segunda-feira, 18 de maio de 2015

Estamos quebrados. No civil e no religioso


O afastamento da presidente Dilma Rousseff da frente de relacionamento com sua base política no Congresso e a entrada no jogo do vice Michel Temer foram ações que deram ao governo lampejos de calmaria. Dilma no comando das relações políticas sempre se revelou um desastre, pelo que faz ou não, pelo que fala ou não, pelo que escolhe ou não escolhe. A política de coalizão, sustentada durante o último período eleitoral para reforçar a vitória do PT não conseguiu se impor como realidade, especialmente no plano federal, porque o leme estava em mãos erradas. Foi preciso que a embarcação emperrasse na areia para que quem podia mudar a rota acordasse.

O PT, como partido de vocação hegemônica, não facilitou como deveria essa construção, a da coalizão, e deixou seus parceiros ao vento, como meros espectadores. Esse descompasso gerou o engessamento da máquina pública, a dependência moral a que tudo se submete pelos resultados da extensa operação Lava Jato, ainda não conhecidos integralmente.

Acentuou-se ainda o dano que é a falta de um projeto Brasil em torno do qual se una a sociedade brasileira, as instituições e o empresariado para fazerem o país navegar em mar seguro. Essa carência é do governo e das oposições, que só tem como bandeira a tese do impeachment da presidente. A oposição é o samba de uma nota só.

O único projeto nacional que está no ar é o combate à inflação, que não é mais uma ameaça, é uma realidade. Séria e importante, mas equivocadamente tocada, já que a cada medida, mais se enrijece o consumo, majorando as tarifas públicas, restringindo o crédito e o fomento à produção, mas deixando aberta a porta dos bancos, sempre mais ricos porque a esses nada afeta, deles nada se exige e a eles tudo se protege. O sistema financeiro brasileiro, público e privado, nada acima da maré. Nunca foi chamado a contribuir e talvez essa seja a grande injustiça social de todos os governos. Os bancos esfolam a sociedade, esfolam a economia pública, crescem e nunca comparecem para ajudar. São do tipo dos que, à chegada da conta, vão ao banheiro e saem antes para nem dar carona a ninguém da mesa.

Tratados sempre como periódicos, os programas dos partidos têm que ter a coragem de incluir nas suas agendas a discussão sistemática de um Brasil que seja mais possível, mais durável. Assiste-se à nervosa movimentação de setores do sindicalismo gritando pela manutenção ou inclusão de privilégios na legislação laboral, que são estúpidos compromissos. O seguro desemprego, por exemplo, da forma como se acha concebido, é um desastre contra a economia pública, contra a produção e contra as próprias relações de trabalho. A remuneração e a aposentadoria de alguns setores do serviço público, do Executivo, Legislativo e do Judiciário, têm que ser urgentemente revista porque em muitos casos ela é imoral e insustentável. Dinheiro público ou privado não se inventa. Tem que ser gerado e gerido com competência, com responsabilidade, com grandeza. Não é para ser roubado, pela corrupção e pela manutenção de privilégios. Nem para ser corroído pela inércia da falta de governos ou seus sistemáticos equívocos.

Um trem para Bangladânia



O Brasil queria ligar suas duas maiores cidades com um trem-bala. Uma obra de bilhões de dólares para ser inaugurada até a Copa do Mundo. Um empresário italiano acusado de fraude e um político brasileiro se apresentaram como solução, encenando uma peça de mistérios até hoje indecifrados.

Um dos homens apontou o dedo para a ferrovia como se indicasse a estrada para o futuro. A ligação entre Milão e Turim ainda estava em obras quando Moreno Gori — italiano parcialmente careca, de queixo retangular e boca retilínea — garantia que sua empresa, a Itaplan, tinha experiência de mais de 25 anos no setor de transporte ferroviário, especialmente de alta velocidade. A ferrovia diante dele seria apenas uma parte daquele extenso currículo empresarial.

Com o braço estendido, o diretor da Italplan explica ao homem a seu lado que seria possível construir uma ferrovia como aquela no Brasil, ligando São Paulo e Rio de Janeiro. José Francisco das Neves é conhecido como Juquinha. Em todas as fotos, com todos os políticos e autoridades, cercado por todos os papagaios de pirata da vida pública brasileira, Juquinha surge como o mais baixinho de todos. Ele é o presidente da estatal Valec, empresa subordinada ao Ministérios dos Transportes encarregada de “coordenar, controlar, fiscalizar e administrar” a construção de ferrovias no Brasil, entre elas a que seria a joia do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) no primeiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva: o trem de alta velocidade entre Rio de Janeiro e São Paulo.

