quarta-feira, 4 de junho de 2025

Agressão a Marina é sobrevivência da escravidão no Senado

Acabamos legalmente com a escravidão em 1888, mas a escravidão não nos deixou. Ela sobrevive nos costumes e no comportamento dos reacionários que abominam a vertente igualitária legitimadora das divergências constitucionais nas democracias.

A escravidão foi abolida, mas não abolimos essas expressões coléricas, reveladoras de quem se pensa senhorialmente e, assim, se arroga a distribuir inferioridade aos adversários, numa clara aversão à equidade.

São rotineiras as manifestações anti-igualitárias no nosso mundo de pessoas “livres”, mas que não são consideradas iguais entre si, como comprova a vergonhosa emboscada que alguns senadores armaram para a ministra Marina Silva.


Agressões verbais destinadas a inferiorizar são comuns em ambientes igualitários como o trânsito, as filas e outros espaços onde somos obrigados a esperar ao lado de desconhecidos — essa gente que não sabemos classificar—, o que os torna candidatos a uma inferioridade tácita.

Na minha obra, tenho afirmado que esses rituais de inferiorização social são resto abominável de uma sociedade escravocrata, aristocrática e patrimonialista, dominada por letrados estadomaníacos, convencidos de que a sociedade será resolvida por um Estado onipotente, administrado por sábios-salvadores inimputáveis.

Dessa estadolatria decorre um triste axioma do poder à brasileira: a correspondência entre impunidade e cargos públicos, cujos ocupantes, blindados por suas prerrogativas, são isentos de igualdade. Num livro baseado em pesquisa, intitulado “Fila & democracia”, publicado em 2017, Alberto Junqueira e eu demonstramos essa ojeriza à equidade — essa hóspede indesejável dos regimes democráticos.

Sentimos a tonelagem dessa questão quando nos damos conta de que, por quatro séculos, espaços públicos inquestionavelmente ordenados por senhores e escravos foram formalmente redefinidos pela República. Um regime que os reacionários leem como subversivo, pois como adotar liberdade e igualdade numa sociedade que amarrava casas-grandes e senzalas? O senhor e o escravo, como disseram Joaquim Nabuco e Gilberto Freyre?

Como institucionalizar a igualdade numa coletividade formada por negros africanos escravizados, senhores autocráticos e por bacharéis fazedores de leis universais válidas somente para seus adversários? Como um sistema fundado no “cada qual sabe bem seu lugar” não reagiria a uma incômoda equidade?

Uma saída desvirtuada para a igualdade como valor é esse conjunto de expressões saudosas das antigas hierarquias: “Ponha-se no seu devido lugar!”, “Quem você pensa que é?”, “Você sabe quem eu sou?”, “Quem manda aqui sou eu!”, “Se continuar assim, dou-lhe voz de prisão!”.

E o assustadoramente anti-igualitário “Você sabe com quem está falando?”, que, neste país onde todo mundo é culto e progressista, além de conhecedor de política e sociologia, jamais foi analisado como rito autoritário, revelador de uma palpável nostalgia da escravidão hierárquica. Sistema escravocrata formador do nosso sistema cultural, em que o saber do seu lugar era (e ainda é) algo prescritivo e imprescindível.

Tais expressões não são anedotas passageiras ou mera falta de educação aplicável a desconhecidos ou adversários políticos. Não! Além de sua desprezível selvageria política, elas são expressões de uma história que requer bocas mais fechadas e olhos mais abertos.

Impossível apagar um passado que se reafirma nos particularismos ilegais e nas ambiguidades e malandragens do jogo político, que, numa democracia, não deveria ser um jogo, mas um seriíssimo trabalho de construção e correção nacional.

Quando o planeta adoece, também adoecemos

A relação entre o comportamento humano e as mudanças climáticas vai além da simples causalidade: envolve também a forma como reagimos aos impactos dessas transformações e como buscamos nos adaptar a um mundo em constante mudança.

Em outubro de 2024, a revista Nature publicou uma matéria importante sobre os impactos da crise climática na saúde mental da população. Recentemente, participei de um fórum que discutia justamente os efeitos da crise ambiental sobre jornalistas especializados no tema. Um debate urgente e necessário, especialmente diante do aumento na intensidade e frequência de desastres climáticos ao redor do mundo.

Na reportagem da Nature, uma pesquisa realizada nos Estados Unidos revela que 16% dos americanos relatam ao menos um episódio de sofrimento psicológico relacionado às mudanças climáticas. Esses impactos, no entanto, não são sentidos de forma igualitária. Pessoas em situação de vulnerabilidade — com poucos recursos socioeconômicos, crianças, idosos, gestantes, povos indígenas, pessoas com deficiência — estão entre as mais afetadas.

Um dado chamou especialmente minha atenção: indivíduos que já passaram por eventos climáticos extremos tendem a se engajar mais em ações voltadas à preservação do clima. Esse ponto toca diretamente um campo de estudo ainda pouco conhecido, mas cada vez mais relevante: a psicologia ambiental e climática.


Focado nas dimensões emocionais e cognitivas da crise climática, esse ramo da psicologia busca compreender como indivíduos e sociedades processam mentalmente a degradação ambiental e as ameaças ao planeta.

Além de explorar sentimentos como ansiedade, medo, luto e desesperança — cada vez mais comuns em tempos de crise —, esse campo também investiga mecanismos de defesa psicológica, como a negação e a racionalização, e tenta entender por que o conhecimento sobre o problema nem sempre leva à ação.

Embora relativamente nova no debate climático, a psicologia ambiental existe há cerca de 40 anos. No início, focava principalmente na relação do ser humano com espaços físicos — o ambiente doméstico, os locais de trabalho, áreas urbanas. Com o tempo, a abordagem se expandiu e se aprofundou, acompanhando a complexidade da crise ambiental. Hoje, é uma ferramenta essencial na construção de políticas públicas e na promoção de mudanças coletivas.

O livro The Psychology of Collective Climate Action (A Psicologia da Ação Climática Coletiva) é uma verdadeira aula sobre teoria psicológica e motivação, especialmente voltada para grupos ativistas. Uma leitura recomendada para quem deseja entender como mobilizar pessoas em torno de uma causa comum. Pode-se fazer download do livro de forma gratuita aqui.

Afinal, as grandes transformações da história da humanidade sempre nasceram da ação coletiva. E quanto mais nos basearmos em conhecimento científico para fortalecer esses movimentos, maiores serão nossas chances de proteger o que ainda pode ser salvo.

Sob o comando das big techs

O secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, revelou o propósito do governo Donald Trump de sancionar autoridades estrangeiras que afetem a “liberdade de expressão” conduzida pelas big techs. A instantaneidade que impera em nossos tempos desatou, rapidamente, na mídia e nas redes sociais, recriminações agressivas endereçadas ao ministro do STF Alexandre de Moraes.

Devo acentuar a palavra instantaneidade. Ela significa os modos linguísticos que se apresentam na sociabilidade das redes sociais. Sociabilidade construída no interior das plataformas. Assim funcionam as comunicações e as opiniões que circulam no Facebook, Instagram, WhatsApp e X (outrora Twitter).

O economista Yanis Varoufakis arrisca seus neurônios para definir as transformações que levaram as economias de mercado a desaguarem no regime tecnofeudal. Suas peripécias conceituais apontam a substituição dos mercados por plataformas de negociação digital. Elas parecem, mas não são, mercados. Essas plataformas são semelhantes aos feudos. Assim, argumenta Varoufakis, o lucro, motor do capitalismo, foi substituído por seu predecessor feudal: a renda. Especificamente, é uma forma de aluguel que deve ser paga pelo acesso a essas plataformas e à nuvem de forma mais ampla.


Elon Musk invocou a liberdade de expressão para atacar o STF na pessoa do ministro Alexandre de Moraes. A propósito dessa reivindicação libertária muskiana e trumpista, peço licença para cometer a ousadia de perpetrar algumas considerações inspiradas em autores que trataram do mundo das plataformas.

Franco “Bifo” Berardi esclarece as diferenças estruturais entre as funções institucionais de Moraes e o modo de operação das plataformas na defesa da liberdade de expressão. Berardi estabelece uma distinção entre as formas tecnológicas dominantes no antigo “sistema de máquinas” e aquelas impulsionadas pelos avanços da inteligência artificial, da internet das coisas, da nanotecnologia e da robótica.

“Passamos de um regime disciplinar a um regime de controle. No primeiro caso, a máquina se constituiu diante do corpo e da mente humana, era externa em relação ao corpo que permanecia corpo pré-técnico. Por isso, o corpo-mente devia ser regulado normativa, legal e institucionalmente, para, em seguida, ser submetido ao ritmo das máquinas concatenadas. No segundo caso, o que se nos apresenta hoje, a máquina não está mais diante, e sim dentro do corpo, dentro da mente, e os corpos não podem se relacionar nem a mente se expressar sem o suporte técnico da máquina biopolítica. Por isso, não é mais necessário o trabalho de disciplinamento político, legislativo, jurídico. O controle se dá inteiramente a partir da própria máquina interna. Não somente a máquina, mas sua concepção também sofre uma mutação nessa passagem. Na época digital, a máquina é diferença de informação, não exterioridade, mas sim modelação linguística, automatismo lógico e cognitivo”.

Em entrevista à “Folha de S. Paulo”, Stuart Russell, professor de ciência da computação da Universidade da Califórnia-Berkeley afirmou: “Estamos construindo sistemas cada vez mais poderosos que não entendemos e não controlamos. Temos de resolver o problema do controle. Os governos deveriam exigir que as empresas garantam que seus sistemas se comportem adequadamente.

Evgeny Morozov, no livro “Big Tech”, citou o debate entre Gilles Deleuze e Antônio Negri nos anos 90 do século passado, quando as formas tecnológicas, hoje dominantes, já mostravam suas forças. “Como disse Gilles Deleuze em conversa com Antônio Negri em 1990, ‘Em face das formas próximas de um controle incessante em meio aberto, é possível que os confinamentos mais duros pareçam pertencer a um passado delicioso e benevolente’. Essa conexão entre a aparente abertura da nossa infraestrutura tecnológica e o grau cada vez maior de controle continua a ser pouco compreendida”.

