sexta-feira, 13 de junho de 2025

Ideias fora do lugar

Em 2024, 2 bilhões de pessoas foram às urnas em mais de 60 países, no maior comparecimento eleitoral da história da democracia representativa. Paradoxalmente, o relatório de 2025 do V-Dem, índice global sobre qualidade democrática, revela que eleições livres retrocederam em 25 países; a liberdade de associação, em 22; e o Estado de Direito, em 18. A recessão democrática, observada desde 2010, se aprofundou: o nível de democracia em 2023 voltou ao patamar de 1985 em todas as regiões do mundo, especialmente na Europa do leste e na Ásia do sul e central. Hoje, cerca de 90 Estados vivem sob regimes autocráticos ou de tendência autocrática, onde estão dois terços da população mundial. Estados amplamente democráticos não passam de 80.
A recessão se agrava com o surgimento de Estados iliberais – democracias sem direitos, nas quais governos são eleitos democraticamente, mas, uma vez no poder, alteram constituições para se perpetuar, restringem direitos, fragilizam a oposição e bloqueiam o pluralismo. Jogando o jogo, subvertem as regras. Tudo “dentro das quatro linhas”. É um f enômeno contemporâneo, de múltiplas trajetórias: Rússia, Turquia, Hungria, Romênia, Venezuela... A lista é longa. É como se a democracia sofresse de uma doença autoimune, até que os cidadãos perdem a capacidade de mudar governos democraticamente.


Segundo Viktor Orbán, primeiro-ministro da Hungria, Estados iliberais preservam a ideia de liberdade, mas não a colocam no centro da organização estatal. Em seu lugar, adotam uma “abordagem especial e nacional”, com fundamento na homogeneização cultural, na hierarquia tradicional, na polarização política e no nacionalismo identitário. Além disso, agem de modo ambíguo: o legal e o autoritário se confundem; instituições democráticas funcionam, mas capturadas. São os chamados Frankenstates – na expressão da jurista Kim Scheppele, de Princeton –, monstros constitucionais que misturam elementos democráticos com mecanismos autocráticos, priorizando o poder sobre o Direito; são também kaquistocracias, a pior das formas mistas de governo, nas quais os valores democráticos são ideias fora do lugar, como diria Roberto Schwarz, que servem ao propósito de iludir, de legitimar pelo voto a autocracia.

Estados iliberais não surgem do nada. Estados fracos, com economias voláteis, corrupção, desigualdade, pobreza e violência, são bombas prestes a explodir. Em algum momento, dá-se a ruptura constitucional (foi o que se viu no Leste Europeu, em partes da América Latina, no sudeste da Ásia). Em contextos de crise econômica e descrença na política representativa, líderes populistas prosperam com promessas de segurança, combate à corrupção e redução da pobreza, mesmo que à custa da democracia. Tribunais regionais, como a Corte Interamericana de Direitos Humanos, tentam conter o avanço autocrático, defendendo a independência do Judiciário, o devido processo legal e os direitos das minorias. Mas sua efetividade é limitada, como se viu no caso do Peru sob Fujimori. Em 2019, a Polônia recuou ante a condenação do Tribunal de Justiça da União Europeia relativa à alteração da composição de sua Corte constitucional – uma exceção. A reação mais eficaz tem vindo dos Judiciários nacionais. Onde o Judiciário resistiu, o autoritarismo foi contido. Na Colômbia, em 2010, a Corte constitucional impediu a reeleição de Álvaro Uribe.

No Brasil, o Supremo Tribunal Federal (STF) tem conduzido a responsabilização pela tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023. O mesmo não se observa no Congresso, onde tramitam projetos como o da anistia e o de revogação dos crimes contra o Estado Democrático de Direito.

A questão de saber se ações antidemocráticas podem ser reprimidas não é nova. Os gregos praticavam o ostracismo contra agitadores da pólis; os alemães, sob a Lei Fundamental de Bonn, a democracia militante. No Brasil, a proteção ao
Estado Democrático ocorre por meio da chamada democracia defensiva – uma forma de legítima defesa institucional, em que cabe ao Judiciário definir, em situações excepcionais, os limites da repressão a tais ações. Isso se torna mais difícil quando o Executivo e o Legislativo se omitem ou são capturados por forças autoritárias. O Judiciário, então, se vê isolado na defesa da democracia.

A democracia é complexa. Requer instituições, procedimentos, representação, eleições periódicas, legalidade e participação. Em tempos de recessão democrática, exige ainda mais: formação dos cidadãos, participação política informada, maiores investimentos em educação de qualidade para todos, acesso à informação, transparência dos governantes e prestação de contas. A democracia, assim como o Estado de Direito, não pode ser um tema distante da população; a desinformação e a descrença alimentam os Estados iliberais. Nossas democracias podem decepcionar, mas não traem. Há sempre a possibilidade de substituir governos. Já os Estados iliberais eliminam essa possibilidade.

Ibero-América enfrenta o desafio de uma transição verde justa

A caminhada rumo à sustentabilidade não tem um caminho único nem linear. Há múltiplos caminhos que devem ser seguidos de forma coordenada: da transformação financeira à construção de amplos pactos sociais , incluindo a pedra angular fundamental e frequentemente subestimada da educação. Compreender essa diversidade de abordagens não apenas amplia nossa compreensão de questões urgentes como a crise climática, mas também nos permite elaborar respostas mais justas e duradouras.

Um dos pilares centrais dessa transição é, sem dúvida, o financiamento . A Ibero-América, e a América Latina em particular, emerge como uma das regiões mais afetadas pelas mudanças climáticas, apesar de historicamente ter contribuído menos para o aquecimento global. Esse paradoxo é fundamental para a compreensão do princípio das responsabilidades comuns, porém diferenciadas, reconhecido na Declaração do Rio de 1992 e reforçado pelo Acordo de Paris , que ressalta o dever do Norte Global de subsidiar os esforços de mitigação e adaptação do Sul Global.

Mas a discussão sobre financiamento não pode ser dissociada da realidade produtiva da região. A América Latina detém 60% das reservas mundiais de lítio e cerca de 40% das reservas de cobre, recursos estratégicos para a transição energética. Ao mesmo tempo, permanece fortemente dependente de atividades como mineração, agricultura intensiva e produção de petróleo — setores que geram renda, mas também têm impactos ambientais significativos.

Portanto, considerar o financiamento para a transição ecológica requer uma abordagem sistêmica. Não se trata apenas de canalizar recursos, mas também de redesenhar o modelo de integração global da região, permitindo que ela passe de uma economia extrativa para uma economia regenerativa baseada na sustentabilidade.


Nesse mesmo sentido, é essencial construir pactos sociais amplos. A transição verde justa não será alcançada sem diálogo e consenso envolvendo governos, empresas e sociedade civil. Na América Latina, onde as desigualdades estruturais limitam profundamente as oportunidades, tais acordos devem ser democráticos e participativos.

Promover esses pactos sociais pode colocar os governos em uma posição difícil perante as elites econômicas. Por um lado, elas precisam de seus investimentos para acelerar a transição energética; por outro, precisam regular ou mesmo limitar certas atividades econômicas insustentáveis. Tudo isso mantendo o difícil equilíbrio entre sustentabilidade, redução da pobreza e crescimento econômico.

Nesse contexto, a aliança entre a América Latina e a União Europeia apresenta uma oportunidade estratégica. Iniciativas como o Pacto Verde traçam um roteiro ambicioso rumo à neutralidade climática até 2050, mas precisam ser adaptadas às realidades dos países em desenvolvimento.

A região apresentou progressos notáveis ​​tanto em termos de energias renováveis ​​quanto de estruturas de proteção legal. Além disso, há um claro apoio da população à cooperação birregional que promova um novo modelo de desenvolvimento, como demonstrado pelo projeto Energytran, promovido pela Organização dos Estados Ibero-Americanos (OEI), que busca contribuir para uma transição justa e equitativa em ambas as regiões.

E é aqui que a educação surge como condição fundamental para dar sentido a tudo isso. Um futuro sustentável não será possível sem uma educação transformadora. A sustentabilidade deve ser construída a partir da sala de aula, nos processos educacionais e na forma como ensinamos a habitar o planeta de forma responsável.

Os sistemas educacionais devem oferecer ferramentas para construir uma sociedade mais justa e equitativa: habilidades verdes, conexão com a terra, metodologias ativas e professores capacitados para promover mudanças. As escolas devem ser espaços para a construção de uma visão compartilhada de futuro, que promova a vida, a convivência e a sustentabilidade.

Essa transformação educacional requer apoio político e um lugar prioritário na agenda internacional. Nesse contexto, espaços de governança global como a COP30 — a próxima conferência das Nações Unidas sobre mudanças climáticas, a ser realizada em 2025 no Brasil — são essenciais. Não apenas porque permitem o cumprimento de compromissos internacionais ou a visibilidade da urgência de ações, mas também porque são uma plataforma para colocar a educação no centro do debate.

Este evento de renome internacional, que este ano conta com o apoio organizacional da OEI, deve, além de abordar questões-chave como ação climática e financiamento, reconhecer a educação para o desenvolvimento sustentável como um pilar estratégico. Mais do que um gesto simbólico, é um compromisso com o longo prazo e com a construção de uma cidadania capaz de apoiar e sustentar acordos globais.

Para tanto, é necessário fortalecer o sistema multilateral por meio de uma coordenação eficaz entre os níveis multilateral, regional e nacional, alinhando os planos nacionais de desenvolvimento com os objetivos internacionais. Somente assim será possível mobilizar financiamento, promover soluções duradouras e posicionar a educação como motor de uma transição justa.

A América Latina desempenha um papel crucial no futuro do planeta. Abriga metade da biodiversidade mundial e quase 60% de suas florestas tropicais. Seu caminho rumo à sustentabilidade definirá não apenas seu destino, mas o de toda a humanidade. Avançar nessa direção exige compromisso político, consenso social e uma educação capaz de formar cidadãos comprometidos e solidários.

quinta-feira, 12 de junho de 2025

O que sobra quando a realidade é só código?

