terça-feira, 6 de setembro de 2022

O Brasil refém

Véspera do 7 de Setembro. Data sequestrada pelo imaginário intimidador bolsonarista, conforme ilustra o incontornável de um país à espera do que será o amanhã. O amanhã; não o futuro. O amanhã mesmo, este presente: a quarta-feira, dia 7 de Setembro.

O que será?

Note-se que incluímos esse aguardamento na agenda brasileira. Integra mesmo a dinâmica do calendário eleitoral. As entrevistas ao JN. O início da propaganda na TV. O primeiro debate. O 7 de Setembro. O debate final. O 2 de Outubro.

O 7 de Setembro, se grande ou muito grande: balizará, já amanhã à noite, as análises políticas sobre as possibilidades competitivas do presidente candidato, embora eventos como esse, de natureza sectária, alimentem muito mais as perspectivas de Bolsonaro, se afinal vencido, manter-se como o líder reacionário de uma oposição agressiva num Brasil com a economia como legada por Guedes.

Mesmo o governo nada tendo planejado para o 7 de Setembro de 2022, nada senão a necroviagem do coração imperial, nunca saímos do 7 de Setembro de 2021. Bolsonaro nos pauta. Levou a Corte constitucional para a briga de rua.

O país refém de há um ano. Preso à memória de um discurso para o confronto, antirrepublicano: o do mito, eleito por dezenas de milhões, que não consegue governar, minado pelo establishment que o Supremo encarna.

O amanhã: será pior?


Ninguém pode negar que estão postas as condições para o exercício da violência. A física. Refiro-me ao que pode haver no Rio de Janeiro. Menos de um mês até as eleições. Milhares às ruas, muitos armados — armadas também as forças de segurança. Exaltados os ânimos. A palavra resulta. A pregação para o choque é diária. São muitos também os tornados inimigos; os jurados como inimigos. Bolsonaro cultiva a segmentação. É estratégia. Estarão lá os CACs, por exemplo.

Considero que as autoridades locais ainda não olharam com atenção ao que se projeta para Copacabana, especialmente desde que cancelada a parada militar no Centro. Por que foi cancelada? Para quê?

São muitas as camadas de expectativa, para o que pesa a intensificação da atividade militante dos militares, sobretudo a partir da infiltração no TSE e das progressivas demandas — provocadoras de desconfianças — ao tribunal. Terá havido acordo com Alexandre de Moraes? A grande questão: como se comportará Bolsonaro?

É atroz que seja esse o horizonte; que nos tenhamos encurtado tanto. Mas assim é.

Em 2022, aos 200 anos da Independência, soma-se à exploração fetichista da efeméride o fato de estarmos — repito — a menos de um mês das eleições. Há um ano, o golpismo estava em outro tom, acima, mais acirrado. Essa é a leitura otimista. (Teria havido acordo com Moraes? Os tempos são prósperos para os conspirativos.) Prefiro a hipótese de que, sob um 7 de Setembro permanente, tenhamos nos acostumado à barbárie.

Independentemente do caráter golpista das manifestações de amanhã, teremos — isto já está dado — um ato de campanha eleitoral que instrumentalizará órgãos do Estado. No caso, as Forças Armadas. Ostensivo abuso de poder. Algo gravíssimo por si só.

Bolsonaro pode baixar a pressão. Pode, circunstancialmente, desviar sua artilharia a outro inimigo artificial. Pode terceirizar os ataques ao STF para aliados. Tudo é possível. Objetivamente, o que temos: o presidente convidou as Forças para compor, Independência como escada, um lance por sua reeleição — e elas aceitaram.

A grande questão — como se comportará Bolsonaro? — importa menos. (Se não morder amanhã, morderá depois — e sempre.) Importa mais a apreensão. Essa mobilização que tensiona. O presidente, gerador constante de instabilidades, é imprevisível. Imprevisibilidade a que se soma a incerteza sobre a organização do que ocorrerá em Copacabana. Ninguém sabe como será; até onde vão as participações militares. Conjunto de incertezas — de desorganizações — proposital.

Na última sexta, o Ministério Público Federal enviou ao Comando Militar do Leste, ao 1º Distrito Naval e ao 3º Comando Aéreo Regional pedidos de informação sobre que providências tomaram para impedir que o eventos militares em função da Independência se confundam com a atividade político-eleitoral de Bolsonaro. Quais? A Independência está instrumentalizada. A ver a quanto estarão instrumentalizados os militares.

O desenho da coisa, pelos agitadores bolsonaristas, é para que confusão haja mesmo. Ninguém, até agora, delimitou fronteiras. Quer-se bagunça. O presidente desfilará em motociata, desde o Flamengo até palco montado perto do Forte de Copacabana. Óbvio investimento numa fotografia híbrida, de arrastão: a imprevisibilidade forjada induzindo trânsitos que misturem civis e militares no comício de Bolsonaro. Convite fácil ao imponderável.

Pensamento do Dia

 


A pobreza da independência

Amanhã, o Brasil comemora 200 anos de nação independente, sendo campeão de desigualdade, com 33 milhões de pessoas famintas e mais de 100 milhões com alimentação deficiente, cerca de 13 milhões de analfabetos — 25% da população pobre. A maioria é de raça negra e vive na região Nordeste. Esse é o maior fracasso de nossos 200 anos: a persistência da pobreza, apesar do êxito na economia que nos colocou entre as 10 nações mais ricas e o maior exportador de alimentos no mundo.

Desde 1822, tivemos dois imperadores, 38 presidentes, cerca de 10 mil parlamentares, milhares de intelectuais, mas a pobreza continua porque não desperta sentimento político de solidariedade, nem entendimento conceitual correto. A insensibilidade dos dirigentes em relação ao sofrimento dos pobres e a lógica equivocada sobre como nossos intelectuais explicam e propõem como superar a pobreza, explicam a pobreza da independência. O problema está no coração dos políticos e na mente de seus assessores: os primeiros não sofrem por causa da pobreza, os outros não entendem a real dimensão da pobreza, as causas e os meios para superá-la. A pobreza foi sequestrada pela elite no poder e pelo pensamento econômico. Não é vista como problema fundamental a ser enfrentado, e acredita-se que o crescimento da economia elimina a pobreza ao distribuir a renda ampliada.


Da mesma forma que, por 350 anos, a minoria branca e livre não se importou com os escravos, nem entendeu a importância da abolição para o país, há 135 anos, as classes privilegiadas aceitam com naturalidade o abandono de brasileiros na exclusão social da pobreza. Se os abolicionistas pensassem como economistas, a escravidão existiria até hoje, esperando o crescimento econômico. A escravidão foi abolida ao ser tratada como questão ética. É assim que a pobreza deve ser tratada. A superação da pobreza vai exigir que também seja tratada como imoral, uma vergonha a ser abolida.

Ao mesmo tempo, será preciso mudar o enfoque técnico de como é enfrentada. A principal causa da pobreza é a pobreza no entendimento de sua causa. A pobreza não decorre da falta de crescimento e renda na economia, mas por falta de comida, moradia, água, esgoto, atendimento médico, transporte urbano, escola, segurança. Desses itens, apenas comida e transporte dependem da renda pessoal, o resto exige políticas sociais e serviços públicos do Estado. Para solucionar a questão da pobreza, é preciso perceber que, como a escravidão, ela afeta não apenas os pobres, mas amarra toda a sociedade.

Depois de 200 anos, a independência precisa criar o que Joaquim Nabuco chamou, no século 19, de "instinto nacional" pela erradicação da escravidão. Agora, pela superação da pobreza com vontade e missão nacionais, e com o entendimento correto das políticas sociais e dos serviços públicos a serem ofertados a todos, com uma estratégia que assegure a cada um o que precisa para sair da pobreza. Entre eles, o mais importante é a educação de qualidade para todos. A sua qualidade aumenta a produtividade e o tamanho da renda nacional; a equidade para todas as crianças permite distribuir a renda, conforme o talento e o poder de pressão das massas pobres para obterem novos benefícios. Educação de qualidade para todos quebra o círculo vicioso que caracteriza os 200 anos de independência omissa diante da pobreza, tanto quanto foi diante da escravidão.

