segunda-feira, 6 de abril de 2015

Contra a corrupção, a alternância no poder

Nunca antes na história do país, os brasileiros deram tantos sinais de indignação com a roubalheira generalizada
Poder (Foto: Antonio Lucena )

Em setembro de 2012, um mês e pouco depois do início do julgamento do mensalão, até então o maior escândalo de corrupção da história do país, o ex-ministro da Justiça dos governos Lula, Márcio Thomaz Bastos, advogado de um dos 38 réus, comia uma banana em uma dependência reservada do Supremo Tribunal Federal, em Brasília, quando ouviu a pergunta de um amigo: “O que houve para chegarmos até aqui?”

Thomaz Bastos parou de comer, temperou a garganta e respondeu em voz baixa sem olhar diretamente para o amigo: “Perdemos o controle da situação”.

Seguiu-se um longo silêncio antes que completasse: “Agora, só a alternância no poder poderá acabar com tudo isso”.

O amigo nada mais lhe perguntou. Ele voltou a comer a banana, uma fruta rica em potássio e que faz bem ao coração.

Saudades do mensalão! Movimentou uma ninharia se comparada com os valores desviados dos cofres da Petrobras. De resto, foi um escândalo que se limitou às fronteiras do Congresso e dos partidos.

É verdade que a “sofisticada organização criminosa” que operou o mensalão ambicionava controlar o aparelho de Estado. Foi descoberta a tempo. Dos 38 réus, 24 foram condenados.

O número de envolvidos com a roubalheira da Petrobras chega a 50. Gira em torno de R$ 2 bilhões o dinheiro que serviu para financiar partidos e enriquecer políticos e diretores da Petrobras.

O avanço das investigações da Operação Lava-Jatos reforça a cada dia que passa o sentimento de que a corrupção disseminou-se por toda parte com a cumplicidade dos governantes. E também com a decisiva ajuda de bancos e de empresas que sonegam impostos.

O PT dirá junto com a presidente Dilma Rousseff que a corrupção é uma velha senhora que nunca vai embora.

Ocorre que nos últimos 12 anos, ela foi uma senhora que engordou alimentada pelo projeto do partido de não se afastar do poder. De evitar por todos os meios legítimos ou não a alternância no poder, única saída sugerida por Thomaz Bastos para a situação que atravessamos.

Dalton Avancini, presidente da Camargo Corrêa, uma das 14 empreiteiras que pagaram propinas para fechar negócios com a Petrobras, confessou à Justiça que sua empresa fez a mesma coisa para executar obras na Ferrovia Norte-Sul, iniciada em 1987 ainda durante o governo José Sarney. Quando concluída, ela terá 4.155 km e cortará 10 Estados. Um banquete para apetites insaciáveis.

As principais empreiteiras do país formaram um cartel para operar trechos da ferrovia. Houve também superfaturamento de contratos com a doação legal e ilegal de dinheiro a partidos e políticos.

Petrobras, Ferrovia Norte-Sul... O que mais? Ah, sim, a Usina de Belo Monte, no Sul do Pará, uma obra orçada em R$ 19 bilhões. Ali funcionou o mesmo modelo nefasto de atuação das empreiteiras.

Thomaz Bastos não era inocente a ponto de pensar que a alternância no poder fosse capaz por si só de pôr um fim à corrupção.

O que ele quis dizer, segundo o amigo que o interrogou, foi que a alternância desmonta ou enfraquece esquemas de corrupção em pleno funcionamento. Até que outros venham a substitui-los, se vierem, levará muito tempo.

Nunca antes na história do país, os brasileiros deram tantos sinais de indignação com a roubalheira generalizada.

Quem sabe não estamos às vésperas de mudanças de comportamento que afetarão certamente o que hoje se pratica à luz do dia, sem a mínima inibição, pudor ou receio, amparado na certeza de que ao fim e ao cabo a impunidade prevalecerá?

É preciso tirar as pessoas da miséria sem se aproveitar delas


Aqueles que dizem defender as camadas mais necessitadas da sociedade agora falam em ódio social. É a forma de se defenderem dos equívocos que cometeram na busca de ajudar os irmãos, fizeram tudo só para si e fugiram de suas reais responsabilidades.

Primeiro, eram contra os governos que “distribuíam esmolas”. Lula até denunciou isto. Quando chegaram ao poder, porém, não apenas mantiveram a prática que maldiziam, mas aumentaram as “esmolas” e não deram seguimento a segunda etapa que também cobravam dos outros: a reciprocidade. Diziam que era necessário oportunizar a melhoria cultural e intelectual dos carentes como única maneira destas camadas se livrarem das esmolas. Mas quantas famílias foram recuperadas? Basta pegar o cadastro atual e compará-lo com as relações dos últimos 15 anos.

Para o PT, os pobres servem de escada para o poder. Alimentar os carentes e mantê-los vivos é a tarefa de primeira necessidade, para ambos os atores: os beneficiados com o “bolsa” e os beneficiados com os votos.

O discurso do ódio quem fomentou e fez crescente foi o próprio PT. Afinal, o que os petistas querem? Mais Petrobras? Mais BNDES? Mais urnas eletrônicas inconfiáveis? Mais vagas no Judiciário?

É preciso que os petistas façam um exame de consciência e assumam sua parte na corrupção que aí está. Há quem não tenha participado? Claro que sim, até acredito. Mas todos ajudaram a construir a máquina que se apoderou do Estado brasileiro para fundir a corrupção à estrutura pública e tudo o mais. Esta é a realidade.

Hoje, não basta tirar Dilma Rousseff. É muito pouco. Quem assumir terá de se comprometer com uma devassa no setor público nacional. E o mesmo deverá ser feito nos estados e municípios. É o que se espera.

Mudam-se os tempos...


Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança;
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem, se algum houve, as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.

E, afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto:
Que não se muda já como soia.
Luís de Camões

Rombo na caverna do Ali Babá

A febre privatizante dos tempos do governo Fernando Henrique chegou às raias da irresponsabilidade, conforme afirmação de um de seus ministros. Era preciso facilitar o financiamento de grupos privados empenhados em adquirir patrimônio público, já que dinheiro eles tinham muito pouco. O BNDES abriu seu cofre, o Banco do Brasil e a Caixa Econômica, também, mas mesmo assim não dava. Os compradores queriam comprar patrimônio público com dinheiro público, um negócio pirata que nenhuma CPI conseguiu investigar, porque quem mandava no Congresso eram os tucanos.

Para fechar a lambança, alguém lembrou dos fundos de pensão das estatais, verdadeiras fortunas amealhadas com a poupança de dezenas de milhares de funcionários que todos os meses contribuíam com parte de seu salário, imaginando dispor de uma aposentadoria mais justa, complementar. Era o governo que designava os gestores desses fundos, tornando-se fácil que se dispusessem a aplicar o vasto montante sob seu controle onde o palácio do Planalto mandasse, como nas privatizações.


Veio o governo do PT, passando a nomear companheiros para presidir os fundos, e a prática continuou. Claro que não mais para impulsionar as privatizações, mas para onde o Lula e sua turma indicassem. Acudir projetos oficiais, ajudar grupos em dificuldades e, certamente, partidos políticos. Não se tratava apenas de encontrar boa destinação para garantir o futuro dos funcionários das estatais, pois os empréstimos produziam juros, mas, em especial, socorrer empreitadas duvidosas e amigos em dificuldade. Com a eleição de Dilma, tudo continuou como antes. Os fundos de pensão eram a caverna do Ali Babá, onde os detentores do poder iam encontrar recursos mais do que vultosos, destinando-os às suas aventuras e fracassos.

O escândalo estourou semana passada. Os fundos dos funcionários dos Correios, da Petrobrás, da Caixa Econômica, do BNDES, do Banco do Brasil e de muitas outras empresas públicas investiram em bancos falidos, obras inviáveis e aventuras descabidas, até no exterior, tudo por ordem lá de cima. Resultado: estão falidos. O dinheiro das aposentadorias sumiu. Os funcionários atuais precisarão contribuir com adicionais extras, também tirados de seus salários, para tentar a recuperação de seu futuro. O total do rombo ultrapassa os 30 bilhões de reais.

Trata-se de um logro monumental. Uma vigarice que nada fica a dever a mensalões e petrolões. Com a diferença de que a Polícia Federal e o Ministério Público não podem entrar nesse sistema fechado de previdência complementar. A lei dispõe que os fundos são investidores de longo prazo, correndo riscos como os demais. Azar de seus funcionários…

Carlos Chagas

É preciso criticar ainda mais


Nunca na historia deste país (obrigado, Lula, pelo chavão) o brasileiro apanhou na cara desde que acorda. Nem escapa de pesadelos aterradores: fome, doença para ser atendido no SUS, desemprego eterno, inflação "galopante", assaltos de mascarados do Planalto, cavaleiros políticos do Apocalipse.

Acordou, ligou o rádio, a tevê, o computador, o smartphone, e aí vem a escarrada na cara de quem trabalha, sua e é condenado a pagar o pedágio de viver à milícia governamental.

Em país sério, ou a cambada de canalhas faria seppuku, ou arrumava as malinhas correndo para entrar no xilindró. Fariam tudo rapidinho porque os cidadãos já sairiam de casa armados para começar uma revolução. Todo pronto para um dia (ou uma semana, ou um mês) de fúria. Cada um por si mesmo seria bomba humana partindo para o quebra-quebra, marchando em bloco de manifestação contra as arbitrariedades ou a bandidagem governamental.

Aqui depois de socos na boca do estômago, das taponas e das escarradas cretinas na cara, o brasileiro sai engolindo as ofensas à sua dignidade de trabalhador. E pelas ruas, espremido em transporte público, com o salário minguando, engarrafado com o carro que está pagando cada vez mais caro, baixa a cabeça de um torturado, escravo de poderes de uma gangue que assalta o país.

Vai cada um, aos poucos, engolindo os sapos que lhe enfiam goela abaixo. De povo cordial, como fazem acreditar – e ele acredita -, passa a povo acomodado, cabisbaixo diante do Poder, enfraquecido pela praga política. Escorraçado.