Nos últimos meses, a revista Superinteressante reacendeu um debate que há décadas habita o limbo entre a filosofia e a ficção científica: a perturbadora possibilidade de que nossa realidade não passe de uma sofisticada simulação computacional. Essa hipótese, que já inspirou de Matrix até tratados acadêmicos, ganhou seus primeiros contornos filosóficos sólidos com o trabalho de Nick Bostrom, da Universidade de Oxford. Em seu artigo “Are You Living in a Computer Simulation?” (2003), o filósofo não afirma categoricamente que vivemos em uma simulação, mas propõe um trilema inquietante: ou (1) a humanidade desaparecerá antes de desenvolver a tecnologia para criar simulações conscientes; ou (2) civilizações pós-humanas não terão interesse em simular ancestrais; ou (3) — e aqui está o que faz tantos dormirem menos tranquilamente — quase certamente já somos entidades simuladas. Se o futuro trouxer impérios digitais capazes de rodar incontáveis simulações de universos, a probabilidade estatística de sermos os “verdadeiros” seria ínfima — como um grão de areia no deserto do possível.

Essa especulação ganhou uma roupagem, digamos, mais magnífica, nas mãos do físico Thomas Campbell, que, trabalhando em sistemas de simulação para a NASA nos anos 1980, começou a desenvolver uma teoria radical. Em My Big TOE (2003), ele propôs que nossa realidade não passa de uma simulação computacional renderizada no momento da observação — uma ideia que beira o místico, mas que ele tenta ancorar na física quântica. O famoso experimento da dupla fenda, no qual partículas subatômicas parecem “saber” quando estão sendo observadas, seria, em sua visão, não um mero paradoxo, mas um artefato de um universo regido por código. A consciência, longe de ser um acidente da matéria, seria parte fundamental da estrutura da realidade, um conceito que ecoa pensadores como David Bohm e John Wheeler, mas traduzido para a linguagem da era digital. Se o cosmos fosse um programa, argumenta Campbell, faria todo sentido que ele só processasse os detalhes quando necessário, economizando recursos computacionais. A implicação é vertiginosa: o que chamamos de “realidade” pode ser apenas uma interface, um véu de ilusão digital. 


A física quântica contemporânea oferece indícios intrigantes que ressoam com a hipótese da simulação. Pesquisas recentes em emaranhamento quântico demonstram correlações instantâneas entre partículas que desafiam a noção clássica de localidade — um fenômeno que o físico Silas Beane, da Universidade de Bonn, sugere que poderia revelar uma “grade computacional” subjacente à realidade. Seu estudo publicado no Physical Review A (2012) propõe que, se vivêssemos em uma simulação, haveria um limite fundamental para a energia das partículas, semelhante ao aliasing em processamento digital de sinais. Essa assinatura da simulação ainda não foi detectada, mas Grande Colisor de Hádrons continua buscando essas anomalias nos níveis mais fundamentais da matéria.

Porém, a comunidade científica tradicional recebe essas ideias com ceticismo. Físicos como Sean Carroll argumentam que a hipótese da simulação carece de falseabilidade — como poderíamos provar que não estamos em uma simulação? A mecânica quântica convencional explica fenômenos como o colapso da função de onda sem precisar invocar a consciência, e há uma resistência natural contra teorias que borram as fronteiras entre ciência e espiritualidade. Campbell, no entanto, navega nessas águas turvas com certa desenvoltura, citando desde meditação transcendental até experiências fora do corpo como evidências de seu modelo.

Ainda assim, o fascínio popular pela hipótese da simulação talvez não dependa de sua validade científica. Em um mundo em que a tecnologia digital remodelou não apenas nossas ferramentas, mas nossa própria percepção do real, a noção de que tudo pode ser uma simulação ressoa como um mito contemporâneo. Jean Baudrillard, em Simulacros e Simulação (1981), já antevia uma cultura obcecada por cópias sem original, em que o real e o virtual se confundem. Para Campbell, porém, não há original perdido — a simulação é tudo que existe. Essa visão oferece um tipo peculiar de reencantamento: se a modernidade, como argumentou Max Weber, desencantou o mundo ao substituir deuses por equações, a hipótese da simulação reintroduz o mistério, mas em uma roupagem tecnológica. O sagrado não está mais nas florestas ou nos céus, mas nos bits e algoritmos que supostamente sustentam nossa existência.

Neurocientistas como Anil Seth, da Universidade de Sussex, oferecem uma perspectiva biológica complementar. Seus experimentos com realidade virtual e ilusões perceptivas demonstram que nosso cérebro não processa a realidade objetiva, mas constrói continuamente uma simulação interna baseada em expectativas e inputs sensoriais limitados. Isso ecoa a hipótese do cérebro como máquina de inferência bayesiana1, em que a consciência seria um modelo probabilístico constantemente atualizado, uma simulação dentro de uma possível simulação maior. Esses achados sugerem que mesmo nossa percepção do “real” já é uma construção computacional sofisticada.

A teoria da informação quântica acrescenta outra camada a esse debate. Pesquisadores como Seth Lloyd (MIT) propõem que o universo poderia ser literalmente um computador quântico, com cada interação física representando operações lógicas em bits quânticos (qubits). A equação de Wheeler-DeWitt, que descreve a gravidade quântica, sugere que o universo pode não ter tempo fundamental, apenas relações entre eventos, como em uma simulação discreta. Essa visão recebeu impulso com experimentos recentes em gravidade quântica em loop, em que o espaço-tempo parece emergir de redes de spins, semelhante a pixels de uma tela cósmica2.

A astrofísica moderna também contribui para essa discussão. A descoberta de que as leis físicas parecem finamente ajustadas para permitir a vida (princípio antrópico) encontra explicações tanto na hipótese do multiverso quanto na da simulação. O astrofísico David Kipping (Columbia) calculou em 2020 que há cerca de 50% de probabilidade de estarmos em uma simulação, usando análise bayesiana dos limites computacionais necessários para simular consciências. Enquanto isso, projetos como o do Blue Brain Project na EPFL tentam recriar cérebros humanos em supercomputadores, testando os limites do que seria necessário para simular realidades conscientes. Um exercício que inverte provocativamente a hipótese: se podemos simular mentes, o que nos impede de sermos simulações?

O próprio êxito desses experimentos dá a probabilidade calculada de sermos simulações à recriação de mentes em silício – revela a essência paradoxal desse reencantamento digital. Enquanto essas conquistas científicas devolvem ao mundo uma camada de significado ao reabrir questões metafísicas fundamentais (transformando laboratórios em espaços de “teologia computacional”), elas simultaneamente corroem os fundamentos da ação humana, reduzindo até mesmo nossa busca por verdade a meros inputs de um possível programa cósmico. A ironia é reveladora: quanto mais dominamos a arte de simular consciências em projetos como o Blue Brain, mais fortalecemos a hipótese de que nós mesmos podemos ser simulações – e, consequentemente, mais alimentamos o niilismo digital que questiona o valor último de nossas escolhas éticas e políticas. Nesse contexto, a insistência de Campbell em que a simulação teria regras e um “objetivo” moral soa como um frágil antídoto contra a vertigem existencial que essas descobertas provocam.

Essa ambiguidade se manifesta de forma especialmente aguda em nosso momento histórico. Se, por um lado, o reencantamento tecnocientífico resgata o mistério que o racionalismo moderno havia dissipado, por outro, ele oferece uma justificativa perigosa para a inação – afinal, qual o sentido de combater crises ecológicas ou desigualdades em um universo potencialmente ilusório? O projeto Blue Brain, nesse sentido, simboliza tanto o ápice de nossa capacidade criativa quanto o abismo de nossa possível irrelevância: ao nos tornarmos arquitetos de mentes simuladas, confrontamos a possibilidade perturbadora de que também possamos ser criações digitais em um jogo cósmico cujas regras mal compreendemos. Campbell pode ver nisso um propósito evolutivo, mas na prática, essa visão corre o risco de ser instrumentalizada tanto como consolo espiritual para tempos incertos quanto como álibi para o fatalismo social – mostrando que o preço do reencantamento pode ser a erosão da própria noção de responsabilidade coletiva.

Ao refletir sobre a hipótese da simulação como teoria científica, metáfora ou mito contemporâneo, percebemos que ela revela algo essencial sobre nosso tempo. Vivemos numa era em que a inteligência artificial, a realidade virtual e a desinformação algorítmica tornaram o conceito de “realidade” mais frágil do que nunca – se antes buscávamos respostas em deuses ou verdades absolutas, hoje oscilamos entre o fascínio e o terror diante da possibilidade de que tudo não passe de um código complexo. Essa ideia encontra um paralelo perturbador na visão de Jorge Luis Borges em A Biblioteca de Babel, em que o universo é concebido como uma biblioteca infinita composta por galerias hexagonais intermináveis, contendo todas as combinações possíveis de conhecimento, incluindo um livro sagrado que seria a chave para entender todos os outros, um volume tão inacessível quanto divino.

Tal como na biblioteca borgiana, em que a verdade absoluta existe, mas permanece fora de alcance, nossa suposta realidade simulada também nos confronta com a possibilidade de existir um código-fonte fundamental que jamais compreenderemos plenamente. Para pensadores como Campbell, decifrar essa simulação exigiria uma espécie de upgrade existencial, mas num mundo em que a tecnologia mais segrega do que liberta, cabe perguntar: quem teria o privilégio desse acesso transformador? A genialidade de Borges estava em mostrar que, seja numa biblioteca cósmica ou numa matriz digital, estamos sempre diante do mesmo paradoxo – a busca por significado em sistemas que podem ser, eles mesmos, meras construções arbitrárias, em que o próprio desejo de verdade talvez seja apenas mais uma peça no jogo.

