pois devem ficar isolados cinco dias.

No fundo, Bolsonaro e Queiroga sabem que, ao transferir o controle da quarentena para os municípios, o controle será missão impossível. Importante que seus turistas não vacinados não acreditem nisso. Suponhamos que algumas prefeituras se dediquem realmente à tarefa de controle. Voltarão arrependidos.

Aliás, os mais espertos perceberão que um governo que luta até a morte pela sua liberdade não é assim tão fanático, ao propor uma semana de prisão num quarto de hotel. Bolsonaro e seu ministro da Saúde simplesmente se enrolam na própria teimosia, são incapazes de ver o rumo da luta contra a pandemia no mundo.

Bolsonaro merecidamente deveria ser escolhido o idiota do ano. E nem poderia reclamar, pois é um título ainda suave para descrever sua performance.

Inimigo público nº1

Nunca um presidente eleito diretamente pelo povo fez tanto mal ao Brasil como ele – e isso deve ser estudado em profundidade para que jamais se repita. Acertos não ensinam. Infelizmente, só aprende-se errando 

Bolsonaro usa no ataque à imprensa seguranças armados com recursos públicos

O ataque de domingo do segurança e dos seguidores de Bolsonaro a jornalistas das TV Bahia e TV Aratu afiliadas da GLOBO e SBT é absolutamente inaceitável e embute um perigo enorme. Há uma cena que conseguiu ser gravada em que um segurança ao lado do presidente reage porque um fio do microfone tocou seu braço. Esse segurança está com uma arma ostensiva no coldre. Se é uma pessoa tão descontrolada e é segurança da presidência, com o salário pago pela sociedade brasileira. É um servidor público e um perigo para a sociedade. E se ele sacar a arma numa hora dessas? A cena é de uma pessoa descontrolada.

E esse segurança ainda acha que o fio que encostou nele foi agressão e repete:

–Se bater de novo vou enfiar a mão na tua cara.

Esse segurança precisa ter seu nome identificado pela presidência, afastado das ruas e ser admoestado sobre isso. É um profissional e claramente para reagir assim está contra o trabalho dos profissionais. Na cena que não conseguiu ser gravada, a reporter da TV Bahia, afiliada da Globo, recebe uma gravata de outro segurança. Repito: é um funcionário público e isso é inaceitável na democracia. A imprensa tinha o direito de estar lá.

Em outra cena, se vê um seguidor atacar os jornalistas, e consegue rasgar parte da proteção do equipamento do TV Aratu, afiliada do SBT. O secretário de obras da cidade, Antonio Charbel, puxou os fios dos microfones dos jornalistas.

Essa não é a primeira vez: teve recentemente aquele ataque na Itália, em que os seguranças da presidência agrediram os jornalistas. De onde nasce isso? O presidente da República estimula, incentiva, ataca verbalmente os jornalistas e já ameaçou dar um soco num repórter do jornal O GLOBO. Houve outro episódio com a CBN. O que mais as instituições esperam?

Desde o começo dessa presidência a imprensa está sob ataque. Bolsonaro já atacou, difamou e injuriou alguns jornalistas em manifestações públicas e o fez principalmente contra mulheres. Ao fazer isso, ele está estimulando os seus seguidores para que o façam. E pior: os seguranças acham que o inimigo é o jornalista que faz a pergunta.

Tem que haver mais do que notas das empresas e das associações de jornalistas repudiando os atos. É preciso ver que isso tem método e a imprensa é o alvo do presidente, é parte do seu projeto autoritário e tudo vai piorar no ano que vem.

Temos pela frente uma campanha presidencial em que Bolsonaro está em desvantagem. Todo o cuidado é pouco para preservar a integridade dos jornalistas que estarão em campo cobrindo essa eleição. Bolsonaro ataca usando como armas os seguranças pagos pela sociedade, armados pela sociedade para proteger a "presidência". E que se comportam com a truculência de bandidos. E mais: ele usará os recursos da presidência, pagos por nós, para fazer campanha eleitoral. O extremo perigo que isso significa ficou claro mais uma vez.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2021

Pensamento do Dia

 


Um Brasil mais parecido com a Europa

Não há brasileiro que, ao viajar para a Europa, não se encante com os efeitos de uma sociedade mais igualitária. Pessoas que só se locomovem de carro no Rio de Janeiro encantam-se com o metrô de Paris e os bondes de Lisboa. Aqueles que no Brasil só fazem consultas médicas privadas surpreendem-se com a eficácia e a frugalidade de um sistema de saúde como o inglês ou o espanhol, em que o advogado e o atendente do supermercado se encontram na fila do posto de saúde.

A redução da desigualdade não melhora apenas a vida dos mais pobres, melhora também a vida dos mais ricos. Com mais igualdade, não há apenas distribuição da riqueza social, mas uma reorganização dos horizontes e das expectativas, fazendo com que se encontre mais satisfação em férias bem tiradas do que na aquisição do último iPhone. A redução da desigualdade também reforça os vínculos de comunidade, levando trabalhadores e profissionais a se verem como concidadãos ao compartilhar o transporte público, os hospitais e as escolas.


Por isso há pouca dúvida de que a vida com € 2 mil na Europa é superior a uma vida com R$ 13 mil ou mesmo R$ 20 mil no Brasil. Na verdade, não precisamos nos comparar à Europa, que tem PIB per capita maior que o nosso. Quem já visitou o Uruguai, país com um nível de riqueza parecido com o brasileiro, mas com distribuição de renda muito mais justa, sabe que a vida em Montevidéu é melhor que em São Paulo.

Corrigir a desigualdade é difícil, mas não tem segredo: é preciso um sistema tributário progressivo (em que os ricos paguem, proporcionalmente, mais impostos que os pobres), e são necessárias boas políticas sociais. Em outras palavras, é preciso que o sistema tributário retire dos mais ricos, e o sistema de proteção social redistribua bem para os mais pobres.

O Brasil é um dos campeões mundiais da desigualdade. Quando olhamos para o Gini, medida usada para avaliar a distribuição da renda, o Brasil apresentava em 2019, antes da pandemia e do Auxílio Emergencial, um índice de 0,544, o que o colocava entre os dez países mais desiguais do mundo. A desigualdade brasileira é tão acentuada que a soma dos rendimentos do 1% mais rico é aproximadamente o triplo da soma dos rendimentos dos 50% mais pobres.

Para corrigir tamanha desigualdade, precisamos mudar não apenas o modo como gastamos os recursos públicos, mas sobretudo o modo como arrecadamos. Os liberais que dominam o debate econômico enfatizam que gastamos mal os recursos públicos, bancando privilégios da elite do funcionalismo, o que acentua a desigualdade —e eles têm razão. Mas, além disso, do lado da receita, nosso sistema tributário é uma aberração, em que os pobres pagam mais impostos que os ricos. Como nosso sistema taxa muito o consumo e pouco a propriedade e a renda, e os pobres gastam uma proporção maior da renda comprando bens, o sistema onera mais os pobres —é regressivo.

Embora a desigualdade seja um de nossos problemas mais urgentes, ela não está no topo da agenda política, nem mesmo na esquerda. Nos 13 anos em que governou o país, o PT não se empenhou em reformar o sistema tributário para torná-lo progressivo.

Com a prosperidade econômica trazida pela explosão das commodities nos anos 2000, os governos petistas ampliaram o gasto social, consolidando o Bolsa Família e conferindo aumentos ao salário mínimo. Essas e outras medidas contribuíram para uma pequena redução da desigualdade, mas não com a intensidade necessária.

