domingo, 27 de abril de 2025

Alianças entre a extrema-direita e o agronegócio ameaçam o planeta

A posse de Donald Trump como presidente dos Estados Unidos, no início deste ano, reacendeu debates que partem de suas alianças com os bilionários das Big Techs, a exemplo de Jeff Bezos, Mark Zuckerberg e Elon Musk – este último que se referiu a posse do atual presidente como um “ponto de virada para a civilização humana” -, como também em relação às políticas racistas contra imigrantes que se estendem para o chamado “ecofascismo”. Entre as principais discussões da política trumpista está a sua postura em relação à emergência climática, marcada por discursos que incentivam a exploração de petróleo e gás, a expansão de mineradoras e a reformulação de políticas ambientais que favorecem as grandes corporações.

O ecofascismo ganha espaço à medida que o colapso ambiental é reconhecido por segmentos da extrema-direita como uma oportunidade de reorganizar a sociedade sob lógicas autoritárias. Combinando discursos ambientalistas com manifestações racistas e nacionalistas, o ecofascismo se manifesta por meio da proposição de políticas que tratam da preservação dos recursos naturais — compreendida aqui segundo o discurso neoliberal da “economia verde”, “capitalismo verde” e “desenvolvimento sustentável” —, mas apenas para seu “grupo referente”: masculinista, rico e branco. Isso ocorre em detrimento da inclusão de pessoas racializadas, mulheres, corpos dissidentes e pessoas LGBTQIAPN+. Nesse contexto, a emergência climática é instrumentalizada para justificar restrições migratórias e negar a responsabilidade histórica dos países mais ricos nas emissões de carbono.


A ascensão da extrema-direita na última década é um fenômeno global, especialmente nas democracias ocidentais. Esses movimentos compartilham características como a construção de um “Outro” – um inimigo a ser combatido – e a defesa de ideias masculinistas e supremacistas brancas. Por outro lado, existem características específicas deste avanço no contexto brasileiro, onde a extrema-direita emerge a partir de um histórico que combina a consolidação de um liberalismo escravocrata, regimes autoritários recorrentes e o pacto das elites em torno da branquitude. Essa herança molda os valores da extrema-direita brasileira, que identifica como inimiga dos povos originários, comunidades tradicionais, mulheres, movimentos sociais, pessoas negras e LGBTQIAPN+.

Enquanto nos EUA e na Europa o “Outro” a ser enfrentado é frequentemente representado pelo imigrante – figura que ameaça a estabilidade econômica e cultural ao ser percebida como parasitária ao Estado de bem-estar e portadora de valores incompatíveis com as democracias ocidentais -, no Brasil, a ascensão ecofascista assume contornos próprios. Aqui, ela opera como uma articulação mais profunda entre a masculinidade enquanto regime de poder, o capitalismo extrativista e a exploração da natureza e seus povos. A dominação da natureza, neste contexto, não é apenas prática econômica, mas uma tecnologia de controle territorial e social, impulsionada pelo agronegócio, que funciona como expressão da lógica produtivista e extrativista, transformando a destruição ambiental em um símbolo de afirmação supremacista e masculinista.

O ecofascismo à moda brasileira, portanto, consolida-se não só pela política, mas pela captura dos desejos frustrados em uma sociedade precarizada, oferecendo ordem, potência e pertencimento por meio da exploração violenta da terra e dos corpos que dela dependem. A conexão entre o agronegócio e a extrema-direita não é recente, antes mesmo da ascensão de Jair Bolsonaro (PL), o setor já liderava ataques às políticas de reforma agrária e às alianças com o Estado para desarticular os movimentos sociais. No entanto, é a partir do governo Bolsonaro que essas alianças se fortalecem, consolidando-se e se institucionalizando por meio da aprovação de projetos como o marco temporal e o “pacote do veneno”.

Em verdade, o governo Bolsonaro não apenas fortaleceu uma nova direita brasileira – em que pautas ultraneoliberais e autoritarismo se mesclam – como também consolidou um ecossistema cultural que se expressa na figura do “homem do agro”: um arquétipo masculinizado, armado, viril e produtor. Essa estética de força e controle territorial não é apenas retórica, ela opera como dispositivo de poder simbólico e material, articulando desejo, identidade e violência. O ressentimento, antes sustentáculo afetivo da extrema-direita, cede lugar a uma performatividade bélica e produtivista, que naturaliza a devastação como ato de soberania. A imbricação entre a masculinidade como regime de poder e o capitalismo gore movimenta uma economia libidinal, através da mobilização dos desejos e dos corpos para essa nova zona de engajamento.

Nesse rearranjo, o agronegócio atua como aparelho ideológico de dominação, produzindo uma masculinidade branca, cristã hegemônica que se afirma pela violência contra a natureza e seus povos. Essa estética, sustentada por símbolos como o chapéu de cowboy, o rifle, trator, e até mesmo motosserra, performa uma promessa de pertencimento diante da precariedade social e subjetiva. Não por acaso, supremacistas como Trump, Milei e Bolsonaro apresentam discursos que enaltecem o “plano motosserra”. Bolsonaro se autointitulou como “capitão motosserra”, já Milei frequentemente aparecia em comícios portando um motosserra. Em fevereiro deste ano, Musk, convocado a reduzir o tamanho do governo trumpista, apareceu no palco da Conferência de Ação Política Conservadora em National Harbor, com a motosserra que ganhou de Milei, cujo slogan gravado no instrumento registrava “Viva la libertad, carajo”.

O agronegócio também desempenhou um papel crucial no financiamento de movimentos golpistas, como há muito tempo denuncia o site de olho nos ruralistas, o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff – também chamado de “Agrogolpe”-, onde mais de 50% dos votos favoráveis vieram da Bancada Ruralista, além da admissão/recusa da abertura de processos contra o ex-presidente Michel Temer, e campanhas eleitorais, incluindo a de Bolsonaro, que recebeu R$1,2 milhão de reais de 4 fazendeiros nas últimas eleições presidenciais. Já, em relação à intentona golpista do 8 de janeiro, especula-se através das investigações realizadas pela Polícia Federal que empresários do setor foram citados como financiadores dos atos golpistas, evidenciando o vínculo entre os interesses econômicos do agronegócio e os ataques à democracia.

É por meio desta aliança entre o agronegócio e os interesses da extrema direita que a exploração de territórios e seus povos é executada, mesmo diante da emergência climática, evidenciada por mudanças drásticas de temperatura, alternando entre períodos de grandes secas e chuvas intensas. Essas alterações extremas, provocadas pela intensificação do aquecimento global causado pela atuação de atores poderosos (Estados e corporações ligadas ao agronegócio), resultaram em inundações devastadoras que causaram danos ao redor do mundo, destruindo casas e vidas humanas e mais-que-humanas. Um exemplo recente ocorreu no Rio Grande do Sul, onde as enchentes de 2024 afetaram 95% dos municípios do estado, resultando em prejuízos estimados em R$ 88,9 bilhões, com impactos significativos nos setores produtivo, social, infraestrutura e meio ambiente. As chuvas intensas causaram 183 mortes e deixaram 27 pessoas desaparecidas. Além disso, mais de 2,3 milhões de pessoas foram afetadas, com milhares de desabrigadas e danos extensivos à infraestrutura local.

No cenário global, o Brasil ocupa a sexta posição entre os maiores emissores de gases de efeito estufa. Enquanto a indústria de combustíveis fósseis é o principal vilão nas discussões climáticas globais, aqui o agronegócio lidera as emissões, especialmente devido ao desmatamento na Amazônia e no Cerrado brasileiro, e à criação intensiva de gado. Segundo o Sistema de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estufa do Observatório do Clima (SEEG), 74% das emissões brasileiras estão diretamente ligadas ao setor.

As redes sociais, por sua vez, tornaram-se o terreno fértil para a disseminação de desinformação ambiental e climática, com o apoio direto de líderes globais da extrema-direita. A pressão crescente pela flexibilização de políticas de controle nas grandes plataformas contribui para amplificar discursos de ódio e narrativas negacionistas sobre o clima. Apesar disso, entretanto, o negacionismo não é algo novo, mas um resquício do colonialismo que ganha força no projeto político da extrema-direita ao promover a destruição humana e ambiental. Essa lógica reflete o desprezo pelo saber e pelas múltiplas existências, que se infiltram nos mais variados setores e grupos da sociedade.



Como diz Ailton Krenak “Nosso tempo é especialista em criar ausências: do sentido de viver em sociedade, do próprio sentido da experiência da vida. Isso gera uma intolerância muito grande com relação a quem ainda é capaz de experimentar o prazer de estar vivo, de dançar, de cantar. E está cheio de pequenas constelações de gente espalhada pelo mundo que dança, canta, faz chover. O tipo de humanidade zumbi que estamos sendo convocados a integrar não tolera tanto prazer, tanta fruição de vida. Então, pregam o fim do mundo como uma possibilidade de fazer a gente desistir dos nossos próprios sonhos”.

A citação de Krenak revela como a lógica colonial e capitalista destrói não apenas territórios e vidas, mas também sentidos, experiências e sonhos. Essa “humanidade zumbi”, que rejeita a diversidade e a vitalidade da existência é a mesma que impulsiona a guerra colonial contra a natureza, promovida pela extrema-direita em aliança com o agronegócio e grandes corporações. Essa é uma luta desigual, que despreza saberes ancestrais, territórios e diferenças, criminalizando, perseguindo e atacando os verdadeiros defensores da vida.

É por isso que o conceito de “guerra colonial contra a natureza”, inspirado na expressão de Eliane Brum, se torna tão importante neste estado atual de coisas. A palavra colonial situa a forma pela qual a destruição massiva da natureza e seus povos são mobilizados pelos interesses econômicos dos atores poderosos. Quando falamos em natureza, ratificamos a ideia de que ela está interconectada e integrada aos povos e seus territórios, sem os quais ela não poderá se manter em pé, e, consequentemente, manter as possibilidades de vida e existência na Terra em pé.