Assim, o que nasceu como cálculo de físicos transforma-se em espelho: reflete não só átomos, mas o desejo humano de ser mais que um acidente cósmico. A hipótese da simulação, essa metáfora vestida de equação, talvez nunca prove se vivemos em linhas de código — mas desnuda nossa sede de sentido em um mundo em que máquinas já sonham por nós. Entre o cogito de Descartes e o render de pixels, espreita a mesma pergunta: somos avatares de um deus-programador ou poetas inconscientes de um universo que se escreve a si mesmo? Não importa. Como na inquietante fábula de Borges — aquela em que cartógrafos imperiais tecem um mapa tão perfeito que acaba por devorar o território real —, essa narrativa da simulação nos salva do vazio existencial: ainda que seja apenas uma alegoria, ela substitui o silêncio cósmico por uma história onde dúvida e sentido coexistem. Mesmo que a Matrix seja ficção, ela nos concede o direito sagrado de duvidar — e, nesse ato, reencantar o real.
Nicolás Gonçalves

Não sei o que posso falar, nem você

Leo Lins diz a auditórios frases assim: "Tem ser humano que não é 100% humano. O nordestino do avião? 72%." "Como vou emagrecer?’ Pegando Aids! Você não adora comer de tudo? Sai comendo gay sem camisinha!" Foi condenado a prisão, multa e indenização. O Brasil tem lei contra discriminação. Mas Leo Lins usa crachá de humorista. Por isso, diz, pode caçar risada por qualquer bagatela.

Gilmar Mendes processou dois jornalistas por reportagem que descrevia investigação da compra, pelo governo de Mato Grosso, de universidade da qual o ministro era sócio. Derrotado em primeira e segunda instâncias, ganhou no STJ.

Os ministros Ricardo Cueva, Humberto Martins, Daniela Teixeira, Moura Ribeiro e Nancy Andrighi condenaram revista a pagar R$ 150 mil. Alegam "excesso de ironia", "limites do direito de informar". Destacam a "honra de uma autoridade pública" e ensinam que liberdade de expressão não se confunde com "irresponsabilidade de afirmação".


A desembargadora Iris Helena Nogueira processou jornalista que divulgou salários de magistrados. No mês de abril de 2023, ela teria sido a campeã ao receber R$ 662 mil. A juíza Káren Bertoncello condenou repórter a indenização de R$ 600 mil. Disse que, apesar de ser informação pública, foi descontextualizada e teve efeito sensacionalista. Defendeu equilíbrio entre direito de informar e integridade moral.

Cada nova decisão sobre usos da liberdade de expressão provoca a esfera pública a opinar sobre seu erro ou acerto. Até que venha o caso seguinte e recomecemos a opinar, com indignação, surpresa ou alívio, sobre seu erro ou acerto.

E assim vamos gastando tempo no varejo apaixonado do caso a caso e perdemos de vista uma questão preliminar. Sabemos que liberdade de expressão tem limite, mas o Judiciário não demonstra interesse nem capacidade em definir onde ele se encontra. Muito menos em estabilizar esse limite de forma coerente.

A jurisprudência da liberdade de expressão tem muito pouco de "juris" e de "prudência". Chamamos assim por vício vocabular e por apego ao ilusionismo conceitual. No atacado, percebe-se que decisões sobre o tema têm se limitado à fórmula do "acho que sim, acho que não", conforme manda o coração.

Frases de efeito substituem critérios decisórios, instinto apressado substitui análise das nuances do caso concreto. Nesse festival retórico de um amontoado de decisões que não dialogam, os mesmos slogans fundamentam absolvição ou punição. Sem que entendamos o porquê da diferença.

Enquanto não houver tentativa sincera de construir critério compartilhado e previsibilidade, o Judiciário continuará a simular proteger direitos enquanto nos entrega particularismo irracional, discriminatório e arbitrário. "Cada caso é um caso" e "cada cabeça uma sentença" são máximas do decisionismo. Com prática judicial assim, a liberdade desaparece.

Sabemos muito pouco sobre o que podemos falar. No campo da incerteza absoluta, a liberdade fica arriscada demais.

Mais um serviço que STF e Judiciário prestam ao projeto autocrático: a absoluta imprevisibilidade do significado da liberdade de expressão facilita a vida de quem a invoca para atacar a democracia e violar direitos. Um conceito deixado vazio é mais fácil de ser manipulado. Fica mais barato gritar pela liberdade e praticar o seu contrário.

Pax israelensis

Em fevereiro, foi o Procurador-Geral do Tribunal Penal Internacional (TPI), Karim Khan. Agora, os EUA impuseram sanções contra quatro juízas do TPI que abriram investigações sobre crimes de guerra e/ou contra a Humanidade praticados pelos EUA no Afeganistão e por Israel na Palestina. Todas mulheres, duas delas africanas (cidadãs do Benim e do Uganda), uma peruana, outra eslovena. Nesta linguagem descarada que a ultradireita tem, o TPI é acusado de “politização e de abuso de poder” O objetivo é intimidar todo o pessoal do TPI e bloquear as investigações em curso.

Dir-se-á que relação de Trump com o direito internacional é a mesma que tem com a justiça do seu próprio país. Depois de Biden e os seus antecessores terem aceite todas as violações possíveis do direito internacional que Israel pratica desde 2023 (aliás, desde 1948), Trump associou-se ativamente ao ataque descabelado que Israel tem feito à ONU, sem precedentes na história da organização: insultos ao Secretário-Geral e aos responsáveis de todas as agências da ONU, intimidação direta de todos relatores especiais dos Direitos Humanos (a começar por Francesca Albanese), interdição de uma agência da ONU (a UNRWA) com 75 anos de atividade incessante na Palestina, acusada diretamente de “terrorismo”, e, sobretudo, o assassinato de centenas de profissionais e funcionários da ONU. Sem precedentes.


No quadro daquilo que no Ocidente se quis descrever como a “reação” ao 7 de outubro, Israel já fez praticamente de tudo na Palestina: assassinou deliberadamente população civil de um território ilegalmente ocupado, um terço dos quais crianças, a uma escala que não deixa dúvidas sobre a intenção de genocídio; forçou a deslocação em massa da população, e várias vezes, o próprio exército ocupante deteve e deportou milhares de palestinos; matou centenas, milhares, de médicos, enfermeiros, jornalistas, pessoal de ONGs; destruiu praticamente todos os edifícios, especialmente hospitais e escolas, reduzindo Gaza a ruínas e tendas improvisadas. Como mais de 30 relatores especiais da ONU para os direitos humanos denunciaram há um mês, “a comida e a água foram cortadas durante meses, induzindo a fome, a desidratação e a doença, o que fará com que mais mortes se tornem a realidade quotidiana para muitos, especialmente para os mais vulneráveis.”

O que se vive em Gaza não é imaginável para nenhum de nós. E, contudo, a impunidade permanece, comprovando à saciedade que, afinal, a aplicação do direito decorre apenas da força. E quem a tem, hoje ainda, são os EUA, um estado que os tratados assinados por Portugal classificam como “aliado”.

Desde há muito que Israel se tem revelado o modelo de sociedade no qual se revê a ultradireita neofascista do mundo. Supremacia de uma etnia (os judeus), cuja identidade nacional se construiu no próprio processo de colonização e não antes; regime de apartheid e de securitização militar impostos à etnia autóctone (os palestinos) cujo território se ocupou; uma engenharia social feita da fusão de militarismo social, investimento tecnológico sem precedentes no controlo e vigilância totalitários; uma ideologia de orgulho nacionalista, religioso e colonialista de uma etnia que se descreve a si própria como resgatando um território da barbárie e protegendo o “Ocidente” do “inimigo”; a visão paranoica de um mundo que inveja e odeia “o povo eleito”. A semelhança com o fascismo histórico de há um século é evidente.

Se, antes de Trump, a repugnante impunidade da ocupação israelita vinha acompanhada da encenação de um plano original de dois Estados que nunca saiu do papel, com Trump e Netanyahu do que se trata é da concretização final de limpeza étnica e genocídio. Exatamente o que Hitler quis fazer: uma Nova Ordem europeia construída pela morte, pelo extermínio.

A nova ordem que se quer construir hoje com o rearmamento e a tese de que estamos, por todo o lado, em guerra, tem os contornos da Pax israelensis. E é também por isso que nunca como hoje foi tão importante criar um movimento popular e universal pela paz e pela democracia antifascista. Como em 1945.

Um grito frágil e alívio: bebê desnutrido Siwar é evacuado de Gaza

O grito era frágil, mas eu conseguia ouvir Siwar Ashour antes mesmo que ela fosse carregada para fora do veículo.

Foi o grito de uma voz que não desiste, de uma criança que nasceu nesta guerra e que agora, pelo menos por um tempo, conseguiu escapar dela.

Ao vivo, Siwar, de seis meses, é menor do que qualquer imagem pode transmitir. Ela pesa 3 kg, mas deveria pesar o dobro. Sua mãe, Najwa, de 23 anos, sorriu ao descrever seus sentimentos ao cruzar para a Jordânia na quarta-feira, quando sua filha foi evacuada de Gaza com outras crianças palestinas. A primeira coisa que ela notou foi o silêncio.

"Parece que há uma trégua", ela me disse. "Passaremos a noite sem foguetes e bombardeios, se Deus quiser."

Siwar também estava acompanhada de sua avó Reem e seu pai Saleh, que é cego.

"O primeiro e último objetivo desta viagem é Siwar", disse Saleh. "Queremos levá-la a uma praia segura. Quero ter certeza de que ela esteja segura e curada. Ela é minha filha, meu sangue. E estou profundamente preocupado com ela."


Foi Reem quem carregou Siwar para fora do ônibus em solo jordaniano, formando um sinal de V com os dedos enquanto caminhava.

"Até agora, não consigo acreditar que cheguei à Jordânia. Vi a foto do Rei Abdullah na fronteira e fiquei tão feliz que desci do ônibus e fiz o sinal da vitória... pelo bem de Siwar."

Em abril, quando a BBC filmou Siwar pela primeira vez no hospital Nasser, no sul de Gaza, sua mãe e seu médico disseram que ela sofria de desnutrição porque a fórmula láctea especial de que precisava não era encontrada em quantidade suficiente. Seu corpo estava emaciado. Najwa disse então que não podia amamentar Siwar porque ela própria sofria de desnutrição.

Latas de fórmula láctea foram encontradas e entregues pelo hospital de campanha da Jordânia e por arrecadadores de fundos privados. Mas, com o bloqueio israelense à ajuda, parcialmente aliviado há três semanas, e a escalada da ofensiva militar, ficou claro que a condição de Siwar precisava de testes e tratamento mais abrangentes.