Nesse processo de autotransformação, é importante compreender que a materialidade do sistema de máquinas entrega sua alma ao comando do “General Intellect”. Assim, um certo Karl Marx, ainda no século XIX observou: “... o desenvolvimento do capital fixo (sistema de máquinas) indica o grau em que o conhecimento social se tornou uma força direta de produção e em que medida, portanto, o processo da vida social foi colocado sob o controle do General Intellect e passou a ser transformado de acordo com ele”.

Em seu desenvolvimento, a Indústria 4.0 exprime o avanço do sistema de máquinas promovido pelo General Intellect. A nova fase da digitalização é conduzida pelo aumento do volume de dados, ampliação do poder computacional e conectividade, a emergência de capacidades analíticas aplicada aos negócios, novas formas de interação entre homem e máquina e na transferência de instruções digitais para o mundo físico.

Não são desprezíveis as turbulências sociais disparadas pelo avanço das formas tecnológicas embutidas das big techs. A aceleração do progresso tecnológico desloca um contingente significativo de trabalhadores para atividades de baixa qualificação, o que deprime a produtividade a capacidade de consumo dos trabalhadores submetidos ao emprego precário e intermitente. Na outra ponta do espectro social, as plataformas incitam as ambições de poder dos oligarcas que as controlam. O governo Trump levou ao paroxismo os impulsos desses poderosos senhores que ambicionam o controle privado do Estado americano.

As redes sociais devem ser observadas no âmbito dessas transformações tecnológicas. Prometidas como o espaço do movimento livre das ideias e das opiniões, se transformaram num calabouço policialesco em que o debate livre de ideias é substituído pela vigilância e pelo cancelamento. A vigilância exige convicções esféricas, maciças, impenetráveis, perfeitas. A vigilância deve adquirir aquela solidez própria da turba enfurecida, disposta ao linchamento.

segunda-feira, 2 de junho de 2025

Pensamento do Dia

 


De Auschwitz a Gaza

Gaza foi transformada no maior campo de concentração a céu aberto jamais conhecido pela humanidade. Um inimaginável “corredor da morte” onde o povo palestino, mais da metade crianças, aguarda a condenação sem sursis ditada pelo inimigo luciferino assustadoramente belicoso e perverso. E, na mesma medida, covarde. O governo sionista de Israel promove, há meses, sob as vistas cegas da comunidade internacional, cínica, uma declarada limpeza étnica. Nesse verdadeiro “campo de concentração e extermínio” os desgraçados não caminham com seus próprios pés para as câmaras de gás a que eram condenadas as vítimas do nazismo: são destroçados pelas bombas do moderníssimo exército do Estado de Israel, fundado em 1947 sob os auspícios da ONU exatamente para garantir um lar ao povo sobrevivente do holocausto. Como os judeus de ontem, os palestinos de hoje não têm condições de defesa; mas sobre eles (como se a fome, o vilipêndio e o roubo de suas terras não fossem suficientes) um poderoso exército – aviões supersônicos, drones, mísseis, tanques de guerra e toda sorte de artilharia –vomita bombas. Trata-se de um genocídio operado às claras e à sombra da iniquidade moral de uma comunidade internacional que a tudo assiste impassível. Ao contrário dos prisioneiros do campo de concentração de Auschwitz, as vítimas de hoje não podem sonhar com a libertação do Exército Vermelho, que em janeiro de 1945 avançou sobre a Polônia a caminho de Berlim. Ninguém marcha em seu socorro. Estão abandonadas “à própria sorte”, que se tem revelado madrasta.

Os que escaparem do cerco de Gaza já estão condenados à ausência de futuro: sem pátria e sem terra, não terão para onde ir. São pobres, e não dispõem de uma cadeia de proteção espalhada pelo mundo; são os novos condenados da terra. Sem “salvação prometida”, foram condenados ao desterro, caminharão sem destino, desfeitos os sonhos, perdidas as esperanças mais modestas.

Em 1947, a Palestina, então ocupada por 600 mil judeus e 1,3 milhão de árabes (dos quais cerca de 700 mil palestinos foram expulsos), seria partilhada para que ali se instalassem dois Estados, um judeu (o futuro Estado de Israel) e outro árabe. O primeiro se estabeleceu, e sabe-se o que é ele hoje. O outro, passados 78 anos, aguarda o reconhecimento internacional que lhe é negado. Lideram a recusa os EUA e sua coorte: Reino Unido, Alemanha e a maioria da União Europeia. Israel ocupa e bloqueia os territórios palestinos da Cisjordânia, de Jerusalém Oriental e de Gaza, onde deita e rola desde a invasão de 1967, no curso da “Guerra dos Seis Dias”.

Os palestinos de Gaza são um povo cativo em país ocupado para ser destruído, hermeticamente bloqueado, privado de combustível, eletricidade, água, alimentos e remédios, com sua infraestrutura civil destruída, as escolas postas abaixo, e os hospitais à mercê dos bombardeios. As estimativas falam em algo como 35 e 45 mil vítimas civis. Mais de 15 mil crianças já morreram, e a ONU adverte que outras, mais de 15 ml bebês, ainda podem morrer se o governo de Israel continuar bloqueando a entrada de alimentos e remédios. A propósito, o insuspeitíssimo Estadão (29/5/25), claramente vinculado aos interesses da direita internacional, reproduz matéria de agência de notícias estrangeira sob o seguinte título: “Palestinos famintos invadem centro de distribuição de comida”. Abaixo estampa foto de multidão de jovens e velhos, todos famélicos, disputando uma cuia de farinha ou um naco de pão.

Enquanto a comunidade internacional se omite, e o sionismo aplaude os crimes de guerra, Ehud Olmert, ex-primeiro ministro de Israel (2006-2009), define a política sionista como “perversa, maliciosa e irresponsável”. É preciso ouvi-lo:
“Netanyahu, tipicamente, tenta obscurecer o tipo de ordens que vem dando, a fim de se esquivar de responsabilidade legal e criminal no devido tempo. Mas alguns de seus lacaios dizem isso abertamente: ‘Sim, vamos matar Gaza de fome’”. Acusa: “Israel está cometendo crimes de guerra”.

Ehud Olmert certamente identifica como lacaios do genocida personagens como o ex-ministro e ex-deputado e líder direitista Moshe Feiglin, fundador do Zehut. Vejamos o que declarou em entrevista ao Canal 14, da televisão israelense:
“Toda criança, todo bebê em gaza é um inimigo. O inimigo não é o Hamas, nem a ala militar do Hamas. Toda criança em Gaza é um inimigo. Temos que conquistar Gaza e colonizá-la e não deixar uma só criança lá. E não há outra vitória”.

O conteúdo do áudio foi registrado pelo The Guardian e correu o mundo, sem, contudo, despertar o menor interesse da grande imprensa brasileira.
Ao contrário dos nazistas, que tentavam esconder o holocausto, o genocídio levado a cabo contra os palestinos é escancarado, exposto ao mundo, tonitruado e exaltado pelos dirigentes de Israel e dos EUA, a potência imperial que lhes fornece apoio político, econômico, militar e logístico. Ao contrário do povo alemão, que alegava desconhecer os consabidos crimes do nazismo, a população de Israel aplaude o genocídio.

Segundo pesquisa encomendada pela Penn State University, e analisada por Tamir Sorek, “82% dos judeus-israelenses apoiam a limpeza étnica de Gaza, enquanto 56% apoiam a expulsão de palestinos com cidadania israelense, comumente designados pelo léxico colonial como árabes-israelenses, e 47% concordam com a matança de palestinos em áreas conquistadas por Israel”. A visão fundamentalista, messiânica e supremacista, todavia, não muda, quando, diz a pesquisa, é ouvido o público secular: “69% dos secularistas apoiam a expulsão forçada dos moradores de Gaza, e 31% deles veem o extermínio dos moradores de Jericó como um precedente que as Forças de Defesa de Israel (IDF, na sigla em inglês) deveriam adotar.”

Os últimos acontecimentos, porém, e o temor de que a barbárie sionista torne impossível o retorno dos reféns ainda nas mãos do Hamas, podem mudar o quadro interno. Registram-se as primeiras reações populares contra os reiterados crimes de guerra do Estado sionista. Manifestações de protestos surgem em várias capitais europeias.

A tudo o que se sabe e não se pode mais ignorar, a imprensa maistream batiza de “a guerra de Gaza”, como se estivéssemos em face do confronto entre dois exércitos. Assim participa da “guerra”, manipulando a informação, uma de suas frentes mais importantes. Ecoa a narrativa ideológica que interessa a sionismo, e ainda distorce ao reiterar que as ações militares têm os guerrilheiros do Hamas como alvo, quando qualquer análise fria põe a nu que o objeto dos massacres é uma hedionda limpeza étnica. É preciso denunciar e repetir à exaustão.

Agências internacionais, em meados deste maio, estimavam algo entre 35 e 40 mil como o número de vítimas civis fatais em Gaza. Ainda é impossível calcular o número de feridos e mutilados e invalidados. Mas já se pode dizer que todos perderam seus bens e a cidade foi reduzida a nada. Onde já se comemorou a vida, onde um dia foi possível acreditar no futuro, apostar no sonho de um novo lar, o sionismo construiu um grande túmulo; nele se misturam vidas mortas e ruínas. Os palestinos amargam a angústia de não saberem até quando estarão vivos.

Nosso silêncio, nossa inação, como povo, como sociedade, como agentes políticos, o silêncio de nossas organizações, a apatia da academia, o sono dos sindicatos, a miséria de nossos partidos, nossa pobreza revolucionária, nosso recuo diante do establishment serão registrados pela História como cumplicidade moral.

Do nosso governo é justo esperar algo mais que a justa retórica.