Nesta guerra, os principais “inimigos” a serem combatidos são os grupos que contrariam a lógica do capitalismo neoliberal e de mercantilização da natureza, todos aqueles e aquelas que lutam pela proteção das florestas, rios, montanhas, árvores e animais. Sem eles, não há futuro para o planeta. Em tempos de emergência climática, resistir a essa lógica colonial é um passo fundamental para reimaginar formas mais justas de coexistir no planeta, enfrentando os negacionismos, e lutando contra a continuidade da exploração de seres humanos e mais que humanos.

Inteligência planetária: melhor que a artificial

Desde que surgiu na Terra, o ser humano tem sido um agente poderoso de transformação do meio em que vive. Durante mais de 99% de seu tempo neste planeta, buscava adaptar o meio para satisfazer suas necessidades de alimentação, abrigo, convívio e segurança. No tempo restante o atendimento destas necessidades foi substituído pela tentativa de satisfazer desejos criados pela propaganda para alcançar outro objetivo: o lucro. Com isso, alterou-se a relação do ser humano com os demais seres vivos com quem dividimos essa nossa única casa.

A inteligência artificial – IA vem prometendo gerar novas benesses, assim como, em 1776, Adam Smith vaticinou que a busca do lucro privado levaria bem-estar à toda a comunidade. Não tivesse ele advertido que prováveis conluios e a formação de monopólios alterariam tal resultado, teria errado feio, pois ainda hoje, dois séculos e meio mais tarde, 80% da comunidade humana não vive, apenas aguenta, com menos de US$10,00 por dia! Menos que do aumento populacional, a degradação dos únicos meios de que dispomos para sobreviver – água, ar e solo – decorre de a busca do lucro privado ter se tornado mais importante que a solidariedade, que o atendimento das necessidades de alimentação, abrigo e convivência de todos. Temos, pois, que alterar profundamente a nossa economia, nossos hábitos e desejos, se quisermos sobreviver como espécie.

O Papa Francisco bem sabia disso e nos advertiu, seja com sua encíclica Laudato Si, seja com o lançamento da “Economia de Francisco”, que seria uma que não deixaria ninguém para trás.


A IA está sendo desenvolvida com o objetivo de gerar lucros para os grandes monopólios que têm dinheiro para desenvolvê-la. Quanto mais poderosas forem, maiores os riscos de tais sistemas buscarem objetivos próprios, distintos daqueles que orientaram os humanos na quase totalidade do seu tempo na Terra. As consequências da possível “independência” de máquinas com capacidades sobre-humanas são debatidas e temidas nos mais diversos locais e ocasiões.

Enquanto isso, uma análise isenta mostra que há muitas décadas já somos conduzidos, de fato, por sistemas artificias inteligentes, que têm objetivos próprios que não são a busca por bem-estar para todos: tais sistemas chamam-se “corporações”, que dominam a economia, a política, a cultura, as eleições, o esporte e muito mais; são sistemas cuja principal responsabilidade, segundo Milton Friedmam, é aumentar seus lucros! Apesar dos frequentes modismos que atribuem às empresas outros objetivos, no fundo sua gestão busca aumentar os lucros e, se não o fizerem, será substituída. Nessa busca vale, com frequência, subornar e guerrear, pois elas também dominam as máquinas de fazer guerra.

A verdadeira inteligência, no entanto, é a inteligência planetária, uma que leve em conta a necessidade de todos os elementos – rios, florestas, mangues, mares, solos, ar, geleiras, …- de cujo bem-estar depende o bem-estar dos humanos. O objetivo central tem de ser ampliar o bem-estar, e não esperar que este decorra do aumento do PIB!

sexta-feira, 25 de abril de 2025

Pensamento do Dia

 


Trump, prejuízo além das tarifas

Desde que Trump anunciou suas tarifas, o debate central é sobre as perdas do Brasil. Perdas na exportação de aço e alumínio, em potencial.

É natural que o debate siga esse curso, o comércio mundial está em vias de regredir e isto implica empobrecimento e desemprego.

No entanto, não se pode reduzir o impacto da ascensão de Trump a uma queda no comércio internacional. As perdas são de uma dimensão maior e mais profunda.

Não contabilizamos ainda o grande impacto na política ambiental do planeta. A saída dos EUA do Acordo de Paris, firmado em 2015, tira da mesa de negociação um dos atores principais e arrisca a levar alguns coadjuvantes, como a Argentina e El Salvador.

E não se trata apenas de um retrocesso nos esforços mundiais, mas também de uma regressão na política interna, desde a sede por petróleo contida no slogan drill, baby, drill, a detalhes como a volta dos canudinhos de plástico, tudo na esteira da anulação das normas e desmontagem dos órgãos de controle.

As perdas são de toda a humanidade, mas afetam especialmente o Brasil. Desde seu primeiro discurso no exterior, Lula afirmou em Sharm El-Sheikh que o Brasil iria assumir sua responsabilidade no combate às mudanças climáticas, reduzindo desmatamento e queimadas.

Nesse impulso de recuperar a importância na política ambiental, perdida no período Bolsonaro, o Brasil decidiu abrigar a COP-30, que será realizada em Belém.

Só em termos de investimentos para organizar o evento, o País gastará em torno de R$ 5 bilhões.

O problema é que ele acontecerá num clima de baixas expectativas.

Os EUA não devem participar. O nível de emissões continua alto, assim como a perda da superfície gelada da Antártica, segundo o National Snow Data Center. O aumento de temperatura já é de 1,5°C, meta prevista para 2030 pelo Acordo de Paris.

Os recursos para ajudar países pobres a mitigar os efeitos e se adaptar ao aquecimento global já não fluíam. Será orçado em mais de US$ 1 trilhão o valor desse esforço. Como conseguir o dinheiro sem os EUA e com a Europa voltada para reforçar sua capacidade militar, precisamente pela resistência de Trump à Otan?

Na vida dos brasileiros, as coisas também pioram. Milhares de imigrantes já estão expatriados e muitos deles voltam para cá, tendo de reiniciar a vida. O turismo ficou mais áspero. Há quem tema entrar com sua agenda telefônica nos EUA. Existe uma tendência de repressão às grandes universidades americanas. Há cerca de 1 milhão de estudantes estrangeiros no país, inclusive brasileiros.

Alguns que participam de movimentos pró-Palestina foram expulsos. De todas as partes do mundo, estudantes são enviados para os EUA por causa da qualidade do ensino e da atmosfera de livre circulação de ideias.

Se a expressão de ideias é de certa forma punida, qual a vantagem de se deslocar para os EUA? Censura e medo existem em muitos países e, em certos casos, os alunos são mandados para o exterior para se beneficiarem de uma livre troca de ideias.

Há uma outra dimensão na qual o cotidiano das pessoas também é afetado. Duas deputadas brasileiras solicitaram visto para os EUA. São mulheres trans e o visto no passaporte as classifica como do gênero masculino.

Os EUA, a partir de Trump, têm uma visão clara de reconhecer apenas o gênero masculino ou feminino. É uma decisão presidencial com o apoio dos seus eleitores. Embora não se concorde, o direito de definir essa questão internamente é irretocável.

No entanto, os passaportes emitidos pelo Brasil refletem a legislação brasileira e deveriam ser respeitados tal como foram impressos. É voluntarismo querer definir uma política de gênero para toda a humanidade. Os processos de escolha são feitos em cada país e devem ser respeitados.

Em síntese, se nos limitarmos aos importantes aspectos comerciais, deixaremos de ver grande parte das dificuldades que Trump traz ao mundo.

O enfraquecimento do universo científico americano terá influência geral. A retração da política humanitária, como mostrei no artigo anterior no Estadão ( O dedo de Trump no mapa da fome, 11/4, A5), produz mortes, porque os EUA eram responsáveis por um terço da ajuda mundial contra a fome.

Estamos apenas nos primeiros meses do segundo governo Trump. Ele já fala em reeleição e alguns de seus apoiadores mencionam a necessidade de ultrapassar a democracia.

Possivelmente é um projeto autoritário, que pode ser chamado de não liberal ou qualquer outro nome.

Mark Lilla, numa entrevista a este jornal, afirmou que a alma americana está doente. É tarefa urgente determinar os contornos dessa “doença” e encontrar os meios de deter a marcha autoritária, seja pela ação popular, resistência dos intelectuais ou mesmo da própria justiça americana.

O mundo pode colaborar discretamente. Os chineses já contestaram a visão de que são camponeses que lucram com os EUA. Os latino-americanos certamente não aceitarão que seu espaço seja definido como quintal dos EUA. Desde a posse de Trump, o mundo corre atrás do prejuízo.

Uma nova luta de classes se formando

Uma questão central, hoje, tem que ver com a montagem de novos instrumentos para a plena compreensão do que se apresenta diante de nós. Isto é, uma realidade marcada pela crise ambiental, pelas mutações que abalam o mundo do trabalho e pelos impasses vividos pela Democracia Representativa.

Assim, será preciso repensar muitos aspectos da prática política anterior, daquele período que vai dos socialistas utópicos ao chamado socialismo real.

Separar as partes vivas das partes mortas. Justiça social, Democracia como componente do processo civilizatório e Ética são valores inegociáveis; são as partes vivas do passado. Contrariamente ao que propugnava Maquiavel, não penso que os representantes do Estado tenham que ter uma lógica ou uma Ética diferente daquela do cidadão comum. Talvez tenhamos aí um bom caminho para justamente aproximar as ruas das instâncias de decisão.


Agora é preciso trabalhar as questões novas ou as partes do presente, como o necessário aprofundamento da representação democrática (que não pode ser confundida com a criação de assembleias gerais permanentes), o alastramento do trabalho por conta própria e o entendimento de que há uma revolução tecnológica em curso (automação, robotização, inteligência artificial), e que tudo isso é irreversível. A Inteligência Artificial (IA), por exemplo, já atingiu um estágio em que deixa de ter uma dimensão complementar ou de apoio às atividades industriais para adquirir um caráter de força capaz de substituir parte do trabalho humano diretamente produtivo. Na primeira Revolução Industrial, uma parte da capacidade muscular do homem era transferida para a máquina. Na atual, uma parte da sua criatividade é acumulada nas máquinas.

