quinta-feira, 14 de janeiro de 2021

A responsabilidade do governo nas mortes pela Covid-19

Fora a vacina, não há tratamento precoce para a Covid-19. Quando o presidente Jair Bolsonaro diz que há, mente, e sabe que mente. Como mentem todos os seus acólitos que repetem o que ele diz. Simples assim. Mas parece que não cansam de mentir.

As mais recentes digitais da mentira governamental responsável por tantas mortes estão em ofício encaminhado à Prefeitura de Manaus, na última sexta-feira, onde o Ministério da Saúde pede para visitar as Unidades Básicas de Saúde da cidade.

Qual seria o propósito da visita? Difundir “o tratamento precoce como forma de diminuir o número de internamentos e óbitos decorrentes da doença". Mas tratamento com base no quê? Está dito no ofício publicado pelo jornal Folha de S. Paulo:

"Aproveitamos a oportunidade para ressaltar a comprovação científica sobre o papel das medicações antivirais orientadas pelo ministério, tornando, dessa forma, inadmissível, diante da gravidade da situação, a não adoção da referida orientação".

As medicações defendidas pelo governo não têm eficácia no tratamento do vírus. Mas, e daí? Na nota informativa 17/2020, o Ministério da Saúde sugere um combinado de cloroquina ou hidroxicloroquina com azitromicina.

O ofício enviado à Prefeitura de Manaus é assinado por Mayra Pinheiro, secretária de Gestão do Trabalho e da Educação da Saúde. Ela tornou-se conhecida em 2013 por ter hostilizado cubanos que participavam do curso do programa Mais Médicos.

Em julho de 2020, Mayra escreveu nas redes sociais que os governadores e prefeitos de São Paulo eram os responsáveis pelas mortes por coronavírus que aconteceram em suas regiões por dificultarem "o acesso às medicações para tratamento da doença."

Bolsonaro avalizou, ontem, a posição de Mayra e culpou o governador do Amazonas e o prefeito de Manaus pelo aumento de mortes por lá:

“Mandamos o nosso ministro da Saúde [ao Estado]. Estava um caos. Não faziam tratamento precoce. Aumentou assustadoramente o número de mortes. E mortes por asfixia, porque não tinha oxigênio. Deixaram o oxigênio acabar”. 

Mito que faz gelar




É um sujeito perto de quem cada qual se sente esfriar no seu calor humano. A presença dele faz baixar alguns pontos o valor da vida
Aníbal Machado, "Cadernos de João"

Fábula

Há entre os índios da América do Sul a seguinte lenda:

Dizem que no princípio Deus criou os homens de tal maneira que eles não precisavam de trabalhar, não precisavam de habitações , nem de roupas, nem de comida, viviam todos até aos cem anos e não conheciam quaisquer doenças.

Passou-se algum tempo, e quando Deus olhou para ver como os homens viviam, viu que eles, em vez de se alegrarem com a sua vida, cada qual preocupado apenas consigo próprio, andavam desavindos uns com os outros e tinham organizado uma vida com a qual não só não se alegravam, como a maldiziam.
Então Deus disse para consigo: isto é porque vivem separados, cada qual para si. E para que não fosse assim, Deus fez com que os homens não pudessem viver sem trabalhar - para não sofrerem com o frio e a fome, teriam que construir habitações , cavar a terra, cultivar e colher frutos e cereais.

O trabalho vai uni-los - pensou Deus -, um sozinho não consegue cortar e transportar a madeira e construir uma casa, sozinho não pode preparar as ferramentas, semear e colher, fiar, tecer e costurar roupas. Eles compreenderão que quanto mais unidos trabalharem , mais produzirão e melhor viverão. E isso há-de uni-los.

Passou mais algum tempo, e Deus veio uma vez mais ver como viviam os homens.

Mas os homens viviam pior do que antes. Trabalhavam juntos - não podiam deixar de o fazer - mas não em comum. Estavam divididos em pequenos grupos , e cada grupo procurava roubar aos outros o seu trabalho, e todos se estorvavam uns aos outros , gastavam tempo e forças na luta, o que era mau para todos.

Tendo visto que assim também não estava bem, Deus decidiu fazer com que as pessoas não conhecessem a hora da sua morte e pudessem morrer em qualquer momento. E anunciou-lhes isso. 

Sabendo que qualquer um deles pode morrer em qualquer momento, pensou Deus, não vão, pelos cuidados da vida que pode acabar a qualquer momento, zangar-se uns com outros e estragar as horas de vida que lhes estão destinadas.

Mas não foi isso que aconteceu. Quando Deus voltou para ver como viviam agora os homens, viu que a vida deles não tinha melhorado.


Os mais fortes, aproveitando-se do facto de que as pessoas podiam morrer em qualquer momento, submetiam os mais fracos, matando alguns e ameaçando os outros de morte. E estabeleceu-se uma vida em que só os fortes e os seus descendentes não trabalhavam, e viviam entediados com a ociosidade. Os fracos trabalhavam para além das suas forças e sofriam por falta de descanso. Uns e outros receavam-se e odiavam-se mutuamente. E a vida dos homens tornara-se ainda mais infeliz.

Ao ver isto, Deus, para remediar as coisas, decidiu usar um último meio: enviou à humanidade toda a espécie de doenças, compreenderiam que os saudáveis tinham de ter pena dos doentes e ajudá-los para que , quando eles próprios adoecessem, os saudáveis os socorressem.

E Deus deixou outra vez os homens. Mas quando voltou para ver como eles viviam agora, viu que desde que ficaram sujeitos às doenças , a vida dos homens se tornara ainda pior. As mesmas doenças que, na ideia de Deus , deviam unir os homens , tinham-nos dividido ainda mais. Aqueles homens que obrigavam pela força os outros a trabalharem , obrigavam-nos também pela força a cuidar deles na doença e por isso não se preocupavam eles próprios com os doentes. E aqueles que eram forçados a trabalhar para os outros e a cuidar dos doentes , estavam tão extenuados pelo trabalho, que não podiam cuidar dos seus próprios doentes e deixavam-nos sem ajuda. E para que a vista dos doentes não perturbasse os prazeres dos ricos , criaram umas casas onde os doentes sofriam e morriam sem a simpatia daqueles que tinham pena deles , mas entregues nas mãos de pessoas contratadas, que tratavam os doentes não apenas sem piedade, mas até com repugnância. Além disso, como o maior parte das doenças era considerada contagiosa, receavam o contágio e não se aproximavam dos doentes e afastavam-se mesmo de quem tratava deles.

Então Deus disse para consigo: se nem mesmo este meio consegue levar os homens a compreenderem onde está a sua felicidade, deixá-los aprender à sua custa, pelo sofrimento. E Deus deixou os homens entregues a si próprios.

E deixados entregues a si próprios, os homens viveram muito tempo sem compreenderem que podem e devem ser felizes. Só nos últimos tempos alguns deles começaram a compreender que o trabalho não deve ser um espantalho para uns e uma escravidão para os outros , mas deve ser uma ocupação comum e feliz para todos, que una todas as pessoas; começaram a compreender que com a constante ameaça da morte para cada um de nós, a única coisa racional para qualquer pessoa consiste em passar alegremente , em concórdia e amor , os anos , os meses, as horas e os minutos concedidos a cada qual; começaram a compreender que a doença não só não deve ser motivo de divisão, mas , pelo contrário, deve ser motivo de amor e de união entre todos.

Lev Tolstoi, "Os últimos escritos (1882-1910)"

Pensamento do Dia

 


O ano da desigualdade

O sarrafo deixado por 2020 é baixíssimo. Foi um ano contudo em que — como resposta à peste — criaram-se soluções para proteger a sociedade. Estado de calamidade. Orçamento de Guerra. Auxílio emergencial. Uma cadeia de calor. Ante exigências de exceção, respostas excepcionais rapidamente formuladas e viabilizadas por meio da atividade legislativa. Dois mil e vinte acabou. Levou consigo, formalmente, o estado de calamidade. Parece ter levado também o bom senso, já que se fala, como se o vírus não mais houvesse, em retomada da agenda de austeridade fiscal; e sobre nós baixa novamente o teto de gastos.

O vírus permanece, no entanto. O estado de calamidade na vida dos brasileiros permanece. Tudo indica que se alargará, sem o auxílio emergencial; cujo fim terá por efeito empurrar as pessoas à busca de emprego. Não há emprego. Há a segunda onda.