A miséria nazista, que atingiu de forma bruta e até então impensável os judeus, os comunistas, os progressistas e o pensamento de esquerda de um modo geral, os homossexuais, os ciganos, os doentes mentais, os dissidentes – a miséria dos crimes de guerra cometidos na Segunda Guerra –, foi condenada tanto pela indignação ética do mundo que então se recompunha, quanto pelo direito internacional, erguido pelo poder vencedor dos aliados. O direito carece da força para se impor. Quase todos os criminosos de guerra do Eixo (afora os que se suicidaram, como Hitler) foram julgados e condenados pelo Tribunal de Nurenberg. Ocorre que os criminosos de hoje são os que controlam a força que controla o direito.

Os crimes de guerra dos EUA no Vietnã foram julgados pelo Tribunal Russell. Na altura, era o máximo possível diante da potência guerreira. Não implicou consequências objetivas, não evitou novas invasões, nem novas ocupações, nem novos crimes de guerra, mas, pelo menos, pode-se dizer que nossa consciência crítica, com aquele gesto de notável carga simbólica, rompeu com a inércia moral, e, não podendo intervir no processo histórico, deixamos nosso testemunho. A posteridade julgará os omissos.

Desprotegida do que ainda chamamos de civilização, que dela se apartou, Gaza, vazia e morta, logo se transformará na formosa Riviera dos sonhos imobiliários de Trump. Suas praias, nas margens orientais do Mar Negro, hoje interditadas, em breve estarão liberadas. Bem guardadas, serão desfrutadas por brancos europeus, norte-americanos e israelenses endinheirados, livres de palestinos e dos pobres de um modo geral. Não será ainda o grande sonho, mas pode ser a nano sugestão de uma terra prometida.
Roberto Amaral

A desumanização da política

Seja quem for o candidato à Presidência da República em 2026 — Lula, Bolsonaro ou algum de seus herdeiros políticos —, é provável que o pleito reproduza a lógica da divisão entre “nós e eles”, “petralhas” contra “bolsominions”, “esquerdistas” versus “direitistas”. O Brasil atravessa uma das fases mais polarizadas de sua história republicana. Embora a polarização não seja fenômeno novo em nossa trajetória política, ela já foi sustentada por projetos de país — como o nacionalismo, o desenvolvimentismo, o trabalhismo. Hoje, a disputa é personalizada: fulanos contra sicranos. O conteúdo cede lugar ao confronto de identidades.

A polarização contemporânea assume a forma de uma guerra simbólica, em que os adversários não buscam se vencer por meio de ideias, argumentos ou propostas, mas sim por meio de rótulos e estigmas. A linguagem política atual tende a negar a humanidade do outro, reduzindo-o a caricatura. Por isso, falamos em desumanização da política — um ciclo marcado pela intolerância, pelo ódio e por práticas discursivas que transformam o adversário em inimigo moral.

Sob essa lógica, o antagonista é visto como ser inferior, indigno de respeito, numa retórica maniqueísta em que “os bons” enfrentam “os maus”. A crítica política dá lugar à demonização do outro, tornando inviável qualquer forma de diálogo ou construção conjunta. Esse fenômeno está presente em muitos regimes democráticos, onde cresce a preocupação com o esvaziamento ético da vida pública.


Entre as causas dessa degradação, destacam-se a despolitização da cidadania, a perda de referências ideológicas e a transformação da política — antes concebida como missão — em profissão ou negócio. A lógica clientelista do “toma lá, dá cá” reforça a coisificação da política brasileira, desfigurando seu papel como instrumento coletivo de organização social.

Hannah Arendt advertia que, ao reduzir a política a simples troca de interesses, abandona-se sua dimensão transformadora. Platão e Aristóteles, ao conceberem a política como arte do bem comum, atribuíram-lhe o papel de organizar racionalmente a vida em sociedade. A política coisificada, por outro lado, fragmenta, rebaixa e ameaça os alicerces da democracia ao substituir o debate público por disputas sectárias e interesses privados.

A desumanização transforma adversários em inimigos e legitima práticas autoritárias. A escalada da polarização costuma vir acompanhada de atos violentos e atentados contra instituições democráticas. Exemplos não faltam: a invasão do Capitólio, nos Estados Unidos, em 6 de janeiro de 2021, e a depredação das sedes dos Três Poderes, em Brasília, em 8 de janeiro de 2023, são manifestações extremas de uma política que perdeu o senso de medida e o compromisso com o convívio democrático.

Arendt também alertava que a criação e manipulação do medo são instrumentos centrais nos regimes autoritários. A ansiedade social — alimentada pela crença de que determinados grupos representam uma ameaça à ordem — é frequentemente instrumentalizada por líderes populistas para justificar a concentração de poder e o ataque a direitos civis. A história oferece provas eloquentes disso.

A desumanização da política é, hoje, objeto crescente de investigação acadêmica. Estudo conduzido pelos professores Christopher D. Petsko (Universidade da Carolina do Norte) e Nour S. Kteily (Northwestern University) analisou como conservadores e liberais se percebem mutuamente nos Estados Unidos. Segundo a pesquisa, os liberais tendem a ver os conservadores como brutais e violentos, enquanto os conservadores descrevem os liberais como imaturos e infantis. A hostilidade mútua, intensificada durante a presidência de Donald Trump, deixa marcas profundas no tecido social.

Trump, com seu discurso agressivo e performático, ampliou a visibilidade de uma retórica de rancor, transformando a política em espetáculo. Ao responsabilizar imigrantes, minorias e opositores pelas crises econômicas e sociais, desviou o debate das causas estruturais dos problemas nacionais e aprofundou divisões. A cobertura midiática, aliada à viralização do discurso nas redes sociais, contribuiu para a naturalização do antagonismo e da linguagem desumanizadora.

No Brasil, a situação tem características similares, embora com nuances próprias. A polarização não se dá entre dois partidos bem estruturados, como nos Estados Unidos, mas entre campos de poder mais fluidos — governo e oposição —, muitas vezes representados por figuras que já não expressam programas políticos claros ou consistentes. A retórica se sustenta em símbolos e afetos, mais do que em ideias.

Lula, embora provenha de uma tradição progressista, governa com uma base heterogênea, que inclui partidos de esquerda, centro e direita, o que enfraquece a coerência ideológica de seu governo. Bolsonaro, por sua vez, embora se apresente como conservador, assume posições que muitas vezes colidem com esse ideário — especialmente no que diz respeito à relação com o Estado e à defesa da propriedade privada.

Diante desse cenário, cabe perguntar: como resgatar o sentido clássico de política, tal como concebido por Aristóteles — como a arte de promover a vida em comum? Como reumanizar a política brasileira?

A resposta passa, inevitavelmente, pela educação. A formação cidadã é a única via capaz de restaurar o valor da política como serviço público e espaço de convivência democrática. É pela educação que se formam sujeitos críticos, abertos ao diálogo, comprometidos com a ética e atentos ao bem comum. É pela educação que um território se transforma em Nação.

Crianças palestinas não esquecerão o que não fizemos por elas

Golda Meir deveria conhecer a força do apego humano a um chão. Dedicara a vida à criação do Estado de Israel antes de tornar-se a primeira e única mulher a chefiá-lo. Nascida na Kiev da antiga Rússia imperial (que depois se tornaria parte da União Soviética, implodiria com o comunismo e ressurgiria como capital da atual Ucrânia), a líder sionista chegou a ser portadora de passaporte palestino à época do Mandato Britânico na região.

— Os velhos morrerão, e os jovens haverão de esquecer — garantiu a colonos judeus que se assentaram em terras palestinas e se inquietavam com a rebelião dos expulsos.

Estava errada. Os velhos foram morrendo, sim. Mas não sem antes passar às gerações seguintes os nomes e as lembranças de um vilarejo, um teto, uma oliveira perdidos. Enquanto houver herdeiros desse mapa da memória palestina, o apego ao chão e ao direito de nele viver continuarão a ser repassados aos mais jovens. Ou, como escreve a tunisiano-britânica Soumaya Ghannoushi, especialista em política do Oriente Médio, “enquanto houver crianças, a Palestina vive”.


Crianças nunca iniciam guerras, mas são elas as mais indefesas — não só em Gaza, como na Ucrânia ou nas favelas brasileiras. Em março, o Ministério da Saúde de Gaza divulgou um documento de 1.516 páginas contendo o nome completo de palestinos mortos desde a resposta militar israelense ao ataque terrorista de outubro de 2023. As primeiras 27 páginas da listagem abarcam somente bebês de menos de 1 ano. Das 15.613 crianças nomeadas no documento (31% do total de mortos), quase 2.100 só chegaram a viver dois anos. No mês seguinte, com o frágil cessar-fogo atropelado por Benjamin Netanyahu, chegou a quase 17 mil o total dessas infâncias interrompidas.

Um quarto de século atrás, o jornalista Charles Enderlin, da emissora France 2, relatou ao mundo a morte de um menino palestino, Muhammad al-Durrah, de 12 anos, nos braços do pai, vítima de saraivada de balas atribuídas a disparos de soldados israelenses. A cena exibida tinha 55 segundos, enquanto o total filmado, porém jamais divulgado, dura 27 minutos. Ela fora captada pelo câmera Talal Abu Rahma, correu mundo e gerou indignação global, tornando al-Durrah mártir e símbolo cultuado da luta palestina. Hoje, amontoam-se análises documentais e versões contraditórias impedindo que se chegue a uma conclusão inequívoca do ocorrido. Ainda assim, o que pareceu ser a imagem de uma única criança metralhada até morrer nos braços do pai incendiou o mundo.

Hoje? Apesar dos números citados acima, do streaming ininterrupto de brutalidade militar contra a vida humana, vegetal ou animal de Gaza, o mundo se esconde atrás de princípios declaratórios.

— Enquanto houver crianças, escreve Soumaya Ghannoushi, as que não morreram caminham descalças pela terra arrasada, crianças de braços finos carregando irmãos ainda menores, agarrados ao que resta da família. Algumas estão cobertas de cinzas, já não choram, estão em choque. Outras gritam por nomes que não respondem. Não há segurança em Gaza, não há silêncio, não há pausa. Há apenas movimento: de fugir, de enterrar, de fugir mais. Que tipo de guerra é esta que produz uma geração de crianças sem pernas? Que Estado trava este tipo de guerra e lhe dá o nome de autodefesa?

