quarta-feira, 6 de setembro de 2017

A República de bananas podres

Na sexta-feira 1.º de setembro, data da saída do mês de agosto, ou seja, do desgosto, a Secretaria de Comunicação do Palácio do Planalto divulgou nota oficial longa e vazia na qual chamou o marchante goiano Joesley Batista, do Grupo J&F, de “grampeador-geral da República”. Aparentemente, a Presidência da República apontou suas pesadas baterias antiaéreas para derrubar uma flecha de bambu que o procurador-geral, Rodrigo Janot, preparou, segundo anunciaram as trombetas de Jericó, para atingir o presidente Michel Temer com mais uma denúncia criminal.

Em resposta ao desaforo, o maior produtor e comerciante de proteína animal do mundo chamou publicamente o presidente, que está na China em longa viagem de turismo para evitar vaias amanhã, no desfile militar do Dia da Pátria, de “ladrão-geral da República”. É pouco ou quer mais? Joesley disse ainda que Temer “envergonha” todos os brasileiros. Delator da Lava Jato, o desafeto-mor do chefe do governo afirmou, também em nota (que pretensão!), que a colaboração premiada é um direito e o ataque à prerrogativa revela a “incapacidade” de Temer se defender dos próprios crimes.


O Palácio do Planalto desqualificou o duplamente contador (de dinheiro e de furtos desqualificados) Lúcio Funaro, que firmou acordo de delação com o Ministério Público Federal (MPF). Segundo vazamentos, este contou que seu silêncio foi comprado por Joesley, dando sentido ao enigma de Temer no Jaburu: “Tem que manter isso, viu?”. Em seu papel de santo do pau oco, Joesley pontificou: “A colaboração premiada é por lei um direito que o senhor presidente da República tem por dever respeitar”. Entrementes, a Veja publicou entrevista do acusador na qual tentou passar de vilão a vítima: “Na hora em que os nossos anexos começarem a revelar outras organizações criminosas, aí talvez a sociedade vá olhar e dizer: ‘Pô, o Joesley teve a imunidade, mas olha como ele ajudou a desbaratar a corrupção’.” O esperto aposta na idiotice geral das otários.

Só que anteontem o precipitado-mor da (des)União revelou dispor-se a cancelar prêmios e manter penas apontadas na delação de Joesley porque se sentiu logrado pelo bamba do abate. E, pior ainda, traído por seu ex-braço direito Marcelo Miller, de quem a Nação inteira já desconfiava por ter deixado o Ministério Público Federal, tudo indica sem sequer trocar o paletó, para se dedicar à defesa dos donos e executivos da JBS nas tratativas para a referida dita cuja delação premiada. A revelação de que Janot foi ludibriado pelo procurador que virou advogado do delator valeu por uma flechada de metal no próprio pé. As gravações e documentos antes desconhecidos viraram o jogo em favor de Temer.

Para o advogado do presidente, Antônio Cláudio Mariz de Oliveira, Joesley “não merece nenhuma resposta em face da sua origem e do conhecido comportamento absolutamente reprovável do delator”. Esta reação pífia não encobre o fato de seu cliente ter recebido o insultado para um papo amigável sobre compra de silêncio de réu e de omissão de juízes e procuradores, ao abrigo das trevas do porão do palácio ao qual este fora acolhido sem revista e usando nome que nem era seu. Gravada, a tertúlia sustentou o depoimento em que se baseou a primeira denúncia de Janot contra Temer.

O tiroteio de baixo calão travado no curral do Jaburu dá bem uma ideia do nível de desrespeito de autoridades e ex-cúmplices tornados desafetos às nossas instituições republicanas. O pior é que ladrão pesa muito mais do que grampeador. Havemos de observar que, na hierarquia dos crimes, o de furtar é muito mais grave do que o de grampear. E nunca foi dada uma resposta à altura. A única seria Temer explicar de forma detalhada e convincente suas relações e seu compromisso secreto e suspeito com Joesley no Jaburu. E Janot pisou no tomate vencido que atirou na lapela presidencial.

Para a Nação, emergindo agoniada da fossa da depressão, não há mocinhos neste faroeste caboclo. Mede-se a culpa de Joesley pelos 2 mil anos de penas perdoadas para contar uma história da qual só revela a parte que lhe convém. O MPF, após seu chefe ter sido insultado de “ingrato” pelo ex-presidente Lula, aparece depois da última confissão como interessado apenas em implicar Temer e o PMDB. Por isso, relevou úteis informações que o delator na certa tem sobre o padrinho mais forte no poder, Lula, que propiciou a um modesto açougueiro do interior de Goiás tornar-se magnata mundial da próspera indústria do abate de bois com juros de banana podre, subsidiados por um banco público.

Não convence o motivo dado por Janot, a 11 dias de deixar o cargo, para o prêmio excessivo a patrões e empregados da JBS: facilitar a investigação. E mais: não apareceu documento algum esclarecendo as razões de o bamba do abate ter merecido tantas benesses após conversas “republicanas” que disse ter mantido com Lula e o então presidente do BNDES, Luciano Coutinho.

Falta ainda o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Edson Fachin ser questionado pelos colegas a respeito da homologação da delação, agora reveladora de que o populacho tinha razão em abominá-la.

No meio desse charivari todo, do outro lado do planeta, Temer comporta-se como São Sebastião catequizando o Extremo Oriente, à espera de flechas bambas de Janot, que nunca pareceu se esforçar muito para investigar o papel de Dilma Rousseff na compra da “ruivinha” em Pasadena. Ou a conexão de Lula e da própria Dilma com contas milionárias que o próprio Joesley informou ter aberto no exterior.

Esta República de bananas podres ficou a mercê de filhotes de César Maia, Fufuca Dantas, José Sarney e Fernando Coelho – estes dois protagonistas de mais um lance com o qual o governo tenta entregar generosas partes da Amazônia a bandidos proibidos de desmatar e garimpar no exterior.

terça-feira, 5 de setembro de 2017

Paisagem brasileira

ARMANDO VIANNA(1897-1991),Lapa,ost,Ass., situado e datado Rio 1965, cid55 x 46 cm.
Largo da Lapa, Rio (1965), Armando Viana

Elementar, meu caro Watson

Sherlock Holmes certamente resolveria o mistério. Entre ensaios de violinos e contando com a lubrificação criativa de algumas doses de ópio, chacoalharia seu tédio para impiedosamente desvendar, sem muito esforço, diga-se, a pergunta que há muito nos corrói: “que país é este? ”

Lendo somente a primeira página dos jornais, retiraria pistas que o levariam a brilhantes e certeiras deduções denunciando de maneira clara e evidente os elementos necessários a resposta ao dilema.

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Para Holmes, as informações disponíveis a olhos vistos constituiriam as pistas e o corpo probatório necessário para entender o que somos, seremos e como chegamos aqui. Lamentavelmente, a indisponibilidade dos serviços Sherlock faz com que todo este acervo de evidencias seja desperdiçado. Sem a ajuda de Holmes, só se vê desordem do caos. Sem jamais avistar o consolo das explicações.

Permanece o mistério sobre uma nação que, 500 anos após a chegada do primeiro português, ainda acredita que a exploração de recursos naturais é o único caminho para o desenvolvimento. Vê o meio ambiente como obstáculo. É incapaz de inovar. Ou de, pelo menos nesse campo, ter ideias originais.

Carece de explicação o que levou o povo a se autodeclarar pais do futuro, potência emergente, entre outros adjetivos temperados com arrogância. Ao mesmo tempo, grita por esclarecimento as razões pelas quais este mesmo povo celebra despioras. Somos servos da mediocridade. E escravos da ausência de ambição.

Clama por esclarecimentos a lógica que suporta uma nação controlada por cleptocratas confessos enquanto seu povo se divide para apoiar profetas falsos, populistas baratos, e torcidas uniformizadas. Povo que torce, mas não debate. Não gosta, mas tolera. Reclama, mas não muda.

Carece de elucidação porque depois de tanta agua ter passado embaixo de nossa ponte para um futuro melhor, nos empenhamos em destruí-la. Não conseguimos pensar além de algumas poucas semanas. Sem dar a menor importância, condenamos nossa ponte a implosão pelas ideias ultrapassadas, irrelevantes, ou simplesmente medíocres.

A gente não aprendeu. E talvez tenha esquecido o que soube um dia. Elementar, meu caro Watson.

O legado de Janot

A Odebrecht roubava pela via tradicional do superfaturamento de obra pública. Já a JBS assaltava direto o Tesouro Nacional, via BNDES. Não precisava de gazua. Era uma “marca fantasia” dos guardiões das chaves. Simplesmente entrava e servia-se.

Se a delação da Odebrecht e seus 77 ladrões fez sumir de cena a “narrativa” do costume e varejou de rombos o casco do lulismo com os seus modestos 415 políticos “ajudados”, é de se imaginar o estrago que poderiam fazer as dos 2ésleys até a eleição que decidirá se a democracia no Brasil vai ou não tornar-se “excessiva” como a da Venezuela se tivessem tido, de Brasília, os mesmos “incentivos” para contar tudo que Curitiba deu àquele pé-de-chinelo do Marcelo Odebrecht.

Não pelos 1820 desencaixes que confessam ter feito para 4,3 xs mais políticos que a Odebrecht para animar brigas de gangues. Pela saga épica, mesmo, da nata do banditismo petista infiltrada no comando dos fundos de pensão e dos bancos públicos alistando a escória planetária do crime organizado em estados nacionais – Venezuela, Cuba, a Argentina kirshnerista, Angola, Guiné Bissau, e por aí – para montar, a partir de um modesto açougue de Anápolis, sob a batuta de um Foro de São Paulo voando nas asas do estado brasileiro, uma lavanderia global de dinheiro roubado abarcando 30 países. Como foi, bilhão por bilhão, que o PT fez da Petros, entregue à “gestão” de um fundador da CUT, sócia dos carniceiros de Goiás. O que mais, além do casal Santana, exportou de tecnologia cleptológica proprietária para párias da civilização e aprendizes de genocida para comprar o conforto de superfaturar em dolar longe dos controles brasileiros e, ora com, ora sem o concurso da Previ, do Funcef, do Postalis, do Itamaraty e sabe-se lá do que mais, ir comprando a “competência” com que os 2ésleys esmagaram um a um os seus concorrentes nacionais e internacionais até toda a jogada ser “branqueada” pelo BNDES e os maiores laranjas do PT em todos os tempos ficarem sozinhos na arena global com mais de R$ 180 bi no caixa por ano. E tudo para, como foi minuciosamente mapeado na sentença do Mensalão e eles repetem de viva voz todos os dias desde então, ressuscitar dos mortos, agora marrom, o totalitarismo que foi vermelho no século 20.