Formas de gestão mais ousadas também precisam ser implementadas, entre elas a autogestão. Outra possibilidade é revolucionar o modelo de propriedade das empresas, por intermédio de um sistema de ações, de propriedade de cada trabalhador, como Friedrich Engels sugeriu ainda no final do século XIX.

Além disso, caberá aos sindicatos traçar novas linhas de ação frente a todas essas mudanças, o que não tem acontecido com muita frequência até agora, tanto no que tange aos novos contratos de trabalho quanto no tocante à regulamentação da Inteligência Artificial. Algumas lutas sindicais travadas na indústria automobilística dos Estados Unidos começam a apontar para algo próximo a uma compreensão de que é necessário se dotar de uma visão coletiva do trabalho, inclusive com a tomada de consciência frente aos desequilíbrios ecológicos provocados pela indústria. A Organização Internacional do Trabalho (OIT) já vem se manifestando a respeito da necessidade de os países se valerem de normas sobre o trabalho nas plataformas digitais.

Toda tecnologia depende de uma correlação de forças. A Inteligência Artificial, por exemplo, pode ser usada para a obtenção de grandes avanços científicos como também pode ser empregada na vigilância das pessoas dentro das grandes corporações. Uma Inteligência Artificial a serviço da proteção política do grande capital já pode estar se tornando uma realidade. Assim sendo, uma nova luta de classes pode estar apenas começando.

Não estamos mais na fase artesanal da indústria, aquela que teve como expressão o movimento anarquista. Como tampouco estamos mais na fase do chão da fábrica, aquela que teve, por sua vez, como expressão maior o comunismo da Terceira Internacional. Estamos, isso sim, entrando em uma nova fase, a da Revolução da Automação, da Inteligência Artificial e da Robótica. Trata-se de construir uma política nova a partir dela. As cooperativas e o trabalho por conta própria terão, forçosamente, um importante papel nesse processo. Esse é o momento de o trabalhador ser o dono do seu trabalho e dos instrumentos de trabalho.

Em artigo datado de 2019, o economista e militante marxista grego Yanis Varoufakis escreveu, a propósito das novas formas de organizar o mundo do trabalho:

“Imaginemos que as ações fossem como um direito a voto, que não se pode comprar, nem vender. Assim como ao entrar na universidade recebe-se o carnê da biblioteca, umas equipes novas nas empresas receberiam uma única ação por pessoa que garantisse o direito a emitir um voto em eleições abertas a todos os acionistas, nas quais se decidirão todos os assuntos da corporação: desde as questões de gestão e planejamento até a distribuição de lucros líquidos e bonificações”.

Está mais do que na hora de o Campo Democrático reinventar as suas formas de intervir na realidade, para melhor transformá-la.

O bom Papa Francisco

Morreu um homem bom, um homem com a coragem de mostrar a bondade e de lutar por ela: o Papa Francisco. Só espero que estas palavras, tão distantes do Vaticano, se diluam nas palavras de quem o conheceu. Acho que era este o espírito de Francisco: por que não?

Queria chegar a toda a gente — e chegou.

Sei de pessoas que ele trouxe para a Igreja Católica. Não era esse o dever dele? Cumpriu-o em beleza. Tornou a Igreja atraente — até como lugar onde as idéias se combatem, à procura da luz que só a discussão traz.

É um grande erro dizer que a Igreja não muda. Muda, mas devagar, com cuidado, com segurança, com respeito.

Francisco foi um humanista, um inovador e um espírito aberto, numa instituição que aprendeu a desconfiar dessas qualidades e a ser recompensada por essa desconfiança.

Conseguiu ser eleito e, uma vez eleito, teve a coragem e a honestidade de lutar dentro da Igreja, que é um sinal de confiança no futuro dela, para não dizer uma garantia.

Era um Papa insatisfeito, frustrado, desiludido pelo mundo. Mas não desistiu dele. Não se refugiou. Falou. Lutou. Enfrentou. Não se deixou consolar pela própria bondade. Não ficou deslumbrado. Não se inibiu. Não foi fingido.

Bem sei que os últimos papas, pelo menos desde João XXIII, têm sido todos muito bons. (Deveríamos estudar melhor o processo de eleição dos papas.) Mas este era mesmo diferente. Era do povo. Era da rua. Era um Francisco. Era um argentino. Era um dos nossos.

O fato de ter inimigos só diz bem dele. É esse o preço inevitável de lutar pela felicidade humana: é um preço que os inimigos dele também pagam.

Como é que um rebelde como o Francisco conseguiu ser eleito como Papa? O mérito é tanto dele como da própria Igreja.

Tudo tem sido muito bem conduzido. A imagem da Igreja como distante e ossificada tornou-se uma memória distante e ossificada.

O que o Papa Francisco nos trouxe foi isto: foi a felicidade. Foi a hipótese de felicidade, a esperança de felicidade.

É muito.
Miguel Esteves Cardoso

Suicídio coletivo

Se continuarmos golpeando a base dessa coluna instável sobre a qual estamos apoiados, a própria espécie humana estará ameaçada. No ano passado, emitimos 54,6 bilhões de toneladas de CO₂ equivalente na atmosfera, um aumento de quase 1% em relação ao ano anterior. A concentração atmosférica de CO₂ não só está aumentando, como está aumentando de forma cada vez mais acentuada.
Hugh Montgomery, diretor do Centro de Saúde e Desempenho Humano da University College London

Tarefas para nos salvar do extremismo

A extrema direita contemporânea é a força política mais perigosa do mundo desde o fim da União Soviética. No interior dos países, põe em risco a liberal-democracia e a garantia dos direitos humanos (especialmente dos grupos mais vulneráveis), ao mesmo tempo em que reduz a possibilidade de um pacto internacional baseado na cooperação geopolítica e no regramento multilateral do comércio. Os extremistas têm um projeto claro e não reduzirão suas pretensões se puderem passar como um trator sobre seus inimigos. Será necessário ter uma estratégia para enfrentá-los, alimentada por muita energia e comunicação.

Antes de examinar os elementos da estratégia contra a extrema direita, vale ressaltar a necessidade da energia e da comunicação. Um dos mais importantes cientistas políticos da história, o americano Robert Dahl, dizia que tão importante quanto a quantidade de apoio é a intensidade das preferências. Os extremistas não são a maioria no mundo, mas manifestam suas posições com máxima força, como um exército em nome de uma causa. Quem quiser combatê-los terá de igualar ao máximo esse ímpeto.


Um dos elementos que aumentam a intensidade de um movimento político é o papel das lideranças. Os líderes do extremismo contemporâneo, tais quais seus congêneres da década de 1930 (Mussolini e Hitler), sabem energizar parcela importante da população, que fica constantemente mobilizada. A luta contra a extrema direita precisará contar também com lideranças capazes de entusiasmar e inspirar a maioria das pessoas, para que elas resistam aos cânticos fascistas que têm ganhado cada vez mais força.

Só que não bastam lideranças fortes e inspiradoras para energizar os cidadãos pelo mundo afora. É fundamental lutar no campo dos valores. Aliás, foi isso que os ideólogos da extrema direita perceberam antes dos outros: a democracia tinha se tornado muito morna para grande parte da população e seria preciso dar um novo sentido à vida das pessoas. Descobrir quais ideias e sentimentos podem se contrapor com sucesso aos extremistas é uma das perguntas mais relevantes para os democratas responderem nos próximos anos.

Quaisquer estratégias que sejam escolhidas para combater o extremismo dependem, ademais, de boa comunicação. Este é outro terreno onde a vantagem está do lado da extrema direita. Em parte, por seus méritos de ter encontrado novas linguagens para lidar com o século XXI, marcadas pela rapidez dos enunciados, a escolha de poucas e fortes ideias a comunicar um modelo maniqueísta, além do uso intensivo da tecnologia.

Há uma outra parte nessa história, contudo. A vitória comunicativa da extrema direita está igualmente vinculada à forma como funcionam as principais redes sociais, dominadas por grupos monopolistas que produzem algoritmos capazes de delimitar fortemente o universo no qual nos comunicamos. A liberdade de escolha e de confronto é restrita num modelo tecnológico como esse, ao contrário do que pensam alguns analistas que ainda acreditam que a internet é uma ágora grega. Pior do que isso: a grande maioria dos donos das big techs não quer a democracia e, por isso, têm apoiado grupos extremistas e/ou a autocratas por meio da interferência nos próprios meios que comandam.

Juntando os dois pontos da batalha comunicativa, o desafio é adequar a comunicação às linguagens do século XXI e lutar contra o modelo que predomina hoje nas redes sociais. O desempenho no jogo comunicativo, no entanto, dependerá de conteúdos presentes nas estratégias contra a extrema direita.

A estratégia de enfrentamento do extremismo passa por cinco tarefas. A primeira é se contrapor às suas políticas, mostrando de forma clara e cotidiana os seus danos. É preciso realçar os erros cometidos nas políticas negacionistas, na saúde ou no meio ambiente, como ocorreu na época da covid-19 e depois arrefeceu com o passar do tempo - e agora crescem as mortes por sarampo nos Estados Unidos e poucos se levantam contra isso.

É imprescindível ressaltar o efeito perverso da destruição da administração pública, o que leva inexoravelmente ao enfraquecimento na oferta de serviços e bens públicos, como a redução do acesso dos mais pobres à educação ou ao sistema de seguridade social. Ainda, gritar bem alto contra a barbeiragem na política econômica trumpista, que não deve ser tratada nem como estratégia de negociação nem como mero capricho narcisista do presidente Trump. Sua origem e resultado advêm da fragilidade da extrema direita em produzir políticas públicas.

Eis um caminho central na estratégia de defesa da democracia: colar na extrema direita a imagem de incompetência que causa sofrimento em muita gente, com mortes, perdas de emprego e abandono. Trata-se de um mantra que deveria ser falado todos os dias por quem combate os extremistas.

