terça-feira, 8 de outubro de 2024
A boa ajuda
Ninguém é responsável sozinho pelas misérias do mundo. Não contribuir para agravá-las já é boa ajudaJosé J. Veiga, "Objetos turbulentos"
Em Gaza, um ano de guerra gerou traumas e ruínas
"Em 7 de outubro, acordamos com o som de foguetes. O som era terrível, a situação era terrível, aí começamos a assistir ao noticiário e ficamos sabendo o que havia acontecido", relata Warda Younis por mensagem de texto, do norte de Gaza. "Daquele dia em diante, o medo mais profundo começou e nunca mais foi embora."
Desde os ataques do Hamas ao sul de Israel em 2023, nada mais foi o mesmo para os residentes da Faixa de Gaza. Até então, Israel e Egito controlavam rigidamente as fronteiras do enclave. Porém na madrugada de 7 de outubro, militantes liderados pelo Hamas lançaram mísseis e romperam as cercas da fronteira, invadindo comunidades e bases militares no sul de Israel.
Cerca de 1.200 morreram no ataque, e os radicais levaram 250 reféns para Gaza. Os militares israelenses retaliaram no mesmo dia, com pesados ataques aéreos e de artilharia em todo o enclave palestino.
"Perdi minha melhor amiga no terceiro dia da guerra. A casa dela foi completamente bombardeada, e eu me lembro que fiquei tão chocada, mentalmente esgotada", conta Younis, que morava no sétimo andar de um prédio de apartamentos do bairro de Sheikh Radwan, no norte da Cidade de Gaza.
Gaza está familiarizada com o conflito. Israel e o Hamas já travaram quatro guerras desde 2007, quando o grupo tomou o poder da Autoridade Palestina. Ainda assim, muitos não esperavam que a atual durasse tanto tempo e fosse tão devastadora.
De acordo com o Ministério da Saúde de Gaza, que não faz distinção entre civis e combatentes, mais de 41,4 mil foram mortos no enclave no último ano. Outros 96 mil ficaram feridos, e pelo menos 10 mil estão desaparecidos.
Os suprimentos de Gaza se esgotaram rapidamente nas primeiras semanas da guerra, quando Israel impôs cerco total. Durante meses, as Nações Unidas chamaram a atenção para o alerta de agências de ajuda humanitária sobre a fome iminente no norte de Gaza, o que foi desconsiderado por Israel.
Younis que não conseguiu encontrar farinha nem pão durante esse período. "Chegamos ao ponto de comer folhas de árvores e grama. Nunca na vida imaginamos que fosse possível comer isso."
Quando os primeiros comboios de ajuda chegaram ao norte, ela testemunhou disputas por comida e itens básicos que terminaram em violência e morte. Durante um tempo, organizações voltaram a realizar lançamentos aéreos, pois a pressão internacional não bastou para convencer Israel a abrir mais passagens para a entrega de ajuda.
"Eu costumava ir ao local onde a ajuda era lançada de balões todos os dias", relata Younis. "Eu corria para pegar alguma coisa, e no fim não conseguia nada, porque tinha bandidos controlando tudo." A disponibilidade de alimentos melhorou desde então, mas para ela o medo e a exposição diária à morte permanecem.
Nos últimos 12 meses, Younis e seus três filhos adolescentes foram deslocados nove vezes. Como muitos outros em Gaza, ela perdeu a noção do tempo enquanto buscava refúgio constantemente.
Em meados de outubro de 2023, as Forças Armadas israelenses ordenaram que os habitantes do norte de Gaza se deslocassem para o sul. Mas Younis decidiu permanecer, apesar de ter membros da família para acomodá-la e a seus filhos na cidade de Khan Younis, a cerca de oito quilômetros da fronteira de Gaza com o Egito.
O norte de Gaza agora está quase totalmente isolado do corredor Netzarim, uma estrada com postos de controle militares tripulados por Israel. A maioria dos 2,2 milhões de habitantes do enclave está agora desalojada, amontoada no sul de Gaza, e muitos dependem de assistência e de instituições de caridade, segundo as agências competentes.
Amjad Shawa sempre trabalhou no setor humanitário como chefe do grupo PNGO, que representa ONGs palestinas. Depois de ser evacuado, ele montou um novo escritório em Deir al-Balah, na região central de Gaza, como um centro para as agências de ajuda se reunirem, terem acesso à internet e um teto sob o qual trabalhar. Como muitos outros palestinos em Gaza, ele não queria deixar sua casa e seu escritório na Cidade de Gaza, quando chegaram as ordens de evacuação do Exército israelense, em 13 de outubro.
"Hesitei em sair, mas fomos sob a pressão da minha família. Eu disse a eles que seria apenas por algumas horas e que voltaríamos. Não levei nada de casa. Essas poucas horas, esses poucos dias se tornaram um ano agora."
O assistente social estima que haja cerca de 1 milhão de alojados em Deir al-Balah, muitos vivendo em tendas ou abrigos improvisados com lonas e plásticos. Outros encontraram apartamentos ou estão hospedados na casa de parentes.
"Posso ver isso nos rostos deles. A maioria está profundamente traumatizada. Elas perderam tudo. Muita gente perdeu entes queridos. A maioria perdeu sua renda, suas casas."
Shawa crê que muitos querem retornar para o norte de Gaza, mesmo que suas casas tenham desaparecido, mas isso depende de um acordo de cessar-fogo entre Israel e o Hamas.
Ser um funcionário humanitário em Gaza é arriscado, afirma Shawa. Muitos morreram tentando ajudar outros necessitados ou perderam entes queridos: "Não podemos 'lidar' com isso. E na ausência de qualquer horizonte, às vezes é preciso criar alguma esperança para quem está ao redor."
Para ele, a Gaza onde nasceu e cresceu não existe mais. Mais de 60% das casas do território, já danificadas por guerras anteriores, sofreram novos danos no conflito atual. Escolas, hospitais e empresas também estão em ruínas. As Nações Unidas estimam que os ataques aéreos israelenses e os combates terrestres produziram 40 milhões de toneladas de entulho no território.
O assistente social destaca que muitos perderam a fé na ajuda de outros países e de organizações globais: "O que estamos testemunhando também se deve ao fracasso da comunidade internacional em acabar com essa guerra ou, pelo menos, em proteger os civis."
Rita Abu Sido e sua família não tinham essa proteção. Os primeiros meses da guerra continuam sendo um borrão para a jovem de 27 anos. Agora, ela está no Egito com sua irmã, Farah, recebem tratamento médico para ferimentos complexos sofridos em Gaza. Elas são as únicas sobreviventes do núcleo de sua família.
"O bombardeio aconteceu à meia-noite de 31 de outubro. Eu estava acordada e disse à minha irmã Farah que poderíamos morrer. Ela se lembra de tudo. Eu só sonho com isso", conta Rita por telefone, do Cairo.
A mãe de Abu Sido, suas duas irmãs mais novas, de 16 e 15 anos, e seu irmão mais novo, de 13, morreram naquela noite em Rimal, no centro da Cidade de Gaza. Ela e a irmã, uma comissária de bordo estagiária que estava visitando Gaza quando a guerra começou, foram levadas para o principal hospital de cidade, o Shifa, sem identificação.
Abu Sido sofreu convulsão pulmonar e queimaduras de terceiro grau, sua irmã teve a pélvis quebrada e ferimentos na coluna vertebral. Com a aproximação dos combates e devido à gravidade dos ferimentos, ambas foram transferidas para o Hospital Europeu em Khan Younis.
"Fiquei mal psicologicamente. depois que soube da perda de toda a minha família. Levei tempo para entender a localidade e a situação. Fiquei agressiva e nervosa."
Com a ajuda de amigos da família, em fevereiro as irmãs conseguiram sair de Gaza pela passagem de Rafah, para tratamento médico e reabilitação no Egito. Abu Sido está recuperando a voz, que perdeu por algum tempo, e sua irmã está fazendo fisioterapia. Mas ela crê que o trauma de perder a família a perseguirá pelo resto da vida.
Embora estejam seguras no Egito, sua situação é precária. A maioria dos habitantes de Gaza que conseguiu escapar para o país vizinho não tem status legal e depende do apoio de parentes ou de instituições de caridade.
Ainda não se sabe se Abu Sido poderá retornar a Gaza: é uma decisão política sobre a qual ela não tem controle. "Voltar a Gaza parece ser um desafio. Levará tempo. A próxima geração, a nossa geração, precisa ter a vontade de reconstruir."
Desde os ataques do Hamas ao sul de Israel em 2023, nada mais foi o mesmo para os residentes da Faixa de Gaza. Até então, Israel e Egito controlavam rigidamente as fronteiras do enclave. Porém na madrugada de 7 de outubro, militantes liderados pelo Hamas lançaram mísseis e romperam as cercas da fronteira, invadindo comunidades e bases militares no sul de Israel.
Cerca de 1.200 morreram no ataque, e os radicais levaram 250 reféns para Gaza. Os militares israelenses retaliaram no mesmo dia, com pesados ataques aéreos e de artilharia em todo o enclave palestino.
"Perdi minha melhor amiga no terceiro dia da guerra. A casa dela foi completamente bombardeada, e eu me lembro que fiquei tão chocada, mentalmente esgotada", conta Younis, que morava no sétimo andar de um prédio de apartamentos do bairro de Sheikh Radwan, no norte da Cidade de Gaza.
Gaza está familiarizada com o conflito. Israel e o Hamas já travaram quatro guerras desde 2007, quando o grupo tomou o poder da Autoridade Palestina. Ainda assim, muitos não esperavam que a atual durasse tanto tempo e fosse tão devastadora.
De acordo com o Ministério da Saúde de Gaza, que não faz distinção entre civis e combatentes, mais de 41,4 mil foram mortos no enclave no último ano. Outros 96 mil ficaram feridos, e pelo menos 10 mil estão desaparecidos.
Os suprimentos de Gaza se esgotaram rapidamente nas primeiras semanas da guerra, quando Israel impôs cerco total. Durante meses, as Nações Unidas chamaram a atenção para o alerta de agências de ajuda humanitária sobre a fome iminente no norte de Gaza, o que foi desconsiderado por Israel.
Younis que não conseguiu encontrar farinha nem pão durante esse período. "Chegamos ao ponto de comer folhas de árvores e grama. Nunca na vida imaginamos que fosse possível comer isso."
Quando os primeiros comboios de ajuda chegaram ao norte, ela testemunhou disputas por comida e itens básicos que terminaram em violência e morte. Durante um tempo, organizações voltaram a realizar lançamentos aéreos, pois a pressão internacional não bastou para convencer Israel a abrir mais passagens para a entrega de ajuda.
"Eu costumava ir ao local onde a ajuda era lançada de balões todos os dias", relata Younis. "Eu corria para pegar alguma coisa, e no fim não conseguia nada, porque tinha bandidos controlando tudo." A disponibilidade de alimentos melhorou desde então, mas para ela o medo e a exposição diária à morte permanecem.
Nos últimos 12 meses, Younis e seus três filhos adolescentes foram deslocados nove vezes. Como muitos outros em Gaza, ela perdeu a noção do tempo enquanto buscava refúgio constantemente.
Em meados de outubro de 2023, as Forças Armadas israelenses ordenaram que os habitantes do norte de Gaza se deslocassem para o sul. Mas Younis decidiu permanecer, apesar de ter membros da família para acomodá-la e a seus filhos na cidade de Khan Younis, a cerca de oito quilômetros da fronteira de Gaza com o Egito.
O norte de Gaza agora está quase totalmente isolado do corredor Netzarim, uma estrada com postos de controle militares tripulados por Israel. A maioria dos 2,2 milhões de habitantes do enclave está agora desalojada, amontoada no sul de Gaza, e muitos dependem de assistência e de instituições de caridade, segundo as agências competentes.
Amjad Shawa sempre trabalhou no setor humanitário como chefe do grupo PNGO, que representa ONGs palestinas. Depois de ser evacuado, ele montou um novo escritório em Deir al-Balah, na região central de Gaza, como um centro para as agências de ajuda se reunirem, terem acesso à internet e um teto sob o qual trabalhar. Como muitos outros palestinos em Gaza, ele não queria deixar sua casa e seu escritório na Cidade de Gaza, quando chegaram as ordens de evacuação do Exército israelense, em 13 de outubro.
"Hesitei em sair, mas fomos sob a pressão da minha família. Eu disse a eles que seria apenas por algumas horas e que voltaríamos. Não levei nada de casa. Essas poucas horas, esses poucos dias se tornaram um ano agora."
O assistente social estima que haja cerca de 1 milhão de alojados em Deir al-Balah, muitos vivendo em tendas ou abrigos improvisados com lonas e plásticos. Outros encontraram apartamentos ou estão hospedados na casa de parentes.
"Posso ver isso nos rostos deles. A maioria está profundamente traumatizada. Elas perderam tudo. Muita gente perdeu entes queridos. A maioria perdeu sua renda, suas casas."
Shawa crê que muitos querem retornar para o norte de Gaza, mesmo que suas casas tenham desaparecido, mas isso depende de um acordo de cessar-fogo entre Israel e o Hamas.
Ser um funcionário humanitário em Gaza é arriscado, afirma Shawa. Muitos morreram tentando ajudar outros necessitados ou perderam entes queridos: "Não podemos 'lidar' com isso. E na ausência de qualquer horizonte, às vezes é preciso criar alguma esperança para quem está ao redor."
Para ele, a Gaza onde nasceu e cresceu não existe mais. Mais de 60% das casas do território, já danificadas por guerras anteriores, sofreram novos danos no conflito atual. Escolas, hospitais e empresas também estão em ruínas. As Nações Unidas estimam que os ataques aéreos israelenses e os combates terrestres produziram 40 milhões de toneladas de entulho no território.
O assistente social destaca que muitos perderam a fé na ajuda de outros países e de organizações globais: "O que estamos testemunhando também se deve ao fracasso da comunidade internacional em acabar com essa guerra ou, pelo menos, em proteger os civis."
Rita Abu Sido e sua família não tinham essa proteção. Os primeiros meses da guerra continuam sendo um borrão para a jovem de 27 anos. Agora, ela está no Egito com sua irmã, Farah, recebem tratamento médico para ferimentos complexos sofridos em Gaza. Elas são as únicas sobreviventes do núcleo de sua família.
"O bombardeio aconteceu à meia-noite de 31 de outubro. Eu estava acordada e disse à minha irmã Farah que poderíamos morrer. Ela se lembra de tudo. Eu só sonho com isso", conta Rita por telefone, do Cairo.
A mãe de Abu Sido, suas duas irmãs mais novas, de 16 e 15 anos, e seu irmão mais novo, de 13, morreram naquela noite em Rimal, no centro da Cidade de Gaza. Ela e a irmã, uma comissária de bordo estagiária que estava visitando Gaza quando a guerra começou, foram levadas para o principal hospital de cidade, o Shifa, sem identificação.
Abu Sido sofreu convulsão pulmonar e queimaduras de terceiro grau, sua irmã teve a pélvis quebrada e ferimentos na coluna vertebral. Com a aproximação dos combates e devido à gravidade dos ferimentos, ambas foram transferidas para o Hospital Europeu em Khan Younis.
"Fiquei mal psicologicamente. depois que soube da perda de toda a minha família. Levei tempo para entender a localidade e a situação. Fiquei agressiva e nervosa."
Com a ajuda de amigos da família, em fevereiro as irmãs conseguiram sair de Gaza pela passagem de Rafah, para tratamento médico e reabilitação no Egito. Abu Sido está recuperando a voz, que perdeu por algum tempo, e sua irmã está fazendo fisioterapia. Mas ela crê que o trauma de perder a família a perseguirá pelo resto da vida.
Embora estejam seguras no Egito, sua situação é precária. A maioria dos habitantes de Gaza que conseguiu escapar para o país vizinho não tem status legal e depende do apoio de parentes ou de instituições de caridade.
Ainda não se sabe se Abu Sido poderá retornar a Gaza: é uma decisão política sobre a qual ela não tem controle. "Voltar a Gaza parece ser um desafio. Levará tempo. A próxima geração, a nossa geração, precisa ter a vontade de reconstruir."
Mané todos os bichos
Em menos de uma década, o Brasil sofreu (e tem sofrido) o desafio de três pandemias: a COVID-19; os devastadores eventos climáticos – secas, incêndios e enchentes; e agora, a pandemia dos jogos de azar com a marca ERIA (Esperteza Real e Inteligência Artificial).
O primeiro desafio esbarrou no negacionismo estúpido das autoridades, porém ficou a lição para o mundo inteiro que ciência, prevenção e cooperação global são as armas para enfrentar catástrofes com dimensão universal.
O segundo desafio é a chegada da tragédia climática, com tamanho e data anunciada, a exigir redobrado esforço para que a emergência não nos imponha o ritual taoísta dos “Cachorros de Palha” que deu nome à obra clássica ao filósofo britânico John Gray. Nesta luta contra o tempo, o Brasil dispõe do valor estratégico de seus recursos naturais e, a despeito do retrocesso na política e na gestão, herdado do governo anterior, terá um papel decisivo no equacionamento da questão ambiental observado, espero, o princípio das responsabilidades comuns, porém diferenciadas.
O terceiro desafio: os jogos de azar viraram um surto pandêmico. É o assunto do momento. Há os que defendem a prática como entretenimento, aposta, considerando uma disputa em que o aleatório é o argumento da derrota ou da vitória dos disputantes. De outra parte, há os ferrenhos adversários brandindo evidências dos malefícios que os jogos de azar podem causar aos seus adeptos, arruinando pessoas, famílias e a comunidade.
No entanto, a jogatina tem origens remotas e marcam passagens em inúmeras civilizações. A etimologia árabe – al-azar – significa “dado” e, daí, advêm as múltiplas formas do jogo, inclusive, as definições de estratégias para responder com probabilidades aos “acasos”, abrigadas nas mais simples às mais sofisticadas infraestruturas para atender à crescente clientela.
Atualmente, os jogos envolvem fortunas e são considerados um vetor para o desenvolvimento da indústria hoteleira e do turismo. No seu entorno, “negócios paralelos” vicejam sobre a linha tênue da legalidade/crime, diversão/vício o que tem ocupado o noticiário, as redes sociais e um caloroso debate político sobre a regulamentação dos jogos de azar.
Com a votação e aprovação do PL 2234/2022 (por 14 a 12 votos) na Comissão de Constituição e Justiça, o assunto irá à deliberação do Plenário tão logo seja pautado pelo Presidente do Senado. O texto legaliza e regulamenta o jogo do bicho, o funcionamento de casa do bingo, jogos de cassino, corridas de cavalo, enfim, as normas chegam num momento sensível e relevante.
Sensível porque, na origem, está a Lei 3688 de 1941 (Lei das Contravenções Penais) que punia o jogo como uma atividade “degradante”; relevante porque suscita um sério debate sobre as “Bets”, que, ao invadir o mundo digital, empurram as pessoas para a compulsão do jogo: a ludopatia. Vale dizer, as pessoas carregam na mão uma casa de aposta e uma horda de “tigrinhos” que levaram, em agosto, três bilhões de reais dos beneficiários do bolsa família e mais de vinte bilhões de reais do consumidor brasileiro: tiram do bolso dos pobres ou viciados para encher o bolso da corrupção e do crime organizado.
É fundamental uma regulação inteligente e eficaz. Câmara Cascudo no Dicionário do Folclore Brasileiro” qualificava o jogo do bicho como um “vício irresistível” e acrescentava que a “repressão policial” apenas multiplicava a clandestinidade. E olhe que sou do tempo em que o jogo do bicho era tolerado e todo mundo, diariamente, fazia uma “fezinha”, modo delivery, em Vitória de Santo Antão.
Na hora do almoço, o cambista, forte, pele avermelhada atendia pelo apelido de “raça boa”e, de casa em casa, recebia as “pules” (o conjunto de apostas); registrava na caderneta com o papel carbono. Confiança era tudo: acertou, recebia.
Freguês fiel era o Seu Manoel, homem de poucas palavras, funcionário aposentado da prefeitura, respeitoso e carrancudo. Quase todo mundo na rua já havia ganho no jogo, pelo menos, no “grupo” ou na dezena. Seu Manoel, só gastava. Um dia com raro e leve sorriso de deboche, comemorava a notícia de que tinha ganho no grupo pela segunda vez. “Raça Boa” não segurou o segredo.