O resultado prático da cruzada de Rodrigo Janot e Luis Edson Fachin, aquele que subiu ao STF pelos palanques dos comícios do MST para Dilma em que discursava cheio de paixão e acaba de avalizar a “isenção” do companheiro, foi privar o mundo de conhecer essa odisséia, o que, incidentalmente, livra Lula das manchetes todas que ela poderia render até outubro de 2018. Quinze anos de Lula por 15 minutos de Temer e lá se vão, em velocidade recorde, os 2ésleys, com seus iates, aviões, bagagens e arquivos, para o mundo dos muito muito ricos, liquidando a toque de caixa suas operações na terra arrasada da América Latina enquanto o Brasil, à beira do colapso, discute firulas à espera do momento de decidir, a seis ou sete semanas do dia da eleição, se arranca Lula do palanque para a cadeia em pleno comício ou carrega-o para a Presidência da Republica.

No fim de agosto, com o acinte que só a onipotência comporta, a plena e eternamente indultada JBS, na qual até o STF soberanamente proibiu-se de tocar, mandou informar a quem interessar possa que, sendo assim, fica recusada a auditoria forense requisitada pelo BNDES para medir os prejuizos incorridos e mantido Wesley na presidência para comandar, ele próprio, uma “investigação independente” sobre o paradeiro do dinheiro que os Batista são acusados de nos roubar…

Tudo isso pede uma reflexão serena sobre os custos e benefícios dessa nossa exaustiva ciranda. Ministério Público, Judiciário e imprensa dificilmente erram por aquilo que fazem. Acusar ou prender alguem que não tem culpa nenhuma; mentir frontalmente contra fatos é expor-se a ser desmascarado na sequência. Mas omissão é o assassinato sem cadáver. Não acusar quem esteja atolado em culpas; não expor a falcatrua de que se tem conhecimento; suprimir ou supervalorizar a circunstância que qualifica o fato, não produz flagrante nem prova.

Mas como mata!

O instrumento da delação premiada foi importado dos EUA pela metade. Não ha dúvida, nem sobre a eficácia da ferramenta, nem sobre a perigosa discricionariedade que o seu uso requer. Mas lá o eleitor tem o poder de cassar ou eleger juizes e promotores o que faz a discricionariedade pender sempre para o lado certo. No Brasil, promotores e juizes habitam o Olimpo, e para sempre. E tudo que põem para andar “fecha” necessariamente no máximo em 11. Reclamações, daí em diante, só para o bispo.

Isto de bom ou mau negócio depende sempre da parte na transação de onde vem a avaliação mas, se algo ficou indiscutivelmente demonstrado nestes quase quatro anos é que as delações, agora em edições sucessivas ajustadas “on demand”, vão pondo os marajás com seus “reajustes” leoninos para corrigir inflações que não ha cada vez mais ricos, o Brasil cada vez mais pobre, a reforma dessa mamata cada vez mais longe, os impostos cada vez mais altos e as instituições democráticas cada vez mais em frangalhos.

O Congresso é a ponta televisionavel do longo mergulho do Brasil na permissividade. Mas também os juízes e promotores regiamente “auxiliados”, os donos de jornais e televisões e os cidadãos em geral participaram dele por ação ou por omissão. A alternativa possivel para as decisões sem volta dos 11 é construirmos pela e com a política que ainda podemos eleger ou não a cada quatro anos uma saída para a frente. Um novo contrato que ofereça a quem quiser aderir ao Brasil a oportunidade de comprometer-se com uma nova regra do jogo a ser “apitada”, daqui por diante, diretamente pelos eleitores seria um caminho com garantia de execução. Mas abandonados à vingança da vingança da vingança como vamos, seguiremos nos entredevorando, dentada por dentada, ao sabor de um jogo que, definitivamente, não é o nosso.

Uma prodigiosa discórdia

É possível medir o índice de felicidade e estabilidade social de um país estudando as grandes polêmicas que o dividem. Um país que discute se está em ditadura ou em democracia, como aconteceu em Angola ao longo da passada semana, ainda tem um longo e sofrido caminho a percorrer. O mesmo se pode dizer do Brasil, onde quase todas as grandes polêmicas dos últimos meses têm como origem a extrema corrupção da sua classe política. Nas duas Coreias discute-se a guerra. Nos Estados Unidos, a ligação, ou não, entre a terrível tempestade que quase afundou Houston, o aquecimento global e as lamentáveis escolhas políticas do presidente Donald Trump. São, todas elas, discussões sérias, urgentes, fundamentais.

O que dizer, porém, de um país que debate, com vibrante entusiasmo — colocando nisso toda a alma e emoção dos mais dramáticos dilemas éticos —, as qualidades e defeitos de dois livros de exercícios para crianças dos quatro aos seis anos de idade?
Parque de Diversão Alienígena


Foi o que aconteceu em Portugal nos últimos dias. A publicação de dois manuais escolares, um destinado a meninas e outro a rapazes, com textos semelhantes, da mesma autora, mas ilustrações de duas artistas diferentes, desencadeou uma medonha troca de argumentos entre correntes inimigas: de um lado, os que se insurgiam contra o machismo intolerável da editora; do outro, os que defendiam o direito às meninas a gostarem mais de princesas do que de carrinhos e os meninos, mais de futebol do que de bordados.

Um exercício, em particular, indignou as/os feministas. Tratava-se de um labirinto. Acontece que o labirinto no caderno dos rapazes era um pouco mais intrincado do que aquele que surgia no caderno das meninas. A página com os dois labirintos foi reproduzida em diversos jornais, fazendo com que alguns dos mais respeitados cronistas portugueses, homens e mulheres, produzissem violentas colunas criticando a editora.

Alarmado com o imenso alarido, o governo português, através da Comissão para a Cidadania e Igualdade de Gênero, aconselhou a editora a recolher os polêmicos livros — o que esta fez, apressadamente, sem sequer se defender.

Foi então que o comediante Ricardo Araújo Pereira surgiu num programa televisivo de sátira política, o “Governo Sombra”, com os dois livros na mão. Começou por dizer que lera os livros e se sentira defraudado, pois ao contrário do que todos os críticos haviam dito, não encontrara neles nenhum explícito indício de preconceito machista. Os labirintos diferentes não resultaram de uma opção deliberada, mas do simples acaso. Noutros desenhos, aliás, as meninas surgem em situações que denotariam uma maior inclinação intelectual: por exemplo, lendo livros, enquanto os meninos brincam com carrinhos.

Ricardo Araújo Pereira acusou os muitos detratores dos agora famosos (ou infames) manuais escolares, de nem sequer os terem lido. Alguns dos visados reagiram, confirmando que sim, que não haviam lido os livros, mas insistindo no protesto.

A prodigiosa discórdia portuguesa não só comprova amplamente a minha tese inicial, sobre a possibilidade de avaliar o índice de felicidade dos diferentes países através das suas principais polêmicas, como nos alerta para os excessos do pensamento dito politicamente correto.

Países a braços com grandes problemas discutem grandes problemas. Países sem problemas discutem o sexo dos anjos. Literalmente. Antes desta grave questão dos manuais escolares já me havia surpreendido ao assistir a debates épicos, nos jornais portugueses e nas redes sociais, sobre dramas tão relevantes quanto a presumível flatulência de um jovem cantor.

Países felizes são, regra geral, países chatos. A felicidade é irmã do tédio. A lista dos países mais felizes do mundo, no Relatório Mundial sobre a Felicidade, da responsabilidade da Rede de Soluções para o Desenvolvimento Sustentável, das Nações Unidas, é liderada, sem surpresa, pela Noruega, Dinamarca e Islândia. É claro que até nesses países podem acontecer brutais irrupções de irracionalidade, como em 2011, quando o terrorista cristão de extrema direita Anders Breivik assassinou 77 pessoas; no geral, porém, é mais certo morrer de tédio do que a tiro.

Lembro que na Suécia, em março deste ano, estalou um inédito escândalo de corrupção: o deputado de um partido conservador utilizou em benefício próprio as milhas acumuladas no cartão que o Estado oferece aos parlamentares para uso gratuito dos transportes públicos no país. Ao que parece, o deputado corrupto terá usado os pontos do cartão para comprar um pacote de amendoins.

Talvez o ideal seja viver em Oslo (ou em Lisboa), lendo os jornais brasileiros ou angolanos. Assim, não correremos o risco nem de morrer de tédio, nem tão pouco a tiro.

José Eduardo Agualusa

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

Ouça, Temer

Tenho discretas razões para supor que Temer compreenderá o equívoco de abrir para a mineração, na Amazônia, uma área do tamanho da Dinamarca. No passado, ele se tornou dono de terras em Alto Paraíso, e a comunidade que trabalhava há anos ali foi a Brasília pedir ajuda. Terras em Goiás foram distribuídas a políticos do PMDB. Temer nem sabia exatamente como eram e o que produziam. Pressionado pelos agricultores alternativos que trabalhavam ali, Temer resolveu abrir mão de suas terras e as doou à cidade de Alto Paraíso. Agora, não se trata apenas de alguns, mas de 47 mil hectares. As terras não são de Temer, mas do Brasil e, de uma forma indireta, de toda a Humanidade. Quando os militares criaram a reserva, a ideia era pesquisar e explorar os recursos de uma forma estratégica. Não creio que pensaram nisso como um momentâneo desafogo a uma crise econômica provocada pela incompetência e corrupção.