Direis, mas o povo vai às ruas! Vai, bem menos do necessário para pressionar efetivamente um governo desgovernado. Ainda é preciso bem mais, insistentemente, por todas as vias, repudiar todos os cretinos, do partido que for, de direita, esquerda ou os costumeiros de cima do muro. Denunciar com fotos a porcaria que nos oferecem como maravilhas, obras de milhões que fedem longe como outras galhofas. Gritar nas redes ainda mais, promover panelaços de ensurdecer o surdo poder. Não temer a bandidagem política, porque somos donos de nós e livres, dignos, o que não são nem serão.

O cecê dos idiotas

Antigamente, o silêncio era dos imbecis; hoje, são os melhores que emudecem. O grito, a ênfase, o gesto, o punho cerrado, estão com os idiotas de ambos os sexos
Nelson Rodrigues

Lula e Dilma no papel de 'Exterminadores do Futuro'



O ex-presidente Lula e sua criatura, Dilma Rousseff, vêm acusando cada vez mais o golpe que se auto-infligiram nos últimos anos, com escândalos no campo criminal e atrocidades na economia.

“O PT não pode ficar acuado diante dessa agressividade odiosa”, disse Lula nesta semana. E conclamou dirigentes do partido a aprofundar relações com movimentos sociais como CUT e MST.

O isolamento de Lula e do PT fica evidente quando apelam a movimentos que defendem justamente o contrário do que a presidente diz que vai fazer.

Dilma recriada pelo ministro Joaquim Levy (Fazenda) agora promete um “grande corte” nos gastos públicos. E só, não passa disso. “Agora é nossa vez, vamos conter os gastos”, diz a presidente.

É a mesma pessoa que em 2005 (na Casa Civil) tachou de “rudimentar” proposta de equilibrar o déficit público no longo prazo e que, nos últimos 12 meses, permitiu que ele dobrasse.

Os movimentos de Lula e Dilma mostram o tamanho do atraso político e econômico em que estão metidos. Como ficaram ultrapassados e estão caindo de podres.
Anacronismo de Lula ao apelar para o “exército” datado do MST de João Pedro Stedile em oposição a manifestações de rua gigantescas; e derrota total de Dilma ao enterrar sem cerimônia toda e qualquer agenda sua para dar carta branca a um ministro que considera que ela age “não da maneira mais efetiva”.
No caso da presidente, a “tomada de poder” por Eduardo Cunha (na Câmara) e Renan Calheiros (no Senado) tem menos a ver com sua irrisória popularidade do que com um vácuo total de agenda e ideias para o país.

Depois de 30 anos de redemocratização e 20 de estabilização econômica é como se chegássemos no futuro voltando ao passado. E sem projeto de futuro.

Fernando Canzian

Se Deus quiser

A gente vai continuar comendo doce que nem criança em festa, como vamos almoçar sempre com o saleiro à mão, fechando os olhos para saborear a gordura da picanha, mas esperamos continuar com saúde se Deus quiser. Porque Deus ia querer maltratar os filhos seus?

Se Deus quiser vamos continuar comprando muita loteria, com esperança de um dia ganhar e, além de recuperar tudo que gastamos, ficar tão ricos que gerente de banco vão nos chamar de vossa excelência. Não é que a gente anseie ficar rico, é que temos muita esperança em Deus.Vamos continuar saindo em cima da hora para encontros e reuniões e, apesar do trânsito cada dia pior, e apesar dos imprevistos que o diabo manda, vamos chegar sempre pontualmente, se Deus quiser.

Como vamos deixar para amanhã tudo que podemos fazer hoje mas, se Deus quiser, no fim vai dar tudo certo.

Vamos obedecer à preguiça, porque Deus não pode ter criado à toa uma coisa tão gostosa, e assim iremos deixando de conversar sobre os problemas que surgem com a mulher, os filhos e os vizinhos, na esperança de que os problemas se irão como o nevoeiro da manhã, e no dia seguinte tudo estará limpo, se Deus quiser.

Também não iremos à reunião do condomínio nem da associação de pais e mestres porque, por Deus, coisa mais chata não há, e pode deixar de ir porque sempre tem quem vá, graças a Deus.

Não vamos beber e dirigir, vamos beber e deixar Deus dirigir, temos muita confiança em Deus.

Não vamos nos esforçar no trabalho nem nos aperfeiçoar – pra que? – se na vida a gente tem o que Deus mandar.

Quando alguém disser “se Deus quiser”, vamos interpretar como apoio a tudo que também esperamos de Deus, e vamos nos sentir como irmãos dessa pessoa tão boa para nós, pensando ah, Deus esteja conosco.

Se não soubermos responder alguma coisa, diremos “sabe Deus” e ficaremos em paz com a consciência.

Nas carências, diremos “Deus há de prover”, e deixaremos o problema em suas mãos, pois quem mais poderoso para tudo atender?

Se pecarmos, será porque Deus não ouviu quando pedimos “não nos deixeis cair em tentação”.

E, quando seguirmos o exemplo de Judas, será porque também Deus não ouviu quando pedimos “livrai-nos de todo mal”.

Quando errarmos, não pediremos desculpas e muito menos consertaremos, pois Deus tudo perdoa e tudo Deus conserta desde Adão, não?

Mas Deus que se cuide porque, se tudo der errado e a gente ficar muito mal, botaremos a culpa em Deus, que afinal tudo pode, então porque não pôde fazer mais por nós?

E o pior é que Deus nem responde, Castro Alves já clamava: Deus, ó Deus, onde estás que não respondes?

Mas, por enquanto, e na falta de opção melhor, seguimos confiando: seja o que Deus quiser.

domingo, 5 de abril de 2015

O resgate do Brasil

A população terá que pagar durante muito tempo pelo orgulho do Governo de Dilma Rousseff
A economia brasileira apresenta todas as características de um país sob a tutela de um programa do FMI. A lista de desequilíbrios econômicos é interminável. Um déficit em conta corrente galopante que já supera 4% do PIB; uma taxa de câmbio durante muito tempo excessivamente valorizada e que despencou nos últimos meses; uma dívida pública em rápida tendência ascendente; um déficit fiscal superior a 6% do PIB e, apesar de uma altíssima pressão fiscal, uma alta anual de preços ao consumidor de quase 8%, que desancorou as expectativas de inflação; um crescimento acelerado dos salários acima da produtividade muito baixa. A crise da Petrobras, a última de uma longa série de escândalos de corrupção, é a gota que pode esgotar a paciência dos investidores, a tolerância dos cidadãos brasileiros, e a resistência da sétima economia mundial. As ramificações do escândalo alcançam todos os setores da economia e da sociedade, e estão paralisando a atividade e minando a confiança, tanto empresarial quanto a dos consumidores, para níveis de pessimismo nunca vistos. As manifestações em massa dos últimos dias são o exemplo mais concreto dessa insatisfação.

Esse tipo de desastre, como de costume, é resultado de uma perversa combinação de ideologia ultrapassada e arrogância intelectual, mascaradas por um ciclo econômico dinâmico, mas dependente especialmente de fatores exógenos e não sustentáveis, como o ciclo de sobrevalorização das matérias-primas e a exuberante demanda chinesa. O desaparecimento desses fatores exógenos revelou um crescimento potencial muito menor do que se esperava, certamente não mais do que 2,5%. Esse menor crescimento potencial revela uma economia superaquecida, muito pouco competitiva e com um nível de gasto público excessivo e difícil de reduzir, que necessita de um forte aperto tanto fiscal quanto monetário, para eliminar os excessos acumulados.

Do governo Dilma, há pouco a esperar

Nas últimas semanas tenho dado entrevistas aos jornais e às TVs, talvez mais do que devesse ou a prudência indicasse. Por quê? A mídia anda à busca de quem diga o que pensa sobre o “caos” (a qualificação é oficiosa, vem da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República) em que estaríamos mergulhados e é necessário que vozes da oposição sejam ouvidas.

A crise atual marca o fim de um período, embora ainda não haja percepção clara sobre o que virá. Em crises anteriores, as forças opostas ao governo estavam organizadas, tinham objetivos definidos.

Foi assim com a queda de Getúlio em 1945, quando a vitória dos Aliados impunha a democracia; idem na segunda queda de Getúlio, quando seus opositores temiam a instauração da “República sindicalista”; o parlamentarismo, igualmente, serviu de esparadrapo para que Jango pudesse tomar posse; em 1964 as “marchas das famílias pela liberdade” aglutinaram as forças políticas aos militares contra o populismo presidencial e, posteriormente, se entregaram a práticas autoritárias; deu-se o mesmo, por fim, quando a frente de oposição, liderada pelo PMDB, em aliança com dissidentes da antiga Arena, pôs fim ao regime criado em 1964.

Em todos esses casos, previamente ao desenlace, houve o enfraquecimento da capacidade de governar e os opositores tinham uma visão política alternativa com implicações econômicas e sociais, embora se tratasse fundamentalmente de crises políticas.

Mesmo no impeachment de Collor, a crise era política e a solução idem. Naturalmente, ajustes econômicos foram feitos em seguimento às soluções políticas, basta lembrar a dupla Campos/Bulhões nos anos 1960. Ou ainda, os planos Cruzado e Real, que se seguiram à Constituinte e à derrocada de Collor.

No que se distingue o “caos” atual? Em que ele é mais diretamente a expressão do esgotamento de um modelo de crescimento da economia (como também em 1964 e nas Diretas Já), embora ainda não se veja de onde virá o novo impulso econômico.

Mais do que de uma crise passageira, o “caos” atual revela um esgotamento econômico e a exaustão das formas político-institucionais vigentes. Será necessário, portanto, agir e ter propostas em vários níveis.

Embora haja alguma similitude com a situação enfrentada na crise de Jango Goulart, nem por isso a “saída” desejada é golpista e muito menos militar. Não há pressões institucionais para derrubar o governo e todos queremos manter a democracia.

Explico-me: a pretensão hegemônica do lulo-petismo assentou-se até a crise mundial de 2008, na coincidência entre a enorme expansão do comércio mundial e a alta do preço das commodities, com a continuidade das boas práticas econômicas e sociais dos governos Itamar/Fernando Henrique Cardoso.