O jogo foi criado em 1892 para estimular a frequência do Jardim Zoológico de propriedade do barão de Drummond: cada visitante recebia um bilhete de entrada com a figura de um dos 25 animais, encoberto, e revelado no fim do dia o que valia um prêmio em dinheiro para o portador do bilhete. Foi um sucesso. Associados a um número, os animais compuseram séries numéricas, o jogo pegou e passou a ser praticado fora do zoológico. Deu samba!
Desde o Império, os jogos de azar eram proibidos no Brasil. Aqui, porém, a contravenção venceu. Segundo alguns intérpretes da alma brasileira, decorria da crença esperta de ganhar a vida sem trabalhar. Seu Manoel, no entanto, carregava a detestável pecha de azarado. E combinado o sigilo com o cambista, jogou um cruzeiro nos 25 bichos (probabilidade zero de não ser premiado), gastou 25 cruzeiros e ganhou 20 que era a recompensa pelo “acerto” no grupo. Prejuízo: 5 cruzeiros. Mas “ganhou”. E de quebra ganhou também o apelido dos vizinhos: “Mané todos os bichos”. “Raça Boa” desapareceu. Só retomou à rotina quando soube que seu “Mané” foi morar longe da rua.
Todo cuidado é pouco na regulamentação da atraente atividade. O Brasil adora a jogatina e, para cada cem brasileiros nascidos, segundo dados oficiais, 10 têm juízo, 10 são “espertos”, oitenta são otários.
O primeiro desafio esbarrou no negacionismo estúpido das autoridades, porém ficou a lição para o mundo inteiro que ciência, prevenção e cooperação global são as armas para enfrentar catástrofes com dimensão universal.
O segundo desafio é a chegada da tragédia climática, com tamanho e data anunciada, a exigir redobrado esforço para que a emergência não nos imponha o ritual taoísta dos “Cachorros de Palha” que deu nome à obra clássica ao filósofo britânico John Gray. Nesta luta contra o tempo, o Brasil dispõe do valor estratégico de seus recursos naturais e, a despeito do retrocesso na política e na gestão, herdado do governo anterior, terá um papel decisivo no equacionamento da questão ambiental observado, espero, o princípio das responsabilidades comuns, porém diferenciadas.
O terceiro desafio: os jogos de azar viraram um surto pandêmico. É o assunto do momento. Há os que defendem a prática como entretenimento, aposta, considerando uma disputa em que o aleatório é o argumento da derrota ou da vitória dos disputantes. De outra parte, há os ferrenhos adversários brandindo evidências dos malefícios que os jogos de azar podem causar aos seus adeptos, arruinando pessoas, famílias e a comunidade.
No entanto, a jogatina tem origens remotas e marcam passagens em inúmeras civilizações. A etimologia árabe – al-azar – significa “dado” e, daí, advêm as múltiplas formas do jogo, inclusive, as definições de estratégias para responder com probabilidades aos “acasos”, abrigadas nas mais simples às mais sofisticadas infraestruturas para atender à crescente clientela.
Atualmente, os jogos envolvem fortunas e são considerados um vetor para o desenvolvimento da indústria hoteleira e do turismo. No seu entorno, “negócios paralelos” vicejam sobre a linha tênue da legalidade/crime, diversão/vício o que tem ocupado o noticiário, as redes sociais e um caloroso debate político sobre a regulamentação dos jogos de azar.
Com a votação e aprovação do PL 2234/2022 (por 14 a 12 votos) na Comissão de Constituição e Justiça, o assunto irá à deliberação do Plenário tão logo seja pautado pelo Presidente do Senado. O texto legaliza e regulamenta o jogo do bicho, o funcionamento de casa do bingo, jogos de cassino, corridas de cavalo, enfim, as normas chegam num momento sensível e relevante.
Sensível porque, na origem, está a Lei 3688 de 1941 (Lei das Contravenções Penais) que punia o jogo como uma atividade “degradante”; relevante porque suscita um sério debate sobre as “Bets”, que, ao invadir o mundo digital, empurram as pessoas para a compulsão do jogo: a ludopatia. Vale dizer, as pessoas carregam na mão uma casa de aposta e uma horda de “tigrinhos” que levaram, em agosto, três bilhões de reais dos beneficiários do bolsa família e mais de vinte bilhões de reais do consumidor brasileiro: tiram do bolso dos pobres ou viciados para encher o bolso da corrupção e do crime organizado.
É fundamental uma regulação inteligente e eficaz. Câmara Cascudo no Dicionário do Folclore Brasileiro” qualificava o jogo do bicho como um “vício irresistível” e acrescentava que a “repressão policial” apenas multiplicava a clandestinidade. E olhe que sou do tempo em que o jogo do bicho era tolerado e todo mundo, diariamente, fazia uma “fezinha”, modo delivery, em Vitória de Santo Antão.
Na hora do almoço, o cambista, forte, pele avermelhada atendia pelo apelido de “raça boa”e, de casa em casa, recebia as “pules” (o conjunto de apostas); registrava na caderneta com o papel carbono. Confiança era tudo: acertou, recebia.
Freguês fiel era o Seu Manoel, homem de poucas palavras, funcionário aposentado da prefeitura, respeitoso e carrancudo. Quase todo mundo na rua já havia ganho no jogo, pelo menos, no “grupo” ou na dezena. Seu Manoel, só gastava. Um dia com raro e leve sorriso de deboche, comemorava a notícia de que tinha ganho no grupo pela segunda vez. “Raça Boa” não segurou o segredo.
O jogo foi criado em 1892 para estimular a frequência do Jardim Zoológico de propriedade do barão de Drummond: cada visitante recebia um bilhete de entrada com a figura de um dos 25 animais, encoberto, e revelado no fim do dia o que valia um prêmio em dinheiro para o portador do bilhete. Foi um sucesso. Associados a um número, os animais compuseram séries numéricas, o jogo pegou e passou a ser praticado fora do zoológico. Deu samba!
Desde o Império, os jogos de azar eram proibidos no Brasil. Aqui, porém, a contravenção venceu. Segundo alguns intérpretes da alma brasileira, decorria da crença esperta de ganhar a vida sem trabalhar. Seu Manoel, no entanto, carregava a detestável pecha de azarado. E combinado o sigilo com o cambista, jogou um cruzeiro nos 25 bichos (probabilidade zero de não ser premiado), gastou 25 cruzeiros e ganhou 20 que era a recompensa pelo “acerto” no grupo. Prejuízo: 5 cruzeiros. Mas “ganhou”. E de quebra ganhou também o apelido dos vizinhos: “Mané todos os bichos”. “Raça Boa” desapareceu. Só retomou à rotina quando soube que seu “Mané” foi morar longe da rua.
Todo cuidado é pouco na regulamentação da atraente atividade. O Brasil adora a jogatina e, para cada cem brasileiros nascidos, segundo dados oficiais, 10 têm juízo, 10 são “espertos”, oitenta são otários.
Lima Barreto e um século de eleições municipais
As eleições municipais sofreram grandes transformações em um século. Com a mudança de regime em 1891, o chefe do Executivo local passou a ser nomeado pelos governadores. Inicialmente, 12 dos então 20 estados adotaram a regra, só pacificada pela reforma de 1926. Com a Constituição de 1946, novas contestações, mas, nas capitais, estâncias, e bases militares, os prefeitos continuaram a ser nomeados. A primeira eleição para prefeito em São Paulo, a maior metrópole brasileira, teve lugar em 1953, e em Recife —a então terceira maior— em 1955. Em 1965, o regime militar reeditou a vedação que permaneceu até 1985, quando 201 municípios passaram a eleger prefeitos.
Prefeitos nomeados e Câmara de vereadores eleitos são o traço paradoxal das cidades brasileiras no século 20. Os conselhos municipais com forte autonomia vinham do período colonial. Os nomeados não sabiam sequer o nome da avenida principal das cidades, como debochou Lima Barreto, perplexo com "o interesse estranho que essa gente punha nas lutas políticas, nessas tricas eleitorais, como se nelas houvesse qualquer coisa de vital e importante".
Na voz de Policarpo Quaresma, "não atinava porque uma rezinga entre dois figurões [um governador e um senador] vinha por desarmonia entre tanta gente, cuja vida estava tão fora da esfera daqueles". Mas logo revelava o que estava em jogo: "Não há lá homem influente que não tenha, pelo menos, trinta parentes ocupando cargos do Estado; não há lá político influente que não se julgue com direito a deixar para os seus filhos, netos, sobrinhos, primos, gordas pensões pagas pelo Tesouro da República".
A disputa pelo voto local era e continua sendo crucial para a política estadual e nacional, e nele o controle sobre o alistamento era a chave do processo. A partir da criação da Justiça Eleitoral em 1932, o alistamento tornou-se obrigatório, mas não o voto. Paradoxalmente, a medida reforçou a manipulação do eleitorado analfabeto majoritariamente rural até a década de 1970, e que não votava até o fim da proibição formal, em 1985.
O contraste aqui com as barreiras criadas para a população negra nos EUA como requisitos de testes de alfabetização, taxas de votação etc é marcante: nossas oligarquias nunca se opuseram à inclusão da massa da população no sistema eleitoral porque controlavam o alistamento. Como mostrei aqui, isto só mudou em 1955, com a introdução da cédula oficial substituindo a fornecida pelos partidos, e que exigia que os eleitores escrevessem o nome dos candidatos, o que acabava invalidando um terço dos votos. Apenas em 2000, com o voto eletrônico, os votos inválidos despencaram.
Lima Barreto apontou a relação entre crime e eleições na capital de Bruzundanga, mas não podia prenunciar que o crime organizado viria, um século depois, a ser séria ameaça nacional, através da coerção e violência sobre eleitores.
"O doutor-candidato vai neles com os mais cruéis assassinos da cidade, quando ele mesmo não é um assassino... A fisionomia aterrada e curiosa da cidade dá a entrever que se está à espera de uma verdadeira batalha; e a julgar-se pelas fisionomias que se amontoam nas secções, nos carros, nos cafés, e botequins, parece que as prisões foram abertas e todos os seus hóspedes soltos."
Prefeitos nomeados e Câmara de vereadores eleitos são o traço paradoxal das cidades brasileiras no século 20. Os conselhos municipais com forte autonomia vinham do período colonial. Os nomeados não sabiam sequer o nome da avenida principal das cidades, como debochou Lima Barreto, perplexo com "o interesse estranho que essa gente punha nas lutas políticas, nessas tricas eleitorais, como se nelas houvesse qualquer coisa de vital e importante".
Na voz de Policarpo Quaresma, "não atinava porque uma rezinga entre dois figurões [um governador e um senador] vinha por desarmonia entre tanta gente, cuja vida estava tão fora da esfera daqueles". Mas logo revelava o que estava em jogo: "Não há lá homem influente que não tenha, pelo menos, trinta parentes ocupando cargos do Estado; não há lá político influente que não se julgue com direito a deixar para os seus filhos, netos, sobrinhos, primos, gordas pensões pagas pelo Tesouro da República".
A disputa pelo voto local era e continua sendo crucial para a política estadual e nacional, e nele o controle sobre o alistamento era a chave do processo. A partir da criação da Justiça Eleitoral em 1932, o alistamento tornou-se obrigatório, mas não o voto. Paradoxalmente, a medida reforçou a manipulação do eleitorado analfabeto majoritariamente rural até a década de 1970, e que não votava até o fim da proibição formal, em 1985.
O contraste aqui com as barreiras criadas para a população negra nos EUA como requisitos de testes de alfabetização, taxas de votação etc é marcante: nossas oligarquias nunca se opuseram à inclusão da massa da população no sistema eleitoral porque controlavam o alistamento. Como mostrei aqui, isto só mudou em 1955, com a introdução da cédula oficial substituindo a fornecida pelos partidos, e que exigia que os eleitores escrevessem o nome dos candidatos, o que acabava invalidando um terço dos votos. Apenas em 2000, com o voto eletrônico, os votos inválidos despencaram.
Lima Barreto apontou a relação entre crime e eleições na capital de Bruzundanga, mas não podia prenunciar que o crime organizado viria, um século depois, a ser séria ameaça nacional, através da coerção e violência sobre eleitores.
"O doutor-candidato vai neles com os mais cruéis assassinos da cidade, quando ele mesmo não é um assassino... A fisionomia aterrada e curiosa da cidade dá a entrever que se está à espera de uma verdadeira batalha; e a julgar-se pelas fisionomias que se amontoam nas secções, nos carros, nos cafés, e botequins, parece que as prisões foram abertas e todos os seus hóspedes soltos."
Custo da sanidade
Israel pode restaurar sua dissuasão e esmagar Gaza e o Líbano. O mundo continuaria a se surpreender com a profundidade da penetração da inteligência de Israel e seu alcance em Beirute, Damasco, Iêmen, Tul Karm, Jenin e até Teerã. Mas, no final das contas, muita força custará a Israel sua sanidade
Passado e futuro das eleições
Acabou? Ainda não acabou de todo. Mas já dá para afirmar que as eleições não são mais aquelas. Principalmente para mim, que participei diretamente de quase todas do período democrático.
Eu as achei mais tristes que outrora. Como candidato, caí em muitas ciladas. Cilada era ir a um evento programado para conquistar votos e encontrar apenas o autor do convite acenando alegremente uma bandeirinha. Escapar das ciladas com leveza e bom humor é uma arte necessária, porque elas são presentes mesmo na vida de quem não é candidato.
Agora, vi algumas pessoas tristes portando uma bandeira encardida, com nome e número. Eram pagas para isso, passaram horas solitárias numa esquina movimentada. Pareciam dizer:
— Meu candidato fará cemitérios limpos e acessíveis.
Os debates antes eram calorosos. Mesmo os que contestavam o sistema o faziam com elegância e rigor gramatical, como o Dr. Enéas. Lembro-me de um debate para o governo do Rio em que a angústia de Aarão Steinbruch me comoveu. Ele estava perto dos 70 anos, precisava ir ao banheiro, e o intervalo não chegava. Com a idade, passei a entender mais essa urgência. Aliás, o próprio Ulysses Guimarães dizia em suas viagens políticas:
— Sempre que houver um banheiro, use, pois não se sabe nunca quando aparecerá outro.
Outro dia, lembrei-me dos comícios de campanha. Sempre havia um bêbado interagindo ruidosamente com os oradores.
Tudo isso acabou. E, se me refiro a essa época com alguma nostalgia, é porque era mais leve. O traço distintivo talvez fosse este: achávamos que a democracia era irreversível e cada vez mais se aperfeiçoaria. Hoje surgiu a sombra do autoritarismo, a possibilidade de regressão, inexistente no quadro da democracia idealizada.
Naqueles anos já havia a globalização. Nos países mais ricos, uma classe média começava a se sentir ameaçada pela emigração que furava a fila nas suas pretensões de ascensão social. As lutas identitárias já existiam. Trabalhei com elas, mas ainda não levavam à severidade do politicamente correto. As reações à diversidade crescente ainda não encontravam a resistência dramática dos que experimentam a política como missionários e acham que existe apenas uma única visão de boa vida, extensiva a todos.
A verdade é que a política tão presencial do passado, o corpo a corpo cotidiano, se deslocou para as redes. Milhões de pessoas a seguem pelo WhatsApp. Ao mesmo tempo que se torna mais vulnerável, a democracia avança. Talvez isso explique a enigmática frase de Ulysses Guimarães quando se reclamava do nível do Congresso:
— Esperem o próximo. Vai ser pior.
Tive alguma esperança na eleição de São Paulo. Ela apresentou um aventureiro jogando na distância entre a política e o povo e acabou resultando em debates melancólicos. Pablo Marçal ficou fora do segundo turno.
As soluções nas grandes metrópoles são fascinantes. Copenhagen reduziu suas emissões de CO2 de forma drástica; Paris recuperou o Rio Sena; os chineses experimentam a ideia de cidades-esponja para enfrentar grandes chuvas.
Nós contribuímos com uma cadeirada cinematográfica no candidato. Apesar disso, alguns sinais sugerem que a tão decantada polarização não dominou tudo. Os grandes eleitores, Lula e Bolsonaro, não tiveram o papel que se projetava para eles. Novos e promissores quadros políticos têm surgido, ainda que não tenham conquistado vitória eleitoral.
Faltou a experiência de uma campanha sorridente, otimista, voltada para o futuro, como a de Kamala Harris nos Estados Unidos. É preciso esperar ainda o resultado das eleições americanas para ver se o antídoto à indiferença e ao ressentimento funcionam. O que acontece lá não se reproduz mecanicamente noutros lugares, mas dá uma ideia de como tratar essa onda de rancor que domina a política dos nossos dias.
Eu as achei mais tristes que outrora. Como candidato, caí em muitas ciladas. Cilada era ir a um evento programado para conquistar votos e encontrar apenas o autor do convite acenando alegremente uma bandeirinha. Escapar das ciladas com leveza e bom humor é uma arte necessária, porque elas são presentes mesmo na vida de quem não é candidato.
Agora, vi algumas pessoas tristes portando uma bandeira encardida, com nome e número. Eram pagas para isso, passaram horas solitárias numa esquina movimentada. Pareciam dizer:
— Meu candidato fará cemitérios limpos e acessíveis.
Os debates antes eram calorosos. Mesmo os que contestavam o sistema o faziam com elegância e rigor gramatical, como o Dr. Enéas. Lembro-me de um debate para o governo do Rio em que a angústia de Aarão Steinbruch me comoveu. Ele estava perto dos 70 anos, precisava ir ao banheiro, e o intervalo não chegava. Com a idade, passei a entender mais essa urgência. Aliás, o próprio Ulysses Guimarães dizia em suas viagens políticas:
— Sempre que houver um banheiro, use, pois não se sabe nunca quando aparecerá outro.
Outro dia, lembrei-me dos comícios de campanha. Sempre havia um bêbado interagindo ruidosamente com os oradores.
Tudo isso acabou. E, se me refiro a essa época com alguma nostalgia, é porque era mais leve. O traço distintivo talvez fosse este: achávamos que a democracia era irreversível e cada vez mais se aperfeiçoaria. Hoje surgiu a sombra do autoritarismo, a possibilidade de regressão, inexistente no quadro da democracia idealizada.
Naqueles anos já havia a globalização. Nos países mais ricos, uma classe média começava a se sentir ameaçada pela emigração que furava a fila nas suas pretensões de ascensão social. As lutas identitárias já existiam. Trabalhei com elas, mas ainda não levavam à severidade do politicamente correto. As reações à diversidade crescente ainda não encontravam a resistência dramática dos que experimentam a política como missionários e acham que existe apenas uma única visão de boa vida, extensiva a todos.
A verdade é que a política tão presencial do passado, o corpo a corpo cotidiano, se deslocou para as redes. Milhões de pessoas a seguem pelo WhatsApp. Ao mesmo tempo que se torna mais vulnerável, a democracia avança. Talvez isso explique a enigmática frase de Ulysses Guimarães quando se reclamava do nível do Congresso:
— Esperem o próximo. Vai ser pior.
Tive alguma esperança na eleição de São Paulo. Ela apresentou um aventureiro jogando na distância entre a política e o povo e acabou resultando em debates melancólicos. Pablo Marçal ficou fora do segundo turno.
As soluções nas grandes metrópoles são fascinantes. Copenhagen reduziu suas emissões de CO2 de forma drástica; Paris recuperou o Rio Sena; os chineses experimentam a ideia de cidades-esponja para enfrentar grandes chuvas.
Nós contribuímos com uma cadeirada cinematográfica no candidato. Apesar disso, alguns sinais sugerem que a tão decantada polarização não dominou tudo. Os grandes eleitores, Lula e Bolsonaro, não tiveram o papel que se projetava para eles. Novos e promissores quadros políticos têm surgido, ainda que não tenham conquistado vitória eleitoral.
Faltou a experiência de uma campanha sorridente, otimista, voltada para o futuro, como a de Kamala Harris nos Estados Unidos. É preciso esperar ainda o resultado das eleições americanas para ver se o antídoto à indiferença e ao ressentimento funcionam. O que acontece lá não se reproduz mecanicamente noutros lugares, mas dá uma ideia de como tratar essa onda de rancor que domina a política dos nossos dias.
domingo, 6 de outubro de 2024
A tempestade
Se o destino sussurrar no seu ouvido que você não pode deter a tempestade, sussurre de volta “eu sou a tempestade”.