Gori e Juquinha haviam jantado juntos em Milão na noite anterior, 26 de outubro de 2004, e agora admiravam os dormentes da ferrovia Milão-Turim — que seria inaugurada pelo premier Silvio Berlusconi cinco anos depois. No Brasil, décadas de sonhos e projetos inacabados chegariam ao fim pelas mãos daqueles dois homens e graças à experiente Italplan. O país finalmente teria seu trem-bala.

O vexame húngaro

O trem de alta velocidade é um sonho antigo dos governos brasileiros. Sobre estradas de terra e asfalto, os 500 quilômetros entre as duas maiores cidades do país são perigosos e engarrafados. De avião, o voo de 40 minutos é caro. Por um breve período, no entanto, o sonho se materializou. Folhetos distribuídos aos passageiros que partiram às 17 horas do dia 11 de março de 1974 da Estação da Luz, em São Paulo, garantiam que os vagões da composição húngara da empresa Ganz-Mávag chegariam à Central do Brasil, no Rio de Janeiro, em apenas quatro horas e meia. Alta velocidade sobre trilhos, para os padrões da época.

Aqueles trens haviam sido negociados pelo governo brasileiro em troca de uma de suas moedas correntes desde o Império: café. A linha Rio-São Paulo recebeu seis composições, embarcadas da Europa depois de serem fabricadas na Hungria. A tecnologia foi celebrada na imprensa — desde o desembarque dos vagões no porto do Rio de Janeiro, em 1973, até as viagens inaugurais no ano seguinte, aproveitando a velha estrada de ferro com trechos inaugurados por Dom Pedro 2º. Anúncios publicitários convidavam os cidadãos a deixar de lado os momentos de tensão ao volante em troca de “minutos de relax” a bordo dos Ganz-Mávag. Os carros eram, de fato, seguros e confortáveis, mas se mostraram uma bomba mecânica em poucas viagens. O sistema de tração era fraco para as subidas íngremes, sobretudo entre Japeri e Barra do Piraí, uma serra inclemente aos trens projetados para deslizar nas planícies magiares. As rodas patinavam, os motores esquentavam, e a composição precisava parar no meio do caminho. Apesar de ser fabricado na Hungria, o trem-bala tinha motor alemão, controles suíços e freios italianos — problemas multinacionais na hora de repor peças em um mundo ainda não globalizado. Quatro anos após a inauguração, deixou de circular. Em 1978, os trens foram deslocados para linhas menos exigentes e, anos depois, viraram sucata.

O governo decidiu buscar um substituto. Ainda em 1978, o então ministro Dyrceu Nogueira anunciou uma viagem ao Japão para conhecer o primeiro trem-bala do mundo. O veículo japonês havia sido inaugurado em 1964, mesmo ano em que os militares assumiam o poder no Brasil. Nogueira era comandante do 1º Batalhão Ferroviário e tinha predileção pelo tema. A visita, que selaria um pacto feito pelo presidente Ernesto Geisel em viagem ao Oriente dois anos antes, foi duramente atacada em um discurso do deputado Pacheco Chaves (MDB): ele citava a penúria dos cofres públicos em contraste à megalomania do projeto. “O presidente Geisel não deve permitir. Isso apenas redundaria em novas e graves dificuldades para o futuro governo, cuja herança já é assustadora!”, gritou Chaves da tribuna da Câmara dos Deputados na sessão do dia 23 de agosto.

Chaves foi ignorado, e o trem-bala ganhou impulso. O projeto foi levado à imprensa dezenas de vezes, apresentado como a porta de entrada do Brasil na modernidade. Reportagens de página inteira mostravam a capacidade de carga dos vagões, a velocidade dos motores, o conforto e a sofisticação das cabines. Anúncios de agências de viagem nos pés-de-página vendiam pacotes turísticos para brasileiros que quisessem conhecer o Japão e andar no trem oriental.

O esforço do ministro Dyrceu Nogueira foi em vão. Nos anos seguintes, japoneses, espanhois e franceses tentariam negociar com o Brasil a instalação da linha rápida, oferecendo tecnologia e crédito, mas as condições financeiras do país eram assustadoras aos estrangeiros.