Enfrentar a desigualdade brasileira requer medidas vigorosas. Por um lado, precisamos diminuir os impostos sobre o consumo que oneram os mais pobres. Por outro, precisamos criar mais impostos para os ricos, com a taxação de lucros e dividendos, com mais faixas no Imposto de Renda e com impostos mais amplos sobre a propriedade e a herança.

Isso não é fácil. Os mais ricos têm mais poder e não querem pagar mais imposto. Mexer na distribuição entre imposto de consumo e imposto sobre a renda implica mexer no pacto federativo, já que estados arrecadam mais impostos de consumo, e a União arrecada o imposto sobre a renda.

Justamente pela dificuldade política de enfrentá-la, a desigualdade precisa estar no centro do debate nas próximas eleições. Se não provocarmos os políticos, eles mais uma vez não darão prioridade ao problema. Cabe a nós, eleitores, pressionar os candidatos e ajudar a construir um Brasil mais parecido com a Europa ou o Uruguai.

Calculadora de renda: 90% dos brasileiros ganham menos de R$ 3,5 mil

Um ano atrás, o ator Bruno Gagliasso escreveu em suas redes sociais que precisava "bater um papo com você, meu irmão branco. Um papo reto aqui entre nós que não somos o topo da pirâmide, mas estamos bem distantes da base".

Nos comentários, os internautas questionaram o topo da pirâmide ao qual o artista se referia. Se ele, dono de uma pousada na ilha de Fernando de Noronha, de restaurantes e de uma marca própria de roupas não estava no topo, quem está?

Mas não é preciso ir tão longe. A renda mensal média de quem está entre os 5% mais ricos no Brasil é de R$ 10.313,00, conforme os dados da Pnad Contínua - Rendimento de todas as fontes 2019, do IBGE. O corte para estar no 1%, ou seja, com renda média superior à de 99% da população brasileira adulta, é de R$ 28.659,00.

A base da pirâmide é relativamente homogênea — 90% dos brasileiros têm renda inferior a R$ 3,5 mil por mês (R$ 3.422,00) e 70% ganham até dois salários mínimos (R$ 1.871,00, para um salário mínimo de R$ 998,00 em 2019), ainda segundo o levantamento.

Dentro do grupo dos mais ricos, contudo, o espectro é bem diversificado.

Tomando a faixa da pesquisa do IBGE, de R$ 28 mil, o grupo dos 1% mais ricos inclui desde alguns profissionais liberais como advogados e engenheiros e a elite do funcionalismo público — promotores, procuradores, auditores da Receita —, a empresários, artistas e, finalmente, os milionários e bilionários que aparecem nas listas dos mais ricos do país.

Rico, eu?

Talvez por isso, muitos não se enxerguem como parte do topo da pirâmide.

'Topo da pirâmide' está geralmente ligado à ideia de ostentação - mas nem sempre é assim


A pesquisa Nós e As Desigualdades, realizada pela Oxfam em parceria com o Instituto Datafolha, pergunta desde 2017 aos brasileiros, em uma escala de 0 a 100, se eles se acham "muito pobres ou muito ricos".

As três edições do levantamento realizadas até agora apontam na mesma direção: quem está no topo pode ter uma visão bastante distorcida da realidade. A pesquisa de dezembro de 2020 apontou que, entre aqueles com renda superior a 5 salários mínimos, 75% disseram achar fazer parte da metade mais pobre do país.

Para se estar entre os 10% mais ricos do país, contudo, a renda média parte de três salários mínimos, de acordo com os parâmetros da pesquisa.

Isso porque o Brasil é um país em que muita gente vive com muito pouco. Para se estar entre os "mais ricos", do ponto de vista da distribuição de renda, não é preciso tanto.

Esse descolamento entre percepção e realidade, entretanto, não é exclusividade do Brasil.

"Os estudos sobre percepção mostram que as pessoas tendem a se classificar no meio, como classe média. Pouca gente se classifica como pobre ou como rica", diz o professor de Princeton e pesquisador da desigualdade Marcelo Medeiros.

Mas por quê?

Estudiosa do tema, Asli Cansunar, professora do departamento de Ciência Política na Universidade de Washington, nos EUA, ressalta que esses resultados são observados pelo menos desde os anos 1970.

A explicação é relativamente simples. A grande maioria das pessoas não consome informações sobre estatísticas econômicas no dia a dia. Na falta de dados técnicos, a maneira de colocar sentido no mundo é por meio de comparações — é olhar em volta e se comparar aos amigos, familiares, às celebridades na TV ou, mais recentemente, aos influencers do Instagram.

O problema, nesse caso, é que a amostra é enviesada, já que o cotidiano está, de maneira geral, dominado por imagens que nos levam a associar o topo da pirâmide à ostentação: alguém que dirige um carro importado, que faz viagens internacionais, que consome produtos de luxo.

"E quando você se compara a essas pessoas, claro, vai dizer: 'Imagina, eu não sou rico, sou classe média! Sou apenas alguém que está se esforçando para comprar um carro novo e conseguir viajar nas férias'. Na vida real, entretanto, se você olhar as estatísticas, vai ver que está ganhando muito mais do que muita gente no seu entorno", destaca a pesquisadora.

Mas então quem está no 'topo' é rico?

Para além das percepções individuais, a própria noção de riqueza é subjetiva. Não há um consenso acadêmico sobre o que seria uma "linha de riqueza", por exemplo. Ser rico é ter dinheiro suficiente para poder parar de trabalhar? É morar em um determinado bairro da cidade? É ter um carro importado?

"A definição do que é ser rico é uma ferramenta, depende do que se quer fazer com ela", pontua Medeiros.

Cansunar também ressalta que a noção de riqueza é relativa - e pode variar inclusive dentro de um mesmo país. No Reino Unido, ela exemplifica, ganhar mais do que as 80 mil libras por ano (R$ 590 mil), que coloca alguém entre o 1% no topo da pirâmide, não necessariamente significa uma vida confortável em Londres para quem tem de pagar aluguel.

A própria pirâmide de rendimentos — que, aliás, não contabiliza a riqueza estocada em patrimônio, a recebida em herança — pode variar, a depender da metodologia. O IBGE usa suas pesquisas domiciliares, que, tradicionalmente, acabam subestimando a renda de quem está no topo.

Seja por uma questão ligada à segurança, por constrangimento ou porque realmente não sabem quanto ganham na ponta do lápis, os mais ricos acabam informando valores menores aos recenseadores do instituto.

"O IBGE faz um trabalho fantástico, mas esse é um fenômeno que acontece no mundo inteiro. Então as pesquisas do IBGE captam muito bem, vamos dizer, os 90% mais pobres da população", pontua o sociólogo e pesquisador do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) Pedro Ferreira de Souza.

"Nos 10% mais ricos, quanto mais para cima, maior a subestimação", afirma o especialista, que é autor do livro Uma História da Desigualdade, vencedor do prêmio Jabuti em 2019.

Por isso, pesquisadores como Souza utilizam também os dados da Receita Federal do Imposto de Renda, que captam melhor a renda que vem de investimento e aplicações financeiras, por exemplo.

Entre os 5% mais ricos, conforme os cálculos que ele fez com dados de 2015, a renda média apontada pelo levantamento do IBGE era 25% menor do que usando o IRPF. Para o 1% mais rico, a linha de corte nos dados do IBGE era 45% menor do que no IRPF — pouco menos da metade.