Muitos tentam, porém desistem, varridos pela implacável ventania da vida. (Jean Cocteau já dizia que “viver é uma queda horizontal”.) Alguns de nós até conseguem ficar de pé. Mas só um punhado bastante especial desafia o destino com a naturalidade de Bisan Owda. Ela é irresistível, e seu documentário de oito minutos “It’s Bisan from Gaza, and I’m still alive” também. Tanto assim que seu curta noticioso conquistou um dos prêmios do 76º Emmy de duas semanas atrás, além de reconhecimento unânime na premiação dos Peabody Awards e Edward R. Murrow Awards deste ano.
A jornalista palestina de 25 anos mora em Gaza, tem três filhos e, desde o início dos bombardeios israelenses ao enclave, em outubro passado, empunhou o celular e passou a fazer postagens do que vê, sente, pensa e vive — tudo em inglês, sem saber se suas mensagens jogadas na imensidão da blogosfera aportariam em alguma praia. Todas começavam com sua imagem sorridente, dizendo:
— Sou Bisan, de Gaza, e ainda estou viva.
O episódio premiado foi produzido pela Al Jazeera Plus, está acessível pelo link e retrata o início do estrangulamento de Gaza que se seguiu à matança do 7 de Outubro contra Israel. Passado um ano, Bisan continua a falar para o mundo — tem 4,8 milhões de seguidores no Instagram, e seus despachos mantêm o frescor e o horror dos primeiros dias.
— É uma vitória para a Humanidade — celebra a Al Jazeera Plus não sem razão.
No mesmo espaço de tempo, mais de 130 colegas jornalistas de Bisan foram mortos pelo avanço israelense em Gaza. Todos palestinos.
Foi com indignação que a Creative Community for Peace — uma ONG pró-Israel de Los Angeles com forte influência sobre Hollywood — recebeu a atribuição do Emmy para Bisan Owda.
— Em vez de premiar um dos respeitáveis trabalhos apresentados sobre a guerra em Gaza, [os jurados] optaram por aplaudir uma ativista política filiada à Frente Popular de Libertação da Palestina (FPLP) — acusou a entidade.
A nota também criticava “esse dia triste do jornalismo, de presságio sombrio para o futuro da indústria”. A resposta do braço documental do Emmy, que há quase 50 anos premia excelência no jornalismo televisivo, fincou pé.
— Damos visibilidade a vozes que alguns espectadores podem considerar condenáveis, ou mesmo odiosas — esclareceu o presidente da News & Documentary Emmy Awards.
Um ano já. E Israel ainda não permitiu a entrada em Gaza de um só jornalista ou fotógrafo profissional independente. Blecaute total, exceto para raras visitas de algumas horas em área designada e sob vigilância de escolta militar. Nem uma única equipe de televisão, rádio ou mídia eletrônica ocidental até hoje terá testemunhado o primeiro ano de desterro e aniquilamento de vida no enclave de 365 quilômetros quadrados. Situação particularmente inédita para esta era da comunicação instantânea e global. É um manto de sigilo e segredo insustentável no longo prazo. Quando Gaza, algum dia, vier a ser liberada para o grande jornalismo independente, tudo já terá sido dito por palestinos de celular na mão como Bisan Owda.
Segundo dados divulgados pela agência Anadolu, da Turquia, “902 famílias palestinas de Gaza tiveram seus registros civis obliterados por morte de todos os seus membros”. Tem mais: 1.364 famílias foram dizimadas restando um único membro. De 3.472 outras famílias sobraram apenas dois indivíduos. Foi para dar conta do orfanato a céu aberto em Gaza que organizações humanitárias criaram o acrônimo inglês WCNSF, para “criança ferida, sem familiares vivos”.
Em contrapartida, no Líbano agora também regado a bombas e atropelado por tanques israelenses em caça ao Hezbollah, a destruição é transmitida ao vivo e em cores, em todas as línguas, por jornalistas do mundo inteiro. Daí a correria maior em busca de um cessar-fogo imediato — se possível, antes de o Irã ser tragado na centrífuga de guerras que Israel pretende vencer simultaneamente. O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu parece não ter pressa: faltam poucos dias para a eleição presidencial americana. Aumentar o círculo de fogo no Oriente Médio prejudica bastante a difícil campanha de Kamala Harris à Casa Branca. E um cessar-fogo de bandeja para um Donald Trump eventualmente vitorioso teria sabor de desforra adicional. Como deter essa tempestade?
Muitos tentam, porém desistem, varridos pela implacável ventania da vida. (Jean Cocteau já dizia que “viver é uma queda horizontal”.) Alguns de nós até conseguem ficar de pé. Mas só um punhado bastante especial desafia o destino com a naturalidade de Bisan Owda. Ela é irresistível, e seu documentário de oito minutos “It’s Bisan from Gaza, and I’m still alive” também. Tanto assim que seu curta noticioso conquistou um dos prêmios do 76º Emmy de duas semanas atrás, além de reconhecimento unânime na premiação dos Peabody Awards e Edward R. Murrow Awards deste ano.
A jornalista palestina de 25 anos mora em Gaza, tem três filhos e, desde o início dos bombardeios israelenses ao enclave, em outubro passado, empunhou o celular e passou a fazer postagens do que vê, sente, pensa e vive — tudo em inglês, sem saber se suas mensagens jogadas na imensidão da blogosfera aportariam em alguma praia. Todas começavam com sua imagem sorridente, dizendo:
— Sou Bisan, de Gaza, e ainda estou viva.
O episódio premiado foi produzido pela Al Jazeera Plus, está acessível pelo link e retrata o início do estrangulamento de Gaza que se seguiu à matança do 7 de Outubro contra Israel. Passado um ano, Bisan continua a falar para o mundo — tem 4,8 milhões de seguidores no Instagram, e seus despachos mantêm o frescor e o horror dos primeiros dias.
— É uma vitória para a Humanidade — celebra a Al Jazeera Plus não sem razão.
No mesmo espaço de tempo, mais de 130 colegas jornalistas de Bisan foram mortos pelo avanço israelense em Gaza. Todos palestinos.
Foi com indignação que a Creative Community for Peace — uma ONG pró-Israel de Los Angeles com forte influência sobre Hollywood — recebeu a atribuição do Emmy para Bisan Owda.
— Em vez de premiar um dos respeitáveis trabalhos apresentados sobre a guerra em Gaza, [os jurados] optaram por aplaudir uma ativista política filiada à Frente Popular de Libertação da Palestina (FPLP) — acusou a entidade.
A nota também criticava “esse dia triste do jornalismo, de presságio sombrio para o futuro da indústria”. A resposta do braço documental do Emmy, que há quase 50 anos premia excelência no jornalismo televisivo, fincou pé.
— Damos visibilidade a vozes que alguns espectadores podem considerar condenáveis, ou mesmo odiosas — esclareceu o presidente da News & Documentary Emmy Awards.
Um ano já. E Israel ainda não permitiu a entrada em Gaza de um só jornalista ou fotógrafo profissional independente. Blecaute total, exceto para raras visitas de algumas horas em área designada e sob vigilância de escolta militar. Nem uma única equipe de televisão, rádio ou mídia eletrônica ocidental até hoje terá testemunhado o primeiro ano de desterro e aniquilamento de vida no enclave de 365 quilômetros quadrados. Situação particularmente inédita para esta era da comunicação instantânea e global. É um manto de sigilo e segredo insustentável no longo prazo. Quando Gaza, algum dia, vier a ser liberada para o grande jornalismo independente, tudo já terá sido dito por palestinos de celular na mão como Bisan Owda.
Segundo dados divulgados pela agência Anadolu, da Turquia, “902 famílias palestinas de Gaza tiveram seus registros civis obliterados por morte de todos os seus membros”. Tem mais: 1.364 famílias foram dizimadas restando um único membro. De 3.472 outras famílias sobraram apenas dois indivíduos. Foi para dar conta do orfanato a céu aberto em Gaza que organizações humanitárias criaram o acrônimo inglês WCNSF, para “criança ferida, sem familiares vivos”.
Em contrapartida, no Líbano agora também regado a bombas e atropelado por tanques israelenses em caça ao Hezbollah, a destruição é transmitida ao vivo e em cores, em todas as línguas, por jornalistas do mundo inteiro. Daí a correria maior em busca de um cessar-fogo imediato — se possível, antes de o Irã ser tragado na centrífuga de guerras que Israel pretende vencer simultaneamente. O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu parece não ter pressa: faltam poucos dias para a eleição presidencial americana. Aumentar o círculo de fogo no Oriente Médio prejudica bastante a difícil campanha de Kamala Harris à Casa Branca. E um cessar-fogo de bandeja para um Donald Trump eventualmente vitorioso teria sabor de desforra adicional. Como deter essa tempestade?
Verdade inconveniente
Pergunte a qualquer oficial israelense qual é o plano deles para a paz – você não receberá nadaAyman Safadi. ministro das Relações Exteriores da Jordânia
Carta aberta aos democratas e humanistas
Em outros tempos, o Céu estava tão próximo da Terra que bastaria estender a mão para colher um pedaço do Firmamento e se alimentar com ele
Tenho para mim que o Brasil precisa urgentemente de um projeto de nação, de uma opção democrática ao que vem se desenrolando sob os nossos olhos desde a redemocratização, em 1985, e que acabou nos frustrando em alguma medida. Sair do fim do túnel, antes que seja tarde demais. Eis o que implica, a meu ver, trilhar por um espaço de convergência. Este foi o campo encarnado pela chapa JK - Jango em 1955, que um militar legalista como o Marechal Teixeira Lott defendeu com coragem exemplar. E também foi o campo das Reformas de Base e do ministro San Tiago Dantas no início da década de 60. Ou ainda de Tancredo Neves e seu Colégio Eleitoral, de Itamar Franco e seu Plano Real e, também, de Eduardo Campos, morto tão prematuramente.
Ou seja, chegou o momento de superar essa polarização que assola o país. Não existe autoritarismo de direita ou autoritarismo de esquerda. O que existe é autoritarismo. Não existe corrupção de direita ou corrupção de esquerda. O que existe é corrupção. E a corrupção está para a economia como a tortura para a política: ela mata, tenho reiterado isso. A linha de demarcação política se dá entre Civilização e Barbárie.
Dos enormes desafios que o Campo Democrático tem pela frente – os quais passam tanto pela compreensão de que um novo mundo do trabalho vem se formando diante de nós quanto pela ampliação das lutas pela cidadania, sem esquecer dos compromissos a assumir com a defesa do meio ambiente –, a incorporação definitiva da Democracia ao ideário progressista talvez seja aquele de maior complexidade.
A prática tem demonstrado que alguns setores são mais democráticos no plano político; outros, no terreno social e econômico. Mas há um chão democrático comum, o chão do Humanismo também, integrado pela defesa da Ética, da Justiça Social e pela formação de uma ampla frente política. Não faz o menor sentido manter um corte entre Justiça Social e Democracia. A luta é longa e só pode ser conduzida de forma consensual. Em tempo: por Humanismo eu entendo uma sociedade não fraturada, sem exploração, alienação e opressão de nenhum tipo. Somente assim o homem se reencontra ou se reconcilia com ele mesmo. Ou seja, defendendo os valores da Civilização contra a Barbárie, justamente.
Retomo aqui uma linha de raciocínio que venho trilhando há tempos. O papel das forças democráticas ou do Campo Democrático implica a defesa intransigente dos interesses da população, o que significa o reconhecimento sem arestas das instituições da República. Um país não se compõe apenas de bandeira e hino.
Tem povo dentro dele. A redução da política à lógica do chamado "nós contra eles" conduz a considerar os atores sociais como inimigos e não adversários. Nunca é demais lembrar que o próprio da atividade política é a negociação: a destruição ou a eliminação do outro pertence ao raciocínio e ao domínio dos marginais.
O nosso país só avançou também pela via negociada, por intermédio da política. Entre a revolução – pondo abaixo o aparelho de Estado – e a conciliação – que faz tábua rasa das transformações sociais –, podemos verificar a existência de uma saída que passa pelo acordo político. Aí está a nossa História para comprovar isso, em seus grandes momentos: a Independência negociada, a Abolição pactuada, a transição para a Democracia em 1985. Isso não significa que não houve lutas. Elas foram muitas, inclusive armadas. Significa apenas que aconteceu uma convergência para uma via negociada. As lutas todas convergiram para esse caminho. Daí a negociação. Nem o Estado pode frear as mudanças, ou teve forças suficientes para isso, nem a sociedade conseguiu mudar tudo de chofre, o que tampouco é muito comum na História dos países em geral.
Não há tantas revoluções francesa ou russa assim pelo mundo. O Brasil avança dessa forma, essa a especificidade nacional brasileira, a meu ver. Resumindo, a nossa via de transformação social desemboca na negociação. "Negociar para mudar", escreveu certa vez o extraordinário estrategista político Giocondo Dias.
A mediocridade e a perversidade podem ser significativas e andar de mãos dadas. Já vivemos esse drama durante a ascensão do fascismo na Europa. Durante muitos anos, deixamos, entre nós também, que aventureiros e demais integrantes de toda uma escória, à maneira das hordas fascistas, posassem de defensores do povo. Muitas vezes eles não representam coisa alguma, a não ser eles mesmos. Adolf Hitler empalmou o poder na Alemanha com base, em boa medida, no chamado lumpesinato ou nos setores marginalizados da população. Fez a ponte entre o capital monopolista em formação e a escória social. A mistura de crise econômica com insegurança pública, com a consequente expansão do crime organizado, é totalmente explosiva e pode resultar, como na própria Alemanha nazista, na tomada do poder pelos representantes da barbárie.
Organizações criminosas começam a empalmar outra vez, o Estado. Há uma espécie de burguesia do crime entre nós. O exemplo do Haiti de hoje é altamente representativo dessa tendência, assim como o do Equador.
No Brasil, os assassinatos representam quatro vezes a média mundial. Na Jamaica, dez vezes mais. É terrível isso. Parece não haver fundo do poço. Um dos sintomas mais agudos do desmoronamento presente em uma parte da sociedade é dado pelo avanço da irracionalidade, um dos traços principais, senão o principal, do próprio nazi-fascismo. E há sérios riscos de avanços de uma espécie de Estado Teocrático no mundo. Ainda no exterior, figuras como Marine Le Pen, Viktor Orbán, Nicolás Maduro, Donald Trump, os fundamentalistas do Irã e do Afeganistão e afins apostam na construção de uma espécie de novo Eixo no mundo, tendo a Democracia como inimiga mortal.
Temos que entender que a Democracia é uma totalidade, possuindo ao mesmo tempo uma dimensão social, econômica, política, ambiental, cultural e educacional. Daí não podermos nos limitar mais à defesa da Democracia institucional. Evidentemente, esta defesa continua sendo fundamental, mas, a rigor, é preciso ir além dela. Ou seja, a ideia da Frente Ampla, formulada na batalha contra o fascismo, precisa ser aplicada ou estendida agora a todos os setores da vida. E não só: a Democracia é uma conquista da Humanidade, do processo civilizatório. Um patrimônio de todos. Nesse sentido, ela não pertence a uma classe determinada ou sequer a uma determinada região. Se eu assimilei algo de minhas conversas com Armênio Guedes durante décadas de convívio com ele, foi isso. O próprio liberalismo surgiu na Inglaterra do século XVII, bem antes da formação da burguesia. Sua função era afirmar o indivíduo diante dos desmandos do Estado absolutista.
E é necessário compreender, de uma vez por todas, que a contradição não se dá entre Estado e Mercado e, isto sim, entre capital e interesse social. E que a socialização tem que se dar pela própria sociedade e não pelo Estado forçosamente. Essas são correções inevitáveis, alterando certos rumos.
Há a propriedade formal e a propriedade informal. No papel, uma empresa pode ser estatizada, mas não necessariamente pública: o caráter público é dado pela gestão da empresa, que precisa ser transparente para dizer o mínimo. Uma estatal quase sempre é uma propriedade coletiva dos capitalistas. Ainda mais na fase do Capitalismo Monopolista de Estado. Na outra ponta, uma empresa privada ou uma entidade privada pode perfeitamente ter uma função pública e esse é o caso de inúmeras ONGs. E uma determinada empresa estatal pode sofrer o pior tipo de privatização que existe, qual seja, a gestão fraudulenta ou corrupta por parte de um partido político; um órgão privado, por sinal. Nem estatal é sinônimo de público, nem privado é sinônimo de capitalismo. As burocracias partidárias defendem muitas vezes uma estatal não por serem públicas exatamente, mas por se revelarem passíveis de um controle político-administrativo quase absoluto, abrindo as comportas da corrupção. Basta pensar no loteamento de cargos. Em outros termos: há uma via jurídica para o acesso à propriedade como também há uma via política. E isso explica muita coisa. Mais: o mercado é um dado da economia. Somente quando o capital de fato o domina é que estamos diante de uma realidade capitalista. Havia mercado na Grécia antiga, mas não havia capitalismo. Eu conversava muito com o saudoso Milton Coelho da Graça a respeito disso e com ele aprendi lições valiosas. Uma delas? A economia é para o Homem.
O trabalho por conta própria, o empreendedorismo social e as cooperativas de trabalhadores abrem novos espaços, ditando aspectos diferenciados para a atividade econômica. Afinal, a esmagadora maioria da população vive do suor de seu rosto. Marx chegou a escrever que a luta dos trabalhadores tinha por objetivo restabelecer "a propriedade individual fundada sobre sobre as conquistas mesmo da era capitalista", vendo assim o trabalhador como um detentor pessoal das suas condições de trabalho. Não havia outra forma de quem trabalha se tornar dono dos frutos gerados por sua atividade.
Não há mais muito tempo a perder. Urge organizar um novo projeto político e um novo operador político.
Aprendi isso com uma dessas figuras extraordinárias que tive a honra de conhecer no decorrer da vida, o camponês Hilário Pinha, líder da revolta de Porecatu, no Paraná, no final da década de 40 do século passado.
Agrupamentos políticos do Campo Democrático, associações sindicais e de classe profissional, componentes dos setores artísticos e da intelectualidade, grupos de ambientalistas, defensores da cidadania, dos direitos da mulher e das minorias, associações de artesãos, além de fazedores de cultura em geral, decididamente a lista é tão longa e diversa quanto a própria sociedade, eu diria até.
Precisamos, em meio a essa crise sem precedentes dos nossos ideais de Justiça Social e de Democracia, agarrar a realidade pelos cabelos e recuperar os laços que ainda nos ligam à cultura libertária. Não estamos mais na fase da organização da indústria sob bases mais artesanais, dando origem ao movimento anarquista, sua expressão política. Como tampouco estamos mais na época do chamado chão da fábrica, do trabalho fabril tradicional, dando origem aos movimentos capitaneados pelas II e III internacionais de trabalhadores, respectivamente social-democrata e comunista, suas expressões políticas também. Hoje, estamos diante de um processo de outro tipo, com a entrada em cena da automação, da robótica e da inteligência artificial. Que política armar a partir daí é o x da questão. Esse é o ponto de partida. Vamos concentrar esforços nisso. Como o Estado já não emprega como antes e a indústria passa por um processo de automação cada vez mais acentuado (no momento, para que se tenha uma ideia, apenas 10% do parque industrial recorre à inteligência artificial), os trabalhadores tendem a investir nas atividades por conta própria, até como forma de atravessar esse período de mudanças. A sobrevivência está na ordem do dia. Eis o que angustia as pessoas. Quem reduzir isso a uma simples vontade de empreender, em função de um espírito capitalista que se apossou repentinamente dos trabalhadores, vai se isolar totalmente das massas. A ideologia tem pouco que ver com isso: trata-se de luta pelo pão de cada dia; cada vez mais complicada. Não podemos deixar mais essa bandeira nas mãos dos oportunistas. Nesse sentido, seria interessante examinarmos a experiência de microcrédito de Muhammad Yunus, de Bangladesh. No Brasil, um dos poucos homens públicos a chamar a atenção para isso foi Cristovam Buarque. O afastamento de muitos setores ditos progressistas da realidade popular impede por vezes a compreensão disso. Hoje é mais comum um filiado a um partido político do campo progressista se aboletar em um gabinete parlamentar qualquer do que participar de algum movimento social. O próprio marxismo, antes vigoroso no interior de alguns partidos, com formulação própria, hoje se refugiou quase por completo na Universidade. Vigora nesses nossos ásperos tempos um marxismo de cátedra, desvinculado da prática. Ocorre que o que é próprio da práxis marxista é justamente a união entre teoria e prática. Só assim o pensamento avança de fato.