A pobreza de um pobre decorre da falta do essencial para sua sobrevivência plena. A pobreza da própria pobreza está na falta de sentimento político solidário e de um conceito técnico correto para explicá-la e superá-la. Até hoje, não tivemos governo com propósito de assegurar a cada família o necessário para não ser pobre. A pobreza foi sequestrada pela economia, no lugar de a economia ser instrumento da estratégia de sua erradicação. E em consequência a economia seria dinamizada, porque a pobreza é uma das causas do estancamento do progresso econômico, social e civilizatório, tanto quanto foi a escravidão ao longo de 66 dos 200 anos de independência.

Os Estados Unidos colocaram a missão de chegar à Lua antes das comemorações dos 200 anos de sua independência, o Brasil precisa definir sua missão a "segunda abolição" para as primeiras décadas de nosso terceiro século que se inicia amanhã. Para tanto, precisa querer politicamente superar a pobreza e entender corretamente as causas e as estratégias para a superação. Ao tolerar a permanência da pobreza, nossa independência é pobre: faz pobre milhões de brasileiros e esbarra no progresso.

Na arena da praia, o segundo ato de 'O brado retumbante'

A um mês das eleições dadas como perdidas pelas pesquisas, resta ao bolsonarismo, em sua obsessão de virar a mesa, apelar para a encenação do segundo ato de “O brado retumbante” no 7 de setembro. A retórica de criação de um clima favorável ao golpe contra a democracia passou a concentrar suas forças nas comemorações do bicentenário da Independência, com desfile ostensivamente militarizado na orla de Copacabana. Será a última oportunidade para exibição pública dos fogos de artifício do arsenal golpista.

Coerente com a prática do governo e as ações de seus adeptos, o projeto bolsonarista visa falsear a realidade e intimidar o público, com a ostentação de aparato bélico exibicionista e dispendioso. Haverá salvas de tiros de canhão, parada naval e voos da esquadrilha da fumaça. No mesmo dia, usando um suporte massivo de vídeos espalhados nas redes, um coral repetirá a ameaça de que “Se precisar, iremos à guerra”.

Estarão armados para isso. Não se deve duvidar que armas poderão ser disparadas e “inimigos”, atingidos. Melhor ficar em casa neste feriado da quarta-feira, 7. O espetáculo foi programado pelas Forças Armadas para ter a fastidiosa duração de oito horas, com ocorrências em vários pontos da cidade. O presidente chegará de helicóptero para o encerramento solene do desfile na arena da praia, defronte ao Forte de Copacabana, de onde um dia saíram para o combate e a morte os 18 do Forte.

Ao final da tarde, hinos e cânticos serão entoados, numa cerimônia digna das celebrações organizadas pelos camisas negras italianos, grupo paramilitar fascista, fiéis seguidores de Benito Mussolini. Montados em suas motos, os Cavaleiros da Ordem do Mito aclamarão seu líder e repetirão com ele a palavra de ordem do dia: “Ditadura ou Morte”.

A reencenação farsesca em Copacabana do episódio da Independência, 200 anos depois, se dá no momento em que o ato original interpretado por dom Pedro 1º às margens do Ipiranga está sendo posto em revisão por historiadores brasileiros. Novos livros discutem o papel e o significado para a Independência do famoso “brado retumbante de um povo heroico”, que foi parar na letra do Hino Nacional.

O Imperador teve ali seu ponto culminante como sujeito da História, assim retratado na famosa tela Independência ou Morte!, de Pedro Américo, da qual o povo está ausente. O protagonismo de dom Pedro está em reavaliação pelos novos estudos. Não se trata de negar ao Imperador o alcance de seu gesto teatral, mas de retirá-lo do pedestal a que foi alçado pela literatura acadêmica conservadora.

A história da luta pela emancipação foi construída num processo longo e difícil, que começou antes e terminou depois do grito de dom Pedro em 1822, cercado por pequeno grupo de militares. Passou pela Conjuração Baiana, pela Revolução Pernambucana, revoltas influenciadas pelo iluminismo francês. Em seu caminho, marcado pela participação popular, pontilharam rebeliões violentas reprimidas pela Corte.

Esse é um dos pontos levantados por O sequestro da Independência, Cia. das Letras, de Carlos Lima Jr., Lilia M. Schwarcz e Lúcia Stumpf, que mostra como a iconografia produzida a respeito do ato contribuiu para forjar uma visão idealizada do processo de emancipação do Brasil de Portugal. Para os autores, o “sete de setembro” funciona como um mito fundacional, aquele que permite fazer as pazes com o passado, acomodar o presente e prever o futuro.

Em outro livro desse conjunto de obras questionadoras, Ideias em confronto: Embates pelo poder na Independência do Brasil (1808-1825), da Todavia, a professora Cecília Helena de Salles Oliveira também confronta essa visão. Numa passagem, conclui que a versão oficial da Independência, que teve no grito do Ipiranga de 1822 seu momento de apoteose, foi uma construção idealizada pelo príncipe herdeiro.

Político hábil, o Imperador deixou as contradições de lado para criar em seus discursos um recorte histórico favorável. A obra desvincula a Independência de um episódio específico e rechaça a tese do continuísmo pacífico. Cita estudos recentes que apontam mais de 50 mil mortos, entre militares e civis, nas batalhas pela independência, especialmente no Norte e Nordeste.

Diferentemente do que muitos de nós aprendemos nos primeiros estudos, a luta pela emancipação envolveu outros centros além do Rio e Lisboa, enfrentou a violência em manifestações locais, contou com a participação de mulheres e negros escravizados e ganhou corpo em meio a uma crise econômica e fiscal de grande magnitude.

Na minha mais remota lembrança do 7 de setembro, eu estou marchando ao lado dos meus colegas do Grupo Escolar Modelo, em Goiânia. Vestido com o uniforme de gala azul e branco, passamos ao lado do Coreto para fazer uma parada em frente ao Palácio das Esmeraldas, na Praça Cívica, ao som do repique da bateria. Meus inimigos declarados nessa parada militar não eram os portugueses, mas os alunos do rival Grupo Escolar Padrão, aquele de onde se “entrava burro e saía ladrão”. A rima galhofeira para o meu Grupo Modelo era de que “entrava burro e saía camelo”. A Independência não passava daquela imagem que eu vira na tela de Pedro Américo: o monarca montado eu seu cavalo, cercado por outros cavaleiros, levanta a espada acima da cabeça, num gesto simbólico de conclamação. Não ouvia, mas imaginava que ele estivesse gritando “Independência ou Morte”. Dois séculos depois, Bolsonaro quer transformar o 7 de setembro na arena de Copacabana num ato contra a democracia, ecoando o brado de “Ditadura ou Morte”.

Bandidagem com imunidade


O mundo não é ruim, só está mal frequentado
Luís Fernando Veríssimo

Presença feminina é sinal de vida na campanha

O papel das mulheres foi um tema de destaque no debate entre os candidatos. Isso me alegra. Nas eleições no Chile e na Colômbia, o assunto surgiu no contexto do programa da esquerda, que venceu.

Aqui no Brasil, além de sua inserção clássica na esquerda, a dignidade e a importância das mulheres foram defendidas por uma candidata de centro e outra de centro-direita.

Isso me leva a considerar que as coisas foram tão longe que hoje não se pode associar a sociedade patriarcal ao capitalismo. A abertura para o imenso potencial humano relegado pelo machismo pode enriquecer o próprio sistema.

As mulheres são a maioria do eleitorado. Mas foi uma pergunta da jornalista Vera Magalhães que desfechou o debate, repercutindo até no exterior. Bolsonaro respondeu com agressões.