Ainda que a linha de corte, na prática, seja provavelmente superior aos R$ 28 mil apontados pela Pnad Contínua, o topo da pirâmide ainda é formado pelo grupo heterogêneo que inclui dos "super ricos" a profissionais liberais e parte do funcionalismo público.

O teto para o salário dos servidores federais é hoje de R$ 39 mil. Muitos, contudo, recebem valores superiores com a inclusão de benefícios como auxílio alimentação e moradia.

"Se você ganha um salário muito alto, e em alguns casos muito acima do teto — principalmente no poder judiciário, a gente vê que é comum — com o tempo vai acumular renda e isso vai virar rendimento de capital", acrescenta o sociólogo.

"O público leigo às vezes acha que todo funcionário público, ou pelo menos todo funcionário público federal, está no 1%. Tem um exagero grande aí, mas também não é de todo falso, certamente tem muita gente da elite do funcionalismo e, vamos ser sinceros, da elite política [no 1%]."

Como estudioso da desigualdade, encontrada no Brasil em nível "extremo", o pesquisador acredita que esse possa ser um bom parâmetro para se definir riqueza no Brasil.

"Onde está a concentração de renda que torna o Brasil muito diferente da Europa? Bom, está no topo. É ali o 1%, os 5% mais ricos, talvez em algum grau você possa falar que são os 10% mais ricos, alguma coisa assim. Mas a concentração grande mesmo é bem no topo, então fazer esse recorte — falar em 1% da população, 5% da população, acho que não tem como dizer que não é rico, né? Isso exigiria umas cambalhotas retóricas que não são muito fáceis", avalia Souza.

Chamar atenção para o topo, na avaliação do sociólogo, é importante especialmente por dois motivos.

Primeiro, por uma questão política. Quando uma fração pequena da população concentra um percentual grande dos recursos, ela tende a "usar todos os meios possíveis para converter o poder econômico em influência política e, assim, conseguir enriquecer ainda mais".

"Isso não é uma questão necessariamente de caráter individual, mas uma dinâmica social que a gente vê em diversos países — e atrapalha o funcionamento da democracia."

Segundo, ele acrescenta, porque entender quem tem mais abre caminho para o desenvolvimento de políticas voltadas para melhorar o bem-estar dos mais pobres, como o financiamento de serviços públicos de transporte e saúde para atender essa população.

"O jeito mais eficiente de fazer isso é pegar de quem tem mais, de onde o dinheiro tá em tese sobrando — pelo menos em algum grau, ninguém está falando em confisco, mas do padrão de Estados Unidos e Europa —, tributar onde tem mais dinheiro concentrado e gastar onde tem mais necessidades", avalia.

"E para isso a gente precisa conhecer os mais ricos — e aí não adianta você também ter uma definição de riqueza que seja só o Neymar, né?"

Autoritarismo mata


Os populistas autoritários destroem a democracia por etapas. O primeiro mandato é dedicado a minar as instituições. Vão aparelhando progressivamente para que no segundo mandato consigam fechar o regime
Marcos Nobre, professor da Unicamp e presidente do Cebrap

País ou sumidouro?

Tem coisas que simplesmente somem no Brasil. Por vezes, inúmeras vezes, são vidas. Ou podem ser dados, ou comida no prato, a verdade, a vergonha e a decência. Pode ser tudo isso e muito mais. Pode também ser o fugitivo costas quentes Allan dos Santos. Evaporado do país para não responder ao inquérito do Supremo Tribunal Federal sobre fake news, o blogueiro se mantém ativíssimo na trincheira virtual bolsonarista. Sumiu apenas fisicamente.


Convém, sobretudo, nunca esquecer os três meninos de Belford Roxo, no Rio, que foram tragados na rua por matadores logo após o Natal do ano passado. Lucas, de 9 anos, Alexandre, de 11, e Fernando, 12, nunca mais foram vistos. Nem sequer seus ossos, inicialmente confundidos com os de animais, foram encontrados. Segundo a investigação policial divulgada nesta semana, o castigo dos moleques havia sido decidido pelo tribunal do tráfico do Morro do Castelar: cabia-lhes uma sessão de tortura por terem surrupiado o passarinho de um morador da vizinhança. Uma das crianças não teria resistido. Morreu de surra. Diante desse incômodo imprevisto, os justiceiros executaram os outros dois moleques.

Este será o primeiro Natal sem as travessuras de Lucas, Alexandre e Fernando, sumidos na endêmica violência nacional. Será, também, o primeiro Natal de 139 milhões de brasileiros plenamente vacinados cujos registros de imunização contra a Covid-19 simplesmente desapareceram na madrugada de sexta-feira. Por obra de hackers que conseguiram invadir o site do Ministério da Saúde, os aplicativos ConecteSUS e o e-SUS Notifica, ambos absolutamente cruciais no momento atual, tornaram-se inacessíveis e inoperantes. O primeiro fornece o Certificado Nacional de Vacinação eletrônico, documento indispensável para quem precisa viajar a trabalho ou lazer fora do Brasil, além de já necessário também dentro das nossas fronteiras. O e-SUS Notifica é a ferramenta usada por estados e municípios para a elaboração diária do mapa nacional da Covid-19. Diante de tamanho apagão, navegava-se às cegas até o fechamento deste texto.

É em momentos assim que a confiabilidade de um governo emerge ou afunda mais ainda. Em seus três anos no poder, o presidente Jair Bolsonaro divulgou uma soma jamais vista de dados deliberadamente falsos — fosse perante a ONU ou em suas lives semanais. O locatário do Alvorada também conseguiu uma mala repleta de absurdos sem lastro factual. Seu método operacional de liderança resume-se a manipular a máquina do Estado a favor da manutenção do poder. Por tudo isso, foi inevitável que surgisse, quase simultaneamente ao ataque cibernético real, uma teoria conspiratória para o crime. O apagão teria sido ação de algum hacker “uberbolsonarista”, dado que sua consequência imediata foi o adiamento por uma semana da detestada entrada em vigor de regras sanitárias para viajantes? Apesar de as regras anunciadas serem mínimas quando comparadas às de outros países, elas atrapalham um pouco o posicionamento antivacina de Bolsonaro e seus seguidores.

A ojeriza palaciana à ideia de um passaporte vacinal obrigatório, que exigiria adequação ao negacionismo oficial do presidente, está no centro do imbróglio. Nada a ver com “liberdade ou morte”, como procurou tonitruar o pedestre ministro da Saúde, Marcelo Queiroga . “Por que vocês estão tão preocupados com esse assunto [o detalhamento das regras sanitárias?…. Vira a agenda, pessoal, vira a agenda…”, bufava um Queiroga de passo apressado, simulando produtividade na véspera do apagão de dados. A estudada impaciência do ministro com a imprensa pretendia arrostar poder — aquele poder que a própria pessoa sabe ser pequeno, e os demais sabem ser covarde.

No dia seguinte, de jaleco do SUS e ombros mais caídos, voltou a ser o titular da pasta falsamente modesto que consegue ser ainda mais desprezível que seu malfadado antecessor. Queiroga tornou-se uma desonra para a sua profissão de médico e avilta à luz do dia suas responsabilidades com a saúde pública. Sendo o Brasil o que é, a política haverá de abrigá-lo em algum escaninho. Para um grande escritor do século passado, Albert Camus, a grandeza de um ser humano está na sua decisão de ir além de sua condição. Outro escritor, Anatole France, ainda mais antigo que Camus, ensinou que só ao envelhecer nos damos conta de que o ato de pensar é a mais rara entre as coragens humanas. Juntando as duas coisas, talvez ainda tenhamos tempo de tirar o Brasil de sua atual condição de sumidouro — e de pensar. Pensar alto e grande.

domingo, 12 de dezembro de 2021

Por exemplo?