Coerência não é mesmice, já observava Ferreira Gullar. Na época de Karl Marx e Friedrich Engels não existia a Linguística, a Psicanálise, a Antropologia, a Ecologia, a Cibernética e a Arqueologia, assim como a Psicologia, ainda engatinhava. De lá para cá, a árvore do conhecimento cresceu e muito. O mundo hoje é outro.
Algumas questões permanecem, outras não. E surgiram novos problemas. Se considerarmos que as ideias de Karl Marx e Friedrich Engels estão ligadas às lutas de classe, é necessário ter em conta também que elas desaparecerão com o próprio desaparecimento das classes sociais. Nesse sentido, suas ideias compõem o formidável acervo do Humanismo contemporâneo, uma vez que visam a repor a totalidade social e, por extensão, a integridade do próprio Homem.
Se a primeira Revolução Industrial, a que teve início na Inglaterra em 1780, criou as bases técnicas para a superação do modo de produção escravista ao transferir uma parte da capacidade muscular do homem para a máquina, esta última revolução, iniciada na virada do século XX para o atual, ao transferir uma parte da capacidade intelectual do homem para as máquinas, lança as bases técnicas para a superação, por seu turno, do modo de produção das mercadorias. No século XXI, alguns reagem às mutações industriais como outros reagiram àquelas presentes na passagem do século XVIII para o século XIX. Ambos revelaram-se reacionários, historicamente falando. A impressão que dá é que alguns setores (curiosamente lotados na intelectualidade, digamos assim) se comportam diante da revolução tecnológica em curso como outrora os ludistas na Inglaterra, que quebravam as máquinas nas fábricas, em reação à Revolução Industrial.
No passado – se formos nos ater ao período da Revolução Russa de 1917, por exemplo – havia as condições políticas para as mudanças, mas não existiam as condições técnicas, materiais. O próprio Vladimir Lenin reconheceu esse fato, às vésperas da tomada do poder, ou seja, na noite do dia 6 para o dia 7 de novembro.
Mesmo nos anos subsequentes à Revolução, o idioma de trânsito ou oficial da III Internacional era o alemão e não o russo, uma vez que os bolcheviques aguardavam a expansão da Revolução em direção ao Ocidente. Isso acabou não acontecendo devido às particularidades da luta no campo ocidental, diferente daquelas do campo oriental, predominando neste último um Estado forte e uma sociedade civil pouco desenvolvida. No chamado Ocidente era justamente o contrário: havia um Estado não tão dominante e uma sociedade civil mais atuante do que no Oriente. As duas vias, a “oriental” e a “ocidental” se chocaram. De toda maneira, a situação hoje se inverteu, em relação à Revolução de 1917 na Rússia: isto é, temos agora as condições técnicas, a base material, mas perdemos momentaneamente as condições políticas para as transformações sociais. Existe um choque incontornável, uma contradição indissolúvel, entre o capital constante (maquinário, instalações, o chamado trabalho morto) e o capital variável (grosso modo: o trabalho humano vivo, assalariado). Extrair mais-valia de um robô é um pouco difícil. O capitalismo criou uma base material que não é aplicada a ele. A automação é a base material da sociedade sem classes, tornando tecnicamente desnecessária a exploração do homem pelo homem. O modo de produção capitalista não pode ir até o fim da lógica da automação por ela ser incompatível com a extração da mais-valia. Afinal, sem salário não há capital. E como é impossível frear o desenvolvimento das forças produtivas, eis o impasse formado. Ele só será resolvido pela intervenção política.
Sob essa ótica, urge adequar o rumo da Economia àquele do Projeto Político. Tudo indica que haverá um atrito entre as forças produtivas, que não recuam historicamente, e as forças reprodutivas, isto é, o número de pessoas formado no bojo da Revolução Industrial anterior, conforme os indicadores demográficos que possuímos. Esta é outra dificuldade, e não das menores, que temos de encarar. É provável que tenhamos que controlar ao menos o ritmo da entrada em cena das inovações tecnológicas.
Cabe a nós, humanistas contemporâneos, reinventar a Democracia, democratizando o seu sistema atual de representação. Pois toda Democracia, até os sovietes, repousam sobre um conjunto de representatividade, de delegação de poder. Até para melhor defendê-la das forças autoritárias e totalitárias, é preciso atualizá-la. Ao mesmo título, impõe-se rever a qualidade da República que temos no mundo: há verdadeiros clãs dinásticos travando a participação das pessoas, famílias inteiras dominando a política, e isso tanto nos países centrais quanto periféricos. É possível que Nikita Kruschev tenha sido apeado do poder na antiga União Soviética muito menos por sua crítica ao stalinismo (portanto correta) do que pelo fato de ter batalhado pela rotatividade do poder, limitando a representação política a dois mandatos. Essa era uma proposta da própria Comuna de Paris, já em 1871. Quando nos referimos à questão republicana, não estamos nos atendo apenas a ditaduras, já em número considerável no mundo e também submetidas a verdadeiras dinastias. Também nos países que se reivindicam da Democracia isso também ocorre. Assim, temos a família Gandhi na Índia, a família Ali Bhutto no Paquistão, os Kennedys e os Bush nos Estados Unidos, a família Le Pen na França, Papa Doc e Baby Doc no Haiti, os Battle no Uruguai, a família Frei no Chile, a família Pastrana na Colômbia, os Ortegas na Nicarágua, os Castros em Cuba, Peron e Kirchner na Argentina, a família de Kim-Il-Sung na Coreia do Norte, a família Tchan-Kai-Shek em Formosa, os Sukharnos na Indonésia, a família Fujimori no Peru. Há algo de podre também fora do Reino da Dinamarca.
Não é muito difícil constatar a ambiguidade de certos setores se reivindicando do campo progressista quando recorrem à doutrina nacionalista, em período marcado pela globalização, para justificar seus equívocos e crimes. Não há como deixar de recordar aqui a frase do escritor inglês Samuel Johnson: "o nacionalismo é o último refúgio dos calhordas". Proferida no século XVIII, ela parece manter toda sua atualidade. Já foi dito por um grande estrategista político do século XX: "não pintemos o nacionalismo de vermelho". Pois uma coisa é o projeto de nação, outra a estreiteza nacional. Torna-se imperativo, por exemplo, inserir o Brasil e seu necessário projeto de nação no mundo globalizado que aí está. É possível uma globalização dos povos. Não estamos fadados a uma globalização do capital. Há contradições nesse processo todo. Quem só enxerga a dinâmica do capital no processo de globalização no fundo não crê em mudanças. Da parte de alguns, pode ser até uma boa desculpa para justificar o imobilismo e a impotência, quem sabe.
Para algumas instâncias políticas ocorre, visivelmente, um atrito entre o plano nacional e a questão democrática. A História ensina; é transmissora de experiências. Vejamos o caso do governo populista de Getúlio Vargas. Ele subordina a Democracia a um propalado nacionalismo modernizador. Ocorre que a modernização desejada por ele se fazia em detrimento dos Direitos Humanos. Modernização com recurso sistemático a torturas e carta branca para a polícia política de Filinto Müller não dá. Astrojildo Pereira percebeu isso com acuidade à época, valorizando a Democracia entre nós desde os primórdios do movimento dos trabalhadores, nas primeiras décadas do século XX.
O que era o Brasil antes do Brasil? Uma área do globo terrestre assentada economicamente em um modo de subsistência, com populações vivendo de forma relativamente descentralizada e sem contato com as demais áreas do mundo, praticamente, a não ser por levas migratórias esporádicas provenientes de partes da Ásia e, provavelmente, do Pacífico. Se formos examinar a formação do próprio Brasil, não é difícil constatar que somos fruto da chamada globalização: a cana-de-açúcar, originária da Índia, após um período de aclimatação na Ilha da Madeira, é transplantada para o Nordeste brasileiro, com força de trabalho africana, em processo comandado pelo capital comercial em expansão na Europa ocidental. Nas praças europeias, o açúcar resultante do beneficiamento da cana passaria a ser comercializado. O início da unificação dos continentes data, pelo menos, do século XVI. A leitura de um autor clássico da nossa historiografia, como Nelson Werneck Sodré, permite chegar a essa conclusão. A mudança foi tão radical por aqui que a implantação do modo de produção escravista, porque baseado na forma de existência social da força de trabalho escrava, implicou a própria alteração dos produtores, com a saída de cena dos índios. Mas essa saída não se deu por uma não aceitação da escravização por parte dos índios, o que equivaleria a dizer que os negros aceitaram essa escravização... As razões foram outras, naturalmente. Senão vejamos. O Brasil chega ao ano de 1600 como o maior produtor mundial de açúcar e atinge esse patamar com considerável força de trabalho dos índios, pelo menos até 1585/1590. De um lado, Angola possuía, basicamente, o mesmo tipo de solo que o massapê presente no Nordeste brasileiro. De outro, os portos angolanos estavam mais próximos de Lisboa do que os do Nordeste do Brasil. Além disso, a população já se encontrava lá. Então, qual o sentido de trazer os negros escravizados para o Brasil? Por uma razão: o capitalismo nasceu vendendo homens. E desta forma foi reinventada a escravidão em solo americano. E eram esses homens escravizados que produziam o açúcar, como depois extraíam o ouro e os diamantes e plantavam o algodão e o café. Sem a África e seus trabalhadores não existiria o Brasil tal qual o conhecemos hoje.
Retornando ao ponto de partida. Abandonamos a noção de "reformas de estrutura" e não levamos a Democracia aos terrenos social e econômico. Já está mais do que na hora de afastarmos do nosso caminho os aventureiros, aqueles que não possuem programa ou um mínimo de propostas sequer. Foi assim que o Brasil avançou nos momentos mais cruciais de sua História.
O populismo, dito de "direita" ou de "esquerda" é sempre um atraso. É, por vezes, o fascismo que não ousa dizer o nome.
A partir dessa ótica, convém dizer ainda que política não se faz com cabeça étnica – ou seja, trata-se de evitar a racialização. E a racialização foi o que Hitler propôs, ao defender a ideia da edificação da nação alemã sob bases raciais, fazendo da "diferença", ou do arianismo o seu cavalo de batalha. Uma coisa é combater o racismo e lutar por um lugar ao sol para as chamadas minorias; outra, bem distinta, colocar a raça no centro das questões sociais. Tudo é parte da luta, mas não há luta à parte. É preciso cautela, evitando a exacerbação disso, conforme se vê nos últimos anos no Brasil e em outras áreas do mundo. A universalidade da condição humana só tem a perder com um posicionamento desse tipo. Pior: a sociedade desaparece, o denominador comum desaparece, e passa a existir somente o indivíduo. O atrelamento da política ou da cultura à "pureza" genética tem endereço certo: nazismo, Ku Klux Klan, por aí. Isso para não aludir ao fato de a sociedade brasileira ser extraordinariamente mestiçada.
Vamos ao que nos une e não ao que nos desune. O sonho não acabou, mas necessita de ajustes consideráveis. Como no passado, temos quadros competentes para recuperar o país. Ou ainda temos. A principal característica da cultura brasileira, desde pelo menos a Conjuração Mineira, tem sido seu poder de síntese.
Entre o nacional e o internacional. O erudito e o popular. O conhecimento teórico e o engajamento. O entrelaçamento entre contribuições culturais de matizes diversas. E isso se reflete no universo dos nossos principais intelectuais, artistas, formuladores, articuladores, homens públicos e administradores em geral.
Assim como se reflete nas lutas sociais memoráveis do nosso povo, como que consubstanciadas nas epopeias das Missões Guaranis, do Quilombo dos Palmares, da Conjuração Mineira. Sem esquecer jamais a Independência de 1822, as lutas pela Abolição, a Proclamação da República, a criação do Serviço de Proteção aos Índios, a fundação do Partido Comunista, a Coluna Prestes, a formação da Aliança Nacional Libertadora, a organização da Força Expedicionária Brasileira, a campanha do Petróleo é Nosso, a Campanha pela Legalidade, a Frente Ampla, o movimento das Diretas-Já e a Constituição Cidadã de 1988. A sociedade civil é sempre maior do que o Estado. Quem governava o Brasil à época de Sepé Tiaraju? Ou de Zumbi dos Palmares? Ou, ainda, de Tiradentes? De José do Patrocínio? Do Marechal Rondon? De Luiz Carlos Prestes?
Provavelmente teremos alguma dificuldade em responder. Mas conhecemos todos esses heróis da luta pela nossa liberdade e transformação social. O povo sabe quem reter em sua memória. Apesar de ter ocupado um ministério durante a Independência, da qual foi o principal artífice, José Bonifácio, outro grande brasileiro, foi preso duas vezes e deportado do país, morrendo no isolamento em 1838.
Finalizando agora. Ninguém tem o monopólio da verdade, da reflexão ou da honestidade política e/ou cultural. Seria muita pretensão. O mundo é plural, sempre. A Civilização é fruto da marcha comum da Humanidade, com o aporte das populações de todos os continentes. Não dá para imaginar a Europa sem o Cristianismo, religião gestada no Oriente Médio, ou as Américas sem a colonização moderna, que tanto impacto teve sobre a acumulação primitiva de capital. De fato, como pensar a civilização humana sem trocas de todo tipo?
A Humanidade é composta por pessoas de boa vontade, que trabalham, estudam e lutam por seus direitos. No Brasil e no resto do mundo. Como dizia Oscar Niemeyer, precisamos nos dar as mãos. Essa é a minha convicção. Daí este apelo por um entendimento entre os humanistas e democráticos, tendo por base as conquistas da própria Civilização, no que ela tem de melhor e de mais significativo: ou seja, a Justiça Social, a Ética e a Democracia.
De uma lenda mursi, da África Negra
É preciso voltar aos passos que foram dados, para os repetir e para traçar caminhos novos ao lado deles. É preciso recomeçar a viagem. Sempre. O viajante volta já
É preciso voltar aos passos que foram dados, para os repetir e para traçar caminhos novos ao lado deles. É preciso recomeçar a viagem. Sempre. O viajante volta já
José Saramago
I
Tenho para mim que o Brasil precisa urgentemente de um projeto de nação, de uma opção democrática ao que vem se desenrolando sob os nossos olhos desde a redemocratização, em 1985, e que acabou nos frustrando em alguma medida. Sair do fim do túnel, antes que seja tarde demais. Eis o que implica, a meu ver, trilhar por um espaço de convergência. Este foi o campo encarnado pela chapa JK - Jango em 1955, que um militar legalista como o Marechal Teixeira Lott defendeu com coragem exemplar. E também foi o campo das Reformas de Base e do ministro San Tiago Dantas no início da década de 60. Ou ainda de Tancredo Neves e seu Colégio Eleitoral, de Itamar Franco e seu Plano Real e, também, de Eduardo Campos, morto tão prematuramente.
Ou seja, chegou o momento de superar essa polarização que assola o país. Não existe autoritarismo de direita ou autoritarismo de esquerda. O que existe é autoritarismo. Não existe corrupção de direita ou corrupção de esquerda. O que existe é corrupção. E a corrupção está para a economia como a tortura para a política: ela mata, tenho reiterado isso. A linha de demarcação política se dá entre Civilização e Barbárie.
Dos enormes desafios que o Campo Democrático tem pela frente – os quais passam tanto pela compreensão de que um novo mundo do trabalho vem se formando diante de nós quanto pela ampliação das lutas pela cidadania, sem esquecer dos compromissos a assumir com a defesa do meio ambiente –, a incorporação definitiva da Democracia ao ideário progressista talvez seja aquele de maior complexidade.
A prática tem demonstrado que alguns setores são mais democráticos no plano político; outros, no terreno social e econômico. Mas há um chão democrático comum, o chão do Humanismo também, integrado pela defesa da Ética, da Justiça Social e pela formação de uma ampla frente política. Não faz o menor sentido manter um corte entre Justiça Social e Democracia. A luta é longa e só pode ser conduzida de forma consensual. Em tempo: por Humanismo eu entendo uma sociedade não fraturada, sem exploração, alienação e opressão de nenhum tipo. Somente assim o homem se reencontra ou se reconcilia com ele mesmo. Ou seja, defendendo os valores da Civilização contra a Barbárie, justamente.
Retomo aqui uma linha de raciocínio que venho trilhando há tempos. O papel das forças democráticas ou do Campo Democrático implica a defesa intransigente dos interesses da população, o que significa o reconhecimento sem arestas das instituições da República. Um país não se compõe apenas de bandeira e hino.
Tem povo dentro dele. A redução da política à lógica do chamado "nós contra eles" conduz a considerar os atores sociais como inimigos e não adversários. Nunca é demais lembrar que o próprio da atividade política é a negociação: a destruição ou a eliminação do outro pertence ao raciocínio e ao domínio dos marginais.
O nosso país só avançou também pela via negociada, por intermédio da política. Entre a revolução – pondo abaixo o aparelho de Estado – e a conciliação – que faz tábua rasa das transformações sociais –, podemos verificar a existência de uma saída que passa pelo acordo político. Aí está a nossa História para comprovar isso, em seus grandes momentos: a Independência negociada, a Abolição pactuada, a transição para a Democracia em 1985. Isso não significa que não houve lutas. Elas foram muitas, inclusive armadas. Significa apenas que aconteceu uma convergência para uma via negociada. As lutas todas convergiram para esse caminho. Daí a negociação. Nem o Estado pode frear as mudanças, ou teve forças suficientes para isso, nem a sociedade conseguiu mudar tudo de chofre, o que tampouco é muito comum na História dos países em geral.
Não há tantas revoluções francesa ou russa assim pelo mundo. O Brasil avança dessa forma, essa a especificidade nacional brasileira, a meu ver. Resumindo, a nossa via de transformação social desemboca na negociação. "Negociar para mudar", escreveu certa vez o extraordinário estrategista político Giocondo Dias.
II
A mediocridade e a perversidade podem ser significativas e andar de mãos dadas. Já vivemos esse drama durante a ascensão do fascismo na Europa. Durante muitos anos, deixamos, entre nós também, que aventureiros e demais integrantes de toda uma escória, à maneira das hordas fascistas, posassem de defensores do povo. Muitas vezes eles não representam coisa alguma, a não ser eles mesmos. Adolf Hitler empalmou o poder na Alemanha com base, em boa medida, no chamado lumpesinato ou nos setores marginalizados da população. Fez a ponte entre o capital monopolista em formação e a escória social. A mistura de crise econômica com insegurança pública, com a consequente expansão do crime organizado, é totalmente explosiva e pode resultar, como na própria Alemanha nazista, na tomada do poder pelos representantes da barbárie.
Organizações criminosas começam a empalmar outra vez, o Estado. Há uma espécie de burguesia do crime entre nós. O exemplo do Haiti de hoje é altamente representativo dessa tendência, assim como o do Equador.
No Brasil, os assassinatos representam quatro vezes a média mundial. Na Jamaica, dez vezes mais. É terrível isso. Parece não haver fundo do poço. Um dos sintomas mais agudos do desmoronamento presente em uma parte da sociedade é dado pelo avanço da irracionalidade, um dos traços principais, senão o principal, do próprio nazi-fascismo. E há sérios riscos de avanços de uma espécie de Estado Teocrático no mundo. Ainda no exterior, figuras como Marine Le Pen, Viktor Orbán, Nicolás Maduro, Donald Trump, os fundamentalistas do Irã e do Afeganistão e afins apostam na construção de uma espécie de novo Eixo no mundo, tendo a Democracia como inimiga mortal.
Temos que entender que a Democracia é uma totalidade, possuindo ao mesmo tempo uma dimensão social, econômica, política, ambiental, cultural e educacional. Daí não podermos nos limitar mais à defesa da Democracia institucional. Evidentemente, esta defesa continua sendo fundamental, mas, a rigor, é preciso ir além dela. Ou seja, a ideia da Frente Ampla, formulada na batalha contra o fascismo, precisa ser aplicada ou estendida agora a todos os setores da vida. E não só: a Democracia é uma conquista da Humanidade, do processo civilizatório. Um patrimônio de todos. Nesse sentido, ela não pertence a uma classe determinada ou sequer a uma determinada região. Se eu assimilei algo de minhas conversas com Armênio Guedes durante décadas de convívio com ele, foi isso. O próprio liberalismo surgiu na Inglaterra do século XVII, bem antes da formação da burguesia. Sua função era afirmar o indivíduo diante dos desmandos do Estado absolutista.