A fotografia perversa não nos autoriza ao otimismo: temos um estado de calamidade de súbito sem reconhecimento oficial, um encilhamento fiscal num país que precisa de indução da economia popular (ou será a fome), um vírus de circulação recrudescente, um Parlamento paralisado por disputa interna de poder e um governo calamitoso, cujo líder populista-autoritário — a só pensar em reeleição — fortalece-se no caos.



Sou a favor do teto de gastos. Considero importantes as amarras de uma âncora fiscal. Mas em condições normais. Não é o caso.

O sarrafo legado por 2020 é baixo, mas 2021 salta sem qualquer colchão — sem qualquer rede de amparo. A pobreza aumentará. A miséria se radicalizará. Tudo o mais constante, sem respostas organizadas pelo Estado, 2021 será o ano do agravamento da desigualdade num país já barbaramente desigual.

Há muito escuto sobre crescimento econômico em K num Brasil minado pela pandemia. Aí está. A perna que ascende sendo a dos mais ricos — para os quais, o palestrante Guedes tem razão, a ereção já é em V. A que desce, a do tombo dos mais pobres. Dois mil e vinte ecoará longamente na vida dos ferrados. O mundo real se imporá; ao qual se reagirá com improviso e populismo.

Sem estado de calamidade formal, prorroga-se o estado de calamidade real em que prospera um governo calamitoso; em que os pobres serão mais desprovidos e em que avançará um presidente-candidato que se alimenta de crise. Estão dados os gatilhos para respostas economicamente populistas. Em vez de discutir-se a revisão, a flexibilização, do teto de gastos, movimento necessário face à peste, investe-se nas circunstâncias inseguras para sua violação. Questão de tempo até que o governo abra o tesouro e gaste sem planejamento para enfrentar um surto de miséria que ajudou a encorpar.

Países não quebram. Mal governados, porém, pioram a vida dos seus. Mal governados, aí sim, quebram, depauperam, mesmo matam, os seus — os mais pobres. É o que produz Jair Bolsonaro por meio de rara combinação de irresponsabilidade e incompetência, conjunto potencializado pela febre reacionária do fenômeno que encarna.

O que produz Bolsonaro: sustentação, alongamento, do estado de calamidade informal — devastador de pobres — de que depende a competitividade de um governo, de um governante, calamitoso.

O Brasil não está quebrado, mas a economia não reagirá enquanto não houver vacinação. E quem é nosso principal agente antivacinação? Bolsonaro. Aquele que, se vitimizando, diz que nada consegue fazer. Consegue, sim. Deformar. Destruir. Mesmo sem trabalhar: corrompe. Nunca trabalhou, o dilapidador. E queria conseguir mais? Alguém capaz de declarar que o país está quebrado, admitindo a inação-impossibilidade do próprio governo, logo após dezessete dias fritando ao sol em férias, cujo auge consistiu naquela encenação de mergulho nos braços do povo.

Neste período de vadiagem, em que o presidente reforçou seu compromisso de boicotar o Programa Nacional de Imunização, de cuja eficiência depende a liberação da economia com que diz se preocupar, o Brasil não pagou uma dívida de US$ 292 milhões para aporte de capital no Novo Banco de Desenvolvimento, instituição financeira do Brics de que é sócio. Calote. O governo caloteiro, porém, botou a culpa no Congresso. É, de novo, expressão do tal “não consigo fazer nada”. A operação da velha forja de inimigos artificiais de que Bolsonaro precisa para cultivar suas milícias e disfarçar suas incapacidades.

Lembro que este é o presidente que, assim que assumiu, disparou que o Brasil era ingovernável. A culpa sendo sempre dos outros. Do establishment etc. Uma mentira muito influente, que circula mesmo ante os fatos. Por exemplo: a Câmara, que criminaliza (mas desde a qual construiria tremenda empresa familiar), votou com seu governo em 74% de suas matérias de interesse. Fato. A Câmara é governista. Contra o governo, joga o próprio governo.

A incompetência — tanto mais em meio a um estado de exceção — pode ser muito lucrativa. Gera oportunidades — também políticas — a um autocrata. Bolsonaro é um irresponsável. Não tem a menor ideia do que seja a Presidência da República, mas não ignora o alcance da palavra do presidente difundindo-se no zap-profundo. Países não quebram. Mas instituições são corrompidas desde dentro. Países não quebram. Quebram as gentes. Matam.

Climate War: 'Estamos perdendo a guerra climática?'

 

Vídeo lançado pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) questiona se governos e empresas estão agindo para defender ou para destruir a Amazônia, massacrando os povos nativos que habitam o bioma há séculos. Em formato de paródia dos noticiários cinematográficos produzidos durante a Segunda Guerra Mundial.

O Brasil de Bolsonaro afunda

Os sinais estão espalhados por todos os lados. Só não vê quem não quer. O Brasil de Jair Bolsonaro desmorona. Todos os erros cometidos ao longo dos dois primeiros anos de seu mandato começam a ser cobrados. O problema é que a conta será paga por todos, inclusive por aqueles que têm pavor da figura presidencial, como você e eu.

Na terça-feira, o francês Emmanuel Macron expressou um sentimento com que a maioria dos líderes europeus concorda, o Brasil de Bolsonaro não é um país confiável. Como não se obtém um compromisso em favor do meio ambiente e da Amazônia, muito menos medidas nesse sentido, Macron propôs um boicote à soja brasileira. E sugeriu que se plante soja em solo europeu. Para Macron, continuar dependendo da soja brasileira seria “endossar o desmatamento da Amazônia”. 

Talvez o presidente francês não ignore que os grandes produtores de soja brasileiros não cortam uma árvore nativa nem acendem um palito de fósforo nas florestas brasileiras há pelo menos 20 anos. Que os incêndios e as derrubadas de matas são feitas hoje em dia por madeireiros, garimpeiros, grileiros e pequenos produtores rurais, muitos deles de assentamentos de sem-terra. Mas há um símbolo nisso que precisa ser mantido.

Macron ataca esse símbolo, a política governamental brasileira que aceita e incentiva esses desmatadores, mesmo que sua contribuição para a economia nacional seja mixuruca perto da riqueza que geram os grandes produtores rurais. Estes, que já estavam sob enorme pressão graças a nosso bolsonarismo ambiental, agora ouvem do presidente de um dos dois maiores países agrícolas da Europa que é hora de reagir contra a soja nacional.

O relatório anual da Human Rights Watch (HRW), divulgado ontem, também ataca o frouxo combate do governo brasileiro ao desmatamento e às queimadas. Para os terraplanistas que cercam ou seguem cegamente sua excelência, a entidade deve ser ignorada porque é uma “ONG esquerdista”. Sobre Macron, devem fazer referência a sua mulher, como as que o nosso misógino presidente um dia fez, por isso ele também não deve ser levado em conta.

Agora, perguntem aos produtores rurais o que eles acham disso. O Ministério da Agricultura divulgou uma nota vaga dizendo que Macron estava enganado, que a soja brasileira é produzida de modo sustentável. Não foi assinada pela ministra Tereza Cristina e não se referiu ao relatório da HRW.

De outro lado, a Ford anunciou sua saída do Brasil. As razões devem ser as alegadas, por reposicionamento global da empresa, pelo movimento do mercado etc. Mas é evidente que o ambiente de negócios sob Bolsonaro não estimula qualquer argumento contrário. Macron, que está do outro lado do Atlântico, percebeu que este não é um país sério. Imagine, então, o que pensam os dirigentes da montadora que operam aqui dentro.

Se até o Banco do Brasil, joia do Estado nacional, orgulho provinciano de muitas gerações de brasileiros, anunciou um plano de demissão voluntária para acertar suas contas, pense como estão os outros bancos, as outras empresas que operam em solo pátrio, debaixo da incompetência governamental que conhecemos. Quem puder pular fora vai pular. Mesmo com algum prejuízo, a contabilidade mais adiante pode comprovar o acerto da saída.

Além das muitas deficiências nacionais (falta de infraestrutura, sobretudo ferroviária, produtividade baixa, barafunda tributária), o país agora vive sob o comando de um alucinado que só se ocupa de política. Pior, do lado escuro e sombrio da política. O mesmo relatório da Human Rights Watch acusou nominalmente Bolsonaro por tentar sabotar as medidas contra a Covid-19. A ONG afirma ainda que o governo mais espantoso que o país já viu incentiva a violência policial e desrespeita os direitos das mulheres, dos índios e de pessoas com deficiência.

O Brasil de Bolsonaro afunda no modo acelerado. Tudo o que ele puder fazer para jogar o país para baixo, vai fazer. A herança que deixará será maldita, essa sim. Para lá de maldita.