Morte prematura de presidente, inflação descontrolada, dívida externa impagável, impeachment e secura financeira seriam problemas mais prementes ao Brasil da segunda metade do século 20 do que ligar suas duas principais cidades por trilhos. “Bangladânia, meio Bangladesh meio Albânia, é a Terra Não Prometida para a qual alguns constituintes estão querendo arrastar 130 milhões de brasileiros”, escreveu Mário Henrique Simonsen, banqueiro e ex-ministro de governos militares, no artigo O trem-bala para Bangladânia, publicado em 1987 no jornal O Globo. Simonsen criticava a sanha dos políticos em querer resolver contingências do capitalismo na base do canetaço, o que poderia levar o país para uma terra sombria, a Bangladânia, e batizou o artigo fazendo alegoria a mais uma tentativa do governo em construir o trem — projeto abandonado no mesmo ano.

Poucos anos depois, em 1990, no entanto, uma das oportunidades mais concretas para o projeto aportou na Baía de Guanabara a bordo do Le Pharaon, um iate de 60 metros capaz de acomodar 12 convidados e 11 tripulantes. Na ponte de comando estava o bilionário saudita Ghaith Pharaon, educado no Ocidente com dinheiro do reino, acionista de um banco de investimentos e sócio da família Bush em uma empresa de geração de energia.

domingo, 17 de maio de 2015

Lula, o eterno equilibrista


Há poucos dias, num comício na cidade de Rio Branco, capital do Acre, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva apareceu ao lado das autoridades locais. Uma moradora contrária ao Partido dos Trabalhadores ficou assombrada não só pelo delírio que Lula despertou na rua, mas pelo número de pessoas que, simplesmente por vê-lo e ouvi-lo de perto, começavam a chorar de pura emoção.

O trabalhador sem instrução que perdeu o dedo mínimo numa fábrica de parafusos quando tinha 18 anos e foi presidente do Brasil entre 2003 e 2010 está afastado do poder há cinco anos, mas não perdeu sua aura de mito vivo entre os brasileiros. Especialmente entre os que menos têm. E não é só isso. Além de servir como referência para a esquerda do país, Lula é bastante ativo e ainda conta muito na suculenta e abjeta política cotidiana, à qual um ex-líder sindical como ele não está disposto a renunciar em troca da insípida estratosfera da história.

Nesta mesma semana, ele se reuniu em Brasília com o presidente do Senado, Renan Calheiros, do PMDB , para tentar desobstruir o relacionamento frio dele com a presidenta, Dilma Rousseff, e, assim, tentar desbloquear a hostilidade do Parlamento brasileiro com o Governo. Segundo o jornal O Estado de S. Paulo, nesta passagem por Brasília ele foi visto um pouco abatido -algo que é estranho para ele-, não muito confiante nem no curso econômico adotado por Rousseff para o país superar a crise nem na deriva perigosa que está tomando o caso Petrobras. "Não estou numa fase muito boa", chegou a dizer, em resumo, de acordo com a publicação.

Que Lula atue como bombeiro em um incêndio institucional do PT não é novidade. Na verdade, quando as coisas ficam feias, Rousseff joga a última carta, à qual não gosta muito de recorrer: a de Lula, com quem ultimamente não tem se entendido muito bem. Isso aconteceu em outubro de 2014, na reta final do segundo turno das eleições presidenciais e Dilma, que disputava o segundo mandato, estava empatada nas pesquisas. Lula, até então um tanto ausente na campanha, envolveu-se a fundo e animou alguns comícios graças ao talento de orador desenfreado (“Antes o pobre só comia frango e nunca sonhava em viajar de avião”), à capacidade algo demagógica para pisar o calo mais dolorido do adversário (“Eles só se lembram de vir a estas regiões pobres para descansar nas praias nos fins de semana, como filhos de papai que são”), ao magnetismo pessoal e à habilidade inata para entrar em sintonia com quem tiver pela frente, seja um lavrador miserável do deserto do sertão ou Chico Buarqueem pessoa.

Ultimamente, porém, sua popularidade sofreu junto com a da presidenta Dilma, ambos arrastados pela crise econômica que mina o país e pelos escândalos de corrupção que enlameiam boa parte da vida política brasileira. O próprio Lula foi acusado pelo principal delator do milionário caso de subornos da Petrobras de conhecer toda a trama. Mas não há nenhuma prova. Além disso, recentemente se tornou público que a Procuradoria Geral da República cogita investigar o papel do ex-presidente nos negócios internacionais da gigantesca construtora brasileira Odebrecht, para a qual Lula desempenhou o papel de intermediário. Seus defensores dizem que o objetivo final de muitas dessas denúncias é reduzir o capital político que o ex-presidente ainda detém.