Essas práticas foram expandidas no primeiro mandato de Lula, ao que se somou a reação positiva à crise financeira mundial. Ao longo do seu segundo mandato, o lulo-petismo assumiu ares hegemônicos e obteve, ao mesmo tempo, a aceitação do povo (emprego elevado, bolsa-família, salário mínimo real aumentado) e o consentimento das camadas econômicas dominantes (bolsa BNDES para os empresários, Tesouro em comunicação indireta com o financiamento das empresas, Caixa Econômica ajudando quem precisasse).

Só que o boom externo acabou, os cofres do governo secaram e a galinha de ovos de ouro da “nova matriz econômica” — crédito amplo e barato e consumo elevado — perdeu condições de sustentabilidade.

Isso no exato momento em que o governo Dilma pôs o pé no acelerador em vez de navegar com prudência. Daí que o discurso de campanha tenha sido um e a prática atual de governo, outra. Some-se a isso a crise moral, na qual o Petrolão não é caso único.

As oposições devem começar a desenhar outro percurso na economia e na política. Como a crise, além de econômica e social, é de confiabilidade (o governo perdeu popularidade e credibilidade), começam a surgir vozes por “um diálogo” entre oposições e governo.

Problema: qual o limite entre diálogo político e “conchavo”, ou seja, a busca de uma tábua de salvação para o governo e para os que são acusados de corrupção?

A reconstrução de uma vida democrática saudável e uma saída econômica viável requerem “passar a limpo” o país: que prossigam as investigações e que a Justiça se cumpra. Ao mesmo tempo há que construir novos modos de funcionamento das instituições políticas e das práticas econômicas.

As oposições devem iniciar no Congresso o diálogo sobre a reforma política. Em artigo luminoso do senador Serra, publicado no “Estadão” de 26 passado, estão alinhadas medidas positivas, tanto para a reforma eleitoral como para práticas de governo.

Iniciar a proposta de voto distrital misto nas eleições para vereador em municípios com mais de 200 mil eleitores é algo inovador (o senador Aloysio Nunes fez proposta semelhante). Há sugestões de igual mérito na área administrativa, como a criação da Nota Fiscal Brasileira, e ainda a corajosa e correta crítica ao regime de partilha que levou a Petrobras a se superendividar.

De igual modo, o senador Tasso Jereissati apresentou emenda moralizadora sobre o financiamento das eleições, impondo tetos de doação de até 800 mil reais para os conglomerados empresariais e restrições de acesso ao financiamento público às empresas doadoras. Partidos que até agora apoiam o governo, como o PMDB, também têm propostas a serem consideradas.

Sei que não basta reformar os partidos e o código eleitoral. Mas é um bom começo para a oposição que, além de ir às ruas para apoiar os movimentos populares moralizadores e reformistas, deve assumir sua parte de responsabilidade na condução do país para dias melhores.

Deste governo há pouco a esperar, mesmo quando, movido pelas circunstâncias, tenta corrigir os rumos. Tanto quanto popularidade, falta-lhe credibilidade.

Queda de Dilma no Ibope atrapalha Lula para 2018

Reportagem de Washington Luiz, edição de O Globo de 2 de abril, revela os resultados da mais recente pesquisa do Ibope destacando os índices de reprovação e aprovação do governo Dilma Rousseff. A reprovação atingiu 64 pontos e a aprovação apenas 12%, muito baixa. O levantamento inclui a parcela de 24% que optou por considerar regular o desempenho. Esses números coincidem com o da pesquisa do Datafolha recentemente divulgada através da Folha de São Paulo. A pesquisa do Ibope foi encomendada pela Confederação Nacional da Indústria.

É claro que o resultado incomodou o Palácio do Planalto, como a reportagem de O Globo assinala, comprovando a necessidade de a Presidente da República mudar o rumo central de sua administração. Sobretudo porque o índice negativo encontrado pela pesquisa é o mais baixo de todos desde 1995.


Isso prejudica não só o atual governo, mas também o projeto político do PT, uma vez que o ex-presidente Lula já anunciou publicamente sua candidatura às eleições presidenciais de 2018. Essa possibilidade, entretanto, para ser concretizada depende do desempenho de sua antecessora, pois a onda de impopularidade atual, se for mantida, abala seu projeto de Lula retornar ao Planalto.

Some-se a isso a perspectiva de elevação de impostos admitida pelo ministro Joaquim Levy, como revelam Marcelo Correa e Cristiane Bonfanti no Globo do dia 3. O aumento de impostos atingiria o PIS/COFINS sobre aplicações financeiras e comercialização de diversos produtos. O tributo, que desde 2004 encontra-se na tarifa zero, passaria a 4,6%. Evidentemente tal elevação seria repassada aos preços a serem pagos pelos consumidores, o que logicamente terminaria afetando o mercado de consumo. O projeto do ministro da Fazenda, revelaram Marcelo e Cristiane, está embutido no esquema do ajuste fiscal, cuja aprovação depende do Congresso Nacional.

Os repórteres verificaram a composição percentual do chamado ajuste fiscal: 2/3 decorrentes da elevação de tributos e 1/3 decorrente do corte de despesas. O aumento de impostos, como classificou o economista Mansueto Almeida, especialista em contas públicas, seria uma espécie de pagamento de contas, pelo atual governo, das dívidas contraídas ao longo do governo passado.

Ocorre que a presidente da República é a mesma e que os reflexos políticos serão acrescentados à sua conta em matéria de credibilidade e aprovação popular. O resultado será, pelo menos, a manutenção dos 12% revelados pelo IBOPE, ou os 13% assinalados pelo Datafolha. A diferença estatística significa muito pouco para quase todos.

Menos para o ex-presidente Luis Inácio Lula da Silva que seria o principal afetado pela manifestação popular nas urnas de daqui a três anos. Motivo bastante forte para as críticas que vem fazendo ao Governo, especialmente aos ministros Aloízio Mercadante e Pepe Vargas, aos quais atribui a origem de rumos equivocados que se chocam com a realidade da opinião pública, vale dizer com o eleitorado, que lhe deu quatro vitórias consecutivas para presidência da República.

Lula espera atingir a quinta eleição, mas sabe que seu projeto depende da aprovação ou desaprovação do governo daquela que o sucedeu na alvorada de um projeto de reeleições sucessivas, instituído por Fernando Henrique Cardoso em cujos desdobramentos inesperado, naquela ocasião, terminou beneficiando e quase eternizando a supremacia do PT nas urnas.

Mas esta visão está desaparecendo em função principalmente dos escândalos da Petrobrás e do envolvimento da legenda nas revelações cada vez mais intensas e sucessivas. Somando-se a isso a reprovação atual de Dilma Rousseff, torna-se difícil a Lula obter a quinta vitória da série do poder. Assim ele está dependendo de uma mudança nos rumos do governo. Sem essa mudança, a quinta vitória passa a ser, como disse o poeta, um sonho de uma noite de verão.

Nada é impossível de mudar

Desconfiai do mais trivial,
na aparência singelo.
E examinai, sobretudo, o que parece habitual.
Suplicamos expressamente:
não aceiteis o que é de hábito
como coisa natural,
pois em tempo de desordem sangrenta,
de confusão organizada,
de arbitrariedade consciente,
de humanidade desumanizada,
nada deve parecer natural
nada deve parecer impossível de mudar.
Bertolt Brecht (1898-1956)

Gastam-se bilhões, cortam-se centavos

A um governo e uma presidente rejeitada por 64% dos brasileiros, não bastarão gestos tímidos como a retirada do privilégio de aviões da FAB para o ir e vir de ministros

Gafanhotos petistas  (Foto: Arquivo Google)

O Planalto nega. Talvez não aconteça. Mas parece que após conseguir adiar a votação do novo indicador da dívida dos estados – a primeira vitória de Dilma Rousseff no Congresso depois de reempossada -, o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, aventura-se a falar em cortes. De custeio, de cargos e de ministérios, parte dos 39 que, na campanha, Dilma insistiu em dizer que não pesam nas contas públicas.

Ainda que mais uma vez o governo fique a reboque do PMDB, autor da ideia de reduzir para 20 o número de pastas, Levy admite uma reforma administrativa e o enxugamento na máquina, mesmo que seja apenas pelo caráter simbólico.

Símbolo para lá de necessário. Especialmente quando se pretende aprovar uma proposta de ajuste fiscal que, mesmo imprescindível, joga a conta inteira sobre os ombros dos pagadores de impostos.

Se feita com rigor, pode ser mais do que uma simples alegoria.

Exemplos recentes nos mostram isso. Em 1995, frente a um Estado falido, o então governador Mario Covas renegociou dívidas com terceiros, extinguiu quase três mil cargos de livre nomeação e cortou um terço da execução orçamentária. Quitou dívidas e obteve R$ 2,2 bilhões de economia para os cofres paulistas em menos de seis meses.

Sob a égide do petismo, faz-se o inverso. Os gastos só aumentam ano a ano.

Nada menos de 4,5 mil cargos de livre provimento foram criados nos 12 anos de governo do PT. E, ainda que boa parte seja atribuída a funcionários concursados, engordou-se a folha. E muito.

De acordo com o Boletim Estatístico de Pessoal e Informações Organizacionais do Ministério do Planejamento, o número de servidores da União saltou de 485,7 mil em 2002, último ano de Fernando Henrique Cardoso, para 613,6 mil em 2014.

Nas autarquias e fundações, onde é mais fácil alocar cupinchas, a proporção é ainda mais estarrecedora. Em 2002, o custo de pessoal nas autarquias era de R$ 13 bilhões e de R$ 4,2 bilhões nas fundações. Mais do que triplicaram: foram, respectivamente, para R$ 48 bilhões e R$ 14,9 bilhões.

Traduzindo em reais, a folha Dilma (servidores civis e militares) bateu em R$ 185,8 bilhões em 2014, R$ 126,3 bilhões a mais do que os R$ 59,5 bilhões de 2002.

Mais grave: os gastos maiores e crescentes estão entre os servidores ativos e não com aposentados e pensionistas, como poderia se imaginar. Ou seja: trata-se de multiplicação exponencial da máquina sem que isso se reverta em serviços ao cidadão.