Não estamos quebrados, mas perdidos

A fala do presidente Bolsonaro de que o Brasil está quebrado e de que ele não consegue fazer nada em termos de alocação de recursos repercutiu muito. Apesar de reconhecer que a situação econômica e fiscal embute riscos relevantes, discordo do comentário, pois julgo que há muito a ser feito.

O Brasil avançou em várias frentes nos últimos 40 anos, tais como: a construção de uma democracia sólida; um Congresso e um Judiciário independentes e capazes de evitar equívocos do Executivo; a universalização do atendimento gratuito no sistema público de saúde - quase três bilhões de atendimentos anuais desde procedimentos ambulatoriais até cirurgias de alta complexidade; a estabilização econômica - com inflação baixa e estabilidade monetária; e a modernização do setor de commodities, com o país tornando-se um dos maiores exportadores de produtos agropecuários e minerais.

Todavia, não é possível festejar essas conquistas, pois vários países com estágios de desenvolvimento mais atrasados no fim dos anos 1970 avançaram muito mais. Cerca de 60% da população brasileira nasceu depois do início da década de 1980 e não viveu os anos de crescimento pujante. O crescimento médio do PIB desde então foi inferior a 2,5% ao ano, com uma expansão per capita muito reduzida.

As distorções domésticas são vergonhosas. Enquanto uma parte diminuta da sociedade vive em condições compatíveis às dos países desenvolvidos, a maior parcela vive as agruras do subdesenvolvimento, com elevada deficiência nos sistemas, por exemplo, de educação - quase 50% dos brasileiros com 25 anos ou mais têm, no máximo, ensino fundamental completo - e de saneamento - 30% dos domicílios não têm rede geral nem fossa séptica.



O destaque negativo continua sendo a baixa qualidade do ensino, refletindo a pouca relevância atribuída ao tema por parte da sociedade. A inoperância do Ministério da Educação (MEC) durante a pandemia comprova a inépcia operacional dos seus dirigentes. Apesar de não ter responsabilidade direta pela gestão do ensino básico, o MEC tinha por obrigação propor ações para minimizar os custos da ausência de aulas presenciais para crianças e jovens e do pouco ou nenhum acesso ao aprendizado remoto pelos alunos das escolas públicas.

A perda de um ano de aprendizado prejudicará a produtividade da mão de obra nos próximos muitos anos. O aumento do capital humano será fundamental para o crescimento do país a partir de agora, pois o bônus demográfico - aumento da força de trabalho - está praticamente exaurido. Não consigo desenhar um ciclo de forte expansão dos investimentos no longo prazo, mesmo com um ambiente favorável de juros baixos, sem que haja um maior foco no ensino básico - infantil, fundamental e médio.

O atual governo carece de um planejamento mínimo e de uma capacidade de negociação para construção de uma estratégia de convencimento da sociedade. Mesmo com um diagnóstico correto, a área econômica enfrenta grande dificuldade para operacionalização das suas propostas. Em parte, isso se deve à indefinição do governo sobre suas prioridades, fora a retrógrada agenda dos costumes e a equivocada demanda pelo voto impresso. À luz da atuação do Ministério da Saúde, que parece reagir apenas às repercussões na mídia e ao embate com o governo de São Paulo, o combate à pandemia não parece ser uma prioridade.

Apesar da relevância de uma reforma administrativa, a opção do governo e da maioria dos líderes partidários de não incluir os atuais servidores civis e militares na atual proposta torna pouco útil sua tramitação para efeito da melhoria das contas públicas nesta década. Assim, a busca pela aprovação no Congresso de uma reforma tributária seria uma melhor alternativa.

Os últimos governos não foram capazes de organizar um debate profundo sobre uma reforma ampla desse código. Isso facilitou a proliferação de alterações que distorceram ainda mais o sistema de impostos, visando, por exemplo, a proteção da indústria nacional. Essas intervenções prejudicam a utilização eficiente dos recursos domésticos escassos, privando os consumidores do acesso a produtos de melhor qualidade e mais baratos. Ao tornar o sistema tributário extremamente complexo, o oferecimento desorganizado de subsídios e abatimentos fiscais nas últimas décadas gerou um enorme número de pendências jurídicas e de custos fiscais inacreditáveis, traduzidos pela ampliação dos valores e do número de precatórios.

Passados mais de dois anos de mandato, o atual governo também não foi capaz de apresentar uma proposta de reforma tributária completa. O governo encaminhou para o Congresso apenas uma primeira fase dessa proposta em meados de 2020, com a garantia de que logo enviaria as demais. Isso ainda não ocorreu. Fora a cansativa cantilena, não houve nenhum esforço consistente de convencimento dos parlamentares. Em um cenário em que todos são a favor da reforma, mas contra revisões que reduzam seus privilégios tributários, essa dinâmica não é alentadora, como comprovado pela reação de alguns setores contra o recente anúncio do governo de São Paulo sobre a redução de incentivos fiscais.

Apesar de não estar quebrado, o país tampouco está uma maravilha. A esperança dos brasileiros é de que um ou dois governos inertes não alteram as perspectivas de longo prazo de um país. Não será apenas uma ou duas décadas que mudarão os desígnios do Brasil. Todavia, 40 anos de expansão do PIB muito inferior à média dos demais países emergentes deixam muitas marcas, ainda mais quando os próximos anos não parecem auspiciosos.

O país parece perdido no atual ambiente de picuinhas políticas, de embates entre os representantes dos três poderes, do suposto excessivo foco do presidente nas eleições de 2022 e da falta de uma agenda que seja mais do que discursos cada vez mais vazios. O Brasil não precisa de milagres, mas sim do empenho do governo e das lideranças políticas visando a aprovação no Congresso de um conjunto sólido de ajustes e reformas em 2021 e 2022. Pensando bem, isso seria quase um milagre.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2021

Tasso avisa: trinquem os dentes

Na sua entrevista aos repórteres Renan Truffi e Vandson Lima, o senador Tasso Jereissati deu um aviso, coisa de quem conhece a política brasileira: “As instituições precisarão ser fortes, trincar os dentes”. Há uma semana vê-se o espetáculo da partida de Donald Trump num país de instituições fortes. Depois de um sobressalto inédito, Joe Biden assumirá a Presidência dos Estados Unidos. As instituições brasileiras não têm a força das americanas, e nos próximos dois anos elas passarão por um teste de estresse.

Jair Bolsonaro, com sua opção preferencial pelo apocalipse, já deu a pista: “Se nós não tivermos o voto impresso em 22, uma maneira de auditar o voto, nós vamos ter problema pior que os Estados Unidos”. O inesquecível Chacrinha dizia que “não vim aqui para explicar, eu vim aqui para confundir”.

Ao confundir, Bolsonaro explicou: ele sonha com um problema na eleição presidencial. Ele já sonhou com saques na pandemia e com uma intervenção no Supremo Tribunal Federal. Um apocalipse viria do andar de baixo. O outro talvez viesse daquilo que ele chamou de “as minhas Forças Armadas”. Nenhum dos dois se materializou. Sabe-se lá o que Donald Trump tinha na cabeça, mas no dia 6 de janeiro os seus milicianos (“we love you”) bateram num muro e agora estão sendo recolhidos pela polícia.



A pandemia e os problemas sociais dela decorrentes não foram produzidos pelo governo de Bolsonaro, mas sua barafunda agravou-os. Outros, contudo, saíram dele e, se isso fosse pouco, não têm origem racional.

Bolsonaro já encrencou com os três maiores parceiros comerciais do Brasil. Ganha a fritada de morcego do mercado de Wuhan quem for capaz de dizer o que o Brasil tinha a ganhar metendo-se no processo eleitoral americano ou no argentino. Ganha duas fritadas quem encontrar uma razão plausível para as caneladas que dá no governo chinês.

Não se sabe de outro presidente brasileiro que tenha encrencado com qualquer um dos três sem motivo razoável. Isso acontece numa época em que poderosas empresas industriais como Ford e Mercedes-Benz vão embora do Brasil. Nenhuma das duas faz as malas por causa de Bolsonaro. As montadoras perderam dinamismo, e quem ganhou vitalidade foi o agronegócio. Sem ter tomado medidas relevantes para estimulá-lo, Bolsonaro associou-se aos agrotrogloditas e tisnou a marca das exportações nacionais.

O senador Jereissati mostrou o tamanho do problema e apontou uma conduta: “Temos que trincar os dentes e termos instituições bem fortes: Congresso, Supremo, imprensa”.