Em um acordo anunciado entre o rei Abdullah e o presidente dos EUA, Donald Trump, em fevereiro, a Jordânia se ofereceu para levar 2.000 crianças gravemente doentes para tratamento em Amã.

O sistema médico devastado de Gaza não consegue lidar com o nível de doenças e feridos de guerra. Desde março, 57 crianças, juntamente com 113 acompanhantes familiares, foram evacuadas. Dezesseis crianças chegaram na quarta-feira, incluindo Siwar.

Aconchegada nos braços da avó, Siwar olhava com seus grandes olhos para a multidão desconhecida de policiais, profissionais de saúde e jornalistas reunidos na fronteira.

Ela foi levada para um salão com ar-condicionado, onde médicos jordanianos distribuíram bebidas e comida para as crianças. Havia paz e fartura.

O mais evidente foi o esgotamento de pais e filhos. Em vários meses de cobertura dessas evacuações, esta última foi a mais marcante em termos de trauma coletivo.

Todas essas famílias sabem o que é ser levada de uma área para outra por ordens de evacuação israelenses, ou enfrentar filas por horas na esperança de encontrar comida. Se não vivenciaram a morte de alguém na família, certamente conhecem amigos ou parentes que foram mortos.

Famílias são frequentemente separadas por conflitos enquanto os pais buscam comida ou tratamento médico. Um dia, Najwa levou Siwar ao hospital e essa foi a última vez que o marido Saleh esteve com eles por dois meses.

"Achei que ela ficaria fora por apenas três ou quatro dias e depois voltaria, com um tratamento simples e ela voltaria", lembrou ele. "Mas fiquei chocado com a demora... e acabei percebendo que a condição dela é muito séria e difícil."

Viajamos da fronteira para Amã com Siwar e sua família. Najwa está grávida e caiu em sono profundo. Siwar permaneceu acordada nos braços da avó. Na mesma ambulância estavam dois meninos com câncer, suas mães e dois irmãos mais novos. Um dos irmãos, um menino de quatro anos, chorava sem parar. Estava cansado e assustado.

Depois de uma hora, chegamos a Amã e Siwar foi transferida para os braços de uma enfermeira e depois para outra ambulância. Nos próximos dias, ela será testada e receberá o tipo de tratamento que é simplesmente impossível nas atuais condições em Gaza. E sua mãe, seu pai e sua avó – aqueles que cuidam dela – dormirão sem medo.

Fergal Keane

quarta-feira, 11 de junho de 2025

Pensamento do Dia

 


O imbrochável brochou

Quem já foi vítima de abuso sabe: basta uma frase, uma imagem, uma voz. O corpo inteiro responde. Não é escolha, é memória. O trauma volta antes do pensamento. Foi o que senti ao assistir a Jair Bolsonaro no depoimento a Alexandre de Moraes no STF.

E sei que não estou sozinha. Para milhões de brasileiros, Bolsonaro não é apenas um ex-presidente. É um gatilho. Apesar de me dar ojeriza, essa palavra que virou muleta linguística talvez seja o que melhor define a lembrança de viver com a sensação constante de uma mira na nuca durante seu governo. Quatro anos sem um minuto de sossego. Um país assediado moralmente, submetido à pedagogia do ódio.


Mas, diante do ministro, o imbrochável chipado brochou. Pediu desculpas, fez piada, riu de desespero —não chega a dar prazer porque a cara sebosa não permite. Convidou Moraes para ser seu vice em 2026. Foi o momento stand-up no corredor polonês. Inelegível, acuado, constrangendo até os próprios seguidores que esperavam ao menos um grito, um coice, um chilique digno do personagem. Em vez disso, um homem murcho, escolhendo frases domesticadas como quem já cheira o mofo da ficha criminal.

Seria só patético, não fosse o tamanho do estrago. Bolsonaro transformou almoços de domingo em zonas de guerra ideológica. Armou o tio do zap contra a sobrinha feminista, criou patriotas de rede social que confundem corrente do Telegram com Constituição. Fez do verde e amarelo um uniforme de seita. Ele não dividiu apenas o país, ensinou as pessoas a se odiarem com método, disciplina e memes. O preço dessa cartilha do ressentimento ainda será cobrado em prestações longas.

Não tenho alma punitivista, mas amém que Bolsonaro não será perdoado. Que a Justiça o condene. Que a história o engavete. Quero acreditar que nossa democracia saiu um pouco mais madura e preparada para reconhecer o rosto, o tom, a retórica de um abusador, mas sinto que ainda levará bastante tempo. A cada eleição, o país parece disposto a dar chance ao embusteiro da vez, contanto que ele prometa Deus, arma e gasolina barata.

E se os refugiados do clima formos nós?

Os Países Baixos tentaram combater a subida do nível das águas erguendo muralhas contra o mar, mas acabaram por falir e desaparecer de forma caótica. Mais avisada, a Dinamarca decretou o “fecho” do país, antes de ficar submersa, e definiu um calendário para a saída ordenada dos seus habitantes que, num espaço de poucos meses, viram-se forçados a separar-se de familiares e amigos e a partir para o exílio. Tudo isto se passa na Europa, num futuro não muito longínquo.

Os sete proféticos episódios de Families Like Ours, assinados pelo dinamarquês Thomas Vinterberg, foram estreados na última edição do Festival de Veneza ‒ “não havia outro lugar onde pudéssemos mostrar isso senão Veneza”, disse o cineasta, recordando que a cidade corre o risco de afundar-se ‒ e estão a ser exibidos em Portugal desde novembro, nos canais TV Cine. A série de ficção conta-nos a história de oito pessoas que, numa situação de crise ambiental, perdem o país, a casa e o emprego e sentem na pele as dificuldades que milhões de outros refugiados, políticos ou climáticos, tiveram e continuam a ter de enfrentar para obter um visto de residência ou um contrato de trabalho num país europeu.

Embora o realizador de filmes como A Festa, A Caça e Mais uma Rodada tenha afirmado que esta sua primeira série televisiva não é um alerta contra as alterações climáticas, é delas que nos lembramos quando pensamos nas grandes cheias de Valência, ocorridas no final de outubro, ou quando lemos as conclusões de um estudo recente da consultora Boston Consulting Group (BCG), intitulado To Understand Climate Mobility, Follow the Water, assinado por Torsten Kurth e Dean Muruven, quadros da empresa, em colaboração com investigadores da Universidade de Cambridge.


No pior cenário equacionado no estudo, as inundações, secas e tempestades decorrentes das alterações climáticas no planeta poderão obrigar a que, até 2050, cerca de 43 milhões de habitantes tenham de deslocar-se todos os anos – 32 milhões de pessoas dentro do seu próprio país; 11 milhões atravessando fronteiras. Em 2022, o último ano analisado no documento, 99% das deslocações provocadas por desastres naturais foram causadas por “eventos hídricos extremos”, relacionados com a água (e a sua escassez). A mobilidade climática é uma tendência que poderá acentuar-se nas próximas décadas, caso não seja possível mitigar as alterações no clima.
Mobilidade climática

Mas o que é a mobilidade climática? É a designação dada à deslocação, voluntária ou involuntária de pessoas “em busca de maior segurança, água mais limpa, alimentação adequada, meios de subsistência mais sustentáveis ​​e alívio dos conflitos provocados pelo clima.” No estudo da BCG, a água, mais do que qualquer outro fator, é apontada como a causa principal dos movimentos populacionais, uma vez que as perturbações causadas por secas, tempestades e inundações “podem provocar o fracasso das colheitas, degradar e desgastar os solos e as terras circundantes, danificar infraestruturas e propriedades e alterar significativamente os ecossistemas”. Além disso, a alteração dos padrões hídricos “afeta a qualidade e a quantidade de água, o que suscita instabilidade económica e política, agravando a capacidade da sociedade para atenuar e se adaptar aos efeitos do aquecimento global”, lê-se no documento.

As crises hídricas não são iguais em todo o lado. Os objetivos deste estudo passam também por identificar onde é que os riscos são maiores, quem será mais afetado e que medidas devem ser tomadas para diminuir os efeitos. África, Austrália, Médio Oriente e Europa Central são as geografias que enfrentam maior risco de aumento de inundações, enquanto a América Latina, o Sudeste Asiático e também a Europa Central são mais vulneráveis a secas. Na ausência de esforços mais robustos, no sentido da mitigação climática, os riscos aumentarão significativamente para outras regiões do globo.

Como exemplo do impacto das alterações climáticas relacionadas com a água, a BCG cita o caso da Somália, um dos países mais pobres do mundo, localizado na região do Corno de África. “As secas de longa duração fizeram com que o preço dos alimentos disparasse, levando ao que os especialistas chamam de crise de insegurança alimentar. A deterioração das condições sociais, políticas e económicas, incluindo uma governação fraca e tensões étnicas, levaram a conflitos prolongados no país, agravados à medida que grupos terroristas transformaram a água numa arma, destruindo infraestruturas, bloqueando o acesso a fontes de água e envenenando poços. Como resultado, mais de 1,6 milhões de pessoas foram deslocadas involuntariamente nos últimos anos.”
Três cenários…

Perante este estado de alerta ambiental, a BCG analisou os cenários do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), elaborados com base em diferentes níveis de mitigação das emissões de gases com efeito de estufa, para de seguida conceber um modelo de previsão dos movimentos internos e externos da Humanidade até 2050.

No primeiro dos três cenários, que os autores do estudo apelidaram de Seguir a Via Verde, admite-se a possibilidade de uma redução continuada das emissões de gases com efeito de estufa, assim como uma melhoria na gestão dos recursos do planeta, designadamente da água. Com base nestes pressupostos, a mobilidade climática interna aumentaria cerca de 1%, e a mobilidade externa 2,5% em 2050, em comparação com os dados de 2020. No caso da mobilidade interna, significaria que 24 milhões de pessoas (em 2020, foram 23,8 milhões) seriam forçadas a mudar-se para outro lugar, dentro dos seus países de origem.