O fato de o estopim ter vindo do jornalismo não me é estranho. Faz muito tempo que as mulheres têm papel decisivo na nossa profissão.

Digo por experiência pessoal. Trabalho há oito anos na televisão. Fui contratado por uma diretora geral da GloboNews. Ao longo de todos os anos, o departamento a que me vinculo foi sempre dirigido por mulheres.

Tive a sorte de ser pai de duas meninas. A primogênita guarda até hoje as fotos das primeiras manifestações de mulheres de que participou ainda menina, na década de 1980, quando fui candidato. A mais nova resolveu se aventurar num esporte, o surfe de ondas grandes, dominado pelos homens. Aos 14 anos, ela percebeu que as meninas ficavam na praia, enquanto os meninos surfavam. E perguntou:

— Tem de ser assim?

O Brasil já estava maduro para que o tema fosse para o topo da agenda. Bolsonaro percebe isso e reage com desespero. Tem mais medo da ascensão das mulheres que do próprio socialismo. Daí seu apego ao que chama de guerra cultural.

Essa não é a única novidade que pode movimentar a campanha. A questão ambiental, tão presente nas eleições americanas e europeias, não consegue abrir caminho. Um dos candidatos a mencionou com destaque, mas para afirmar apenas a importância do mercado. Há coisas que o mercado não pode fazer, como combater o desmatamento ilegal, retirar garimpeiros das áreas indígenas. São ações típicas de Estado e, ainda assim, a prática mostrou que elas precisam também de apoio social.

Na campanha, quase não se fala do racismo, tão presente em nossa vida cotidiana. Pouco se pergunta também. Nem de longe tem o peso que teve nas eleições americanas. Mas lá matam negros asfixiados, diria alguém. Mas no Brasil se mata do mesmo jeito, às vezes até com requintes, como explodir a bomba de gás no porta-malas da viatura, com um preso lá dentro.

Concordo com todos os que dizem que o problema mais urgente é a fome. No entanto não apenas o combate à fome, ao racismo, à misoginia, à destruição ambiental —tudo, enfim, poderia ser visto sob um novo ângulo: a articulação entre Estado, mercado e sociedade.

De um modo geral, uma campanha se faz com propostas e críticas aos adversários numa dosagem equilibrada. Bolsonaro deixa muitos flancos. Além de sua atuação terrível na pandemia, há todos os erros de seu governo e também os tropeços da vida pessoal. A família negociou 107 imóveis em 30 anos, pelo menos 51 com dinheiro vivo. Mais que uma família, é uma agência imobiliária.

Mas os anos sombrios podem ficar para trás, e seria muito interessante olhar um pouco para o mundo, em busca das ideias necessárias para a reconstrução.

Um país com maioria de mulheres, rico em recursos naturais, com chances de superar o racismo e de iniciar uma experiência de que nossos filhos e netos possam se orgulhar, é algo que está no horizonte das nossas possibilidades.

Não podemos deixar que Bolsonaro defina nosso padrão de felicidade, limitando-o apenas à sua derrota. Existe toda uma vida pela frente, quando ele se tornar apenas uma lembrança amarga na História.

A sensatez democrática

Como um político que defende o justiçamento de suspeitos, o fuzilamento de “30 mil compatriotas”, o assassinato de um presidente pacífico e democrático, a tortura como método inquisitório, o fim a democracia política, que sustenta que o erro da ditadura não foi torturar, mas foi “não matar”, que explicita publicamente a sua admiração a Hitler e debocha da tortura sofrida por uma mulher digna – que estava sendo retirada da Presidência –, como este político foi covardemente naturalizado pelo “establishment” neoliberal e pelas grandes cadeias de comunicação, depois de ter cometido e repetido muitos crimes bárbaros e ainda ter feito uma consciente propaganda genocida contra a vacinação?

Ortega y Gasset defendia a discutível tese de que “o homem é um animal para o qual só o supérfluo é necessário”, ou seja, as necessidades do homem não são “naturais”, mas artificiais e a técnica é sobretudo “a produção do supérfluo”. Certo ou errado, o discurso do filósofo aponta para as possibilidades da barbárie quando a técnica solta no espaço, sem o controle da ética e da sensatez, passa a reinar induzida pela loucura.

As violências e as ilegalidades cometidas pelo presidente Jair Bolsonaro começaram muito antes do seu governo. Foi um longo período em que ele protagonizou uma série de absurdas violações legais, capazes de chegar a uma parte significativa dos “dominados” e dos “dominantes” na hierarquia de classes da sociedade. Milhares de pessoas estavam à espera de um líder para solucionar as suas demandas mais urgentes, tanto no seio dos dominados como dos dominantes, pois queriam uma rápida resposta à letargia da democracia liberal, já considerada inepta tanto para resolver as suas carências mais imediatas, quanto para ter uma vida digna em segurança.


Os setores dominantes – médios e superiores – queriam uma resposta para a superação daquilo que entendiam como os entraves trabalhistas e tributários que, no seu sentimento, bloqueavam a acumulação ou impediam a sua sobrevivência nos mercados oligopolizados. Toda a população, todavia, sofria com o avanço da criminalidade e em vastas regiões metropolitanas o crime organizado já rivalizava com o Estado no controle dos territórios. Entre todas as questões, uma delas, a que atravessava todas as classes foi a “chave” para o sucesso dos métodos fascistas da extrema direita no fazer político. Tanto junto às camadas mais desprotegidas e deserdadas do povo, como entre setores mais ricos da população: a segurança pública.

Explico-me: a política, ao contrário das disputas entre os animais pelo território ou pela alimentação, é essencialmente uma mediação humana, que restringe a animalidade e a necessidade de extinção do adverso, para que sobreviva o mais forte. E ela exige rituais e instituições que obrigam os sujeitos políticos a tratarem do “todo”, sem cuidar rapidamente dos problemas imediatos de cada um dos indivíduos singulares, que nunca se consideram dentro de um coletivo indiferenciado, que seria parte do “interesse público”.

Desta forma, a aplicação de uma “política pública” de médio e longo prazo, que não atente para o imediato da vida comum, faz pensar que as pulsões mais duras da vida só possam ser respondidas “por fora” dos rituais democráticos. Suas complexidades e demoras geram nos seus destinatários um turbilhão de ansiedades e desconfianças, mormente quando os seus territórios antes elitizados, as universidades, os aeroportos, os espaços de lazer coletivo, as vias públicas já são lotadas de automóveis dos pobres.

Sobre estas consequências é que o espírito do fascismo, formalizado numa doutrina ou expandido através de mensagens de cunho moral dos meios de comunicação tradicionais e das redes digitais, é que o fascismo prosperou. O fim da política, o fim da democracia, a insistência que a corrupção é siamesa da política e outras aparentes beatitudes, que aproximam as pessoas da sua animalidade biológica ancestral, passaram a padronizar condutas, prometer soluções rápidas e uniformizar expectativas para tornar tudo mais simples e rápido: sem política e, portanto, sem corrupção.

Para que isso seja possível, é preciso acabar com as mediações que caracterizam a política e trabalhar, sem pudor, para a ter a morte como companheira de viagem para uma sociedade decente. Essa é a mensagem central do fascismo, que se ampara nos mitos e destrói a socialidade democrática. A vitória do pensamento mítico não contraria o senso comum, mas se ampara nele potencializando a “impressão” de que a superação da desgraça dos seres humanos não está na história, mas reside numa soma de erros cotidianos que são pervertidos pela política.

No senso comum, a ruptura dos limites entre a vida e a morte são aceitáveis quando o ambiente é de guerra e a segurança do indivíduo e do grupo familiar fica ao dispor do crime e da fome. O clima de guerra é o clima que naturaliza a morte de quem interrompe a ação do mito, que ordinariamente cultiva os seus transtornos mentais e a sua sociopatia no chamamento à extinção do inimigo e das instituições políticas, onde supostamente reside o abrigo do mal.