Tudo o que rodeia Lula se polariza no Brasil. No site do instituto que leva seu nome foi criada uma seção para conjurar os falsos rumores mais frequentes e prejudiciais à sua figura: que apareceu na primeira página da revista Forbes como o homem mais rico do país ou que tem câncer de pâncreas –ele já venceu um de garganta– ou mesmo que está morto.

Lula nasceu em 1945, em uma família quase miserável de Pernambuco, de sete irmãos, cujo pai, violento, distante e irascível, abandonou quase à própria sorte durante um tempo em uma casa sem água, sem cadeiras e mesas. Quando tinha sete anos, com a mãe e os irmãos, migrou, como muitos milhares de pobres do Nordeste, ao Estado de São Paulo. Por um tempo eles ficaram alojados nos fundos de um bar alugado por um parente, dividindo o banheiro com os fregueses. Foi vendedor ambulante, engraxate, balconista em uma loja e, finalmente, aos 14 anos, operário de uma fábrica. Aos 19, depois de perder um dedo no torno, entrou no sindicato. Organizou greves, foi preso durante a ditadura e, em 1980, com um grupo de sindicalistas e intelectuais, fundou o Partido dos Trabalhadores (PT). Disputou a presidência em três fracassadas ocasiões. Venceu na quarta, em 2002. No início de sua carreira política, em um debate na televisão, foi perguntado sobre sua ideologia: “Mas, enfim, o que você é? Comunista, socialista ou o quê?” Ele respondeu: “Sou torneiro mecânico”.

Ele sempre soube falar com os pobres, porque veio de onde veio. Mas logo aprendeu a falar com os ricos: uma de suas primeiras viagens oficiais foi para o Fórum de Davos, aonde chegou diretamente procedente do alternativo Fórum Social Mundial, em Porto Alegre, numa viagem que foi uma declaração de princípios. Lá, um membro da delegação brasileira lembrou que, quando perguntado como eram compatíveis Porto Alegre e Davos, ele disse: “Eu fiz muitas greves contra os senhores, mas quando em seguida eu me punha a negociar sempre sabia que havia mais coisas que nos uniam do que nos separavam”. Durante seus dois mandatos, o Brasil cresceu em média 4% e mais de 30 milhões de pessoas –em um país de 200 milhões–, saíram da pobreza e começaram a pagar impostos e a se integrar ao sistema.

É verdade, lembram os críticos, que para tanto se apoiou na crucial reforma monetária de seu antecessor, Fernando Henrique Cardoso, e usou um modelo, o de estimular o crédito para as famílias, que agora sofre de exaustão. E que se cercou de colaboradores próximos que depois foram acusados de corruptos. O último, o tesoureiro do PT,João Vaccari, amigo pessoal desde os tempos duros do sindicato, foi preso recentemente sob a acusação de receber subornos para o partido e para ele no emaranhado putrefato da Petrobras.

Muitos especialistas o veem como o próximo candidato a presidente em 2018. Seria sua sexta eleição presidencial. Pesquisas eleitorais recentes o colocam na frente, empatado com Aécio Neves, o candidato do partido de oposição, o PSDB, nas últimas eleições. Inclusive, algo abatido. Eterno Lula.

Antonio Jiménez Barca

E se Jesus Cristo vivesse na era da internet?

Peço permissão para fazer tal analogia, guardado o respeito a um personagem sagrado e universal. Mas diante da passividade e embotamento que a civilização vai se submetendo diante do avanço tecnológico, maquinizado e escravizado por eletrônicos, me pus a pensar sobre o papel de um doutrinador e evangelizador em tempos de conectividade ilimitada. Poderia ser Buda, Maomé, Confúcio também.

Usaria Jesus para propagar seus ensinamentos as redes sociais? Teria página no Facebook, Instagram? Tuitaria o dia inteiro em sábias frases de 140 caracteres?