A segunda tarefa dessa estratégia é fortalecer e acionar os mecanismos de “checks and balances” (freios e contrapesos) no controle dos governantes e partidos extremistas. A democracia precisa proteger a sociedade do arbítrio e se autoproteger de quem quer derrubá-la. Esse é um trabalho contínuo que envolve instituições políticas, como o Legislativo e o Judiciário, como também estruturas sociais, econômicas e internacionais que podem frear a insanidade totalitária do projeto da extrema direita.

Assim, organizações da sociedade civil, universidades, empresas, lideranças culturais do universo pop e até o papa devem ser mobilizadas continuamente porque os extremistas destroem o regime democrático como cupins (ou traças), comendo cada pedacinho dia após dia. Pode até haver um momento de tomada do poder como golpe, mas isso só ocorrerá se os diques democráticos forem rompidos muito tempo antes.

Entender a angústia de uma parcela enorme da população que tem acreditado e votado em lideranças de extrema direita, mas cujos valores não são extremistas, é uma terceira tarefa central na estratégia de combate ao extremismo. Houve muitas mudanças na sociedade contemporânea e novas carências surgiram. Obviamente é necessário ter políticas para combater a pobreza e as desigualdades no seu sentido mais clássico. Todavia, há preocupações concentradas em grupos que se sentem abandonados e ressentidos, bem como existem novas insatisfações difusas que precisam ser mais bem compreendidas. O trabalho aqui é de conversar mais com esses estratos populacionais e pensar em arranjos diferentes de intervenção estatal e/ou organização econômica.

Políticas públicas baseadas em evidências, boa governança e princípios humanistas constituem um quarto antídoto ao extremismo contemporâneo. A qualidade da gestão pública é um alicerce essencial, só que insuficiente se não for direcionado às demandas sociais que hoje não estão sendo respondidas pelo Estado e pelo modelo econômico. Melhorar a ação governamental, entregando os bens, direitos e serviços desejados pela população, é das maiores armas em prol da democracia.

O rol de tarefas se completa com a montagem de alianças amplas nos planos político e social. Não há uma maioria ou uma hegemonia prévia contra a extrema direita. A luta contra ela vai exigir muita articulação e diálogo entre grupos que não são do mesmo partido e/ou professam visões ideológicas com alguma diferenciação. Encontrar os interesses comuns, alimentar a tolerância e a capacidade de aprender com o outro são elementos centrais na construção de um bloco contra o extremismo, capaz de controlar governantes extremistas, de ganhar eleições e, sobretudo, de propor uma nova visão de futuro.

A luta contra o extremismo é, primeiramente, internacional, pois ele se espalhou pelo mundo e tem grande força em países muito relevantes na ordem mundial. Além disso, a dimensão global está no fato de que será necessário fazer alianças e criar modelos de cooperação entre as nações para resistir às políticas destruidoras montadas por governos de extrema direita. Do mesmo modo que houve Internacionais socialistas e hoje há uma Internacional ultradireitista (ou fascista), é preciso construir uma Internacional pela democracia, que seria caracterizada pela amplitude de forças que estão dentro dela, unidas contra as barbáries políticas contemporâneas.

A forma pela qual a extrema direita se expressa em cada país tem singularidades. Desse modo, o fortalecimento da energia e da comunicação antiextremista, bem como o cumprimento das cinco tarefas estratégicas listadas anteriormente, têm tonalidades diferentes em cada lugar. Seguindo essa linha de raciocínio, os democratas brasileiros precisam encontrar sua forma de atuação nesse processo de defesa da democracia e de um modelo justo e produtivo de desenvolvimento.

Muitas perguntas concluem essa reflexão olhando para o Brasil. Que lideranças podemos formar para lutar contra o extremismo? Quais valores podem se contrapor às ideias extremistas e conquistar mais corações e mentes dentro de um novo modelo de comunicação? Como construir políticas públicas capazes de aumentar a crença da população no sistema? De que maneira alianças políticas e sociais amplas e plurais podem se tornar mais perenes na luta contra a extrema direita, e não serem apenas um slogan de campanha? Uma resposta coletiva a tais questões é essencial para que o país não embarque no futuro em alguma aventura perversa e totalitária.

A revolução Francisco

No momento em que a fé dos cristãos se transformou em cristianismo — primeiro, quando ganhou o estatuto de religião oficial do Império Romano, depois com quatro concílios que combateram as heresias e definiram o essencial do credo cristão, nos séculos IV e V —, muito se ganhou e muito se perdeu. O que se ganhou foi a Igreja que chegou até aos nossos dias, com o seu imenso poder, a sua dimensão planetária e a sua capacidade disciplinadora. O que se perdeu, com frequência excessiva, foi a fidelidade à mensagem de Jesus e à letra dos Evangelhos, que são textos revolucionários sobre tesouros, campos, lírios e aves, mas também sobre espadas, espinhos, sangue e cruz, que nenhum catecismo consegue realmente domesticar.


Há, por isso, uma tensão histórica entre aquilo que são as parábolas de Jesus em estado natural e aquilo que são os dogmas disciplinadores da Igreja. As parábolas abrem o texto a múltiplas interpretações. Os dogmas tentam fechá-lo. Percebe-se porquê: não há instituições fortes sem regras claras; nem pode haver cristianismo sem ordem e uma doutrina vigiada. Infelizmente, com o correr do tempo, qualquer religião demasiado ordenada corre o risco de se petrificar, transformando-se numa mera manifestação cultural, estéril e ritualizada. O Evangelho de Mateus tem um excelente nome para isso: “Sepulcros caiados.” São “formosos por fora, mas por dentro cheios de ossos de mortos e toda a espécie de imundície” (Mt 23, 27). As pessoas vão à missa por hábito social, batizam-se e casam-se em cerimônias religiosas, mas sem estarem realmente comprometidas com a dimensão evangélica da Igreja. Esta dimensão nunca desapareceu ao longo de dois mil anos, mas por vezes tornou-se muito difícil encontrá-la, sobretudo entre as paredes do Vaticano.

Existe, por isso, um cristianismo cultural, que serve perfeitamente para algumas pessoas se agarrarem a ele enquanto reflexo do mundo que conhecem desde a infância e no qual desejam continuar a viver. E existe um cristianismo essencial, visceral, que se agarra às entranhas do Evangelho e procura levá-lo a sério. Jorge Bergoglio foi um cristão visceral. Escolheu em 2013 ficar com o nome de Francisco de Assis — uma daquelas figuras que ao longo da História obrigaram a Igreja a dar guinadas evangélicas no seu percurso — e o melhor que se pode dizer é que viveu 12 anos à altura do nome que elegeu.

Não se trata aqui de opor católicos conservadores a católicos progressistas e proclamar que Francisco era o inimigo n.º1 dos primeiros e o grande Papa dos segundos. Isso seria caricaturar o seu pontificado. Além de a dicotomia conservador/progressista só servir hoje para distrair dos maiores desafios da Igreja, convém notar que foi o conservador Bento XVI que teve a coragem de abdicar e que, ao humanizar o papado, abriu caminho à ascensão do progressista Francisco, um argentino leve, desbocado e cheio de humor.

Francisco foi a maior revolução na Igreja desde o Concílio Vaticano II, sem mudar a doutrina. O casamento homossexual não passou a ser permitido, nem as mulheres passaram a ser ordenadas. Mas Francisco mudou o olhar e o tom sobre as mulheres e sobre a comunidade LGBT graças à sua saudável obsessão com o “todos, todos, todos”. Ele não fez nada de mais, no sentido em que é impossível ler os Evangelhos e sair de lá a achar que a Igreja deve ser uma colecção de crentes engomadinhos. Mas ninguém foi tão inclusivo antes dele. Parecendo que não é nada, no que à fé cristã diz respeito é quase tudo.

quinta-feira, 24 de abril de 2025

A captura das polícias pelos discursos religiosos, conservadores e de extrema direita

A ascensão simultânea do neopentecostalismo e da extrema direita no Brasil inaugurou um ciclo inédito de sobreposição entre moral religiosa, militarismo e política de segurança. A interpenetração desses domínios tornou-se particularmente visível dentro das polícias, especialmente nas polícias militares estaduais, que concentram quase meio milhão de profissionais armados. Embora a presença de capelanias seja antiga, o que se observa desde meados dos anos 2010 é um salto qualitativo, não se trata apenas de prestação de assistência espiritual, mas de um processo de formação de identidade corporativa tutelado por pastores e líderes políticos que convertem valores confessionais em doutrina operacional e visão de mundo.

Diversos fatores favoreceram esse quadro. Primeiro, o pacote de políticas sociais provocado por restrições orçamentárias empurrou a segurança pública para o centro de debate eleitoral, criando terreno fértil para atores que prometem “resgatar” a ordem a qualquer preço. Segundo, a própria estrutura militar das polícias militares, hierárquica, fechada à sociedade civil e marcada por rituais de coesão, facilita que narrativas maniqueístas prosperem sem contestação interna. Terceiro, o bolsonarismo, ao amalgamar símbolos cristãos, nacionalismo e culto às armas, ofereceu um repertório pronto que passou por uma circular em grupos de WhatsApp institucionais, tornandose parte do cotidiano dos quartéis. A reportagem da revista Piauí sobre cultos e jejum de oficiais em batalhões é ilustrativa: ali, a tropa não se vê apenas como agente do Estado, mas como “escolhida” para uma guerra espiritual contra o mal encarnado no crime e, por extensão, em opositores ideológicos.


Esse fenômeno ganha densidade política quando se converte em votos. O Instituto Sou da Paz detectou um registro de candidaturas de policiais nas eleições municipais de 2024, movimento descrito como “policialismo eleitoral”. Esses candidatos chegam ao parlamento sob a promessa explícita de fortalecer a corporação, de flexibilizar regras de uso da força e de ampliar o porte de armas. O resultado é um círculo virtuoso para o conservadorismo, a lei, antes instrumento de limitação do poder policial, passa a ser moldada por quem carrega a mesma farda. No âmbito federal, as bancadas da bala e da Bíblia firmaram alianças que bloquearam projetos de controle de armamentos e engavetaram propostas de desmilitarização, evidenciando como a captura simbólica para transbordar a arena legislativa.