Bem, por exemplo, o que significa ser um homem? Numa cidade. Num século. Em transição. Em uma massa. Transformado pela ciência. Sob o poder organizado. Sujeito a mecanismos de controle tremendos. Num estado decorrente da mecanização. Após o último fracasso das esperanças radicais. Numa sociedade que não era comunidade nenhuma e depreciava a pessoa. Em virtude do multiplicado poder dos números, que tornavam a pessoa desdenhável. Que consumia bilhões em despesas militares contra inimigos externos, mas não gastava para ter ordem dentro de casa. O que abriu caminho para a selvageria e a barbárie em suas próprias cidades grandes. Ao mesmo tempo, a pressão de milhões de pessoas que descobriram o que esforços e pensamentos unidos em comum acordo podem conquistar.


Enquanto megatoneladas de água formam organismos no fundo dos oceanos. Enquanto as marés dão polimento às pedras. Enquanto os ventos escavam os rochedos. A beleza da supermaquinaria descortina uma vida nova para a humanidade inumerável. Você lhes negaria o direito de existir? Pediria a eles que trabalhassem e passassem fome, enquanto você desfruta Valores antiquados? Você — você mesmo é filho dessa massa e irmão de todo o resto. Ou então é um ingrato, um diletante, um idiota. Pronto, Herzog, pensou Herzog, já que você está pedindo um exemplo, aí está como são as coisas.
Saul Bellow, "Herzog"

Racismo ao gosto do freguês

André Gabeh, escritor engajado contra qualquer tipo de preconceito, acaba de lançar o delicioso “Nunca foi sorte, sempre foi macumba”. Um livro reverente (“Minha vida é toda sob o hálito dos Orixás. Os Deuses dos meus ancestrais são ricos, belos, imensos e estão em todos os meus momentos”, “Na Umbanda eu vi o mistério. (...) No Candomblé eu senti a força de seres que são a própria energia da natureza”). E também engraçadíssimo (não vou dar espóileres; morram de rir por sua conta e risco).

Nem o Gabeh escaparia aos patrulheiros das microagressões do cotidiano. Ele microagride ao escrever “macumba” — “Palavra utilizada de forma racista para nomear as oferendas aos orixás (...), associando-as a algo ruim”, segundo o “Dicionário de expressões (anti) racistas”, da Defensoria Pública da Bahia.

Cartilhas e manuais editados no afã de sanitizar o idioma deixaram de ser novidade. Neste ano, o index prohibitorum ganhou mais projeção ao ser endossado, acriticamente, por uma agência de checagem. A reação foi, finalmente, à altura do equívoco que é deixar em segundo plano o racismo real e investir contra um imaginário. A imprensa repercutiu amplamente o assunto. Aqui no GLOBO, tratei do absurdo de um checador não checar. A Defensoria baiana entrou no artigo como Eva na Salve-Rainha, mas encrespou com a crítica (“encrespar” pode?) e sacou da falácia do “se você não concorda com meus métodos, está defendendo ou justificando aquilo a que me oponho”.

Não estou. O racismo é uma abominação. Eu, a Defensoria e a torcida do Flamengo estamos do mesmo lado. A diferença é que considero um tiro no pé lançar mão de invencionices que desqualificam a argumentação — e depois apelar para o autoritarismo. Quando um órgão de Estado não reconhece um erro e ainda se arroga o direito de decidir que temas merecem a atenção de um articulista ou a quem um jornal deve abrir espaço nas suas páginas de opinião, disseminar delírios etimológicos é até um delito menor.

Garante a Defensoria que a palavra “nhaca” reforça estereótipos e preconceitos porque seria referência a uma ilha africana. Se é, Aurélio, Aulete, Houaiss e Michaelis ignoravam. Antenor Nascentes supõe que venha do tupi yákwa (“que tem cheiro”). E a Defensoria se defende com um Saussure de mão única — expressões inocentes se tornam racistas; mas uma vez racistas, racistas até morrer. Quem, ao xingar alguém de “boçal”, tem em mente que era assim que se denominava o escravizado que ainda não falava português? Quem?

Como é que “mulata/o” virou ofensa, depois de frequentar impunemente o idioma por quase 500 anos? Possivelmente quando da importação da one drop rule, teoria segundo a qual só há pretos e brancos, sem os 50 (ou 50 mil) tons intermediários gerados pela miscigenação. E aí caíram em desgraça os mulatos, morenos, pardos, caboclos — 46,8% da população que desaparecem, absorvidos pelos 9,4% de pretos (Pnad 2019).

Ser semanticamente incorreto não deveria ser motivo de orgulho — menos ainda quando a causa prejudicada é o antirracismo.

Pensamento do Dia

 

Galym Boranbayev (Cazaquistão)

Construir o inimigo

Umberto Eco (1932-2016), o festejado autor de “O nome da Rosa” e “O pêndulo de Foucault”, além de tantas outras obras, tem livro póstumo publicado pela Editora Record, com esse título “Construir o inimigo”. São quinze deliciosas crônicas, todas inteligentes e sarcásticas, bem ao estilo do italiano irreverente.

Impressionante a atualidade dos temas. O texto que batizou o livro surgiu de um fato real. Um taxista paquistanês em Nova Iorque, ao saber que Eco era italiano, perguntou a ele quem eram os inimigos da Itália. Eco respondeu que a Itália não tinha inimigos. O paquistanês não só ficou insatisfeito, mas demonstrou sua irritação. Um país que não tem inimigos não pode ser levado a sério.

As reflexões de Umberto Eco em relação ao tema refletem a tendência brasileira de procurar causadores de dificuldades para o desenvolvimento nacional, como fórmula de escape à responsabilidade ou de assunção de flagrante incompetência.


Quando se cria um “inimigo imaginário”, absolve-se o governo que não sabe solucionar questões recorrentes, mas que se agravaram nos últimos anos, uma evidência do acelerado retrocesso em que a República mergulhou.

Teorias conspiratórias, invocação aos brios patrióticos, acusando outros países de interesses escusos, apelo ao surrado conceito de soberania, tudo isso vale para disfarçar a realidade: não existe foco, não existe programa, não existe projeto, a não ser a volúpia mesquinha pela permanência nas estruturas de poder.

Um inimigo assim imaginado passa a atrair a ira dos indignados com o quadro nacional: milhões de famélicos que reviram lixo ou procuram assistência médica apenas para dizer que o seu mal é fome. Desemprego galopante, ausência de política eficiente para garantir moradia – embora direito fundamental – para a legião dos sem teto.

Sem falar numa educação capenga, presa a conceitos necrosados como o de transmitir informação e fazer com que o educando memorize dados, como a ignorar que mediante um “clique”, tudo será obtido instantaneamente nas redes sociais. De forma atualizada, colorida e musicada, mais apetecível e sedutora do que as aulas insossas e as apostilas.

A pandemia escancarou o despreparo do governo para o enfrentamento de algo que a ciência já anunciava. Então é preciso encontrar culpados pela peste. Ela foi criada em laboratório estrangeiro, que em seguida fornece vacina com chip, hábil a controlar toda a população planetária e fazê-la submissa à hegemonia da macropotência.