Faria uso de um canal do YouTube, em que relataria suas andanças por Canaã, sua decepção em Nazaré, ou suas palestras em Jerusalém? Teria com seus discípulos e seguidores um grupo de WhatsApp e de forma obsessiva mandaria e receberia textos cheio de abreviaturas e emojis? Mandaria e-mails reveladores correndo o risco de hackers roubarem seu conteúdo? Ok, é divagar muito não é? Mas, com tantos memes, radicalização, fofocas violentas virtuais, com certeza a vida dEle não seria fácil. A velha expressão “nem Cristo agradou a todo mundo” adquiriria dimensões impensáveis. Haveria uma guerra virtual com os romanos que dominariam o mundo internáutico, leões invejosos e raivosos devorariam os seguidores e curtidores cristãos. Ciberbullyng e montagens photoshopadas se multiplicariam a tal ponto que o conteúdo e essência de suas lições e falas se perderiam no ódio virulento que as multimídias propagam. Ufa! Temeria por adjetivos que o perseguiriam mais que os ortodoxos judeus ou romanos colonialistas e ditadores: charlatão, falso profeta, picareta entre outras pérolas, acompanhariam suas doutrinações. Nas caóticas aparições públicas amplamente noticiadas, encontraria fãs enlouquecidos e vaias homéricas. Perderia, com razão, a paciência com as imprudentes e incontáveis selfies.

E correndo o risco de ser chamado de arrogante, mal-humorado. Em entrevistas, bastaria uma palavra mal colocada ou uma edição distorcida de suas palavras para um tsunami de críticas ostentar manchetes. Suas curas e milagres seriam questionadas e ridicularizadas: cego voltar a enxergar, morto levantar do túmulo, água virar vinho? Céticos, cientistas, blogueiros em geral o reduziriam a pó. Seria crucificado diariamente, sofreria processos em todas as áreas jurídicas, seria chicoteado virtualmente num massacre midiático incalculável. Deus realmente sabe o que faz e 2.000 anos depois é um milagre que o “verbo” sobreviva. Aliás, percebam o termo para dimensionar nosso empobrecimento pós internet: “Verbo”!

Sim, meus caros, a palavra sempre foi o instrumento de compreensão mútua, de ensinar e aprender novos conceitos e mudar a mente. É a fonte que nutre nosso conteúdo mental, a matéria-prima que ao formular pensamentos, emoções e desejos, permite que a doutrina que Cristo nos passou tenha se eternizado. Mas, convenhamos, se fosse contemporâneo teria sido quem foi? Sem contar o carisma que desaparece nas telas, pois é uma energia que só o presencial nos permite.

Há na vida elementos que deveriam ser degustados, experimentados com calma e tempo, assim são as sensações. O mundo deveria entrar em nós pala audição, visão, olfato, paladar, tato. Ainda bem que milagres foram registrados há séculos. Hoje seriam chacotas, vitalizaria em piadinhas nas redes.

Tudo isso para concluir: como é difícil ser líder ou exercer novas ideias num universo virtual internáutico tão caótico e fútil. E olha que estamos carentes de lideranças.

Algum aplicativo poderia nos acolher?

Eduardo Aquino

A vantagem do capeta


Depois de milênios de guerra, o Capeta e o Padre Eterno decidiram entender-se, para bem da humanidade. Acertaram implantar uma ponte entre o Céu e o Inferno, de forma a se comunicarem sempre que suas tropas clamassem pelo Armagedon. Cada um construiria metade da obra. Passaram-se meses e quem prestasse atenção veria o perfeito andamento das estruturas que saiam das profundezas e chegavam ao meio do caminho para as alturas. O problema estava em que, de lá de cima, nenhum parafuso e nenhuma pilastra haviam sido assentados para chegar em baixo.

Um vazio completo fazia prever o fracasso da empreitada. Exasperou-se o Capeta e resolveu cobrar de seu oponente o cumprimento do contrato. Atendendo o telefone, o Padre Eterno ficou calado diante das múltiplas reclamações e impropérios. No final, falou: “Como é que você exige que eu faça a Minha parte da ponte, se você levou todos os empreiteiros para o Inferno?”

Assim estão as coisas por aqui. Não há mais um empreiteiro na cadeia. Estão todos livres para continuar celebrando com o governo as mesmas lambanças de sempre, lucrando horrores em obras públicas superfaturadas e até inexistentes. O problema da corrupção, entre nós, está em que enquanto existirem empreiteiras para fazer o trabalho devido ao Estado, o país permanecerá sendo a caverna do Ali Babá.