E é necessário compreender, de uma vez por todas, que a contradição não se dá entre Estado e Mercado e, isto sim, entre capital e interesse social. E que a socialização tem que se dar pela própria sociedade e não pelo Estado forçosamente. Essas são correções inevitáveis, alterando certos rumos.
Há a propriedade formal e a propriedade informal. No papel, uma empresa pode ser estatizada, mas não necessariamente pública: o caráter público é dado pela gestão da empresa, que precisa ser transparente para dizer o mínimo. Uma estatal quase sempre é uma propriedade coletiva dos capitalistas. Ainda mais na fase do Capitalismo Monopolista de Estado. Na outra ponta, uma empresa privada ou uma entidade privada pode perfeitamente ter uma função pública e esse é o caso de inúmeras ONGs. E uma determinada empresa estatal pode sofrer o pior tipo de privatização que existe, qual seja, a gestão fraudulenta ou corrupta por parte de um partido político; um órgão privado, por sinal. Nem estatal é sinônimo de público, nem privado é sinônimo de capitalismo. As burocracias partidárias defendem muitas vezes uma estatal não por serem públicas exatamente, mas por se revelarem passíveis de um controle político-administrativo quase absoluto, abrindo as comportas da corrupção. Basta pensar no loteamento de cargos. Em outros termos: há uma via jurídica para o acesso à propriedade como também há uma via política. E isso explica muita coisa. Mais: o mercado é um dado da economia. Somente quando o capital de fato o domina é que estamos diante de uma realidade capitalista. Havia mercado na Grécia antiga, mas não havia capitalismo. Eu conversava muito com o saudoso Milton Coelho da Graça a respeito disso e com ele aprendi lições valiosas. Uma delas? A economia é para o Homem.
O trabalho por conta própria, o empreendedorismo social e as cooperativas de trabalhadores abrem novos espaços, ditando aspectos diferenciados para a atividade econômica. Afinal, a esmagadora maioria da população vive do suor de seu rosto. Marx chegou a escrever que a luta dos trabalhadores tinha por objetivo restabelecer "a propriedade individual fundada sobre sobre as conquistas mesmo da era capitalista", vendo assim o trabalhador como um detentor pessoal das suas condições de trabalho. Não havia outra forma de quem trabalha se tornar dono dos frutos gerados por sua atividade.
III
Não há mais muito tempo a perder. Urge organizar um novo projeto político e um novo operador político.
Aprendi isso com uma dessas figuras extraordinárias que tive a honra de conhecer no decorrer da vida, o camponês Hilário Pinha, líder da revolta de Porecatu, no Paraná, no final da década de 40 do século passado.
Agrupamentos políticos do Campo Democrático, associações sindicais e de classe profissional, componentes dos setores artísticos e da intelectualidade, grupos de ambientalistas, defensores da cidadania, dos direitos da mulher e das minorias, associações de artesãos, além de fazedores de cultura em geral, decididamente a lista é tão longa e diversa quanto a própria sociedade, eu diria até.
Precisamos, em meio a essa crise sem precedentes dos nossos ideais de Justiça Social e de Democracia, agarrar a realidade pelos cabelos e recuperar os laços que ainda nos ligam à cultura libertária. Não estamos mais na fase da organização da indústria sob bases mais artesanais, dando origem ao movimento anarquista, sua expressão política. Como tampouco estamos mais na época do chamado chão da fábrica, do trabalho fabril tradicional, dando origem aos movimentos capitaneados pelas II e III internacionais de trabalhadores, respectivamente social-democrata e comunista, suas expressões políticas também. Hoje, estamos diante de um processo de outro tipo, com a entrada em cena da automação, da robótica e da inteligência artificial. Que política armar a partir daí é o x da questão. Esse é o ponto de partida. Vamos concentrar esforços nisso. Como o Estado já não emprega como antes e a indústria passa por um processo de automação cada vez mais acentuado (no momento, para que se tenha uma ideia, apenas 10% do parque industrial recorre à inteligência artificial), os trabalhadores tendem a investir nas atividades por conta própria, até como forma de atravessar esse período de mudanças. A sobrevivência está na ordem do dia. Eis o que angustia as pessoas. Quem reduzir isso a uma simples vontade de empreender, em função de um espírito capitalista que se apossou repentinamente dos trabalhadores, vai se isolar totalmente das massas. A ideologia tem pouco que ver com isso: trata-se de luta pelo pão de cada dia; cada vez mais complicada. Não podemos deixar mais essa bandeira nas mãos dos oportunistas. Nesse sentido, seria interessante examinarmos a experiência de microcrédito de Muhammad Yunus, de Bangladesh. No Brasil, um dos poucos homens públicos a chamar a atenção para isso foi Cristovam Buarque. O afastamento de muitos setores ditos progressistas da realidade popular impede por vezes a compreensão disso. Hoje é mais comum um filiado a um partido político do campo progressista se aboletar em um gabinete parlamentar qualquer do que participar de algum movimento social. O próprio marxismo, antes vigoroso no interior de alguns partidos, com formulação própria, hoje se refugiou quase por completo na Universidade. Vigora nesses nossos ásperos tempos um marxismo de cátedra, desvinculado da prática. Ocorre que o que é próprio da práxis marxista é justamente a união entre teoria e prática. Só assim o pensamento avança de fato.
Coerência não é mesmice, já observava Ferreira Gullar. Na época de Karl Marx e Friedrich Engels não existia a Linguística, a Psicanálise, a Antropologia, a Ecologia, a Cibernética e a Arqueologia, assim como a Psicologia, ainda engatinhava. De lá para cá, a árvore do conhecimento cresceu e muito. O mundo hoje é outro.
Algumas questões permanecem, outras não. E surgiram novos problemas. Se considerarmos que as ideias de Karl Marx e Friedrich Engels estão ligadas às lutas de classe, é necessário ter em conta também que elas desaparecerão com o próprio desaparecimento das classes sociais. Nesse sentido, suas ideias compõem o formidável acervo do Humanismo contemporâneo, uma vez que visam a repor a totalidade social e, por extensão, a integridade do próprio Homem.
IV
Se a primeira Revolução Industrial, a que teve início na Inglaterra em 1780, criou as bases técnicas para a superação do modo de produção escravista ao transferir uma parte da capacidade muscular do homem para a máquina, esta última revolução, iniciada na virada do século XX para o atual, ao transferir uma parte da capacidade intelectual do homem para as máquinas, lança as bases técnicas para a superação, por seu turno, do modo de produção das mercadorias. No século XXI, alguns reagem às mutações industriais como outros reagiram àquelas presentes na passagem do século XVIII para o século XIX. Ambos revelaram-se reacionários, historicamente falando. A impressão que dá é que alguns setores (curiosamente lotados na intelectualidade, digamos assim) se comportam diante da revolução tecnológica em curso como outrora os ludistas na Inglaterra, que quebravam as máquinas nas fábricas, em reação à Revolução Industrial.
No passado – se formos nos ater ao período da Revolução Russa de 1917, por exemplo – havia as condições políticas para as mudanças, mas não existiam as condições técnicas, materiais. O próprio Vladimir Lenin reconheceu esse fato, às vésperas da tomada do poder, ou seja, na noite do dia 6 para o dia 7 de novembro.
Mesmo nos anos subsequentes à Revolução, o idioma de trânsito ou oficial da III Internacional era o alemão e não o russo, uma vez que os bolcheviques aguardavam a expansão da Revolução em direção ao Ocidente. Isso acabou não acontecendo devido às particularidades da luta no campo ocidental, diferente daquelas do campo oriental, predominando neste último um Estado forte e uma sociedade civil pouco desenvolvida. No chamado Ocidente era justamente o contrário: havia um Estado não tão dominante e uma sociedade civil mais atuante do que no Oriente. As duas vias, a “oriental” e a “ocidental” se chocaram. De toda maneira, a situação hoje se inverteu, em relação à Revolução de 1917 na Rússia: isto é, temos agora as condições técnicas, a base material, mas perdemos momentaneamente as condições políticas para as transformações sociais. Existe um choque incontornável, uma contradição indissolúvel, entre o capital constante (maquinário, instalações, o chamado trabalho morto) e o capital variável (grosso modo: o trabalho humano vivo, assalariado). Extrair mais-valia de um robô é um pouco difícil. O capitalismo criou uma base material que não é aplicada a ele. A automação é a base material da sociedade sem classes, tornando tecnicamente desnecessária a exploração do homem pelo homem. O modo de produção capitalista não pode ir até o fim da lógica da automação por ela ser incompatível com a extração da mais-valia. Afinal, sem salário não há capital. E como é impossível frear o desenvolvimento das forças produtivas, eis o impasse formado. Ele só será resolvido pela intervenção política.
Sob essa ótica, urge adequar o rumo da Economia àquele do Projeto Político. Tudo indica que haverá um atrito entre as forças produtivas, que não recuam historicamente, e as forças reprodutivas, isto é, o número de pessoas formado no bojo da Revolução Industrial anterior, conforme os indicadores demográficos que possuímos. Esta é outra dificuldade, e não das menores, que temos de encarar. É provável que tenhamos que controlar ao menos o ritmo da entrada em cena das inovações tecnológicas.
V
Não é muito difícil constatar a ambiguidade de certos setores se reivindicando do campo progressista quando recorrem à doutrina nacionalista, em período marcado pela globalização, para justificar seus equívocos e crimes. Não há como deixar de recordar aqui a frase do escritor inglês Samuel Johnson: "o nacionalismo é o último refúgio dos calhordas". Proferida no século XVIII, ela parece manter toda sua atualidade. Já foi dito por um grande estrategista político do século XX: "não pintemos o nacionalismo de vermelho". Pois uma coisa é o projeto de nação, outra a estreiteza nacional. Torna-se imperativo, por exemplo, inserir o Brasil e seu necessário projeto de nação no mundo globalizado que aí está. É possível uma globalização dos povos. Não estamos fadados a uma globalização do capital. Há contradições nesse processo todo. Quem só enxerga a dinâmica do capital no processo de globalização no fundo não crê em mudanças. Da parte de alguns, pode ser até uma boa desculpa para justificar o imobilismo e a impotência, quem sabe.
Para algumas instâncias políticas ocorre, visivelmente, um atrito entre o plano nacional e a questão democrática. A História ensina; é transmissora de experiências. Vejamos o caso do governo populista de Getúlio Vargas. Ele subordina a Democracia a um propalado nacionalismo modernizador. Ocorre que a modernização desejada por ele se fazia em detrimento dos Direitos Humanos. Modernização com recurso sistemático a torturas e carta branca para a polícia política de Filinto Müller não dá. Astrojildo Pereira percebeu isso com acuidade à época, valorizando a Democracia entre nós desde os primórdios do movimento dos trabalhadores, nas primeiras décadas do século XX.
O que era o Brasil antes do Brasil? Uma área do globo terrestre assentada economicamente em um modo de subsistência, com populações vivendo de forma relativamente descentralizada e sem contato com as demais áreas do mundo, praticamente, a não ser por levas migratórias esporádicas provenientes de partes da Ásia e, provavelmente, do Pacífico. Se formos examinar a formação do próprio Brasil, não é difícil constatar que somos fruto da chamada globalização: a cana-de-açúcar, originária da Índia, após um período de aclimatação na Ilha da Madeira, é transplantada para o Nordeste brasileiro, com força de trabalho africana, em processo comandado pelo capital comercial em expansão na Europa ocidental. Nas praças europeias, o açúcar resultante do beneficiamento da cana passaria a ser comercializado. O início da unificação dos continentes data, pelo menos, do século XVI. A leitura de um autor clássico da nossa historiografia, como Nelson Werneck Sodré, permite chegar a essa conclusão. A mudança foi tão radical por aqui que a implantação do modo de produção escravista, porque baseado na forma de existência social da força de trabalho escrava, implicou a própria alteração dos produtores, com a saída de cena dos índios. Mas essa saída não se deu por uma não aceitação da escravização por parte dos índios, o que equivaleria a dizer que os negros aceitaram essa escravização... As razões foram outras, naturalmente. Senão vejamos. O Brasil chega ao ano de 1600 como o maior produtor mundial de açúcar e atinge esse patamar com considerável força de trabalho dos índios, pelo menos até 1585/1590. De um lado, Angola possuía, basicamente, o mesmo tipo de solo que o massapê presente no Nordeste brasileiro. De outro, os portos angolanos estavam mais próximos de Lisboa do que os do Nordeste do Brasil. Além disso, a população já se encontrava lá. Então, qual o sentido de trazer os negros escravizados para o Brasil? Por uma razão: o capitalismo nasceu vendendo homens. E desta forma foi reinventada a escravidão em solo americano. E eram esses homens escravizados que produziam o açúcar, como depois extraíam o ouro e os diamantes e plantavam o algodão e o café. Sem a África e seus trabalhadores não existiria o Brasil tal qual o conhecemos hoje.
VI
Retornando ao ponto de partida. Abandonamos a noção de "reformas de estrutura" e não levamos a Democracia aos terrenos social e econômico. Já está mais do que na hora de afastarmos do nosso caminho os aventureiros, aqueles que não possuem programa ou um mínimo de propostas sequer. Foi assim que o Brasil avançou nos momentos mais cruciais de sua História.
O populismo, dito de "direita" ou de "esquerda" é sempre um atraso. É, por vezes, o fascismo que não ousa dizer o nome.
A partir dessa ótica, convém dizer ainda que política não se faz com cabeça étnica – ou seja, trata-se de evitar a racialização. E a racialização foi o que Hitler propôs, ao defender a ideia da edificação da nação alemã sob bases raciais, fazendo da "diferença", ou do arianismo o seu cavalo de batalha. Uma coisa é combater o racismo e lutar por um lugar ao sol para as chamadas minorias; outra, bem distinta, colocar a raça no centro das questões sociais. Tudo é parte da luta, mas não há luta à parte. É preciso cautela, evitando a exacerbação disso, conforme se vê nos últimos anos no Brasil e em outras áreas do mundo. A universalidade da condição humana só tem a perder com um posicionamento desse tipo. Pior: a sociedade desaparece, o denominador comum desaparece, e passa a existir somente o indivíduo. O atrelamento da política ou da cultura à "pureza" genética tem endereço certo: nazismo, Ku Klux Klan, por aí. Isso para não aludir ao fato de a sociedade brasileira ser extraordinariamente mestiçada.
Vamos ao que nos une e não ao que nos desune. O sonho não acabou, mas necessita de ajustes consideráveis. Como no passado, temos quadros competentes para recuperar o país. Ou ainda temos. A principal característica da cultura brasileira, desde pelo menos a Conjuração Mineira, tem sido seu poder de síntese.
Entre o nacional e o internacional. O erudito e o popular. O conhecimento teórico e o engajamento. O entrelaçamento entre contribuições culturais de matizes diversas. E isso se reflete no universo dos nossos principais intelectuais, artistas, formuladores, articuladores, homens públicos e administradores em geral.
Assim como se reflete nas lutas sociais memoráveis do nosso povo, como que consubstanciadas nas epopeias das Missões Guaranis, do Quilombo dos Palmares, da Conjuração Mineira. Sem esquecer jamais a Independência de 1822, as lutas pela Abolição, a Proclamação da República, a criação do Serviço de Proteção aos Índios, a fundação do Partido Comunista, a Coluna Prestes, a formação da Aliança Nacional Libertadora, a organização da Força Expedicionária Brasileira, a campanha do Petróleo é Nosso, a Campanha pela Legalidade, a Frente Ampla, o movimento das Diretas-Já e a Constituição Cidadã de 1988. A sociedade civil é sempre maior do que o Estado. Quem governava o Brasil à época de Sepé Tiaraju? Ou de Zumbi dos Palmares? Ou, ainda, de Tiradentes? De José do Patrocínio? Do Marechal Rondon? De Luiz Carlos Prestes?
Provavelmente teremos alguma dificuldade em responder. Mas conhecemos todos esses heróis da luta pela nossa liberdade e transformação social. O povo sabe quem reter em sua memória. Apesar de ter ocupado um ministério durante a Independência, da qual foi o principal artífice, José Bonifácio, outro grande brasileiro, foi preso duas vezes e deportado do país, morrendo no isolamento em 1838.
Finalizando agora. Ninguém tem o monopólio da verdade, da reflexão ou da honestidade política e/ou cultural. Seria muita pretensão. O mundo é plural, sempre. A Civilização é fruto da marcha comum da Humanidade, com o aporte das populações de todos os continentes. Não dá para imaginar a Europa sem o Cristianismo, religião gestada no Oriente Médio, ou as Américas sem a colonização moderna, que tanto impacto teve sobre a acumulação primitiva de capital. De fato, como pensar a civilização humana sem trocas de todo tipo?
A Humanidade é composta por pessoas de boa vontade, que trabalham, estudam e lutam por seus direitos. No Brasil e no resto do mundo. Como dizia Oscar Niemeyer, precisamos nos dar as mãos. Essa é a minha convicção. Daí este apelo por um entendimento entre os humanistas e democráticos, tendo por base as conquistas da própria Civilização, no que ela tem de melhor e de mais significativo: ou seja, a Justiça Social, a Ética e a Democracia.
Um sinal aberrante de decadência nacional
Mark Robinson, vice-governador e atual candidato ao governo da Carolina do Norte, EUA, proclama-se negro nazista e favorável à escravidão. Justifica: "há pessoas que merecem ser escravizadas". Não se inclui entre elas, claro. São muitas as aberrações dessa ordem na história geral da diáspora negra, salientes em contextos sociais diversos.
O personagem Prudêncio, de Machado de Assis, é um exemplo ficcional da transição de escravo oprimido a alforriado opressor. Episódios análogos registraram-se no governo do Bolsonaro. Já na relevante crônica da guerra dos escravizados na Jamaica, em meados do século 18, avultava o nome do erudito Edward Long, que descrevia a luta da população escrava nativa contra os insurretos africanos. O medo de Long era tanto que, para ele, a simples existência de africanos "deformava a beleza deste globo de tal maneira, que eles merecem ser exterminados da Terra".
"O medo dos africanos tinha de fato inspirado os primeiros esforços para restringir o comércio de escravos" (Vincent Brown em "Uma Guerra Afro-Atlântica"), o que ressoava no Império Britânico e na América. O nazi-racismo de Robinson é um eco histórico dessa crioulização, que impregnou o imaginário racial de uma escravidão mais amável e dócil, contrastante com o vigor da resistência negra no Caribe.
Há uma perversa lógica histórica na associação em Robinson de nazismo a escravidão, pois Auschwitz, além do campo de extermínio, foi também a maior fábrica de escravos. Essa aberração é deriva trumpista da clivagem social e humana que, apesar do poderio econômico, tecnológico e bélico da América, ameaça o Estado nacional. Nação nenhuma se deduz diretamente da estrutura social, e sim da convergência de efeitos imaginários e ideológicos, como os de povo, país e língua. Constituída por crenças, mas também medos, a sociedade reconhecida como nação é uma comunidade imaginada.
Até agora, sob a mística da burguesia tradicional, o nacional era uma homogeneidade caracterizada pelo progressismo e por um passado comum. Sob o influxo do neoliberalismo, com uma apreensão heterogênea da história, milenarismos laicos e religiosos prometem duvidosas respostas para o desemparo popular. Trump e próceres da ultradireita são variantes desse fenômeno, que não se sintoniza pelo Estado nacional, e sim por um sistema financeiro e militar em torno de uma sociedade restrita. O povo nacional é relegado à lata de lixo da história.
Um personagem como Robinson é sintoma menor da decadência do Estado nacional americano. Mas muito significativo entre nós, país majoritariamente afro, que tenta amainar, por políticas de ação afirmativa, o legado desigual do passado escravista. De fato, o contrassenso de um afro nazista e partidário da escravidão só é possível na abolição do passado comum como princípio espiritual.
Na decadência, nação deixa de coexistir com pátria, que se sobrepõe como princípio. Abre-se um caminho tóxico para a ideologia da unidade militarista, da educação cívica pelas armas e da política como paródia grotesca da representação. Aconteceu com o nazifascismo, ensaia-se na América. Se Trump vencer, os abutres da carniça do passado, como Robinson, voarão também aqui.