O estopim que tornou visível o perigo institucional foi o ataque golpista de 8 de janeiro de 2023. Relatórios do Gabinete de Segurança Institucional e da Polícia Federal descrevem tanta omissão quanto à conivência ativa de segmentos da Polícia Militar do Distrito Federal, alguns dos quais entoavam cânticos religiosos entre os invasores. A lacuna de comando naquele domingo foi revelada: quando a identificação ideológica se impõe sobre uma disciplina constitucional, a cadeia de autoridade civil se desfaz. A democracia depende, no limite, da conformidade das armas ao veredito das urnas; ao negarse a reprimir os golpistas, parcelas da tropa sinalizaram que autorizaram uma autoridade transcendental (Deus, pátria ou líder messiânico) acima do Estado laico.

No plano cotidiano, a captura se manifesta em práticas seletivas de policiamento. Estudos qualitativos com cadetes da Universidade de Brasília mostram que a figura do “inimigo” é construída com base em critérios morais: moradores de rua, usuários de drogas, defensores de diretrizes identitárias ou religiões afro-brasileiras são percebidos como ameaças não apenas legais, mas espirituais. O passo seguinte é o afrouxamento do filtro da legalidade — se o oponente é visto como demoníaco, a violência letal se converte em exorcismo. Não surpreende, portanto, que os três estados com maior proporção de policiais evangélicos (Rio de Janeiro, Goiás e Pará) apresentem altos índices de letalidade policial, ainda que fatores socioeconômicos também concorram para explicar o quadro.

A literatura internacional sobre securitização moral fornece lentes úteis para compreender esses processos. Buzan, Wæver e de Wilde (1998) demonstram que, ao transformar um tema em ameaça existencial, o Estado legitimará medidas protetoras. No Brasil, a moral evangélica faz esse papel: crimes contra a família, contra “pessoas de bem” ou contra “valores cristãos” são elevados a categoria de anomia total, justificando o emprego ilimitado da força. À securitização somase o populismo punitivo, conceito que articula a noção de justiça à antipolítica. O policial deixa de ser mero executor da lei e tornase o braço armado do “senso comum honesto”, dispensando intermediação judicial. Portanto, não apenas o uso ampliado das armas, mas a recusa crescente dos mecanismos de controle externo, sejam corregedorias, ouvidorias ou Ministério Público e até mesmo o uso de câmeras corporais.

A captura religiosa, entretanto, não se esgota no discurso. Ela inclui infraestruturas institucionais que avançam sobre a laicidade. Em 2021, o Ministério da Justiça inaugurou o programa “Assistência Espiritual para Profissionais de Segurança Pública”; o objetivo era o “cuidado integral da alma do guerreiro”, linguagem que rompe a neutralidade republicana para abraçar uma visão messiânica da função policial. Além de boinas e bíblias, as viagens passaram a ostentar adesivos com versículos; em redes sociais, oficiais orgulham-se da “racha de Satanás” promovida por suas operações. Muito antes de se institucionalizar, porém, o ideário já circulava em vídeos de funk gospel que retratam policiais fardados invocando “o sangue de Jesus” antes de entrar na favela. Esse imaginário performativo cimenta laços de solidariedade entre fé e farda, tornandoos quase indissociáveis ​​aos olhos da tropa e da comunidade religiosa de origem.

A convergência com a extrema direita opera em três níveis. No simbólico, ambos unidos a retórica do “nós versus eles”, fortalecendo a gramática do inimigo interno. No programático, defendem agendas de persistência penal, armamentismo e combate a temas tidos como “ideologia de gênero”. Não organizacional, articula campanhas políticas e redes de financiamento que abastecem templos, influenciadores e associações de classe. O resultado é uma rede de poder que combina capital religioso, eleitoral e bélico, capaz de obstruir qualquer tentativa de reforma que ameace sua hegemonia. 


Os efeitos sobre a democracia são profundos. Ao se infiltrar em organizações dotadas de monopólio de violência legítima, esse movimento minimiza o custo de contestar decisões civis. Não se trata mais de lobby tradicional, mas de potencial veto armado a políticas que frustram sua visão moral do mundo. A política deixa de ser espaço de negociação para se converter em arena de redenção e, como recorda Carl Schmitt, quem define o inimigo decide sobre a exceção. No Brasil de 2025, as audiências públicas sobre câmeras corporais evidenciaram a dificuldade de implantação de sistemas de supervisão imparciais, associações policiais evocam “autonomia de culto” para emitir sensores que captem áudio enquanto repetem slogans bolsonaristas contra “advogados de bandidos”.

Vencer esse impasse exige estratégias multissetoriais. A primeira é fortalecer os controles externos independentes, cegos contra a pressão corporativa. A segunda envolve redirecionar a formação policial para uma ética laica de direitos humanos, na qual liberdade religiosa seja direito individual e não diretriz institucional. A terceira passagem pela diversificação interna: mulheres, negros e não cristãos precisam ocupar posições de comando para romper a homogeneidade ideológica que facilita uma captura. Há experiências de polícia comunitária em Pernambuco e no Ceará, capitaneadas por oficiais civis, reduziram a letalidade sem sacrificar autoridade, provando que a profissionalização não enfraquece a corporação, mas ela lhe devolve legitimidade.

No plano cultural, é preciso disputar narrativas nas mesmas plataformas onde a captura avança. Projetos audiovisuais que retratem policiais defendendo a Constituição e não podem o “pecado zero” ressignificar heroísmos. Iniciativas de mediação comunitária que envolvem terreiros, coletivos LGBTQIA+ e conselhos de segurança ampliam o repertório ético da tropa, mostrando que a função policial é proteger a pluralidade democrática, não um conjunto particular de valores.

Nada disso, contudo, surtirá efeito sem vontade política de alto nível. As eleições de 2026, já anunciadas como plebiscito entre continuidade e ruptura, colocarão o tema no centro do debate público. Se as forças conservadoras lograrem ampliar a bancada armada, uma janela de oportunidade para reformas pode fecharse por uma geração. Em contrapartida, uma coalizão democrática capaz de unir partidos de centro-esquerda, movimentos sociais e parcelas da sociedade civil religiosa comprometida com os direitos humanos talvez reabra o caminho para a desmilitarização tão adiada.

A cooptação das polícias brasileiras por discursos religiososconservadores e de extremadireita não tem representação periférica, mas é um epicentro de riscos à democracia. Quando as armas se unem às convicções de salvação e ao populismo punitivo, o projeto republicano de neutralidade se desfaz, e o Estado se transforma em instrumento de cruz moral. Se a sociedade não reagir com firmeza, poderemos observar a consolidação de um complexo policialreligiosoautoritário que, sustentado por legitimidade eleitoral e amparo espiritual, minará as instituições por dentro. O Brasil já provou em 2023 quão frágil pode ser a linha que separa a ordem democrática de aventura golpista. Evitar que essa experiência se converta em norma histórica depende, em última instância, de nossa capacidade de resgatar a laicidade, democratizar a segurança pública e reafirmar que, em uma república, não há espada que pese mais do que a soberania civil.
Roberto Uchôa

Um Papa para humanizar os migrantes diante de Trump

O Papa Francisco morreu. Ele foi o primeiro Papa latino-americano, o 266º desde o apóstolo São Pedro, que deu seu nome à Basílica que preside o Vaticano, a cidade-estado que serve como sede papal. Francisco, como gostava de ser chamado, chegou como uma lufada de ar fresco para muitos: humilde, carismático e com uma grande capacidade de se conectar com as pessoas, talvez semelhante à de João Paulo II na história recente.

Francisco não estava isento de controvérsias, assim como a Igreja que ele liderou por 12 anos. Em muitas ocasiões, setores tradicionais o acusaram de ser muito progressista por suas posições em relação à comunidade LGBTQI+ (“Quem sou eu para julgar?”, disse ele), por suas críticas a certas práticas “capitalistas” — sem ser um anticapitalista no estilo de Marx ou outros teóricos ou políticos radicais — ou pelo papel mais proeminente das mulheres dentro da Igreja. Apesar de suas opiniões liberais, nos Estados Unidos, um país bastante conservador, 78% dos católicos têm uma imagem favorável dele, de acordo com uma pesquisa realizada em fevereiro pelo Pew Research Center.

Ele também não teve vida fácil com os abusos do clero, especialmente o abuso sexual . Francisco buscou uma abordagem mais transparente e tomou medidas legais e disciplinares. A expulsão do poderoso cardeal Theodore McCarrick por “solicitação do Sacramento da Confissão e pecados contra o Sexto Mandamento com menores e adultos, agravados por abuso de poder” é um exemplo visível, assim como a dissolução do Sodalício de Vida Cristã, uma organização peruana acusada de abuso físico, sexual e financeiro. Apesar de sua abertura, alguns críticos de Francisco consideram suas medidas muito tímidas e de escopo muito limitado.


A queda no número de candidatos ao sacerdócio era outra de suas dores de cabeça. Esse fenômeno, que não é novo, tem forçado o fechamento de muitas paróquias, obrigando cada padre a cuidar de congregações cada vez maiores e impactando as finanças da Igreja. De acordo com um estudo de Jay Doherty e Patrick Cullinan, da Universidade Fordham, o número de padres católicos somente nos Estados Unidos caiu de 60.000 em 1965 para 35.000 em 2022, enquanto a população do país cresceu em 100 milhões. Simplesmente não há candidatos suficientes, e aqueles que aparecem o fazem mais tarde.

Em contraste, o número de católicos aumentou em 16 milhões em 2020, atingindo cerca de 1,36 bilhão de fiéis, de acordo com dados do Vaticano. Com isso, 17,7% da população mundial seria católica, sendo 48% localizada em nosso continente e 28% somente na América do Sul.

Os Estados Unidos são o quarto país em número de católicos, depois do Brasil, México e Filipinas. Desde 2014, essa porcentagem gira em torno de 20%, de acordo com o Pew. Por raça, os brancos estão diminuindo e os hispânicos estão aumentando: 54% dos católicos nos Estados Unidos são brancos, 36% são hispânicos, 4% são asiáticos, 2% são negros e 2% são de outras raças. Entretanto, desde 2007, o número de brancos caiu 10% e o número de hispânicos aumentou 7%.

