sexta-feira, 26 de junho de 2020

Uma pausa para avançar

A leitura da História da Europa nos anos 30 mostra uma longa tensão bélica entrecortada por pausas que enchiam de esperança os que sonhavam com a paz. Poucos percebiam, como Winston Churchill, quão importante era aproveitar os momentos de tensão para se preparar para um confronto inevitável.

Guardadas as proporções, o Brasil entra numa pausa com a prisão de Fabrício Queiroz. Jogado na defensiva pelos diferentes processos no Supremo, um contra fake news, outro contra manifestações com bandeiras ilegais, Bolsonaro tende a se acalmar por alguns dias.

Toda a sua energia certamente estará concentrada em se defender do pepino do tamanho de um cometa que ronda seu governo. A presença de Fabrício Queiroz na casa do advogado da família Bolsonaro levou, de novo, não só os problemas de Flávio Bolsonaro, mas a incômoda questão das milícias cariocas para o terceiro andar do Palácio do Planalto.

Dificilmente, nesse período, crescerão as manifestações pedindo o fechamento do Congresso e do STF. Muito menos Bolsonaro, Mourão e o ministro da Defesa devem lançar novas notas afirmando que as Forças Armadas não aceitam julgamentos políticos. Isso agora soaria como um blefe.


Muito possivelmente Bolsonaro perdeu terreno nas Forças Armadas e também na faixa de seu eleitorado que esperava a luta contra a corrupção. Nesta última ele já havia perdido com a saída de Sergio Moro do governo denunciando suas tentativas de intervir na Polícia Federal do Rio. E as perdas se acentuaram quando firmou aliança com o Centrão, uma espécie de seguro contra o impeachment, que nem sempre é honrado pelos contratantes.

Quando a prisão de Queiroz apertou o botão “pausa” a sociedade estava se organizando para deter o golpe e fazer frente à política nefasta de Bolsonaro. Manifestações de rua surgiram aos domingos e manifestos brotaram de vários setores, indicando a possibilidade de uma frente democrática em gestação.

Nesse momento também a pandemia atingia seu auge, ultrapassando a casa de 1 milhão de contaminados e 50 mil mortos. O Brasil tornou-se um país a ser evitado. O fracasso no combate à pandemia, impulsionado pelo negativismo de Bolsonaro, afasta os potenciais visitantes.

A destruição da Amazônia, que pode alcançar 16 mil km2 no prazo de um ano, por sua vez, afasta os investidores. Fundos de pensão responsáveis por investimentos gigantescos podem voltar as costas ao Brasil, por causa da destruição da floresta e a cruel política para os povos indígenas.

Bolsonaro não torna o País inviável apenas simbolicamente, arrasando a cultura e atropelando nosso patrimônio histórico. Ele nos coloca nas piores condições possíveis para superar a profunda crise econômica, agravada pela pandemia. Embora o ministro Paulo Guedes veja um futuro brilhante pela frente, grandes economistas brasileiros, ao contrário, veem no horizonte uma das grandes privações por que passará o Brasil em sua História.

Quem se preocupa com a democracia apenas quando se aquecem os motores dos tanques militares pode ter uma falsa sensação de alívio. A democracia continuará exposta a pequenos golpes cotidianos Além disso, quanto menos margem de manobras Bolsonaro encontrar, mais possibilidade de buscar ações desesperadas.

Enquanto a sociedade se move, ainda lentamente por causa da pandemia, o confronto com as aspirações golpistas concentrou-se na reação do Supremo Tribunal Federal. Infelizmente, o Congresso recuou para segundo plano, talvez temeroso da agressividade da militância bolsonarista.

É preciso que os deputados e senadores superem a fixação numa salvação individual nas eleições. Os deputados da extrema direita, segundo a PGR, usam verbas parlamentares para mobilizar o fechamento do próprio Congresso. Não há como se esconder atrás das togas negras do Supremo. É necessária uma frente democrática no próprio Congresso.

“Somos poucos”, dirão os deputados. Mas não importa tanto o número, o importante é começar. Se a pausa acionada com a prisão de Queiroz for entendida como um momento de distensão, uma época para simplesmente deixar andar o processo judicial, ela pode trazer surpresas desagradáveis...

Naturalmente, os processos legais têm de ser acompanhados. Mas os danos ao País continuam a ocorrer. E a chegada de momentos mais dramáticos da crise econômica pede a construção de redes de solidariedade.

Diz a OMS que o mundo sentirá por décadas os efeitos da pandemia de coronavírus. No caso brasileiro, além da pandemia, vamos também sentir por décadas a passagem de Bolsonaro pelo poder.

No trabalho de reparo dos estragos e reconstrução do futuro não pode haver pausa. Mesmo porque as desgraças não nos abandonam nem no cotidiano. O mínimo que esperamos de novo, nessa pausa, é uma voraz nuvem de gafanhotos que nos invade pelo sul do País.

Um aumento de chances de vitória é uma razão suficiente para intensificar a luta. Quanto menos nos preparamos para ela, mais difícil será o desfecho. Sem necessariamente estabelecer um paralelo com o nazismo, a História dos anos 30 é uma aula sobre as hesitações da democracia diante de um perigo no horizonte.

quinta-feira, 25 de junho de 2020

Pensamento do Dia


O PIB do negacionismo

Com recuo de 9,1%, a economia brasileira deve fechar o ano, mais uma vez, com desempenho muito pior que o da maioria dos grandes emergentes, segundo as novas projeções do Fundo Monetário Internacional (FMI). No Brasil, como em todo o mundo, o impacto da pandemia tem sido bem maior que o estimado em abril, quando saíram as estimativas anteriores. A contração projetada para o País, naquele momento, era de 5,3%, muito maior que a observada em crises anteriores. O aumento de casos de covid-19 foi fator importante para a piora da previsão, no caso brasileiro, disse a economista-chefe do Fundo, Gita Gopinath. Mas o Brasil, observou, tem os mesmos desafios de outros emergentes para lidar com o coronavírus.

Mas o contágio tem sido menor em outros países emergentes, incluídos alguns da América do Sul, e esse detalhe foi ignorado, talvez diplomaticamente, no comentário. Os casos teriam aumentado tanto, no Brasil, se o presidente levasse a sério a pandemia e contribuísse para a coordenação de políticas entre União, Estados e municípios?

Governantes negacionistas ou relapsos têm sido desastrosos, como comprovou, nos EUA, o comportamento do presidente Donald Trump, líder do brasileiro Jair Bolsonaro. Países do mundo rico onde a reação à pandemia se retardou devem fechar o ano com desempenhos piores que o do Brasil. Mas em boa parte da Europa as economias já estavam enfraquecidas. O atraso da resposta à doença foi um complicador a mais.

Sustentada pelo desempenho menos ruim de alguns grandes emergentes, como China e Indonésia, e de uns poucos desenvolvidos, como Alemanha e Coreia, a economia mundial deve contrair-se 4,9% em 2020 e crescer 5,4% em 2021. Nos cálculos de abril, previa-se contração de 3% neste ano e retomada de 5,8% no próximo. Para a média dos emergentes o resultado de 2020 passou de -1% na estimativa de abril para -3% na de junho.


A crise brasileira pode parecer menos grave que a de vários países da Europa, quando se comparam só as projeções para 2020. Mas a comparação, nesse caso, é enganadora. O produto interno da zona do euro cresceu 1,9% em 2018 e 1,3% em 2019. O PIB do Brasil avançou 1,3% e 1,1% nesses anos. Além disso, o Brasil mal havia começado a recuperar-se da recessão de 2015-2016, quando sua economia se contraiu cerca de 7,2%. Essa lenta recuperação pouco havia melhorado as condições do mercado de trabalho. No começo deste ano o desemprego no Brasil, superior a 11%, era o dobro da média da zona do euro.