A um governo e uma presidente rejeitada por 64% dos brasileiros, não bastarão gestos tímidos como a retirada do privilégio de aviões da FAB para o ir e vir de ministros aos seus lares. Ou a fala de Levy sobre uma futura e incerta reforma administrativa.

O país que foi às ruas em 15 de março e que se prepara para reocupá-las no próximo domingo quer muito mais do que símbolos.

Páscoa musical

Um solo magistral de Ann Miller, no filme "Easter Parade", de 1948, com os não menos grandes Fred Astaire e Judy Garland. Uma parada na esbórnia tupiniquim

Governo Dilma não consegue apoio nem mesmo no PT

Nunca antes, na História deste país, se viveu uma situação política desse tipo, com um início de mandato presidencial marcado por uma confusão absoluta, em que a aprovação do governo cai a níveis jamais imaginados e a base aliada se deteriora, enquanto o principal partido da coalizão entra em transe e passa a criticar abertamente as mais importantes decisões administrativas. Nem mesmo o genial Glauber Rocha conseguiria bolar uma enredo como este, em que a realidade suplanta qualquer ficção.

O PT está completamente acéfalo, seu presidente Rui Falcão não manda mais nada e nem mesmo Lula, com todo o seu carisma e sua liderança, consegue restabelecer a ordem no partido. Na última quarta-feira, o grupo PMB (Partido que Muda o Brasil), maior força interna do PT, divulgou um manifesto de críticas ao modelo de ajuste fiscal proposto pelo governo petista de Dilma Rousseff (PT).

Elaborado para o 5º Congresso do PT, que será realizado em junho, o documento questiona por que não houve uma consulta prévia sobre as medidas a serem adotadas. “Essas práticas foram em grande parte responsáveis pelo mal-estar de muitos movimentos sociais que lutaram pela eleição da presidente e que, hoje, se encontram perplexos e frustrados com as primeiras medidas”, assinala o manifesto, lamentando que o peso das medidas econômicas tenha “recaído mais sobre os trabalhadores do que sobre outros setores das classes dominantes”.

O texto também reconhece que as recentes denúncias de corrupção “acabaram por golpear duramente a imagem da legenda” e defende que a sigla “não pode cair nessa vala comum”.

“É imprescindível que a continuada ação dos poderes da República e a própria vigilância do partido cortem a corrupção na sua raiz, se necessário na própria carne. O PT necessita sair das páginas policiais do noticiário e ficar apenas naquelas dedicadas à política”, ressalta o manifesto do grupo majoritário, ao qual pertencem Rui Falcão e o próprio Lula.

Na verdade, o governo Dilma Rousseff perdeu mesmo o apoio das bases do PT, porque as outras alas partidárias também repudiam o ajuste fiscal. Um documento divulgado pela tendência Mensagem ao Partido, a segunda maior força interna, diz que “o segundo governo da presidente se iniciou com uma clara inflexão conservadora na gestão macroeconômica, contraditória com o programa eleito”.

“É preciso superar esse impasse ou o segundo governo trabalhará, na melhor das hipóteses, com um cenário de baixo crescimento [da economia] e eventual crescimento do desemprego”, ressalta.

Traduzindo tudo isso: ninguém aguenta mais o governo Dilma Rousseff. Nem mesmo o PT.

Quântikas probabilidades


Conforme a Física Quântika, quanto mais improvável algo parece, mas é indício de que um dia poderá acontecer. Quem diria, por exemplo, que tantas imensas represas quase secariam? Ou que super-empresários iriam para a cadeia?

Então. Aqui vão algumas coisas que, pela lei das possibilidades improváveis, poderão ou mesmo estão prestes a acontecer.

Dilma renunciará, entregando à Justiça uma lista de corruptos que viu corrompendo ou sendo corrompidos, declarando-se em auto-prisão domiciliar até ser chamada para depor.

Profundamente impactado, conforme suas últimas palavras antes de adotar silêncio zen até o fim da vida, Lula rapará a cabeça, onde tatuará uma estrela amarela, e se internará em mosteiro (só para homens portanto), jejuando dia sim e dia não, quando comerá apenas pão sem sal e beberá apenas água morna.

José Dirceu, com capital comprovadamente de herança familiar, abrirá pequena agência de turismo chamada Mensalet, especializada em excursões com duração de um mês.

Isso estimulará Joaquim Barbosa a abrir banca de advocacia especializada em recursos, apelações e protelações judiciais, mas correrá o boato de que seu sócio oculto será o ministro Lewandovski.

Eymael e Levy Fidelix, em ato conjunto, anunciarão que não mais se candidatarão a presidência da República, mesmo que o povo isso exija em passeatas pelo país.

Roberto Requião, humildemente seguindo o exemplo deles, abrirá uma empresa de relações públicas chamada Mamonas Assadas.

Ao lado, Beto Richa abrirá a empresa de consultoria financeira Professoricha.

Marina Silva abrirá empresa de consultoria ambiental para assessorar grandes empreendimentos multinacionais, com roupas de grife, dizendo que simplicidade um dia cansa e viajando em seu jatinho Jafui.

Chitãozinho e Xoxoró gravarão disco de jazz e música erudita, enquanto Bruno e Marrone gravarão um disco só de Bossa Nova.

Londrina dará exemplo ao mundo com o Programa Lixo Zero, reciclando todo o lixo e transformando até em artesanato, a custo zero, graças à total participação social.

Xuxa anunciará sua ida para a TV Ibiporã, dizendo que finalmente terá liberdade de criação e produção.

Sílvio Santos comemorará centenário jogando notas de 100 para o auditório de 100 colegas de trabalho também com mais de 100 anos, e apenas 10% delas enfartarão.

As companhias aéreas encurtarão o espaço entre os assentos, entretanto fornecendo almofadas joelheiras para os passageiros.

Os políticos e juízes reduzirão os próprios salários, anunciando que só aceitarão aumento proporcionais ao aumento do salário mínimo.

Em entrevista coletiva, com as renas pastando em volta, Papai Noel anunciará que não existe, os repórteres perguntarão como não existe se está ali, ele então resmungará que está com o saco cheio, montará no trenó e irá embora deixando o outro saco no chão.

Como o Papai Noel estará na malha fina, o saco será leiloado pela Receita Federal e arrematado por um pastor que o usará para coletas nos cultos, dizendo que só assim poderemos comprar o adiamento do Apocalipse. Quem duvidar, verá.

Essa criminosa de alta periculosidade

Jardim de caiçara no litoral fluminense
Cada temporada de dengue, os governos sempre atentos aos maus elementos, decretam a caça das bromeliáceas, família com perto de 3 mil elementos de 56 gêneros, quase 40% deles vivendo indiscriminadamente no Brasil.

Parques são dizimados. Mas ao mesmo tempo há quem se aventure a conviver com esses criminosos que abrigam as larvas do mosquito.

Sempre dispostos a eliminar os mais fracos e indefesos, os governos guardiães da sociedade decretam guerra à bromélia. Por que vão enfrentar os lixões, os valões, o lixo espalhado nas ruas, os depósitos de ferro velho, o próprio descaso? Mais fácil é arrancar planta.

(Certa vez a um daqueles agentes contra os vetores se perguntou por que fazem tanta questão de averiguar casas quando as chamadas servidões e terrenos baldios, grandes indústrias do Aedes, nem são com eles? “Disso eles (o governo) não cuidam”)

sábado, 4 de abril de 2015

Cada país tem o Judas que merece


As 10 coisas que aprendi com os petistas na internet

A grande web é uma arena de gladiadores e um tratado sociológico sobre a vergonha alheia. Aqui aprendemos, como em nenhum outro lugar, como se comportam os partidários das mais diferentes tribos e escolas de pensamento. Uma, em especial, se destaca nesses tempos de crise – a dos petistas. Eis uma classe entregue a desconstruir adversários e críticos, abraçando o governo da maneira mais desavergonhada possível, reinventando-se através das desculpas mais esfarrapadas do mundo.
Nessa grande escola que é a internet, essas são as dez coisas que eu aprendi com os petistas nos últimos meses.

1) Quem não é petista, é tucano

Não importa quem você é ou o que você defende: se você não é petista, você é tucano. Não há outra opção disponível. Ataque um descaso do Partido dos Trabalhadores e espere: será apenas uma questão de tempo para que um ataque ao PSDB apareça na sua frente como se esse fosse um argumento. E aqui não importa se você reside num estado ou numa cidade governada por tucanos. Quem ataca Lula e Dilma automaticamente defende Geraldo Alckmin, Aécio Neves e Fernando Henrique Cardoso. É uma determinação implícita nos debates, um contrato que você assinou se responsabilizando sem saber.

2) Quem não é petista não gosta de pobre viajando de avião

Por alguma razão inexplicável, quem não é petista não gosta de pobre viajando de avião. Não me pergunte por quê, mas alguém que não apoia o atual governo só pode assumir essa posição porque perdeu sua escrava doméstica; não consegue alugar seus apartamentos graças ao sucesso do “Minha Casa, Minha Vida“; não gosta de negros cursando o ensino superior (mesmo que você seja negro); e se irrita porque é obrigado a ficar mais tempo preso no trânsito com seu carro, engarrafado no meio de um monte de veículos populares guiados por domésticas, cabeleireiras, pedreiros e porteiros (o que lembra a velha máxima “congestionamento é progresso”, dita por Paulo Maluf em certa ocasião). Como disse Rui Costa, o atual governador petista da Bahia, “o antipetismo é a insatisfação da classe média”. Para ele, “o Brasil está vivendo um segundo período de fim da escravidão“, com a derrota de “pessoas [que] veem como um absurdo o porteiro chegar de carro ao trabalho e se incomodam ao ficar atrás de um agricultor ou uma empregada doméstica em uma fila de aeroporto; acham que pobre não pode ter carro, não pode andar de avião, não pode entrar em uma universidade”. Não há outra razão possível – quem ataca o PT é rico e não gosta de pobres. Simples assim.