Não quero raciocinar em termos de estatal ou privado, ou mesmo de nacional ou estrangeiro. Depois que os militares criaram a reserva, muita água passou por baixo da ponte, ou mesmo por cima, com os eventos climáticos extremos.

No fim da década dos 1980, o Brasil ainda era um vilão internacional porque desmatava a Amazônia. Lembro-me de uma reunião de cúpula na Holanda em que Sarney não foi porque tinha medo de uma reação negativa. Na época, além das queimadas e de outros fatores, houve ainda o episódio de negarem passaporte a Juruna.

Com a realização da Rio-92, o maior encontro de estadistas no pós-guerra, o papel do Brasil começou a se alterar. De vilão ambiental, tornou-se um interlocutor importante e passou a ser visto como ator decisivo nos acordos sobre o aquecimento global. A Amazônia tornou-se para o mundo um espaço a ser preservado, respeitada a autonomia nacional sobre suas terras. Países como a Noruega acharam que se a Amazônia era importante para a sobrevivência de todos, deveriam investir nela em projetos sustentáveis. E fizeram isso.
Você mesmo esteve na Noruega, embora a tenha confundido com a Suécia.

A grande crise iniciada em 2008 e fatos posteriores, como a eleição de Donald Trump nos Estados Unidos, enfraqueceram mas não destruíram a disposição planetária de contribuir com a Amazônia.


Sua decisão coloca em risco grande parte do trabalho feito por todos nós para recolocar o Brasil no âmbito dos países comprometidos com a preservação do planeta. E de uma certa maneira, despreza os potenciais investimentos em projetos sustentáveis em nome de uma saída que me parece anacrônica e predatória.

Tudo bem, Temer, você dirá que serão respeitadas as regras ambientais para a mineração. Mas quem percorre Minas Gerais e outros pontos do país constata rapidamente que elas não são respeitadas no Sudeste, onde teoricamente, concentrase o grosso da fiscalização.

No segundo decreto, você criou um comitê ligado à chefia da Casa Civil para monitorar as atividades de mineração nessa faixa que engloba parte do Amapá e do Pará. Não consigo me convencer disso. O chefe da Civil, Eliseu Padilha, é investigado por crimes ambientais no Mato Grosso e no Rio Grande do Sul. E as acusações são amplas, vão de desmatamento a construção de pistas de pouso clandestinas. Pouca gente sabe disso. Mas está disponível na internet e no próprio Supremo.

Além de arruinar o trabalho de construção da imagem nacional, o governo nos propõe uma fórmula de controle na qual a raposa toma conta do galinheiro. O namoro do PMDB com as riquezas naturais da Amazônia vem de longe. Romero Jucá é o mais destacado parlamentar buscando fórmulas para regulamentar a mineração nas terras indígenas.

Nesse momento, Temer, você está cedendo às piores influências no manejo da Amazônia. Se fosse simplesmente um opositor, talvez pudesse me alegrar com essa decisão. Antes de ser opositor, sou brasileiro e lamento ver o Brasil caindo de novo naquele desprezo internacional que sentimos em Haia, no fim da década de 1980. É uma ilusão você pensar que tudo dará certo. Até mesmo Padilha e Jucá, que devem estar comemorando, não percebem que estão atraindo um furacão contra eles. Deveriam ser mais discretos, mas a aposta é de levar tudo porque aqui não se pune ninguém.

No momento em que publico este artigo, estou tentando entrar na reserva, que não tem acesso fácil. O argumento de que garimpeiros clandestinos estão por lá não justifica esta abertura às grandes empresas. Aliás, Temer, existe uma possibilidade de você estar se deixando execrar inutilmente. As empresas que você quer atrair também estão no mundo e devem sofrer pesadas campanhas em seus países de origem.

Não me importa que você confunda Noruega com Suécia, Paraguai com Portugal, ou mesmo reviva a União Soviética. O essencial é não confundir a Amazônia com Goiás, onde tantas terras foram passadas a líderes do PMDB. É um lugar tão complexo, capaz de sepultar não apenas os sonhos pioneiros como o de Henry Ford, mas também as grandes trapaças.

Sucuri de silício

Tudo se perverteu. A política, a democracia, o conceito de verdade (acrescida do prefixo pós), o debate público, a própria ideia de mercado foi alterada pela nova tecnologia (“máquinas engolfando a humanidade feito uma sucuri de silício”, na imagem forte de Eugênio Bucci), que também pôs em questão os partidos políticos, os sindicatos e a imprensa como mediadores entre o cidadão e a política.
O próprio homem moldado pelos ideais da Ilustração e pela crença no progresso sofreu espantosas alterações regressivas depois que o espírito científico rompeu os laços entre sujeito e objeto, corpo e espírito, os laços que criam os valores humanos

Os 513 partidos

Estamos no início de 2019. Após uma acirrada disputa eleitoral, o presidente eleito começa a se movimentar para construir maioria na Câmara dos Deputados. Pouco mais de um ano antes, o Congresso havia aprovado a reforma política instituindo, entre outras mudanças, o distritão. Pela nova regra, foram eleitos os deputados mais votados em cada estado. São agora mais do que nunca, 513 “reis do voto”.

E começam os problemas. O presidente eleito tem uma agenda de reformas, mas precisa do Congresso para conseguir levar adiante o seu projeto de governo. Na solidão do seu gabinete, ele se lembra do tempo de como era “mais fácil” a relação Executivo-Legislativo.

O sistema eleitoral era o proporcional, aquele no qual os “famigerados partidos políticos” eram atores importantes na coordenação do jogo eleitoral, bem como do processo de construção de maiorias no Congresso. Era um paraíso? Longe disso.

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Com 28 agremiações com representação na Câmara, uma das mais altas fragmentações do planeta, o presidente e sua equipe tinham que fazer um enorme esforço de coordenação, para entender e atender às demandas das lideranças. Estas, por sua vez, tinham outro grande esforço de negociar a fidelidade dos deputados.

Ao Executivo cabia negociar. Uma ponte aqui, um cargo acolá, emendas para o setor de atuação do deputado, ou mesmo conversas em que se identificavam parlamentares que, por afinidade com o projeto, tendiam a votar com o governo; enfim, havia de tudo.

Entre trocas e barganhas legitimamente esperadas na negociação política até o escancarado fisiologismo, os presidentes, desde 1988, tocaram o barco, num percurso de grandes e tortuosas turbulências, como sabemos.

Mas e em 2019? A reforma vendida como possibilidade de salvação do sistema político, lá em 2017, cobra o seu preço. Com voto centrado no candidato, agora praticamente o único responsável por sua eleição nos distritos, cada parlamentar eleito tenderá a agir como um partido.

Qual incentivo um deputado com um milhão ou mais de votos, por exemplo, terá para seguir a orientação partidária, numa votação qualquer, quando o partido não lhe deu um voto sequer nas ruas?

O sistema proporcional, que dava incentivos à coordenação dos partidos na arena política, foi substituído por um modelo que pavimenta a ação individual dos deputados. Resumo, trocamos a desgastada e complexa relação Executivo versus 28 partidos pelo modelo Executivo versos 513 cabeças.

Na solidão do seu gabinete, o presidente eleito terá que direcionar recursos, cargos e mais o que tiver pela frente para negociar quase que individualmente com cada parlamentar. Não esqueçamos, o sistema presidencialista pressupõe construção de maiorias no Congresso para o governo funcionar.

O que os parlamentares estão prestes a votar, voltemos a setembro de 2017, aumentará o preço da barganha política do Congresso, ou melhor, de cada parlamentar eleito em 2018. Se já estava difícil governar com o presidencialismo de coalizão, tão mal compreendido, imagina governar num modelo com 513 indivíduos no comando do barco?

Gente fora do mapa

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A verdade é 'fake'

Alarmam-se as redes com os processos que se avizinham a partir das notícias falsas, dos perfis inventados, das injúrias e das calúnias, dos conteúdos perigosos e mentirosos, que se espalham feito epidemia no universo virtual. Cálculos falam que 73% do conteúdo internáutico é fake! Facebook convoca legiões de caçadores de mentiras e falsos conteúdos, Google investe fortunas para tentar filtrar o esgoto de imagens, textos e aplicativos, que poluem inocentes smartphones nas mãos de crianças, idosos com nudes arrepiantes, esquartejamento ao vivo. Alarmes soam com ameaças nucleares, e golpes desviam bilhões de dólares de transações online. Prostituem-se crianças, ensina-se a suicidar ou a fazerem-se bombas.

O presidente americano chama todos os meios de comunicação de "fake news". Confusos, americanos desconfiam de que Alzheimer é contagioso e perguntam se Trump é uma torre ou um cone, se ele é alaranjado ou se tudo é fake.

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Acreditar em quem ou no que é o grande desafio. Abrir um e-mail, entrar no grupo de whats do trabalho, ficar quietinho, responder ou deletar? Tudo virou um risco, uma ameaça.

Cheio de likes e haters, prós e antis, o equilíbrio está tonto. Não se pode discordar ou frustrar sob o risco de perder seguidores. Amigos? Bem, a falta de tempo anda separando, e não há conexão que compense.

Verdade seja dita: a própria verdade está em desuso. Precisamos checar primeiramente se não é pegadinha, zoação ou sacanagem. Fala sério! E lá vem gozação.

Meme pra cá e pra lá, trolação. Apita o whats, é um fulano esquiando; depois, convite para velório da tia da ex, a turma do trabalho no happy, o parça no estádio com uma gata. Tudo ao mesmo tempo, correndo o risco de dar pêsames ao chefe no boteco, um like para ex no velório.

Sentimento? Fake. Importância de tudo isso: nenhuma! Na verdade, vai tudo ser deletado, lixo. Melhorar a memória para sacanear alguém.

A vida tem sido uma grande mentira. Políticos mentem; novelas são mentiras; séries, ficções, amores jurados um dia serão esquecidos, substituídos ou eternizados em ódios doentios. Somos fakes. Fingimos, representamos, traímos, chantageamos, falamos o que querem ouvir.