Hoje a Faixa de Gaza tem o maior número de crianças amputadas per capita do planeta — amputações muitas vezes realizadas em condições aberrantes, sem anestesia e à luz de lanterna, como consta dos inúmeros relatórios produzidos por equipes médicas internacionais. Um número obsceno dessas crianças feridas teria sólidas chances de vida se transferidas para instalações e cuidados apropriados.

Segundo dados de um fundo assistencial com sede nos Estados Unidos (PCRF), há mais de 5 mil crianças em Gaza à espera de aprovação de Israel para ser evacuadas. Outras vezes são os países de excelência no tratamento infantil que se fazem de surdos. O Reino Unido governado pelo trabalhista Keir Starmer demorou 17 meses para aceitar receber crianças palestinas feridas — e, mesmo assim, apenas duas meninas até agora.

— Este não deveria ser comemorado como um momento de orgulho nacional, e sim de desonra nacional — desabafou Omar Abdel-Mannan, um dos médicos envolvidos na operação.

Em comparação, o mesmo Great Ormond Street Hospital londrino recebera mais de cem crianças ucranianas também vítimas da guerra. Se conseguirem sobreviver, tornar-se jovens, talvez alcançar a cidadania num mundo inglório, as crianças de Gaza não haverão de esquecer. Não esquecerão o que não fizemos.

Um país sem elites

Nenhuma sociedade pode ser indiferente à sua história. Ela transmite características que condicionam o modo como as sociedades vão se forjando. Pode até mesmo fornecer certas “vantagens”. É preciso, portanto, avaliar com rigor o “peso do passado”.

No imaginário brasileiro, porém, o passado seria uma maldição. Fomos nos acostumando a selecionar aspectos particularmente nefastos de nossa história – a escravidão, as ditaduras, as desigualdades reproduzidas ao longo do tempo – para, então, concluir que estamos avançando com bolas de chumbo presas aos pés, levando-nos a buscar modelos externos (países europeus ou os Estados Unidos) para nos inspirar. Com isso, deixamos de lado o que houve de virtuoso e “vantajoso” antes.


Num importante livro recém-publicado – Sinfonia barroca: o Brasil que o povo inventou (Ateliê de Humanidades, RJ, 2025) –, o cientista político Rubem Barboza Filho nos convida a seguir outro rumo. Com uma pesquisa minuciosa e amplo diálogo com as Ciências Sociais, ele argumenta que, no Brasil colônia, uma rala população de indígenas, negros, estrangeiros e mestiços conseguiu forjar uma sociedade impressionantemente dinâmica e aberta, que não só ocupou o vasto território de que dispúnhamos, como também ativou uma economia produtiva que atingiu o auge no final do século 18, impulsionada pelo comércio, pelo trabalho com a terra e pelo ciclo do ouro.

Aquela sociedade não cresceu estruturada, não dispôs de instituições que lhe dessem coesão nem de um poder central que a dirigisse. A Coroa portuguesa estava distante e o território era vasto demais para ser administrado por quem quer que fosse. Foi-se então constituindo uma sociedade composta de diferentes “socialidades”, sem uma estrutura clara. A população, ao se distribuir pelo território, assumiu a forma de uma multidão, que adquiriu alguma coalescência graças à elaboração de uma linguagem comum, que misturava o português, as línguas indígenas e africanas, algo de francês e espanhol, para criar uma língua nova, que aos poucos passou a ser falada por todos, funcionando como elo de coesão.

Para Barboza Filho, no decorrer dos três primeiros séculos emergiu “uma forma de vida criada de baixo para cima, num constante aprendizado da multidão de homens e mulheres comuns, economicamente dinâmica e politicamente mais aberta, socialmente complexa e mestiça no plano cultural e religioso”. A experiência teve grande originalidade e projetou a colônia para o mundo. No início do século 19, o Brasil produzia riqueza comparável à dos Estados Unidos.

Com a Independência, surge um poder central que, bem ou mal, passa a cobiçar o território de modo mercantil, concorrendo com a multidão produtiva que preexistia. Pior: avolumou-se a escravidão, que se tornou negócio extremamente lucrativo e se articulou com o “ciclo do café”. Por um lado, isso rebaixou negros e indígenas; por outro, dividiu o País entre um Sudeste rico e um “resto” quase abandonado. A própria multidão criativa perdeu dinamismo. No final do século 19, a riqueza nacional era dez vezes menor do que a norte-americana. Nem a República mudou o cenário.

Vieram depois os anos 19201930, a ditadura de Vargas com sua valorização autoritária do povo trabalhador. Mais tarde, o golpe de 1964, com sua “modernização demofóbica”. O retorno à democracia, a partir de 1985, trouxe esperanças e novas possibilidades, mas na sequência aprofundou-se o embate político entre as forças que se destacaram na transição (MDB, PT e PSDB). O Brasil entrou no século 21 com a política ficando progressivamente inoperante e alheia à nova estrutura do mundo.

O livro de Barboza Filho chama a atenção para uma de nossas chagas históricas: a inexistência de “elites”, lideranças imbuídas de um propósito maior, de uma visão abrangente e de caráter público e estatal. As “elites” que por aqui surgiram não proliferaram nem alçaram voo.

A recuperação de nosso passado “virtuoso” e dos entraves que impediram sua florescência é um desafio para nosso imaginário e nossa inteligência científica. Hoje, o Brasil não reconhece mais a si próprio, não consegue compreender a profundidade das mudanças em curso e não faz escolhas inteligentes para enfrentar os desafios atuais e aplainar o futuro. Flutua como um transatlântico à deriva, sem controle do leme. Não sabe buscar em seu povo o fator fundamental para se emancipar democraticamente. A própria política que aqui se pratica está apodrecida, sem partidos e líderes de envergadura. Focada em eleições.

Seguimos acreditando que a solução para nossos dilemas passa por figuras carismáticas ou por instituições redentoras (as Forças Armadas, o Supremo Tribunal Federal). A extrema direita grita e mobiliza, mas nada propõe. A esquerda fala em “revolução social”, mas não sabe qual é seu agente.

Poucos percebem que um programa ousado de ação precisa ser sustentado por um bloco de forças orientado por uma ideia de futuro para todos.

É um buraco com que dialogamos há décadas e que não temos conseguido ultrapassar.

À margem dos nossos cinco séculos

Escrevo esta crônica duas vezes por mês na vã esperança de prestar algum serviço intelectual ao Brasil e, principalmente, como reconhecimento pela honra que este grande jornal me proporciona.

Não sendo propriamente um guerreiro, devo confessar que às vezes me vejo abatido pela dificuldade de encontrar um fio condutor e tendo a atribuir esse fato à montanha de deficiências que acumulamos em nossos 525 anos de história. Que a situação em que nos encontramos tem muito pouco de alvissareiro é óbvio. Com algum esforço e aproveitando alguns bons momentos, poderíamos cogitar um futuro com mais chances de sorrir do que de chorar. O problema é que mal sabemos quem somos.


Até poucas décadas atrás, uma parcela expressiva dos mais instruídos acreditava que a dicotomia direita-esquerda seria suficiente para assegurar tal propósito. Hoje, é fácil ver que os fragmentos desse modo de pensar só tem o Partido dos Trabalhadores (PT) como seu depositário fiel. Pior, o PT dificilmente sobreviverá sem Lula, seu pai-siamês, e a recíproca é verdadeira. Em 2026 saberemos se esse script nos levará a algum paraíso terreno ou a um buraco sem fundo. A segunda hipótese parece mais provável, uma vez que uma robusta parcela de nossa sociedade não arreda pé da ignorância; prefere manter tudo como dantes no quartel de Abrantes a se cacetear com o que se convencionou chamar de “esfera pública”.

Fujamos, no entanto, desse macabro pessimismo. A última pedra do Muro de Berlim abriu espaço para a democracia representativa. Admitamos que pelo menos no Ocidente ela ainda quebra o galho. Mesmo em má fase e a despeito de tipos como Donald Trump, ela está longe de jogar a toalha. Mas há um senão. Dispensar a clareza conceitual ela não dispensa. Papagueando a expressão sem ânimo para penetrar em seu significado, arrimá-la como entidade histórica não será fácil. Putins, Maduros, Viktor Orbán e assemelháveis continuarão a proliferar em abundância, solapando os esteios que a sustentam. E, aqui, esbarramos num problema sério.

Se pedirmos uma definição da democracia representativa a um círculo de reluzentes letrados, desconfio de que nove em cada dez se darão por satisfeitos dizendo que democracia é um sistema político em que as posições de autoridade são preenchidas mediante eleições periódicas, assumindo seus titulares o compromisso de prestar contas de suas decisões ao eleitorado.

Aqui, desatentos, corremos o risco de fraturar o dedão do pé naquela pedra que o poeta maliciosamente deixou no meio da estrada. Tomando o conceito acima exposto ao pé da letra, quantas democracias terão existido na História? Cem, mil, 10 mil? Temo que não, caro leitor. Ao pé da letra, parece que só uma se configurou, a dos primeiros 500 anos de Roma, implantada à força pelos tribunos da plebe. Instituída há 2 mil anos, por juramento, como lei sacrossanta, a República Romana não era frágil. Era a maior potência do mundo conhecido, fato evidenciado pelo massacre de Cartago, sua rival no outro lado do Mediterrâneo.

Findo o Império Romano, no século 5 (d.C.), teremos de esperar até meados do século 16 para ouvirmos uma lucidez política comparável à altitude material e militar de Roma. Refiro-me ao chefe de Justiça ( Chief of Justice) Lord Fortescue, um dos artífices da grandeza da Grã-Bretanha. Coube ao arguto filósofo Bernard Crick recuperar uma passagem em que Lord Fortescue descreve o Reino Unido como um dominium politicum et regale, um domínio político e real, significando com tal expressão que “o rei poderia declarar a lei somente em consulta e com o consentimento do Parlamento, não obstante detivesse o poder absoluto para aplicar as leis e defender o reino”. Crick complementa: “Um regime puramente regale não seria um regime politicum”. Lord Fortescue, citado por Trevelyan, um historiador recente, não perde a oportunidade para cutucar a grande potência situada no outro lado do Canal: o sistema de justiça, mais ou menos como o conhecemos na atualidade, já era cantado em prosa e verso pelos ingleses, que o contraponteavam ao francês, “onde a tortura ainda era livremente usada”.