3) Você protesta contra o governo porque nunca leu um livro de história na vida

Você não votou na Dilma porque nunca leu um livro de história na vida (certamente não os do Mario Schmidt). É duro ter que dizer isso, mas você certamente é um iletrado que ignora o fato irrefutável de que por 500 anos o Brasil foi governado pela direita (somos um país tão conservador que já eramos de direita antes mesmo da direita nascer). Na última campanha presidencial, conforme apontado por diversas pesquisas de opinião, a candidata petista liderou com folga entre aqueles com escolaridade até a 4ª série, mas viu um cenário radicalmente oposto entre aqueles com ensino superior, que apoiaram em massa o candidato da oposição. Na dúvida, os mais escolarizados fugiram dos livros de história.

4) Quem não é petista, nem tucano, defende a ditadura militar

Se você não é petista, só há um caminho possível além de ser tucano – você é um defesor da Ditadura Militar. Não, não há outra razão. Dilma combateu os militares, se você não gosta dela, logo os defende. O caminho é muito claro: você não gosta do PT porque provavelmente é um fascista. E nem adianta olhar pro lado, tô falando com você mesmo, que esconde pôsteres do Mussolini no quarto. Você que quer a instauração de um regime racial, que toma as ruas com as cores do país para protestar contra o governo. Você é um radical de ultradireita que se cumprimenta dizendo “anauê” para sua trupe.

5) Você não pode reclamar dos bilhões desviados pela corrupção porque fura fila na padaria

Você não tem o direito de reclamar dos casos de corrupção cometidos pelo governo. Por duas razões. A primeira porque o PT não criou a corrupção, logo não faz sentido acusar o partido de nada – além disso, o PT é o único partido que manda investigar. A segunda, porque você fura a fila da padaria, já buzinou perto de um hospital e já estacionou em local proibido. E nem adianta dizer que você nunca fez nada disso, porque o jeitinho está na alma do brasileiro. Antes de reclamar dos bilhões de reais desviados pelo PT, pense naquele dia em que você colou fazendo uma prova de geografia na oitava série. Além disso, lembre-se do primeiro argumento dessa lista: o PSDB já esteve envolvido em casos de corrupção. Todos os seus argumentos contra o PT são inválidos, tucanalha!

6) O processo constitucional de impeachment é golpe

Se você toma as ruas reclamando de um governo envolvido em esquemas de corrupção – do zagueiro ao ponta-direita – pedindo a investigação da presidente, se ousa pronunciar a palavra impeachment, só o faz porque é automaticamente um golpista. Isso mesmo. O impeachment é um processo regulado no Brasil pela lei 1.079/50, um artifício democrático e constitucional, não presente em regimes ditatoriais (você já viu algum ditador saindo do cargo porque sofreu um processo de impeachment?). Ainda assim, caso você ouse pronunciá-lo, pedindo apuração dos fatos, você é um defensor da ditadura. Ok o governo se aproximar de regimes ditatoriais (como Cuba e Venezuela), oferecendo ajuda econômica e política. Ok os petistas terem pedido a saída de quase todos os presidentes eleitos no país desde a redemocratização. O culpado é você, que exige a independência do Judiciário e do Legislativo, que pede por investigações e o cumprimento da lei.

7) Dilma não pode sair porque seu vice, eleito pelos petistas, não presta

Além de golpista, aprendemos com os petistas que você também não tem consciência política - afinal, se sai a Dilma entra o Michel Temer no lugar, e quem em sã consciência gostaria disso? Todo mundo que votou na Dilma votou no Temer também (afinal de contas, não existe um candidato único à presidência, mas uma chapa-presidencial), mas você não tem consciência aqui por querer que seu vice tome o poder. Quem elegeu Michel Temer vice-presidente de um país onde os vices assumiram o poder em 1/3 das ocasiões desde a redemocratização, ignorando o fato de que ele poderia assumir o poder a qualquer momento, podem lhe ensinar agora como ser um eleitor mais consciente.

8) Quem vaia Dilma é machista

Se você vaia a presidente, se bate panelas quando ela aparece na televisão, se por algum motivo não gosta dela, só o faz porque é um machista (mesmo que você seja uma mulher). Não adianta ignorar a realidade. O machismo é um sentimento inconsciente que expressamos muitas vezes sem querer, homens e mulheres. Faz parte da nossa cultura. Se você não gosta de uma presidente mulher é porque têm ódio de mulheres - provavelmente não se sente tão à vontade vendo mulheres alcançando posições de destaque na sociedade. Toda oposição à Dilma é uma apologia ao machismo. Esqueça o noticiário, esqueça os casos de corrupção, esqueça a economia, busque um psicólogo.

9) Todos os problemas do país serão resolvidos com uma reforma política

Todas as soluções para o país estão na Reforma Política proposta pelos movimentos sociais e sindicais de esquerda – afinal, eles representam a sociedade, não é mesmo? É ela quem irá estabelecer a paz mundial, curar todas as doenças, devolver o poder ao povo brasileiro. Quer combater a corrupção? Os petistas têm a solução: acabem com o financiamento privado de campanha. Depois da proibição, segundo os simpatizantes do partido que mais recebe doações de empresas privadas no país, não mais haverá caixa 2 (um crime que remete a um dinheiro que já não é contabilizado de forma legal, mas tudo bem), não mais obras superfaturadas no país, não mais escândalos em ministérios e nas estatais. Sem dinheiro privado de campanha, como num passe de mágica, os políticos brasileiros não terão mais incentivos para o roubo e as aproximações com empresários corruptos. A verba de dinheiro público aos partidos irá aumentar substancialmente – com o dinheiro dos pagadores de impostos, claro – mas esse é o preço que se paga para combater uma chaga tão dura na sociedade brasileira. Ok, não há qualquer indício que a corrupção diminua no país com a medida, mas pelo menos o partido que manda investigar está mandando investigar.

10) 2 milhões de pessoas tomaram as ruas no dia 15/03 porque a Globo ordenou

Por fim, aprendi com os petistas na internet que dois milhões de pessoas tomaram as ruas do país em protesto contra o governo porque a Globo convocou. Sim, caros leitores: se a maior emissora do país registra em sua programação o maior protesto da história do Brasil é porque ela claramente está se opondo ao governo e convocando as pessoas para o ato. E o brasileiro é como um zumbi: ele viu os protestos sendo noticiados na televisão no domingo de manhã, vestiu sua camisa verde e amarela e tomou conta das ruas sedento por carne humana. Grave bem, tudo que acontece de errado nesse país é culpa da Globo. Não há razões para descontentamento. O brasileiro é um povo alienado porque a Globo o coloca contra o governo. As milhões de pessoas que tomaram as ruas provam isso. O fato do PT ter ganho as últimas quatro eleições presidenciais, num período em que a Globo permaneceu líder de audiência, é um mero acaso, um acidente. Nos últimos treze anos ela não teve força suficiente para mudar a vontade de um povo soberano que não é bobo e que grita “abaixo a Rede Globo”. Agora, como mágica, tudo é diferente. Esse é o Brasil.

Rodrigo da Silva 


A fúria de Lula

A fúria de Lula tem um motivo: acha que Dilma vai inviabilizar a sua candidatura em 2018. Ele não aceita a evidência: seu tempo acabou!

A Folha informa na edição desta quinta que o ex-presidente voltou a reclamar de Dilma Rousseff em conversa com sindicalistas no encontro de terça-feira. Já havia feito o mesmo com dirigentes petistas na segunda. Ele estrila para que ela saiba, não para que não saiba.

O chefão decadente criticou a coordenação política do governo, a cargo de Aloizio Mercadante, no que está certo (é ruim de doer mesmo), mas o fez, não duvidem nunca, por motivos errados. Os sindicalistas, por sua vez, se queixaram da falta de diálogo com o governo, e o Babalorixá de Banânia não se fez de rogado: tornou-se o porta-voz da chiadeira no discurso que fez:

“Dilma, se estiver ouvindo, gostaria de dizer o seguinte. Você precisa lembrar sempre que quem está aqui é o seu parceiro, nos bons e nos maus momentos. A gente não quer ser convidado só para festa, não. A gente quer ser convidado para discutir coisas sérias, para fazer boas lutas e boas brigas.”

As palavras fazem sentido. Prestem atenção ao “se estiver ouvindo”. Poderia ser substituído por sua “teimosa”, “cabeça-dura”, “desobediente”. Lula tem dito por aí que Dilma está isolada no Palácio, que tem de andar mais e se aproximar dos movimentos sociais. Ou por outra: ele quer que ela cole justamente nos setores que pretendem mandar às favas o ajuste fiscal.

Isso é o que Lula diz. E o que ele não diz? O homem quer voltar, sim, e acha que a ainda aliada está obstruindo o seu caminho. Não é só ele. Boa parte da máquina petista e da máquina sindical pensa a mesma coisa. Ou, na expressão de um petista graúdo, conversando com um de seus pares: “Ela [muitos “companheiros” só se referem a Dilma por “ela”] vai conseguir o que a direita não conseguiu; vai quebrar as pernas do PT”.

Lula diz por aí que, no primeiro ano de seu primeiro mandato, viveu circunstâncias até piores do que as de Dilma, mas as venceu “conversando com a sociedade”. É claro que se trata de uma mentira. Entre outras delicadezas, o chefão se esquece de que ele e o PT não tinham a memória de 12 anos de poder, com todos os seus descalabros.

Um dos luminares petistas lembra que o partido não dispõe hoje, e não disporá nos próximos três anos e pouco, de uma alternativa a Lula para disputar a sucessão de Dilma e que ouvi-lo antes de tomar decisões seria uma espécie de obrigação da presidente. Com ironia, comentou com um interlocutor: “Só faltava agora ela estar preocupada com a própria biografia. Há outras prioridades”.

Dilma tem, sim, de se preocupar com as ruas. Mas quem mais a ameaça hoje é Lula, que não aceita o óbvio: seu tempo acabou!