Não existe falha atribuível aos detentores de cargos estatais. Tudo o que acontece tem o DNA perverso dos inimigos da Pátria. Eles se arrogam no direito de condenar o extermínio da floresta amazônica e de outros biomas, em vez de reconhecerem a sua cobiça por um patrimônio que é nosso. E que só nós podemos destruir…

Tudo se intensifica mediante o uso das redes sociais, usinas de abundante produção de ódio, a contaminar os radicais que sempre foram assim, mas que hoje não se envergonham mais de suas posições trogloditas.

O fenômeno da criação artificial de inimigos não se circunscreve à massa ignara, privada de condições de enxergar a realidade, na sua tosca e arrogante ignorância, travestida de patriotismo. Não. O produto mais nefasto é a contaminação de pretensos eruditos, que por fanatismo ou deliberada má-fé, ajudam a propagação das inverdades, formando violentos contingentes de beligerância.

Não é da índole humana aceitar as próprias falhas, fazer o “mea culpa” e reconhecer a fragilidade natural a uma criatura perecível, que tem algumas décadas apenas para fazer valer a sua passagem por este planeta.

Até os círculos considerados eruditos cedem à onda adversarial, cultivando a cultura do repasse. Tudo o que é de ruim provém do outro. A vitimização é uma carreira próspera para um brasileiro que sempre se considera injustiçado e impedido de avançar rumo à concretização de seus sonhos, pois a inveja alheia, a trama alienígena, representa inexpugnável barreira.

Somente a educação corrigiria a perigosa rota que, além de prosseguir no atraso, tornará o Brasil isolado e cada vez mais desacreditado. Mas essa missão não é exclusiva do Estado. É obrigação da família e da sociedade.

A esperança é a de que a lucidez remanescente assuma as rédeas desse encargo capaz de eliminar ou, ao menos mitigar, as graves máculas da democracia tupiniquim. Dentre as quais, não é a menor a religião de construir inimigos.

A maldição do ouro da Amazônia

“Uma chuva de meteoros trouxe o ouro à terra. Talvez esse início violento tenha amaldiçoado o metal. Por nenhum outro se matou tanto.” A frase abre a última temporada da série ficcional A Casa de Papel, o programa de TV mais assistido no mundo nesta semana. Já na vida real, na Amazônia, assistese a uma nova – e triste – saga do ouro. A mineração ilegal cresce e se torna uma das principais causas do desmatamento na maior floresta tropical do planeta.

O Instituto Igarapé, centro de pesquisas brasileiro especializado em segurança pública, e a Interpol, organização que promove a cooperação entre as polícias do mundo, lançaram um estudo sobre como combater a mineração ilegal na Amazônia. O texto esmiúça os casos de Brasil, Peru e Colômbia e tece conexões entre eles.

Sabe-se que a maior parte do desmatamento na Amazônia é criminoso, e uma fração crescente da devastação da floresta se deve à mineração ilegal. “Não é mais o garimpeiro solitário que busca ouro para sair da pobreza”, diz Ilona Szabó, cofundadora do Instituto Igarapé. “Há muito mais atores envolvidos.” Ilona e Laura Waisbich, também do Igarapé, são as entrevistadas do minipodcast da semana.

Segundo Laura e Ilona, cada vez mais a mineração ilegal se mistura com redes de crime organizado na América Latina, com especial destaque para as de tráfico de drogas. Entre outras “sinergias”, pistas de pouso clandestinas construídas por traficantes são usadas pela mineração ilegal. O desmonte de órgãos como o Ibama facilita a parceria entre os meliantes do ouro e das drogas.

O estudo é patrocinado por governos de vários países, entre eles Reino Unido, Noruega e Suíça, e também por organizações brasileiras da sociedade civil. O desmatamento criminoso – que, além da mineração, inclui extração ilegal de madeira e grilagem de terras – é o principal responsável pelas emissões de carbono do Brasil.

A persistência desse tipo de crime faz com que negociadores brasileiros cheguem enfraquecidos às mesas onde se definem os acordos internacionais, prejudicando sobretudo o agronegócio exportador. A França já usa contra nós as mazelas de nossa má gestão ambiental. Como o Estadão mostrou em reportagem de Felipe Frazão, o mesmo pode acontecer com a Alemanha. A nova coalizão de governo, definida nesta semana, fundiu as áreas de Economia e Clima – e colocou ambas sob a gestão do Partido Verde.

Os crimes ambientais destroem a reputação do Brasil e prejudicam nossa economia, da mesma maneira que os assaltos em A Casa de Papel deixam a Espanha vulnerável. Lá, no entanto, é ficção. Aqui, uma trágica realidade.

 João Gabriel de Lima

É a fome, estúpido

Evidentemente não se deve esquecer jamais da corrupção, germe super-resistente que contamina a nação desde o seu nascimento, mas o grande tema da eleição presidencial de 2022 será a fome. Ela, que já foi estrela eleitoral, volta ao debate político dada a degradação da economia do país. Hoje, segundo a Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Rede Penssan), 19 milhões de brasileiros passam fome e outros 119 milhões estão em situação de insegurança alimentar, sem acesso regular e permanente a alimentos. Só na cidade do Rio, 107 mil famílias vivem em estado de extrema pobreza. Mas, o drama da fome é visível e palpável em todos os cantos de todas as cidades brasileiras.

Nunca se viu tantos miseráveis desalentados nas ruas, mendigando um prato de comida, um litro de leite, um resto, uma sobra, uma migalha. As imagens de grupos de famintos buscando o que comer em caminhões de lixo, nas portas de supermercados, bancos e farmácias remetem aos anos 1980 e início dos 1990. A notícia de brasileiros comendo lagartos no Rio Grande do Norte lembra episódios idênticos relatados no passado, com pessoas fotografadas enquanto preparavam calangos e ratazanas para a refeição. As imagens daquela época eram tão ultrajantes quanto são as de hoje.

As ruas de Copacabana parecem acampamentos, tamanho o número de pessoas sem teto dormindo nas calçadas ou sob as marquises. No Centro do Rio, em Ipanema, na Tijuca, onde você andar vai encontrar pessoas lutando por um pedaço de pão. Em Belo Horizonte, Salvador ou Porto Alegre as cenas se repetem. Em São Paulo, a maior cidade brasileira, a imagem é igual. Pare na esquina da Brigadeiro Faria Lima com a Alameda Gabriel Monteiro da Silva, no coração financeiro do país, e conte o número de pedintes. O resultado será na casa da dezena. No interior do Brasil é a mesma coisa, com mais gravidade em regiões mais pobres do Nordeste. Mas passa-se fome também em Santa Catarina e no Paraná.

Nas campanhas presidenciais pós-ditadura, os temas centrais foram corrupção (Collor e Bolsonaro), economia (FHC I e II, Lula II e Dilma I e II) e fome (Lula I). Lula de novo vem tratando do tema agora, na sua pré-campanha, mas foi a senadora Simone Tebet quem disse com todas as letras do que se trata ao lançar a sua candidatura pelo MDB, na terça-feira. Ela falou para a distinta plateia que a ouvia que partia para uma missão e acrescentou: “Essa missão tem um clamor. Tem o clamor da urgência, urgência porque o nosso povo, o povo brasileiro, está morrendo de fome”.

Em razão desta urgência, é possível que a aposta de Bolsonaro e Moro de levar o debate para a corrupção e ganhar de Lula neste campo não prospere a ponto de garantir uma eleição. Quando 19 milhões não comem e 119 milhões muitas vezes não jantam ou não almoçam, a questão tampouco pode se limitar à economia, embora seja com ela que se vá resolver o problema um dia. O que o eleitor quer saber é qual presidente estará em melhores condições de resolver o seu problema imediato. O povo quer comer, senhor candidato. É a fome, estúpido.