Verdade é igual a CPF: cada um tem o seu, que é sempre diferente do dos outros. É pessoal, intransferível, pode ser falsificado, ficar sujo, negativado, mas é pessoal. Conta sua história, seus dramas, seus valores e suas conquistas. Pode falir, orgulhar, resgatar. O problema é que precisamos viver em CNPJ. Diferentes verdades para se chegar a uma só verdade. Diferentes histórias buscando uma em comum. Muitas versões, mas somente um fato. Aí nós perdemos: cada qual buscando suas diferenças, distanciando-se do aconchego, da paz, do milagre, que é a semente que nos faz "comuns"!

Foro privilegiado completará 100 dias na gaveta

O Brasil sempre lidou de forma engenhosa com o problema do foro privilegiado. A questão é discutida exaustivamente há anos. Exausto, o país nunca resolve nada. De repente, surgiu no Supremo Tribunal Federal o esboço de uma saída. Mas o ministro Alexandre de Moraes encarcerou numa gaveta o processo que pode limitar o direito ao foro, restringindo o privilégio aos crimes cometidos por congressistas e autoridades durante e em razão do exercício da função pública. Na próxima sexta-feira, em plena Semana da Pátria, o aprisionamento dos autos completará 100 dias.

A sessão em que Moraes pediu mais tempo para analisar o processo foi interrompida quando o placar estava 4 a zero a favor da limitação do foro. Rosa Weber, Marco Aurélio Mello e Cármen Lúcia acompanharam a posição do relator Luís Roberto Barroso, favorável à regra restritiva. Num colegiado de 11 ministros, faltavam dois votos para atingir a maioria que remeteria para a primeira instância do Judiciário o grosso dos processos criminais que tramitam no Supremo à espera de julgamentos que nunca chegam.

Não há ilegalidade na atitude de Moraes. Pedidos de vista estão previstos no regimento do Supremo. Mas as circunstâncias sujeitam o ministro à maledicência. Indicado por Michel Temer para ocupar a cadeira que foi de Teori Zavaschi no Supremo, Moraes protege com seu gesto pelo menos oito ministros do atual governo que respondem a inquéritos na Lava Jato. Entre eles Eliseu Padilha (Casa Civil) e Moreira Franco (Secretaria-Geral da Presidência), os dois auxiliares mais próximos do presidente.

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De acordo com estatísticas mencionadas pelo relator Luís Barroso, há na Suprema Corte cerca de 500 processos criminais contra detentores de foro especial. ''O prazo médio para recebimento de uma denúncia pelo STF é de 565 dias”, disse o ministro. No caso de Fernando Collor, a demora foi de 732 dias. “Um juiz de 1º grau recebe uma denúncia, como regra, em menos de uma semana, porque o procedimento é muito mais simples”, acrescentou Barroso. Num processo contra Aldemir Bendini, ex-presidente do Banco do Brasil e da Petrobas, Sergio Moro recebeu a denúncia em dois dias.

Nas palavras de Barroso, o atual sistema ''é feito para não funcionar'' e se tornou uma ''perversão da Justiça''. O ministro realçou a necessidade de revisão da encrenca. “Há problemas associados à morosidade, à impunidade e à impropriedade de uma Suprema Corte ocupar-se como primeira instância de centenas de processos criminais. Não é assim em parte alguma do mundo democrático.''

Suprema ironia: na semana passada, o próprio Barroso autorizou a abertura de mais um inquérito contra o pluri-investigado senador Renan Calheiros (PMDB-AL). Com isso, ajudou a consolidar a migração de Renan da categoria de anomalia para o estágio de aberração jurídica. Além de ser réu numa ação penal, o senador ocupa o topo do ranking dos encrencados no Supremo. Coleciona 18 inquéritos, 13 dos quais relacionados à Lava Jato.

Afora Renan e os ministros de Temer, a investigação do maior escândalo de corrupção já varejado no Brasil empurrou para os escaninhos do Supremo, por enquanto, 64 deputados e 28 senadores. A maioria compõe o bloco que dá sustentação legislativa ao governo que Alexandre de Moraes já serviu como ministro da Justiça. A coincidência dá asas à tese de que o processo sobre o foro se encontra preso numa gaveta para livrar os políticos sob suspeição dos rigores das sentenças de juízes como Sergio Moro, de Curitiba, e Marcelo Bretas, do Rio de Janeiro. O falatório decerto é injusto.

Os tristes decaminhos

Quanto tempo, meu Deus, vai-se passar ainda até que um homem, rodando por essas estradas brasileiras de conservação tão precária, mas assim mesmo tão lindas, possa-se dizer, como se diz um americano, um alemão, um russo, um holandês, um canadense, um sueco – e pelo menos isto: não há fome? Até quando essas faces terrosas, esses olhos opacos, esses braços finos, essa pasmaceira filha de uma longa indigência sem remédio? Quando virá o dia em que, ao se parar num botequim para um café, não nos chegará de mão estendida uma criança imunda e endefluxada a nos exigir uma esmola com um duro olhar adulto? Ou um idiota de boca torta, os braços ainda saudosos da posição fetal, para nos dizer de sua angústia em sons afásicos, fazendo-nos olhar para outro lado como se não o estivéssemos vendo? Sim, porque o que é que adianta ver?


São seres humanos, patrícios nossos, que tiveram a desgraça de ser concebidos na miséria, de semente já enfraquecida por endemias e carências – e isto numa terra vasta e generosa, em que se plantando, tudo dá. Ficam parados à porta dos casebres e das tendinhas, ou estão sempre em marcha ao longo das rodovias, transportando suas avitaminoses, seus vermes intestinais, sua dor de dentes crônica, para ir trabalhar num roçado cinco léguas adiante. E à noitinha voltam, silenciosos e apressados, pelas mesmas estradas, para o prato sem proteínas que lhes serve urna velha mulher jovem, a quem faltam os incisivos, enquanto no chão de terra batida choraminga sobre os próprios excrementos o último fruto de sua triste condição. Porque, sim! Constituem, em sua sórdida pobreza, um casal: a célula da criação; um casal que, um amparado no outro, segue em frente, na direção onde o levam a vida e a necessidade, repartindo o trabalho, a comida, o sonho. Sonho? – que sonho? Um casal capaz de criar, produzir, vender, ganhar, ter uma casinha com uma cama, uma mesa, um fogão a lenha e uma privada. Capaz de comprar uma merendeira para a filhinha que vai à escola. Escola? – que esperança!

Não, não são seres humanos. São bichos. É um verme humano, uma lombriga de calça e suspensórios, um ascarídeo que leva outro dentro. Cobrem o teto e a cabeça com palha, fumam palha, dormem sobre palha, são palha eles próprios – palha seca que se desfaz à simples fricção dos dedos.

Por que me apiedo deles? O que posso eu fazer por eles quando acima, muito acima de mim, muito acima do meu país, erguem-se forças cujo fragílimo equilíbrio reside em sua própria capacidade de destruição; forças cuja agressividade já independe, porque ultrapassaram todos os limites do cognoscível, forças que se podem desencadear num átimo por excesso de tensão?

No entanto, corta-me o peito vê-los em exposição como figuras de barro de um mau artista folclórico, acocorados onde os larga sua imemorial fadiga, pitando e cuspindo a saliva grossa do fumo de rolo, portadores, quase sempre, de conjuntivite crônica, às vezes rindo um riso matreiro com as gengivas desdentadas. Matreiro, por quê? Que espécie de inteligência podem ter senão a do instinto aguçado pela necessidade de sobrevivência, que lhes faz preciso o machado, rápida a foice, fulminante a faca que mata para não morrer?

São patrícios nossos, que não têm voz e não têm vez. Em suas vísceras carcomidas se gera lentamente o câncer, alimentado, também, por uma progressiva indiferença. Que adianta lutar? A única coisa a fazer é o gesto de cortar ou ceifar, levar a mão à boca e virar de um golpe a pinga ruim, onde fermenta a cólera assassina, deslocar os ossos da companheira esquálida num breve ato de prazer animal. Prazer? – que prazer? E conformar-se ao ver-lhe o ventre, já inchado de farinha, inchar mais, inchar mais, até, numa primeira lua nova, expelir um feto natimorto, ou destinado a morrer no primeiro ano de vida, quando não vinga por milagre para repetir, anos mais tarde, aquela mesma miserável mímica.

Que tristeza! E aí estão eles, pelas estradas do Brasil adentro, pobres imagens de cerâmica barata toscamente esculpidas. Às vezes, à porta do barraco, ponteiam sem emoção sons de viola e cantam toadas trêmulas, que falam da mesmice de sua vida, ou amores trágicos e valentias justiceiras, tendo como únicos ouvintes uma lua, no céu, um mocho num galho, uma aranha em sua teia, um vira-lata amigo, com as costelas à mostra.

Um dia, amanhecem mortos. Morreram de nó na tripa, transnominação eufemística para o câncer, a ruptura de hérnia, o vôlvulo, a úlcera gástrica, a cirrose hepática. E são enterrados em cova rasa, no cemiteriozinho mais próximo: primeira e última generosidade do dono de terra para quem trabalham; senão, é abrir um buraco por ali mesmo e jogar o defunto dentro. Deixam para trás uma nova meretriz, que vende a pele frouxa e os seios deflatados para sustentar a prole. São gente sem história.

Meu amor, acorda, não me deixes, só, nesta sala noturna, a escrever estas tristezas. Não me deixes mais recordar esses casebres pobres de beira-estrada onde dormem e morrem irmãos meus em quem se descoloriu o sangue. Eu os estou vendo agora, dentro da noite negra a mugir inaudivelmente sua indiferença, os magros corpos magoados pela tábua dura das enxergas. Eles não sabem por que vieram, não sabem por que permanecem, não sabem para onde vão. Eles só sabem de uma coisa: ninguém se lembra deles, e eu também não quero lembrar mais. Vem, amiga, me serve um uísque, dose dupla, muito gelo. E põe depressa um disco dos Beatles na vitrola.
Vinícius de Moraes (Jornal do Brasil, 31/12/1969)

domingo, 3 de setembro de 2017

Oração pela pátria

Pai nosso que estás no Céu, santificado seja o vosso nome!