O personagem Prudêncio, de Machado de Assis, é um exemplo ficcional da transição de escravo oprimido a alforriado opressor. Episódios análogos registraram-se no governo do Bolsonaro. Já na relevante crônica da guerra dos escravizados na Jamaica, em meados do século 18, avultava o nome do erudito Edward Long, que descrevia a luta da população escrava nativa contra os insurretos africanos. O medo de Long era tanto que, para ele, a simples existência de africanos "deformava a beleza deste globo de tal maneira, que eles merecem ser exterminados da Terra".
"O medo dos africanos tinha de fato inspirado os primeiros esforços para restringir o comércio de escravos" (Vincent Brown em "Uma Guerra Afro-Atlântica"), o que ressoava no Império Britânico e na América. O nazi-racismo de Robinson é um eco histórico dessa crioulização, que impregnou o imaginário racial de uma escravidão mais amável e dócil, contrastante com o vigor da resistência negra no Caribe.
Há uma perversa lógica histórica na associação em Robinson de nazismo a escravidão, pois Auschwitz, além do campo de extermínio, foi também a maior fábrica de escravos. Essa aberração é deriva trumpista da clivagem social e humana que, apesar do poderio econômico, tecnológico e bélico da América, ameaça o Estado nacional. Nação nenhuma se deduz diretamente da estrutura social, e sim da convergência de efeitos imaginários e ideológicos, como os de povo, país e língua. Constituída por crenças, mas também medos, a sociedade reconhecida como nação é uma comunidade imaginada.
Até agora, sob a mística da burguesia tradicional, o nacional era uma homogeneidade caracterizada pelo progressismo e por um passado comum. Sob o influxo do neoliberalismo, com uma apreensão heterogênea da história, milenarismos laicos e religiosos prometem duvidosas respostas para o desemparo popular. Trump e próceres da ultradireita são variantes desse fenômeno, que não se sintoniza pelo Estado nacional, e sim por um sistema financeiro e militar em torno de uma sociedade restrita. O povo nacional é relegado à lata de lixo da história.
Um personagem como Robinson é sintoma menor da decadência do Estado nacional americano. Mas muito significativo entre nós, país majoritariamente afro, que tenta amainar, por políticas de ação afirmativa, o legado desigual do passado escravista. De fato, o contrassenso de um afro nazista e partidário da escravidão só é possível na abolição do passado comum como princípio espiritual.
Na decadência, nação deixa de coexistir com pátria, que se sobrepõe como princípio. Abre-se um caminho tóxico para a ideologia da unidade militarista, da educação cívica pelas armas e da política como paródia grotesca da representação. Aconteceu com o nazifascismo, ensaia-se na América. Se Trump vencer, os abutres da carniça do passado, como Robinson, voarão também aqui.
Ameaça à democracia
Os senhores da guerra, usualmente, não conseguem atingir seus objetivos por intermédio de tiros e bombas. Os norte-americanos invadiram o Iraque, saquearam o país, subtraíram o petróleo e suas riquezas históricas, mas não conseguiram se manter a salvo dentro daquele território. Foram obrigados a sair. Os franceses perderam no Vietnã, antes de os norte-americanos também serem derrotados. E os ingleses foram expulsos do Afeganistão depois de tentarem subjugar o país. Em 1942, as tropas de Hitler dominavam praticamente toda a Europa. Ao final do conflito, em 1945, a Alemanha foi dividida em dois países e o ditador se suicidou.
Nos anos trinta, século passado, o Oriente Médio era um deserto com reduzidas perspectivas econômicas. Os ingleses dominavam a região e não gostavam que estrangeiros de outras nacionalidades entrassem na área. Mas a Armada Real, que deixara de utilizar carvão como combustível e aderiu ao petróleo, teria que ser atendida. Em maio de 1932 a empresa Bahrain Company, que era canadense com origem norte-americana, descobriu petróleo na região. E abriu os olhos das empresas dos Estados Unidos que relutavam em investir em prospecção no deserto. Americanos logo depois descobriram petróleo na Arábia Saudita e assinaram um tratado de proteção recíproca, que está em vigor até hoje.
Os ingleses cortaram o Oriente Médio em fatias. Colocaram muçulmanos de tendências opostas dentro de um mesmo país. Desmembraram a região em linhas retas. Foi obra de Winston Churchill com objetivo de manter o domínio inglês na região. Na Europa, década depois, Hitler iniciou sua perseguição aos judeus que se espalharam por todo o mundo. A maioria deles, no leste europeu, preferiu migrar para a Palestina, que era protetorado britânico. Tempos depois, ao final da segunda guerra, foi criado o estado de Israel, destinado a conviver em paz com os palestinos. O problema europeu, a perseguição de judeus, se transformou em assunto sério no Oriente Médio. Israel não tem petróleo, mas seus vizinhos, sim. Qualquer briga lá, interfere no comércio em todo o mundo.
Uma instituição judaica chamada Haganah, que posteriormente iria se transformar no Exército de Israel, forneceu meios e modos para que judeus se instalassem na Palestina, contra a orientação dos ingleses. Sabotaram instalações, dificultaram ações dos governantes locais e assumiram funções terroristas até que recebessem condições para criar um novo país. Israel surgiu em meio a pesada guerra contra seus vizinhos árabes. Nunca teve vida tranquila e fácil. O normal naquela área é a guerra. Mas a circunstância de que a região é a maior produtora de petróleo do mundo, coloca o conflito numa escala mundial. É um assunto local, permeado por questões religiosas, complicado pelo expansionismo de Israel, que influi nos destinos do mundo.
A guerra entre Israel e seus vizinhos não é novidade. Novidade é o Irã entrar no conflito. Já foi o principal apoio dos Estados Unidos na região, quando ainda se chamava Pérsia. Não é um país árabe. O idioma que se pratica no país é o farsi. Tem nível interessante de desenvolvimento. E está muito perto de produzir uma bomba atômica. Já reúne os conhecimentos necessários para construir o artefato. Neste momento, o mundo está bordejando uma séria possibilidade de tragédia de enormes proporções na região. Israel tem bombas atômicas. Se o governo se sentir ameaçado, como foi recentemente com a chuva de mísseis vinda do Irã, pode recorrer ao gesto supremo e fazer o cogumelo nuclear brilhar naquele céu.
São duas guerras perigosas. A de Israel contra seus vizinhos não tem parâmetros. O exército israelense mata tudo que vê pela frente: mulher, criança, velho e eventualmente o inimigo. A outra guerra é da Ucrânia, em que a Rússia se atolou e revelou a atual fraqueza do antigo exército vermelho. Putin e Netanyahu sabem que Joe Biden já é um legítimo pato manco. Está em fim de mandato. Em janeiro estará fora do poder. E apostam na vitória de Donald Trump. Se o republicano vencer a eleição nos Estados Unidos, Putin deverá dominar rapidamente a Ucrânia e os palestinos deixarão de existir, porque o primeiro-ministro vai conseguir chegar a seu objetivo: criar a grande Israel, ou seja, ampliar seu espaço vital.
Hitler, por acaso, tinha o mesmo objetivo para a Alemanha, na Segunda Guerra Mundial. Espaço vital. A eleição nos Estados Unidos que deverá ocorrer em novembro próximo vai ajudar a definir o conflito. Por esta razão, as tropas israelenses precisam avançar mais, devastar mais, matar mais, para criar um fato consumado, em torno do qual ocorrerão as negociações com o novo presidente dos Estados Unidos. Neste caso, a guerra no Oriente Médio coloca em jogo mais que o petróleo. O destino da democracia no Ocidente está na mesa de apostas.
Nos anos trinta, século passado, o Oriente Médio era um deserto com reduzidas perspectivas econômicas. Os ingleses dominavam a região e não gostavam que estrangeiros de outras nacionalidades entrassem na área. Mas a Armada Real, que deixara de utilizar carvão como combustível e aderiu ao petróleo, teria que ser atendida. Em maio de 1932 a empresa Bahrain Company, que era canadense com origem norte-americana, descobriu petróleo na região. E abriu os olhos das empresas dos Estados Unidos que relutavam em investir em prospecção no deserto. Americanos logo depois descobriram petróleo na Arábia Saudita e assinaram um tratado de proteção recíproca, que está em vigor até hoje.
Os ingleses cortaram o Oriente Médio em fatias. Colocaram muçulmanos de tendências opostas dentro de um mesmo país. Desmembraram a região em linhas retas. Foi obra de Winston Churchill com objetivo de manter o domínio inglês na região. Na Europa, década depois, Hitler iniciou sua perseguição aos judeus que se espalharam por todo o mundo. A maioria deles, no leste europeu, preferiu migrar para a Palestina, que era protetorado britânico. Tempos depois, ao final da segunda guerra, foi criado o estado de Israel, destinado a conviver em paz com os palestinos. O problema europeu, a perseguição de judeus, se transformou em assunto sério no Oriente Médio. Israel não tem petróleo, mas seus vizinhos, sim. Qualquer briga lá, interfere no comércio em todo o mundo.
Uma instituição judaica chamada Haganah, que posteriormente iria se transformar no Exército de Israel, forneceu meios e modos para que judeus se instalassem na Palestina, contra a orientação dos ingleses. Sabotaram instalações, dificultaram ações dos governantes locais e assumiram funções terroristas até que recebessem condições para criar um novo país. Israel surgiu em meio a pesada guerra contra seus vizinhos árabes. Nunca teve vida tranquila e fácil. O normal naquela área é a guerra. Mas a circunstância de que a região é a maior produtora de petróleo do mundo, coloca o conflito numa escala mundial. É um assunto local, permeado por questões religiosas, complicado pelo expansionismo de Israel, que influi nos destinos do mundo.
A guerra entre Israel e seus vizinhos não é novidade. Novidade é o Irã entrar no conflito. Já foi o principal apoio dos Estados Unidos na região, quando ainda se chamava Pérsia. Não é um país árabe. O idioma que se pratica no país é o farsi. Tem nível interessante de desenvolvimento. E está muito perto de produzir uma bomba atômica. Já reúne os conhecimentos necessários para construir o artefato. Neste momento, o mundo está bordejando uma séria possibilidade de tragédia de enormes proporções na região. Israel tem bombas atômicas. Se o governo se sentir ameaçado, como foi recentemente com a chuva de mísseis vinda do Irã, pode recorrer ao gesto supremo e fazer o cogumelo nuclear brilhar naquele céu.
São duas guerras perigosas. A de Israel contra seus vizinhos não tem parâmetros. O exército israelense mata tudo que vê pela frente: mulher, criança, velho e eventualmente o inimigo. A outra guerra é da Ucrânia, em que a Rússia se atolou e revelou a atual fraqueza do antigo exército vermelho. Putin e Netanyahu sabem que Joe Biden já é um legítimo pato manco. Está em fim de mandato. Em janeiro estará fora do poder. E apostam na vitória de Donald Trump. Se o republicano vencer a eleição nos Estados Unidos, Putin deverá dominar rapidamente a Ucrânia e os palestinos deixarão de existir, porque o primeiro-ministro vai conseguir chegar a seu objetivo: criar a grande Israel, ou seja, ampliar seu espaço vital.
Hitler, por acaso, tinha o mesmo objetivo para a Alemanha, na Segunda Guerra Mundial. Espaço vital. A eleição nos Estados Unidos que deverá ocorrer em novembro próximo vai ajudar a definir o conflito. Por esta razão, as tropas israelenses precisam avançar mais, devastar mais, matar mais, para criar um fato consumado, em torno do qual ocorrerão as negociações com o novo presidente dos Estados Unidos. Neste caso, a guerra no Oriente Médio coloca em jogo mais que o petróleo. O destino da democracia no Ocidente está na mesa de apostas.
sábado, 5 de outubro de 2024
Assim se fabrica a guerra infinita
Israel não deseja a paz. Nunca quis tanto que estivesse errado o que escrevo. Mas as evidências se acumulam. Na verdade, pode-se dizer que Israel nunca desejou a paz – uma paz justa, ou seja, baseada num acordo justo para ambos os lados. É verdade que a saudação rotineira em hebreu é Shalom (paz) – shalom quando alguém se despede e shalom quando alguém chega. E quase todo israelense dirá sempre que deseja a paz, claro que sim. Mas ele não se refere ao tipo de paz que traz justiça, sem a qual não há paz e não haverá paz. Os israelenses desejam paz, não justiça; certamente nada que se baseie em valores universais. Nos últimos dez anos, aliás Israel afastou-se até mesmo da aspiração de construir a paz. Desistiu completamente dela. A paz desapareceu da agenda, seu lugar foi tomado por ansiedades coletivas, fabricadas sistematicamente, e por questões pessoais, privadas, que agora têm prioridade sobre todas as outras.
Os israelenses que ansiavam pela paz aparentemente morreram há cerca de uma década, depois do fracasso da reunião de Camp David em 2000, da disseminação da mentira de que não há um parceiro palestino para a paz e, claro, do terrível período da segunda intifada, encharcado de sangue. Mas a verdade é que, mesmo antes disso, Israel nunca desejou realmente a paz. Nunca, nem por um minuto, Israel tratou os palestinos como seres humanos com direitos iguais. Nunca viu seu sofrimento como um sofrimento humano e nacional compreensíveis.
Também o movimento israelense pela paz – se é que chegou a existir – morreu uma morte lenta, em meio às penosas cenas da segunda intifada e à mentira da falta de parceiros. Tudo o que restou foi um punhado de organizações tão empenhadas quanto ineficazes, face às campanhas de deslegitimação montadas contra elas. Logo, Israel foi deixada em sua postura isolacionista.
A evidência mais esmagadora da rejeição da paz por Israel é, claro, o projeto das colônias de ocupação da Palestina. Desde o início de sua existência, nunca houve um teste mais seguro ou mais preciso para as verdadeiras intenções de Israel do que esse empreendimento particular. Em linguagem clara: os construtores das colônias desejam consolidar a ocupação, e quem deseja consolidar a ocupação não deseja a paz. Esse é o resumo da ópera.
Considerando que as decisões de Israel são racionais, é impossível aceitar que a construção nos territórios e a aspiração pela paz possam coexistir mutuamente. Cada ato de construção em colônias de ocupação, cada casa móvel e cada varanda transmitem rejeição. Se Israel quisesse alcançar a paz através dos Acordos de Oslo, teria ao menos parado, por iniciativa própria, de construir as colônias. O fato de que isso não aconteceu prova que Oslo foi uma fraude, ou, na melhor das hipóteses, a crônica de um fracasso anunciado. Se Israel desejava construir a paz em Taba, em Camp David, em Sharm el-Sheikh, em Washington ou em Jerusalém, seu primeiro passo teria sido acabar com toda ocupação nos territórios. Incondicionalmente. Sem exigir nada em troca. O fato de Israel não tê-lo feito é a prova de que não quer uma paz justa.
Mas as colônias são apenas um dos indicadores das intenções de Israel. Seu isolamento está entranhado bem mais fundo – em seu DNA, sua corrente sanguínea, suas crenças mais primordiais. Lá, no nível mais profundo, está o conceito de que esta terra está destinada apenas aos judeus. Lá, no nível mais profundo, está entrincheirado o valor de “am sgula” — os escolhidos por Deus.
Na prática, isso se traduz na noção de que, nesta terra, os judeus estão autorizados a fazer o que aos outros é proibido. Esse é o ponto de partida, e não há como chegar a uma paz justa a partir daí. Não há nenhuma maneira de alcançar uma paz justa quando o nome do jogo é desumanização dos palestinos. Não há forma de conseguir alcançar a paz quando sua demonização é martelada na cabeça das pessoas dia após dia. Quem está convencido de que cada palestino é um suspeito e quer “jogar os judeus no mar” nunca vai construir a paz com os palestinos. A maioria dos israelenses estão convencidos de ambas as afirmações.
Na década passada, as duas populações foram separadas uma da outra. O jovem israelense médio nunca se encontrará com seu par palestino, a não ser durante seu serviço militar (e, mesmo assim, apenas se servir nos territórios ocupados). Nem o jovem palestino médio encontrará um israelense da sua idade, a não ser o soldado que o hostiliza no checkpoint, ou invade sua casa no meio da noite, ou o colono que usurpa sua terra ou queima seus bosques.
Em consequência, o único encontro entre os dois povos é entre os ocupantes, que são armados e violentos, e os ocupados, que são desesperados e também se voltam para a violência. Foram-se os tempos em que palestinos trabalhavam em Israel e israelenses iam fazer compras na Palestina. Foi-se o período de relações meio-normais e um-quarto-iguais, que existiram por poucas décadas entre dois povos que dividiam o mesmo pedaço de território. É muito fácil, nesse estado de coisas, incitar e inflamar um contra o outro, espalhar medos e instigar novos ódios sobre os já existentes. Essa é, também, uma receita certa de não-paz.
Foi assim que um novo anseio israelense surgiu: o desejo de separação: “Eles ficam lá e nós ficamos aqui (e lá também)”. Num momento em que a maioria dos palestinos – avaliação que me permito fazer, após décadas de cobertura nos territórios – ainda quer coexistência, mesmo que cada vez menos, a maioria dos israelenses quer não-envolvimento e separação, mas sem pagar o preço. A visão de dois estados ganhou adesão generalizada, mas sem qualquer intenção de implementá-la na prática. A maioria dos israelenses é a favor, mas não agora e talvez nem mesmo aqui. Eles foram treinados a acreditar que não há parceiro para a paz – isto é, um parceiro palestino – mas há um parceiro israelense.
Infelizmente, a verdade é quase o oposto. Os palestinos não-parceiros não têm mais nenhuma chance de provar que são parceiros; os não-parceiros israelenses estão convencidos de que são interlocutores. Começou então um processo em que as condições, obstáculos e dificuldades impostas por Telaviv se amontoaram, mais um marco no isolamento israelense. Primeiro, veio a exigência de acabar com o terrorismo; em seguida, a demanda pela troca da liderança (Yasser Arafat visto como uma pedra no caminho); e depois disso o Hamas tornou-se o obstáculo. Agora é a recusa dos palestinos em reconhecer Israel como um Estado judeu. Israel considera legítimo cada passo que dá – de prisões políticas em massa à construção nos territórios –, enquanto todo movimento palestino é considerado “unilateral”.
O único país sem fronteiras do planeta não quis, até aqui, delimitar sequer as fronteiras que estaria pronto a aceitar num acordo. Israel não internalizou o fato de que, para os palestinos, as fronteiras de 1967 são a mãe de todos os acordos, a linha vermelha da justiça (ou justiça relativa). Para os israelenses, elas são “fronteiras suicidas”. Essa é a razão pela qual a preservação do status quo tornou-se o verdadeiro alvo, o objetivo primordial da política de Israel, quase seu tudo ou nada. O problema é que a situação existente não pode durar para sempre. Historicamente, poucas nações aceitaram viver sob ocupação sem resistência. E também a comunidade internacional estará apta, um dia, a proferir um pronunciamento firme, acompanhado de medidas punitivas, sobre este estado de coisas. Segue-se que o objetivo de Israel é irrealista.
Desconectada da realidade, a maioria dos israelenses mantém seu estilo de vida normal. A seus olhos, o mundo está sempre contra eles, e as áreas de ocupação à sua porta estão fora de sua esfera de interesse. Quem ousa criticar a política de ocupação é rotulado de anti-semita, cada ato de resistência é percebido como uma ameaça existencial. Toda a oposição internacional à ocupação é lida como “deslegitimização” de Israel e como um desafio para a própria existência do país. Os sete bilhões de pessoas do mundo – a maioria das quais contra a ocupação – estão erradas, e seis milhões de judeus israelenses – a maioria dos quais apóia a ocupação – estão certos. Essa é a realidade na visão do israelense médio.
Some a isso a repressão, a ocultação e a dissimulação, e você tem uma outra justificativa para o isolamento. Por que alguém deveria lutar pela paz, desde que a vida em Israel seja boa, a calma prevaleça e a realidade se mantenha oculta? A única maneira de a Faixa de Gaza, sitiada, lembrar as pessoas de sua existência é atirando foguetes, e, atualmente, a Cisjordânia só entra na agenda quando há sangue derramado por lá. Da mesma forma, o ponto de vista da comunidade internacional só é levado em conta quando tenta impor boicotes e sanções, que por sua vez geram imediatamente campanhas de autovitimização cravejadas de contundentes – e, às vezes, também impertinentes – acusações históricas.