É preciso chamar a atenção também para um ponto nem sempre lembrado. Países avançados, como os da Europa Ocidental, podem dar-se muito bem com taxas de crescimento inferiores às do mundo emergente e em desenvolvimento. No mundo rico, padrões elevados de tecnologia, de ciência, de educação, de produtividade e de condições de vida estão bem estabelecidos há muito tempo. Não se morre, nesses países, por falta de saneamento básico nem os desempregados afundam na pobreza.

O Brasil continua longe dessas condições, apesar dos avanços acumulados em muitas décadas, parcialmente perdidos no período petista e simplesmente interrompidos, ou revertidos, na fase bolsonarista. Se alguém duvidar disso, dê uma espiada no balanço da política educacional implantada em 2019 e consolidada na gestão catastrófica de Abraham Weintraub.

Com a pandemia, aumentaram consideravelmente os males debitados na conta do presidente Jair Bolsonaro. Ele dificultou tanto quanto pôde o enfrentamento da covid-19, chamando-a de gripezinha, contrariando as orientações dos epidemiologistas, estimulando comportamentos de risco e falhando na coordenação de políticas. Quando o Judiciário reconheceu aos governos estaduais e municipais o poder para definir normas sanitárias, o presidente concluiu, erradamente, caber apenas aos governos subnacionais o combate à pandemia. Também entra na sua conta o estado já muito ruim da economia quando chegou o novo coronavírus. Durante mais de um ano ele ignorou o assunto, ocupado com outras prioridades. O Brasil paga por isso.

O poder da Zona Oeste

Pacheco, personagem de Eça de Queiroz, “não deu ao país nem uma obra, nem uma fundação, nem um livro, nem uma ideia, mas tinha um talento imenso”. Bolsonaro é um Pacheco sem talento, mas com acuidade visual para enxergar a possibilidade de vencer a eleição.
Adotou discurso liberal, o que nunca foi, e prometeu austeridade no momento que o brasileiro se sentiu logrado pelos governos petistas. Construiu o fenômeno eleitoral, conduzido pelos que organizariam, mais tarde, o gabinete do ódio.

As notícias falsas dominaram a campanha. Deu certo. Obteve 57 milhões de votos e tirou o Partido dos Trabalhadores do poder. Modificou o cenário político brasileiro. O capitão, expulso do Exército, conseguiu ser eleito deputado estadual e depois exercer sete mandatos de deputado federal. Passou 28 anos na Câmara dos Deputados, sempre no fundo do plenário, sem apresentar projetos.

Vale a pena retornar no tempo. No feriado de 12 de outubro de 1977, o Palácio do Planalto amanheceu protegido por soldados e atiradores de elite em posições estratégicas. O presidente da República decidira exonerar seu ministro do Exército, Sylvio Frota, que era abertamente contra o processo de abertura lenta e gradual na política brasileira. Naquele dia ocorreu o confronto decisivo entre os partidários da democracia e os defensores do regime fechado conduzido pelos militares.

O presidente Geisel enviou emissários ao aeroporto de Brasília onde ocorreu o estica e puxa político-militar. Uns eram convencidos a ir para o quartel general do Exército, outros para o Palácio do Planalto. O presidente venceu o confronto, determinou a exoneração de seu Ministro do Exército, que foi substituído pelo general Fernando Bethlem. Este lance pavimentou o caminho para o general João Baptista Figueiredo subir a rampa do Planalto e promulgar a anistia. Coube aos integrantes da chamada linha dura amargar a derrota, cuidar das feridas e resmungar no fundo da cena política.


Os perdedores se espalharam pela babel brasileira. Uns se envolveram com o negócio das drogas, que no final dos anos setenta passou a ter maior presença no Brasil. Os jogos de azar atraíram alguns, outros decaíram para o grupo de ladrões profissionais do erário público e milicianos que infestaram áreas não protegidas pelos governos locais e nacional, além de militares indignados. O jovem militar Jair Bolsonaro sempre se manifestou contra a anistia. Este tipo de pensamento continua a existir na sociedade brasileira.

Até hoje há opositores da anistia de junho de 1979. Essa posição implica em não admitir a convivência pacífica dos antagônicos no mesmo espaço político. O presidente Bolsonaro pertence a esta turma. Ele nunca escondeu a admiração pelo coronel Brilhante Ustra, acusado de ser torturador de presos políticos, nem sua alergia a assuntos ligados ao meio ambiente e a questão de gênero. Gosta de exercer o poder e ter a palavra final. Nomeia com prazer e demite com humilhação, inclusive generais.

Encontrou o limite. Esbarrou no Supremo Tribunal Federal. O sinistro Abraham Wientraub agrediu ministros da Suprema Corte. Essa é a última atitude que se deve assumir no Brasil. É suicídio. Bolsonaro calculou mal. Teve que recuar, enviar emissários para conversar com o Ministro Alexandre de Moraes, em São Paulo. Levantou a bandeira branca. O impeachment está ao alcance da mão de Rodrigo Maia.

O presidente gosta de falar todos os dias para o grupo de apoiadores que batem palmas e gritam palavras de ordem. Os jornalistas abandonaram o espaço. Apareceram oportunistas que pedem favores. Emergiu também a crítica no meio da massa. O quadradinho tende a desaparecer.

De tropeço em tropeço, o presidente Bolsonaro esticou a corda e a colocou ao redor do próprio pescoço. Somou-se ao desmando, seu absurdo e inconsequente comportamento perante a pandemia.

Os sucessores da linha dura militar, aqueles que eram contra a abertura democrática e a anistia, chegaram ao Palácio do Planalto. Corrupção significa dinheiro ilícito. A administração Bolsonaro & filhos aponta para algo ainda mais sério. Milícias aliadas ao discurso moralista, com vinculação evangélica e apoiadas por militares seduzidos pelo poder.

Personagens estranhos como o famoso Queiroz, rachadinhas, lavagem de dinheiro, Fake News mantidas por verbas públicas e particulares e a promoção do ex-Ministro da Educação para o Banco Mundial, indicam que os chefetes da Zona Oeste do Rio de Janeiro criaram um momento crítico na história do país.

Eles assumiram o poder.

O ódio terraplanista

Ali pelo final de seu livro "Capitalismo na América", Alan Greenspan, economista e ex-presidente do Federal Reserve dos Estados Unidos, se detém na clivagem em voga na política americana. No ódio escandido por Donald Trump a cada três entre quatro verbos de suas frases.

Greenspan, um republicano de quatro costados, capaz de criticar Reagan e elogiar Clinton, com todo o respeito liberal, conclui que a animosidade na política se dá por uma questão econômica. Simples: pela primeira vez em décadas, a atual geração de americanos será mais pobre do que a geração de seus pais e avós. É quando proliferam as antas.

No caso dos Estados Unidos, berço da revolução digital (ou 4ª Revolução Industrial), a destruição criativa espreme as antigas profissões, substituídas pela robótica e anteriormente pela mão de obra barata de países asiáticos, e aumenta a desigualdade social.

Simples, de novo: basta ver que a Amazon disparou no mercado de ações, e redes como J. Crew e mesmo Zara, de comércio varejista tradicional, enfrentam semelhante mau humor experimentado 120 anos atrás pelos fabricantes de selas e chicotes (e também pelos proprietários de cavalos), quando o automóvel ganhou as ruas.


O livro de Greenspan me lembrou de uma conversa final de tarde em dezembro de 2014, na praia de Itapuã (BA), com o poeta Antonio Risério. Ambos estávamos escandalizados com a campanha eleitoral de reeleição de Dilma Rousseff, quando o marqueteiro petista, João Santana, o antes popular Patinhas, forjara de vez a clivagem lulista de "nós" ou "eles"; e, para ganhar, inventara saco de inverdades contra Marina Silva.

Lembro de dizer a Risério: isso vai voltar, a campanha destampou um ódio, adicionou à política novamente um amargor de frustração cuja reação, ensinam os mandamentos quânticos, será em proporções maiores. Pois o ódio moldado pelos petistas, Lula à frente, derrubou Dilma e elegeu o capitão reformado.

E o ódio fermentou ainda em fogo alto sob a primária política econômica de Dilma-Mantega, de matriz geiselista, com um saldo de 12 milhões de desempregados e os habituais PIBs negativos.