O mundo não é para principiantes

Os brasileiros gostam de dizer – quase com orgulho – que os temas internacionais passam longe das campanhas eleitorais. E que ninguém vai perder tempo, no meio de uma intensa disputa por votos, em debates sobre os rumos da política externa.

Talvez este seja um bom momento para rever o conceito. A pessoa que vier a subir a rampa do Palácio do Planalto em janeiro de 2023 vai encontrar um mundo bem diferente que o de quatro ou oito anos atrás. Um mundo mais volátil e mais perigoso.

Na verdade, não se trata apenas de discutir política externa. Embora frequentemente negligenciado pelos políticos, o tema vai continuar importante. A escolha equivocada de um ministro das Relações Exteriores pode ser fatal para a imagem do país, como mostra nosso passado recente.


Iman Rezaee (Holanda)

O novo contexto global vai exigir do Brasil e dos demais países uma flexibilidade até agora inédita. O Itamaraty continuará sendo, naturalmente, nosso principal ponto de contato com o resto do mundo. Mas vários outros ministérios precisarão estar antenados com o planeta.

A Saúde é um bom exemplo. Pouca gente dava importância à escolha do titular da Pasta, quando começava um novo governo. Pois agora qualquer pessoa que vier a assumir o ministério precisará ter, além das desejadas qualificações técnicas, um olhar atento ao que se passa em outros países.

A pandemia é um dos principais motivos pelos quais não se pode mais deixar de lado o que se passa no mundo durante uma campanha eleitoral. Por definição, uma pandemia atinge todo o planeta. E dificilmente será vencida sem uma considerável cooperação internacional.

Neste momento, o Brasil saboreia uma queda significativa no número de mortos a cada dia por causa da Covid. E não, este não é um número que interesse apenas aos brasileiros.

Dois exemplos: a suspensão das festas de Ano Novo no Rio de Janeiro foi uma das manchetes do canal de televisão BBC News no fim de semana; e o relativo sucesso da campanha de vacinação, apesar do “ceticismo do líder Jair Bolsonaro”, ganhou primeira página do jornal londrino Financial Times.

Pouca gente se arrisca, porém, a prever o comportamento da pandemia nos próximos meses. Ninguém sabe ao certo como ela se comportará a partir da descoberta da variante Ômicron, na África do Sul.

Existem otimistas, como o ministro da Saúde do novo governo alemão, o epidemiologista Karl Lauterbach, para quem a variante pode ser um “presente de Natal” e acelerar o fim da pandemia.

Outros especialistas estão mais cautelosos. O diretor da Wellcome Trust, uma das maiores fundações de apoio à pesquisa médica, disse à revista alemã Der Spiegel, que podemos estar mais próximos do começo que do fim da pandemia. “Estamos brincando com fogo”, alerta.

Duas outras pesquisadoras pedem atenção redobrada à Covid. A diretora assistente de programas no Duke Global Health Institute, Andrea Taylor, disse à CNN que falta um plano global de combate à pandemia. “Nós não somos bons para lidar com crises mundiais”, lamenta.

Por sua vez, a professora Dame Sarah Gilbert, uma das criadoras da vacina Astra Zeneca, pediu em entrevista à BBC cautela diante da nova variante. “Esta não será a última vez que um vírus ameaçará nossas vidas”, advertiu. “A verdade é que o próximo pode ser pior”.

As incertezas sobre os rumos da pandemia provocam, naturalmente, muitas dúvidas sobre o futuro da economia global. Se o atual candidato Luiz Inácio Lula da Silva já teve a seu favor um boom de commodities, quando esteve no governo, uma realidade bem diferente pode esperá-lo se voltar a ser presidente.

A onda de novas restrições a viagens internacionais, logo após a descoberta da nova variante, reduziu o ímpeto da esperada retomada da economia global. Países como Israel e Japão fecharam suas fronteiras, enquanto outros dificultaram o ingresso de estrangeiros. A preocupação com nova expansão da pandemia reduziu as projeções mundiais de crescimento.

Por outro lado, a pandemia também aumenta o risco de elevação da inflação em todo o mundo. Os índices já são preocupantes em países como os Estados Unidos, onde os preços subiram 6,2% em outubro, quando comparados ao mesmo período do ano anterior. No Brasil, agentes de mercado alertam que a elevação da inflação não é temporária e pode exigir medidas mais duras.

Portanto, se não formos informados de boas novidades ao longo do próximo ano, é bem possível que a próxima pessoa a ocupar o Palácio do Planalto assuma o governo diante de um cenário global ameaçador tanto na saúde pública quanto na economia.

Tudo isso sem mencionar riscos latentes de conflitos internacionais. Os principais deles estão em Taiwan, que a China pretende em algum momento reincorporar a seu território, e a Ucrânia, ameaçada de invasão pela Rússia por sua maior aproximação com o Ocidente.

Diante desse cenário, como se comportará o debate político brasileiro ao longo dos próximos meses? Pode ser que nada mude e que os pré-candidatos continuem levando a vida como se o resto do mundo não existisse.

O ex-juiz Sérgio Moro, por exemplo, já manteve a tradição de políticos do Centro-Sul e experimentou um chapéu de couro na sua primeira viagem a Pernambuco. Ao mesmo tempo em que o governador João Dória foi ironizado por “buscar votos em Nova York”, em viagem aos Estados Unidos para encontro com investidores.

Depois do prejuízo causado à imagem do país por Jair Bolsonaro, Lula foi muito bem recebido em sua viagem à Europa. Foi recebido por líderes importantes, como o francês Emmanuel Macron, e políticos europeus demonstraram satisfação com a “volta do Brasil” ao mundo.

Lula escorregou, porém, ao comparar a longa permanência no poder de Daniel Ortega, na Nicarágua, à de Angela Merkel, na Alemanha. Talvez para agradar à esquerda de seu partido, ele ignorou as denúncias de violações de direitos humanos na Nicarágua.

Pois temas como a defesa dos direitos humanos e da democracia não poderão mais ser evitados, especialmente depois de fenômenos como os de Donald Trump e Bolsonaro. Assim como não poderão ficar fora da agenda as questões ambientais. Como no caso da pandemia, a mudança climática atinge a todo o planeta.

A nova realidade global é complexa e vai exigir muito da futura liderança brasileira. O compositor Tom Jobim costumava dizer que o Brasil não era para principiantes. Pois agora se pode acrescentar que o mundo também não é para principiantes.
Marcos Magalhães

A pobreza dos ricos

Poucos dias antes das eleições que puseram fim ao longo consulado da democracia-cristã na Alemanha, li no El País um artigo surpreendente sobre o atraso da “locomotiva da Europa” em relação à chamada “transição digital”. Segundo a articulista (Elena G. Sevillano), que, para a sua investigação, se apoiou em dados de agências e instituições oficiais alemãs, insuspeitas portanto, “na Alemanha, primeira economia europeia, a internet é demasiado lenta”. Porquê? Certamente porque a rede de fibra ótica apenas cobre 16% das empresas e famílias, enquanto em Portugal atinge 87%, segundo informação da Associação de Operadores de Comunicações Electrónicas (APRITEL), divulgada no mesmo dia em que o artigo em apreço saiu no jornal espanhol.