Este é, pois, o quadro sombrio. Não contém um raio de esperança. A mudança não vai acontecer por si mesma, a partir do interior da sociedade israelense, caso continue a se comportar como se comporta. Os palestinos cometeram mais do que um erro, mas seus erros são marginais. A justiça de base está do seu lado, e o isolamento de base é o limite dos israelenses. Eles querem ocupação, não paz.
Tenho a esperança de estar errado.
Os israelenses que ansiavam pela paz aparentemente morreram há cerca de uma década, depois do fracasso da reunião de Camp David em 2000, da disseminação da mentira de que não há um parceiro palestino para a paz e, claro, do terrível período da segunda intifada, encharcado de sangue. Mas a verdade é que, mesmo antes disso, Israel nunca desejou realmente a paz. Nunca, nem por um minuto, Israel tratou os palestinos como seres humanos com direitos iguais. Nunca viu seu sofrimento como um sofrimento humano e nacional compreensíveis.
Também o movimento israelense pela paz – se é que chegou a existir – morreu uma morte lenta, em meio às penosas cenas da segunda intifada e à mentira da falta de parceiros. Tudo o que restou foi um punhado de organizações tão empenhadas quanto ineficazes, face às campanhas de deslegitimação montadas contra elas. Logo, Israel foi deixada em sua postura isolacionista.
A evidência mais esmagadora da rejeição da paz por Israel é, claro, o projeto das colônias de ocupação da Palestina. Desde o início de sua existência, nunca houve um teste mais seguro ou mais preciso para as verdadeiras intenções de Israel do que esse empreendimento particular. Em linguagem clara: os construtores das colônias desejam consolidar a ocupação, e quem deseja consolidar a ocupação não deseja a paz. Esse é o resumo da ópera.
Considerando que as decisões de Israel são racionais, é impossível aceitar que a construção nos territórios e a aspiração pela paz possam coexistir mutuamente. Cada ato de construção em colônias de ocupação, cada casa móvel e cada varanda transmitem rejeição. Se Israel quisesse alcançar a paz através dos Acordos de Oslo, teria ao menos parado, por iniciativa própria, de construir as colônias. O fato de que isso não aconteceu prova que Oslo foi uma fraude, ou, na melhor das hipóteses, a crônica de um fracasso anunciado. Se Israel desejava construir a paz em Taba, em Camp David, em Sharm el-Sheikh, em Washington ou em Jerusalém, seu primeiro passo teria sido acabar com toda ocupação nos territórios. Incondicionalmente. Sem exigir nada em troca. O fato de Israel não tê-lo feito é a prova de que não quer uma paz justa.
Mas as colônias são apenas um dos indicadores das intenções de Israel. Seu isolamento está entranhado bem mais fundo – em seu DNA, sua corrente sanguínea, suas crenças mais primordiais. Lá, no nível mais profundo, está o conceito de que esta terra está destinada apenas aos judeus. Lá, no nível mais profundo, está entrincheirado o valor de “am sgula” — os escolhidos por Deus.
Na prática, isso se traduz na noção de que, nesta terra, os judeus estão autorizados a fazer o que aos outros é proibido. Esse é o ponto de partida, e não há como chegar a uma paz justa a partir daí. Não há nenhuma maneira de alcançar uma paz justa quando o nome do jogo é desumanização dos palestinos. Não há forma de conseguir alcançar a paz quando sua demonização é martelada na cabeça das pessoas dia após dia. Quem está convencido de que cada palestino é um suspeito e quer “jogar os judeus no mar” nunca vai construir a paz com os palestinos. A maioria dos israelenses estão convencidos de ambas as afirmações.
Na década passada, as duas populações foram separadas uma da outra. O jovem israelense médio nunca se encontrará com seu par palestino, a não ser durante seu serviço militar (e, mesmo assim, apenas se servir nos territórios ocupados). Nem o jovem palestino médio encontrará um israelense da sua idade, a não ser o soldado que o hostiliza no checkpoint, ou invade sua casa no meio da noite, ou o colono que usurpa sua terra ou queima seus bosques.
Em consequência, o único encontro entre os dois povos é entre os ocupantes, que são armados e violentos, e os ocupados, que são desesperados e também se voltam para a violência. Foram-se os tempos em que palestinos trabalhavam em Israel e israelenses iam fazer compras na Palestina. Foi-se o período de relações meio-normais e um-quarto-iguais, que existiram por poucas décadas entre dois povos que dividiam o mesmo pedaço de território. É muito fácil, nesse estado de coisas, incitar e inflamar um contra o outro, espalhar medos e instigar novos ódios sobre os já existentes. Essa é, também, uma receita certa de não-paz.
Foi assim que um novo anseio israelense surgiu: o desejo de separação: “Eles ficam lá e nós ficamos aqui (e lá também)”. Num momento em que a maioria dos palestinos – avaliação que me permito fazer, após décadas de cobertura nos territórios – ainda quer coexistência, mesmo que cada vez menos, a maioria dos israelenses quer não-envolvimento e separação, mas sem pagar o preço. A visão de dois estados ganhou adesão generalizada, mas sem qualquer intenção de implementá-la na prática. A maioria dos israelenses é a favor, mas não agora e talvez nem mesmo aqui. Eles foram treinados a acreditar que não há parceiro para a paz – isto é, um parceiro palestino – mas há um parceiro israelense.
Infelizmente, a verdade é quase o oposto. Os palestinos não-parceiros não têm mais nenhuma chance de provar que são parceiros; os não-parceiros israelenses estão convencidos de que são interlocutores. Começou então um processo em que as condições, obstáculos e dificuldades impostas por Telaviv se amontoaram, mais um marco no isolamento israelense. Primeiro, veio a exigência de acabar com o terrorismo; em seguida, a demanda pela troca da liderança (Yasser Arafat visto como uma pedra no caminho); e depois disso o Hamas tornou-se o obstáculo. Agora é a recusa dos palestinos em reconhecer Israel como um Estado judeu. Israel considera legítimo cada passo que dá – de prisões políticas em massa à construção nos territórios –, enquanto todo movimento palestino é considerado “unilateral”.
O único país sem fronteiras do planeta não quis, até aqui, delimitar sequer as fronteiras que estaria pronto a aceitar num acordo. Israel não internalizou o fato de que, para os palestinos, as fronteiras de 1967 são a mãe de todos os acordos, a linha vermelha da justiça (ou justiça relativa). Para os israelenses, elas são “fronteiras suicidas”. Essa é a razão pela qual a preservação do status quo tornou-se o verdadeiro alvo, o objetivo primordial da política de Israel, quase seu tudo ou nada. O problema é que a situação existente não pode durar para sempre. Historicamente, poucas nações aceitaram viver sob ocupação sem resistência. E também a comunidade internacional estará apta, um dia, a proferir um pronunciamento firme, acompanhado de medidas punitivas, sobre este estado de coisas. Segue-se que o objetivo de Israel é irrealista.
Desconectada da realidade, a maioria dos israelenses mantém seu estilo de vida normal. A seus olhos, o mundo está sempre contra eles, e as áreas de ocupação à sua porta estão fora de sua esfera de interesse. Quem ousa criticar a política de ocupação é rotulado de anti-semita, cada ato de resistência é percebido como uma ameaça existencial. Toda a oposição internacional à ocupação é lida como “deslegitimização” de Israel e como um desafio para a própria existência do país. Os sete bilhões de pessoas do mundo – a maioria das quais contra a ocupação – estão erradas, e seis milhões de judeus israelenses – a maioria dos quais apóia a ocupação – estão certos. Essa é a realidade na visão do israelense médio.
Some a isso a repressão, a ocultação e a dissimulação, e você tem uma outra justificativa para o isolamento. Por que alguém deveria lutar pela paz, desde que a vida em Israel seja boa, a calma prevaleça e a realidade se mantenha oculta? A única maneira de a Faixa de Gaza, sitiada, lembrar as pessoas de sua existência é atirando foguetes, e, atualmente, a Cisjordânia só entra na agenda quando há sangue derramado por lá. Da mesma forma, o ponto de vista da comunidade internacional só é levado em conta quando tenta impor boicotes e sanções, que por sua vez geram imediatamente campanhas de autovitimização cravejadas de contundentes – e, às vezes, também impertinentes – acusações históricas.
Este é, pois, o quadro sombrio. Não contém um raio de esperança. A mudança não vai acontecer por si mesma, a partir do interior da sociedade israelense, caso continue a se comportar como se comporta. Os palestinos cometeram mais do que um erro, mas seus erros são marginais. A justiça de base está do seu lado, e o isolamento de base é o limite dos israelenses. Eles querem ocupação, não paz.
Tenho a esperança de estar errado.
Coach — política neofascista e traumaturgia
O coach é a representação limite da financeirização do capital — a sua máxima abstração e pureza, dominando a produção e a guerra global — no âmbito da cultura. Psicólogo definido pelo incremento da produtividade de seu cliente, o coach teve origem na ruína do mundo do trabalho, das profissões e de suas éticas, no mundo da fragmentação e monadizacão do destino do trabalhador, vendedor de qualquer coisa que ninguém quer comprar.
Ele é o próprio sintoma encarnado da vida das classes médias sob o risco de não serem produtivas, por fim dispensáveis, pela presença da política permanente do desemprego. Neste mundo, o coach cumpre o serviço de exploração da insegurança universal. Ele medeia a violência normal na vida das empresas, promove falsa autoajuda como verdade humana, a única ajuda disponível, para pacificar um sujeito sem valor algum, cultural ou de troca, na cultura de sua máxima exploração, física e psíquica.
Como um dia me disse o CEO de uma gigantesca agência de publicidade, máquina que trabalhava no fundo da própria política do país: “na empresa você pode facilmente ganhar 100 mil por mês, não é difícil… basta você me produzir 300 mil por mês.” Este é o mundo dos valoresdo coach, é nele e por ele, sustentado em indivíduos, que o coach trabalha.
Mundo da pressão total da abstração do dinheiro, sem nenhum caráter ou valor para fora do retorno ao mercado, da tempestade tautológica do sistema da mercadoria se auto-referenciando, para justificar o terrorismo de sua própria vida social. Realidade dura dos vencedores, no limite da maior derrota, onde o coach pontifica.
Ele é um psicólogo clínico degradado na ideia fixa da autoajuda banal, pastor profano do elogio do trabalho e do dinheiro quando eles se tornaram impossíveis, psicanalista que negou o inconsciente e a transferência a favor do apego sugestivo ao próprio eu, confundindo subjetividade com produção de valor e sujeito com submissão ao racket psíquico pessoal.
O coach é o pastor cujo único deus é o sucesso abstrato na cultura dada, o psicólogo empresarial de Recursos Humanos pago particularmente para se suportar o risco da vida do trabalho, de quem ainda quer estar por cima, o psicanalista que vende a própria imagem, e a própria tabuada de razões ideológicas, radicalmente comprometidas com a reprodução da ordem que põe tudo em risco.
Não há dialética nem negatividade na existência do coach e sua “teoria” — instrumentalização do pior do elemento subjetivo presente em uma psicanálise. Há apenas aceitação, celebração tácita, adaptação como estratégia de vida, sob o cálculo e o projeto do truque, do golpe ou do balanço malando em meio ao dinheiro, para garantir a sobrevivência nele. Sobrevivência de vida que parte e se resolve no espetáculo, traduzida diretamente em fetichismo da mercadoria, consumo conspícuo.
Vendendo degradação de qualquer metafísica, desde que adaptada a tudo o que existe, o coach é o apoio limite do homem comum, quando ele não vai ao culto coach de uma igreja evangélica…, o amuleto transferencial mundano do filisteu cultural, normal, que, dispensável em todos os níveis da vida que não tenham a ver com mais valor, necessita de alguém que junte os seus pedaços, o pastor profano. Explodido pela própria sociedade esquizofrênica, que não pode negar, pensar em contradição, o cliente do coach o deseja como a liga de seu retorno ao próprio mundo impossível.
O duplo do coach, coach sem nenhum vínculo com o trabalho, é o promoter da vida permanente no gozo generalizado das imagens em fluxo, mas de kicks e de baques, de excitação vazia, o influencer da internet: o vendedor estridente, vulgar no último, de tudo e qualquer coisa que exista, ou seja, que excite alguém. O propagandista, da propaganda que se voltou sobre si mesma. A cultura do coach é a dasobrevivência para a sociedade do espetáculo generalizado, da mercadoria como tudo na vida; a cultura do influencer é a daafirmação imanente da sociedade do espetáculo generalizado, da mercadoria como tudo na vida.
O coach líder fascista é o que une o seu estatuto de pastor profano com a malandragem feliz de vampirizar qualquer fetichismo, de qualquer produto, fofoca ou crime nas redes, a arte do influencer. Realiza meta-morfose de si mesmo, virando em exemplo degradado, autocelebrado em fusão com a propaganda de tudo, a ser seguido por massas. O coach líder fascista é o líder político das micro-celebridades, auto geradas aos milhares nas redes. Quanto mais ele aparece, mais poderoso ele é, porque neste mundo basta aparecer para ser poderoso.
Vendedor do sonho de si mesmo, o produto do coach fascista, novo líder no limite da degradação política total — da manutenção do capitalismo de fronteira final, de extermínio de ambiente e natureza, porque os humanos já eram faz tempo… — é a venda da própria imagem, a figura de um rico grotesco brilhando, um sádico do gozo da vida má, deliberadamente estúpido, como modelo para a vida geral degradada. O coach político de internet, influencer e mercadoria a um tempo, vende o vento da sua pura excitação, como todo influencer.
Porém, sua excitação é o puro ar de si mesmo, a constelação ideológica positiva de amor sacrificial pelo mercado, ele próprio como o seu produto. De fato, pessoas compram de Pablo Marçal apenas cursos, golpes farsescos, exatamente para serem como Pablo Marçal; e Olavo de Carvalho sabia bem ser um coach fascista. Como no jogo, como dizia Marx, a ideologia vazia e o personalismo de espetáculo fazem o produto-ele-mesmo do coach funcionar diretamente como D-D’ — dinheiro imagem que faz mais dinheiro… — sem nenhuma mercadoria no meio. O coach funcionando como líder fascista é pura identificação, função de espelho do rosto da mercadoria, formula cultural do capital financeiro.
Antes de entrar na disputa política como alternativa verdadeira, pelo sucesso degradante e pela arrogância de vencedor em mundo de derrotas totais, o coach amealhou milhões de miseráveis do destino e da cultura, da vida e da história, em suas redes sociais na internet, de fato suas redes pessoais. Milhões de compradores do ar do coach, tentando reproduzir o seu brilho e sua riqueza mágica configuram de fato a sua indústria cultural particular.
De fato, milhões de demenciados de mercado, aos quais o novo malandro industrial, que aposentou a navalha, opera por desejo como entretenimento, como fantasia de ganho pela submissão ao seu desejo. Pagando pelo ar do coach, os milhões de idiotas do mundo como ele é confirmam pela raiz o seu poder: fundamentalmente o desejam.
A política do desejo, das coisas, do dinheiro circulante, e de seu show, se confirma absolutamente no desejo do coach. Ele tem seu próprio partido político, sua indústria cultural de propaganda fascista, sua rede de milhões de seguidores o desejando, e desejando ser o coach — que não é nada se não isso mesmo. Tais militantes e ativistas pagam milhões pela indústria cultural da personalidade, para que o coach apareça para eles como milionário, pelo desejo radical que isto exista.
Porque o mundo é isso, produção de riqueza sobre a produção de massas de excluídos, que pagam pelo acesso, quando não exterminados. Dono de um partido de massas da venda de si mesmo como a política do real, das coisas da vida social arruinada, o coach político de massas é a condensação da coisa cultural do neofascismo, esta nova ordem de razões políticas que intriga a tantos.
O coach é o vendedor na rede de uma pirâmide de si mesmo, em que ele é a imagem, o modelo e a mentira de que sua riqueza ridícula estará acessível a todos. Basta todos reconhecerem isso, e seu golpe neoliberal total, de sua excitação vazia de palhaço pop grotesco, chegará ao poder, o seu verdadeiro lugar, como Javier Milei na Argentina e Pablo Marçal tentando o golpe em São Paulo.
Basta ser como o coach, diz o coach, e para isto é preciso que a massa se cale e o assista, e ele enuncie sozinho sua violência antipolítica como política. É preciso ser como ele, por isso é ele quem fala. Por um naco imaginário da riqueza, e para pertencer ao código do dinheiro, palhaços de um circo pegando fogo tendem a entregar tudo ao coach. Como já entregaram quando compravam seus cursos, que não são nada. Por não ter nada a oferecer no âmbito da história, o coach só pode causar, chamar a atenção para si mesmo como um palhaço da indústria cultural que tem nas mãos, que de fato é.
Mentir a mentira que excita, ousadia tática e sádica, que convoca a atenção exatamente porque todos sabem que é mentira. Sua mentira política é apenas uma aposta, em um jogo vazio de verdade, pleno de poder que gera poder. Sua performance, da qual depende, é sua traumaturgia.
Com este choque vazio, se convoca a massa, submetida ao desejo do coach mercadoria. Um povo que deseja o fascista brand new, o espírito vazio do capitalismo como golpe e como crime, e seu grande líder, a vida pública da política como sonho de um coach.
Ele é o próprio sintoma encarnado da vida das classes médias sob o risco de não serem produtivas, por fim dispensáveis, pela presença da política permanente do desemprego. Neste mundo, o coach cumpre o serviço de exploração da insegurança universal. Ele medeia a violência normal na vida das empresas, promove falsa autoajuda como verdade humana, a única ajuda disponível, para pacificar um sujeito sem valor algum, cultural ou de troca, na cultura de sua máxima exploração, física e psíquica.
Como um dia me disse o CEO de uma gigantesca agência de publicidade, máquina que trabalhava no fundo da própria política do país: “na empresa você pode facilmente ganhar 100 mil por mês, não é difícil… basta você me produzir 300 mil por mês.” Este é o mundo dos valoresdo coach, é nele e por ele, sustentado em indivíduos, que o coach trabalha.
Mundo da pressão total da abstração do dinheiro, sem nenhum caráter ou valor para fora do retorno ao mercado, da tempestade tautológica do sistema da mercadoria se auto-referenciando, para justificar o terrorismo de sua própria vida social. Realidade dura dos vencedores, no limite da maior derrota, onde o coach pontifica.
Ele é um psicólogo clínico degradado na ideia fixa da autoajuda banal, pastor profano do elogio do trabalho e do dinheiro quando eles se tornaram impossíveis, psicanalista que negou o inconsciente e a transferência a favor do apego sugestivo ao próprio eu, confundindo subjetividade com produção de valor e sujeito com submissão ao racket psíquico pessoal.
O coach é o pastor cujo único deus é o sucesso abstrato na cultura dada, o psicólogo empresarial de Recursos Humanos pago particularmente para se suportar o risco da vida do trabalho, de quem ainda quer estar por cima, o psicanalista que vende a própria imagem, e a própria tabuada de razões ideológicas, radicalmente comprometidas com a reprodução da ordem que põe tudo em risco.
Não há dialética nem negatividade na existência do coach e sua “teoria” — instrumentalização do pior do elemento subjetivo presente em uma psicanálise. Há apenas aceitação, celebração tácita, adaptação como estratégia de vida, sob o cálculo e o projeto do truque, do golpe ou do balanço malando em meio ao dinheiro, para garantir a sobrevivência nele. Sobrevivência de vida que parte e se resolve no espetáculo, traduzida diretamente em fetichismo da mercadoria, consumo conspícuo.
Vendendo degradação de qualquer metafísica, desde que adaptada a tudo o que existe, o coach é o apoio limite do homem comum, quando ele não vai ao culto coach de uma igreja evangélica…, o amuleto transferencial mundano do filisteu cultural, normal, que, dispensável em todos os níveis da vida que não tenham a ver com mais valor, necessita de alguém que junte os seus pedaços, o pastor profano. Explodido pela própria sociedade esquizofrênica, que não pode negar, pensar em contradição, o cliente do coach o deseja como a liga de seu retorno ao próprio mundo impossível.
O duplo do coach, coach sem nenhum vínculo com o trabalho, é o promoter da vida permanente no gozo generalizado das imagens em fluxo, mas de kicks e de baques, de excitação vazia, o influencer da internet: o vendedor estridente, vulgar no último, de tudo e qualquer coisa que exista, ou seja, que excite alguém. O propagandista, da propaganda que se voltou sobre si mesma. A cultura do coach é a dasobrevivência para a sociedade do espetáculo generalizado, da mercadoria como tudo na vida; a cultura do influencer é a daafirmação imanente da sociedade do espetáculo generalizado, da mercadoria como tudo na vida.