O segundo cenário, que os investigadores situam no Meio da Estrada, prevê que nada mudará e o planeta atinja um pico de emissões em 2040. Nesse caso, a mobilidade interna crescerá cerca de 14% e a externa aproximadamente 3%. Finalmente, no terceiro e pior cenário, designado por Seguir a Autoestrada, pouco ou nenhum esforço será feito ao nível das políticas climáticas para mitigar as emissões de gases com efeito de estufa, da dependência dos combustíveis fósseis e do desenvolvimento de tecnologias amigas do ambiente. O aumento da mobilidade climática interna subirá 33% face a 2020, afetando 32 milhões de habitantes, e a deslocação além-fronteiras crescerá 3%, envolvendo 11 milhões de pessoas (em 2020, foram 10,7 milhões).
… e três medidas

As alterações climáticas são uma realidade e já estão a forçar pessoas a deslocarem-se, embora ainda não tenham obrigado ao “fecho” de países, como na série televisiva atrás referida. Além da urgência em reduzir as emissões de carbono, o abastecimento de água a nível mundial deve também ser gerido de forma mais eficaz, de modo a reduzir o número de refugiados do clima. O estudo da BCG propõe três medidas para reduzir o impacto das crises hídricas e proteger as populações mais vulneráveis: aumentar a resiliência hídrica, aumentar a resiliência social e colmatar a lacuna entre elas.

Para aumentar a capacidade de resistência a eventos hídricos extremos, como secas e inundações, o documento propõe o desenvolvimento de tecnologias de baixo custo “de captação, armazenamento e distribuição” da água, tais como previsão de caudais, monitorização em tempo real da qualidade e uso da água, irrigação de precisão e técnicas agrícolas regenerativas, e processamento e recuperação de águas residuais. Considerando que os grandes projetos de engenharia, como as megabarragens, não são viáveis para reduzir os desastre hídricos no futuro, os peritos defendem “soluções resilientes” que utilizem “o poder da Natureza juntamente com as infraestruturas existentes para se adaptarem à evolução dos eventos relacionados com a água”. Aconselham também a “pensar na água como um bem ‘comum’ e a tratar o acesso à água limpa e fresca, tanto para uso agrícola como para uso pessoal, como um direito humano, e não como uma commodity explorada para fins lucrativos privados.”

Além da melhoria na resiliência da água, é necessário garantir que os ganhos são duradouros e que os benefícios são distribuídos de forma equitativa. Por isso, os investigadores propõem, como segunda medida, um reforço da resiliência social, juntando “instituições públicas, decisores políticos e comunidades locais” para desenhar políticas e estratégias de governação que permitam aumentar a adaptabilidade hídrica e criar confiança junto da população.

Por fim, o estudo da BCG recomenda o preenchimento da lacuna entre a resiliência da água e a resiliência social, promovendo a interajuda entre pessoas e recursos, académicos e comunidades locais, na procura de soluções para os efeitos dos desastres hídricos. Sublinhando que a mitigação da mobilidade climática exigirá “mecanismos de financiamento inovadores”, entre os quais empréstimos, subsídios, incentivos, garantias governamentais e soluções alternativas como os créditos de carbono, defende ainda que “é crucial estruturar estes acordos para beneficiar as pessoas a nível local”.

“A mobilidade forçada das populaçõe a nível mundial tem como sua principal causa os desastres naturais relacionados com a água, o que reforça a necessidade de acelerar a transição energética e reduzir as emissões de carbono. Além disso, naqueles eventos que não serão possíveis de prevenir, torna-se imperativa a implementação de ações sociais que aliviem o impacto dos desastres hídricos na população”, diz Manuel Luiz, managing director e partner da BCG em Lisboa.

À medida que o planeta aquece e a mobilidade climática afeta cada vez mais habitantes, não teremos outra escolha senão limitar as causas e retardar os efeitos. Para que o mundo seja um lugar seguro e a realidade não ultrapasse a ficção.

Coisas que acontecem num certo país infeliz

Num certo país infeliz, espalha-se um enorme pessimismo sobre a economia e, aparentemente, resultados bastante positivos para a vida real de pobres e ricos são quase ignorados nas análises.

Nesse país infeliz, argumenta-se que a inflação está incontrolável, mas ela atingiu em média 4,73% ao ano nos dois últimos anos. Nos quatro anos anteriores, havia alcançado 6,17% ao ano. E a inflação média atual está abaixo da média dos últimos trinta anos (6,5% ao ano), desde que foi criada a atual moeda em circulação.

Nesse país, propala-se que o descontentamento advém das classes mais pobres, que estariam sendo fulminadas por uma inusual inflação dos produtos alimentícios. Mas os alimentos subiram 8% no ano passado, menos que a renda das famílias em geral, que cresceu 10%, e muito menos que a renda das famílias mais pobres, que aumentou 19%.


Nesse país mal-humorado, a taxa de desemprego vem recuando e estava em 6,6% da força de trabalho no primeiro trimestre, em nível próximo do mais baixo da série histórica para o período. A previsão atual é de que caia para 5,9% até dezembro. A informalidade no trabalho recuou para 37,9%, taxa situada entre as menores da série histórica iniciada em 2015.

A desigualdade de renda nesse país infeliz, medida pelo Índice de Gini, foi a mais baixa da história no ano passado. E a renda per capita domiciliar mensal, a maior desde o início da série histórica, em 2012.

Nesse país, segundo o Relatório das Nações Unidas sobre Estado de Insegurança Alimentar no Mundo, o número de pessoas em situação de fome diminuiu de 17,2 milhões em 2022 para 2,5 milhões em 2023. Portanto, cerca de 14,7 milhões de pessoas deixaram de passar fome de um ano para outro nesse país infeliz.

O PIB desse país surpreendeu novamente os pessimistas e cresceu 1,4% no primeiro trimestre, índice superior ao dos países da OCDE e do G7 - ambos os grupos avançaram minguado 0,1%. O crescimento se dá a despeito da imposição de uma assombrosa taxa básica de juros, de 14,75% ao ano, nove pontos percentuais acima da inflação, que desincentiva investimentos.

Essas surpresas do PIB ocorrem desde 2020 nesse país infeliz, quando se projetava recessão de 6,5% e ela foi de 3,3%. Em 2021, a expansão prevista era de 3,4% e a efetivada foi 4,8%. Em 2022, estimava-se 0,3% e deu 3%. Em 2023, o esperado era 1,4% e deu 2,9%. Em 2024, previa-se 1,6% e deu 3,4%.

Nesse país, observa-se que os empresários estariam insatisfeitos, mas os lucros das empresas no primeiro trimestre foram excepcionais e superaram as expectativas do mercado. O lucro líquido das 387 companhias abertas não financeiras subiu 30,3% no trimestre, para R$ 57 bilhões, e as receitas cresceram 13,9%, para R$ 976,7 bilhões.

Na área financeira, os lucros dos quatro maiores bancos no primeiro trimestre cresceram em média 7,3% e somaram R$ 28,2 bilhões. Um bancão aumentou seu resultado em 39% na comparação com o mesmo período do ano passado.

Nesse país pessimista, atingido há décadas pelo vírus da desindustrialização, a indústria voltou a crescer: 3,1% no ano passado. Em março, avançou 1,2% sobre fevereiro e 3,1% sobre março de 2024.

Por que, afinal, a bruma pessimista continua a embaçar toda a economia desse país infeliz? Se prevalecesse a “lei Carville” (É a economia, estúpido!), cunhada na campanha presidencial de Bill Clinton, em 1992, essa neblina não faria sentido.

Resumindo: nesse país infeliz, a inflação está abaixo da média nacional dos últimos 30 anos; a renda dos mais pobres cresce mais que a inflação de alimentos, principal item de consumo nessa faixa de rendimento; o nível de desemprego é o mais baixo da história; o número de pessoas em situação de fome caiu 85% em um ano; a desigualdade de renda é a mais baixa da história, e a renda per capita, a mais alta; o crescimento da produção surpreende positivamente há cinco anos; a safra de alimentos bate recorde; o lucro das empresas financeiras e não financeiras aumenta muito mais que a inflação; a bolsa de valores quebra recordes e rentistas/investidores das classes média e alta ampliam seus patrimônios com os juros de dois dígitos.

Nesse país infeliz, um partido de oposição pôs no ar uma peça publicitária engraçadinha dizendo ter saudade de um ex-presidente porque está tudo “caro”, fazendo rima com o nome do ex. Mas, nos quatro anos desse governo “saudoso”, a inflação média anual foi de 6,17%, índice bem maior que o dos dois primeiros anos do governo atual desse país (4,73%). Os alimentos estariam subindo mais, argumenta-se. Falso. Nos quatro anos “saudosos”, os alimentos subiram em média 8,24% ao ano. Nos dois do atual mandato, 4,36% ao ano.

A peça publicitária foi contestada? Que se saiba, não. O debate econômico se dá basicamente em torno de problemas fiscais, que podem ter impacto nos próximos anos, mas não afetam hoje o humor e o dia a dia das pessoas. Ou esse país infeliz tem graves falhas na comunicação ou talvez sua infelicidade e seu pessimismo não venham da economia, estúpido.

No fundo da Terra também bate um coração

Quem diria: nosso planeta tem um coração. Ou melhor, não exatamente um coração — mas algo que se assemelha aos seus batimentos. A imagem da Terra pulsando chegou até mim pelo LinkedIn, numa postagem que imediatamente capturou minha atenção. O vídeo, criado a partir de dados de satélite, é uma das coisas mais impressionantes que já vi. E o que seriam esses “batimentos”? Nada menos do que plantas absorvendo CO₂. Em outras palavras, nossa boa e velha fotossíntese.

O vídeo é do @marshmallowlaserfeast, apresentado na experiência imersiva YOU:MATTER, parte da Bradford 2025 — United Kingdom City of Culture, patrocinada pelo UK National Science and Media Museum. Esta experiência artística imersiva tem como objetivo mostrar que tudo na Terra está conectado — inclusive nós — e como o espaço torna essa conexão visível. A exposição fica em cartaz até fevereiro de 2026. Os sortudos que estiverem em terras inglesas podem garantir seu ingresso em bradford2025.co.uk.


Também na Europa, mais precisamente em Berlim, começa a Conferência Global sobre as NDCs (Contribuições Nacionalmente Determinadas), um fórum internacional que reunirá representantes de mais de 200 países para discutir governança climática, mobilização de investimentos e o engajamento do setor privado no processo de transição climática.