Se os americanos se encontram clivados pela política trumpista, embora acumulem crescimentos de PIB algo tímidos, jogue a lupa na realidade brasileira, cujo desempenho econômico desde a década de 1980 é mais anêmico do que um figurante de reality da Record.

Enquanto os americanos padecem pela trituração de ocupações, muitas delas já obsoletas, ou de técnica limitada (carros: até russos possuem as suas marcas!), o Brasil cumpre sua sina de viver ideias fora do tempo. Cada vez mais o Brasil político se assemelha ao desempenho nas pistas de Rubinho Barrichello (parece que contraiu há pouco a H1N1).

Caiu no conto da direita em 1964 (achando que o latifundiário João Goulart era comunista!); em 2002, no ideário esquerdista-estatista (quando a União Soviética ruíra décadas antes); e, em 2018, no assombro nazibozonarista (na época a Venezuela de Chaves e Maduro já era miasma).

O retorno de Lula das tumbas do ABC, contra os manifestos democráticos, revela a estratégia da foto: "nós" ou "eles", sempre. Petistas x bozonaristas. Interessa a rivalidade binária, tão entranhada na vida brasileira. E imaginar que a Frente Ampla, em 1966, juntou contra os milicos Jango Goulart, JK e Carlos Lacerda. Éramos mais sofisticados (ideológica e espiritualmente) e não sabíamos.

Mercador de ilusões

Nos anos 80, Paulo Guedes ganhou o apelido de Beato Salu. O economista era conhecido pelo hábito de fazer previsões apocalípticas. Lembrava o personagem da novela “Roque Santeiro” que vivia anunciando o fim do mundo.

A serviço do bolsonarismo, o pessimista crônico se converteu num mercador de ilusões. Faz profecias que não se confirmam e divulga planos que não saem do papel. Na semana passada, ele garantiu que “lá para setembro, outubro, novembro, nós já estamos num novo país”. Faltou dizer de que ano.

Antes da pandemia, Guedes já era especialista em anunciar terrenos na Lua. Na campanha, ele prometeu arrecadar um trilhão de reais com a venda de imóveis da União. Depois prometeu outro trilhão com a privatização de estatais. Há poucos dias, requentou a promessa de vender a Eletrobras até dezembro. A ideia é descartada por nove entre dez parlamentares.



No intervalo entre os factoides, o ministro se dedica a causas exóticas. Uma de suas favoritas é a liberação dos cassinos, defendida por um poderoso lobby em Brasília. Na famosa reunião de 22 de abril, ele tratou do assunto com polidez: “Deixa cada um se f... do jeito que quiser. Principalmente se o cara é maior, vacinado e bilionário. Deixa cada um se f..., pô!”.
Após a chegada do coronavírus, o discurso ultraliberal de Guedes virou conversa de alienígena. A contragosto, ele tem sido obrigado a abrir os cofres para socorrer os mais pobres. Mesmo assim, insiste em fazer previsões sem lastro na realidade.

Na semana em que o Brasil entrou em quarentena, o ministro assegurou que o impacto da pandemia seria mínimo. No cenário que chamou de “mais grave”, o PIB cresceria 1%. O Banco Mundial ignorou o blefe e projetou um tombo de 8%. Agora o governo retaliou a entidade com o envio de Abraham Weintraub a Washington.

Ontem o Fundo Monetário Internacional anunciou uma previsão ainda mais lúgubre: a economia brasileira pode encolher 9,1%. Para reagir à nova desfeita, Guedes deveria exportar a ministra Damares Alves. O FMI não perde por esperar.

Brasil alimenta presidente


A intransigência da retórica liberal

A pandemia de Covid-19 está agravando o já alarmante quadro brasileiro, de mais de 12 milhões de desempregados, de 40 milhões de trabalhadores informais, de 6.000 mortes anuais por fome, de 5 milhões de desnutridos e de 24 milhões vivendo em extrema pobreza.

Além disso, milhares de pequenas e médias empresas estão fechando, e boa parte das grandes, quebrando ou entrando em recuperação judicial, com perda de produção e riqueza.

Antes da pandemia, os economistas liberais ortodoxos já se posicionavam, por princípio, contrariamente a ações públicas. Isso porque creem que a obtenção de superávits primários é a panaceia que infunde confiança nos atores privados e os faz agir para suprir as necessidades sociais de investimentos, bens e serviços —daí a pregação pelo Estado mínimo.

Com a destruição vinda com a pandemia, tendo surgido proposições de atuação governamental, até com apoio de economistas liberais, muitos deles, não obstante, reiteraram sua resistência. Faz sentido. Vários dos economistas dessa linha acreditam que, frente a um problema complexo, se ninguém fizer nada, tudo dará certo.


Tal resistência abriga o que o economista Albert Hirschman (1915-2012) denominou retórica da intransigência, associada à aversão a mudanças. Ela contém três teses: a da futilidade, segundo a qual tentativas de promover mudanças são inúteis (porque, no caso aqui tratado, o mercado é quem traria a solução estrutural); a da perversidade, que advoga que elas só agravam o quadro existente (no nosso quadro, piorariam o desemprego, a miséria e a desigualdade); e a da ameaça, que esgrima que o custo de mudanças é elevado e compromete conquistas já obtidas (no caso em tela, os gastos públicos arruinariam o ajuste fiscal, entornando o remédio e seus benefícios).

O debate econômico acerca da linhagem liberal é rico, e há nuances importantes dentro dela, mesmo no cenário brasileiro atual. Mas, em momentos trágicos como o que vivemos, não se entende que muitos de seus membros, mais ortodoxos, questionem a validade de políticas públicas ativas nos campos social e econômico.

Pode-se discutir acerca do alcance da injeção de recursos: a gradação vai desde a escolha de regiões, setores e públicos-alvo até a distribuição irrestrita, que o heterodoxo Nobel de economia Paul Krugman defende e chama de "helicopter money" —imagem, aliás, lançada com viés mais crítico em 1969 pelo ultraliberal e também Nobel de economia Milton Friedman (1912-2006). Mas neste momento não cabe o discurso da futilidade, da perversidade e da ameaça que muitos liberais ortodoxos têm emitido.

E o fazem com alarido, o que cria um paradoxo com o conceito, do mesmo Hirschman, de "voice" (voz), contraposto ao de "exit" (saída). Enquanto esta é a recusa silenciosa, e predominantemente individual, a um produto ou a uma política, aquela se faz pela manifestação ruidosa e coletiva em prol de mudanças e de quebra de padrões.

E o que temos por aqui é, contraditoriamente, a retórica barulhenta de um grupo de economistas ortodoxos que escrevem, palestram e dão entrevistas altissonantes contra ações mudancistas e em defesa da inércia conservadora.

Enquanto isso, a pandemia segue matando, pela doença e pelo desamparo econômico e social, milhares de brasileiros.

O legado do luto

Caros brasileiros,

a crise do coronavírus esta pior nos Estados Unidos, no Reino Unido, na Suécia ou no Brasil? Outro dia, me peguei comparando os números da covid-19. Tudo era pior do que na Alemanha, então senti certo alivio.

Mas o alívio durou pouco. Era constrangedor e até macabro. Pois, por trás das estatísticas monstruosas, há pessoas queridas que morreram antes da hora, tanto aqui na Alemanha como no Brasil e no mundo inteiro. Pessoas queridas que fazem uma falta enorme, que fazem famílias inteiras se sentirem abandonadas, que deixam filhos sem pais, pais sem filhos, viúvas e viúvos entristecidos.

Cada um que perdeu uma pessoa amada sabe a dor esmagadora que causa essa ausência. Uma dor que se estende até o fim da vida. Uma dor que vira um acompanhante fiel, que sempre reaparece nas horas mais inesperadas e que traz consigo aquele vazio deixado pela morte da pessoa amada.


No Brasil, o luto pelas mais de 50 mil vitimas do coronavírus é um sofrimento monstruoso, porém silencioso. É uma nuvem escura que se soma aos sacrifícios causados pelo distanciamento social, pelo desemprego, pela violência e pela crise política e econômica.