Foi por acaso que esbarrei nessa referência ao Judiciário francês do século 16, que me arremessou de volta a uma nota desagradável. Nós, brasileiros, talvez possamos zombar de alguns vizinhos, mas seria de bom alvitre não fazê-lo na esfera do Judiciário, em razão do risco de nos pagarem na mesma moeda fazendo menção aos rendimentos de que nossos magistrados por vezes se apropriam. Partidos políticos confiáveis nunca tivemos e não é certo que um dia os teremos. Na Primeira República (1891-1930), tivemos a comédia dos “partidos únicos”, todos “republicanos”, excetuados os dois do Rio Grande do Sul, que não eram propriamente partidos, mas facções perpetuamente belicosas. Nessa matéria, nosso triste percurso culminou no chamado Centrão, e não podemos descartar a hipótese de um partido dos “leiloeiros”, uma grande agremiação em que cada parlamentar tivesse autonomia para leiloar individualmente seu voto.

domingo, 1 de junho de 2025

Pensamento do Dia

 


Os 'especialistas'


Há, atualmente, dois tipos muito diferentes de especialistas em questões políticas. De um lado, os políticos práticos de todos os partidos; do outro, os peritos, principalmente funcionários públicos, mas também economistas, financistas, cientistas, médicos, etc. Cada grupo possui um género de habilidade. A do político consiste em adivinhar quem pode ser induzido a pensar em favor do seu partido; a habilidade do perito consiste em calcular o que é realmente vantajoso contanto que possa convencer o povo.

A habilidade específica do político consiste em saber que paixões pode com maior facilidade despertar e como evitar , quando despertas , que sejam nocivas a ele próprio e seus aliados.

Bertrand Russell

Direita mentiu sobre liberdade de expressão

A liberdade de expressão está sob ataque nos Estados Unidos. Trump está destruindo a autonomia universitária, prendendo estudantes por suas opiniões políticas e ameaçando recusar visto de entrada no país para quem criticar seu governo em redes sociais.

A culpa dessa ofensiva autoritária é de quem ficou do lado dos Elon Musks desse mundo, contra os Alexandres de Moraes desse mundo, dizendo que defendia a liberdade de expressão.

Se você fez escândalo quando as contas golpistas em redes sociais foram suspensas em 2022, lamento, foi você quem prendeu os jovens estudantes americanos pró-Palestina. Se você deu razão aos bolsonaristas contra Alexandre de Moraes, você declarou guerra a Harvard. Se você disse que Elon Musk tinha razão contra o STF brasileiro, ou se opôs aos "fact-checkers", você é pessoalmente responsável pelo estabelecimento de censura política na concessão de vistos americanos.


Lá, como aqui, a questão sempre foi simples: há movimentos poderosos que buscam destruir a democracia. O bolsonarismo aqui, o trumpismo lá. Quando as instituições democráticas reagiram, você ficou do lado de quem?

Do ponto de vista prático, é só isso que interessa, filho. Você achar que agiu por princípio não importa, seu apego à performance "acima da polarização" não importa. Se você ficou com Jair, Musk ou Trump, você trabalhou pelo autoritarismo de Trump e por coisas infinitamente mais violentas que teriam acontecido no Brasil se o golpe de Bolsonaro tivesse sido bem-sucedido.

Você o fez brincando de jogar "liberdade de expressão" no modo "easy", como se jogava 30 anos atrás, antes da emergência de movimentos autoritários de massa com penetração institucional fortíssima e capacidade real de ameaçar a democracia.

Alguns anos atrás, participei de um debate sobre Alexandre de Moraes com Glenn Greenwald, colunista desta Folha. Como advogado, Greenwald, que é judeu, defendeu os direitos de um militante neonazista. A pergunta que Glenn nunca me respondeu é a seguinte: até que mês de 1933 ele ainda defenderia os direitos dos nazistas se estivesse em Berlim? E se os "stakes" não fossem só o risco de um idiota ofender gente no Twitter, mas o risco de vitória de um movimento poderoso que destruiria a democracia?

Vale conferir o que estão fazendo os críticos do STF diante da ofensiva liberticida trumpista.

Na semana passada o deputado Nikolas Ferreira deu seu apoio à censura trumpista contra alunos que querem estudar nas universidades americanas ("comunistinhas de meia-tigela"). Google e Meta, as "vítimas" da regulação, participaram do seminário de comunicação do Partido Liberal, a principal organização autoritária brasileira, e ouviram de Jair Bolsonaro que "estão do lado certo". O próprio governo Trump, culpado dos crimes listados no primeiro parágrafo, ameaça punir o STF brasileiro pela defesa da democracia. Musk fazia parte do governo Trump até a semana passada.

O exemplo americano mostra que a defesa da liberdade de expressão pela extrema direita de Musk, Bolsonaro e Trump era estelionato. Se você caiu nessa, fica a dica: da próxima vez que te chamarem para defender o direito de marchar, não custa nada abrir a janela e checar se os fascistas estão marchando sobre Roma.

A gaiola dourada da emigração

O ano era 2013. As salas de cinema encheram-se como poucas vezes para ver um filme português. Numa das cenas de A Gaiola Dourada, Rita Blanco, a porteira portuguesa em Paris, que está pela primeira vez num hotel, começa a fazer a cama antes de sair do quarto. A atitude é o reflexo de anos de pobreza e subserviência. Aquela mulher não sabe como comportar-se num ambiente em é suposto não ser a serviçal, mas ser servida. O efeito é cómico. Mas, como qualquer boa caricatura, contém em si uma verdade dolorosa, que nos revela e expõe.

Nesse ano de 2013, segundo os dados do Instituto Nacional de Estatística, saíram do País 128.108 portugueses. Os anos de chumbo da austeridade pesavam-nos nos ombros. Muitos tiveram de procurar trabalho fora para fazer face a dívidas ou, simplesmente, porque as profissões para que foram formados não lhes garantiam por cá trabalho estável e bem pago. Muitos eram enfermeiros ou professores. Mas também havia os que iam para trabalhar num armazém ou numa caixa de supermercado. Lembro-me de que foi exatamente esse o trabalho que a mãe de uma amiga teve de aceitar quando, já passados os 50 anos, a crise a apanhou de frente e a obrigou a pegar nas malas e ir para Londres.

Conheço várias histórias pouco glamourosas desses anos de emigração. Como a de um casal que chegou a Londres com 20 euros no bolso e teve de viver num quarto partilhado, num susto constante perante a possibilidade de ficarem sem as poucas coisas que tinham levado. Começaram a servir às mesas e a trabalhar em eventos e foram subindo numa economia que lhes parecia mais aberta à ascensão social do que este país pequenino em que quase todos os empregos se arranjam à força de se ser amigo ou primo de alguém.


Nesses anos de aperto, eu trabalhava como jornalista, com um salário magro, que não me permitia o luxo de viver sem a ajuda dos pais para pagar uma renda que na altura já era insuportável, mesmo para quem, como eu, estava bem acima do miserável salário mínimo nacional da época.

Muitos dos colegas que comigo andaram no ciclo e no secundário pegaram nas malas e saíram, alguns deles com bolsas de doutoramento. Outros, como eu, foram-se aguentando por cá, em trabalhos mal pagos, à custa de terem uma rede de apoio familiar, suportando os cortes que a troika impôs.

Isto não aconteceu sequer há 20 anos. Hoje, os adolescentes começam a pensar nos países em que querem estudar ou trabalhar, ainda antes de acabarem o liceu. A emigração passou a ser vista como uma “fuga de cérebros”. Ficar é quase sinónimo de falhanço. Nas famílias da elite passou a ser de bom tom dizer que se tem um filho em Londres e outro em Xangai. E os meninos são educados em Inglês, enquanto os pais olham para as listas de universidades estrangeiras e pensam para onde será melhor enviar os petizes para lhes garantir um futuro dourado.

Aquela porteira que a Rita Blanco encarnou era, em 2013, uma memória caricatural, desenhada para provocar o riso em portugueses que continuavam a ser emigrantes, mas se viam já acima dos comportamentos serviçais de uma geração de gente que fugiu à miséria, passando a fronteira a salto.

A verdadeira gaiola dourada não é a das personagens desse filme. É aquela em que vivem as gerações atuais, que têm na vantagem da mobilidade global a prisão de procurarem um futuro longe das suas famílias e referências. Talvez isso não lhes pareça pesado, porque a sociedade é cada vez mais individualista e as referências estão cada vez mais atomizadas e descaracterizadas como um lounge de aeroporto. Mas não deixa de ser uma prisão, que os condenará a uma vida de párias afetivos, perdidos num Inglês que, por mais que o falem, nunca será a Língua Mãe, longe da sensação de rede e pertença.

Estes são os que hoje partem. Mas como são os que daqui fugiram – e fugir é o verbo certo – nas décadas de 70 ou 80? Como são as porteiras e os pedreiros, que começaram por viver em bairros de barracas nos arredores de Paris? Aqueles que em miúda me habituei a ver em agosto chegar à aldeia dos meus avós, falando um francês ostensivo, chegados nos Mercedes estacionados à porta de casas tipo maison, também elas tão ostensivas e extravagantes quanto era necessário para afastar o fantasma da pobreza?

Não tenho dados nem estudos sobre aquilo em que se terão transformado, porque eles são uma espécie de ângulo morto da História. Quando muito aparecem nas reportagens antes dos jogos da Seleção. Eles não nos interessam, porque não casam bem com a narrativa dos mais qualificados de sempre, que saem para empregos de sonho, empreendedores e sofisticados, que temos a miragem de atrair com baixas de impostos, mas que não voltarão nunca, a não ser talvez para umas férias ocasionais na Comporta, porque foram programados para outros voos e, lá está, têm poucas referências que lhes deem a fome do regresso.