E os imigrantes? Segundo o Pew, 29% dos católicos nos Estados Unidos são imigrantes e 14% são filhos de imigrantes. Cinquenta e oito por cento dos católicos hispânicos nasceram fora dos Estados Unidos, e 22% têm pelo menos um dos pais nascido no exterior. Em contraste, 83% dos católicos brancos vêm de famílias que estão nos Estados Unidos há três ou mais gerações.

Em termos de filiação política, cerca de metade dos católicos são eleitores registrados; 53% são republicanos e 47%, democratas. Os brancos, por sua vez, tendem a ser republicanos, com 61% contra 36% se identificando como democratas. Entre os latinos, a situação é oposta: 56% inclinam-se para os democratas e 39% para os republicanos.

O último líder político global com quem Francisco se encontrou, por alguns minutos e algumas horas antes de sua morte, foi o vice-presidente republicano JD Vance , um católico devoto que se converteu há alguns anos e foi batizado em 2019. Eles não conversaram muito. Mas Francisco estava preocupado com as políticas de imigração e deportações em massa de Washington, a tal ponto que não faltaram atritos recentes entre os Estados Unidos e a Igreja Católica, que tem a maioria de seus paroquianos na América Latina e é a religião mais difundida nos Estados Unidos. Assim como em outros países, o clero pode desempenhar um papel nos Estados Unidos que não impedirá que as políticas de Washington sejam implementadas (nem é esse o papel deles), mas pode torná-las mais humanas para os afetados. O católico Vance, junto com seu colega e correligionário Marco Rubio, poderia ajudar a fazer isso acontecer.

A mente humana é muito forte, e a morte de Francisco pode ser uma prova disso. Ele esteve “na vanguarda” até o fim e, apesar de sua saúde debilitada, deu sua bênção na missa de Páscoa, poucas horas antes de sua morte. Como se pretendesse ver seus paroquianos celebrando a ressurreição de Jesus Cristo pela última vez, antes de “retornar à casa do Pai”, como anunciou o camerlengo do Vaticano, o cardeal irlandês-americano Kevin Joseph Farrell, que também será um dos candidatos à sucessão de Francisco. E em sua última aparição no Domingo de Páscoa, o Santo Padre defendeu os direitos dos migrantes e outros grupos vulneráveis.

A responsabilidade do conclave que se reunirá é, portanto, imensa. O próximo Papa deve garantir que a Igreja Católica seja uma força positiva e unificadora na sociedade, navegando em um mundo dividido, cheio de incerteza e intolerância, com lacunas sociais e econômicas cada vez maiores. Um mundo que, além disso, está cheio de líderes políticos de todos os tipos que se veem como mensageiros de Deus e acreditam ser portadores da verdade revelada.

Paz no túmulo de Francisco.

O bom humor de Francisco

"O senso de humor é um certificado de sanidade", disse há tempos o papa Francisco. "Há mais de 40 anos rezo para pedir senso de humor. [Peço a] São Thomas More [1478-1535, humanista do Renascimento, autor da "Utopia", decapitado por Henrique 8º por sua fidelidade à Igreja Católica e canonizado como mártir], um grande homem. Coloquei essa oração na nota 101 de ‘Gaudete et Exsultate’ [‘Alegrai-vos e Exultai’, de 2018, exortação apostólica de Francisco pela santidade no mundo atual], caso alguém queira vê-la. Nela, pedimos ao Senhor a capacidade de sorrir, de rir. De ver o lado ridículo das coisas e [também] o não ridículo, para aprender que a vida sempre tem algo para se sorrir."


"A oração", continuou Francisco, "começa muito bonita: ‘Dá-me, Senhor, uma boa digestão e algo para digerir’ [risos]. Já começa com senso de humor, e gosto disso. O senso de humor humaniza. Humaniza muito. Pessoas que não têm senso de humor são chatas, chatas até consigo mesmas [risos]. Aconteceu comigo, no meu trabalho sacerdotal, de certa vez aconselhar a alguém: ‘Olhe-se no espelho e ria de si mesmo’. Mas foi muito difícil para ele, porque lhe faltava essa capacidade de humor. Veja bem, o que estou dizendo não é muito dogmático. É um pouco de sabedoria de vida que me ensinaram, e tento ajudar os outros com isso".

Foi uma entrevista de Francisco à repórter Bernarda Llorente, da agência argentina de notícias Télam. A Télam foi fechada em 2024 por Javier Milei, mas o vídeo está disponível no app da TV Brasil.

Rosto, gestos e palavras de Francisco transpiravam humor. Com todo respeito, sempre o achei fisicamente parecido com Stan Laurel, o Magro da dupla O Gordo e o Magro, um dos cômicos mais humanos do cinema —sujeito às maldades do Gordo, Oliver Hardy, mas sempre vencedor no fim, por sua resistência pacífica.

Assim como Milei, também Trump e Bolsonaro nunca acharam graça em Francisco. Ele os irritava, porque enxergava neles o não ridículo — o insano, o desumano, o não cristão.

O mundo fake de Bolsonaro não tem limites. Quem quiser, acredite nele

Duvide sempre de tudo o que Bolsonaro faz ou diz. Ele vive num mundo de fantasia onde o que parece ser nunca é. Ou dito de outra maneira: onde quase tudo é fake.

Uma vez operado por causa de uma obstrução intestinal, no dia seguinte, em situação deplorável, ele foi filmado tentando caminhar em um corredor do hospital DF Star, em Brasília.

Quem acessou o vídeo, postado nas redes, certamente sentiu pena dele. Poucas horas depois, outro vídeo o mostrou caminhando com razoável rapidez amparado apenas em sua mulher.

Fato ou fake? O primeiro vídeo ou o segundo?

Na véspera da Quinta-feira Santa, quando Jesus lavou os pés dos seus discípulos antes de cear com eles, Michelle Bolsonaro ajoelhou-se diante do marido e massageou seus pés.

Fato ou fake? Ou, digamos, mera coincidência?

Diariamente, o hospital divulgava um boletim sobre o estado de saúde de Bolsonaro. Parou de divulgar. Ora, Bolsonaro é um homem público. A informação é de utilidade pública.

O último boletim dizia que Bolsonaro passava bem, mas seguia internado na UTI, sem previsão de alta e proibido de receber visitas. Neste dia (21), Bolsonaro concedeu uma entrevista ao SBT.


No mesmo dia, participou de uma live junto com seus filhos Flávio, Carlos e Eduardo para impulsionar as vendas de um capacete recém-lançado a preços módicos. Negócios são negócios.

Os Bolsonaro não fabricam capacetes. Eles se associaram a uma empresa que os fabrica. Emprestam seu prestígio. E repartem o lucro com o fabricante. Vez em quando, leiloam um capacete.

No dia 22, Bolsonaro recebeu no hospital a visita de Valdemar Costa Neto, presidente do PL. Conversaram por uma hora e meia sobre o projeto de anistia para os golpistas do 8 de janeiro.

“Saí de lá muito feliz ao ver que a cada dia ele está melhor”, disse Costa Neto a jornalistas. “A conversa foi ótima. Estou na torcida pela recuperação total e o mais rápido possível”.

Quem é capaz de conceder entrevista direto de uma UTI, participar de uma live para vender capacetes e acolher ali visitantes, pode recepcionar um oficial de justiça direto de uma UTI.

“O oficial botou o pé na porta da UTI”, anunciou Bolsonaro, ontem (23). Se lida literalmente a frase, a oficial, a mando do Supremo Tribunal Federal, empurrou a porta para forçar a entrada.

Fake. Fake. Fake.

A oficial pediu para ser atendida. Sua missão: intimá-lo da abertura do processo penal sobre a trama golpista de dezembro de 2022. Bolsonaro mandou-a entrar.

Equipe de filmagem a postos, antes de assinar a intimação, Bolsonaro discursou por cerca de 11 minutos. Criticou Alexandre de Moraes, falou sobre as próximas eleições e disse à oficial:

“Você só está cumprindo ordem, mas as pessoas dos tribunais do Hitler também cumpriram: colocavam judeus na câmara de gás. Todas pagaram seu preço. Não vai ser diferente no Brasil”.

Enquanto falava com a oficial de Justiça, uma pessoa, não se sabe quem, entrou em cena para dizer a Bolsonaro que sua pressão subira. Nenhum médico confirmou o aumento de pressão. Fake.

No início da noite, à porta do hospital, o Padre Kelmon, que se diz padre e que concorreu à Presidência em 2022 com a pretensão de ajudar Bolsonaro a se reeleger, celebrou uma missa… fake.

Kelmon foi ligado a uma tal de Igreja Ortodoxa do Peru. Depois, à Igreja Ortodoxa Grega da América e Exterior. É dono em Brasília de uma loja de produtos religiosos. (Melhor verificar a procedência.)

O mundo de Bolsonaro é de outro mundo.

quarta-feira, 23 de abril de 2025

Pensamento do Dia

 


O último texto

Li com emoção estas páginas nascidas do pensamento e do afeto de Angelo Scola, querido irmão no episcopado e pessoa que desempenhou serviços delicados na Igreja, como ter sido reitor da Pontifícia Universidade Lateranense, depois patriarca de Veneza e arcebispo de Milão. Antes de tudo, quero expressar a ele toda a minha gratidão por esta reflexão que une experiência pessoal e sensibilidade cultural como poucas vezes tive a oportunidade de ler. Uma, a experiência, ilumina a outra, a cultura; a segunda dá substância à primeira. Nesse entrelaçamento feliz, a vida e a cultura florescem em beleza.

Não se deixe enganar pela forma breve deste livro: são páginas muito densas, para serem lidas e relidas. Das reflexões de Angelo Scola, colho algumas passagens que ressoam particularmente com aquilo que a minha própria experiência me levou a compreender.

Angelo Scola nos fala da velhice, da sua velhice, que – ele escreve com um toque de desconcertante sinceridade – 'caiu sobre mim com uma aceleração repentina e, em muitos aspectos, inesperada'.