É de matar: enquanto o país padece em meio ao luto coletivo, o noticiário político não sossega. É mais um escândalo aqui, mais uma demissão ali, mais infecções e mais mortes. A crise parece eterna, virou cotidiana, e todo dia se alimenta de novas notícias desagradáveis.

A vida não pode parar? Por que justamente em tempos de covid-19, quando mais precisa, o Brasil parece não ter tempo para piedade, compaixão e pêsames? Por que diante da tristeza causada por milhares de mortes ainda não foi declarado um dia ou uma semana de luto nacional?

Por trás do noticiário e da gritaria constante se esconde o medo desse luto coletivo. Pois ele, mesmo silencioso, é um poder político poderoso e imprevisível, que nenhum governo quer enfrentar. Especialmente o atual governo brasileiro, que, por isso, reprime o óbvio: não reconhece a pandemia, e, portanto, nem chega a administrá-la. É cada um por si, e Deus por todos.

O que aconteceria se admitíssemos o luto coletivo? Se passássemos horas no cemitério em vez de seguir o noticiário? Se nos encontrássemos com amigos em vez de nos envolvermos em brigas politicas nas redes sociais e de passar mensagens raivosas ou falsas para frente? E se vivêssemos como se fosse o último dia?

É bem provável que esse luto coletivo deixasse qualquer propaganda política esfarelar-se como um castelo de areia. Pois nenhuma ideologia e nenhuma campanha política com frases do tipo "Brasil acima de tudo, Deus acima de todos" tem o poder de apagar a dor e o luto por uma pessoa querida que morreu.

Quando a epidemia no país passar, o que contará não vai ser somente o número dos mortos, mas também o número de mortes evitadas. Contarão não apenas os erros que foram feitos durante o combate ao vírus, mas também a incapacidade de reconhecê-los e corrigi-los. O que conta são as decisões tomadas, e não a busca por supostos culpados.

No mundo inteiro, o luto dos familiares das vítimas pelo coronavírus merece mais respeito e reconhecimento. O drama dos enlutados que não podem participar do enterro, dos familiares que não podem se despedir dos seus queridos: tudo isso é desumano.

No Brasil, a dor dos enlutados foi esmagada pelo trator da propaganda política de um presidente que teve que ser lembrado pela Justiça sobre uso obrigatório de máscara em espaços públicos e estabelecimentos comerciais, como medida de proteção contra o novo coronavírus.

Junto com a epidemia, o luto reprimido e o fracasso do atual governo brasileiro no combate ao coronavírus vão virar um trauma nacional, que marcará o país por décadas. É o legado doloroso e pesado do luto. Na Alemanha aprendemos: o luto não sossega, ele reclama por justiça.
Astrid Prange de Oliveira

O dilema de quem apoia Bolsonaro

Quanto mais doloroso o sacrifício, maior a crença na existência do imaginário receptor do sacrifício
Yuval Noah Harari

Em março deste ano, a equipe de especialista do Imperial College London previu que, no melhor cenário, 44 mil brasileiros morreriam em decorrência da pandemia de COVID-19.  Àquela época (parece que já estamos há uma eternidade em distanciamento social), empresários, como Roberto Justus, Luciano Hang e Junior Durski, vieram a público fazer pouco caso das previsões, acusando-as de alarmistas. Em entrevistas e pronunciamentos oficiais em rede nacional, o Presidente Jair Bolsonaro minimizou a doença, referindo-se a ela como uma mera “gripezinha”. Poucos meses depois, porém, a realidade parece ter dado conta de dobrar a língua dos negacionistas. No momento que escrevo este texto, em junho de 2020, as curvas estatísticas da epidemia no Brasil, mesmo sem contar os casos subnotificados, romperam a marca prevista pelo Imperial College e continuam em ascensão. O mundo inteiro assiste atônito ao fiasco de Bolsonaro na condução da crise do coronavírus.

Além da COVID-19, o Brasil ainda tem que lidar com uma crise econômica que já se delineava antes mesmo da pandemia, uma disputa entre Governo Federal e Governos Estaduais e Municipais  e uma crise institucional em que o Palácio do Planalto se contrapõe e ameaça o Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal (STF). Isso sem falar nas investigações envolvendo a fabricação e divulgação de notícias falsas por aliados próximos ao Presidente da República, nas ligações da família Bolsonaro com as milícias cariocas, nos escândalos de corrupção envolvendo os filhos de Bolsonaro e nas acusações de tentativa de interferência na Polícia Federal para proteger familiares e aliados do Presidente.  Esse caldo de crises e escândalos escancara a total incompetência e inabilidade de Bolsonaro. Ainda assim, seu núcleo de apoiadores continua irredutível em não reconhecer o desastre de seu governo. Na última pesquisa XP/Ipespe, realizada entre os dias 9 e 11 de junho deste ano, 28% dos entrevistados ainda avaliavam o governo como ótimo e bom. Como isso se explica? Estariam 28% dos brasileiros tão cegos a ponto de se recusarem a ver o óbvio ululante?

Talvez um pequeno trecho da obra “Homo Deus”, de Yuval Harari, quando ele lembra um conto de Jorge Luis Borges e as condições da Campanha Italiana na Primeira Guerra Mundial, contenha uma chave de interpretação que possa nos auxiliar a compreender fenômeno tão estranho.


No conto “Um problema”, Borges se pergunta como Dom Quixote reagiria se, no meio de seus delírios, ele houvesse realmente matado um homem. O próprio Borges propõe três respostas possíveis: ou Quixote continuaria vivendo em seu mundo alucinatório, como se nada houvesse acontecido; ou o terror do assassinato o despertaria de sua loucura para sempre; ou, enfim, não podendo negar a morte do homem, ele buscaria, em sua narrativa imaginária, razões que dariam sentido àquele acontecimento fatídico, aprofundando-se ainda mais em sua loucura. Harari sustenta que essa terceira resposta é comum no ambiente político, onde ela é conhecida como síndrome “nossos rapazes não morreram em vão”. E aqui entra a questão da Campanha Italiana.

A Itália entrou na Primeira Guerra Mundial com o objetivo glorioso de recuperar os territórios de Trento e Trieste do Império Austro-Húngaro. Contudo, ela perdeu as doze batalhas que ali travou. Cada batalha lhe custava mais vidas italianas, e, a cada derrota, seu ímpeto bélico apenas aumentava. Afinal, como os políticos italianos poderiam abandonar o campo de batalha após perderem tantas vidas? Como admitir para as famílias dos mortos que a guerra tinha sido um erro? Seria como se todos aqueles homens tivessem morrido por nada, e isso seria insuportável. Então, ao invés de assumir derrota, os italianos reforçaram sua narrativa de glória patriótica. Para que os primeiros rapazes não tivessem morrido em vão, mais rapazes tiveram que morrer. Por um lado, os reforços de narrativa após cada derrota levaram os italianos a uma tragédia ainda maior. Por outro lado, eles dotaram aquela tragédia de um sentido que a tornava mais palatável.

Segundo Harari, a terceira resposta no conto de Borges e a experiência italiana na Primeira Guerra Mundial demonstram como nós, seres humanos, temos uma grande necessidade de dar sentido às nossas vidas, em especial aos nossos fracassos, dores e frustrações. É muito difícil admitir grandes perdas se elas não tiveram propósito nenhum. Por isso, nós conferimos propósitos aos nossos sacrifícios, via de regra através de narrações imaginárias, em que selecionamos experiências específicas, que se encaixam bem na história que queremos contar. E “quanto mais nos sacrificamos em benefício de uma história imaginária, mais forte ela se torna, porque desesperadamente queremos dar sentido ao sacrifício e ao sofrimento que causamos”.

Essa é uma chave importante para compreender o dilema dos bolsonaristas hoje.