Vi há pouco um programa num canal francês em que alguém dizia que os emigrantes portugueses em França eram como salmão. Tinham o instinto de voltar sempre a casa. Estes novos emigrantes são peixes de aquacultura.

Quanto aos que partiram há décadas, dizia, não tenho estudos nem dados, mas intuo que estejam hoje mais franceses ou suíços do que nunca. Olhando com susto a vaga de imigração, feita de gente de peles mais escuras e religiões diferentes. Repetindo o preconceito de que foram vítimas, sem ver nisso qualquer contradição. Afinal, eles, sim, eram trabalhadores. Os outros não. Os outros nunca são como nós. E é por isso que são outros.

Haverá quem tenha mais estudos e dados que eu para refletir sobre tudo isto. Mas quanto mais penso no assunto, mais me convenço de que toda a conversa sobre imigração não tem nada que ver com a imigração. Tem que ver com as ideias que temos sobre nós e sobre os outros. E como, estando continuamente em competição por tudo, continuamente confrontados com a escassez e a precariedade de tudo, até das relações humanas, sentimos uma segurança especial em agarrarmo-nos ao que é conhecido e atacarmos o que nos é estranho, sobretudo se sentirmos que, ainda assim, estamos numa posição de superioridade.

Tive há pouco tempo uma conversa numa rede social com uma pessoa que insistia na indignação com os subsídios que os imigrantes recebem. Foi quando desisti de contrariar a falsa ideia que tinha sobre os apoios a que essas pessoas têm direito que consegui que a conversa desatasse um nó, enquanto se ia queixando do acesso que têm essas pessoas aos serviços públicos.

Perguntei-lhe, então: “Quer saber de um apoio a imigrantes que é uma vergonha e de que ninguém fala?”. Nenhuma reação. Avancei: “Todos os anos damos uma borla de 1700 milhões de euros a residentes não habituais. Estes imigrantes ricos só pagam 20% de IRS e têm um poder de compra que fez disparar o preço da habitação”. Um coração em resposta. “Quando quiser procurar os culpados, olhe para cima. Não olhe para baixo”, insisti. E, nesse instante, alguma coisa mudou. O meu interlocutor concedeu que “a culpa não é deles”, “das pessoas que vêm procurar uma vida melhor”. A culpa, concluiu, seria de PSD e PS. E eu com isso já consigo acabar bem a conversa.

Fascismo: Economia e Ideologia

Na economia, é simples. Toda vez que as classes médias, que dependem de estabilidade financeira para sobreviver, são comprimidas, como hoje, estas classes médias, que não querem o socialismo e descrentes que estão para com a democracia, ficam propensas ao discurso de aventureiros radicais à direita, que formam o fascismo.

Assim foi na Alemanha, com a eleição do Partido Nazista em 1932, Hitler com o título de “das Führer”, “o Líder”, em 1934, e suas consequências. No acordo de Versailles após a Primeira Guerra Mundial, foram impostos à Alemanha pesados encargos financeiros de indenização de Danos de Guerra aos Aliados, que chegavam a cerca de 80% do valor de seu PIB. Em 1922, a Alemanha emitiu papel moeda sem lastro para pagar a dívida, gerando a hiperinflação. A partir daí, cai o voto no Partido Social Democrata Alemão, com a ascensão do Partido Nazista.


No Brasil, assim ocorreu com Bolsonaro, após a vertiginosa queda do PIB com Dilma Rousseff de US$ 2,6 trilhões em 2011 para US$ 1,8 trilhão em 2015, Bolsonaro chegando ao poder nas eleições de 2018. Na Argentina, o fenômeno se repete, com o PIB caindo de US$ 643 bilhões em 2017 para US$ 385 bilhões em 2019, com a eleição de Milei na sequência em 2023. E agora com Trump, nos Estados Unidos, com a corrosão da renda do Americano com Biden, com a inflação muito acima do crescimento do PIB, como consequência da Guerra da Ucrânia em 2023 e 2024; com a eleição de Trump ao final de 2024, para o exercício a partir de 2025,

Com relação à ideologia, o Fascismo tem sempre dois inimigos “a combater”, um interno e um externo, na manutenção do discurso do ódio na mobilização contínua da população. Na Alemanha Nazista, o inimigo interno eram os Judeus, que teriam retirado seus recursos financeiros da Alemanha, base econômica do antissemitismo; e o inimigo externo, o “comunismo” da Rússia, atribuindo-se ao Partido Social Democrata Alemão ser um braço dos interesses estrangeiros.

Importante se notar que a História não se repete em fatos, mas em conteúdo.

No Brasil, com Bolsonaro, o inimigo interno foi a “Classe Política”, considerada como corrupta, com Bolsonaro paradoxalmente proveniente do “Baixo Clero” no Congresso Nacional, onde aferia benefícios; e o inimigo externo atribuído ao “comunismo” da Venezuela, contra a qual se promoveu a tentativa de invasão e guerra, fracassada, no início de seu Governo, com a mobilização tácita da Colômbia e dos Estados Unidos. Na Argentina, o inimigo interno são as “Corporações Peronistas”, com Milei apregoando, durante a sua campanha, o término do Banco Central, na esperança de se nascer o “novo homem econômico Schumpeteriano”, decorrente das teorias de Adam Smith; e o inimigo externo, o “socialismo”, existente no Brasil e na Venezuela. Com Trump, o inimigo interno são os imigrantes Latinos, deportáveis paras as prisões de El Salvador; e o inimigo externo são todos os países do mundo, inclusive seus antigos parceiros como o México e o Canadá, com suas tarifas alfandegárias, sob o lema “Make America Great Again”; as tarifas alfandegárias questionadas pela Justiça Americana, na luta de Trump de impor uma nova ordem econômica, política e social contrárias aos preceitos da nação da liberdade e do mercado, que fizeram a América “Great Before”.

E assim vamos nós, buraco abaixo.

O que seu dinheiro tem a ver com a crise climática

Quando o assunto é finanças pessoais, a questão climática é um ponto cego para muitas pessoas. Decisões sobre ações individuais nessa seara têm peso menor quando comparado a temas como alimentação, viagens ou compras.

No entanto, em termos de redução de pegada de carbono pessoal, trocar o plano de previdência privada convencional por um sustentável pode ser 20 vezes mais eficaz do que o impacto combinado de parar de viajar em voos comerciais, tornar-se vegetariano ou trocar de fornecedor de energia, de acordo com uma análise do movimento britânico Make My Money Matter ("Faça com que meu dinheiro importe").

Estima-se que os 60 maiores bancos do mundo tenham empenhado 705 bilhões de dólares (R$ 3,9 trilhões) na indústria de combustíveis fósseis em 2023, e 6,9 trilhões de dólares desde que o Acordo Climático de Paris foi firmado em 2015.

Grande parte disso financia planos de expansão que vão contra os inequívocos alertas climáticos da ciência.


"Todos nós temos grandes quantias de dinheiro que contribuem para isso de várias maneiras, muitas vezes sem o nosso conhecimento", diz Adam McGibbon, estrategista de campanha da organização americana de pesquisa Oil Change International. Esse dinheiro pode ser na forma de contas correntes, pensões ou apólices de seguro que são reinvestidas na indústria de combustíveis fósseis.

Especialistas, contudo, destacam a dificuldade em quantificar com precisão a contribuição das finanças pessoais para o financiamento de combustíveis fósseis, devido à complexidade dos sistemas financeiros e a circunstâncias individuais.

Isso porque, em grande parte, é pelo lado corporativo – e não pelo varejo, onde o dinheiro de clientes individuais é mantido – que os bancos geralmente emprestam dinheiro ou subscrevem títulos para empresas com projetos de combustíveis fósseis. Quem diz isso é Quentin Aubineau, analista de políticas do BankTrack, uma ONG internacional que monitora as atividades financeiras de bancos comerciais.

No entanto, McGibbon ressalta que os bancos ainda usam nosso dinheiro para expandir seus negócios, gerar mais receita e atrair investidores. Ele pontua que nossas economias poderiam, no mínimo, ser "usadas para inflar o balanço de um banco, o que os permite atender clientes corporativos" vinculados aos combustíveis fósseis.

Quando se trata de investimentos, algumas finanças pessoais vão diretamente para a indústria de combustíveis fósseis através de ações ou títulos, afirma Carmen Nuzzo, diretora executiva do Transition Pathway Initiative Centre no Reino Unido, que pesquisa os avanços feitos pelo mundo financeiro e corporativo rumo a uma economia de baixo carbono.

"Isso inclui investimentos em empresas de petróleo e gás, que têm se mostrado muito atraentes e lucrativas nos últimos anos [...] assim como investimentos em outras empresas que dependem fortemente de combustíveis fósseis para sua produção ou prestação de serviços, como a siderurgia ou a aviação", diz Nuzzo.

Muitas pessoas também financiarão combustíveis fósseis por meio de economias que vão para fundos de pensão que investem em empresas dos setores com maior emissão de gases de efeito estufa e de carbono. As pensões geralmente são mantidas e controladas pelos Estados, empregadores ou empresas privadas.

"Você contribui para um fundo de pensão, esse dinheiro é investido em seu nome e parte dele pode acabar indo para empresas que garantem que você viva sua aposentadoria em um mundo instável e difícil", explica McGibbon.

Estudos recentes estimam que, em um mundo com aquecimento global de 4 ºC, uma pessoa poderá se tornar 40% mais pobre e os retornos dos fundos de pensão nos Estados Unidos e Canadá poderão cair até 50% até 2040, devido à exposição dos ativos a eventos climáticos extremos.

Os fundos de pensão estão entre os maiores investidores mundiais em combustíveis fósseis, com cerca de 46 trilhões de dólares investidos no setor e detendo 30% de suas ações, de acordo com a Climate Safe Pensions, uma campanha de desinvestimento com sede nos EUA e Canadá. Esses fundos também estão entre os principais financiadores da expansão dos combustíveis fósseis na África.