Já na escolha da palavra com que se autoidentifica, 'velho', encontro uma afinidade com o autor. Sim, não devemos ter medo da velhice, não devemos temer abraçar o envelhecer, porque a vida é a vida, e adoçar a realidade significa trair a verdade das coisas. Restituir orgulho a um termo muitas vezes visto como pejorativo é um gesto pelo qual devemos ser gratos ao cardeal Scola. Porque dizer 'velho' não significa 'descartável', como às vezes uma cultura degradada do descarte nos faz pensar. Dizer velho, ao contrário, é dizer experiência, sabedoria, discernimento, ponderação, escuta, lentidão... Valores dos quais precisamos urgentemente!

É verdade, envelhecemos, mas esse não é o problema: o problema é como envelhecemos. Se vivemos essa etapa da vida como uma graça, e não com ressentimento; se acolhemos esse tempo (ainda que longo) em que experimentamos forças reduzidas, o cansaço físico crescente, os reflexos já não iguais aos da juventude, com um senso de gratidão e reconhecimento, então, a velhice também se torna uma etapa da vida, como nos ensinou Romano Guardini, realmente fecunda e capaz de irradiar o bem.

Angelo Scola destaca o valor humano e social dos avós. Já ressaltei várias vezes como o papel dos avós é fundamental para o desenvolvimento equilibrado dos jovens e, em última análise, para uma sociedade mais pacífica. Porque seu exemplo, suas palavras, sua sabedoria podem inspirar nos mais jovens um olhar mais amplo, a memória do passado e o apego a valores duradouros. Em meio à correria das nossas sociedades, muitas vezes voltadas para o efêmero e para o gosto doentio pela aparência, a sabedoria dos avós torna-se um farol que brilha, ilumina a incerteza e dá direção aos netos, que podem tirar da experiência deles um 'algo a mais' para sua vida cotidiana.

As palavras que Angelo Scola dedica ao tema do sofrimento, que muitas vezes se instala com o envelhecer, e consequentemente à morte, são joias preciosas de fé e esperança. Na argumentação deste irmão bispo, ouço ressoar a teologia de Hans Urs von Balthasar e de Joseph Ratzinger, uma teologia 'feita de joelhos', imersa em oração e diálogo com o Senhor. Por isso, disse há pouco que estas são páginas nascidas do 'pensamento e do afeto' do cardeal Scola: não apenas do pensamento, mas também da dimensão afetiva, aquela à qual a fé cristã remete, pois o cristianismo não é tanto uma ação intelectual ou uma escolha moral, mas, sim, o afeto por uma pessoa, aquele Cristo que veio ao nosso encontro e decidiu nos chamar de amigos.

É justamente a conclusão destas páginas de Angelo Scola, que são uma confissão de coração aberto de como ele está se preparando para o encontro final com Jesus, que nos devolve uma certeza consoladora: a morte não é o fim de tudo, mas o começo de algo. É um novo começo, como sabiamente destaca o título, porque a vida eterna – que quem ama já experimenta aqui na terra em meio às ocupações do dia a dia – é o começo de algo que não terá fim. E é exatamente por isso que é um começo 'novo': porque viveremos algo que nunca vivemos plenamente – a eternidade.

Com estas páginas nas mãos, gostaria idealmente de repetir o mesmo gesto que fiz assim que vesti o hábito branco de Papa, na Capela Sistina: abraçar com grande estima e afeto o irmão Angelo, agora ambos mais velhos do que naquele dia de março de 2013. Mas sempre unidos pela gratidão a esse Deus amoroso que nos oferece vida e esperança em qualquer idade da nossa existência.

Cidade do Vaticano, 7 de fevereiro de 2025".

Papa Francisco em prefácio para o livro do cardeal Angelo Sola, arcebispo emérito de Milão, “Na espera de um novo começo. Reflexões sobre a velhice”.

Trump e os perigos para o mundo

Uma das leituras mais impressionantes dos últimos dias foi ado artigo que Martin Wolf publicou no jornal britânico Financial Times, do qualé o principal comentarista econômico. O título causa impacto: “The economic consequences of a mad king ”( o jornal Valor Econômico reproduziu o artigo em português ). O “rei louco” é referência direta ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

Wolf relembra trechos do artigo que escreveu em junho do ano passado, sobre os então candidatos à Presidência dos Estados Unidos, Joe Biden (que só no mês seguinte desistiria da candidatura em favor de Kamala Harris) e Donald Trump. “Biden pode ser velho. Mas Trump é louco e, infelizmente, não é um louco divertido. É um louco perigoso. Os instintos de Trump são também os de um ditador”, escreveu no ano passado. Agora na Presidência da nação econômica e militarmente mais poderosa do mundo, Trump age como o rei louco do título.


Na opinião de Wolf, “o que está acontecendo hoje nos Esta dos Unido sé dei mportância histórica e também de importância global, porque está em jogo a sobrevivência dos limites ao exercício arbitrário do poder”. Para o comentarista britânico, as guerras comerciais que Trump iniciou (guerras, porque é uma contra cada um dos demais países do mundo) mostram os perigos envolvidos nessa decisão. Em poucos dias, Trump anunciou sobretaxas para as importações originárias de todos os demais países, alguns com alíquota de mais de 30%, voltou atrás e reduziu temporariamente a alíquota para 10%, masa elevo upara a China, que respondeu com igual medida. Até agora, as tarifas praticamente impedem o comércio entre as duas maiores economias do mundo.

O objetivo declarado de T rum pé fazer crescera indústria de seu país, que vem perdendo espaço para a produção de manufaturados de outras partes do mundo. “Ninguém em sã consciência pode acreditar que isso levará à industrialização dos Estados Unidos”, advertiu Martin Wolf. “Na verdade, o resultado será uma paralisação dos negócios, o aumento dos preços e a desaceleração da economia.”

É claro, como bem observou Celso Ming em sua coluna Ora, o declínio da globalização... ( Estadão, 18/04, B2), que são apressadas as interpretações segundo as quais a globalização “está em inexorável retração”. Não está. Mas também é claro, como mostraram relatórios recentes da Conferência das Nações Unidas para Comércio e Desenvolvimento (Unctad) e da Organização Mundial do Comércio (OMC), que a guerra de tarifas deflagrada por Trump afeta as trocas comerciais.

Trump abriu muitas outras guerras. Em nome de “fazer a América grande novamente”, ele quer destruir todas as organizações multilaterais criadas no fim da Segunda Guerra Mundial e que, nas últimas oito décadas, vêm assegurando a relativa paz no planeta, a expansão do comércio mundial, a redução da pobreza e o crescimento. Todas, segundo ele, estão a serviço de inimigos dos Estados Unidos. E Trump está enfraquecendo os acordos militares que Washington conclui nos últimos anos, especialmente na Europa.

Com a colaboração essencial do bilionário Elon Musk, Trump vem desativando algumas das principais organizações norte-americanas com atuação mundial. São elas que, desde o fim da Segunda Guerra, asseguram a presença dos Estados Unidos em grande número de países, com ações de ajuda econômica e social, apoio ao desenvolvimento de países pobres e outras iniciativas. O poder político norte-americano dependeu em boa parte dessas ações.

Nas ú l t i mas s e manas, Trump concentrou sua fúria demolidora contra universidades norte-americanas, exigindo delas ações que agradem à Casa Branca em questões como o tratamento de questões ligadas a escolhas sexuais e as ações militares de Israel na Faixa de Gaza. A Casa Branca vem tentando impor às universidades exigências que implicam danos à liberdade acadêmica e à independência indispensável para a pesquisa e a produção do conhecimento. A resistência da Universidade Harvard a suas imposições talvez o tenha surpreendido. E pode levar outras universidades a rejeitar as intromissões do governo em sua liberdade acadêmica.

Nos últimos dias, Trump decidiu atacar o Federal Reserve Board (Fed), o banco central americano, e vem procurando meios para destituir seu presidente, que tem mandato fixado por lei. Não se trata de criticar decisões da autoridade monetária do país, mas de intervir com mão forte em sua direção.

“Déspotas imprevisíveis geram desperdício, medo e incerteza generalizada”, observou Martin Wolf. “As guerras comerciais voláteis de Trump e a demolição do sistema comercial global estão mostrando isso em tempo real.”

O poder absoluto não pode ser confiado a ninguém, menos ainda a demagogos, diz o articulista do Financial Times. “As pessoas que apoiaram Trump deveriam saber que, totalmente liberado, ele inevitavelmente semearia o caos.” E suas políticas prenunciam esse caos.

Como discordar?

A vontade dos homens e a vontade das leis

Num tempo distante em que políticos de Minas eram admirados pela virtude e a sabedoria, o governador Milton Campos, pressionado por seu partido para instrumentalizar o governo em seu benefício político, resistiu dizendo que ao governo dos homens preferia sempre o governo das leis. Na linguagem da política moderna estava dizendo que a força das instituições deveria prevalecer sobre a vontade dos homens.

A democracia e a economia de livre mercado combinadas produziram o período de maior progresso e maior liberdade em toda a história da humanidade. Não foi um tempo em que grandes homens faziam a história apenas com a sua vontade. Foi um tempo em que instituições políticas e econômicas impessoais asseguraram um ambiente de segurança jurídica e previsibilidade econômica, no qual empresas e pessoas puderam prosperar e cooperar.

Um dos grandes pensadores de nosso tempo, o filósofo austríaco Karl Popper, afirmava que a democracia não tinha o poder de garantir que só os melhores e os mais capazes seriam escolhidos para governar, mas para sobreviver a democracia teria que ter os meios e os instrumentos para impedir que maus governantes pudessem fazer ao país males irremediáveis. Nos Estados Unidos e na Europa esta regra prevaleceu por muito tempo. Aqui na América Latina e também na Ásia as instituições não se desenvolveram com a mesma potência e a maldição dos salvadores da pátria e dos “pais dos pobres” com frequência arruinaram a economia, mataram a liberdade e chegaram a alimentar uma cultura populista que envenenou para sempre alguns países. Isto talvez explique um pouco porque nossos países ficaram para trás.