 Reinaldo Azevedo

'Cada brasileiro necessita fazer uma autocrítica de suas ações'

Enquanto a vara de marmelo verga sobre o lombo de corruptos e corruptores, na Polícia Federal e no Ministério Público Federal, e enquanto no PT e arredores desejam transformar Joaquim Levy em bode expiatório (se não der certo o ajuste, a culpa é de Levy...), ocupo-me de outro assunto. Já me referi aqui a alguns ensinamentos que recebi do meu pai, que foi meu primeiro professor. Meu pai dedicou sua vida ao ensino e à educação e, claro, fez votos de pobreza. Comecei com ele, embora nem sempre lhe tenha sido fiel, a exercitar-me no que se chama “senso ético”. Sem este, a erudição ou a cultura valem pouco. 

A propósito, quando prestei vestibular para a Faculdade de Direito da UFMG, deparei-me, na prova de redação, com o difícil tema “A alma de toda a cultura é a cultura da alma”, que nunca soube a quem creditar – se ao professor responsável pela prova, de cujo nome não me lembro, ou se a um dos nossos clássicos. Afinal, já se foi mais de meio século, numa velocidade vertiginosa, e da qual só agora me dou conta...

O tema (ou enunciado) foi um óbice a boa parte dos colegas vestibulandos. Saí-me relativamente bem na prova graças aos ensinamentos que recebi quando criança, ensinamentos que nem sempre – devo confessar – me proporcionavam alegria ou prazer. Ao contrário, ainda adolescente, sentia-me pressionado a absorvê-los. Anos depois, quando a maturidade já batia às portas, mudei o enfoque...

Agora, diante do que acontece a boa parte dos nossos representantes, no município, no Estado e na Federação, que, pelo que se constata diariamente, perdeu total e definitivamente o pudor, vem-me o desejo de me referir à fragilidade humana ou, para ser mais preciso, à instigante atração que o ser humano demonstra pela transgressão. Esse desejo se tornou mais concreto depois que li o artigo “Antes de ir para rua protestar”, do médico cardiologista e professor Cid Velloso, que foi reitor da Universidade Federal de Minas Gerais, no período de 1986 a 1990.

“Cada cidadão brasileiro”, diz Cid Velloso, “necessita fazer uma autocrítica de suas ações, modificando atitudes indevidas e introduzindo processos educacionais nas escolas, na educação familiar, em seu espaço de trabalho, em sua roda de amigos e, enfim, em todas as suas atividades”. Depois dessa importante sugestão, Cid Velloso repete algumas das ações condenáveis e consideradas, por ele (e por quase todos nós), ainda hoje comuns e toleradas: a sonegação de impostos; as infrações diárias no trânsito, como a ultrapassagem do sinal vermelho, o estacionamento em local proibido e a fila dupla; os “gatos” (ligações irregulares) feitos em redes de TV, água, luz e telefone; a aceitação de pagamento menor a médico, livrando-o do Imposto de Renda; a não exigência de nota fiscal nas compras usuais; a compra de recibos falsos a profissionais da saúde; a aquisição de DVDs e CDs piratas; as manobras, em viagens, para enganar fiscais da alfândega; e a declaração de valores menores na escritura de compra de imóveis etc.

A lista dessas pequenas falcatruas é de fato infindável, leitor, mas, se começarmos por nós a transformação, o país, com certeza, não submergirá. Para fortalecer a tese, lembro-o de uma das crônicas do memorável João Ubaldo Ribeiro, que, ao se decidir pela procura do responsável por todos os males deste nosso pobre país, para lhe exigir melhor comportamento, olhou-se no espelho e, enfim, o encontrou…

Acílio Lara Resende

Os indignados e os que ainda não entenderam


O Brasil vai como quem resvala rampa abaixo sobre um skate. É a crise. Em relação a ela, existem duas atitudes principais. A primeira, amplamente majoritária, é a atitude dos que entenderam o que aconteceu e estão indignados. A segunda é a dos que ainda não entenderam.

Estou entre os primeiros. E realmente indignado porque não precisávamos estar passando por isso. Nosso país viveu um momento promissor nos primeiros anos da década passada. Após enorme esforço fiscal, o Brasil derrubara a inflação, havia recuperado a credibilidade internacional, passara a atrair investimentos, construíra alguns fundamentos para a Economia, a arrecadação crescera e o governo ampliara a destinação de recursos para uma série de programas sociais. As condições para tanto foram obtidas a duras penas desde o governo Itamar Franco, com medidas de austeridade e privatizações que o PT combateu furiosamente. Seriam necessárias muitas outras providências, é verdade, mas nunca houve (e não sei se um dia haverá) apoio político, no Brasil, para fazer todo o dever de casa.

Mas íamos bem. Tanto assim que Lula e seus companheiros se convenceram de que governar o Brasil era uma barbada. A China vendia tudo barato e comprava montanhas de qualquer coisa. Jorrava dinheiro nas contas públicas. Obama dizia que Lula era "o cara" e o cara era o pai dos pobres, aqui e mundo afora. O Brasil virou um programa de auditório onde se atirava dinheiro ao público. Havia bastante. Dava para comprar todos que quisessem se vender. Uma parte da grana ia para os programas sociais e outra, muito maior, para os programas socialites, via contratantes de obras e serviços, e financiamentos do BNDES.

De formiga da revolução social, o petismo passou a cigarra das prodigalidades. Em vez de investir na qualidade da educação das classes de menor renda, preferiu remunerar a ociosidade. Em vez de estimular o mérito, favoreceu a mediocridade com leis de cotas. Em vez de gastar recursos públicos em infraestrutura, "conquistou" em dois lances, a Copa de 2014 e os Jogos Olímpicos de 2016. Em vez de diminuir o tamanho o Estado, agigantou-o com novos ministérios para usufruto da base de apoio. Para que o PT se exibisse como partido líder da esquerda continental, financiou de um modo escandalosamente secreto obras de infraestrutura que fariam muito bem, se feitas no Brasil. Bilhões de reais foram direcionados para os países do Eixo do Mal Latino-Americano (na expressão perfeita do Dr. Heitor de Paola).

A crise da economia mundial de 2006 pegou Lula em campanha para a reeleição e ganhou o apelido de "marolinha". E como tal, foi solenemente ignorada pela imprudência ufanista do presidente. Ele dava conselhos ao mundo sobre como acabar com a pobreza... A partir da metade do segundo mandato do estadista de Garanhuns, nos monitores dos analistas da realidade brasileira, as luzes amarelas se alternavam com as vermelhas. Mas nada importava. Era preciso eleger a senhora mãe do PAC, notória economista que pensou haver descoberto o segredo do bem estar geral: endividar a sociedade toda através do governo para manter as aparências e, adicionalmente, ampliar o endividamento das famílias. Se você examinar de perto, verá que não há muito espaço para geração de riqueza, poupança interna e investimento nessa inadequada concepção. Embora não conviesse ao Brasil reeleger Dilma, Dilma precisava ser reeleita. Paguemos todos, então, os custos das ilusões necessárias para produzir o absurdo e suspeitíssimo resultado eleitoral de 2014.

A notória falsificação, que já leva oito anos, enganou muitos, durante muito tempo. Não só no Brasil, diga-se de passagem. Agora veio a conta e levaremos alguns anos pagando. Quem sofrerá mais? Os pobres, justamente os mais vulneráveis e, por isso, os mais iludidos pela publicidade do governo. Mas não precisávamos passar por isso.

Percival Puggina

Anedota búlgara


Era uma vez um czar naturalista
que caçava homens.
Quando lhe disseram que também se caçam borboletas e andorinhas,
ficou muito espantado
e achou uma barbaridade
Carlos Drummond de Andrade

Judas com nome e número no catálogo telefônico

Charge O Tempo 04/04
Nos tempos em que não existiam redes sociais, nem e-mails, nem televisão, durou séculos a moda, em todo Sábado de Aleluia, de a criançada e até os adultos “malharem o Judas”, ou seja, pendurar bonecos nos postes, vibrando-lhes pauladas e pedradas para queimá-los depois.

O singular naquelas brincadeiras era menos desagravar a morte de Jesus do que caracterizar os bonecos como pessoas de que as comunidades não gostavam, de preferência políticos, governantes, nas escolas, professores, e até jogadores de futebol do time adversário.

A pantomima é para ser encenada hoje, mas sem o brilho de antanho, já que atualmente, através dessas maquininhas diabólicas, consegue-se atingir, criticar e desmoralizar muito mais gente com um simples digitar de teclas. Paciência, o mundo anda para a frente, apesar de às vezes como caranguejo.

Mesmo estando em baixa a prática de malhar o Judas, no interior e nas capitais, dezenas de bonecos foram parar no alto dos postes. A pergunta é quem representavam.

Com todo o respeito e evitando fulanizações constrangedoras, dividiu-se o país, mais ou menos como nas duas manifestações de 13 e de 15 de março: na primeira data, a metade menor foi para as ruas em apoio ao PT, às centrais sindicais e ao governo. Dois dias depois a metade maior protestou contra os donos do poder, a alta do custo de vida, a redução de direitos trabalhistas, a corrupção desenfreada e a necessidade de mudanças nos serviços e nas instituições públicas.

Ontem, terá sido a mesma coisa, com a criançada, espontaneamente ou induzida, malhando um Judas do gênero feminino. Com o apoio de boa percentagem de adultos.

As lições que vêm das ruas costumam sobrepor-se às dos mestres, doutos ou acadêmicos. Refletem o sentimento popular que raríssimas vezes surge na contramão. Valeria à pena que não fosse desconsiderado esse momento, no palácio do Planalto. A opinião pública insurgiu-se contra o governo, como as mais recentes pesquisas de opinião vem demonstrando.

O recém nomeado ministro da Comunicação Social acaba de anunciar novos propósitos a desenvolver, entre eles o de integrar o poder público com os anseios da população. Seria bom que tivesse mobilizado suas câmeras e seus observadores para elaborar conclusões deste Sábado de Aleluia. O Judas, agora, tem nome e número no catálogo telefônico.

Anões políticos

Uma crise gigante gerida por anões políticos – eis em síntese a encrenca em que está metido o país. O PT, partido que se quer hegemônico, não dispõe de um só quadro, dentro ou fora do Congresso, capaz não apenas de enfrentar a crise, mas, sobretudo, de compreendê-la. Seus nomes do passado lá ficaram.