A urgência por uma ação mais focada e coletiva foi evidenciada (mais uma vez) no último relatório da Organização Meteorológica Mundial (OMM). Entre dados preocupantes, destaca-se a probabilidade de 86% de que um dos próximos cinco anos seja 1,5°C mais quente do que a média entre 1850 e 1900 .

Pode parecer pouco – 1,5°C – mas as consequências são impactantes: estima-se que aproximadamente 350 milhões de pessoas a mais, vivendo em áreas urbanas, ficarão expostas à escassez de água; e cerca de 30 mil pessoas morrerão anualmente por ondas de calor na Europa, um salto significativo em relação às 2.750 mortes atuais.

Enfim, a frase de Christiana Figueres resume bem o cenário: “Negar a mudança climática equivale a dizer que você não acredita na gravidade. A ciência do clima não é uma crença, uma religião ou uma ideologia política. Assim como a gravidade exerce sua força sobre todos nós, acreditemos nela ou não, a mudança climática já está afetando a todos, não importa onde tenhamos nascido ou onde vivamos.”

Deus da Desinfomação: O excesso de luz não ilumina, cega

Os mais otimistas dizem que vivemos um novo Iluminismo. A luz está por todo o lado. Mas não é daquela que inspira poetas, cientistas, santos ou até lunáticos. É a luz fria de hospital, dos ecrãs, das notificações a tocar, como sinos em aldeia onde já quase só vivem descrentes.

Se é verdade que nunca houve tanta informação, também não é mentira que nunca houve tanto ruído. Num universo cada vez mais carregado de respostas à distância de um polegar, nunca nos sentimos tão perdidos, tão desorientados, tão vulneráveis a intrujas que chegaram para nos caçar a atenção. Somos veados a meio da estrada, encandeados, não por faróis de carros, mas pelo atropelo violento da desinformação. Os condutores vão em excesso de tudo, menos de verdade, e raramente perdem alguma coisa, muito menos pontos na carta.


Há uma nova leva de vendedores porta-a-porta e de testemunhas beatas. Novos evangelistas de feed, vendedores de salvação, guardadores de segredos que a ciência rejeita e a imprensa desconfia. Já não nos batem à porta com aspiradores ou enciclopédias, mas vão vendendo verdades em segunda mão, milagres para todas as dores da alma, superstições adaptadas à constituição e aos demónios do parlamento. Se antes pediam licença para entrar, hoje atravessam-se sem cerimónia à nossa frente na timeline ou até no noticiário, à hora de jantar. Já não nos querem falar de Jesus, mas de pandemias, planos secretos para nos substituir, conspirações que vamos ouvindo passivamente em surdina, que o tempo não dá para tudo e questionar é luxo que não cai bem na nossa moleirinha formatada para o preconceito.

Ainda somos um país de portas entreabertas. Entre a cortesia e o cansaço, vamos deixando passar qualquer promessa de redenção, qualquer segurança de um perigo distante, mesmo que seja paga a pequenas prestações que nos sairão demasiado caras. Uns são feiticeiros de gravata, outros curandeiros de carrapito. Uns passam receitas para almas cansadas ou aborrecidas, vendem detox de espírito e mezinhas de autoconfiança; outros chafurdam de tanga em ethos lamacento manosferiano, convidando-nos a mergulhar em teorias de machões, mesmo quando parecem nem gostar assim tanto de mulheres. Outros, ainda, assumem-se como profetas do medo, espalhando a palavra, seja ela sobre Gates, a vacina, o refugiado ou o senhor estrangeiro da mercearia que olha durante demasiado tempo para as raparigas. Vendem livros quase sagrados, editados à pressa, e programas orçamentais de salvação, depois fazem queixinhas sobre o peso da cruz da perseguição de uma imprensa que insiste em apontar-lhes a mentira, onde juram a pés juntos encontrar verdade.

É uma nova forma de folclore. Respostas simples para acontecimentos complexos, que o escuro é farto em vilões quando a razão não topa o que ele esconde. Teorias conspirativas sedutoras, que acendem luz sobre o vazio, exímias a agregar medos e desconfianças que tendem a tocar à maioria. O problema é que o excesso de luz não ilumina, cega. Nesta estranha devoção ao novo deus da desinformação, quanto mais a ciência explica, mais o povo saliva por mistério, superstição e impulso medieval. Na falta de critério, atiram-se pedras em vez de perguntas.

Para alguns é pobreza de espírito, mas eu vejo mais pobreza de tempo. Dez horas de trabalho, mais um par delas no trânsito, os trabalhos de casa dos filhos, o jantar por fazer… Pouco nos sobra para pensar. Restam pequenas migalhas de energia, que juntamos e engolimos à pressa com a explicação que nos pareça mais fácil, mesmo que nos prometa um milagre de pedrinha debaixo da almofada.

Ainda há quem acredite que a verdade reaparece naturalmente com um mercado livre de ideias, mas essa teoria dificilmente cola nos dias que correm. Foi pensada para o minimercado do bairro, e não para a confusão de um hipermercado global, com produtos de validade cada vez mais reduzida. Com tanta oferta e tão pouco tempo para escolher, vai-se pelo rótulo mais colorido, pela promoção de última hora ou pelo jingle que é música para os nossos ouvidos. Depois, rodeamo-nos só de iguais, partilhamos indignações, ouvimos só aquilo que já sabíamos, reforçamos certezas e esfregamos as mãos no quentinho destas novas fogueiras tribais. Cada qual de perna alçada a marcar território nos limites da bolha que escolheu, ronronando com o que queremos ouvir e rosnando a quem nos desafia o conforto daquela paz que só se encontra na ignorância.

Abriram a porta das televisões a cuspidores de fogo, vendedores de banha da cobra e músicos de algibeira, e ainda esperavam que o telespetador não começasse a bater o pezinho ao som do bailarico. A música é boa para embalar preconceito, perfeita para as palminhas sincronizadas com o tempo certo da aldrabice. Nas últimas eleições já se desenhou mais um capítulo deste novo conto folclórico. A gente juntou-se sem paus nem pedras, mas com votos de quem alinhou no feitiço e, por ironia, decidiu começar a correr atrás de bruxas que a razão nunca chegou a encontrar. O populismo está a tornar-se no novo fado nacional. Todos sabem que é mentiroso, mas poucos parecem querer deixar de o cantarolar.
Luís Fonseca de Sousa

terça-feira, 10 de junho de 2025

Lauterpacht e Lemkin em Gaza

A cidade da Ucrânia a que hoje chamamos Lviv teve vários nomes — Lemberg, enquanto parte do Império Austro-húngaro; Lwów, denominação em polaco e a atual grafia, desde que foi anexada pela União Soviética, em 1939. É possível contar a história do longo século XX europeu a partir desta localidade. Uma história que se prolonga em forma de tragédia até aos nossos dias.

Há, contudo, uma outra história, porventura ainda mais crucial, cujo epicentro é também a cidade ucraniana: a do direito internacional moderno. Num livro magistral, felizmente com edição em português, Estrada Leste-Oeste – as origens do genocídio e dos crimes contra a humanidade, Philippe Sands, professor de direito em Londres e dos mais reputados advogados em tribunais internacionais, percorre essa história, reveladora dos nossos tempos.


No livro, construído quase como um romance policial, Sands cruza a vida do seu avô (um judeu sobrevivente ao holocausto) com as de dois dos mais eminentes juristas do século XX, Hersch Lauterpacht e Rafael Lemkin. Três “judeus errantes” que passaram a juventude em Lviv, não terão falado pessoalmente, mas foram fundamentais para Sands e para compreender o século XX. Há uma outra personagem neste livro, Hans Frank, conselheiro legal de Hitler, e governador da região durante a ocupação Nazi. Eminente jurista, Frank, o “carniceiro da Polónia”, seria condenado à morte em Nuremberg.

É na Alemanha do pós-Guerra que esta história se inicia, durante o julgamento que abriria uma nova fase nos direitos humanos, quando passou a ser possível julgar líderes de um país num tribunal internacional. Lauterpacht e Lemkin foram personagens centrais, mas discretos deste processo. Devemos-lhes a tipificação dos crimes pelos quais ficaria célebre o julgamento de Nuremberg: Lauterpacht é responsável pelo conceito de “crimes contra a humanidade”, enquanto Lemkin criou o de “genocídio”.

Os dois habitantes de Lviv tiveram uma longa discussão intelectual, mas não é líquido que se tenham conhecido pessoalmente. Tendo vivido e estudado na cidade ucraniana, ambos se exilaram. Lauterpacht fez carreira em Cambridge e, em Nuremberg, fez parte da equipa de acusação britânica. Lemkin conseguiu escapar da Polónia em plena guerra, e ensinaria em Duke. No julgamento foi conselheiro da delegação norte-americana. Os dois eram simpatizantes da causa sionista e o que estava em causa naquele tribunal era para eles, também, uma questão pessoal: tinham perdido quase toda a família no holocausto, às mãos do governador Hans Frank.

Os detalhes da história são fascinantes e o debate intelectual merece ser revisitado. Afinal, na discussão entre crimes contra a humanidade e genocídio trava-se, também, uma distinção fundamental. Conquanto o primeiro conceito remete para o extermínio de indivíduos em larga escala, o segundo sugere o aniquilamento de um grupo de pessoas com características partilhadas e assenta num termo criado por Lemkin: uma amálgama da palavra grega, genos (tribo ou raça) com o termo latim, cide (matar).