Serão dois anos de sobressaltos, mas não há caminho melhor.

Dá-lhe, Brasil!

 


Tempos estranhos

Só agora, com o início das obras de restauração do Cristo Redentor, é que me dei conta de que temos a mesma idade — somos, ele e eu, de 1931. As semelhanças, infelizmente, param por aí. O Cristo está mais bem conservado e, com a reforma, vai ficar novinho em folha para continuar de braços abertos sobre a Guanabara. Se antes ele já tinha sido eleito informalmente como uma das Sete Maravilhas do Mundo, imagina quando for recauchutado.

 Ele, não sei, não perguntei, mas, de minha parte, não me lembro de ter vivido tempos mais estranhos — e olha que “vivi” o suicídio de Getúlio Vargas, a renúncia de Jânio Quadros, a deposição de Jango, a ditadura militar, a redemocratização etc. O problema é que agora foram reunidas todas as crises de uma vez só, a começar pela pandemia — política, econômica, ambiental, ética.


Pessoalmente, não tenho do que me queixar. Enquanto mais de 200 mil brasileiros já foram impiedosamente exterminados pelo coronavírus, eu cheguei são e salvo a 2021, claro que em quarentena absoluta. O que que eu quero mais? Queria, por exemplo, que não houvesse uma mesquinha guerra pela vacina. A politização atingiu tal nível que o presidente chegou a ameaçar: “O povo brasileiro não será cobaia da vacina chinesa de João Doria”. 

Desde pequeno, uma de minhas rotinas anuais era me vacinar. Foi assim, com uma picadinha no braço, que me livrei de poliomielite, coqueluche, varíola, catapora, entre outras doenças cujos nomes nem me lembro mais. Não há razão para explicar por que, apesar desse passado histórico, com um centenário instituto como o Butantan, com uma vacina dentro dos padrões da OMS, como a CononaVac, o governo demore tanto a iniciar o processo de imunização?

Enquanto isso, como se as milhares de mortes pela pandemia não fossem suficientes, a Polícia Federal expediu um recorde de 180 mil registros de armas de fogo em 2020, que servem, como se sabe, para produzir mortes, não para evitá-las. 

Tempos estranhos. Por isso, por essa preferência, Bolsonaro, que já declarou querer uma pátria armada, é também conhecido como “BolsoNero”.

Verdadeiros construtores do país


Escrevo sobre construtores, pedreiros, carpinteiros, artesãos em geral, porque são eles que erguem um país, e são mais interessantes
Ken Follett

Bolsonaro deve preparar-se para colher o que plantou

O ministro Paulo Guedes, da Economia, soube pela imprensa do fechamento das fábricas da Ford no Brasil e da retirada da empresa do país depois de mais de 100 anos. Foi a primeira montadora de automóveis a se estabelecer por aqui.

Guedes caiu na mais irresistível tentação que acomete os homens públicos – mentir ou exagerar. A primeira coisa que disse foi que o encerramento das atividades da Ford no Brasil destoa da forte recuperação econômica que vive o país.

Foi mais fundo o governador Rui Costa (PT), da Bahia, que sedia uma das fábricas que será fechada: “Não há planejamento. O que pensaram nos últimos cinco anos para aumentar os investimentos em tecnologia e industrialização? Nada.”

E concluiu com uma frase de efeito, mas não distante assim da realidade: “Estamos satisfeitos em nos tornarmos uma grande fazenda”. Bolsonaro preferiu criticar a Ford e esconder que seu governo aumentou os subsídios dados às montadoras.


No momento em que mais o governo hostiliza a China, o maior parceiro comercial do Brasil, chamando a Covid-19 de vírus chinês, desancando a vacina Coronavac e rejeitando a tecnologia chinesa para o 5G, a quem ele pensa recorrer no caso da Ford?

O Ministério da Economia já entrou em contato com outras montadoras sobre a possibilidade de elas assumirem as fábricas da Ford que serão fechadas em Camaçari (BA), Taubaté (SP) e em Horizonte (CE). E uma das montadoras é a Chery, chinesa.

Quando a necessidade aperta, às vezes o realismo prevalece mesmo em governos ineptos. O céu não é de brigadeiro, nem mesmo de paraquedista afoito capaz de saltar para a morte só porque lhe mandaram saltar, e ele se vê como um herói.

A Ford vai embora porque atravessa uma crise empresarial faz anos dentro de uma crise maior que atinge outras marcas famosas de veículos. Só falta o governo brasileiro imaginar que se Donald Trump tivesse sido reeleito isso não aconteceria.

O amigo dileto de Bolsonaro nada fez pelo Brasil enquanto presidente dos Estados Unidos – por que faria caso tivesse derrotado Joe Biden? E por que Biden socorreria o Brasil se Bolsonaro apoiou Trump e justificou a invasão do Capitólio?

No início do seu governo, Biden pretende convocar uma reunião da Cúpula das Democracias. Haverá lugares nela para Bolsonaro e outros chefes de Estado marcadamente autoritários? É de duvidar que sejam convocados. Seriam estranhos no meio.

O mundo dito civilizado não gostou do que viu nos primeiros dois anos de governo Bolsonaro e perdeu a esperança de que os próximos dois anos sejam diferentes. O presidente brasileiro prepara-se para começar a colher o que plantou.

Emmanuel Macron, presidente francês, outro governante destratado por Bolsonaro que chamou sua mulher de feia, deu uma ideia do que possa vir quando disse, ontem, em Paris durante a cúpula sobre a defesa da biodiversidade: Continuar a depender da soja brasileira seria endossar o desmatamento da Amazônia.

Aperte os cintos, Bolsonaro.

Incógnitas e lutas caducas

Aos trancos e barrancos, em violentas erupções eles governam. Se o país está quebrado, é hora de comprá-lo. Barão de Rothschild vaticina: a riqueza troca de dono quando há sangue nas ruas. Os mercados lucram com a miséria humana, explica o New York Times, porque as bolsas estão bombando na pandemia.

Como o presidente libera sentimentos que ninguém quer ver e em geral destrói todos os que cometeram o erro de nele acreditar, há alguma coisa no ar que não fecha. Declarar a insolvência do Brasil sabendo da manipulação da descrença que a isso se segue permite supor que alguém já lhe deve mais do que ele jamais poderia dever.

Brasil e EUA vivem a moléstia do vitorioso mal-agradecido que debilita a glória de presidir o país pela mortificação pessoal de ocupar cargo acima de seu nível. Porque esse negócio de dizer que não pode fazer nada quer dizer que não pode fazer tudo em regime legal. Alusão ao mundo subterrâneo, motor da palhaçada ultrajante no Capitólio querendo produzir torpor na democracia.

A democracia não tem a velocidade maldosa do impune. Não detém sua esterilidade petulante, nem suaviza a dureza da pedra ou incute valores morais em atitudes destrutivas. Basta uma declaração para resumir a aversão ao diálogo, como campeão de lutas caducas.

Dois países, um mole, outro desarranjado, assistem ao êxtase de líder errado, num concurso de paixão sem razão e capacidade de frear. Impeachment é por crime de responsabilidade. De irresponsabilidade é interdição, desqualificação por circunstância. Como a sorte lançou votos em seu caminho, drenar o pântano é aposentar quem não entende as dificuldades da vida normal e fazer regredir a preferência pelo conservadorismo político desinformado e pelo liberalismo tosco.


O poder não se comove. Quando diz decência pode significar indecência. A confusão se amplia. O excesso de estimulação que recebe o governante produz um vazio extremo no governado que confunde poderoso como alguém de ego forte. Negativo. Forte é a circunstância do ambiente facilitador em que vive. A má autoridade não injuria ou zomba de ninguém. A agressão vem do lugar que ocupa.

Há uma inversão na ordem. Dois países gigantes perdem a fé na sua força por não saberem lidar com problemas pessoais de presidentes e o ambiente de fúria e inveja que propagam. Muitas autoridades trazem de casa seus costumes e ampliam a confusão entre o público e o privado.

O Brasil vive uma desnecessidade de poder. Como se os anéis justapostos do arbítrio, da criminalidade e do delito produzissem uma atividade motora que vai do indivíduo à autoridade, do crime ao tribunal, sem distinção ou limite. Quem julga o juiz em nossa pátria? Quem detém do governante o delito? Quem protege a paz do cidadão? As instituições começam a não desempenhar papel relevante na vida pública, com mãos soltas para executar o que for.