Pedimos suas bênçãos, Senhor, na semana em que nosso país comemora seus 517 anos de existência, abrigando uma população de 207,6 milhões de habitantes e vivendo um dos momentos de maior aflição de sua trajetória política. Eis a nossa prece.

É bem verdade, Senhor, que habitamos um território belo e imenso, do tamanho de um continente, que possui a maior reserva de água doce do mundo, 12% da quantidade existente nos 193 países do nosso planeta, e com biomas terrestres – Mata Atlântica, Amazônia, Cerrado, Caatinga e Campos do Sul – abrigando 20% das espécies do planeta. Em nosso exuberante torrão, até desastres naturais há, sem, porém, o poder destruidor de tufões, terremotos e furacões que devastam nações poderosas e maltratam populações.

Pero Vaz de Caminha certamente tinha razão, Senhor, na carta escrita ao rei Dom Manuel em 1º de maio de 1500, ao descrever que a terra descoberta pelo comandante português Pedro Álvares Cabral, em 22 de abril, “em tal maneira é graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo, por bem das águas que tem”.
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Agradecemos, Senhor, pela extrema generosidade com que nos agraciou, dando-nos terra tão rica, onde se plasmou a índole de uma gente singular, assentada em um “processo de equilíbrio de antagonismos”, como ensina o mestre Gilberto Freyre: as culturas europeia, indígena, africana; o católico e o herege; o jesuíta e o fazendeiro; o bandeirante e o senhor de engenho; a paulista e o emboaba; o pernambucano e o mascate; o bacharel e o analfabeto; o senhor e o escravo”.

Tal convivência antagônica formou um povo cordial, alegre, trabalhador, hospitaleiro, afeito à paz, acessível, mesmo que também carregue traços negativos, como bem ilustra Afonso Celso em seu clássico Por que me Ufano do meu País”: falta de iniciativa, falta de decisão, falta de firmeza, pouco diligente”. Seria esse o outro lado da profecia de Vaz de Caminha, quando garantiu que, na nova terra, “em se plantando tudo dá?”

Venha a nós o vosso Reino!

E que venha logo, Senhor. Antes que a matança nas ruas alcance níveis incontroláveis. E antes que a divisão entre “nós e eles” torne irreversível a desarmonia social. É o que ansiosamente esperamos. Por aqui, baixou um clima de guerra aberta. Irmãos contra irmãos. Tiros por todos os lados. A violência urbana assola bairros, ruas, vielas das grandes e médias cidades. Os atentados terroristas no mundo, nos primeiros 5 meses deste ano, registram um número menor de homicídios do que os ocorridos em nossas plagas em apenas 3 semanas de 2015, quando foram assassinadas 3,4 mil pessoas, uma morte a cada 9 minutos.

O Rio de Janeiro, nosso mais conhecido cartão postal, virou terra de ninguém. Semana passada, mataram o 100º policial militar somente este ano.

O apartheid social se alarga na onda de um discurso propagandeado por um partido político, que há três décadas tenta incutir na alma da população o divisionismo entre bons e maus, bandidos e mocinhos, nós e eles, elites e plebe. A velha luta de classes aposentou suas armas após a queda do muro de Berlim, em 1989, e o fim da guerra fria, mas por aqui a estrela do comunismo continua a brilhar no peito de militantes vestidos de vermelho, que pregam a “revolução”, a derrocada das elites e a morte do liberalismo, ao qual adicionam o prefixo “neo”.

Não somos uma sociedade igualitária, Senhor. Há enorme distância entre pobres e ricos, privilegiados e oprimidos, donde se pode até a compreender o escopo de instituições que desfraldam as bandeiras da igualdade, da fraternidade e da justiça para todos. Só não é possível defender o ideário dos direitos humanos usando as armas da intolerância e da condenação contra quem ousa discordar de métodos como invasão de propriedades, depredação de patrimônios, incitação à violência.

Seja feita a vossa vontade assim na terra como no céu.

Que a vossa vontade, Senhor, chegue até nós. Rogamos que a paz do céu baixe sobre nosso território, elevando os menos favorecidos a degraus superiores e dando aos habitantes do alto da pirâmide social nobreza de espírito para lutar pelo fim das desigualdades e enxugar a lágrima dos aflitos.

Nossos pobres, Senhor, chegam a 30 milhões de pessoas. E mais de 10 milhões de brasileiros vivem em condições de extrema miséria, sem condições de comprar comida em quantidades necessárias para sua sobrevivência. A milhares de brasileiros falta pão sobre a mesa, sobretudo nas periferias das metrópoles, onde populações carentes se aboletam em favelas, palafitas e casas de papelão.

O pão nosso de cada dia nos daí hoje. Farto para uns e migalhas para outros.

Rogamos, Senhor, que injete na consciência dos nossos homens públicos o dever sagrado de cumprir a missão de não trair o compromisso com aqueles que os conduziram às suas funções. Impõe-se a eles o dever de bem representar o povo. Que não deixem faltar pão sobre a mesa dos famintos. Que dêem qualidade aos serviços públicos. Que não permitam aumentos exagerados de impostos.

Perdoai as nossas ofensas. Assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido.

Pedimos perdão, Senhor, para os pecadilhos do cotidiano, as ofensas comuns que se revelam em deselegância, gestos mal educados, mentirinhas e falsas versões. Não podemos pedir perdão, Senhor, para atos que signifiquem assalto à coisa pública, praga que se expande sob a maquinação da burocracia estatal, de políticos e círculos de negócios. Máfias e assaltantes do Estado, formando milícias de um poder invisível, precisam prestar contas à Justiça, antes de receber o perdão divino.

E não nos deixei cair em tentação, mas livrai-nos do mal.

Nessa Semana da Pátria, suplicamos por ajuda, Senhor, para construir a Terra dos nossos sonhos, onde gerações viverão em convivência harmoniosa, o ponto de encontro entre grupos e classes, o habitat do bem-estar coletivo, o terreno onde florescem sementes do Produto Nacional Bruto da Felicidade. Dai-nos força, Senhor, para nos livrar dos males que afligem nossa bela, porém sofrida, Nação.

Ajudai-nos, Senhor, a subir ao altar do Bem.

Amém!

Democracia e 'democracias'


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O importante não é saber se é uma democracia, mas de que tipo de sistema estamos falamos. O essencial é que exista o Estado de Direito, instituições fortes que garantam as liberdades. É o que chamo de democracia liberal, e para mim é a única que pode ser descrita como um sistema de plenos direitos. As outras estão governadas por um partido, por um líder

Reflexões sobre a reforma política

Em artigo recente (A indulgência perpétua das castas prostitutas, Estado, 23/8, A2), José Nêumanne Pinto aponta a bacanal dos poderosos instalados nos palácios. O jornalista evidencia os absurdos do voto reduzido à compra e venda, sob o comando de velhos caciques e de outros mais jovens, nada cândidos. O termo “candidato” vem da velha Roma. Ali, os pretendentes aos cargos envergavam vestes alvas para mostrar almas limpas. Não apenas na política havia tal exigência. O futuro esposo usava vestes brancas. Na peça Casina, de Plauto, o noivo é dito candidatus. No vocabulário romano, a candidez pública entra numa rica constelação de significados éticos. Ela sintetiza os vocábulos ao redor de honos, homenagem devida ao respeito por alguém, de honestas, que, em companhia de auctoritas e gravitas, distinguem os dirigentes. Os eleitores deveriam apoiar quem possuía autoridade de comportamento, garantindo respeito ao Estado. Sem tais elementos, as leis não seriam obedecidas, desapareceria a fides publica. Hanna Arendt comenta: “Se você precisa gritar para que alguém deixe seu quarto, falta-lhe autoridade”. Ah, se ela ouvisse os impropérios dos nossos senadores e deputados! Um legislador deve exibir gravidade em palavras e atos. É semelhante universo semântico que recolhe o termo “candidato”.

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Deixemos a República de Roma, sigamos para Atenas, paradigma democrático. Diz Platão que cidade onde comanda o vulgo, fera de mil cabeças, cada um se comporta do jeito que lhe apraz, assume atitudes privadas e públicas violentas. A lei contra a hybris (o abuso do fraco pelo mais forte) perde sentido. A democracia licenciosa é “como um manto de muitas cores, matizado com toda espécie de tons. Embevecidas pela variedade do colorido, (...) muitas pessoas julgam essa forma de governo a mais bela”. Com o “direito” de todo cidadão obedecer apenas a si mesmo falece a democracia. A massa só acolhe elogios e os candidatos prometem obedecer os que se recusam a seguir as normas. Os disciplinados cometeriam a tolice de respeitar um texto desprovido de força armada. De pouco adianta, constata Platão, justiça rigorosa em palavras, mas ineficaz. O filósofo observa que muitos condenados pelos tribunais passeiam, incólumes, pelas ruas de Atenas. Se estivesse no Brasil, a experiência seria idêntica. No Congresso Nacional temos casos estarrecedores de impunidade. Políticos têm prerrogativas tirânicas. “Tirano é o governante que usa os bens dos governados como se fossem seus” (Jean Bodin). Os abusos oficiais se refletem nos hábitos particulares. Na democracia sem limites, como ninguém pode ter autoridade, o professor adula e tem medo dos alunos, os velhos imitam os jovens “a fim de não parecerem aborrecidos e autoritários” (República, 563a).