Quando Jair Bolsonaro passou a promover gestos e discursos necrófilos, cujo auge foi aceito na Sociedade Hebraica, na qual uma pequena parte de uma das comunidades mais martirizadas da história moderna – sob os protestos e o horror de sua maioria – o Capitão despontou como “mito” e venceu, consagrando, a partir dali, as mesmas técnicas e práticas políticas que promoveram o Holocausto. Não há mais adversários, só há inimigos a serem abatidos pelas armas.

A oposição sincera ao fascismo em nosso país poderia dar uma lição histórica de dignidade e sensatez democrática, aos malfeitores que querem continuar governando a nação, fazendo – uma semana antes do pleito – um grande acordo político de governança e governabilidade, derrotando Jair Bolsonaro no primeiro turno, unida em torno do nome mais forte para vencer e conduzir a nação ao destino democrático e social que o nosso povo merece. Está em tempo! É a sensatez democrática contra a política de morte do fascismo.

200 anos de Independência: história de uma promessa quebrada

Pode-se narrar a história do Brasil como o conto de uma enorme promessa. A história de uma nação que, mais do que qualquer outra, tinha os melhores pré-requisitos para ser pacífica, rica e próspera.

O Brasil possui imensas áreas férteis, milhares de rios, em parte gigantescos, a maior floresta tropical do mundo, uma colossal biodiversidade, quase 11 mil quilômetros de litorais, cinco zonas climáticas diferentes e abundantes recursos naturais. Ele tem uma população que dificilmente poderia ser mais diversificada, combinando as influências, experiências e aptidões de quatro continentes.

Por que, então – é a grande questão – o Brasil não foi capaz de cumprir sua grande promessa? Por que hoje cerca de 63 milhões de brasileiros vivem abaixo da linha da pobreza? Por que a insegurança alimentar aflige 125 milhões? Por que apenas 1% da população concentra 50% da renda nacional, e por que menos de 1% dos proprietários agrícolas possui 45% da área rural do país?

Por que quase não há afro-brasileiros em postos de liderança, embora mais da metade da população seja negra? E por que a cada ano são assassinados 50 mil cidadãos, ou seja, 130 por dia? O "país do futuro", que o escritor vienense Stefan Zweig tanto louvava em 1941, tendo reconhecido aqui um enorme potencial, ainda está à espera desse futuro, 200 anos após sua Independência.
Uma monarquia e defeitos permanentes


Ao nascer, em 1822, a nação brasileira já veio com um defeito: ao contrário das colônias hispanófonas da América Latina, não se transformou numa república, mas numa monarquia. O primeiro chefe de Estado foi o imperador Pedro 1º, originalmente príncipe herdeiro de Portugal.

Já desde o século 16 a economia do país se baseava na produção de açúcar no Nordeste. O cultivo era controlado por algumas poucas famílias que apoiavam a monarquia e não tinham interesse em mudanças. A corrida do ouro do século 18 levaria mais tarde à ascensão da Região Sudeste e à transferência da capital colonial, de Salvador para o Rio de Janeiro.

As primeiras décadas do novo Estado transcorreram menos caóticas do que nas repúblicas hispanófonas do continente. No entanto, a popularidade de Dom Pedro caiu: para desagrado dos latifundiários, ele firmou tratados comerciais com a Inglaterra, comprometendo-se a dar fim à importação de escravos.

Porém, os comerciantes de escravos ignoraram a medida e continuaram seus negócios em regime mais ou menos clandestino. A elite branca considerava a exploração e repressão de outros seres humanos um direito seu, que justificava com argumentos racistas. Essa mentalidade permaneceu uma característica da elite brasileira, até hoje.

Em 1840, com apenas 15 anos, Dom Pedro de Alcântara assumiu os assuntos de governo, dando início a uma era que os historiadores consideram uma das mais frutíferas do Brasil. Pedro 2º era um monarca esclarecido: sério, modesto e intelectualmente curioso. Porém ele também travou a brutal guerra da Tríplice Aliança contra o Paraguai, entre 1864 e 1870, matando mais da metade da população paraguaia.

Sob Dom Pedro 2º,  a economia nacional continuou se baseando em grandes plantações e trabalho escravo. Calcula-se que, dos cerca de 12 milhões de africanos forçados a cruzar o Oceano Atlântico a partir do século 16, a metade foi parar no Brasil: a rota marítima até aqui era mais curta, e os escravos, portanto, baratos.

Somente em 1888 foi proclamado o fim da escravidão no Brasil, o último país das Américas a abolir a prática. A decisão foi também expressão de um remanejamento do poder, pois a indústria açucareira do Nordeste perdera influência, enquanto a alta burguesia urbana e os plantadores de café do Sudeste exigiam ter mais voz ativa.

Chegou-se à conclusão de que a república combinava melhor com o capitalismo em ascensão. Nasceram novos ramos econômicos, sobretudo no Sudeste e no Sul, que empregavam muitos imigrantes europeus. Nos séculos 19 e 20, centenas de milhares de portugueses, italianos, espanhóis e alemães empobrecidos imigraram – sob condições iniciais totalmente diversas das dos escravos africanos.

Estes foram libertados – sem um capital inicial, formação, terras, empregos, sem sequer um pedido de desculpas. Desse modo, lançavam-se as bases para a continuação de sua dependência e exploração, com todos os problemas resultantes. Até hoje.

A escravidão é a grande vergonha do Brasil. Sua perpetuação sob outro nome e o que ela acarreta constituem um gigantesco empecilho para o país.

Ao longo de 200 anos, a ordem social vertical do Brasil mal se alterou, apesar de intermitentes impulsos de modernização – por exemplo, com a criação do Estado Novo sob Getúlio Vargas. Na década de 1950 o Brasil sediou a Copa do Mundo de Futebol, a petroleira estatal Petrobras foi fundada, e a nova capital, Brasília, inaugurada em 1960, transformou-se no símbolo da tão sonhada grandeza da nação.

Apenas quatro anos mais tarde os militares acabariam com o sonho: em 1º de abril de 1964 os generais deram um golpe de Estado, com respaldo dos Estados Unidos e alegando como justificativa atividades comunistas no país.

Nos 21 anos da ditadura militar, segundo a Comissão Nacional da Verdade, foram assassinados 434 presos políticos, assim como 8.500 indígenas; e dezenas de milhares foram presos e torturados. Esses crimes nunca foram investigados judicialmente, e este é um dos motivos por que até hoje a política brasileira se encontra sob a influência negativa dos militares.

Nos primeiros anos após a redemocratização, contudo, ficou mais uma vez óbvio um problema ancestral do Brasil, que fora varrido para debaixo do tapete durante a ditadura: a corrupção. Também ela é primordialmente um problema das classes mais altas, com acesso a verbas públicas que aparentemente consideram normal desviar.

Apesar de todas as dificuldades, o Brasil possui uma tremenda força cultural, magia e criatividade, seja na música, nas artes plásticas ou na literatura. Ela vem sobretudo de baixo, das comunidades, da periferia, do Brasil profundo, de suas subculturas e da resiliência de seu povo.

É o Brasil que resiste. Euclides da Cunha conta sobre ele em sua obra-prima Os Sertões; assim como João Ubaldo Ribeiro no épico Viva o povo brasileiro, ou Itamar Vieira Júnior em Torto Arado. Eles sempre tratam também do abismo entre a cidade e o campo, dos "dois Brasis" que existem até hoje.

O sentimento de que o Brasil deveria finalmente se tornar mais justo colocou no poder, no começo do século 21, Luiz Inácio Lula da Silva, do Partido dos Trabalhadores (PT), de esquerda. O ex-sindicalista implementou programas de combate à pobreza, o cruel flagelo da nação. Foram anos de crescimento econômico.

A seguir, porém, veio o tombo: o país resvalou para uma crise econômica, acompanhada por um gigantesco escândalo de corrupção em torno da Petrobras. Seguiram-se uma crise política, uma social e uma moral.