Erra também o Banco Central se deixa sua independência ser entendida como garçonnière de bolsa e suas fantasias. Alienação baseada em comodismo acadêmico supersticioso: considerar o mercado amante volúvel, sem emprego e produtividade. E supor economicamente irracional pensar também em metas de confiança, pleno emprego, crescimento econômico e estabilidade da moeda. Sozinha e paparicada, a moeda especulativa, dogma do iliberal brasileiro, é uma desmaterialização produtiva, que permite que valorização no mercado de ações seja desvinculada da economia real. A economia financeira do risco e som de canhão acha que a paz dá prejuízo.

Assim começa janeiro. A terceira pré-estreia desse filme de quatro anos. E a bagunça geral vai produzindo um País sem testemunha que não sabe que a sucessão no Congresso é a principal decisão econômica de 2021. Ou continuaremos a assistir a bolsa rica e bolso pobre; especulação subir, produção sumir; o empresário investir, o imposto comer; o jovem crescer, o emprego desaparecer. Agravado pelo erro de querer desvincular empresa e escola nas políticas para jovens vulneráveis. Trabalho sem estudo é gasolina na evasão escolar, ponte inútil para o futuro.

O Brasil parece renunciar ao amor pelo seu povo. Não há melhores a imitar. Desde 1926, de Araraquara Mário de Andrade alertava: “Se três brasileiros estão juntos estão falando porcaria... Pode ser que os outros sejam mais nobres. Mais calmos certamente que não. Mas não tenho medo de ser mais trágico... O presente é uma neblina vasta. Hesitar é sinal de fraqueza, eu sei. Mas comigo não se trata de hesitação. Trata-se de uma verdadeira impossibilidade, a pior de todas, a de nem saber o nome das incógnitas”. Enfim, estão aí o ano novo e o mesmo presidente sem horizonte.

Não é a primeira vez que o Brasil vive o amor devorante do narcisista que parece deixar-se amar para levar do outro os esforços em proveito de si mesmo. Diante do deboche e da audácia releiam Macunaíma. Para pular cedo da canoa, dar uma chegada até a foz do Rio Negro, buscar a consciência ali deixada e ajudar a tirar do buraco o ano novo.

No dia D. Na hora H

Quarentena ano 2. Confesso. Estou tomada de inveja. Primeiro, de quem mora à beira mar; de quem abre a janela e sente o cheiro do mar; de quem fez as malas, ligou o foda-se, e foi pra praia; de quem virou o ano com o pé na areia, pulou sete ondas e encharcou a roupa com a aguaceira de uma onda ousada. De máscara. Mantendo distância. Claro.

Mineiro já nasce com nostalgia do mar, padece de saudade atávica do mar, que tá ali pertinho, mas negou banhar Minas Gerais. Trem desacertado, sô! Na geografia, Minas é um dos quatro estados que fazem o sudeste.

Por que - valha-me Deus! - ficou sem mar? Cercada por São Paulo, Rio de Janeiro e Espírito Santo e seus mares, não dava pra trocar um pedacinho do grande nariz da terra mineira por uma nesgazinha que fosse de areia, praia e mar?

Enfim, não deu. Quis o destino que assim fosse. E os mineiros, até os que nascem e morrem sem nunca ver o mar, têm saudades atlânticas do Atlântico que é o mar mais perto e poderia ser um pouco também nosso.

Neste verão, nem queria, nem iria “glomerar”, só tirar uma casquinha do mar, da maresia, da brisa marinha.


A praia do verão é a inveja 1, neste janeiro. É meio eterna. Agora, inveja imensa mesmo, daquelas de envenenar o espírito, é de quem tem vacina, quem planejou comprar seringa, agulha e muitas doses da CoronaVac, da Sputinik, AstraZeneca, Janssen, Pfizer, Moderna. Sejam as de vetor viral ou de RNA. Com eficácia de 60 ou 90%. Com imunização de curto ou longo prazo. De uma dose ou 10.

Inveja de quem sabe e acredita que não há saída, ou imunizamos ao menos 70% da população ou o vírus segue comendo solto, adoecendo, mutando e matando – gente e o país.

Inveja monstra de Israel e Emirados Árabes Unidos onde a vacina avança em velocidade de Fórmula 1. Inveja de Portugal e da Inglaterra que avisam e marcam a vacina por WhatsApp. Inveja da Argentina e do Chile que têm presidentes se virando nos 30 para conseguir imunizar seus cidadãos.

Invejas dos países que se prepararam para a vacinação em massa e, mais rápidos ou mais lentos, estão empenhados em cumprir o dever humanitário de salvar vidas e devolver aos seus alguma normalidade possível em tempos de covid.

Inveja de ter um Presidente que junte o tico com o teco, que tenha um projeto – algum projeto de governo um pouquinho maior do que vender armas, brincar de pateta risonho, gravar lives e mentir diariamente pra seus iguais em obtusidade, que batem ponto matinal na porteira do Alvorada.

Inveja de ter um governo. Qualquer coisa à direita ou à esquerda, que, ainda que não agrade a todos, mostre-se governando, não batendo cabeça e continência para a incontinência verbal, para ignorância, para a inépcia.

Inveja dos que, na desgraceira da pandemia, têm um ministério atuando e um ministro da Saúde real, não um soldado cabeça de papel que, sem nem ficar vermelho, declare aos seus compatriotas, às famílias dos 200 mil mortos do covid, que aqui, no Brasil de hoje, teremos vacina no dia D, na hora H.</p>
Tânia Fusco

terça-feira, 12 de janeiro de 2021

O Dia D e a Hora H do impeachment de Bolsonaro

Uma vez que no próximo dia 1º sejam eleitas as novas direções do Congresso brasileiro, certamente deputados e senadores se verão diante do desafio de refletir sobre a abertura de um processo de impeachment contra Bolsonaro.

Alega Rodrigo Maia (DEM-RJ), atual presidente da Câmara, que não haveria tempo até lá para que o processo fosse aberto. Bobagem! Maia guarda na gaveta mais de 20 pedidos que recebeu. Só depende dele escolher um e aceitá-lo.

Não o fará sob a alegação de que isso tumultuaria a eleição do seu sucessor. A questão será enfrentada pelo novo presidente da Câmara. Se Arthur Lira (PP-AL), candidato de Bolsonaro, se eleger, não haverá processo tão cedo.

Se o eleito for Baleia Rossi (MDB-SP), apoiado por Maia, partidos do centro e da esquerda, o processo poderá ser aberto. Motivos para isso não faltam. Há aos montes. Se o processo não vingar, é o que menos importa. O certo deve ser feito.

A esse respeito, em conversa, ontem, com um grupo de devotos, Bolsonaro comentou: “Vocês não sabem o tamanho da minha paciência. Eu sou imbrochável, tá ok? Então, vão ter que me aturar. Só papai do céu me tira daqui, mais ninguém”.

Paciência é tudo o que ele não tem. Ninguém é “imbrochável”. Se por “papai do céu” quis se referir a Deus, fique sabendo que Deus, também citado no preâmbulo da Constituição que vige, deu autonomia aos humanos para que façam suas escolhas.

Melhor deixar Deus de fora disso. Fazer o certo só dependerá do Congresso.

A mentira como ferramenta política

Em um telegrama para Washington em 1944, George F. Kennan, conselheiro da Embaixada dos EUA na Moscou de Stalin, alertou sobre o poder oculto mantido por mentiras, observando que o governo soviético "tinha comprovado algumas coisas estranhas e perturbadoras sobre a natureza humana."

A mais importante entre elas, escreveu ele, é que, no caso de muitas pessoas, “é possível fazê-las sentir e acreditar em praticamente qualquer coisa”. Não importa o quão falso algo possa ser, ele escreveu, “para as pessoas que acreditam nisso, torna-se verdade. Ela conquista a validade e todos os poderes da verdade.”

A visão de Kennan, gerada por sua experiência na União Soviética, agora tem uma ressonância assustadora para os EUA, onde dezenas de milhões acreditam em uma "verdade" inventada pelo presidente Donald Trump: que Joe Biden perdeu a eleição de novembro e tornou-se presidente eleito apenas por meio de fraude.

Mentir como ferramenta política não é novidade. Nicolau Maquiavel, escrevendo no século 16, recomendou que um líder tentasse ser honesto, mas mentir ao dizer a verdade “o colocaria em desvantagem”. As pessoas não gostam de ser enganadas, observou Maquiavel, mas "aquele que engana sempre encontrará aqueles que se permitem ser enganados.”