O atraso tecnológico alemão mede-se em indicadores que nos parecem anedóticos. A Alemanha ocupa hoje um dos últimos postos no ranking europeu da Administração digital, ao nível da Bulgária e da Hungria. O fax, imagine-se, continua a ser o meio privilegiado de comunicação entre serviços (há mais de 900 aparelhos ainda em funcionamento nos diversos ministérios!). É certo que o fax não é utilizado nos serviços da Chancelaria; mas isso é apenas porque ali se usa um meio ainda mais antigo: a comunicação processa-se em papel transportado por tubo pneumático…2.400 vezes por mês.

A dispersão e autonomia em matéria digital dos 16 Estados federados é considerada a principal razão para este atraso, que coloca o país na cauda da Europa-em-processo-de-digitalização. Enquanto a fibra ótica já chega a 70% dos habitantes de Colónia, Munique ou Hamburgo, apenas 3% dos residentes de Frankfurt (!) ou Estugarda estão cobertos e Berlim, a capital do país, exibe uns magros 5% de cobertura. Mas, apesar dos potenciais benefícios (na educação, na saúde, nos negócios) do aumento da velocidade de circulação e descarga de conteúdos digitais, só na legislatura que agora se inicia se projeta um investimento substancial em infraestruturas, a muito falada mas sempre adiada Digitalisierung (digitalização).

Fortunato Depero

As revelações do artigo deixaram-me perplexo. Durante as últimas duas décadas, o discurso dominante nas sociedades industrializadas tendeu a inocular-nos a ideia de que sem digitalização não há futuro para as economias desenvolvidas. A “transição digital” tornou-se um slogan político de primeira grandeza, ao qual vieram juntar-se, recentemente, a transição energética e a transição climática. E, no entanto, aí está a Alemanha, motor da Europa e uma das primeiras economias exportadoras do mundo, que, na sua ronceirice prussiana, continua a ignorar em larga medida os benefícios das tecnologias de informação. Aparentemente, os alemães acreditam mais nas coisas físicas do que na desmaterialização; privilegiam a indústria em relação às tecnologias soft; acreditam que a força da exportação está na qualidade e fiabilidade dos seus produtos, não na rapidez do envio das faturas. E, fiéis ao seu modelo de desenvolvimento, continuam a crescer, a crescer, a crescer…para desespero de muitos de nós.

O que isto demonstra não é que a digitalização seja um mau caminho; mas apenas que não é o único para um desenvolvimento sustentado das sociedades humanas. Se compararmos o grau de digitalização atual da sociedade portuguesa com o da alemã, somos tentados a perguntar, como na anedota: então, porque é que a nossa economia não é mais bonita? Talvez porque o aumento exponencial da velocidade de circulação da informação é por nós aproveitado mais para o entretenimento e atividades de lazer do que para as atividades economicamente produtivas (há exceções, claro, e algumas delas de muito bom uso foram durante os confinamentos). Normalmente, somos impacientemente juvenis, demasiado rápidos, a acolher as diversas inovações tecnológicas (telemóvel, multibanco, via verde, fibra ótica), mas pouco inclinados a tirar o melhor partido delas.

Há, além disso, um efeito perverso neste processo de digitalização acelerada da sociedade. Uma espécie de “darwinismo tecnológico” instalou-se nos níveis superiores da sociedade, tendendo a ignorar a grande massa dos que não conseguem acompanhar o ritmo das inovações: uma espécie de seleção natural acabará por deixar para trás os milhões de deserdados da revolução digital. Há uns meses, em pleno processo de vacinação, um canal de televisão passou uma reportagem perturbante: numa freguesia do distrito de Vila Real residem 70 pessoas com mais de 80 anos de idade, cerca de 7% da população. Mas o motivo da reportagem era outro: é que, destes 70 anciãos, apenas sete têm telemóvel! Sendo assim, como é que os outros 63 iam ser chamados para a vacinação? E, já agora, como é que preenchem as declarações de IRS ou os numerosos formulários online que são, hoje em dia, praticamente a única forma de contactar com “os serviços”? O que mais me impressiona nesta situação é o que ela revela sobre a assustadora distância entre o “admirável mundo novo” anunciado pelas grandes cidades e o “pobre mundo velho” com que ainda deparamos, dentro ou fora dos perímetros urbanos e geracionais.

E uma reflexão subsidiária que não pode deixar de surgir: será porque investe muito menos no digital do que países mais pobres que a Alemanha é o mais rico dos países europeus? Recentemente, um familiar meu queixava-se das péssimas instalações nos teatros de Dublin, capital da afluentíssima Irlanda. Mas os irlandeses, que continuam a considerar-se um país pobre apesar de mais de mil multinacionais terem ali as suas sedes, são “agarrados” quando se trata de investimentos, como pode comprovar-se pela fraca qualidade da rede viária que cruza a ilha. O que faz dos países ricos países ricos é precisamente comportarem-se por vezes como se fossem pobres. Só os países pobres costumam esbanjar dinheiro – quer o tenham quer não.

sábado, 11 de dezembro de 2021

País do esgoto


É o meio político brasileiro. Só se pode tolerá-lo tapando as narinas
Paulo Francis

Tempos de fome e recessão

Entramos em recessão, e o ministro Paulo Guedes afirmou que a economia brasileira está decolando. Nenhuma novidade. Bolsonaro nega o aquecimento global e a pandemia de covid-19. Mas nem tudo vai no mesmo caminho, pois, em tributo à realidade, a taxa de juros vai subir.

O conceito de negação surgiu no século passado. Para mim, foi numa carta de Freud, em 1935, que apareceu pela primeira vez. Antes disso, a negação era chamada de outro nome mais direto: mentira.

Há cerca de um mês, Paulo Guedes anunciou um grande projeto de captação de investimentos na área do meio ambiente. Não saiu do papel. Em Brasília, muitos deputados já perceberam que ele é o ministro da semana que vem, está sempre anunciando algo que não se consuma.

Tenho a impressão de que Guedes veio do mundo financeiro, onde o verbo tem um grande peso, mas o mundo real da economia, do saneamento básico, da habitação, da inclusão digital, do desenvolvimento sustentável, tudo isso parece distante e intangível em sua gestão.

Ele foi, até agora, incapaz de apresentar um plano de retomada pós-pandemia. Age como se tudo fosse voltar ao normal sem interferência do governo.

Nas ruas do Brasil, sente-se que a população sofre. Há fome e uma insegurança alimentar crescente.


Bolsonaro pretende abordar o tema com o Auxílio Brasil e, para chegar a ele, sacrificou a credibilidade econômica de seu governo, driblando o teto de gastos e dando um calote nos precatórios.

O Congresso foi apaziguado com o orçamento secreto, cerca de R$ 16 bilhões distribuídos sem transparência. O Supremo, depois de meses de denúncia, deteve o processo. Mas o reabriu com a promessa de romper o segredo daqui para a frente.

E o que foi gasto até agora? Parece que ficará para sempre como um segredo. Rodrigo Pacheco prometeu prestar contas daqui a seis meses. É quase tão remoto como os cem anos de segredo que o Exército determinou para divulgar as razões de seu perdão ao general Pazuello.

Não é justo dizer que eles roubaram R$ 16 bilhões. Também não é justo dizer que os gastaram honestamente. O segredo bloqueia qualquer julgamento, apenas estimula suspeitas.

Um deputado do Maranhão, quadro do PL (atual partido de Bolsonaro), investigado pela Polícia Federal, apareceu contando uma grande quantidade de dinheiro. Nada tão impressionante como o apartamento de Geddel Vieira, abarrotado de notas. Apenas um indício de que o processo foi democratizado e cada um maneja sua pequena fortuna.