Por razões que variam de país a país, o prestígio da democracia liberal em todo o mundo está em recessão. Numa volta a um passado que julgávamos sepultado estamos assistindo ao crescimento das democracias iliberais, não fossem os dois termos tão contraditórios entre si. Estas chamadas democracias tem eleições regulares, mas não há separação dos poderes, nem garantia dos direitos individuais e a lei que prevalece é a vontade do governo. Podem muito bem ser chamadas de ditaduras disfarçadas.

O avanço desses arranjos iliberais parece irrefreável. O caso da vez é nada menos que os Estados Unidos, o grande modelo de democracia resistente ao tempo, na verdade a mais antiga das modernas democracias, que parecia a todos constituída para durar sempre. De repente, sem nenhuma pactuação institucional com o Parlamento ou a Justiça, o Presidente converteu-se por iniciativa própria em um verdadeiro monarca absoluto. Governa por ordens executivas, sem consulta ao Congresso ou submissão ao Judiciário, sem nenhuma oposição dos demais Poderes e com a aparente concordância de parcela importante da população. Na contramão da advertência de Popper, está tomando decisões que afetarão irremediavelmente o destino futuro do seu país. As instituições cederam à vontade dos homens e a democracia americana está sendo derrubada sem resistência, tal como foi um dia derrubado o Muro de Berlim, numa suprema ironia da história.

Entre nós no Brasil as instituições e as leis nunca tiveram o prestígio que necessitam para serem efetivas. Sofremos da tentação irresistível dos personalismos. Nunca tivemos partidos de verdade, sempre tivemos personalidades. Ainda agora nossa vida política se resume ao confronto entre dois homens praticamente sem ideias, a cujos caprichos todos se curvam. Em um campo está nosso Presidente, exercendo seu terceiro mandato e aspirando a um quarto, apesar da idade e do vazio de seu governo, que anunciou candidamente na última terça feira que o ano de 2027 será o de um desastre fiscal.

No outro campo, Bolsonaro, embora inelegível, mantem paralisados todas as demais possibilidades eleitorais, pela submissão dos possíveis candidatos a uma liderança sem ideias ou projetos de mudanças.

Em todos os campos de atividade nosso país tem homens e mulheres de alto nível, capazes de competir em qualquer lugar do mundo. Por que só na política falta talento, virtude e mentes criativas?

O desafio aponta o caminho

Foi o tema da semana nas manchetes, posts e editoriais: a trágica morte de uma menina de 8 anos no DF, por um desafio de internet. Ela aspirou o aerossol de um desodorante. Há um mês, em Pernambuco, outra menina de 11 anos já tinha perdido a vida da mesma forma.

Segundo o Instituto DimiCuida, ao menos 56 crianças e adolescentes morreram ou se feriram nos últimos dez anos por causa de jogos e desafios como sufocamento, asfixia, ingestão de detergente, atear fogo ao corpo, automutilação e outros.

Crianças e adolescentes não têm discernimento suficiente para entender os riscos desses procedimentos. Mas o ódio nas redes é tanto que o comentário mais comum é “seleção natural”. Culpam também os que mais sofrem pela tragédia: pais e avós. Existe, sim, negligência, mas muitas famílias desconhecem os riscos, acham que Tiktok pode ser brinquedo de criança. Por isso é tão importante disseminar o conhecimento sobre os perigos do ambiente digital.


Albert Einstein disse: “A ciência nos deu meios terríveis de destruir uns aos outros, mas não a sabedoria e a ética para impedir que os utilizássemos”. A humanidade enfrenta esse paradoxo em cada salto tecnológico — e a internet talvez seja o maior deles.

Ela se tornou em grande parte um território perigoso. Máquinas viciantes que priorizam lucros sobre direitos e bem-estar, as redes sociais minam o tecido democrático, disseminam conteúdos tóxicos, fake news, ódio e todo tipo de crimes. A mesma tecnologia que permite a uma criança acessar o conhecimento humano também pode levá-la ao sofrimento ou ao perigo extremo.

O problema é coletivo, e as soluções também serão. Já é quase consenso no Brasil que o excesso de vida digital está fazendo mal a todos nós. A reação já começou e está se acelerando nos últimos meses. O banimento do celular nas escolas foi um grande passo.

Educação midiática é fundamental. As famílias precisam saber da importância de postergar a entrega do celular e a entrada nas redes sociais, ao menos até o fim do ensino fundamental. Precisam supervisionar, garantir o respeito ao estudo, sono, leitura, esporte e convívio com pares. Educadores e familiares precisam ajudar os jovens a entender os riscos do algoritmo, a respeitar o próximo, a desenvolver pensamento crítico sobre o conteúdo tóxico.

Para isso temos o Guia sobre Uso de Dispositivos Digitais, recém lançado pelo governo federal, e iniciativas do MEC para capacitar professores e inserir a educação midiática no currículo.

Precisamos também de cidades amigáveis, que estimulem todas as famílias a levar os filhos para a praças e parques, para a cultura, o esporte e o livre brincar.

É urgente a regulamentação do ambiente digital. Não podemos mais aceitar que plataformas lucrem com a disseminação de crimes e conteúdos perigosos. Como escreve Maria Mello, do Instituto Alana, “precisamos de modelos que respeitem os direitos humanos, que priorizem a vida... e que se comprometam, de forma concreta, com a construção de uma internet justa, segura e democrática.”

Só podemos alcançar isso pela lei. O PL 2628 visa proteger crianças e adolescentes no ambiente digital, responsabilizando plataformas pelo dever de cuidado, por retirar conteúdos nocivos, exigir verificação etária e dar limites a publicidade infantil. Para aprová-lo, será preciso superar o discurso mentiroso de “censura e ameaça a liberdade de expressão” da extrema direita.

O Ministério da Justiça trabalha para adaptar a classificação indicativa ao mundo digital, e anunciou a criação de um aplicativo para impedir acesso a plataformas que produzem conteúdo impróprio.

São nossas escolhas que vão determinar o impacto da tecnologia digital. Cabe a nós enfrentarmos os interesses poderosos e lutar pela vida de nossos filhos. Podemos ser um exemplo para o mundo.

Harvard resistirá

Nasci numa família amazonense que “se mudou” para Niterói. Cresci ouvindo exclusivamente português. Na varanda da casa do Ingá, em Niterói, meus tios discutiam política debaixo de um cauteloso silêncio de vovô, que foi desembargador, e de meu pai. Eram funcionários públicos e getulistas. Meus pais choraram muito quando Vargas cometeu seu suicídio de honra.

O mundo era grande. Na nossa casa de classe média não havia livros; havia, contudo, a música do piano da mamãe. Um cunhado do meu querido tio Mário visitou os Estados Unidos e, nessa varanda, deu uma entrevista confirmando muitas coisas que víamos no cinema.

Fui o primeiro de três gerações a viajar para o exterior, graças a minha entrada no universo democrático das pesquisas em antropologia do Museu Nacional. Lá encontrei a acolhida, a energia e o profissionalismo de Roberto Cardoso de Oliveira, que me ensinou a escrever e perseverar, como fazem os mestres verdadeiros. Seu objetivo não era nos tornar militantes, mas conhecedores das origens e correntes da pesquisa antropológica.


Harvard entrou na minha vida quando um de seus docentes, David Maybury-Lewis, se associou a meu mentor numa pesquisa cujo objetivo era estudar comparativamente sociedades tribais de língua jê, duas das quais haviam sido descritas pelo pesquisador alemão Curt Nimuendajú. Maybury-Lewis foi o primeiro e estudar a organização social dos xavantes e havia escrito um importante artigo teórico sobre os apinajés, que eu havia visitado em 1962.

Esse é o encadeamento que explica como um caipira niteroiense — cuja imensa curiosidade só era emparelhada a sua ignorância — foi parar em Harvard em 1963-64 e em 1967-72, quando finalizou seu doutorado. Ali viveu uma visão cosmopolita da antropologia por meio de professores e colegas que estudavam sociedades tribais em todo o planeta. Ali também entendeu que, em Harvard, era normal ler dois ou três livros por semana para discuti-los em seminários a que ninguém chegava atrasado.

Uma lembrança marcante de Harvard é meu nome. Ninguém me chamava de Roberto. Virei “Mr. DaMatta”. Como sou mais do mato do que da morte, adotei feliz o DaMatta.

Percebi o imenso prestígio de Harvard no contexto do competitivo sistema universitário e intelectual americano quando um colega me informou que um ph.D. harvardiano garantia um emprego. De fato, recebi e recusei uma oferta. Devia minha carreira ao Museu Nacional e ao Conselho Nacional de Pesquisas. No museu, permaneci de 1959 a 1986. Nos infames Anos de Chumbo, sofri preconceito político, mas institucionalizei o Programa de Antropologia Social que lá existe, transformando colegas bolsistas da Fundação Ford em professores da UFRJ. Contra o chumbo, usei o “Veritas” (lema de Harvard) que, bem sei, está nua no fundo de um poço.

Em abril de 1964, um amigo ligou informando que fazíamos nossa revolução cubana. Minutos depois, ouvi que era um golpe militar. Como, se os militares não figuravam na minha politizada lista de atores políticos — exceto no realismo do meu reacionário pai? Apresentei as teorias de um fundador da antropologia. A professora Cora Du Bois, ex-aluna de Franz Boas, comentou:

— Mr. DaMatta, sua exposição foi ótima. Mas o que você acha das ideias desse autor, você concorda com elas?

Não sabia o que dizer.

Na primeira vez que entrei na Biblioteca Widener, na época a maior do mundo, fui avisado:

— Roberto, tenha cuidado com o labirinto de estantes. Um aluno lá se perdeu e foi achado semanas depois, faminto como um náufrago.

Nevava muito, e perguntei se teríamos aula.

— Harvard não para desde 1636!

E não vai parar diante de um presidente mal-educado. Hoje, eu, niteroiense, correria o risco de não entrar em Harvard. Meu conforto é que Donald Trump lá jamais seria aceito.