A disposição, e até mesmo o entusiasmo, de ser enganado tornou-se nos últimos anos uma força motriz na política em todo o mundo, principalmente em países como Hungria, Polônia, Turquia e Filipinas, todos governados por líderes populistas adeptos a contar meias verdades ou inventá-las completamente .

Janez Jansa, um populista de direita que em 2018 tornou-se primeiro-ministro da Eslovênia - o país natal de Melania Trump - foi rápido em abraçar a mentira de Trump de que ele venceu. Jansa o parabenizou após a eleição de novembro, dizendo "está muito claro que o povo americano elegeu" Trump e lamentando "fatos negados" pela grande imprensa.

Até o Reino Unido, que se considera um bastião da democracia, foi vítima de mentiras evidentes, mas amplamente aceitas, votando em 2016 para deixar a União Europeia após alegações do lado pró-Brexit de que sair do bloco significaria 350 milhões de libras a mais, ou US$ 440 milhões, todas as semanas para o serviço de saúde do país.

Aqueles que propuseram essa mentira, incluindo o político do Partido Conservador que desde então se tornou o primeiro-ministro do Reino Unido, Boris Johnson, mais tarde admitiram que ela havia sido um "erro" - embora só depois de terem vencido a votação.

Mentiras maiores e mais corrosivas, aquelas que não apenas mexem com números, mas remodelam a realidade, encontraram apoio extraordinário na Hungria. Lá, o líder populista Viktor Orbán classificou o investidor e filantropo George Soros, um judeu nascido na Hungria, como o mentor obscuro de um plano sinistro para minar a soberania do país, substituir os húngaros nativos por imigrantes e destruir os valores tradicionais.

A força desta teoria da conspiração antissemita, disse Peter Kreko, diretor executivo da Political Capital, um grupo de pesquisa em Budapeste há muito crítico de Orban, reside em seu apelo a uma "mentalidade tribal" que vê todas as questões como uma luta entre "o bem e mal, preto e branco ”, enraizado nos interesses de uma tribo particular.

Na Polônia, o profundamente conservador Partido Lei e Justiça de Jaroslaw Kaczynski, no poder desde 2015, promoveu sua própria teoria da conspiração multifuncional e que muda a realidade. Ela gira em torno da alegação repetidamente desmascarada do partido de que a morte em 2010 de dezenas de autoridades poloneses, incluindo o irmão de Kaczynski - o presidente da Polônia na época - em um acidente de avião no oeste da Rússia foi o resultado de um complô orquestrado por Moscou e ajudado, ou ao menos encoberto pelos rivais do partido em Varsóvia.

Embora especialistas poloneses, russos e independentes tenham culpado o mau tempo e o erro do piloto pelo acidente, a crença de que foi um crime ressoou entre os defensores obstinados do Lei e Justiça. Isso alimentou e reforçou a visão de que os líderes do governo de centro anterior não são apenas rivais políticos, mas traidores em conluio com o inimigo há séculos da Polônia, a Rússia, além da ex-elite comunista da Polônia.

A conveniência de mentir em grande escala foi demonstrada pela primeira vez há quase um século por líderes como Josef Stalin e Adolf Hitler, que cunharam o termo "grande mentira" em 1925 e ascenderam ao poder com a mentira de que os judeus foram responsáveis pela derrota da Alemanha na 1ª Guerra. Para os ditadores alemães e soviéticos, mentir não era apenas um hábito ou uma maneira conveniente de dar fim a fatos indesejáveis, mas uma ferramenta essencial de governo.

Testou e fortaleceu a lealdade ao forçar os subordinados a aplaudir declarações que sabiam ser falsas e reuniu o apoio de pessoas comuns que, de acordo com Hitler, "são mais facilmente vítimas da grande mentira do que da pequena mentira" porque, embora possam mentir em seu dia a dia sobre coisas pequenas, “nunca passaria pela cabeça delas fabricar mentiras colossais”.

Ao promover uma mentira colossal de sua autoria - que ele obteve uma "vitória eleitoral esmagadora inviolável" - e se apegando a ela apesar de dezenas de decisões judiciais estabelecendo o contrário, Trump ofendeu seus oponentes políticos e deixou até mesmo alguns de seus apoiadores de longa data balançando a cabeça em relação à sua mentira.

Ao abraçar essa grande mentira, no entanto, o presidente escolheu um caminho que geralmente funciona - pelo menos em países sem sistemas jurídicos fortemente independentes e meios de comunicação, assim como outras organizações, que trabalham com verificação da realidade.

Depois de 20 anos no poder na Rússia, o presidente Vladimir Putin, por exemplo, mostrou que Kennan estava certo quando, escrevendo da capital russa em 1944, disse: “Aqui os homens determinam o que é verdadeiro e o que é falso”.

Muitas das mentiras de Putin são relativamente pequenas, como a alegação de que jornalistas que expuseram o papel do serviço de segurança da Rússia em envenenar o líder da oposição Alexei Navalny estavam trabalhando para a CIA. Outras não são, como sua insistência em 2014 de que os soldados russos não desempenharam nenhum papel na tomada da Crimeia da Ucrânia ou nos combates no leste da Ucrânia. (Ele mais tarde reconheceu que "é claro" que eles estavam envolvidos na anexação da Crimeia.)

Mas há diferenças entre o líder russo e o derrotado americano, disse Nina Khrushcheva, professora e especialista em propaganda soviética e outras formas de propaganda da New School em Nova York. “As mentiras de Putin não são como as de Trump: são táticas e oportunistas”, disse ela. “Elas não tentam redefinir todo o universo. Ele continua a existir no mundo real.”

Apesar de sua admiração declarada pelo presidente da Rússia e pelo sistema que ele preside, disse ela, Trump, ao insistir que ganhou em novembro, não está imitando tanto a Putin, mas se aproximando mais à era de Stalin, que, após arquitetar um período de fome catastrófico que matou milhões no início dos anos 30, declarou que "viver se tornou melhor, camaradas, viver se tornou mais alegre".

“Isso é o que a grande mentira é”, disse Nina. “Abrange tudo e redefine a realidade. Não há lacunas nela. Ou você aceita a coisa toda ou tudo desmorona. E foi o que aconteceu com a União Soviética. Ela entrou em colapso. ”

Se o universo de Trump entrará em colapso agora que alguns aliados saíram de cena e o Twitter arrebatou seu megafone mais potente para transmitir mentiras, é uma questão em aberto. Mesmo depois do cerco ao Capitólio por arruaceiros pró-Trump, 174 integrantes do Congresso votaram contra o resultado da eleição. Muitos milhões ainda acreditam nele, sua fé fortalecida por bolhas de mídia social que muitas vezes são hermeticamente fechadas como a propaganda da era soviética.

“O controle ilimitado da mente das pessoas”, escreveu Kennan, depende “não apenas da capacidade de alimentá-las com sua própria propaganda, mas também de ver que nenhum outro sujeito as alimenta com a dele”.

Na Rússia, Hungria e Turquia, a percepção de que o “outro sujeito” não deve ser permitido a oferecer uma versão rival da realidade levou a uma pressão constante a jornais, emissoras de televisão e outros meios de comunicação fora de sintonia com a linha oficial.

O presidente Recep Tayyip Erdogan, da Turquia, fechou mais de 100 veículos de imprensa e, por meio de intimidação da polícia tributária e outras agências estatais, forçou os principais jornais e canais de televisão a transferir o comando para partidários do governo.

A ascensão de Trump também ajudou a capacitar um primo da grande mentira - um boom na desinformação nas mídias sociais e na ficção da teoria da conspiração de extrema direita.

Isso foi mais notavelmente personificado pela expansão global do QAnon, um fenômeno outrora obscuro que afirma que o mundo é dirigido por uma conspiração de poderosos políticos liberais que são pedófilos sádicos. Trump não repudiou os discípulos do QAnon, muitos dos quais participaram do caos no Capitólio na última quarta-feira. Em agosto, ele os elogiou como pessoas que “amam nosso país”.

Até certo ponto, cada nova geração fica chocada ao saber que os líderes mentem e que as pessoas acreditam neles. “Mentir nunca foi tão difundido como hoje. Ou mais desavergonhado, sistemático e constante”, escreveu o filósofo francês Alexandre Koyré em seu tratado de 1943, Reflexões sobre a mentira.

O que mais afligia Koyré, no entanto, era que as mentiras nem precisam ser plausíveis para funcionar. “Pelo contrário”, escreveu ele, “quanto mais grosseira, maior, mais imperfeita a mentira, mais prontamente ela é acreditada e seguida”.