Desde outubro de 2023, morreram em Gaza cerca de 60 mil palestinianos, um terço dos quais crianças. Não podemos deixar de pensar no que diriam, hoje, sobre o que se passa neste território martirizado, estes dois homens justos e de simpatias sionistas que ajudaram a moldar o direito internacional. Já o descendente de judeus Philippe Sands, cujos restantes livros mereciam edição em português, é representante legal da Palestina no Tribunal Internacional de Justiça.
Pedro Adão

Somos viciados em pressa. Se a internet falha, ficamos neuróticos

O escritor e jornalista mexicano Juan Villoro, 68 anos, anda quase sempre de porta-chaves no bolso. Não sabe bem que fechaduras abrem aqueles quatro ou cinco sonoros objetos de metal, mas o seu manuseio ajuda-o a concentrar-se nos livros. No meio das chaves está um peão de xadrez, oferecido pelo filho, que de tanto ser manipulado transferiu-se das peças brancas para as negras. Villoro compara o seu “vício” inspirador a amuletos do budismo, do cristianismo e, também, da Grécia antiga, onde alguns dos pioneiros da Filosofia se cruzaram, muitos séculos antes de serem convidados para o mais recente livro dele, Não Sou um Robô (Zigurate).

Num destes dias, de passagem por Lisboa, este artesão das palavras sentou-se conosco a pretexto desta obra em que a leitura (de preferência, em papel) entra num tabuleiro de xadrez para medir forças com a sociedade digital. E se a Inteligência Artificial, noutros tempos, já dava muito que pensar a Garry Kasparov, agora coube a Villoro convocar uma assembleia de estrategos de várias artes e ciências para o ajudar a defender a sua dama. No fim, o empate basta-lhe – e não se fala mais nisso.


Somos os humanos mais alienados da História recente da Humanidade?

Durante a Revolução Industrial, a alienação produzida pelo trabalho manual era muito óbvia. O esforço de passar dez horas numa fábrica ou numa mina tirava a pessoa de si mesma. Hoje, a alienação é totalmente diferente, porque é feliz. Passamos horas e horas no telemóvel a ver ofertas, propaganda, mulheres bonitas, jogos de futebol, notícias que aparentemente nos interessam, e percebemos isso como um benefício, quando na verdade estamos hipnotizados por um feitiço, como magia, e poderíamos estar a fazer coisas mais proveitosas.

Como escreve no livro, depender de uma prótese digital não é promessa de felicidade. Andamos equivocados?

Não, porque os telemóveis e os computadores em geral são muito úteis. A minha atitude não visa erradicar tudo isto nem considerar que cometemos um erro, mas sim valorizar outras coisas além da tecnologia digital. A literatura e a cultura em geral ajudam-nos a lidar melhor com a cultura digital, no sentido de a compreender e de a criticar.

Defende que a tecnologia digital traz mais ameaças do que benefícios. Quais são as principais ameaças?

Por um lado, a dependência total dos dispositivos. Por outro, a ameaça da automação da vida, o facto de contactarmos uma empresa do Estado e sermos atendidos por máquinas que nos passam a outras máquinas. É muito difícil estabelecer uma relação pessoal com um funcionário, que poderia encontrar uma forma de resolver o problema. Em vez disso, lidamos com uma máquina programada para dizer sim ou não. Outra ameaça ainda mais séria é a substituição de funções humanas pela Inteligência Artificial, algo que já acontece em muitos campos, como o jornalismo.

A dependência a que se refere inclui o scroll nas redes sociais e as consequências em termos de alienação e nas decisões que tomamos?

Temos medo de estar fora do jogo, da sensação de ficar à margem. Muitas vezes, não é que estejamos à procura de algo importante, apenas queremos estar presentes. E hoje o nível de presença é medido pelo digital. Se vamos a algum lado, tiramos uma selfie para provar, se é um restaurante, mostramos a comida para que saibam o que comemos. Isto leva a uma escalada de intimidade tão grande que alguns casais chegam a gravar as suas relações sexuais e a publicá-las na internet. Parece que, se assim não fosse, não tinha existido. A imagem digital tem valor notarial, certifica que aconteceu. Vale a pena distanciarmo-nos, como vimos no recente apagão na Península Ibérica. Eu estava em Madrid e, depois da ansiedade inicial, as pessoas saíram à rua, leram livros, jogaram às cartas, conversaram, fizeram exercício, reuniram-se a ouvir rádio. Esta vida comunitária pode existir. Não se trata de acabar com o digital, mas de combiná-lo com outras formas de convivência mais benéficas.

É tóxica a nossa relação com o telemóvel? Como ironiza no livro, o aparelho não reclama por afetos…

É uma relação de amor fundada numa farsa. Em última análise, é uma relação narcisista, porque o telemóvel conhece o dono melhor do que ninguém, portanto, responde o que o dono quer ouvir. Não o confronta e submete-se a tudo. O que lhe devolve é um espelho dele próprio. Já o livro é melhor companhia, porque interpela, desafia e obriga-nos a conhecer coisas que ignorávamos de nós mesmos. A diferença é que o telemóvel repete o que já sabíamos e o livro leva-nos a descobrir zonas ocultas das nossas vidas.

Além de narcisista, alega que a relação com o telemóvel é paranoica. Porquê?

Porque tudo o que dizemos fica gravado no telemóvel, inclusive quando não o estamos a ditar para o microfone. Falamos com alguém sobre uma viagem de praia, e o telemóvel começa a mostrar-nos ofertas de viagens de praia. Além de que muitos dos novos crimes são digitais.

Disse que ninguém nos conhece melhor do que o nosso telemóvel. Nem a CIA, a Mossad, os serviços secretos chineses…?

O Caso Snowden revelou que grande parte do trabalho da CIA é direcionado a cidadãos comuns. O que não sabemos é que esse dispositivo que nos conhece melhor do que qualquer pessoa pode transferir os nossos dados. Hoje, a maior mercadoria do planeta são os dados pessoais e não sabemos onde o seu tráfico acaba. Tanto podem acabar na CIA, no KGB, na China como podem acabar na Google ou na Amazon.

Somos a mercadoria mais valiosa do planeta?

Sim, tornámo-nos mercadorias e isso é tremendo. Também há muitas formas de monitorizarem os nossos hábitos. Mais cedo ou mais tarde, o telemóvel oferece-nos algo que queremos, mas nem havíamos expressado, como um automóvel à medida do nosso gosto e orçamento, levando-nos a pensar que chegámos lá sozinhos, porque o algoritmo opera por semelhança com pesquisas anteriores, das quais deixamos rasto, que se transforma numa espécie de ditadura. Ao contrário, a cultura muda o nosso paradigma. Abrimos um livro de um escritor russo, japonês ou mexicano e não sabemos onde nos vai levar, se vamos gostar e o que vai dizer sobre nós.

Se escolhermos um e-book, também nos expomos mais a algoritmos?

Sim, porque o e-book lê-nos. Sabe onde ficamos mais tempo, do que mais gostamos, que frase sublinhamos, tudo isso.

A informação em papel proporciona um maior potencial de conhecimento?

Claro. Uma das coisas mais gratificantes sobre jornais impressos é a sucessão de informações. Na primeira página está o jornalismo de necessidade, o novo campeão de futebol, o novo Papa, o que aconteceu nas negociações de paz para a Ucrânia. Mas, à medida que viramos páginas, surgem outras notícias e, de repente, deparamo-nos com algo que não sabíamos e que pode interessar-nos, seja uma situação pessoal, científica, religiosa ou desportiva. E isso é maravilhoso. O problema com a leitura online é que ela é muito útil quando já sabemos o que procuramos, mas, pelo caminho, ao fazermos scroll, aquele assunto parece infinito e não encontramos mais nada.

A voragem da informação online prejudica a capacidade de entender o mundo à nossa volta?

O mais importante sobre a cultura é que ela nos dá um mapa para entender a realidade. E esse mapa de compreensão pode ser tão amplo quanto os nossos interesses. Podemos aprender sobre o nosso bairro a partir de um romance local ou sobre o universo num livro científico. Esse mapa geral permite organizar o mundo e estabelecer associações entre diferentes partes da realidade. Portanto, se tivermos essa preparação, poderemos entrar mais facilmente no mundo digital e tirar dele o que é mais benéfico para o nosso mapa.

Confirmar informações divulgadas nas redes sociais parece dar muito trabalho. É mais fácil ler, dar crédito e comentar?

Vivemos no mundo da pós-verdade. O dicionário Oxford escolhe uma palavra a cada ano para retratar a realidade e, em 2016, quando Trump venceu a sua primeira eleição, escolheu essa, que nada mais é do que o uso ideológico da mentira. E o Washington Post deu-se ao trabalho de contabilizar as mentiras certificadas que Trump proferiu no seu primeiro ano no cargo, que foram cerca de duas mil, o que é uma loucura. Pode governar-se a mentir. Significa isto que a verdade já não importa? Pelo contrário, há tanta mentira, há tanta notícia falsa, sites que dizem que a Terra é plana, que os humanos nunca pisaram a Lua, que o Holocausto não aconteceu, etc., que a verdade tornou-se mais importante do que nunca. Nem sempre se alcança, mas acredito que o trabalho do jornalismo, da literatura e da cultura tem que ver justamente com manter viva a chama da verdade. Não podemos desistir de conhecer a realidade comprovável e verificável.

Ainda assim, tornou-se mais fácil para os políticos manipularem e atraírem pessoas com ideias populistas e extremistas?

Claro, porque as redes sociais também fomentaram uma lógica exclusivamente binária, na qual ou se é a favor ou se é contra, sem nada no meio, o que sem dúvida favorece os populistas extremistas, que tentam radicalizar o discurso e espalhar a ódio. E há uma esperança injustificada a dizer: “Vamos tornar a América grande novamente.” Isso não significa nada. É apenas um anúncio.

Resgatado ao passado.

Exatamente. E falhou no passado. É incrível como coisas que já falharam são apresentadas como novidades positivas. O facto de se tomarem decisões pelas redes sociais explica em grande parte a ascensão de políticos populistas como Bolsonaro, Trump, Milei e Salvini. Portanto, a cultura é um instrumento de resistência política ao pensamento único e ao pensamento binário, em defesa do pensamento complexo.

O conhecimento sobre esse passado poderia mudar os pratos na balança?

Temos uma crise de passado. As novas gerações vivem num eterno presente, o presente das redes, e consideram que o passado não só já passou como está obsoleto. É grave, porque a transmissão de valores que constroem uma tradição passava de geração em geração. Mas esse trânsito está muito fraco hoje. Milan Kundera disse que vivemos num planeta de inexperiência, porque acreditamos que tudo acontece pela primeira vez e começamos do zero. E isso permite que um partido político como o Vox, em Espanha, diga o mesmo que dizia o Falange de Franco antes da guerra civil. Uma das grandes virtudes da cultura é justamente obter lições do passado que podem ser atuais. É por isso que os povos indígenas da Amazónia, no Brasil, cunharam uma frase que considero muito preciosa: o futuro é ancestral, ou seja, as soluções para muitas coisas estão entre nós há muito tempo.