Descobriu-se por acaso a roubalheira na Petrobras, mas depois de algumas ameaças retóricas, não se cuida mais de investigar o que se passa nos setores elétrico, rodoviário, ferroviário, portuário, bancário, da saúde, da educação e da segurança, entre quantos mais? Tivesse o governo vontade de apurar o quanto de dinheiro escorre por suas mãos e não haveria necessidade do ajuste fiscal. Bastaria, simplesmente, fechar o ralo.

A participação do Congresso na farra das empreiteiras parece um detalhe, apesar de escabroso. O mal está nas regras do jogo. Obras públicas deveriam ser públicas. Não se tem notícia de que tivessem sido privatizadas e superfaturadas as construções do metrô de Moscou, das siderúrgicas nos Urais e de centenas de empreendimentos que culminaram no Sputnik e na viagem de Yuri Gagárin ao espaço. As denúncias sobre a execrável tirania de Stalin revelaram as mais abjetas perseguições políticas, mas jamais a presença de empreiteiras no regime soviético.

Já do outro lado do mundo, o complexo industrial-militar enriqueceu muita gente e levou à apologia de pequenas guerras permanentes para sustentar a economia americana. Enquanto o privado continuar substituindo, dominando e roubando o público, nada mudará. O Padre Eterno permanecerá com suas vastas mãos abanando e o Capeta celebrando a aliança com seus novos auxiliares. O Diabo, com perdão da referência, é que os empreiteiros já dominam o inferno…

A política do absurdo

Dilma Ultima palavra e  minha sim senhores temer cunha e Renan B

O desgoverno da presidente Dilma Rousseff, ápice dos 12 anos de domínio petista sobre a máquina pública, tem agido como fertilizante na produção de absurdos políticos. Tudo está ao avesso. Dentro da lama e de costas para o país.

Diante de uma impopularidade jamais experimentada, o PT aprofunda-se na esquizofrenia. Apoia e combate o seu próprio governo. Precisa agradar as bases sindicais que são contra o pacote fiscal de Dilma e, ao mesmo tempo, manter-se no poder. Até para garantir os cargos públicos dos companheiros, incluindo os sindicalistas. Depende eleitoralmente do sucesso da presidente, mas quer porque quer manter distância dela.

Síndrome psíquica semelhante acomete o PSDB, que, para aumentar o sangramento da mandatária petista, nega voto a teses que defendia até ontem.

Fez assim na votação do ajuste fiscal - princípio pelo qual o partido sempre zelou - e do fator previdenciário, criado por FHC em 1999. Os tucanos se protegem com argumentos toscos: dizem que se tivessem vencido com Aécio Neves fariam um ajuste fiscal duro, mas sem aumentar impostos. Reduziriam gastos, cortariam ministérios e cargos de confiança.

Tudo urgente e necessário, mas sabidamente insuficiente para cobrir o gigantesco rombo das contas públicas.

Enquanto PT e PSDB embaralham-se em um espesso cipoal, confundindo seus eleitores, o PMDB de Eduardo Cunha e Renan Calheiros empunha alfanjes como se fosse o único partido capaz de colocar ordem na lavoura. Ao débil governo Dilma, só oferecem vitórias seguidas por doídas e danosas derrotas.

À presidente sobra pouquíssimo espaço. Sem mando na economia, que ela desorganizou por completo, e distante da política por inapetência e inexperiência, Dilma é hoje o inverso da imagem de gerente exemplar, inigualável, durona. Encobre a incompetência com a nova silhueta e faz da dieta de sucesso assunto principal em todas as rodas.

Tendo errado feio na previsão quanto ao desempenho de sua pupila, Lula tem de se superar na prática ilusionista, da qual é mestre. Sem constrangimento algum, ele se opõe a Dilma e defende o governo dela. Em um só fôlego, livra o PT e se arvora a combatente da corrupção. Como se o mensalão e a roubalheira confessa de R$ 6 bilhões da Petrobras não tivessem sido patrocinados pelo seu partido, por gente que ele próprio nomeou.

Na política do avesso todos perdem. O país não tem tempo para o oportunismo dos contorcionistas. Nem paciência.

Não de pode mandar contrariando a opinião pública

 


A verdade é que não se manda com os janízaros. Assim, dizia Talleyrand a Napoleão: «Com as baionetas, Sire, pode-se fazer tudo, menos uma coisa: sentar-se sobre elas». E mandar não é atitude de arrebatar o poder, mas tranquilo exercício dele. Em suma, mandar é sentar-se. Trono, cadeira curul, banco azul, poltrona ministerial, sede. Contra o que uma óptica inocente e folhetinesca supõe, o mandar não é tanto questão de punhos como de nádegas. O Estado é, em definitivo, o estado da opinião: uma situação de equilíbrio, de estática. 