Pensamento do Dia

 


Ainda dá tempo

O presidente Jair Bolsonaro tem um projeto de poder muito perigoso. Ele, que cultiva desde o início de sua carreira os grupos militares, e sempre foi representante corporativo deles, como tenho debatido aqui nos últimos dias, tem marcado presença em várias formaturas, não apenas das três Armas - Exército, Marinha e da Aeronáutica -, mas também das polícias Militar, Federal, e Rodoviária Federal.

Dois projetos de lei que estão na Câmara, de autoria de deputados bolsonaristas, revelados pelo jornal Estado de S. Paulo, restringem o poder dos governadores sobre braços armados do estado, com mudanças na estrutura das polícias Civil e Militar, certamente saíram dessa tentativa de Bolsonaro de cooptar as Forças Armadas e as forças policiais auxiliares, que fazem parte do sistema de defesa nacional, mas não têm nenhum tipo de autonomia funcional, que sempre quiseram. Ainda dá tempo de pará-lo.

Transformar a PM numa polícia independente, que não seja uma força auxiliar, acaba criando uma quarta força armada, o que é temerário. Já há uma preocupação muito grande com essa bolsonarização dos quartéis e da Polícia Militar, com mais de quatro mil militares em diversos escalões no governo, da ativa e da reserva, inclusive no ministério, numa tentativa de influenciar ideologicamente as forças auxiliares e as baixas patentes das Forças Armadas.



O primeiro levante de uma PM na Nova República aconteceu em 1997 em Minas, e o ex-deputado Marcus Pestana, que era secretário do governo, lembra que o Estado Maior perdeu totalmente o controle da tropa. “Como se falava na época, os coronéis começaram a obedecer ao cabo (Cabo Júlio foi o líder simbólico na época)”. Conquistaram espaços parlamentares corporativos, e nunca mais os princípios da hierarquia e disciplina foram os mesmos.

Os projetos de seus aliados criam ainda uma nova estrutura na organização das Polícias Militares, com cargos de oficiais superiores. Teríamos, pois não creio que os projetos sejam aprovados, generais de quatro, três e duas estrelas nas Polícias Militares. Vários governadores estaduais, que perderiam na prática o comando das polícias militares e civis, estão se movimentando, e o de São Paulo, João Doria reagiu: “Não há nenhuma razão que justifique, exceto a militarização desejada pelo presidente Jair Bolsonaro para intimidar governadores através de força policial militar”.

Os projetos preveem mudanças na estrutura das polícias, estabelecendo mandatos de dois anos para os comandantes-gerais da PM, dos Bombeiros e delegados-gerais de Polícia Civil, escolhidos por uma lista tríplice. O ministro da Justiça e Segurança Pública, André Mendonça, confirmou que seu ministério está acompanhando a tramitação dos projetos, e tem se reunido com representantes das categorias envolvidas e deputados federais.

As propostas de bolsonaristas são a concretização de um projeto de poder militar que sustente os avanços de Bolsonaro sobre as limitações que as instituições democráticas lhe impõem. O presidente da República usa seus poderes para, de um lado, dar protagonismo aos militares em seu governo, ao mesmo tempo que cuida de seus proventos e dos projetos que mais lhes são caros, como o submarino nuclear.

Os projetos de defesa nacional são importantes, mas não poderiam ser prioridades neste momento de pandemia e crise social aguda. Ao mesmo tempo que se queixa de que o país “está quebrado” e que não pode fazer nada, Bolsonaro permite o contigenciamento de verbas sociais e para o combate da COVID-19, e proíbe o bloqueio das verbas militares.

Censura descabida

A anunciada decisão do ministério da Justiça de processar Rui Castro, e por tabela Ricardo Noblat, que transcreveu parte da crônica do primeiro, por um suposto incentivo ao suicído dos presidentes Trump e Bolsonaro, seria cômico se não fosse trágico.

Muito antes deles, Jair Bolsonaro, em campanha, convocou seus apoiadores no Acre a “fuzilar esses petralhas”, segurando um tripé simulando uma metralhadora. Ainda como deputado, Bolsonaro sugeriu que os militares na ditadura deveriam ter assassinado 30 mil brasileiros, a começar pelo ex-presidente Fernando Henrique.

Mas, na época, havia governos democráticos no país.

Bolsonaro, soldados e policiais

A presença de militares e ex-militares no governo federal é uma característica da administração de Jair Bolsonaro. Desde a redemocratização do País, nunca houve, por exemplo, tantos ministros de Estado com histórico profissional vinculado às Forças Armadas. Logicamente, essa característica do governo Bolsonaro desperta uma natural apreensão, seja pelos possíveis efeitos que essa participação pode provocar na imagem e no comportamento das Forças Armadas, seja porque, em um Estado Democrático de Direito, os militares têm uma função institucional muito clara – bem distante da política.

É preciso, no entanto, destacar outra característica do governo de Jair Bolsonaro em relação aos militares que, sem muitas vezes receber a devida atenção, pode ter efeitos especialmente desastrosos. Trata-se da tentativa constante do presidente Bolsonaro de estabelecer uma relação direta, de natureza político-ideológica, com soldados e policiais, desrespeitando os limites do cargo e as respectivas esferas dessas categorias.

Essa atitude do presidente Bolsonaro pode ser observada, por exemplo, em sua frequente participação em solenidades de formatura de militares ou de policiais. Segundo levantamento do jornal O Globo, de janeiro de 2019 a dezembro de 2020, Bolsonaro participou de 24 formaturas de membros do Exército, da Marinha, da Aeronáutica e das Polícias Militar, Federal e Rodoviária Federal. Na primeira metade do seu governo, esteve presente em 16 solenidades de formatura das Forças Armadas e em 8 de Polícias.



Não é demais lembrar que a presença do presidente da República numa solenidade das Forças Armadas não tem, por si só, nada de reprovável. Como dispõe a Constituição, o presidente da República é o comandante supremo das Forças Armadas. O que desperta preocupação no comportamento de Jair Bolsonaro são dois pontos: a alta frequência de sua participação nesses eventos – a revelar que não é algo circunstancial, mas tática política, com objetivo e método – e, principalmente, a mensagem que vem transmitindo às novas gerações de formandos de militares e policiais.

Estivesse apenas a exercer o papel de comandante supremo das Forças Armadas, o presidente Bolsonaro certamente aproveitaria esses eventos para recordar os deveres e princípios constitucionais relativos aos militares e às forças de segurança. No entanto, ele tem usado essas solenidades como palanque político-ideológico, difundindo ideias estranhas ao Estado Democrático de Direito.

No mês passado, por exemplo, o presidente Bolsonaro utilizou a cerimônia de formatura de soldados da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro para atacar a imprensa. “Não se esqueçam disso, essa imprensa jamais estará do lado da verdade, da honra e da lei. Sempre estará contra vocês. Pensem dessa forma para poderem agir”, disse Jair Bolsonaro.

A imprecação contra a imprensa parece ter sido retirada de algum discurso de Hugo Chávez. Sua fala não é condizente com o cargo de presidente da República, e menos ainda é adequada a uma formatura de policiais militares ou mesmo de estudantes.

É tão fora de prumo o comportamento do presidente Jair Bolsonaro nas formaturas de militares e de policiais que sua constante presença nesses eventos, mais do que manifestação de prestígio para as respectivas carreiras, vem causando apreensão nas altas patentes. Não é para menos. Conhecem quão árduo é formar as tropas dentro do genuíno espírito militar e quão fácil é contaminar a soldadesca com questões político-ideológicas.

Desde o início, a trajetória política de Jair Bolsonaro foi marcada pela proximidade com policiais e militares de baixa patente. Suas campanhas eleitorais para o Legislativo sempre foram voltadas para essas categorias. Isso, no entanto, não lhe dá o direito de usar o cargo de presidente da República para fazer agremiação política com soldados e policiais.

Como gosta de lembrar, Jair Bolsonaro é o comandante supremo das Forças Armadas. Deve atuar, portanto, como tal. Essa competência constitucional traz graves deveres. Descumpri-los é abrir caminho para o desastre.

Quando polícia de Estado vira milícia...

Todas as forças democráticas do país devem reagir vigorosamente contra as concretas medidas que objetivam politizar as polícias para transformá-las em órgãos de governos e não do Estado.
Golpes contra a democracia não ocorrem mais ostensivamente, mas vão se insinuando aos poucos e contam com a letargia dos acomodados. Quando estes despertam, já é tarde demais
Fábio Trad, deputado (PSD)

Onde falhou, onde falha, a democracia?