Lula e José Dirceu, seus expoentes, envolveram-se com o Código Penal e são incapazes não apenas de convencer, mas até mesmo de falar ao público. Lula atém-se a ambientes fechados e impermeáveis ao contraditório, enquanto José Dirceu é refém de advogados criminalistas. O PT mergulhou em profundo autismo.

No Congresso, o ambiente é lastimável. Ter como líder na Câmara alguém da estatura intelectual de Sibá Machado (AC), cujas relações com a lógica e o verbo atormentam taquígrafos, repórteres e colegas de ofício, resume a ópera. Diante de Sibá, Dilma tem a eloquência de um Cícero ou Vieira.

E há ainda figuras patéticas como a deputada gaúcha Maria do Rosário, que chega ao requinte de divergir de si mesma, poupando a oposição de fazê-lo. Ao que parece, não se percebe.

Opõe-se, por exemplo, à redução da maioridade penal para 16 anos, alegando que “cadeia não conserta ninguém”, ao mesmo tempo em que se empenha em agravar delitos (isto é, propor mais cadeia) para temas de sua cartilha do politicamente correto, como homofobia, feminismo e outros.

O que se deduz é que tem duas concepções de cadeia: a regenerativa e a vingativa. A primeira, quando se trata dos seus, é ineficaz e deve ser evitada, mas a segunda, destinada a seus adversários, não: deve ser intensificada. Crime, para ela – e nisso exprime o próprio PT -, não é questão moral, mas ideológica.

No entorno da presidente, há nada menos que nove articuladores políticos - e nenhum articula nada. O espetáculo patético dos dois ministros – Miguel Rosseto (da Secretaria Geral da Presidência) e José Eduardo Cardozo (da Justiça) -, escalados para falar da manifestação do dia 15 de março, não merecia sequer o panelaço com que foram brindados.

Um disse uma coisa e outro o seu contrário. Rosseto viu as passeatas como coisa dos eleitores de Aécio e da elite branca (da qual, aliás, a exemplo do comando de seu partido, faz parte), o que as tornaria banais.

Cardozo captou-lhes a gravidade, embora não saiba como lidar com elas. A má fé cínica e a obtusidade córnea de ambos (para citar a expressão de Eça de Queiroz) sugere que se poupem panelas e protestos. Não merecem sequer vaia.

Em tal contexto, não espanta que um tecnocrata, o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, afeito à ditadura das planilhas e dos números, desponte como único interlocutor político disponível junto ao Congresso. Na ausência de um negociador dentro do governo, foi pessoalmente conversar com os senadores sobre o ajuste fiscal.

Não lhe pareceram à altura da missão nomes como o já mencionado Sibá Machado ou Pepe Vargas (ministro das Relações Institucionais) ou o senador pernambucano Humberto Costa (líder naquela casa), entre outras eminências partidárias disponíveis.

O PT se opõe ao ajuste antes de mais nada porque não o compreende, assim como não compreende a crise que ele próprio fabricou. Se não a percebe, como vencê-la? Lula diz aos quatro ventos que a crise tem nome: Dilma. Nesse caso, tem também autor: Lula, que a inventou e a entronizou na Presidência.

Não bastasse, há os escândalos que não param de vir à tona – na Petrobras, na Receita, no BNDES, em toda parte. A reação do partido, na falta de argumentos, não muda: evoca a conduta de adversários no passado, na tentativa de banalizar o que fez.

É como se um homicida, flagrado, evocasse Caim para dizer que assassinato é coisa antiga e que não foi inventado por ele. A corrupção do passado – a tal “senhora idosa” a que se referiu a presidente - não absolve nem atenua a do presente. Mais: se o partido a conhece tão bem – e não hesita em atribuí-la também aos tucanos -, por que não a puniu nestes 13 anos de mandato?

A omissão, se efetiva, acresce aos delitos do presente mais um: o crime de prevaricação.

Tais contradições escapam ao tirocínio médio dos petistas incumbidos de gerir a crise. O nanismo mental não as enxerga, o que não impede que prosperem e agravem o quadro.

O resultado está parcialmente expresso nas pesquisas de opinião e nas multidões nas ruas. A propósito, a manifestação popular convocada pelo presidente do PT, Rui Falcão, para o dia 31 de março – e reverberada por Lula -, em defesa da Petrobras e contra o golpe militar de 51 anos atrás, simplesmente não aconteceu. O PT perdeu não apenas o juízo, mas também o povo.

sexta-feira, 3 de abril de 2015

O segredo da Casa Civil (ou Haja escândalo de roubo)

Os petistas José Dirceu, Erenice Guerra e Antonio Palocci chefiaram a Casa Civil da Presidência. Os três ficaram milionários depois de deixar o governo. Como esse milagre foi operado? A polícia começa a descobrir
GOLPE - A ex-ministra Erenice Guerra se associou secretamente a José Ricardo, conselheiro do tribunal da Receita Federal, para atuar em defesa de uma empresa junto ao Fisco
O poder do chefe da Casa Civil da Presidência da República, como quase tudo no governo do PT, é uma relação incestuosa entre o partido e o Estado. José Dirceu, que foi ministro da Casa Civil na fase inicial do primeiro mandato de Lula, já abriu os trabalhos ampliando os poderes de sua pasta. Ele comandava a máquina partidária e vendeu aos radicais a ideia de que Lula só se elegeria em 2002 com a suavização do discurso socialista estatizante e hostil ao livre mercado. Deu certo, e a figura de leão vegetariano colada a Lula funcionou na costura das alianças e nas urnas. Em retribuição, José Dirceu tornou-se superministro, condição que alardeava aos quatro ventos com variações desta frase: "Ele é o presidente, mas quem manda no governo sou eu". Dirceu e a Casa Civil foram os guardiões e os fiadores dos acertos e compromissos firmados com políticos poderosos e grandes empresários. Parte desse enorme poder encarnado por Dirceu na Casa Civil foi passada a seus sucessores na pasta. Com o poder, tornou-se hereditário também o hábito de o titular usar o ministério como balcão de negócios e, uma vez fora, lançar mão de sua influência junto a quem ficou para continuar operando.

Qualquer negociação estratégica com o setor produtivo e o Congresso passa necessariamente pela Casa Civil, que, com mais ou menos delegação, dependendo da circunstância, representa a vontade do presidente na definição de obras de infraestrutura, liberação de linhas de crédito em bancos oficiais, vetos e indicações para os mais altos cargos da administração pública. Dos seis ministros que assumiram a Casa Civil nos últimos doze anos, três nutriram o sonho de chegar à Presidência. Dilma Rousseff conseguiu, José Dirceu e Antonio Palocci foram abatidos em pleno voo, e Aloizio Mercadante, o atual ministro, mesmo no alvo do fogo amigo, mantém-se firme no curso.


​Mas com o poder costuma vir o abuso do poder, e não é surpresa para ninguém que a Polícia Federal e o Ministério Público estejam investigando o enriquecimento dos antigos ocupantes do superministério. Se falhou na política, Dirceu - o "guerreiro do povo brasileiro", "o revolucionário socialista" - prosperou como consultor. Só das empresas investigadas no escândalo da Petrobras recebeu mais de 10 milhões de reais. O ex-ministro Antonio Palocci, que assumiu o posto no início do governo Dilma, também enriqueceu sem precisar de muito esforço. Descobre-se agora que até mesmo a mais discreta, a mais humilde e a aparentemente mais despretensiosa ocupante do cargo, a e­x-ministra Erenice Guerra, também carimbou seu passaporte vermelho para esse seleto clube de milionários.

Levei o PT ao psiquiatra

A teoria da conspiração é antiga e comum a todos os ditadores. Alguns, como os portadores de esquizofrenia ou psicoses agudas, acreditam que de fato haja a conspiração

Em manifesto assinado pelos 27 diretórios estaduais do PT divulgado na semana passada, o partido se declara inocente de todas as acusações, vítima da perseguição dos inconformados com a inclusão social dos 36 milhões de pobres que ele teria promovido, e propõe uma volta à pureza e radicalidade de propósitos dos anos 80.

O manifesto tem alguns trechos escritos em tom de surto psicótico, como aquele em que diz que o partido está sob “forte ataque”, sofre uma “campanha de cerco e aniquilamento”, e que para isso vale tudo, “inclusive criminalizar o PT- e quem sabe até toda a esquerda e os movimentos sociais”.O manifesto tem alguns trechos escritos em tom de surto psicótico, como aquele em que diz que o partido está sob “forte ataque”, sofre uma “campanha de cerco e aniquilamento”, e que para isso vale tudo, “inclusive criminalizar o PT- e quem sabe até toda a esquerda e os movimentos sociais”.

"Condenam-nos não por nossos erros, que certamente ocorrem numa organização que reúne milhares de filiados. Perseguem-nos pelas nossas virtudes. Não suportam que o PT, em tão pouco tempo, tenha retirado da miséria extrema 36 milhões de brasileiros e brasileiras. Que nossos governos tenham possibilitado o ingresso de milhares de negros e pobres nas universidades.”

Proclamar isso na mesma semana em que o doleiro Youssef afirma que mandou entregar propina até na frente da sede do diretório do partido não parece uma extravagância?

O texto do manifesto é tão cheio de referências a uma realidade paralela desconhecida da maioria dos brasileiros que resolvi submetê-lo à apreciação de um especialista em transtornos da mente, o psiquiatra Jorge Figueiredo, que tem consultório e clínica de recuperação em São Paulo.

Negar, diz Jorge, é sempre a reação de qualquer acusado, ou na vida política, de qualquer partido. Estranho é que isso venha exatamente de alguém que cresceu na vida dizendo-se guardião da moralidade e da honestidade.” Negar o que é visível a todos, com provas e testemunhas, é comportamento comum aos portadores de transtorno de personalidade, principalmente o antissocial”.

“Culpar sempre o outro” continua Jorge- “é comum nos portadores de transtornos de personalidade antissocial, bordelense e histriônico.

Fazem isto desde cedo com bom resultado, acostumam-se a vencer discussões ou debates manipulando dessa forma (usam ofensas, insultos, impropérios, falsas acusações, mentiras, chantagem emocional, fazer-se de vítima, seduções com elogios ao adversário ou falsas promessas, simulação de arrependimento, ameaças, etc), acostumam-se a sempre conseguir o que querem cansando os interlocutores com as repetições, nunca estão satisfeitos e querem levar mais e mais vantagem. Assim, no decorrer dos anos, especializam-se de tal forma que ficam imbatíveis por nem sequer dar ouvidos ao que lhes é dito, totalmente impermeáveis.”