O que sucede é que às vezes a opinião pública não existe. Uma sociedade dividida em grupos discrepantes, cuja força de opinião fica reciprocamente anulada, não dá lugar a que se constitua um mando. E como a Natureza tem horror ao vácuo, esse oco que deixa a força ausente de opinião pública enche-se com a força bruta. Em suma, pois, avança esta como substituta daquela. 
 
Por isso, se se quer expressar com toda a precisão a lei da opinião pública como lei da gravitação histórica, convém ter em conta esses casos de ausência, e então chega-se a uma fórmula que é o conhecido, venerável e verídico lugar comum: não se pode mandar contrariando a opinião pública. 
José Ortega y Gasset (1883 - 1955), in "A Rebelião das Massas" 

Internet brasileira reage ao plano Facebook de oferecer acesso à web


Dilma, no Panamá, fez "agenda positiva" ao lado
de Zuckerberg para trazer o serviço gratuito da Internet.org
Mark Zuckerberg quer oferecer acesso gratuito à internet para brasileiros de baixa renda. E o Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br) quer saber como e por que o CEO do Facebook pretende fazer isso. Na última Cúpula das Américas, organizada em abril no Panamá, Zuckerberg posou ao lado de vários líderes latino-americanos, entre eles a presidenta Dilma Rousseff, com quem anunciou uma parceria para oferecer conexão de graça para a população de baixa renda. O anúncio formal da chegada do Internet.org ao Brasil foi marcado para junho, mas o CGI.br pretende ouvir o Facebook sobre o assunto antes disso.

O comitê começou a debater a questão no início do mês e vai enviar nos próximos dias ao Facebook um questionário com perguntas sobre a parceria. Os conselheiros querem saber detalhes sobre a possível limitação de acesso a conteúdos e o que estará associado a essa oferta de internet, questões que podem afetardireitos fundamentais estabelecidos no Marco Civil da internet, como o direito ao fluxo livre de informações. Outros pontos em questão são a privacidade do usuário e a infraestrutura que será utilizada para viabilizar a parceria — haverá de dinheiro publico no processo?, a que empresa vai ser direcionado recurso?

Diretor presidente do Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR (NIC.br) e conselheiro do CGI.br, Demi Getschko destaca que o comitê ainda não tem posição sobre o assunto e só se manifesta por meio de suas resoluções. Segundo ele, por enquanto "a discussão está sendo feita a partir de especulações", porque não se sabe detalhes sobre as intenções do Facebook, e o mais importante é "defender a neutralidade do acesso à internet" no Brasil. "O mal desse negócio é que não devia se chamar Internet.org, mas 'Facebook.org'. Já é uma certa arrogância, porque está dizendo que é internet".

Exageraram

O termo “república” passou a identificar um sistema de governo cujo poder emana do povo, e não mais por hereditariedade (monarquia) ou direito divino (teocracia). Do latim “res”, que significa “coisa”, e “publica”, que dispensa tradução, seria a forma de garantir a “democracia”, quer dizer, do grego “demos”, “povo”, e “cratos”, “poder”. Poder exercido pelo povo em favor dele. A realidade é outra. Vivemos a Renostra (Cosa Nostra do mafioso).

Faz tempo que no Brasil o povo não é beneficiário, mas vítima do sistema democrático via confisco exagerado de suas rendas (cerca de cinco meses dos frutos de seu trabalho) para receber de troco um mísero retorno, uma vergonha que grita nas filas da saúde pública, nos atrasos e desserviços que já se incorporaram como condição permanente.

Sinais de exaustão se enxergam por todo lado. Tem quem desfile pedindo a volta dos militares, por que razão. Descrença em todos os lados. Apesar de 40 partidos, não se enxerga um que possa ser garantia de redenção.

Tivemos partidos bons, honrados e bem-intencionados. Hoje a palavra “mensalão” cola em qualquer um. Com maior ou menor cara de pau, os partidos são regidos pelo desfrute da República, feita como Cosa Nostra. O poder é coisa deles, de uma casta que legisla e executa políticas e partilhas em favor deles, não em benefício do povo.
Nos últimos tempos, apesar de a crise assolar a nação, o desemprego se abater como praga, a carga tributária e os custos financeiros terem explodido, a “casta política” se atribuiu um aumento de 320% da cota partidária. Uma vergonha, uma violência contra esses desempregados e essas pessoas que se deitam em corredores de hospitais ou morrem nas calçadas.