“Não desprezes a serpente por ser pequena, pois ela pode crescer e transformar-se num dragão!”

Isto dizia o mestre ao gafanhoto, seu discípulo, numa série de artes marciais muito popular na minha geração.

Embora popular, aparentemente, continuamos a desprezar em alguns casos, não as cobras, mas as lesmas, sem nos darmos conta de que vão corroendo tudo o que foi plantado e, mais do que isso, reproduzem-se a larga velocidade.

Durante muito tempo, pensei que as frases mortais de “isto não há-de ser nada”, “depois logo se vê” e “a malta desenrasca” eram marca registada do bom povo português.



Os acontecimentos dos últimos anos vieram provar que, apesar de não haver povo mais desenrascado que o nosso (a maior parte das vezes às três pancadas, mas enfim), na generalidade, as democracias deitaram-se à verdadeira sombra da bananeira, desdenhado dos sinais e abrindo portas a movimentos que estão à vista de todos.

Recordo dois momentos que marcaram esta minha (nossa) arrogância democrática, que nos deixaram estarrecidos e cujas repercussões ainda hoje não temos bem noção.

Uma foi o Brexit. Estou certa que, tal como eu, muitos foram dormir com a firme convicção de que o “não” iria ganhar e, depois, foi o que se viu e o que mais se verá.

O mesmo aconteceu com a eleição de Trump, a quem todos chamavam de “palhaço”, “demagogo” e que jamais entraria na Casa Branca. Pois bem, ele é efetivamente tudo isso, só que o grande problema neste momento é tirá-lo da Casa Branca, onde chegou pelo voto dos americanos, independentemente de se colocarem questões pertinentes acerca da influência externa que terá existido.


É dos livros e da vida que o poder, quando exercido durante muito tempo (mesmo que em alternância partidária, mas sem que tal signifique alternativa ), assume a falsa sensação de impunidade.A grande questão é esta: a democracia, os grandes partidos, deixaram de saber ler os sinais e sobretudo tornaram-se surdos relativamente ao que o povo precisa e quer.

Se perguntarmos à maioria dos dirigentes europeus, para não dizer mundiais, qual a perceção do povo acerca do exercício da governação, quais os seus anseios, medos e reparos, não sabem. Pior: não querem saber, arvorando-se em guardiões do sentir dum eleitorado, do qual, na maioria dos casos, nunca fizeram parte, já que toda a sua vida foi serem políticos profissionais. Do mundo, do trabalho, das condições de vida, do seu eleitorado, nada sabem!

Ora é exatamente esta ignorância, esta sobranceria intelectual e política que a maioria dos dirigentes têm, que deixa espaço a Trumps, Pens, Chegas e outros quejandos.

Se repararmos nos discursos de todos eles, não vemos uma única solução que não seja um claro atentado aos Direitos Humanos. E, mesmo quando não é dito em voz alta, é murmurado de maneira a fazer-se ouvir (veja-se o debate Ana Gomes/André Ventura, sobre a amputação das mãos a ladrões. Resposta em surdina e quase em modo off : “a alguns não fazia mal”).

Este tipo de argumentário faz sentido numa vasta camada da população que assiste a situações que contradizem os princípios de alguns partidos nos quais depositaram o seu voto, a sua esperança e a sua confiança e que, por isso mesmo, se sentem traídos,. Pouco lhes importa que os extremismos não tenham resposta. O que lhes importa é que as respostas dadas ou omitidas pelos restantes defensores da democracia nada lhes diz ou são contrárias à prática.

Onde falhou, onde falha a democracia?

Muito sociólogos já manifestaram as suas opiniões e, em muitos casos, estou perfeitamente em concordância. Mas a maioria omitiu algo que penso que devia ser uma regra basilar: nenhum dirigente político, nenhum representante do povo deveria poder exercer o cargo sem que tivesse tido um determinado número de anos de trabalho fora da política, no mundo real. Claro que haverá génios que saem das faculdades. Mas, mesmo a esses, falta-lhes algo que não se aprende em nenhum banco de escola, nem sequer em nenhum doutoramento. Falta-lhes Mundo, falta-lhes senso comum, falta-lhes a noção da realidade.

E são estas falhas que partidos extremistas (e não faço distinção entre extremismos de direita ou de esquerda, pois ambos são igualmente perigosos) vão usar como arma de argumentação junto da população. Aqui alguns dirão “população menos esclarecida, com menos literacia”.

Erro basilar e de arrogância, uma vez mais. Para além de não ser totalmente verdade, há algo que é incontestável e que dever-se-á manter: o voto dum doutorado em democracia vale tanto quanto o do analfabeto.

Olhamos o passado e verificamos que praticamente todas as ditaduras tiveram o apoio popular. Pelo menos, as que perduraram no tempo.

Não quero o meu País sob a bota cardada ou os polainitos duma ditadura!

Mas, para tal, é preciso que os partidos democratas, grandes e pequenos, façam um exercício de mea culpa, olhem sem preconceitos para o seu interior e hajam em conformidade sem receios ou tibiezas. Sobretudo que hajam rápido.

Porque os tempos, como canta Bob Dylan, estão a mudar. E, infelizmente, não me parece que para melhor.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2021

As veias abertas de um governo em agonia

A cada dia, aumenta a agonia do presidente Jair Bolsonaro e do seu governo com a retomada do avanço da pandemia do coronavírus. O próprio ministro da Saúde, o general Eduardo Pazuello, admitiu que ainda não se trata de uma segunda onda do mal, mas da primeira que ainda não quebrou de todo.

O Brasil é o terceiro país com o maior número de casos, atrás apenas de Estados Unidos e Índia. E o segundo em número de mortes, atrás apenas dos Estados Unidos. Foram 483 nas últimas 24 horas, de um total de 203.140, com pouco mais de 8 milhões e 100 mil infectados.

O vírus pisou no acelerador duas semanas após o início das festas de fim de ano. A tendência é que os números cresçam ainda. É por isso que os nervos do presidente e dos que o cercam estão à flor da pele. E, à falta de vacina, a ordem é produzir fumaça para desviar a atenção sobre o que acontece.

Recentemente, Bolsonaro disse a um grupo de devotos à entrada do Palácio da Alvorada que o Brasil está quebrado e que ele não pode fazer nada. Significa então: o país quebrou no colo dele. Porque antes não estava quebrado. No Congresso, ninguém o impediu de governar. Tampouco na justiça.

O que ele fez em dois anos? Nada, além de armar as pessoas como sempre defendeu, entregar a Amazônia aos cuidados dos desmatadores, a Educação a uma penca de ministros ineptos, a Cultura a quem tem horror a ela, e pôs nas Relações Exteriores um capacho, orientando-o a se curvar aos Estados Unidos.



Não fez reforma alguma – herdou de Michel Temer a da Previdência, mas não se envolveu com ela. As privatizações de empresas estatais prometidas? Nenhuma. O auxílio emergencial de 600 reais foi invenção do Congresso. Se Bolsonaro tivesse sido atendido, o auxílio chegaria, no máximo, aos 300 reais.

Atravessou a pandemia desdenhando dela e exaltando os efeitos milagrosos de drogas comprovadamente ineficazes. A aposta inicial em uma única vacina foi mais um grave erro. Para completar, seu terceiro ministro da Saúde em menos de um ano sequer conhecia o SUS antes de assumir o cargo.

Sabe que deverá substituí-lo em algum momento – mas qual? Antes, durante ou só depois da vacinação? Mas seu governo se aguenta de pé se a vacinação em massa fracassar ou demorar em excesso? Se não bastasse, sua referência no mundo está de saída do poder – e que maneira encontrou para sair…

Donald Trump cederá a cadeira a quem Bolsonaro publicamente desejou que fosse derrotado. O presidente do Brasil foi um dos últimos chefes de Estado, se não o último, a cumprimentar Joe Biden pela vitória. E o único a dar razão aos invasores do Congresso americano chamados por Biden de “terroristas”.

Convenhamos: para quem reconheceu não ter nascido para ser presidente, nunca teve um projeto para o país, não gosta de pegar no pesado e valoriza tão pouco a vida alheia, tudo isso é, e com razão, um grande tormento. Só não faz sentido ele querer se reeleger. Pode ser um sacrifício a mais que fará pelos filhos.

É bom que se frise: o Brasil não está quebrado, Bolsonaro é que não tem conserto. De todo modo, vida longa a ele para que colha o que plantou.

Pensamento do Dia