A paixão pelo ganho, no mundo oligárquico – forma social e política anterior à democracia –, narra Platão, se expande pela sociedade. Todos nela desejam o seu lote. Resulta acrescida a desigualdade de bens. Com a democracia vem a promessa de riqueza para todos, somada à igualdade e à liberdade para atingir os próprios alvos. Aproveitando a cobiça universal, o demagogo acena com cofres cheios em todo lar. A técnica do tirano e demagogo é a lisonja. Como o camaleão, ele muda a cor do discurso conforme a oportunidade e a plateia. O único colorido que lhe escapa, comenta Plutarco, é o branco (Como distinguir o adulador do amigo). O demagogo é o mais antigo cliente do marketing político.

Depois da brancura romana e da crítica à democracia, escutemos Norberto Bobbio. “No mercado político democrático o poder se conquista com votos, um dos modos de conquistar votos é comprá-los e um dos modos para se livrar das despesas é servir-se do poder conquistado para conseguir benefícios mesmo pecuniários dos que possam receber vantagens de semelhante poder. (…) Considerada a arena política como uma forma de mercado, onde tudo é mercadoria, ou coisa comprável e vendível, o político se apresenta num momento como comprador (do voto), num segundo momento como vendedor (dos recursos públicos dos quais, graças aos votos, se tornou potencial dispensador)”. (Cf. “Quale il Rimedio?” In L’Utopia Capovolta, 1990).

É compreensível a indignação de Nêumanne Pinto. Eu mesmo já publiquei algo na sua linha. Ao me levantar contra abusos do Parlamento, escrevi na Folha de S.Paulo o artigo intitulado O prostíbulo risonho. Tive aborrecimentos, porque o “centrão” me perseguiu sob Roberto Cardoso Alves, o político que batizou a troca fisiológica entre Legislativo e Executivo: “É dando que se recebe”. O mercado político das pulgas entrava em seus momentos de glória, prenunciando estadistas como Eduardo Cunha.

Mas qual elo existe entre a alvura do político romano, a policromia democrática em Platão e o mercado eleitoral descrito por Norberto Bobbio? No palimpsesto trazido pela história política, uma constante: todo regime social ou de Estado se corrompe. Nenhuma reforma pode mudar o desastre. E tal coisa não é um truísmo, mas destino a ser encarado pelos que respeitam a liberdade e o direito. Os gênios que citamos buscaram remédios para a pavorosa Fortuna. Após a democracia ateniense, veio o duro imperialismo macedônico. Depois da República romana, chegou a ditadura corrupta de Cesar. O nazismo sucedeu à República de Weimar. O culto a Stalin brotou após a revolução de 1917. Lição de prudência encontra-se em Maquiavel. Na Carta a Vetori, ele confessa abandonar a mesquinhez cotidiana, os interesses dos homens comuns. Bem vestido, eis o autor do Príncipe em conversa com os pensadores antigos. Pena que na política brasileira não ocorram tais diálogos. No Congresso, a leitura se restringe ao Diário Oficial, onde são anunciados os pagamentos pelos votos vendidos e comprados. Só nos restou a torpeza das enlameadas e obscuras reformas políticas, falsas como as moedas de R$ 3.

Gente fora do mapa

Refugiados da etnia Rohingya, fugindo da violência em Myanmar 

Empregos capengas

A queda do desemprego, comemorada pelo governo e por diversos economistas, precisa ser analisada com lupa. Ela é sustentada, sobretudo, pela necessidade dos brasileiros de manter as contas em dia. Com isso, muitos se submetem a condições de trabalho precárias, sem qualquer segurança ou estabilidade. Os bicos têm garantido a renda de diversas famílias e proporcionado uma falsa sensação de melhora da situação da economia do país. Não podemos ignorar o fato, por exemplo, de milhares de servidores públicos e aposentados que não recebem em dia.

Vale lembrar que, sem carteira assinada, o trabalhador perde a possibilidade de receber benefícios do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) em caso de acidente de trabalho ou invalidez. Além disso, o recebimento do seguro-desemprego fica inviabilizado. Muita gente resolveu sair da zona de conforto e tentar empreender. Mas ainda é cedo para dizer se essa mudança do perfil do mercado de trabalho se concretizará. No fim das contas, a abertura de vagas formais só ocorrerá a partir da retomada dos investimentos. O pacote de concessões tem potencial para alavancar a economia, gerar emprego e renda. Entretanto, ainda engatinha.

E esse processo depende exclusivamente de dois fatores: a estabilidade política e a econômica. O governo, mesmo abatido pela crise, tem dado demonstrações de força para resolver questões de curto prazo. Deve alterar as metas fiscais de 2017 e 2018, além de aprovar parte do saco de maldades para reduzir despesas com servidores. Entretanto, a reforma da Previdência, essencial para que o país reequilibre as finanças públicas a longo prazo, continua engavetada. E a cada nova denúncia da Operação Lava-Jato, ganha mais força a tese de que a revisão das regras para concessão de benefícios do INSS terá de ser feita pelo próximo governo.

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A sucessão dos rombos fiscais, inclusive, ameaça o processo de queda de juros. O Comitê de Política Monetária (Copom) deve reduzir a taxa em um ponto percentual, para 8,25% ao ano, na reunião marcada para 5 e 6 de setembro. Entretanto, a equipe de Ilan Goldfajn tem sido alertada reservadamente para o risco de que a Selic tenha que voltar a subir caso o reequilíbrio nas contas públicas não passe de um protocolo de intenções.

Isso faria ruir qualquer possibilidade de recuperação econômica. O país continua a conviver com crise. O risco é de que se torne crônica e permanente. As próximas semanas tendem a ser agitadas, já que os servidores públicos prometeram ir para as ruas protestar contra a proposta de adiamento dos reajustes salariais acordados e aprovados no Congresso Nacional.

Os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que, no trimestre de maio a julho de 2017, havia 13,3 milhões de pessoas desocupadas no Brasil — uma redução de 722 mil em relação ao trimestre de fevereiro a abril. Naquela época, 14 milhões de brasileiros estavam desempregados. Em relação ao mesmo período do ano passado, o percentual de desocupados subiu 12,5%, um adicional de 1,5 milhão de pessoas fora da força de trabalho.

Apesar do aumento, a economista-chefe da Rosenberg Associados, Thaís Marzola Zara, avalia que, na margem, o movimento é benigno, ainda mais considerando que a taxa de participação atingiu 61,8%, recorde histórico. “Isso mostra que há muitas pessoas buscando trabalho. Assim, a queda na margem da taxa de desocupação decorre de genuíno aumento da população ocupada. Bom sinal para a recuperação da atividade econômica”, destaca.

Além disso, Thaís comenta que 190 mil pessoas foram adicionadas à força de trabalho. Os dados do IBGE apontam que esse movimento decorre do aumento dos empregados no setor privado sem carteira de trabalho assinada (+566 mil), empregadores (+422 mil), bem como empregados do setor público (+193 mil) e trabalhadores familiares auxiliares (+119 mil). “Revisamos nossa expectativa para a taxa de desocupação no terceiro trimestre do ano para 12,4%. No ano, nossa expectativa é de que a média da taxa de desocupação atinja 12,8%. Para 2018, a perspectiva é de continuidade da melhora, com a taxa rumando a 11,6% na média do ano”, diz.

Falta gente livre

 

Numa cultura em que os idealismos empedernidos fazem da mentira a forma de vida, o processo da verdade depende da existência de pessoas suficientemente agressivas e livres (‘descaradas’) para dizer a verdade
Peter Sloterdijk

Um banho de luz

A maldade não aumentou, continua a mesma, mas é a intensidade da iluminação que a faz mais soberba. Nunca se enxergou tão nitidamente sua existência.

O Sathya (Verdade) Baba (Santo Homen) explica num texto simples que a luz neste momento se abateu sobre a Terra como uma lâmpada de 100 W num quarto de despejo que contava apenas com uma de 20 W.

Antes a penumbra velava o pó, a sujeira, o mofo, as teias de aranhas, os cupins que agora aparecem com clareza.

De repente o cômodo se transformou em questionamento dos moradores que deixaram o assombro se acumular: “Como é que nunca desconfiei?”.

Os olhos acomodados à penumbra enxergam até os vampiros que antes pareciam pessoas comuns. Os maus cheiros mostram suas causas.

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A inundação de luz revela o que antes a falsidade escondia, as fachadas se derretem rapidamente, e os culpados não conseguem disfarçar mais suas traições.

Ficou mais fácil, com a luz, alcançar o entendimento de Deus, o funcionamento implacável de suas leis e compreender como a vida se organiza no reino dEle.

As ondas de luz que atingem o planeta deixam as pessoas mais tensas e depressivas do que nunca. São mais frequentes e persistentes nas pessoas as dores de cabeça, dos ossos e das articulações sem que os médicos consigam definir as origens, caindo assim na vala comum do estresse.

Isso porque as pessoas, para poder receber mais luz, precisam mudar, tanto no físico como no espírito. Precisam, segundo Sathya Baba, começar a limpeza interior, retirar o acúmulo de sujeira que não é mais admissível. Os velhos truques, os medos, as angústias precisam ser deixados para trás, a maior percepção impõe uma transformação.

Os médicos receitam antidepressivos para o paciente “incurável”. Entretanto, são essas sedações que não permitem aproveitar o momento que a humanidade vive para evoluir. São os tormentos tão necessários para a mudança quanto a água para satisfazer a sede. A vida oferece o necessário, a dor possibilita os avanços, força a encontrar o caminho.

Estamos vivendo provavelmente a melhor época da humanidade de todos os tempos, do avanço equivalente a milhares de anos em poucos, da superação dos limites do egoísmo.

A verdade aparece e sinaliza que a hora de arregaçar as mangas, de se dedicar à purificação de nossa vida, chegou para ficar. Até o despejo reclama por asseio.

A consciência da humanidade começou a despertar em massa, numa forma jamais imaginada.

Ler bons livros é uma das fórmulas. Livrar-se da ignorância, do medo e do egoísmo, especialmente dos pensamentos negativos, da falsidade, da dissimulação, e ficar puramente fiéis à verdade. Os erros do passado deverão ser pagos para seguir adiante.

A ciência sabe que algo de imenso e diferente está acontecendo, impelido por forças superiores, e que, para seguir adiante, será preciso mudar nossa consciência.