O apoio a Bolsonaro teve e continua tendo um alto custo. Pessoas investiram muito dinheiro, tempo e energia nas ações de promoção do bolsonarismo e de sua fábrica de notícias falsas. Alguns chegaram a abandonar seus empregos. Outros penhoraram sua credibilidade. Famílias inteiras estão cindidas, amizades de décadas estão desfeitas e princípios básicos de dignidade e decência tiveram que ser postos em suspenso. Enquanto o motor do bolsonarismo queima mentira, ódio e agressão, do seu escapamento solta-se uma fumaça espessa de sofrimento que atinge a todos ao seu redor, quer sejam apologistas, opositores ou desavisados.

Neste momento, o real da tragédia brasileira atesta o desastre anunciado que sempre foi Bolsonaro. A narrativa do herói nacional, que colocaria a economia nos trilhos, acabaria com a corrupção política e salvaria o país da ameaça dos comunista do Foro de São Paulo, já não encontra nenhum lastro na realidade – se é que algum dia o encontrou. É bem verdade que a própria alcunha de “mito” há muito indicava o caráter quimérico da figura que se construiu sobre o personagem Bolsonaro. Mas essa foi uma fábula em que seguimentos inteiros da população brasileira decidiram acreditar e ajudar a escrever. Ocorre que a tinta usada para registrar esse conto foi extraída de muita dor e sofrimento. Diante disso, admitir a mentira do bolsonarismo seria admitir também que os imensos sacrifícios e as aflições atrozes que ele causou não tiveram sentido e não serviram para nada. Para muitas pessoas, isso é insuportável. E, por essa razão, elas continuam agarradas à mentira. Repetem-na. Reforçam-na.

O reforço das narrativas bolsonaristas implica também um aprofundamento no delírio. Não é à toa que presenciamos sucessivas subidas de tom de Jair Bolsonaro, seus filhos, seus ministros e seus apoiadores. Manifestações reivindicando o fechamento do Congresso e do STF contam com a participação do Presidente. Filho de Bolsonaro fala abertamente em AI-5 e ruptura institucional. Ministros de Estado sonham com a prisão de Governadores, Prefeitos e Magistrados. Tudo isso sob os aplausos efusivos da claque, que, reproduzindo o comportamento do ídolo, invade hospitais, agride profissionais de saúde e atira fogos contra a Suprema Corte. Todos foram longe demais na narrativa e no sofrimento que ela engendra. Comprometeram-se a tal ponto que não podem mais voltar atrás. Como gatos acuados, não tendo aonde fugir, ofendem e atacam.

Pode ser paradoxal, mas, “quanto mais doloroso o sacrifício, maior a crença na existência do imaginário receptor do sacrifício”. As oferendas a Bolsonaro foram numerosas, feitas às custas de muito suplício. Se algo ainda sustenta a base de apoio bolsonarista é a necessidade de garantir que essas oferendas não tenham sido em vão, ainda que, para isso, mais sacrifícios tenham que ser feitos. Assim como na Campanha Italiana da Primeira Guerra Mundial, a exigência de manutenção do discurso bolsonarista já está cobrando seu preço em vida humanas. Mas, enquanto o drama italiano culminou com a ascensão de Benito Mussolini e do fascismo, aqui, apesar de todos os sinais, eu ainda espero que tenhamos melhor sorte.
Lucas de Melo Prado

Recado aos 'epidemiologista' verde-oliva

É preciso que o governo dê instruções claras e efetivas à população e invista em infraestrutura de saúde. Sem a capacidade de fazer isso, não se pode excluir a necessidade de futuros lockdowns.


Não dá para esperar passar. Aprendemos muito com países que agiram rapidamente e controlaram o surto. Olhem para eles e acharão suas respostas.
Michael Ryan, diretor de emergências da Organização Mundial de Saúde

Nova doença e a velha senhora

Está claro como a epidemia da Covid-19 comprometeu o controle das doenças crônicas e das endêmicas no Brasil e no mundo. O impacto sobre o câncer, exames preventivos que deixaram de ser feitos, procedimentos diagnósticos e as consequentes intervenções terapêuticas, sem dúvida trarão, a curto e médio prazos, perdas de vidas evitáveis, em meio às milhares causadas pela pandemia per se.

Dentre as endêmicas, chama a atenção a tuberculose, ainda tão prevalente no país, com um forte controle governamental, porém a depender da participação ativa e adesão da sociedade, atingidas em cheio nos últimos quatro meses. São muitas as evidências de que a efetividade do controle depende não só da disponibilidade de bons medicamentos, mas adequada organização de ações, recursos humanos qualificados e tratamento humanizado.

Apesar dos avanços, com redução na incidência e na mortalidade, o Brasil está entre os 22 países de maior carga de tuberculose no mundo, com 70 mil casos novos e mais de 4 mil mortes anuais. Doença urbana, ligada a condições de vida, sua redução no país nas últimas décadas tem sido desigual. A redução anual, de cerca de 2,5%, é muito aquém da esperada. Com a expectativa de erradicação nos próximos 50 anos, seria necessária uma queda de 6% ao ano.


No mundo, três países do bloco dos BRICS — China, Índia e África do Sul — concentram 50% dos casos. Se olharmos a vasta literatura que se inspira na “velha senhora” como foi denominada, vemos que perdeu o lirismo a velha tísica da iconografia de óperas e romances, que fez passar partes de suas vidas em sanatórios artistas e poetas até a metade do século passado.

Após a Segunda Guerra Mundial, surgiram os primeiros medicamentos, iniciando pela estreptomicina, a que salvou o grande dramaturgo Nelson Rodrigues, em seus muitos anos em sanatórios, até o advento da rifampicina, no fim dos anos 60, ainda hoje protagonista no tratamento da tuberculose.

Cinquenta anos após, vivemos um <em>momentum</em>, com a descoberta de cerca de 20 novas moléculas e estudos clínicos para testar eficácia e redução do tempo de tratamento. Estudos em diversas fases no mundo têm o objetivo de reduzir o longo tempo de tratamento e aumentar a adesão dos pacientes, com todos os fármacos orais. É alentador portanto, verificar que, há poucos dias, ainda que com atraso em relação à aprovação pela OMS, dois bactericidas potentes, bedaquilina e delamanide, foram aprovados pela Conitec para incorporação ao programa brasileiro de tuberculose.

O Brasil tem sido exemplo, desde normas para diagnóstico e tratamento elaborados em conjunto pelo Ministério da Saúde e a comunidade acadêmica, com participação da sociedade civil, sem conflito entre medicina pública e privada. Merecem registro: o pioneirismo dos esquemas de tratamento curtos, permitindo o fechamento de sanatórios e o regime ambulatorial nos anos 80; o reconhecimento de grupos vulneráveis, em que a incidência é centenas de vezes maior do que na população geral, como indígenas, presidiários, pessoas com HIV e moradores de rua; medicamentos formulados em comprimidos de dose fixa combinada, que reduz os comprimidos diários; aquisição de insumos para diagnóstico rápido molecular; criação de centros de referência para casos complexos; e um banco de dados on-line, para vigilância epidemiológica; além de iniciativas como a Frente Parlamentar contra a Tuberculose e aumento de orçamento.

este cenário social e epidemiológico brasileiro, duramente atingido pela pandemia, já seria, em condições ditas normais, inadmissível o paradoxo de morrerem por ano 4 mil brasileiros de uma doença diagnosticável, tratável, virtualmente curável e com tratamento gratuito. A constatação de que 40% dos testes diagnósticos para tuberculose deixaram de ser feitos nos últimos três meses, somada aos mais de 50 mil mortos pela Covid-19, nos coloca um prognóstico sombrio e a triste constatação de que ainda somos um país injusto e desigual.

quarta-feira, 24 de junho de 2020

Vista grossa e continência

No domingo, Jair Bolsonaro tomou um jato da FAB em Brasília e veio ao Rio para o velório de um paraquedista morto na véspera —preso na aeronave ao saltar; quando se soltou, o paraquedas não abriu e ele foi ao solo. Usando o infeliz soldado como pretexto, Bolsonaro, de pífia carreira militar, fez um discurso falando em nome das Forças Armadas e, mais uma vez, deu a entender que elas intervirão se o “povo” —seus apoiadores no chiqueirinho do Alvorada— for contrariado.