Crises são sempre tempos bons para os extremistas, e em 2018 o forasteiro político de ultradireita Jair Bolsonaro foi eleito presidente. Ele representa um retrocesso, começou a demolir o Estado e a cortar maciçamente as verbas para educação, cultura e, sobretudo, proteção ambiental.

A destruição de um dos maiores tesouros nacionais, a Floresta Amazônica, se acelerou ainda mais durante o mandato de Bolsonaro. Além disso, ele trouxe os militares de volta ao aparato estatal e deu poder às Igrejas evangélicas ultraconservadoras, que há décadas prosseguem com sua ascensão desenfreada.

Nos 200 anos de sua Independência, o Brasil se encontra mais uma vez diante de uma encruzilhada: tornar-se mais moderno, mais justo, e finalmente ativar seu potencial para o bem de todos; ou retroceder ainda mais para um obscuro passado.

segunda-feira, 5 de setembro de 2022

O 7 de Setembro de Bolsonaro vai ser barulhento, mas não faz milagre

Jair Bolsonaro e seus aliados jogam suas fichas nos atos da próxima quarta-feira, no 7 de Setembro, para tentar virar a disputa presidencial.

Não há resquício de dúvida que as praças país afora estarão cheias de seguidores de Bolsonaro com suas pregações.

Pouco se acredita que discursos inflamados do presidente, caminhões de som nas grandes capitais e milhares de pessoas de verde e amarelo nas ruas irão alterar significativamente a corrida ao Palácio do Planalto.

Só vai nesses eventos quem já é eleitor do atual presidente. Difícil que o noticiário sobre o fato e a lacração nas redes sociais alterem alguma coisa nas pesquisas.

A oposição, até agora, não manifestou preocupação com o 7 de Setembro de Bolsonaro. Vai acompanhar de longe.

Perigo para Bolsonaro é que eventuais e quase certos excessos de bolsonaristas nas ruas possam, esses sim, comprometer a performance do presidente nos números das pesquisas e trazer problemas, que significam nenhuma alteração no quadro ou, pior, perda de eleitores.

Bolsonaro deveria terminar seu discurso no dia 7 gritando: 'Incompetência e morte!'

O bicentenário da Independência do Brasil deveria ser um momento de grandes eventos culturais e discussões públicas sobre o que foi a história brasileira até aqui e o que devemos fazer de agora em diante. Em vez disso, Bolsonaro está andando pra lá e pra cá com um pedaço de defunto e vai fazer um comício a favor do golpe de Estado no dia 7 de setembro.

Ainda não se sabe o quanto o ato de quarta-feira será comício e o quanto será tentativa de golpe: só se sabe que será uma mistura dos dois, e que crimes serão cometidos. Golpe de Estado é proibido, usar as Forças Armadas em comício também.


No último sábado, o presidente da República já chamou o ministro Alexandre de Moraes de vagabundo, de modo que, se eu fosse o Temer, deixaria a cartinha preparada.

No fundo, Bolsonaro deve estar em dúvida sobre o que fazer. As pesquisas não o ajudam. Se Bolsonaro tivesse ultrapassado Lula, seria melhor desistir do golpe e se concentrar em ganhar a eleição. Se Lula estivesse com 20 pontos na frente de Bolsonaro, a vitória nas urnas seria impossível e só restaria a Jair tentar um golpe. Com a diferença estável, mas não intransponível, fica a dúvida.

Não é fácil tentar um golpe de Estado e fazer uma campanha eleitoral ao mesmo tempo.

Todas as pesquisas mostram que o eleitorado em geral não quer um golpe, quer comida. Mesmo o eleitor de 2018, aliás, podia não querer um político, mas queria um governo: queria vacina, queria salário-mínimo com reajuste real que lhe permitisse sobreviver à alta dos preços, queria, enfim, tudo que o governo Bolsonaro não lhe entregou.

Quatro anos depois, os brasileiros ainda querem um governo, e, se não quiserem um político, não vai ser Bolsonaro quem vai representá-los. Jair é o candidato do centrão e sua única esperança de reeleição é o uso da máquina pública durante a campanha. Sobre isso, aliás, recomendo o artigo do cientista político Jairo Nicolau na última edição da revista piauí.

Por isso, se Bolsonaro tiver como prioridade vencer a eleição, deve fazer o que fez durante sua entrevista no Jornal Nacional: mentir o tempo todo, mas mentir sobre coisas que interessam à população, como emprego, comida e vacina.

Por outro lado, se Bolsonaro tiver como prioridade dar um golpe, deve mentir sobre coisas que mobilizam o ódio de seus seguidores mais radicais: as urnas eletrônicas, as mulheres, o STF, os LGBTs, a esquerda. Aqui a prioridade não é tanto prometer bem-estar aos aliados, é prometer que os inimigos, reais ou imaginários, sofrerão. Para um público de sádicos, funciona.

Note-se que a única opção que Jair não tem é falar a verdade: como candidato à reeleição, não tem nada a dizer sobre seu governo que seja ao mesmo tempo bom para o Brasil e verdade. Como golpista, só lhe resta entregar a seus seguidores as teorias conspiratórias mais alucinadas sobre inimigos da liberdade. Se falasse a verdade, teria que admitir que o inimigo da liberdade é ele.

Seja como for, é triste que nosso bicentenário seja comemorado como uma festa em homenagem não ao Brasil, mas ao pior líder que o país já teve, culpado pelo assassinato em massa de brasileiros durante a pandemia, militante do ódio às mulheres e à liberdade democrática. Se fosse sincero, Bolsonaro terminaria seu discurso no dia 7 gritando: "Incompetência e morte!".

Pensamento do Dia

 


A crise e o projeto em 200 anos

Darcy Riberio, caso estivesse vivo, celebraria no próximo mês 100 anos. Além de um grande educador e antropólogo, era também exímio frasista, capaz de resumir em poucas palavras diagnósticos precisos sobre problemas nacionais. Uma de suas citações mais lembradas é a de que “a crise na educação no Brasil não é crise, é projeto”. Na semana em que faremos 200 anos como nação independente, não há como deixar de reconhecer que Darcy tinha razão.

A crise foi projeto durante todo o período em que o país insistiu na escravidão, tendo inclusive excluído a população escravizada da lista dos grupos considerados cidadãos em nossa primeira Constituição, de 1824. Ao fim do período imperial, o projeto continuava a pleno vapor, quando tanto conservadores quanto ditos liberais aprovaram em 1881 a Lei Saraiva, proibindo o voto dos analfabetos, restrição que só caiu em 1985.

Estava lá também na Primeira República, quando o presidente Nilo Peçanha cria em 1909 a primeira rede de escolas profissionalizantes, estipulando como público-alvo os “pobres e humildes desvalidos da sorte”. O Estado Novo deixou isso ainda mais explícito, colocando na Constituição de 1937 que o ensino “pré-vocacional” era “destinado às classes menos favorecidas”, ao passo que o secundário (único na época a facultar o acesso a qualquer área do superior) visava, nas palavras em decreto de 1942 do ministro Gustavo Capanema, elites “condutoras”.


As vezes o projeto de exclusão não era tão visível, mas nem por isso deixava de alcançar seus objetivos quando, por exemplo, naturalizava o fato de que mais da metade das crianças matriculadas na primeira série do antigo primário (hoje ensino fundamental) não conseguiam sequer chegar à série seguinte. Ou quando, na década de 60, de cada 100 ingressantes no primário, apenas seis conseguiam completar ao final de sua trajetória escolar o que seria hoje o ensino médio. O abuso nas taxas de repetência sem que isso gerasse mais qualidade foi tanto que, ao final do século XX, um relatório da Unesco nos colocou entre os piores do mundo neste quesito, atrás apenas de dez países da África Subsaariana.