O coach líder fascista é o que une o seu estatuto de pastor profano com a malandragem feliz de vampirizar qualquer fetichismo, de qualquer produto, fofoca ou crime nas redes, a arte do influencer. Realiza meta-morfose de si mesmo, virando em exemplo degradado, autocelebrado em fusão com a propaganda de tudo, a ser seguido por massas. O coach líder fascista é o líder político das micro-celebridades, auto geradas aos milhares nas redes. Quanto mais ele aparece, mais poderoso ele é, porque neste mundo basta aparecer para ser poderoso.
Vendedor do sonho de si mesmo, o produto do coach fascista, novo líder no limite da degradação política total — da manutenção do capitalismo de fronteira final, de extermínio de ambiente e natureza, porque os humanos já eram faz tempo… — é a venda da própria imagem, a figura de um rico grotesco brilhando, um sádico do gozo da vida má, deliberadamente estúpido, como modelo para a vida geral degradada. O coach político de internet, influencer e mercadoria a um tempo, vende o vento da sua pura excitação, como todo influencer.
Porém, sua excitação é o puro ar de si mesmo, a constelação ideológica positiva de amor sacrificial pelo mercado, ele próprio como o seu produto. De fato, pessoas compram de Pablo Marçal apenas cursos, golpes farsescos, exatamente para serem como Pablo Marçal; e Olavo de Carvalho sabia bem ser um coach fascista. Como no jogo, como dizia Marx, a ideologia vazia e o personalismo de espetáculo fazem o produto-ele-mesmo do coach funcionar diretamente como D-D’ — dinheiro imagem que faz mais dinheiro… — sem nenhuma mercadoria no meio. O coach funcionando como líder fascista é pura identificação, função de espelho do rosto da mercadoria, formula cultural do capital financeiro.
Antes de entrar na disputa política como alternativa verdadeira, pelo sucesso degradante e pela arrogância de vencedor em mundo de derrotas totais, o coach amealhou milhões de miseráveis do destino e da cultura, da vida e da história, em suas redes sociais na internet, de fato suas redes pessoais. Milhões de compradores do ar do coach, tentando reproduzir o seu brilho e sua riqueza mágica configuram de fato a sua indústria cultural particular.
De fato, milhões de demenciados de mercado, aos quais o novo malandro industrial, que aposentou a navalha, opera por desejo como entretenimento, como fantasia de ganho pela submissão ao seu desejo. Pagando pelo ar do coach, os milhões de idiotas do mundo como ele é confirmam pela raiz o seu poder: fundamentalmente o desejam.
A política do desejo, das coisas, do dinheiro circulante, e de seu show, se confirma absolutamente no desejo do coach. Ele tem seu próprio partido político, sua indústria cultural de propaganda fascista, sua rede de milhões de seguidores o desejando, e desejando ser o coach — que não é nada se não isso mesmo. Tais militantes e ativistas pagam milhões pela indústria cultural da personalidade, para que o coach apareça para eles como milionário, pelo desejo radical que isto exista.
Porque o mundo é isso, produção de riqueza sobre a produção de massas de excluídos, que pagam pelo acesso, quando não exterminados. Dono de um partido de massas da venda de si mesmo como a política do real, das coisas da vida social arruinada, o coach político de massas é a condensação da coisa cultural do neofascismo, esta nova ordem de razões políticas que intriga a tantos.
O coach é o vendedor na rede de uma pirâmide de si mesmo, em que ele é a imagem, o modelo e a mentira de que sua riqueza ridícula estará acessível a todos. Basta todos reconhecerem isso, e seu golpe neoliberal total, de sua excitação vazia de palhaço pop grotesco, chegará ao poder, o seu verdadeiro lugar, como Javier Milei na Argentina e Pablo Marçal tentando o golpe em São Paulo.
Basta ser como o coach, diz o coach, e para isto é preciso que a massa se cale e o assista, e ele enuncie sozinho sua violência antipolítica como política. É preciso ser como ele, por isso é ele quem fala. Por um naco imaginário da riqueza, e para pertencer ao código do dinheiro, palhaços de um circo pegando fogo tendem a entregar tudo ao coach. Como já entregaram quando compravam seus cursos, que não são nada. Por não ter nada a oferecer no âmbito da história, o coach só pode causar, chamar a atenção para si mesmo como um palhaço da indústria cultural que tem nas mãos, que de fato é.
Mentir a mentira que excita, ousadia tática e sádica, que convoca a atenção exatamente porque todos sabem que é mentira. Sua mentira política é apenas uma aposta, em um jogo vazio de verdade, pleno de poder que gera poder. Sua performance, da qual depende, é sua traumaturgia.
Com este choque vazio, se convoca a massa, submetida ao desejo do coach mercadoria. Um povo que deseja o fascista brand new, o espírito vazio do capitalismo como golpe e como crime, e seu grande líder, a vida pública da política como sonho de um coach.
Pânico
Não há mais lugar no mundo.
Não há mais lugar.
Aranhas do medo
fiam ciladas no escuro
Nos longes, pesam tormentas.
Rolam soturnos ribombos.
Súbito,
precipita-se nos desfiladeiros
a vida em pânico.
Helena Kolody, "Antologia Poética"
Não há mais lugar.
Aranhas do medo
fiam ciladas no escuro
Nos longes, pesam tormentas.
Rolam soturnos ribombos.
Súbito,
precipita-se nos desfiladeiros
a vida em pânico.
Helena Kolody, "Antologia Poética"
Israel no Líbano: Até quando o mundo assistirá inerte ao terrorismo?
A pergunta parece nos levar ao menos duas décadas atrás, quando muitos dos leitores formaram sua percepção sobre o conceito de terrorismo a partir da reação global comandada pelos EUA, com seus aliados europeus no Conselho de Segurança da ONU, à derrubada dos edifícios gêmeos em Nova York, atribuídas a um grupamento criado, treinado e financiado pelos EUA décadas antes no Oriente Médio.
Naquele momento histórico, desde o futebol ao cinema, das conversas de bar aos desenhos animados, o estereótipo do terrorismo assolando o “mundo civilizado” era o fio condutor da convivência social, tudo refletia essa percepção de um mal a ser combatido como devir existencial, sustentado por imagens de um horror desumano que, por sua vez, comunicava: se trata do chamado à batalha contra inumanos, desprovidos daquilo que definiria a humanidade. Logo, a guerra deve ser total, com todas as forças e sem qualquer oposição.
Ao ligar a televisão, em qualquer canal, em qualquer horário, dos programas de amenidades matutinos aos noticiários, passando pelas fofocas e filmes de sessão da tarde, até os talk-shows noturnos, todos faziam questão de exibir histórias de famílias devastadas, atos heróicos de bombeiros, mobilizações cívicas de voluntários, preparativos bélicos militares. Conhecemos nos detalhes de terceira geração cada vítima, vimos seus amigos, namorados, parentes, filhos, colegas de trabalho, animais de estimação. Cada vítima extremamente humana do terror.
Com tudo isso formamos nosso entendimento de terrorismo. O mal maior, a bestialidade insuportável até entre os brutos. Satíricos complementavam com bazófia a caricatura do terrorista. A mote de dar uma “outra” visão sobre o demônio, criavam personagens com roupas e costumes típicos, vivendo vidas em cavernas e tendas onde confundiam coxinha de galinha com granada, jogavam boliche com bombas com pavio aceso, etc. Não se tratava assim de outra visão, mas da mesma, sob a permissão do ridículo com a dor ocidental. No fundo, um complemento útil e necessário, vejo hoje, à delimitação da figura do terrorista, o agente do terrorismo.
É muito fácil para os canais de televisão, seus jornalistas e grupos de mídia impressa e de internet repetirem hoje que a ação militar da resistência palestina foi um ato terrorista. Estamos há um ano repetindo sem qualquer contraponto que se trata de terrorismo matar centenas de civis num único dia. Contudo, a ação que matou cinco centenas de civis no Líbano recentemente, ou seja, um acontecimento idêntico, dessa vez promovido por Israel, não teve uma única citação em praticamente lugar nenhum com a mesma palavra.
Por que o assassinato de centenas de pessoas num único dia, em acontecimentos sem causalidade entre si, são tratados um como terrorismo inquestionável e outro sequer tem aventado o caráter terrorista?
Diante desse paradoxo, qualquer leitor bem instruído tentará dar um passo atrás e procurar além da semelhança dos fatos uma abstração sobre o conceito de terrorismo. Respeito o exercício e farei agora.
Segundo a ONU, conforme a resolução 48/60 de 1994 da sua Assembleia Geral, terrorismo são “atos criminosos planejados ou calculados para provocar estado de terror no público em geral, num grupo de pessoas ou em particulares por motivos políticos”.
Por essa definição não é necessário sequer haver mortes para ser enquadrado como ato terrorista. Mas os atos citados na definição geralmente são atos homicidas, levando um grupo maior a temer por suas vidas. Assim, as mortes de 7/10/23 e as de 23/9/24 encaixam-se ajustadamente no largo conceito.
A abstração jurídico-política nos deixa, assim, no mesmo lugar. Como atos igualmente terroristas à luz da definição da ONU são tomados de forma tão diferente por quase a unanimidade da mídia, sem que essa tenha qualquer acordo obscuro de manipulação?
A resposta, a meu ver, não é a existência de qualquer sala de comando noticioso entre a AP, Reuters, AFP, EF, etc. Tampouco um órgão secreto em Washington com censores que definem os rótulos e, a partir deles, as notícias. É algo bem mais simples, tangível e à vista de todos.
No acontecido do ano de 2023 não bastou o pronto reconhecimento da diplomacia brasileira do caráter terrorista da ação; foi cobrado em uníssono pela mídia liberal, e pelos que se dizem de esquerda que paradoxalmente se instruem por essa mídia, que Lula definisse também os perpetradores como essencialmente terroristas. Há uma exigência de pronto pela caricatura do terrorista como introjetada socialmente: o esteriótipo do islâmico. Da mesma forma, no ato terrorista recente, o mecanismo cognitivo trabalha no caminho inverso: se não partiu do esteriótipo do terrorista, não foi terrorismo.
Não há um estudioso sério, um profissional de relações internacionais, história, geopolítica ou áreas a fim que não reconheça a prevalência global geoeconômica dos EUA desde o fim da Guerra Fria, bem como sua dominância no chamado Ocidente desde o fim da Segunda Guerra. Falo aqui de consensos entre opositores e defensores.
A partir dessa identidade geopolítica, ou seja, desse fato inquestionável, para alguns positivo e para outros negativo, se extraem duas considerações gêmeas com valoração oposta. Enquanto uns chamarão de “valores ocidentais”, defendendo sua universalização, outros chamarão de hegemonia ou, com maior precisão, imperialismo.
Esta prevalência, o imperialismo, impõe a hegemonia dos chamados valores ocidentais, com o objetivo único de se tornarem universais. É, portanto, a universalização do particular, logo, a subversão da diversidade, tanto quanto das possibilidades de consensos básicos dentro dessa multiplicidade. Uma violência epistemológica a serviço do exercício da força, instrumento do poder no teatro interestatal.
Desta forma, relegando à insignificância as abstrações jurídico-políticas das instituições do pós-Segunda Guerra, prevalecem as caracterizações maniqueístas do hegemon. É terrorista aquele que faz X ou Y se este for adversário do hegemon e daqueles que devem obedecê-lo. Não é terrorista aquele que faz X ou Y se for aliado do hegemon, a mando dele ou ele próprio.
É inclusive bem fácil de entender. Como em qualquer governo despótico, baseado diretamente na força sem intermediação de regras e instituições (o que o ocidente gosta de chamar de ditaduras), o bem e o mal não são essência de nada, apenas rótulos dados pelo príncipe, pelo soberano. Esse é o real funcionamento das chamadas relações internacionais, atrás das camadas de instituições e regras que o hegemon impõe aos vassalos enquanto age acima delas.
Assim como as instituições econômicas de Bretton Woods foram solapadas pelos mesmos EUA que as criaram, as instituições da ONU vem sendo paulatina e cada vez mais acintosamente desidratadas por Washington. Israel é hoje o braço armado racista que melhor evidencia a hipocrisia da diplomacia estadunidense.
Então, até quando o mundo assistirá inerte? Ora, o conselheiro presidencial Celso Amorim respondeu recentemente, num think tank de Nova York, que o Brasil, a China, a Rússia e a maior parte do Sul Global operam com a consciência de que as “relações internacionais baseada em regras” são a expressão do definitivo abandono do “direito internacional”. Se o último emula a figura jurídica do capitalismo intra-estatal no interestatal, o primeiro é o retorno ao puro poder do príncipe, que edita regras a todos e a nenhuma se submete.
Não está distante, portanto, que novos coletivos de países, ou mesmo Estados solitariamente (como fez a Rússia), passem a agir como polícia do mundo, “baseados em regras” e ao arrepio do “direito internacional”, como fizeram EUA e Reino Unido no início do século no Oriente Médio, para combater o terrorismo, o genocídio e outras formas de violência que julguem insuportáveis.
Naquele momento histórico, desde o futebol ao cinema, das conversas de bar aos desenhos animados, o estereótipo do terrorismo assolando o “mundo civilizado” era o fio condutor da convivência social, tudo refletia essa percepção de um mal a ser combatido como devir existencial, sustentado por imagens de um horror desumano que, por sua vez, comunicava: se trata do chamado à batalha contra inumanos, desprovidos daquilo que definiria a humanidade. Logo, a guerra deve ser total, com todas as forças e sem qualquer oposição.
Ao ligar a televisão, em qualquer canal, em qualquer horário, dos programas de amenidades matutinos aos noticiários, passando pelas fofocas e filmes de sessão da tarde, até os talk-shows noturnos, todos faziam questão de exibir histórias de famílias devastadas, atos heróicos de bombeiros, mobilizações cívicas de voluntários, preparativos bélicos militares. Conhecemos nos detalhes de terceira geração cada vítima, vimos seus amigos, namorados, parentes, filhos, colegas de trabalho, animais de estimação. Cada vítima extremamente humana do terror.
Com tudo isso formamos nosso entendimento de terrorismo. O mal maior, a bestialidade insuportável até entre os brutos. Satíricos complementavam com bazófia a caricatura do terrorista. A mote de dar uma “outra” visão sobre o demônio, criavam personagens com roupas e costumes típicos, vivendo vidas em cavernas e tendas onde confundiam coxinha de galinha com granada, jogavam boliche com bombas com pavio aceso, etc. Não se tratava assim de outra visão, mas da mesma, sob a permissão do ridículo com a dor ocidental. No fundo, um complemento útil e necessário, vejo hoje, à delimitação da figura do terrorista, o agente do terrorismo.
É muito fácil para os canais de televisão, seus jornalistas e grupos de mídia impressa e de internet repetirem hoje que a ação militar da resistência palestina foi um ato terrorista. Estamos há um ano repetindo sem qualquer contraponto que se trata de terrorismo matar centenas de civis num único dia. Contudo, a ação que matou cinco centenas de civis no Líbano recentemente, ou seja, um acontecimento idêntico, dessa vez promovido por Israel, não teve uma única citação em praticamente lugar nenhum com a mesma palavra.
Por que o assassinato de centenas de pessoas num único dia, em acontecimentos sem causalidade entre si, são tratados um como terrorismo inquestionável e outro sequer tem aventado o caráter terrorista?
Diante desse paradoxo, qualquer leitor bem instruído tentará dar um passo atrás e procurar além da semelhança dos fatos uma abstração sobre o conceito de terrorismo. Respeito o exercício e farei agora.
Segundo a ONU, conforme a resolução 48/60 de 1994 da sua Assembleia Geral, terrorismo são “atos criminosos planejados ou calculados para provocar estado de terror no público em geral, num grupo de pessoas ou em particulares por motivos políticos”.
Por essa definição não é necessário sequer haver mortes para ser enquadrado como ato terrorista. Mas os atos citados na definição geralmente são atos homicidas, levando um grupo maior a temer por suas vidas. Assim, as mortes de 7/10/23 e as de 23/9/24 encaixam-se ajustadamente no largo conceito.
A abstração jurídico-política nos deixa, assim, no mesmo lugar. Como atos igualmente terroristas à luz da definição da ONU são tomados de forma tão diferente por quase a unanimidade da mídia, sem que essa tenha qualquer acordo obscuro de manipulação?
A resposta, a meu ver, não é a existência de qualquer sala de comando noticioso entre a AP, Reuters, AFP, EF, etc. Tampouco um órgão secreto em Washington com censores que definem os rótulos e, a partir deles, as notícias. É algo bem mais simples, tangível e à vista de todos.
No acontecido do ano de 2023 não bastou o pronto reconhecimento da diplomacia brasileira do caráter terrorista da ação; foi cobrado em uníssono pela mídia liberal, e pelos que se dizem de esquerda que paradoxalmente se instruem por essa mídia, que Lula definisse também os perpetradores como essencialmente terroristas. Há uma exigência de pronto pela caricatura do terrorista como introjetada socialmente: o esteriótipo do islâmico. Da mesma forma, no ato terrorista recente, o mecanismo cognitivo trabalha no caminho inverso: se não partiu do esteriótipo do terrorista, não foi terrorismo.
Não há um estudioso sério, um profissional de relações internacionais, história, geopolítica ou áreas a fim que não reconheça a prevalência global geoeconômica dos EUA desde o fim da Guerra Fria, bem como sua dominância no chamado Ocidente desde o fim da Segunda Guerra. Falo aqui de consensos entre opositores e defensores.
A partir dessa identidade geopolítica, ou seja, desse fato inquestionável, para alguns positivo e para outros negativo, se extraem duas considerações gêmeas com valoração oposta. Enquanto uns chamarão de “valores ocidentais”, defendendo sua universalização, outros chamarão de hegemonia ou, com maior precisão, imperialismo.
Esta prevalência, o imperialismo, impõe a hegemonia dos chamados valores ocidentais, com o objetivo único de se tornarem universais. É, portanto, a universalização do particular, logo, a subversão da diversidade, tanto quanto das possibilidades de consensos básicos dentro dessa multiplicidade. Uma violência epistemológica a serviço do exercício da força, instrumento do poder no teatro interestatal.
Desta forma, relegando à insignificância as abstrações jurídico-políticas das instituições do pós-Segunda Guerra, prevalecem as caracterizações maniqueístas do hegemon. É terrorista aquele que faz X ou Y se este for adversário do hegemon e daqueles que devem obedecê-lo. Não é terrorista aquele que faz X ou Y se for aliado do hegemon, a mando dele ou ele próprio.
É inclusive bem fácil de entender. Como em qualquer governo despótico, baseado diretamente na força sem intermediação de regras e instituições (o que o ocidente gosta de chamar de ditaduras), o bem e o mal não são essência de nada, apenas rótulos dados pelo príncipe, pelo soberano. Esse é o real funcionamento das chamadas relações internacionais, atrás das camadas de instituições e regras que o hegemon impõe aos vassalos enquanto age acima delas.
Assim como as instituições econômicas de Bretton Woods foram solapadas pelos mesmos EUA que as criaram, as instituições da ONU vem sendo paulatina e cada vez mais acintosamente desidratadas por Washington. Israel é hoje o braço armado racista que melhor evidencia a hipocrisia da diplomacia estadunidense.
Então, até quando o mundo assistirá inerte? Ora, o conselheiro presidencial Celso Amorim respondeu recentemente, num think tank de Nova York, que o Brasil, a China, a Rússia e a maior parte do Sul Global operam com a consciência de que as “relações internacionais baseada em regras” são a expressão do definitivo abandono do “direito internacional”. Se o último emula a figura jurídica do capitalismo intra-estatal no interestatal, o primeiro é o retorno ao puro poder do príncipe, que edita regras a todos e a nenhuma se submete.
Não está distante, portanto, que novos coletivos de países, ou mesmo Estados solitariamente (como fez a Rússia), passem a agir como polícia do mundo, “baseados em regras” e ao arrepio do “direito internacional”, como fizeram EUA e Reino Unido no início do século no Oriente Médio, para combater o terrorismo, o genocídio e outras formas de violência que julguem insuportáveis.
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