Em 2023, o grupo alemão de jornalismo investigativo Correctiv revelou que fundos de pensão em 10 dos 16 estados federais da Alemanha investiram em atividades relacionadas a combustíveis fósseis.

Embora os bancos verdes nem sempre ofereçam as condições mais favoráveis, há um apetite cada vez maior entre pessoas preocupadas com o clima por alternativas financeiras sustentáveis, aponta Katrin Ganswindt, pesquisadora financeira da ONG alemã Urgewald.

Entre o crescente grupo de bancos verdes, estão aqueles que se comprometem a parar de emprestar para empresas de combustíveis fósseis e investir em atividades favoráveis ao clima.

Ferramentas online como o bank.green surgiram para ajudar os consumidores a comparar as credenciais ambientais de diferentes bancos.

No entanto, superar a falta de conhecimento financeiro ainda é um dos principais desafios, explicou Nuzzo.

"Nos países onde a maioria das pessoas possui uma pensão, os indivíduos não controlam onde seus ativos de pensão estão sendo investidos [...] ou podem não revisar suas opções regularmente."

Ativos como pensões que investem no longo prazo são meios eficazes para fazer uma mudança, disse Ganswindt. "Os fundos de pensão têm um grande impacto porque investem grandes somas."

A Make My Money Matter estimou que o setor previdenciário do Reino Unido teria a capacidade de investir 1,2 trilhão de euros (R$ 7,7 trilhões) em energias renováveis e soluções climáticas até 2035.

Na Holanda, fundos de pensão para funcionários públicos e professores, bem como para profissionais de saúde, removeram seus investimentos em empresas de combustíveis fósseis. No Reino Unido, os grandes planos de pensão são obrigados a reportar seus riscos climáticos.

No entanto, apesar do aumento da conscientização e das opções de financiamento verde, ainda há falta de padrões e regulamentações nesse setor, aponta Franziska Mager, pesquisadora sênior da Tax Justice Network, um grupo de defesa do Reino Unido que trabalha contra a evasão fiscal.

"Mesmo que você tenha um banco 'verde', poderá se surpreender ao descobrir onde seu dinheiro está investido – se conseguir descobrir, é claro. Isso sem falar na definição de 'sustentável' por parte dos grandes atores", afirma.

Um artigo recente de sua coautoria sobre "lavagem verde" no setor bancário conclui que a existência de práticas financeiras obscuras – incluindo o uso de jurisdições sigilosas, um tipo de paraíso fiscal – obscurece a verdadeira dimensão do financiamento de combustíveis fósseis.

Quanto aos ETFs – um tipo de fundo de investimento negociado na bolsa de valores –, Ganswindt, da Urgewald, aponta que eles podem se autointitular "verdes" mesmo que isso não signifique nada.

Mas Ganswindt afirma ter observado progressos recentes em termos de transparência, citando uma nova regulamentaço da UE sobre quais empresas podem ou não participar de fundos rotulados como verdes ou sustentáveis.

Em última análise, as finanças pessoais provavelmente representam uma pequena fração das enormes somas de financiamento de combustíveis fósseis – mas a pesquisadora diz que esse não é o sentido de ações como migrar para um banco mais verde. Trata-se de enviar uma mensagem.

"Certamente, temos algum poder como clientes, mas muito mais como cidadãos", disse McGibbon. "É ótimo mudar para um banco mais verde, ótimo mudar para um plano de previdência mais verde. Mas, em última análise, poderíamos ter muito mais poder como cidadãos, mudando a forma como votamos e exigindo que os políticos regulem o setor financeiro."

‘Temos mentes tribais e capacidades modernas. É uma combinação perigosa’

No último dia 24 de maio, completaram-se dez anos do acidente aéreo que sofremos próximo a Campo Grande (MS). O que poderia ter sido uma tragédia sem volta foi um ponto de virada. Desde então, vivemos uma jornada silenciosa de gratidão, espiritualidade e ressignificação da missão de vida. A busca por equilíbrio entre corpo e mente se tornou parte da nossa rotina, liderada com ternura e intuição por Angélica, que assumiu um papel de guia e inspiração. Foi minha esposa quem abriu espaço para a meditação se tornar um pilar em nossa convivência familiar. E, nesse caminho, nos aproximamos do pensamento de alguém que há décadas ilumina essa trilha com consistência e profundidade: Deepak Chopra.

Chopra começou sua carreira na Índia como endocrinologista, mas, em 1980, teve seu rumo alterado ao encontrar Maharishi Mahesh Yogi, o criador da Meditação Transcendental. Os dois se tornaram próximos, e, entre 1980 e 1993, Chopra acompanhou o mestre espiritual em diversas viagens, entrando em contato com grandes transformações geopolíticas e culturais. Em 1983, publicou seu primeiro livro, integrando espiritualidade, medicina alternativa e ciência ocidental. A partir daí, vieram parcerias com personalidades como Oprah Winfrey e os Beatles, e a consolidação como uma das vozes mais influentes sobre saúde, bem-estar e consciência. Nomeado pela revista Time um dos ícones do século XX, Chopra hoje é professor e palestrante em instituições como Columbia Business School, Northwestern University e Universidade da Califórnia em San Diego.

Seu pensamento parte de uma premissa ousada: a consciência vem antes da matéria. Para Chopra, o mundo físico é uma expressão da consciência — e não o contrário. O cérebro humano não a cria, apenas a manifesta. Para sustentar essa tese, Chopra dialoga com conceitos da física quântica, tratando a consciência como um campo em que todas as possibilidades existem até serem definidas pela observação ou escolha. A partir daí, propõe uma visão integrada do ser humano, em que corpo, mente e espírito são expressões de uma mesma origem. Nessa lógica, pensamentos e emoções não são abstratos: influenciam diretamente a saúde física e o bem-estar. Ele fala sobre a possibilidade de um estado de “saúde perfeita” —não como utopia, mas como a condição natural do ser humano quando há equilíbrio entre os aspectos físico, emocional, mental e espiritual.




Aos 78 anos, Chopra mantém uma rotina disciplinada e introspectiva. Medita três horas por dia, evita compromissos sociais e diz buscar apenas paz e presença. Observa com certa distância o personagem público que o mundo projetou sobre ele e se esforça para manter-se fiel ao essencial. Seu pensamento continua reverberando em diferentes partes do mundo —e também dentro da minha casa. Dez anos depois daquele episódio inesperado, seguimos tentando viver com mais presença, consciência e propósito. Um dia de cada vez.

Na última sexta-feira, tive a oportunidade de me reunir com Chopra no Uruguai. Na conversa, ele sustentou que a inteligência artificial não deve ser vista como uma ameaça isolada, mas como uma consequência natural da expansão da consciência humana —um novo salto evolutivo. Assim como a descoberta do fogo transformou biologicamente o cérebro humano ao possibilitar a digestão de alimentos cozidos, a IA tem o potencial de reconfigurar nossas redes neurais e modificar profundamente nosso modo de existir. Mas, para Chopra, esse salto técnico ocorre num momento em que a sociedade parece cada vez mais desconectada de sua interioridade. Ao valorizar excessivamente o exterior —o que se mostra nas redes, o que se performa—, perdemos contato com aquilo que é essencial: a fonte de toda experiência. A IA, portanto, pode ser uma ferramenta de cura e transformação ou de destruição e alienação, dependendo de como escolhemos utilizá-la. A chave, diz Chopra, está em reconectar o uso da tecnologia a uma consciência mais plena, ética e espiritual. Abaixo, compartilho trechos desse bate-papo.


Desculpe começar a conversa por um tema pessoal, mas as coisas não acontecem por acaso. Há 10 anos, eu, minha esposa e nossos filhos sofremos um acidente aéreo. Graças a Deus, todos sobrevivemos. Tivemos uma segunda chance e cada um reagiu de maneira diferente ao trauma. Minha esposa entendeu que precisava respirar. E foi assim que a meditação, a busca pelo equilíbrio e o mindfulness entraram em nossa família. Desde então, queremos democratizar essas terapias Queria saber como simplificar essa mensagem e a importância dela.

Em primeiro lugar, não tento convencer ninguém de nada. As pessoas decidem por si mesmas quando estão prontas, como você fez. Mas o entendimento mais simples é que toda experiência que temos é uma forma de sensação. Não experimentamos a realidade, e sim sensações, e então conceituamos com base nessas sensações e criamos a ideia de um corpo físico, nossa mente e nosso universo. Mas, na verdade, tudo o que experimentamos são sensações, sensações de respiração, som, paladar, olfato, visão, apenas sensações. Se você quiser resumir isso, a sigla é SIFT (Sensação, Imagem, Sentimento e Pensamento em inglês). A respiração é a sensação mais primitiva. Ela está emaranhada com todas as outras sensações. Digamos que eu esteja respirando muito rapidamente. Isso significa que estou ansioso. E, como está tudo emaranhado, se mudo a respiração, eu mudo a ansiedade. Quando você se acomoda na respiração e quando ela automaticamente se torna lenta e profunda, seus pensamentos, emoções, imaginação e todas as outras sensações se acalmam. É como falamos no ioga: nada disso é realidade. A realidade não é a sensação, mas a fonte da sensação. Está no espaço entre as diferentes percepções. Portanto, o espaço entre o pensamento, entre as emoções, entre o sentimento, o espaço entre a respiração, entre a imaginação, o espaço entre você e eu, o espaço entre este e o espaço intergaláctico é tudo um só espaço. É a fonte do que chamamos de espaço-tempo, energia, informação e matéria. Mas está além da imaginação porque não tem forma. Não tem forma, então não tem borda. Se não tem fronteira, é infinito, e, se é infinito, é sem espaço, atemporal, inimaginável, incompreensível, irredutível e fundamental. Uma vez que você está calmo, então você se pergunta: o que é a realidade? Qual é a fonte do universo? E a fonte do universo nunca será encontrada em nada que seja perceptivo ou conceitual. É a matriz da qual o universo emerge.