É reconfortante saber que Bolsonaro se comoveu com a morte de um cidadão brasileiro, a ponto de requisitar avião, gasolina e tripulação oficiais e voar 935 km para homenageá-lo. Já poderia ter feito o mesmo com pelo menos um dos 52 mil brasileiros mortos pela Covid-19 e sem deslocamento tão dispendioso. Bastaria acionar a equipe que filma suas lives em palácio. Mas não o fez, talvez porque tais mortos —de quem não se sabe quantos são homens ou mulheres, brancos ou pretos, velhos ou jovens— sejam, para ele, brasileiros de 2ª classe.


Esta é uma das características menos percebidas de Bolsonaro: sua aberta adesão aos assuntos da caserna, em detrimento dos interesses de um contingente que deve compor 90 por cento da população —o nosso, o dos reles paisanos.

É assim que, enquanto seu governo se dedica a arrasar a educação, a saúde, o meio ambiente, os indígenas, o patrimônio histórico, a cultura e as relações internacionais, os militares —que, no passado, costumavam ser atentos a tais problemas— não têm do que se queixar.

Não são só os 3.000 fardados infiltrados no Executivo, a maioria em cargos para os quais são tão preparados quanto um civil para lubrificar canhão. São também os soldos bem protegidos pelas reformas econômicas, os quartéis nos trinques, as espadas tinindo nas recepções. Em troca disso, Bolsonaro só lhes exige vista grossa e continência.
Ruy Castro

Forças amadas

No momento em que as Forças Armadas estão no centro do debate político, é mais do que oportuno relembrar a figura do marechal Cândido Rondon, o grande engenheiro militar e sertanista brasileiro. A leitura da sua biografia, escrita pelo jornalista Larry Rohter, nos possibilita entender que as instituições militares são admiradas pelos brasileiros por serem a mão amiga em missões de integração nacional, de paz e de ajuda humanitária. Nem por isso deixam de ser o braço forte na proteção de nossas fronteiras e na defesa da nação.

Devemos ao marechal a integração do oeste e do norte do país. Antes dele, essas regiões viviam isoladas. Rondon descobriu rios e construiu estradas, como a que vai de Cuiabá ao Rio de Janeiro ou a de Cuiabá ao Acre, além de cinco mil quilômetros de linhas telegráficas, levando-as até as fronteiras com a Bolívia e o Peru. Por mais de três anos embrenhou-se na floresta amazônica. Dado como morto, porque não se tinha notícia de sua expedição, no final possibilitou ao país o conhecimento da maior floresta tropical do mundo.

Cacique Bororo, apelidado Cadete, a Rondon:
“Vem morrer aqui, porque bororo sabe chorar seus mortos”
Se Duque de Caxias é o símbolo do braço forte que assegurou a unidade nacional ao enfrentar sublevações separatistas, Cândido Rondon foi a mão amiga na defesa dos indígenas. Foi o criador e primeiro diretor do Serviço de Proteção ao Índio e idealizador do Parque Nacional Indígena de Xingu.

Para ele, a integração dos índios deveria se dar de forma pacífica e voluntária, jamais pela violência. No fim da vida passou a defender o direito dos índios de permanecer isolados, se assim desejassem.

Ferido por uma flecha envenenada dos nhambiquaras, impediu qualquer represália por parte de seus subordinados. Vem daí a sua frase “morrer, se preciso for. Matar, nunca”. Por tudo isso se fez merecedor da indicação ao prêmio Nobel da Paz, sugerida por ninguém menos do que o físico Albert Einstein.

Em recente artigo, o general Alberto Cardoso, idealizador e primeiro ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional do governo Fernando Henrique Cardoso, mostrou que o espírito de Rondon está presente quando as Forças Armadas estendem a mão nas favelas cariocas, no combate a incêndios na Amazônia Legal, na realização de obras públicas, no socorro aos sertanejos vítimas da seca. Essa mão acolheu refugiados venezuelanos e chegou a outros países em missões de Paz da ONU. Desde o fim da Guerra do Paraguai não se envolveu em conflitos regionais, marcando-se como unidade comprometida com a paz no continente.

Seu braço forte retira garimpeiros de terras indígenas, combate o desmatamento ilegal, protege nossas fronteiras terrestres e marítimas, atua nas crises de segurança motivada pela ação do crime organizado ou de motins policiais. Está capacitado tecnicamente para a defesa nacional.

Respeitadas pelos brasileiros, as Forças Armadas estiveram nos últimos 35 anos atentas às suas funções constitucionais. Cresceram aos olhos do país por sua atuação como instituição permanente de Estado e não de governos, que são transitórios.

O inverso também é verdadeiro. Toda vez em que agiram como “partido fardado” dentro de uma visão salvacionista, tiveram sua imagem corroída. E os valores, por meio dos quais se estruturam, como a disciplina e a hierarquia, foram seriamente afetados. Como regra, as intervenções militares ocorridas desde o advento da República levaram, ao cabo, à corrosão da imagem das Forças Armadas. Mais grave: contribuíram para a divisão dos brasileiros.

O marechal Cândido Rondon, mato-grossense que nasceu como Cândido Mariano da Silva e depois acrescentou Rondon ao seu nome, em homenagem ao tio que lhe criou, dizia que o exército deveria ser o “grande mudo” em questões políticas.

Essa ideia de neutralidade política está presente no recente artigo do general Alberto Cardoso ao ressaltar que “são órgãos permanentes do Estado brasileiro e não dos governos que se sucedem”. Nas palavras do general, isto significa “independência em relação aos partidos que ocupem o governo no rodízio democrático”.

O atual comando das três armas – Exército, Marinha e Aeronáutica - tem mantido um comportamento exemplar, resistindo às tentativas de quem quer atraí-las para aventuras antidemocráticas. Nem mesmo as incursões de Jair Bolsonaro ou do núcleo dos militares palacianos têm força para aparelhá-las.

A rígida observância do mutismo das Forças Armadas em questões políticas é essencial para seu futuro. Só assim continuarão amadas.

Hubert Alquéres

Coração de pedra

Quando em um país as autoridades são incapazes de sentir responsabilidade e menos ainda empatia e dor com as vítimas de uma tragédia, como a pandemia do coronavírus, estamos chegando ao abismo.

O Brasil já perdeu 52.000 pessoas vitimadas pelo coronavírus, e o Governo de Jair Bolsonaro não é capaz de chorar por elas. Nenhum dia de luto nacional. Nenhuma palavra de consolo e solidariedade com os mortos. Estamos diante de um coração de pedra.

Não é só um número frio. São 52.000 famílias de luto. É muita dor. São muitas lágrimas. Cada morto é uma história de vida e de amor. E não se tratou de uma fatalidade. Foi uma tragédia anunciada, pois o máximo responsável pela nação chegou a burlar-se da pandemia e boicotou as medidas de prevenção pedidas pela ciência e a medicina. Humilhou seus ministros de Saúde e teve o sarcasmo de dizer que “todos temos que morrer”. Sim, todos vamos morrer um dia, mas muitas dessas pessoas podiam ter se salvado.


As famílias das vítimas não tiveram nem o consolo de velar e enterrar como seus mortos como gostariam. Foi dor somada a dor. Muitos foram enterrados na calada da noite, em valas comuns. O silêncio cínico de um governo com coração de pedra aumenta a dor das famílias. Quando em um país as autoridades são incapazes de sentir responsabilidade e menos ainda empatia e dor com as vítimas de uma tragédia, estamos chegando ao abismo.

Fariam bem as famílias das vítimas em denunciar a algum tribunal internacional a atitude de um presidente que durante todo o desenrolar da epidemia intentou negar a realidade e burlar-se dela. O Brasil é, conforme relatos vindos de fora, o país que mais desprezou seu perigo, que menos informações deu e que menos escutou a voz dos especialistas mundiais.