Obstáculos não apareciam por acaso. Por exemplo, mesmo quando a maioria dos países desenvolvidos - e mesmo vizinhos latino-americanos - já havia ampliado para sete ou oito anos letivos o período de escolaridade obrigatória, o Brasil até 1971 continuou limitando a quatro séries. E ainda colocava barreiras como os exames de admissão, que não deixavam chegar ao que hoje seria o segundo ciclo do fundamental boa parte dos que terminavam o antigo primário.

Mesmo em períodos econômicos favoráveis, o projeto persistia, caso do ciclo do café paulista no início do século, do governo JK, ou da Ditadura Militar, quando, a despeito de momentos de maior crescimento do PIB, nem assim elevou-se, na mesma proporção, o investimento em educação.

O projeto de exclusão educacional foi majoritariamente vitorioso ao longo de nossa história, mas também tivemos vozes influentes a criticá-lo. Foram educadores como Fernando de Azevedo, Anísio Teixeira, Cecília Meireles, Alceu de Amoroso Lima, Paulo Freire, Florestan Fernandes, e o já citado Darcy Ribeiro, entre outros. Graças principalmente a uma sociedade civil que foi se fortalecendo, nem tudo foi retrocesso. Tivemos ganhos, com destaque para o período da redemocratização. Não foram poucos, mas foram insuficientes para compensar o imenso atraso histórico. Há muito mais a ser feito para que a história seja, daqui para a frente, diferente.

Bolsonaro usa os militares para virar uma eleição, por ora, perdida

Muita gente finge que está tudo bem, e que as coisas são assim mesmo. No fim, nossas instituições são sólidas e a democracia prevalecerá. Mas não está tudo bem, e as coisas não são assim.

Não pode estar tudo bem, de jeito nenhum, quando o presidente da República coopta os comandantes das Forças Armadas para promover um comício no 7 de setembro a poucos dias das eleições.

O 7 de setembro, mesmo à época da ditadura de 64, sempre foi um desfile cívico militar, muito diferente do que está planejado para acontecer amanhã, no Rio, berço do bolsonarismo.

Bem disse a ministra Cármen Lúcia, do Supremo Tribunal Federal: eleitores precisam de sossego para refletir sobre como votarão em 2 de outubro. O destino do país está outra vez em suas mãos.

É por isso que a campanha tem data marcada para acabar nas ruas, no rádio e na televisão: o próximo dia 29. Os eleitores desfrutam de 48 horas de silêncio para amadurecer sua escolha.


Bolsonaro cancelou a parada militar na Avenida Presidente Vargas, centro do Rio, para montar a sua em Copacabana. Os militares foram reduzidos à condição de animadores de auditório.

Bandas tocarão para atrair o público. A partir das 8h, e de hora em hora, haverá uma salva de tiros de canhão no Forte de Copacabana para acordar os que dormem e lembrá-los que Bolsonaro vem aí.

Barcos da Marinha se lançarão ao mar, bolsonaristas em jet-skis rivalizarão com pilotos de motos à espera do seu ídolo, e paraquedistas saltarão sobre a areia da praia.

A Esquadrilha da Fumaça sobrevoará parte da cidade em sinal de aviso de que o comício começará em breve, e que todos os patriotas de verdade não poderão faltar à luta do bem contra o mal.

Haverá um palanque à porta do Forte de Copacabana para abrigar Bolsonaro e seus convidados ilustres – entre eles, os 8 empresários investigados pela justiça sob a suspeita de estimularem um golpe.

Ainda não se sabe se Bolsonaro discursará, ou se apenas acenará para a multidão. E, se discursar, se pedirá votos, se voltará a atacar o ministro Alexandre de Moraes, ou se bancará o bonzinho.

Vai depender do humor dos bolsonaristas ali reunidos, dos cartazes, das faixas e do que elas falem. Bolsonaro se guia pela vontade dos seus devotos, é escravo dela, como diz.

Sua situação nas pesquisas não é nada boa. Dos eleitores de Lula, segundo o Datafolha, 17% dizem que ainda podem votar em outro candidato. Dos eleitores de Bolsonaro, 16%.

Propõe Vinicius Torres Freire, colunista da Folha de S. Paulo:

“Suponha-se que Lula perca todos esses votos e não receba nenhum mais; e que Bolsonaro não perca eleitor algum e ganhe o voto de todos aqueles que afirmam considerá-lo como alternativa. Na ponta do lápis, daria empate em cerca de 37%”.

Na semana passada, Lula tinha 45% das intenções de voto, e Bolsonaro, 32%. Entre os candidatos à reeleição a cargos executivos em 2022, Bolsonaro é o mais mal avaliado de todos.

Para Carlos Augusto Montenegro, ex-presidente do Ibope, a eleição presidencial poderia ser hoje: “A campanha demorou quase dois anos. Mas acabou. Falta o eleitor pôr o voto na urna”.

Se Montenegro estiver certo, se nenhum imprevisto de grande porte for capaz de reverter o rumo da eleição, Lula será eleito no primeiro ou no segundo turno. E o que fará Bolsonaro?

Acho que ele já foi longe demais na sua tentativa de desacreditar a segurança das urnas eletrônicas para, agora, recuar e apenas reconhecer o resultado das eleições em caso de derrota.

Se o golpe com o qual tanto sonha não for possível, ele precisa manter sua tropa unida para defendê-lo dos processos que dormem nas gavetas dos tribunais, mas que vão acordar.

Como manter a tropa unida a não ser dizendo que lhe roubaram a eleição? Não pode estar tudo bem quando o presidente teme passar o cargo e, em seguida, ser preso. Mas, ele fez por onde.

Brasil precisa de 'mudança urgente'

Um editorial da revista científica The Lancet, intitulado "Novos Começos para a América Latina?", publicado neste sábado, afirma que há muito em jogo nas eleições presidenciais do Brasil, e alerta para uma possível instabilidade política no caso de uma derrota do presidente Jair Bolsonaro (PL).

"Se as pesquisas estiverem corretas, Bolsonaro será derrotado por Luiz Inácio Lula da Silva no primeiro ou no segundo turno. Entretanto, a diferença entre ambos está ficando mais estreita", afirma o editorial da revista, considerada uma das mais importantes publicações científicas em todo o mundo.

"Há temores de que Bolsonaro, conhecido por sua volatilidade e incitação indireta à violência, não sairá passivamente ", diz o texto, que ressalta as críticas do atual mandatário ao sistema eleitoral brasileiro.


"O gerenciamento desastroso de Bolsonaro da pandemia de covid-19 e seu desrespeito às mulheres, minorias étnicas, povos indígenas e ao meio ambiente são amplamente conhecidos. Em seu governo [...] a desigualdade e a pobreza aumentaram vertiginosamente, e o Brasil voltou ao mapa da fome."

"Correspondências publicadas na The Lancet descrevem como cientistas e instituições científicas vem sendo sabotadas. O Brasil precisa de mudança urgente", dizem os editores da revista.

"Se as previsões para as eleições no Brasil estiverem corretas, o país se juntará a outras nações latino-americanas onde existem esperanças renovadas de mudanças progressivas na sociedade". Como exemplo, a revista cita as eleições de Gustavo Petro, na Colômbia, "um ex-guerrilheiro que tomou posse em agosto"; e Gabriel Boric no Chile.

O editorial afirma que Petro e Boric se diferenciam dos demais líderes latino-americanos por incluírem em suas agendas os temas da sustentabilidade, proteção aos direitos das mulheres e a inclusão política das minorias étnicas.

"Há uma chance sem precedentes para novos começos na América Latina; uma oportunidade de realizar mudanças positivas para aliviar a negligência, desigualdade e violência aprofundadas. Esperamos que o Brasil opte por aproveitar essa oportunidade", concluem os editores.

domingo, 4 de setembro de 2022

Pensamento do Dia

 

Mikhail Zlatkovsky (Rússia)

Bolsonaro e o cofre público que não tem dinheiro vivo

A fragilidade das instituições básicas está reconhecida na longa preocupação com um golpe e, mais recentes, nos atos que se levantam em defesa do Estado democrático.