O que valeu antes não vale mais, as velhas moedas estão saindo de circulação.

As imundícies não serão mais aceitas e toleráveis. Uma humanidade nova está por se estabelecer, e outra em breve se distanciará, segundo o Baba indiano.

A política brasileira espelha este momento com a queda dos biombos, das cortinas que encobriam os malfeitos, a exploração. A luz está cada vez mais forte, secando o mal.

Derretendo os impérios que se fartaram da dor, das injustiças, das maldades.

Na realidade, se nem tudo o que o iluminado Sathya enxerga acontecerá de imediato, resta acreditar que estamos na direção certa para chegar lá.

Fatos satânicos

Há uma semana o noticiário político do país se ocupa em anunciar que até um dia antes do feriado da Independência o Procurador-Geral da República, Rodrigo Janot, vai apresentar nova denúncia contra o presidente Michel Temer. O fato é, de fato, só o anúncio de um provável fato. Mas o uso de um sucedido não acontecido tem sido suficiente para criar fatos.

Temer pode vir a ser denunciado novamente e tudo indica que será. Pode ser culpado, virar réu, ser condenado. Não é disso que se trata.

A questão central é que os fatos deveriam determinar o processo, e não a conveniência do denunciante – no caso, Rodrigo Janot, cujo mandato expira em 14 dias corridos. E que, acelerado contra o tempo, empenha-se em divulgar que tem em mãos fatos futuros. Dá comida a oportunistas e a incautos, alimentando-os com a promessa de fatos que embasam todo tipo de especulação.

Enche a pança de quem lucra com isso.

Não é a primeira nem será a última vez que isso ocorre. Não raro, com fatos mais chochos do que a expectativa deles.

Assim foi com “a delação do fim do mundo” de Marcelo Odebrecht e seus 72 asseclas, que abalou mais o universo antes do que depois das oitivas. Também com a do ex-ministro Antonio Palocci, que nem chegou a acontecer, mas que revelaria fatos arrasadores, capazes de provocar hecatombe no sistema financeiro. Ou mesmo com a primeira denúncia contra Temer, cujos fatos, ainda que graves, ficaram aquém do frisson inicial - e muitos deles sequer foram confirmados.

Sabedor de que para ganhar apoio é preciso construir audiências, Janot incentiva o clima de suspense. Uns e outros vazamentos de “fontes da PGR” garantem isso.

Depois de ganhar pontos com a denúncia contra Temer e perdê-los parcialmente com o descalabro da liberdade total concedida aos irmãos Batista, o procurador-geral tem pouco tempo para angariar aplausos. Talvez por isso, busca obtê-los escancarando a opção por um lado. Pelo menos é o que parece. E se não é isso, não deveria deixar parecer que é.

Além da segunda denúncia anunciada contra Temer, sob medida para a apoteose do adeus, Janot não abrirá procedimentos de apuração sobre a dinheirama que Joesley Batista disse ter desviado para o PT, para o ex-presidente Lula e sua pupila Dilma Rousseff. Deixará tudo na conta do ex-ministro Guido Mantega, que já está mexendo pauzinhos para contar pelo menos parte do que sabe, se livrar da cadeia provisória e de processos futuros.

Dentro da ótica de saída do PGR, somando fatos com não fatos e a criação de fatos, tem-se que depois de quase 14 anos de apropriação do Estado, de corrupção institucionalizada em todas as empresas públicas, obras, fundos de pensão e investimentos, quem chefiava tudo era o PMDB do vice de Dilma.

Mas, da mesma forma que o ex execra o juiz Sérgio Moro, Temer, para a alegria de Janot, rendeu-se ao exercício da demonização do acusador. Jogou fora a chance de mostrar a diferença entre a ocorrência real, como é o caso de Lula – investigado em cinco processos, julgado e condenado em um deles – e uma acusação ainda não consumada. Provavelmente porque, assim como Lula, não tem como soltar o rabo.

Ainda que flor malcheirosa, com contas a prestar à Justiça, não dá para imputar a um vice de um partido coadjuvante a culpa de todos os males. No arranjo com o PT, o PMDB de Temer deu guarita a vários capetas dele e do parceiro, mas não era ele quem dominava o inferno. Lambuçou-se com as benesses e serviu de esconderijo para o diabo.

sábado, 2 de setembro de 2017

Comemoração incompleta

Daqui a cinco anos, o Brasil ingressará no terceiro centenário de sua história como país independente. Neste 7 de setembro, aos 195 anos de nossa independência, é possível comemorar o que nossos antepassados conseguiram.

Atravessamos quase 200 anos consolidando um imenso território soberano e unificado por redes de transporte, de comunicações, de distribuição de energia, a economia brasileira está entre as maiores do mundo no valor do produto, passamos de 200 milhões de habitantes. Não há dúvida de que temos que comemorar os primeiros dois séculos.

Mas se, no lugar de olharmos para a história, olharmos ao redor, a festa perde seu brilho. Comemoramos um elevado PIB, o oitavo do mundo, mas 84º por habitante, por causa de nossa baixa produtividade.

Igualmente grave, nossa economia se concentra em bens agrícolas e minerais ou indústrias tradicionais, porque somos um país de baixa capacidade de inovação.

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Do ponto de vista social, carregamos a vergonha de sermos campeões em concentração de renda, temos formidáveis ilhas de riqueza e um trágico mar de pobreza.

Chegamos ao nosso terceiro século divididos tão brutalmente que podemos nos considerar um sistema de apartação, um país onde a população está dividida e separada por “mediterrâneos invisíveis” intransponíveis.

Somos um país integrado fisicamente e desintegrado socialmente. Por isso, somos hoje, em parte, campeões de violência urbana com mais de cem mil mortos por ano, 50 mil assassinatos e 45 mil vitimados por acidentes de trânsito.

Na política, apesar de comemorarmos o aniversário com um sistema democrático e instituições funcionando, em nenhum outro momento tivemos uma classe política tão desacreditada.

As promessas foram descumpridas, a corrupção se alastrou, os partidos se desfizeram, as finanças públicas foram quebradas, as estatais arrombadas, as corporações dividiram o país em republiquetas sem sentimento nacional.

A sensação é de que o país entra no seu terceiro século desagregando-se, sem coesão social, sem rumo histórico.

O mal-estar se explica por muitas causas, mas certamente a principal está no descaso com a educação de nossa população, desde a primeira infância. Chegamos ao nosso terceiro século com 13 milhões de compatriotas adultos incapazes de reconhecer a própria bandeira da República, por não saberem ler o lema “Ordem e Progresso”.

Além destes, segundo o IBGE, são quase 28 milhões de adultos analfabetos funcionais, apenas um pequeno número de jovens recebe formação necessária para construir a economia e a sociedade do conhecimento que vai caracterizar o século adiante.

Passados dois séculos, ainda somos um país com baixíssimo grau de instrução e com abismal desigualdade no acesso à educação conforme a renda da família.

E não seria difícil fazer com que, bem antes do quarto século, o Brasil conseguisse ser um país com educação de qualidade para todos: os filhos dos mais pobres em escolas com a mesma qualidade dos filhos dos mais ricos; uma sociedade que não dispensaria um único talento intelectual de sua população. Sem isso, certamente não teremos o que comemorar quando o quarto centenário chegar.

Erros e acertos

Certas filosofias orientais, de cunho religioso ou não, incentivam a meditação. Outras, incluindo a tradição cristã, valorizam o recolhimento para pensar, e até propõem o exame de consciência.

Correntes leigas de pensamento reconhecem a importância de uma autoanálise individual ou em grupo. Algumas consagraram a prática da autocrítica pública como forma de rever posições antes defendidas com afinco e depois ultrapassadas pelos acontecimentos.

Na política internacional, volta e meia um líder vem a público, constrangido, admite que cometeu erros irreparáveis e se desculpa — com direito a suicídio de vergonha, em sociedades de valores éticos mais exigentes.

Com tantos exemplos respeitáveis, não deveria parecer chocante que nestes tempos escandalosos que vivemos alguém se disponha a quebrar a hipocrisia reinante e reconhecer que errou.

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Com toda certeza, esse reconhecimento arrependido poderia servir de ponto de partida para consertar o mecanismo viciado que nos fez chegar a este ponto vexaminoso e indigno, de tanta desonestidade, a corroer a política e a vida social do país, enquanto são traídos os eleitores que levaram ao poder quem os enganou e cometeu erros em seu nome, fingindo representá-los.

No entanto, num momento em que, horrorizados, descobrimos tão graves erros, são raríssimos os gestos que se aproximam de qualquer vestígio de autocrítica, ainda que tímida, por parte dos políticos.

Exceção feita a alguns gaúchos, petistas ou peemedebistas históricos, que tiveram a coragem de assumir uma postura desse tipo e até de levantar débeis sugestões de refundação partidária.

Também o ex-prefeito Fernando Haddad publicou um arrazoado em que detectou pontos de equívocos petistas, precários e parciais, mas um oásis no deserto de reconhecimento de erros por parte dos seus “infalíveis” correligionários — ainda que fizesse questão de poupar Lula e mirar em Dilma, no que pode ser grave distorção dos fatos ou cegueira deliberada, exacerbada pela sua insistência em atacar a imprensa.

Mas fez bem em fazer esse balanço, que merece respeito. Mostrou coragem e levantou uma discussão, brilhantemente enfrentada em número posterior da mesma revista, numa resposta antológica de Marcos Lisboa, que elevou o nível do debate, contestou com fatos e não versões, e instaurou um processo de análise que a sociedade precisa travar.

Em seu caso, com a autoridade moral de quem foi secretário de Política Econômica do primeiro governo Lula e viveu de dentro o tempo da social-democracia petista, combinando as conquistas que vinham do governo anterior — retomada do crescimento com programas de inclusão social — enquanto ajudava a expandi-las e era xingado de neoliberal.

Citando nomes, datas e documentos, Lisboa relembra o que aconteceu realmente, divergindo de análises tendenciosas que preferem negar as evidências e desqualificar as divergências. Um debate salutar e necessário.