E a tragédia do coronavírus no Brasil não acabou e ainda pode ceifar muitas vidas. Os cemitérios ainda receberão muitas novas vítimas que poderiam ter sido salvas. E assim como as autoridades da nação revelaram um coração endurecido com as vítimas, o mesmo fazem com relação aos médicos e enfermeiros que sacrificaram sua vida para salvar as dos outros. Em alguns casos, foram até agredidos pelas tropas do presidente.

Os brasileiros podem ter muitos defeitos e muitos problemas atávicos por resolver, como o do racismo ou as graves diferenças sociais, mas ninguém pode acusá-los de terem coração de pedra. Eles sabem chorar e em cada tragédia natural souberam demonstrar solidariedade e compaixão com as vítimas.

>É um país que precisaria ter neste momento um presidente capaz de detectar a dor das pessoas. Mas um governo cujo vocabulário, quando não soez, está sempre povoado por vocábulos de negatividade, como guerra, armas, ódio, inimigos, enfrentamento e ameaças, e nunca de palavras que favoreçam a convivência pacífica, como paz, liberdade, diálogo, solidariedade e compaixão, já é um governo morto.

Ataque, violência, destruição

Foi com essas palavras que me informaram do gigantesco ataque de cupins e brocas à minha casa. “Como o de Pearl Harbor?”, perguntei ao Sr. Olem — o dono da firma descupinizadora que contratei. “Seria tão poderoso”, prossegui, “quanto o dos japoneses que iniciou a contraofensiva americana no Pacífico?” “Sim, senhor! Cupins e brocas são insetos desaforados, mas o nosso ataque será violento!”, completou o Sr. Olem, debaixo dos olhares confiantes de Tinho e Tonho, seus ajudantes-soldados, que usavam avançadas armas químicas para liquidar a praga. 

“Dentro em breve a casa vai estar livre!”, reiterou o Sr. Olem quando me mostrava uma parede arruinada pelos insetos coletivistas. 

Eu moro nesta casa desde 1974. Ela concretiza uma vida devotada exclusivamente ao trabalho intelectual. Por meio dele, exerço o magistério e a crônica jornalística, atividades resultantes de pesquisas e livros escritos no figurino professoral classificado por tio Marcelino (que foi fiscal de rendas — um belo emprego, conforme dizia) como “um sacerdócio”. Uma qualificação precisa porque, como agora constato, professor que sou por mais de 60 anos, dar aulas não pode ser um emprego porque o ensino requer “trabalho”: vocação e amor. Algo estigmatizado num sistema até anteontem sustentado por escravidão negra. Ademais, tenho convivido com a pecha delinquente segundo a qual “quem sabe faz, quem não sabe ensina!”. Eis uma “inocente” barbaridade explicativa do porquê somos governados por ladrões e loucos; e como o chamado “campo político” virou uma sentina.


Voltemos, porém, ao ataque dos cupins que comeram paredes e várias obras de Marx, Engels, Morgan e outros mestres e, de sobremesa, tornaram pó suas estantes. Já as brocas, menos intelectuais, atacaram um armário de roupas. Resultado: uns cem livros devorados por cupins e estragos sérios e irreparáveis na minha obsoleta aparelhagem de som.

Na medida em que Tinho e Tonho suavam removendo quilos de cupins ainda vivos como um político corrupto nacional, o Sr. Olem me perguntou se eu conhecia a história de um padre que havia decifrado a língua das aranhas e com elas trocado ideias e até mesmo a elas sugerido um regime político capaz de organizá-las — o regime republicano de governo... 

Pasmo, logo percebi que o Sr. Olem repetia o conto de Machado de Assis “A sereníssima República”, publicado na coletânea “Papeis avulsos”, em 1882. Neste conto, Machado se equipara a Kipling e antecede à “Metamorfose”, de Kafka, quando narra como um cônego rompe a barreira da comunicação entre espécies, um marco da divisão entre natureza e cultura, dialogando com aracnídeos. 

“Como assim?”, questionei. 

“Bem, doutor, o Tonho e o Tinho dizem que trocam língua com brocas e cupins. Falam que eles têm uma casa real, milhares de nobres e milhões de operários, igualzinho a gente. O problema — continuou — é que os cupins se pensam como sem organização social quando, de fato, são super organizados. Por isso, Tonho e Tinho deles ouvem muitas queixas, pedidos e receitas salvadoras. Esse coletivo dos cupins”, falou o Sr. Olem, “é uma maluquice.”

“Maluquice”, completei eu num desagradável impulso, “é imaginar que eles falam com insetos!”

“Tem mais: o Tonho sugere manter a velha hierarquia de 50 milhões de anos, enquanto o Tinho fala em igualdade, individualismo e iniciativa. Ele quer liquidar o familismo dos cupinzeiros e o compadrio das brocas.”

“E como ficamos?”, perguntei, certo de que estava ouvindo mais um louco, este felizmente apenas um matador, e não um presidente criador de cupinzeiros. 

“Bem, doutor, o Tinho diz que tem tentado, mas sabe como é complicado adotar costumes que chegam de fora. Ele ouviu que alguns membros da nobreza cupinzeira querem mudar seus hábitos com leis, igualzinho às aranhas do livro que o senhor falou. Seus costumes, porém, de tão enraizados, que ficam invisíveis para eles. Como pensam que seus antigos valores não têm peso, acham que as novidades políticas caem num vazio...”

Cupins querendo democracia e brocas socialistas? Exterminadores falando com insetos?

Minha pausa para entender essa extraordinária narrativa foi interrompida pelo rotineiro almoço. Sentei-me e pensei em entrevistar os ajudantes que falavam com cupins. Seria uma belo estudo sociopsicológico. Mas a boa comida, a certeza de que a velha casa estava livre dos cupins e a obrigação de escrever esta crônica fizeram com que, como os cupins, eu deixasse para trás a imaginação. 

Pensamento do Dia


A nova vaga dos contaminados desconfinados e despreocupados

Dia 101

Estamos cansados, preocupados, fartos, desejosos de aproveitar o verão e recuperar o tempo perdido. Começamos a facilitar porque só queremos desconfinar. Basta olhar à nossa volta ou espreitar as redes sociais: os amigos já se juntam em festejos e convívios, sem distanciamento social e com poucos cuidados. São aos montes as fotografias de grupos de pessoas à molhada. Os avós, filhos e netos já se encontram sem máscaras e com poucas seguranças. Há cada vez mais notícias – e denúncias – de ajuntamentos, festas e encontros com dezenas ou centenas de pessoas. É humano: depois de tantas semanas longe das nossas vidas normais, regressar aos nossos e às velhas rotinas sabe muito bem. E se estamos todos aparentemente bem, juntos em grupo depressa nos esquecemos que existe uma pandemia por aí, que mata mesmo. E que ainda estamos em Estado de Calamidade.


Nos espaços públicos, restaurantes e lojas, começa algum facilitismo, também é humano. Poucas semanas depois da reabertura, já se nota um relaxar nos cuidados. Os dos empregados e os nossos, os fregueses. Um dia desta semana fui jantar a um restaurante japonês, onde um sushimen estava a trabalhar com a máscara no queixo e outro com o nariz de fora. Alertei a empregada de mesa, ela riu-se com o meu excesso de zelo. Nos cafés, as pessoas já se começam a acumular aos balcões, as desinfeções das mesas entre clientes já nem sempre acontecem e as distâncias entre as pessoas nas filas começam a encurtar. As praias estão cheias e ainda nem chegou o bom tempo a sério.

Os jovens, esses, são cada vez mais difíceis de manter em casa. Falo pelos meus dois teenagers, cheios de programas e cada vez mais solicitações. “Mas se todos vão, porque é que nós não podemos ir”, perguntam-me. “Porque os outros todos não são meus filhos”, respondo muitas vezes. Outras cedo, claro está, massacrando-os com as regras de segurança. Que fazer? Mantê-los em casa durante meses a fio até existir uma nova vacina não me parece possível. O problema, em sociedade, é sempre este: nós, os outros e o exemplos que recebemos.