Mas o mundo está indo na direção oposta.

Correto.

O mundo hoje valoriza mais o exterior —aquilo que a pessoa mostra (todos são felizes no Instagram) — e menos o que de fato é, seu interior. Queria te ouvir sobre isso.

Sempre foi assim. Mas agora, por causa da tecnologia, chamamos de realidade virtual. Mas o que as pessoas não percebem é que seu corpo, sua mente, seu cérebro e o universo são todos realidade virtual. Não é real, o que chamamos de universo físico. Não existe tal coisa. É uma realidade virtual de sensações, imagens, sentimentos e pensamentos que são flutuações do vazio. Então, o que é chamado de forma? Você diz que seu corpo tem uma forma, certo? Mas, se você diz que eu sou meu corpo, então você tem que me dizer qual: óvulo fertilizado, embrião, bebê, criança, adulto jovem, adulto velho, até a morte. Portanto seu corpo não é um substantivo —é um verbo. A forma é impermanente, o sem forma é eterno. Então, se você entende que você é sem forma, então esta forma atual está sujeita a revisão —é uma realidade virtual. O teólogo cristão Teilhard de Chardin disse que somos seres espirituais tendo uma experiência humana. Você só sabe o que experimenta. Quando olha para o cenário fora dessa janela, isso é uma experiência humana. A árvore que você enxerga não é a mesma para um golfinho ou para um morcego ou para um pássaro que navega no ultravioleta. Tudo é uma projeção daquilo que é infinito e sem forma.

Estamos vivendo uma revolução de Inteligência Artificial que vai mudar tudo para todos. Apesar de muitos elencarem perigos e riscos, você tem um olhar positivo sobre o tema. No seu novo livro ‘Digital Dharma’, você elenca como essa tecnologia pode mudar a vida das pessoas para melhor. Pode falar sobre isso?

A IA é o repositório de tudo o que os humanos descobriram nos últimos séculos. Tem superconhecimento, e não superinteligência. Mais do que qualquer ser humano pode ter. Mais do que todos os seres humanos combinados. A IA é o passado, é o presente e é o futuro, pois pode prevê-lo estatisticamente, com base em padrões do passado. Mas a IA não é consciente. Não sente fome, não sente sexualidade, não teme a morte, não tem sede. Não há subjetividade na IA. Por isso digo que a tecnologia tem dois lados. É divina e diabólica. Se você tem uma faca, pode me matar com ela, pode cortar uma maçã e comer, ou, nas mãos de um cirurgião, pode ser um instrumento de cura. Temos um polegar opositor e andamos eretos, e isso nos liberta para criar ferramentas. Antes de qualquer outra coisa que criamos, descobrimos uma tecnologia. Chama-se fogo. Começamos a cozinhar alimentos. E, se não fizéssemos isso, o ser humano não teria o cérebro que tem hoje. Porque com o cozimento, você pode absorver micronutrientes. Nossa anatomia mudou, nosso cérebro mudou. Hoje, o que estamos vendo com a IA é mais um salto, um salto quântico, não apenas na evolução cultural e na evolução social, mas também biológica. As redes neurais humanas estão mudando, porque a IA está dando acesso a tudo isso. E, quando o cérebro muda, o corpo muda.

Você acha que o cérebro pode mudar?

A cada experiência, o cérebro muda.

Como as crianças que usam muito as telas?

Neste ponto, altera a dopamina, a serotonina.

A nossa evolução dos macacos não foi intencional —foi um desvio evolutivo. Mas nós estamos criando a IA intencionalmente. Com que propósito?

Nossa existência é um salto quântico na consciência. Esqueça a evolução darwiniana, que é muito mecanicista. Se o universo é consciência pura, e esta é a realidade virtual da consciência pura, então a transição do primata para o humano é um salto na evolução. Porque a diferença entre você, eu e o macaco é menor que 1% no DNA. Então, o que é que esse 1% mudou em você e em mim? Foi um salto. Por isso, agora, basicamente temos duas opções com a Inteligência Artificial. Uma é que podemos causar a extinção humana. Usar IA para causar guerra nuclear, envenenar a cadeia alimentar. Mas podemos usá-la para criar um mundo mais pacífico, justo, sustentável, saudável e alegre. Assim como com a faca, você pode matar uma pessoa ou curá-la. Com a IA, podemos curar o mundo ou podemos fazer com que o mundo desapareça. A escolha é nossa. Agora, a coisa mais profunda que você está dizendo é que criamos a IA. Nós não fizemos isso. Inteligência Artificial nem é a palavra certa. É inteligência humana aumentada, pois, como você sabe, é uma criação feita através de nós. Mas a coisa é mais profunda, deixe-me explicar: a diferença entre o computador, você, aquela árvore, aquela montanha, aquele oceano é apenas uma combinação diferente de zeros e uns. Então o que chamamos de universo é criado em uma oficina digital fora do espaço e do tempo, e, nessa oficina, zeros e uns em diferentes combinações estão produzindo esse universo.

Muita gente envolvida no desenvolvimento da IA acredita que estamos vivendo as últimas gerações capazes de criar algo de valor. Daqui para frente, qualquer criação que possa impactar a vida de das pessoas será feita de maneira mais rápida, melhor e mais barata pela máquina. O que o senhor acha disso?

Curar o planeta, reverter as mudanças climáticas, trazer justiça social e econômica, abundância, saúde e até felicidade. Essa escolha é nossa, não da IA, porque a IA pode ser programada para qualquer coisa, destruição ou criação. Em última análise, são basicamente algoritmos, certo? Quem programa a IA? Humanos. Agora, você tem um ponto muito importante: nossa evolução emocional e espiritual não acompanhou nossa evolução tecnológica. Ainda pensamos com mentes medievais. Temos mentes tribais e capacidades modernas. Essa é uma combinação perigosa. Então, a razão pela qual escrevi o “Digital Dharma” é como podemos usar a IA para acelerar nossa inteligência espiritual e emocional.

Há 10 anos vivíamos o momento de maior paz, calma e qualidade de vida da história, e de repente tudo degringolou… pandemia, guerras, retrocessos, autoritarismos. Você vê algum perigo no fato de a IA estar entrando no cotidiano do mundo bem neste momento confuso?

Veja, Luciano, as pessoas estão em guerra desde os tempos dos caçadores-coletores, só que era regional, sabe? Era pequeno. Desde que descobrimos arcos e flechas, estamos matando uns aos outros. Isso se tornou global por causa da informação que se espalha tão rápido. Portanto, estamos mais conscientes disso. Mas os seres humanos, psicologicamente, emocionalmente e espiritualmente, sua evolução tem sido muito lenta. Por outro lado, a tecnologia deu um salto à frente. Se não nos recuperarmos, entraremos em extinção. De acordo com a ciência atual, existem dois trilhões de galáxias. Existem 706 trilhões de estrelas. Pode haver 60 bilhões de planetas habitáveis apenas na Via Láctea. Habitável significa: como você e eu, com base no que chamam de biosfera, campos gravitacionais de ajuste fino e campos eletromagnéticos. O planeta Terra não é nem um grão de areia. Se a gente desaparecesse, a praia não notaria. Se não entendermos isso, estaremos cheios de arrogância e ego.

Temos no Brasil um dos maiores sistemas de saúde pública do mundo, que atende mais de 190 milhões de pessoas. Imaginemos que você fosse gestor desse sistema. Como transformaria o seu conhecimento em políticas públicas?

O que sabemos sobre saúde e bem-estar é que menos de 5% de todas as doenças são devidas ao que é chamado de mutações genéticas totalmente penetrantes. Totalmente penetrante significa que, uma vez que você tenha a mutação genética, isso garante a doença. Como, por exemplo, se alguém tem um gene BRCA para câncer de mama, terá câncer de mama. Mas nos próximos anos você terá algo chamado edição de genes. Você poderá recortar e colar genes da mesma forma que recorta e cola seus e-mails. Então você exclui o gene defeituoso, insere o gene saudável —e a doença é curada. Isso vai acontecer.

Vamos viver 120 anos?

Mas isso é menos de 5% das doenças. 95% é epigenético, o que significa: estilo de vida, sono, controle do estresse, exercícios, mente, coordenação corporal, emoções, relacionamentos, nutrição, suplementos nutricionais, em alguns casos, ritmos biológicos e nossa experiência de amor, compaixão, alegria e equanimidade. Isso representa 95% de todas as doenças. O que significa que podemos modelar o corpo para autorregulação e cura. Resumindo: com a tecnologia de edição de genes de RNA mensageiro e uma revolução da consciência, poderemos tornar a doença opcional. Você não vai mais morrer de uma doença. Você morrerá porque seu relógio genético se esgota.

E economicamente?

Então, economicamente, é possível.

Usar isso como uma maneira exponencial de tratar milhões de pessoas?

Sim, a maneira de começar é pela educação em saúde e bem-estar nas escolas.

Você tem alguma mensagem para deixar para os brasileiros?

Sou fascinado pelo Brasil, simplesmente porque, na verdade, sou fascinado por todos os países que estão ao redor da Amazônia. Eles têm um sentimento pela ideia de que nosso corpo é um ecossistema —um ecossistema que faz parte de um ecossistema maior. É assim para muitos dos povos indígenas, mas os brasileiros em geral são mais sintonizados com a compreensão da ecologia mais profunda da existência —de que não existimos por nós mesmos, existimos no ecossistema da vida. Sinto que os brasileiros — e, em geral, as pessoas ao redor da Amazônia e também da América Central — têm uma compreensão mais profunda da existência, não uma compreensão mecanicista. Por isso me sinto muito encorajado para aprender com as tradições xamânicas. O futuro é nos reconectarmos com nossa fonte na natureza e entendermos que nada existe por si só. Nem uma célula, nem um órgão, nem um corpo, nem uma árvore, nem uma rocha, nem uma estrela. Tudo está interligado. Precisamos nos envolver com aquilo que nunca muda —que é a fonte de toda experiência, que é sempre eterna e atemporal— e então podemos participar desse jogo com alegria.