Tal fragilidade não se efetiva só na intolerância da classe armada à prática da democracia: as próprias instituições constitucionais não funcionam. Ou, se o fazem, funcionam mal quase sempre, até quando pretendem proteger o regime.

É o que se deve observar na atual disputa pela Presidência — uma aberração monstruosa.

Bolsonaro não poderia estar em disputa eleitoral. Sua candidatura é ilegítima. Os delitos quase diários que enfileira não deixaram de ser delitos por se tornarem aceitos, à força da repetição mas, sobretudo, à falta de que as instituições determinadas pela Constituição — Congresso, Judiciário e Procuradoria-Geral da República à frente — cumpram o seu dever.

Ainda assim, quando conclui todo um mandato de liberdade criminal, Bolsonaro está diante de um obstáculo que seu privilégio ridiculariza: a Lei da Ficha Limpa. Vale para numerosos aspirantes à eleição, desde vereador. Para Bolsonaro, a fileira de delitos não faz intervalo nem na reta final da campanha pela reeleição. Quando a ideia de reeleição é em si mesma, no seu caso, delito moral contra o país.

A 30 dias da votação, dois competentes repórteres e o UOL comprovam 51 negócios imobiliários feitos a dinheiro vivo pelos Bolsonaro. A Juliana Dal Piva e Thiago Herdy segue-se um ex-servidor de Bolsonaro, Marcelo Nogueira, com informações sobre o "dinheiro por fora" na compra de uma casa pelo patrão, no Rio. Os valores declarados das compras são todos muito abaixo dos preços de mercado.


A Bolsonaro bastou um deboche: "Qual é o problema de pagar com dinheiro vivo?". Tem razão, aliás. Não é problema, é corrupção. Muito bem indicada na dinheirama que não pôde deixar rastro, como também as pegadas de quem levou o dinheiro vivo até um Bolsonaro.

E o que vem na chamada mídia, por ser Bolsonaro, é conhecido: a notícia cuidadosa passa à discrição, e logo surge algo para mudar a conversa. Se faltar, como diz Bolsonaro, não há problema. O PIB completado em junho, por exemplo, é saudado em setembro com o verbo no presente: cresce, recupera, retoma.

As compras a dinheiro já estão atribuídas à ex-mulher, ao ex-cunhado, irmão, mãe falecida. A atribuição é até novidade, porque o apoio ao garimpo ilegal, à apropriação de terras públicas e de indígenas, a relação com milicianos, cloroquina e mortes, as rachadinhas, o desmatamento e o contrabando de madeira, chegando a tramoias legislativas para mineração com aparência legal na Amazônia, tudo isso que produz muito dinheiro vivo nem precisou dos tais laranjas. Foi feito, e pronto.

A par dos seus interesses pessoais e familiares, Bolsonaro se empenhou em uma tarefa sem precedentes: desmontar o sistema de administração pública. "Menos R$ 1 bilhão para educação básica em 2023" e "Governo corta 42% da Saúde na proposta de Orçamento 2023" são títulos do Globo e da Folha na mesma sexta-feira.

Não é preciso dizer mais sobre a recusa às obrigações sociais do governo, um crime que se junta às monstruosidades durante a pandemia. Todo o dispositivo de vigilância patrimonial, a estrutura universitária, a proteção a direitos, conservação ambiental, inovação industrial, redução das várias desigualdades, enfim, toda a engrenagem que move o país foi quebrada. Sem custo algum para Bolsonaro.

Do Congresso recebeu proteção e apoios. No Judiciário, os ímpetos de um e de outro não atenuam a passividade da mais que duvidosa conveniência de não "desestabilizar" o país. Sem se indagar que estabilidade seria essa, de um país em devastação geral, nas mãos de um governo delituoso, deliberadamente delituoso.

O complemento é perfeito. Bolsonaro está em campanha diária, por todo o país, com os recursos dos cofres públicos. A cada dia um "evento oficial" dispensa de gasto. Nossos impostos custeiam o que a maioria não quer. E a essa igualdade de condições estamos forçados a chamar de eleição democrática.

A ditadura ruralista

Poderíamos também chamá-la "A Ditadura dos Latifundiários"! O fato é que uma minoria que detém privilégios medievais e representa menos de 2% da população brasileira domina o Congresso Nacional, que deveria ser do POVO, caso vivêssemos, de fato, em uma DEMOCRACIA, e determina os destinos de nossa Nação. Isso, diante dos olhos de toda população brasileira, atônita, ignorante e apática! Isso, diante dos olhos do Poder Judiciário, omisso e inoperante, e que deveria ser o baluarte do Estado de Direito e da Democracia.

Falo, é óbvio, da fragorosa derrota da inteligência contra a burrice, da aprovação de um projeto indecente que permitirá a eliminação de 50% da Floresta Amazônica, esse arremedo de código florestal que só beneficia os poderosos, escondidos covardemente em sua máscara de defensores dos pequenos agricultores do Brasil. Falo dessa excrecência legal que anistiará todos os crimes cometidos contra nossa maior riqueza, o Meio Ambiente, que agora estará exposto e vulnerável a novas investidas da motosserra contra o que resta do Cerrado e da Amazônia. Já na expectativa desse assalto, os ruralistas aumentaram, só em Mato Grosso, em 96%, a devastação do pouco que resta naquele estado do Blairo Maggi...

Quem perde nesse "negócio entre iguais" (aqueles que se acham "mais iguais do que os outros") é a Nação Brasileira, é o Povo Brasileiro, são as gerações vindouras, que não terão direito aos recursos naturais que herdamos de nossos pais e que estamos usurpando de nossos filhos! Os estúpidos ruralistas não percebem que esse "tiro no pé" os atingirá também, e muito mais breve do que se imagina... as mudanças climáticas já são evidentes em todo o planeta, e serão aceleradas agora, no momento em que as mais importantes conquistas ambientalistas são jogadas na latrina da História do Brasil.

Justamente no momento em que o Mundo toma consciência do desastre ecológico que se avizinha, no ano em que se realizará no Brasil a "RIO+20 - Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável", o Brasil dá esse terrível passo em falso e entra na contramão da História, demonstrando que não somos dignos de nos considerarmos uma Nação Contemporânea, Moderna, comprometida com a preservação da vida no planeta. Demonstramos que somos ainda subdesenvolvidos intelectualmente e não somos dignos de compartilhar da Comunidade Internacional. Todos os esforços diplomáticos para nos alçar à categoria de Nação do Primeiro Mundo, de liderança desse processo único da História, foram definitivamente perdidos.

O mais irônico é que estamos destruindo nosso maior patrimônio: os recursos naturais! Pouquíssimas são as nações que podem se comparar ao Brasil em riquezas naturais: biodiversidade, geodiversidade, solos férteis, água em abundância... e estupidamente querem esses traidores da pátria acabar com tudo e nos transformar em uma imensa terra devastada pela soja, pelo gado, pela cana de açúcar, pelas valas escavadas das montanhas, pelos rios poluídos e mortos, servindo a interesses inconfessáveis dos ruralistas, das mineradoras, das madeireiras e de toda corja de políticos corruptos, seus porta-vozes.

Pois essa ditadura é muito pior do que a ditadura miitar que esfacelou com a sociedade brasileira nos anos 60 e 70 do século passado. Aquela era ideológica, nefasta como todas as ditaduras, mas passou; e o povo brasileiro se recompôs das tragédias, das perdas de vidas humanas. Esta, a Ditadura dos Ruralistas, demonstra que somos incapazes de preservar um estado de direito, de justiça social e de respeito ao cidadão e à Natureza, e seus efeitos serão sentidos para sempre, inexoráveis, irreversíveis...