Mas, sim, o Estado de Calamidade continua aí. Temos de desconfinar para não morrer da cura, mas a doença não desapareceu. Nem está a dar mostras de melhorar tão cedo. António Costa já voltou a dizer: ou cumprimos as regras ou temos de voltar a fechar.

Começa a ser difícil de ignorar: os números estão a ficar preocupantes. Já sabíamos que com o desconfinamento os novos contágios iriam aumentar. O problema é que passámos dos países com melhor performance para a lista dos casos mais alarmantes. Achatámos a curva no início, mas mantemo-nos num planalto que teima em descer. Ali rés-vés a linha vermelha onde começa a espiral do crescimento descontrolado e exponencial.

Há um novo rácio ao qual devemos estar atentos: o número de novos casos por 100 mil habitantes durante uma semana. Quando sobe acima de 20, soam os alarmes. É este, aliás, o critério que muitos países começam a olhar para decidir se impõem ou não restrições. E, neste indicador, Portugal sai-se mal.

Os números de casos de Covid-19 registados na última semana colocam Portugal com o segundo pior rácio entre os 10 países europeus com mais contágios, com um valor de 23,2 novos casos, apenas atrás da Suécia (que chega aos 62) – o país europeu que adotou uma estratégia mais liberal e que teve pior desempenho.

Durante seis dias consecutivos Portugal teve mais de 300 casos, e hoje andou lá perto: 292 novas infeções. Lisboa continua a ser a região mais afetada, mas agora há duas novas zonas com aumentos mais expressivos: Algarve, por causa da festa ilegal em Lagos, e Alentejo, onde um lar de idosos em Reguengos de Monsaraz tem sido um foco preocupante.

As autoridades explicam os números pela política de testagem abrangente – e a verdade é que Portugal está entre os países que mais testa por milhão de habitantes. Mas há outros sinais. Um deles é o tipo de pessoas sujeitas a internamento (neste momento temos mais de 400 pessoas internadas). No Hospital de Santa Maria são recebidos cada vez mais doentes mais novos e em estado considerado grave, contaminados no dia a dia nas esplanadas, cafés e nas praias, como explicou Sandra Braz, coordenadora da Unidade de Internamento de Contingência de Infeção Viral Emergente ao Expresso. Se na primeira vaga tivemos os contaminados das férias da neve, e na segunda foram os infetados dos lares, agora temos a vaga dos contaminados jovens, desconfinados e despreocupados.

Parece evidente que é preciso voltar a reforçar a sensibilização das populações para os riscos, a necessidade de cumprir as regras e, paralelamente, apertar a fiscalização por parte das autoridades. Tem de existir pouca tolerância com as violações das regras da DGS. E é fundamental não passar mensagens contraditórias. Declarações com a da diretora Geral da Saúde a dizer que quanto maior for o número de visitantes para a Liga dos Campeões, melhor será para o nosso País só confundem. Não podemos para sempre viver fechados e confinados com medo, mas não podemos disparar para a loucura. Se é que não queremos voltar outra vez todos para casa. Já estivemos mais longe.

Vazio de governo

A inércia alheia preenche/
o céu como um formulárioManuel Cintra (1956-2020)

Mortes em vão

Para o sanitarista Luiz Antônio Santini, pesquisador da Fiocruz e ex-diretor do Instituto Nacional do Câncer (INCA), a metáfora da guerra não é a mais adequada para abordar os desafios da saúde. Segundo ele, uma pandemia não representa um ataque inesperado de um agente inimigo da humanidade, como a tese da guerra sugere. “O processo de mutação dos vírus é uma atividade constante na natureza e o que faz com que esse vírus mutante alcance a população, sem proteção imunológica, são, além das mudanças na biologia do vírus, mudanças ambientais, no modo de vida das populações humanas, nas condições econômicas e sociais. Muito além, portanto, de um ataque insidioso provocado por um agente do mal a ser eliminado.” Por essa razão, cabe à ciência “responder com vacinas, medicamentos e o que mais estiver ao seu alcance ou que ainda venha a desenvolver de conhecimentos e tecnologias”.


Enquanto isso não ocorre, a melhor alternativa continua sendo o isolamento social, o rastreamento dos casos e o tratamento adequado aos infectados, o que pressupõe restrições de atividades econômicas e circulação de pessoas, testes em massa e um serviço médico operacional e capacitado. É que o conceito de guerra impõe decisões estratégicas nas quais as prioridades não são necessariamente as vidas humanas, ou seja, o tratamento daqueles que precisam de assistência médica, mas outros objetivos, no caso, o retorno das atividades econômicas e/ou os interesses eleitorais, como estamos assistindo. A morte é apenas o efeito colateral. O fato de já não se restringir aos grupos de risco é mera consequência. A maior vulnerabilidade da população de baixa renda nas favelas, periferias, grotões e aldeias indígenas, reflexo de nossas desigualdades, é considerada uma contingência contra qual nada se pode fazer, quando deveria ser exatamente o contrário.

Esse é o raciocínio. O presidente Bolsonaro, por exemplo, deixou o Palácio da Alvorada, no fim de semana, para velar o corpo de um soldado cujo paraquedas não abriu, no Rio de Janeiro, gesto louvável, mas é incapaz de decretar luto oficial por atingirmos a espantosa marca de mais de 50 mil mortos e quase 1,1 milhão de casos confirmados, em respeito às suas famílias. Muito menos homenagear os médicos e demais profissionais de saúde que morreram na linha de frente das UTIs e àqueles que se arriscam todos dias, nos hospitais e unidades de pronto atendimento (UPAs), muitos dos quais depois de terem contraído o vírus e se recuperado. No gesto de Bolsonaro havia mais cálculo político do que humanismo.

Recentemente, o professor de direito Lucas de Melo Prado, no site justificando.com, citou uma passagem do livro Homo Deus, de Yuval Noah Harari, sobre a síndrome “nossos rapazes não morreram em vão”, comum durante as guerras. Referia-se à participação da Itália na Primeira Guerra Mundial, com objetivo de recuperar os territórios de Trento e Trieste, em poder do Império Austro-Húngaro. O Exército austro-húngaro encastelou-se ao longo do Rio Isonzo e resistiu a todos os ataques. Na primeira batalha, morreram 15 mil italianos. Na segunda, 40 mil. Na terceira, 60 mil. E assim prosseguiu a guerra por dois anos. Na 12ª Batalha, em Caporeto, os austríacos passaram à ofensiva, só parando às portas de Veneza. Morreram 700 mil soldados italianos, mais de um milhão foram feridos. Inebriados pelo patriotismo, em busca das glórias romanas, “por Trento e por Trieste”, políticos e generais mandaram seus jovens para a morte. A analogia faz sentido.

Nos 40 dias à frente do Ministério da Saúde, o general de divisão Eduardo Pazuello opera uma política de “imunização de rebanho” não-declarada. Militarizou a pasta, para a qual levou duas dezenas de militares — os da ativa, em desvio de função —, a maioria neófitos em política sanitária. Quando assumiu, em 15 de maio, o Brasil contabilizava 14,8 mil mortos e 218 mil casos confirmados. Esses números quase quintuplicaram no período. Não será surpresa se duplicarmos o número de mortos até o fim de agosto, com o relaxamento da política de isolamento social, como queria Bolsonaro.

Na ativa, Pazuello cumpre ordens. Sua prioridade é uma devassa na pasta da Saúde, que subsidie investigações e denúncias contra governadores e prefeitos que adquiriram equipamentos médicos com preços acima das cotações de mercado. Como de fato houve casos de superfaturamento e desvio de recursos por parte das máfias que atuam no Sistema Único de Saúde (SUS), a pandemia já virou pauta policial. Quem pagará com a vida, porém, são as vítimas da covid-19, cujo número aumenta exponencialmente, em razão da flexibilização precipitada do isolamento social. Bolsonaro já anunciou que limitará o auxílio aos chamados “invisíveis” — 36 milhões de trabalhadores informais que ficaram sem nenhuma renda — a apenas mais R$ 600, parcelados em três vezes; sem recursos, como poderão permanecer em casa?