Por quanto estão os algoritmos a ganhar aos filósofos no campeonato de influenciar a opinião pública?

O problema é que os algoritmos são infinitos e, por outro lado, Spinoza, Schopenhauer ou Kierkegaard não vão falar connosco de uma maneira especial. Eles não vão sussurrar-nos coisas agradáveis ao ouvido, são professores exigentes, querem ver-nos a argumentar. O telemóvel é um espelho distorcido de nós mesmos, enquanto a Filosofia é uma janela. São cristais diferentes.

Como é a sua relação com os livros?

É caótica, mas espero que seja produtiva, porque é uma relação muito intensa. Perdi muitos livros. Escrevi um infantil, chamado O Livro Selvagem, que não quer ser lido. Muitas vezes tive a sensação de estar à procura de um livro que não está nas livrarias nem nas bibliotecas, e por isso encontrar este pareceu-me fascinante.

A julgar por este último, Não Sou um Robô, arrisco dizer que centenas de livros contribuíram para a sua escrita.

Sim, é uma discussão coletiva, pois não sou especialista no assunto. Ninguém o pode ser, porque somos os bárbaros de uma nova era. Não sabemos o que está a acontecer. Estamos na costa de um oceano cujos limites desconhecemos. Então, valia a pena conectar diferentes especialistas. Cito astronautas, espiões, economistas, teólogos, filósofos, romancistas, pessoas que refletiram sobre o assunto, porque nos diz respeito a todos. Tentei estabelecer uma conversa social porque não a encontrei na realidade. A literatura pode ser esse veículo.

Resultou num exemplar que traz outra capacidade que destaca na literatura: a de interligar conhecimentos.

Gostei muito de ouvir isso, porque o formato do livro é um pouco um espelho das preocupações contemporâneas. Há muita informação dispersa, há um limiar de atenção limitado, então eu queria criar passagens curtas e significativas que estabelecessem pontes entre diferentes formas de conhecimento para oferecer um retrato da realidade. Um dos grandes perigos da especialização é que os académicos sabem cada vez mais sobre cada vez menos. Falta conhecimento geral. Na Grécia Clássica, por exemplo, Aristóteles podia discutir ciência, astronomia, saúde, política, teologia. Este livro é sobre criar essa comunidade com recursos da crónica e do ensaio.

A velocidade a que hoje se vive é inimiga do conhecimento?

Uma das coisas mais interessantes sobre o Oráculo de Delfos eram os lemas, cujo mais conhecido é o “Conhece-te a ti mesmo”. Mas outro é fazer tudo com equilíbrio. No livro, falo sobre um diálogo com Platão em que Sócrates diz: a linguagem pode ser um alívio ou um veneno. Todas as coisas que curam também podem matar. Tudo depende do equilíbrio, da dose. E o mesmo ocorre com o uso do tempo. Há coisas para as quais precisamos de pressa, outras para as quais é melhor a lentidão. Hoje, somos viciados em pressa. Queremos chegar a todos os lugares mais rápido, queremos informações instantâneas na internet. Se a internet falha, ficamos neuróticos. Precisamos de uma nova liturgia, não religiosa mas laica, para gerir o tempo de maneiras diferentes, porque tudo isto é aprendizagem social, o mundo digital não cria a sua pedagogia. Seria muito útil se as escolas trabalhassem, por exemplo, com os pais, que não sabem como se relacionarem com os filhos. Há muitas coisas que estão a acontecer connosco e às quais não estamos a prestar atenção.

Com a licença de Mark Twain, os relatos sobre a morte do livro são manifestamente exagerados?

Sim, totalmente. O problema é que os humanos adoram notícias sobre o fim dos tempos. Quando um grande pensador morre, os jornais dizem: “O último humanista morreu.” É fascinante que algo seja o último e que sejamos testemunhas dele. Um grande paradoxo foi o do grande comunicador canadiano Marshall McLuhan, que profetizou o fim do livro num livro magnífico, chamado A Galáxia de Gutenberg. O sucesso da obra mostrou que o livro tinha futuro, por muito que a mensagem do autor versasse sobre o fim do livro. 

segunda-feira, 9 de junho de 2025

Pensamento do Dia

 


Vivemos crise da verdade e crise do clima

Na semana passada aconteceu algo estranho. Fui ao Rio Grande do Sul participar do programa Fronteiras do Pensamento e fiquei pouco mais de 40 horas desligado dos jornais. Quando voltei, levei um choque. Tudo me pareceu caótico e inquietante. Os voos que servem aos Correios tinham sido suspensos, Trump cortara o visto de estudantes estrangeiros, senadores e deputados estão envolvidos no escândalo do INSS, o governo gastara milhões em passagens num tempo de fáceis comunicações eletrônicas. Cheguei a dizer:

— Onde é que vamos parar?

Mas, imediatamente, lembrei que, noutras épocas, ironizava os velhos que reclamavam de um curso do mundo que já não podiam compreender. Será que agora é a minha vez de fazer esse papel? O único detalhe a meu favor é que, hoje mais que nunca, os contornos entre realidade e fantasia se dissolvem.


Não se trata apenas da discussão sobre bebês reborn com projetos na Câmara e longos comentários na televisão. Recebi no celular uma entrevista produzida por inteligência artificial em que entrevistados e entrevistador eram falsos. A especialista que analisava o vídeo registrou apenas alguns movimentos suspeitos na mão de uma entrevistada. Nenhum de nós percebeu, e é um tipo de problema que resolverão logo. O título do vídeo era “Acabou para nós”, pois ele foi analisado da perspectiva de editores, que se tornaram supérfluos com a IA.

Num mundo em que a quase totalidade das profissões pode desaparecer, é natural a inquietação. Assim como sermos dependentes das máquinas para um exame médico, uma operação, um trabalho intelectual e, o que já se mostrou espantoso, o protagonismo nas guerras. A Ucrânia ataca a Rússia com drones, Israel usou IA para definir alvos de bombardeio.

Vi um filme chamado “Mountainhead” na TV. Conta a história de um encontro de quatro bilionários da internet. Têm plataformas, produzem aplicativos e olham o mundo do alto de sua fortuna e poder. Trata-se de um filme apenas. Mas eles me interessam também porque, no fundo, esse tipo de pessoa é a grande adversária da tentativa de atenuar a crise climática. São aceleracionistas, querem ir para a frente, na suposição de que ciência e tecnologia resolvem tudo e, em último caso, a conquista espacial abrirá novos espaços de vida — e a própria imortalidade nos será dada pelos computadores.

Os gregos já advertiam sobre o perigo da prática humana que desconhece limites. Ela é o estopim da tragédia. Por isso diferenciavam sagacidade e sabedoria. O coro na obra de Sófocles afirma: a felicidade depende da sabedoria em todos os sentidos.

Todo este momento confuso me fez entender melhor os velhos que talvez ironizasse porque tinham dificuldade de compreender o curso do mundo. Onde é que vamos parar? Essa é a pergunta que faziam com insistência e que, hoje, sem subestimar sua perplexidade, parece-me muito mais angustiante. Estamos diante de uma catástrofe climática e da substituição da verdade pelas falsas versões. Os velhos não têm acesso a uma felicidade exuberante.

Sempre cito Samuel Beckett: não se passa um dia sem que algo seja acrescido a nosso saber, desde que suportemos as dores. Hoje imagino que Beckett tenha se inspirado no Eclesiastes, também citado por Giordano Bruno em 1588: “Aquele que aumenta seu saber, aumenta seu pesar”. Tudo isso não implica conformismo, pelo contrário. Sabendo distinguir o que é passível de transformação e o que não é, talvez seja possível conduzir a serenidade necessária para enfrentar este mundo confuso.

Resolvi abordar o tema pois há muitas maneiras, além do espelho, para descobrir que envelhecemos. Uma delas é essa inquietação sobre onde pararemos, num planeta ameaçado pelo desastre e por aqueles que querem marchar aceleradamente em sua direção, embalados pelos lucros e fantasias das 
big techs.

Há uma criança na rua

A esta hora, exatamente, há uma criança na rua.
É dever do homem proteger o que cresce,
Cuidar para que não tenha uma infância dispersa pelas ruas,
Evitar que naufrague seu coração de barco,
Sua enorme vontade de pão e chocolate,
Caminhar por seus países de bandidos e tesouros
Pondo-lhe a esperança no lugar da fome.


De outro modo é inútil ensaiar na terra a alegria e o canto,
De outro modo é absurdo porque de nada vale se há uma criança na rua.
Importam duas maneiras de conceber o mundo:
Uma, ser alguém como as outras pessoas ou
Arrancar cegamente dos demais a bolsa.
E a outra, um destino de salvar-se com todos,
Comprometer a vida até o último náufrago.

Como se pode dormir de noite se há uma criança na rua?
Exatamente agora, se chove nas cidades,
Se desce o nevoeiro gelado no ar
E o vento não é nenhuma canção nas janelas,
Não deve andar o mundo com o amor descalço
Levando um diário como uma asa na mão.

Trepando nos trens, provocando-nos o riso,
Golpeando-nos como um anjo de asa cansada,
Não deve andar a vida, recém-nascida, já lutando,
A meninice arriscada a um pequeno ganho,
Porque então as mãos são dois fardos inúteis
E o coração, apenas uma má palavra.

Eles esqueceram que há uma criança na rua,
Que há milhões de crianças que vivem na rua
E uma multidão de crianças que cresce nas ruas.
A esta hora, exatamente, há uma criança crescendo.

Eu a vejo apertando seu coração pequeno,
Olhando para todos com seus olhos de fantasia,
Percorrem e olham para o homem rico,
Um relâmpago forte cruza seu olhar,
Porque ninguém protege essa vida que cresce

E o amor se perdeu como uma criança na rua.

Armando Tejada Gómes