Nesse contexto, foi oportuna a propaganda tucana reconhecendo que o PSDB errou. Espantosa foi a reação a ela, por parte de setores do partido. Ofendidinhos por causa de quatro letras... Ou cinco. As que transformam coALIZão em coOPTAÇão, ao se referir a nosso presidencialismo. Causaram melindres em quem andou vestindo a carapuça até os pés.

Vamos clarear? Não foi só o PT que deixou órfãos seus seguidores bem intencionados.

O PSDB errou, sim, e muito. E não apenas agora, por políticos que discordam sobre ficar ou não ficar ministro. Vem errando há muito tempo, quando amarelou e não se dispôs a defender as conquistas econômicas e sociais de seu governo.

Quando deixou de lado pontos programáticos de sua identidade. Quando abandonou os princípios que levaram a sua fundação.

Quando escolheu o muro como poleiro e não teve garra para fazer oposição, só para não ficar mal na foto (apenas um retrato em sépia, cheirando a álbum da Une de mais de meio século).

Quando deixou que outros se apropriassem de seus avanços na área social, na educação, na saúde. Quando afrouxou na reforma da Previdência. Quando, em todas as campanhas eleitorais, se encolheu com medo e não mostrou as vantagens das privatizações que fez.

Quando não discutiu com os eleitores o papel do Estado, não explicou as vantagens da abertura da economia, não combateu com veemência os privilégios.

Quando se deixou enredar em alianças espúrias e fisiológicas.

Quando fez vista grossa para o Aécio.

E em muitos outros pontos mais circunstanciais, brilhantemente elencados por Elena Landau em texto que circula na internet. Ou evocados por Cora Rónai há poucos dias neste jornal, em aguda análise da amnésia dos tucanos, que só agora parecem lembrar quem deviam ser. E com isso melindrariam frágeis próceres de cristal.

Que os grão-tucanos não se enganem. Não é o momento de fazer biquinho resmungão. Melhor celebrar o centenário de Dalva de Oliveira e cantar com ela “Errei, sim, manchei o teu nome.” E agir de acordo, se quiserem levantar voo. Se ainda der.

Imagem do Dia

Kakadu National Park, Queensland
Kakadu National Park,
Queensland (Austrália)

Brasil não sabe vender sua imagem ao mundo

A Espanha recebeu, no mês de julho, dez milhões e meio de turistas, quase o dobro do que o Brasil recebeu em 2016, com um território 15 vezes maior do que o país europeu. O Governo brasileiro parece pronto a vender até a Amazônia para fazer frente ao enorme déficit público e, no entanto, não sabe lançar sua imagem no exterior para atrair o turismo internacional. Entre os 181 milhões de turistas que visitam anualmente o continente americano, apenas seis milhões e meio chegam ao Brasil, contra 23 milhões no México. Enquanto a cidade maravilhosa do Rio recebe pouco mais de um milhão de estrangeiros, algumas cidades europeias como Veneza, Barcelona, Londres ou Paris, ou latino-americanas como Buenos Aires ou a Cidade do México, superam em número de turistas todo o Brasil.

Ilhabela, litoral do estado de São Paulo, Brasil. A maior ilha ao longo da costa do Brasil e, literalmente, uma "bela ilha", Ilhabela oferece aos visitantes quase 40 km de praias, trilhas em uma ilha tropical, cachoeiras e nascentes.
Ilhabela (SP)
O Brasil é o segundo entre 133 países do mundo em recursos e belezas naturais e é o 14º em bens culturais, mas não figura entre os 50 países mais visitados do planeta, de acordo coma revista Travel Leisure. Nem a Copa do Mundo e as Olimpíadas foram suficientes para consolidar o turismo em um país que é um continente. Enquanto o Governo está vendendo boa parte das empresas nacionais, não é capaz de transformar o turismo nessa grande indústria que representa 10% do PIB mundial. Um em cada 11 empregos no mundo é criado pelo turismo, que passou de 25 milhões em 1950 para 1,1 bilhão em 2014.

Países como Espanha, França ou Reino Unido chegam a receber até dez vezes mais turistas do que o Brasil, que tem um território do tamanho da Europa e refúgios naturais e culturais únicos no mundo. Deve-se perguntar o que impede o Brasil de ter uma indústria do turismo que poderia criar milhões de empregos e aumentar o PIB nacional. No Ministério do Turismo, acreditam que o motivo da escassez de visitantes internacionais se deve à fama de país violento que se criou. Se fosse assim, países igualmente violentos ou mais, como México, Turquia ou Egito, também teriam escassez de turistas, quando a verdade é que eles continuam a receber mais visitantes do que o Brasil. Na Europa, apesar dos atentados terroristas, o turismo cresceu 4%, e já se pensa em limitar esse fluxo em cidades como Veneza ou Barcelona.

Não seria porque os governos no Brasil, ocupados com a pequena política e em proteger seus privilégios, nunca levaram a sério que o turismo internacional poderia ser uma fonte de riqueza nacional? As receitas da indústria do turismo no mundo ultrapassam as do petróleo, dos alimentos ou a gerada pela indústria automobilística. Na Espanha, um em cada sete empregos é criado pelo turismo. Quando em Paris, devido aos atentados terroristas, o turismo caiu 4%, as autoridades municipais tomaram 59 medidas para promovê-lo. E voltou a crescer. Quantas medidas e de qual eficácia o Governo brasileiro adota para promover o turismo estancado há anos? Aparentemente, a maioria dos poucos turistas que chega o faz incitada por amigos que estiveram aqui e que voltaram entusiasmados, tanto por suas belezas quanto pelo calor humano de sua gente. Muito pouco para vender o gigante brasileiro.

A realidade é que, com 8 mil quilômetros de praia virgem, um sonho para os europeus, no Brasil falta tudo para que o turismo se torne uma indústria capaz de criar riqueza. Faltam infraestruturas como estradas, trens, linhas aéreas, redes hoteleiras e gastronômicas com um leque de possibilidades para todos os bolsos. Hoje, chega-se a dizer que no Brasil os ricos viajam dentro do país e aqueles que não podem se permitir esse luxo se conformam com ir aos Estados Unidos ou à Europa, onde os preços, por absurdo que pareça, são menores e onde são oferecidas possibilidades à la carte, para todos os gostos e condições financeiras. O turismo internacional continua sendo, como a educação, a saúde ou a segurança pública, um assunto pendente que pouco parece interessar os políticos brasileiros.
Juan Arias

Eita farra!!!

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Não lembro como paguei e o fiz porque é um ato do meu mandato
Deputado Wadih Damous (PT-RJ), que pagou do "´próprio bolso" R$ 4 mil o aluguel do auditório da Associação Brasileira de Imprensa para uma homenagem a Dilma Rousseff, que também "contratou" Mário Marona, seu ex-assessor exonerado por Temer, com salário de R$ 12,4 mil reais de sua "verba" de ex-presidente

Nem tudo é jogo eleitoral

A política anda tão desqualificada que uma das armas mais utilizadas por aqueles a quem a aplicação da lei desconforta é espalhar boatos de que investigadores e juízes querem mesmo é ser políticos. A ideia é colocá-los sob suspeição, insinuar que fazem o que fazem no intuito de obter vantagem pessoal. Qual seja, tentar eleger-se deputado, senador, governador ou presidente.

Essa versão carrega um ato falho e um paradoxo. Seus autores, políticos na maioria, admitem que a atividade a que se dedicam oferece meios e modos para a obtenção de benefícios distantes do interesse público. Ao mesmo tempo cometem uma incongruência.

A suspeita sobre os reais objetivos desse ou daquele promotor ou juiz em geral é acompanhada da acusação de que a atuação desses agentes é extremamente prejudicial ao funcionamento do país e danosa para a democracia, pois visaria à desmoralização da política. Ora, se de fato têm a intenção de entrar para a política, por que seriam ativistas de seu aniquilamento? Outra: se pretendem mesmo trocar a estabilidade de sua profissão pela vida incerta da busca constante de votos, qual o interesse deles em tornar ainda mais difícil a vida dos eleitores de quem passariam a depender?


Não havendo lógica no raciocínio nem ingenuidade nos argumentos, resta como explicação a má-fé. Tão nefasta que se vale da boa-fé de um contingente de cidadãos, estes, sim, ingênuos, que consideram iguais atributos, formação, vocação e circunstâncias necessárias ao exercício de atividades absolutamente diferentes. Julgar, investigar e eventualmente acusar nada tem a ver com governar, legislar, construir consensos e/ou administrar dissensos mediante negociações, composições, concessões (no bom sentido, considerando um cenário próximo do ideal).

Mas o deserto anda tão árido no tocante à correção de condutas que, quando o público (ou parte dele) vê alguém atuando em consonância com seu interesse, a tendência é imaginar que essa mesma pessoa possa encarnar a salvação. Daí os índices elevados de “intenção de voto” no juiz Sergio Moro quando o nome dele é incluído nas pesquisas de opinião.

O mesmo aconteceu, e ainda acontece, com o ministro do Supremo Tribunal aposentado Joaquim Barbosa. O primeiro atende às expectativas na condução do que lhe chega em relação à Lava-Jato e o segundo fez o mesmo na época do julgamento do mensalão.

Naquela ocasião, passados já cinco anos, dizia-se sobre Joaquim o que se diz hoje sobre o procurador-geral da República em fim de mandato, Rodrigo Janot. Candidatos, sem dúvida. Joaquim não foi, a despeito de “informações de cocheira” difundidas por advogados de defesa, Moro não será nem Janot. Primeiro, porque não é essa a natureza de nenhum dos três. Segundo, porque em termos populares a vida já lhes sorri de onde estão.

Por último, mas não menos importante, porque os partidos têm oligarcas que não pretendem substituir tão cedo, e certas normas que não estão dispostos a submeter ao rigor de ninguém. Muito menos a rigorosos juízes e promotores que tanto apoio recebem da população.
Dora Kramer

Paisagem brasileira

Sabará , Davi Jupira