Bolsonaro precisa ganhar as eleições e vai mover o Tesouro Nacional. Os deputados que o apoiam precisam ganhar a eleição e, certamente, vão usar as emendas de relator para alcançar seu objetivo. Essa relação entre presidente e Congresso não é nova, mas agora ganha uma estrutura mais consistente com as chamadas emendas de relator.

Impossível entender a economia sem levar em conta o mecanismo que move a política nacional. Guedes transformou-se num ministro que precisa viabilizar o dinheiro de campanha, entendido aqui como a tentativa de Bolsonaro de se ligar aos mais pobres. A Caixa Econômica passa a ser, também, um instrumento de captação de votos, despejando R$ 13 bilhões em empréstimos.

Não há dúvida de que tudo isso significa um alívio imediato e parcial para a sofrida população brasileira. Por outro lado, pode ser um obstáculo para soluções estáveis e de longo prazo. Com a baixa credibilidade, mínguam os investimentos, a inflação é acelerada, perdem-se empregos – enfim, perpetua-se a situação precária do País.

Nada disso parece interessar a amplos setores da política. Um governo populista não se importa em administrar a miséria, desde que continue no seu posto. Bolsonaro não dá a mínima para a situação real do País. Na verdade, com salário, transporte e habitação pagos, ele gasta cerca de R$ 1,3 milhão mensal, em média, no seu cartão corporativo. É possível, vivendo no Palácio da Alvorada, ter uma sensação de riqueza e prosperidade enquanto o País afunda na miséria, com pessoas roendo ossos e revolvendo lixo na luta pela sobrevivência.

O interessante é que um governo desse tipo não se importa também com a possibilidade de convulsão social. Na verdade, acha até que revoltas espontâneas jogam a seu favor, pois justificam o endurecimento do regime, a supressão de liberdades, a perseguição aos adversários políticos.

A única esperança é derrotálo nas urnas. O País não acabará com um segundo mandato de Bolsonaro. O desespero social, a perda de esperança, a destruição irreversível de biomas como a Amazônia, a evasão de cérebros, o empobrecimento cultural, tudo isso nos leva a um lugar desolador. Não podemos simplesmente classificar como uma volta ao passado. Antigamente, éramos o país do futuro. Bolsonaro e a extrema-direita detonarão o futuro.

O ano que começa daqui a algumas semanas é decisivo, acredito que para algumas pessoas, principalmente os jovens. Simboliza um marco, no qual se vai decidir se vale a pena dar murros em ponta de faca num país inviável. O problema é que tudo isso acontece num mundo cada vez mais hostil ao estrangeiro, mundo que a própria extremadireita se esforça por encolher, combatendo a imigração.

As desigualdades sociais ocultas

Um dos grandes problemas do Brasil de hoje é o do disseminado desconhecimento do que é a humanidade da pessoa, uma referência essencial à vida social. O que acarreta tensões sociais e a dessocialização de muitos indivíduos, condenados à anomia. A questão racial e o preconceito são componentes dessa anomalia. As manifestações frequentes de racismo são dela indícios, os de que esta sociedade está sociologicamente doente. O que põe em perigo pessoas inocentes e desvalidas.

Para muitos, no país inteiro, ainda há quem tenha dúvida sobre o que é a condição humana e sobre quem tem direito a invocá-la como atributo de identidade. São repetidas as evidências dessa característica oculta de nossas desigualdades sociais.

Não se trata apenas de racismo. Resquícios da escravidão ainda persistem, na mesma mentalidade que regulava o relacionamento violento entre o senhor e o escravo. Sendo o escravo uma mercadoria, era ele mero equivalente de coisa. Um item de compra e venda. Nem era considerado propriamente humano. Não apenas o escravo negro, africano ou de origem africana, mas também o pardo, o indígena e até o duvidosamente branco.


A abolição foi feita para libertar o branco do ônus econômico da escravidão, sem libertar de fato pardos e negros do estigma de coisa, de semovente, que era o do tratamento dos cativos. Joaquim Nabuco, em “O mandato da raça negra”, já explicara o quanto a escravidão degradava o próprio senhor de escravos, fazia-o expressão do cativeiro.

Não há um único dia sem uma notícia sobre vítimas dessa coisificação ou porque são negras, ou pardas, ou mesmo mulheres, negras ou brancas. Os nascidos para ser subalternos. A escravidão nos legou mais do que racismo, uma cultura de inferiorização de todos os seres humanos frágeis, independentemente de cor e raça.

A Lei Áurea aboliu juridicamente a escravidão, mas não aboliu nem sequer mencionou as formas de relacionamento decorrentes de desigualdade e de inferioridade sociais por meio das quais ela continuaria. A cultura do cativeiro ainda está na essência do nosso modo de ser e de não reconhecer no outro o humano que nele há, até na própria família.

Um desses casos, em dias recentes, ilustrado por fotografia de jornal, foi o de um rapaz negro, de 18 anos, algemado e sendo puxado pela moto de um PM, na Vila Prudente, em São Paulo. Ele estava de moto quando percebeu uma blitz da polícia, deu meia-volta e retornou na contramão. Foi perseguido e detido. Em sua mochila foram encontrados alguns tabletes de maconha, de uma entrega que ia fazer.

Mesmo em face do ilícito, o tratamento degradante que lhe foi dado é ilícito, abuso de autoridade se praticado por alguém investido na função de manter a lei e a ordem.

O tratamento degradante é violação dos direitos da pessoa. Seu crime, grande ou pequeno, não altera sua condição de humano. O delito não contamina a pessoa inteira nem nela suprime a humanidade de base. Na identidade de quem o comete, a mácula que acarreta é temporária. Por isso, nossa justiça formal é restitutiva. Ela pressupõe que a pessoa é maior do que o crime por ela cometido e que tem o direito de prevalecer sobre ele.

Poucas semanas antes, outro ato, mais violento ainda, consumou um ato degradante contra outro jovem, também negro, do Quilombo do Pêga, um dos quatro quilombos do município de Portalegre, Rio Grande do Norte.

O rapaz pediu pedaços de carne a dois sujeitos que estavam comendo um churrasco. Foi rechaçado e xingado de “drogado e bandido”. Injuriado, atirou pedra no mercadinho do agressor e correu. Foi perseguido, amarrado, arrastado, jogado de bruços na rua, surrado enquanto chorava sua dor e sua humilhação. O espetáculo de prepotência foi filmado por moradores. Uma revivescência do que era o castigo do negro no tronco e no pelourinho.

O agressor justificou-se diante das testemunhas, enquanto dava um pontapé nas costas da vítima: “O que é meu eu tenho o direito de defender”. Ou seja, foi esse o pretexto para justificar a violência cometida. Na forma e na verbalização, o agressor separou seu motivo da causa do conflito, que era a causa do agredido.

Ele já responde a processo, denunciado em junho de 2020 pela promotora de Justiça da comarca, por injúria racial, quando agrediu outro negro, numa discussão, chamando-o de “nego safado”, “você é um nego b...” e ainda “suma do meu comércio que nem de nego eu gosto”, segundo a jornalista Rose Serafim, da “Agência Saiba Mais”.

Os dois casos de discriminação e preconceito indicam que a desigualdade social não é a que se mede por índices econômicos. Eles a mediriam de fato se todos os avaliados fossem jurídica e socialmente iguais e reconhecidos como humanos.