Culpar “as elites” - explica o psiquiatra- é uma forma de se vitimizar solidariamente com a massa. Elites são minorias, ou seja, representam menos votos. Usa-se o sofisma de que se o outro é rico é porque tirou de você a riqueza, ou seja, é impossível produzir riqueza ou construir algo; quem o faz, segundo esse sofisma, tira de outro; e então você deve tirar dele, porque também não será capaz de trabalhar e construir riqueza. O argumento rende votos e justifica a criação de mais impostos, achaques, expropriações, propinas, subornos e toda ordem de corrupção.

A teoria da conspiração é antiga e comum a todos os ditadores, de ambas extremas, apegados ao poder. Alguns, como os portadores de esquizofrenia ou psicoses agudas, acreditam que de fato haja a conspiração (Stalin, Idi Amin), outros utilizam a teoria conspiratória somente para abusar mais da crença de pessoas pouco esclarecidas e justificar seus arbítrios (Nicolas Maduro).

Sobre “a volta às origens” defendida no manifesto, Jorge Figueiredo diz que quem é impuro ou corrompido assim se manterá. É uma manipulação para se manter no poder por mais tempo, mais um "truque" usado por portadores de psicopatia.

Em resumo, o diagnóstico é claro: o manifesto dos 27 diretórios estaduais do PT mostra que o partido não está bem da cabeça.

Será limpeza?

charge regi

Será que na Noruega gostam?

Do desamor aos Impostos desde o publicano Mateus ao ministro Joaquim Levy
Joaquim Levy, em palestra a ex-alunos da Universidade de Chicago, disse que no Brasil a maioria das pessoas não gosta de pagar impostos. Quer dizer, não foi isso que ele disse. Suas palavras foram outras: “a maioria das empresas não gosta de pagar impostos no Brasil”.

Como em muitas de suas declarações, essa também teve que ser explicada depois. Pensei até que dessa feita o embrulho tivesse sido pelo fato da palestra ter sido em inglês e mal traduzida, o que é perfeitamente possível. Mas fui ler no site do Ministério da Fazenda e, francamente, qualquer erro de tradução teria sido impossível, já que entre companies (empresas) e people (pessoas) qualquer semelhança não poderia ter sido outra coisa senão desleixo.

Discordo de quem estranha um ministro de Estado brasileiro falar em inglês em uma palestra realizada no Brasil. Se eu pudesse, escrevia e falava em inglês e justifico: conquanto nossa língua seja belíssima, ela é muito cheia de não-me-toques, ao passo que o inglês é mais direto e com muito menos palavras o cidadão pode dar à luz tudo o que pensa.

Voltemos aos impostos.

São Mateus era malquisto pelos contemporâneos por ser coletor de impostos. Os Romanos eram os inimigos e as moedas tinham a efígie do Imperador, motivo mais do que forte para acharem que Mateus era um pecador.

Acho que exagerei na volta ao passado. Chego um pouco mais perto da gente (aliás, outro motivo de crítica ao modo de falar do ministro Levy, além das frequentes explicações que tem que dar sobre o que falou, é seu hábito de substituir o ‘nós’ por ‘a gente’).

Retomo o fio: o ‘Independência ou Morte!’ americano foi o ‘No Taxation Without Representation’ que resultou na curiosa Boston Tea Party, que tão caro custou à Inglaterra. A festa macabra de resultados tão positivos aconteceu em 1773.
Do século 18 passo para a virada do século 19 para o 20º. Um dos mais conceituados ministros da Suprema Corte americana foi Oliver Wendell Holmes Jr. Como lá não desperdiçam o conhecimento de um homem ainda lúcido, Holmes Jr foi membro da corte até morrer, aos 94 anos! E é dele a frase mais simpática aos impostos: ‘I like to pay taxes. With them I buy civilization’.
Oliver Wendell Holmes Jr, autor da frase mais simpática aos Impostos  (Foto: Correios EUA, 1968)Nessa viagem a jato, chegamos ao ‘Tax Relief’ do presidente americano George W. Bush. Sua tese era: ‘menos impostos deixam mais dinheiro no bolso das famílias e encorajam o investimento e o consequente crescimento da Economia’. O cara ganhou as eleições e não creio que seus eleitores fossem cidadãos que amavam pagar impostos...

Há um lugar, no entanto, onde certamente as pessoas e as empresas gostam de pagar Impostos. A Noruega. Lá a efígie nas moedas não é a de um tirano, não há taxação sem representação, a vida comunitária é altamente civilizada e há muitos descontos na hora de pagar o Imposto de Renda: dos gastos com os deficientes físicos à poupança para a compra da casa própria até o que se gastou para ter quem cuide de suas crianças enquanto você trabalha...

Sei lá, mas acho que posso afirmar que na Noruega gostam de pagar Impostos. Ou não?

Para Brasília, só com passaporte

A proposta inconstitucional da redução da maioridade penal vai mostrar quem é mais corrupto: se o povo ou o Congresso
No filme "Branco Sai, Preto Fica", em cartaz nos cinemas do Brasil, para alcançar Brasília é preciso passaporte. O elemento de ficção aponta a brutal realidade do apartheid entre cidades-satélites como Ceilândia, onde se passa a história, e o centro do poder, onde a vida de todos os outros é decidida. Aponta para um apartheid entre Brasília e o Brasil. Ao pensar no Congresso Nacional, é como a maioria dos brasileiros se sente: apartada. O Congresso mal iniciou o atual mandato e tem hoje uma das piores avaliações desde a redemocratização do Brasil: segundo o Datafolha, só 9% considera sua atuação ótima ou boa, 50% avalia como ruim ou péssima. É como se houvesse uma cisão entre os representantes do povo e o povo que o elegeu. É como se um não tivesse nada a ver com o outro, como se ninguém soubesse de quem foram os votos que colocaram aqueles caras na Câmara e no Senado, fazendo deles deputados e senadores, é como se no dia da eleição tivéssemos sido clonados por alienígenas que elegeram o Congresso que aí está. É como se a alma corrompida do Brasil estivesse toda lá. E, aqui, o que se chama de povo brasileiro não se reconhecesse nem na corrupção nem no oportunismo nem no cinismo.

Há, porém, uma chance desse sentimento de cisão desaparecer, e o Brasil testemunhar pelo menos um grande momento de comunhão entre o Congresso e o povo. Alma corrompida com alma corrompida. Cinismo com cinismo. A Comissão de Constituição e Justiça da Câmara pode decidir, nesta semana, pela admissibilidade da Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 171/93. Ela reduz a maioridade penal de 18 para 16 anos. Se isso acontecer, a proposta, que estava engavetada desde o início dos anos 90, terá vencido uma barreira importante e seguirá seu caminho na Câmara e no Senado. Diante do Congresso mais conservador desde a redemocratização, com o crescimento da "bancada da bala", formada por parlamentares ligados às forças de repressão, há uma possibilidade considerável de que seja aprovada. E então o parlamento e o povo baterão com um só coração. Podre, mas uníssono.

A redução da maioridade penal como medida para diminuir a impunidade e aumentar a segurança é uma fantasia fabricada para encobrir a verdadeira violência. Segundo o Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância), dos 21 milhões de adolescentes brasileiros, apenas 0,013% cometeu atos contra a vida. Mas são eles que estão sendo assassinados sistematicamente: o Brasil é o segundo país no mundo em número absoluto de homicídios de adolescentes, atrás apenas da Nigéria. Hoje, os homicídios já representam 36,5% das causas de morte por fatores externos de adolescentes no país, enquanto para a população total corresponde a 4,8%. Mais de 33 mil brasileiros de 12 a 18 anos foram assassinados entre 2006 e 2012. Se as condições atuais prevalecerem, afirma o Unicef, até 2019 outros 42 mil serão assassinados no Brasil.

Melhor aguardar a colaboração das galinhas

Nos primeiros meses do regime imposto pelos militares em 1964, o todo-poderoso ministro do Planejamento, Roberto Campos, apresentou seu plano de recuperação econômica, sob a sigla PAEG. Tratava-se de um texto de quase 100 páginas, onde tudo se detalhava, até a previsão de um superavit de 50 milhões de dúzias de ovos em todo o país.

O problema era que o programa econômico do governo deposto de João Goulart, elaborado por Celso Furtado e chamado de Plano Trienal, havia previsto um déficit de 141 milhões de dúzias de ovos.

Carlos Lacerda, que havia contribuído para a eclosão do movimento militar mas já dava sinais de romper com sua política econômica, foi à televisão e indagou sobre qual dos dois, Campos ou Furtado, adulterara mais as estatísticas, ou melhor, a qual dos dois faltou mais a cooperação das galinhas?

Registrou-se uma gargalhada nacional, exprimindo a ideia que o cidadão comum fazia dos economistas: reverenciava todos eles, mas não acreditava em nenhum.

Guardadas as proporções e com todo o respeito, loas devem ser entoadas para Joaquim Levy e para Guido Mantega, mas qual deles estará com a verdade? O atual ministro da Fazenda vem apresentando um quadro dantesco da economia nacional, prevendo a recessão e até o caos se não foram aprovadas pelo Congresso as medidas do ajuste fiscal, da redução de direitos trabalhistas ao aumento de impostos e a restrições às empresas privadas. Não dá para comparar esse diagnóstico com as previsões feitas pelo antecessor, de que 32 milhões de pobres foram incorporados à classe média, que a crise era passageira, estava controlada e devia-se a fatores externos.

As elites conservadoras tem como norma considerar todos os ministros da Fazenda como oráculos absolutos. Apoiavam Mantega como apoiam Levy. Vale a pena, porém, rejeitar ambos e ir vivendo sem a euforia espetaculosa nem o catastrofismo absoluto. Melhor ignorar a manipulação de conceitos e de números, ganha-pão dos economistas.

Vamos prestar mais atenção na colaboração das galinhas…