Apesar de todas as manifestações de intelectuais, ambientalistas, cientistas e especialistas em meio ambiente, o Congresso demonstrou que não é digno do povo que o elegeu, e que o povo não é digno para escolher corretamente os seus representantes. Essa é a falência de nossa parva "democracia" e a ascensão definitiva da classe abastada e ignorante ao poder. Enquanto isso, os abestalhados magnatas do gado e da agroindústria estarão festejando essa Vitória de Pirro, acreditando que o tempo lhes será favorável para usufruir do que nos foi roubado, à luz do dia e dos holofotes da imprensa nanica que temos em nosso país. Nem mesmo os jornalistas são dignos de respeito, pela sua omissão e indiferença.

Que o futuro tenha pena de nós.
João Carlos Figueiredo

Os Bolsonaros já fizeram sua independência

Nelson Rodrigues — que anda atualíssimo — dizia faltar "espanto político" ao Brasil. Com seu estilo inconfundível, deu um exemplo:

"Se baixassem um decreto mandando a gente andar de quatro —qual seria a nossa reação? Nenhuma. (...) Cada um de nós trataria de espichar as orelhas, de alongar a cauda e ferrar o sapato. No primeiro desfile cívico, o brasileiro estaria trotando na Presidente Vargas, solidamente montado por um Dragão de Pedro Américo. E seria lindo toda uma nação a modular sentidos relinchos e a escoucear em todas as direções".

A citação ao quadro "Independência ou Morte!" lembra as comemorações deste Sete de Setembro, que sob o governo Bolsonaro seguem as regras da vergonha e do assombro. Última cartada da campanha que não vê o presidente subir nas pesquisas ou mais um movimento estratégico em direção ao golpe, o desfile do bicentenário —que no Rio trocou a Presidente Vargas pela avenida Atlântica, em Copacabana— foi sequestrado politicamente, a exemplo das cores verde e amarela da bandeira e da camisa da seleção.


As Forças Armadas preparam uma programação de oito horas (!) na praia. Se fizer sol, haja protetor solar e água de coco. Salto de paraquedistas na areia, salvas de canhão no forte do Posto 6, apresentação da Esquadrilha da Fumaça, parada naval ao longo da costa. A motociata do candidato à reeleição sairá do Monumento dos Pracinhas, no Flamengo, para encontrar, no gran finale, velhas viúvas da ditadura carregando cartazes de intervenção militar e pedindo o fim do STF. Os custos da farra patriótica não foram informados.

O que menos importa a Bolsonaro é o Brasil. Sua independência e a do seu clã ele já conseguiu, influindo na compra de 107 imóveis, entre os quais a mansão de R$ 6 milhões do filho 01 e outra de R$ 3 milhões da ex-mulher. Metade do patrimônio foi adquirida com uso de dinheiro vivo. Isso sim é um espanto.

Civilização?


Suspeito que falta ainda muito para se inscrever nos dicionários o exato sentido da palavra civilização
Carlos Drummond de Andrade

O golpe do 7 de Setembro

Quis o destino, a conjunção dos planetas ou simplesmente o azar, que a comemoração do Bicentenário da Independência coincidisse com a campanha de reeleição do presidente Jair Bolsonaro, usurpador das cores nacionais. Além de roubar a maior data nacional, ele vai transformá-la em um mega-comício eleitoral pago com dinheiro público, algo nunca antes visto nos quase 133 anos de República.

Já utilizado pelo presidente para atacar as instituições, o 7 de Setembro de agora está sendo tratado pela campanha bolsonarista como definitivo para reverter a desvantagem em relação ao líder Luiz Inácio Lula da Silva. Os organizadores nem mesmo se deram ao trabalho de esconder o propósito eleitoral da festa. A convocação para ir “às ruas pela última vez” foi feita durante a convenção de lançamento oficial da candidatura, em julho, na qual Bolsonaro renovou ameaças golpistas contra “os poucos surdos de capa-preta”, em referência aos integrantes do STF. De lá para cá, incrementou-se o mix proposital entre o oficial e o eleitoral, com idas e vindas das Forças Armadas quanto ao modelito das comemorações.


Promete-se um Bolsonaro comportado. Ele evitaria discursos agressivos como os do ano passado, quando afirmou que não cumpriria decisões judiciais, disparando todo tipo de petardo contra o Supremo e seus ministros, em especial ao “canalha” Alexandre de Moraes. A ver.

O comedimento pode até prevalecer pela necessidade de arregimentar eleitores, boa parte crítica ao estilo belicoso do presidente.

No Rio, onde fez sua bem sucedida carreira política, Bolsonaro obteve 58,2% dos votos no primeiro turno de 2018, vencendo em todos os municípios do Estado, só em 10 deles com menos de 50%. Agora, está suando litros para tentar reduzir a diferença de seis pontos percentuais que o separam de Lula. Entre os fluminenses, Lula tem 41% das intenções de voto versus 35%, segundo o último Datafolha.

A comemoração oficial-eleitoral na deslumbrante Copacabana, cartão-postal do Brasil, pode ajudá-lo também em outras praças. As imagens do 7 de Setembro afanado serão insistentemente exibidas – não como uma festa do Brasil, mas de apoio ao presidente. Bolsonaristas ou não, os brasileiros na praia e as famílias que levarem seus filhos para ver o desfile de navios de guerra e os aviões soltando fumaça nos céus serão incluídos nas cenas.

Em São Paulo, onde Bolsonaro não pretende pisar neste 7 de Setembro depois dos tiros no pé de 2021, as manifestações de seus apoiadores devem ocorrer de forma mais branda. Mas, para evitar qualquer hipótese de confronto, o governador Rodrigo Garcia (PSDB), também candidato à reeleição, antecipou para o dia 6 a reinauguração do Museu da Independência, no Ipiranga.

Maior colégio eleitoral do país, com 34,6 milhões de votantes, São Paulo é tido como antipetista por natureza – uma balela que não resiste à história concreta determinada pelas mais de duas décadas de polarização com os tucanos. No estado, Bolsonaro vem conseguindo tirar pontos de Lula. Em duas semanas a diferença entre os dois caiu de 13 para 5 pontos percentuais. Isso se explica menos pelo crescimento dos candidatos Ciro e Simone, mas sim pela opção do candidato ao governo Fernando Haddad de centrar fogo no adversário Rodrigo e poupar o candidato bolsonarista Tarcísio de Freitas, com quem o petista prefere disputar o segundo turno. Com isso, Bolsonaro surfa.

À exceção do Nordeste, onde continua com uma frente avassaladora da preferência, Lula perdeu pontos, ainda que na margem de erro, em todas as regiões do país. De acordo com o Datafolha, ainda sustenta confortáveis 13 pontos de vantagem sobre Bolsonaro, um presidente rejeitado por 52%. Leva no segundo turno, mas não soma pontos para vencer em primeiro, algo que só entre os fundamentalistas do PT esteve próximo de ocorrer.

O turno único sempre foi ilusão. Lula chegou a 53% dos votos válidos há dois meses, muito antes da campanha televisiva, das sabatinas e dos debates. Sabia-se que ele iria amargar perdas, que os 3 pontinhos eram uma margem estreita demais para cantar de galo. Nesta altura, o PT já deveria estar convencido de que a pregação do voto útil, em vez de atrair eleitores, dissemina antipatias. Do contrário, corre o risco de fazer parecer uma quase derrota a vitória praticamente certa que terá na primeira fase.

Para o 7 de Setembro, a instrução da campanha lulista é para que os apoiadores do ex-presidente evitem provocações. É quase um fique em casa.

Nas ruas, o aparato de segurança jamais visto, tanto em Brasília como no Rio, escancara os riscos da festa eleitoral de Bolsonaro.

Nas urnas, os brasileiros terão a chance de reagir ao golpe do surrupio de sua data nacional, de sua bandeira e de suas cores. Uma parada que, ufa!, o país vai resolver antes da Copa do Mundo do Catar.