A medida priorizada pela “Cosa Nostra” foi aumentar de R$ 289 milhões a bolada destinada aos partidos para R$ 867,5 milhões. No país tudo despenca, tudo está em crise, menos as rendas que os encastelados, na maior e mais despudorada atitude, se atribuem.

Alguém reclamando? Que nada, um imbecil de um parlamentar respondeu numa entrevista que é justo receber isso para disputar em paridade de oportunidade. Ele quer fazer de palhaço quem não tem como pagar a conta de luz que dobrou ou comprar os remédios.

Nesse período a oscilação provocada e monitorada pelo Ministério da Fazenda fez mais bilhões para os bancos que o petrolão para os empreiteiros.

O cidadão tem a sensação de ser estuprado cada vez que surge o sol.

Pátria não Educadora

As trapalhadas dos governos petistas de Lula e Dilma são de morrer de rir, misto de indignação e gozação para não enfartar, e poderiam compor quadros de humor do “Zorra total” ou “A Praça é nossa”. As duas figuras estão presentes nas charges de toda a ordem com autores e atores profissionais e amadores. Vídeos em profusão. Humor negro.

Do apoio a Zelaia que pretendia se perpetuar no poder em desacordo com a Lei Magna de Honduras, fiasco da diplomacia ao transformar a Embaixada do Brasil em palanque do “companheiro”, ao livro do Mujica com destaque na confissão de Lula sobre o mensalão. Do gesto obsceno do assessor Marco Aurélio, face ao desastre da TAM, que lhe valeu o apelido de TOP TOP, à devolução dos pugilistas cubanos ao ditador Castro, perpassando pelo asilo ao terrorista italiano Cesare Battisti, pela declaração do “vamos expulsar do partido os petistas corruptos”, pela ação da Petrobrás a pretender indenização face aos prejuízos provocados pelas empreiteiras, etc.
A penúltima trapalhada vem da expressão jeitinho brasileiro como incentivo e criatividade aos mais de 11 mil brasileiros participantes do programa Ciências sem Fronteiras nos Estados Unidos. Não é que o Institute of International Education parceiro do Governo brasileiro no intercâmbio sugere que os alunos se virem como puderem enquanto não chega a verba destinada ao transporte, estada e alimentação que lhes é destinada como suporte fundamental à permanência naquele país.

Claro que reina descontentamento e revolta entre os estudantes. O Ministério da Educação pediu que se desconsiderasse a nota anterior e que a verba já foi depositada. Mas, não deixa de ser uma trapalhada no planejamento e por em risco os estudantes que podem dispor ou não de recursos para tais fins.

As famílias reclamam dos desagradáveis avisos de cobrança enviados pelas Universidades, alegando que as mensalidades não estão em dia, que a responsabilidade é do Governo Federal além do baixo valor da bolsa, questionando como alguém de baixo poder aquisitivo poder fazer uso do programa.

O mais grave, no entanto é a absorção da expressão “jeitinho brasileiro” como meio de resolver qualquer dificuldade momentânea mesmo empregando desvios de conduta. Já tão corriqueiros nas atividades governamentais a tal ponto que um político da base de apoio, ex-ministro do Lula e Dilma, Carlos Lupi, presidente do PDT, disse que os petistas roubaram demais, que o PT esgotou-se, que o PT não inventou a corrupção, mas roubaram demais...

Em se tratando do esforço no mote Pátria Educadora, os exemplos das cúpulas administrativas do país não são bons. Dar “jeitinho” soa remendo, falta de escrúpulo e desrespeito como no balanço ajeitado da Petrobrás.

Criatividade como incentivo ao crescimento, vencer a rotina e ultrapassar obstáculos, sim, burlar normas, não.

O fiasco do FIES demonstra a falta de planejamento no longo prazo a considerar que sustentar um curso superior custa caro e o abandono no meio do caminho sem condições financeiras de prosseguir às próprias expensas deixou milhares de estudantes frustrados.

Pior, desiludidos com as instituições e esquecidos por suas entidades estudantis que no passado engrossavam os protestos nas ruas a lembrar contra o aumento do preço na refeição do restaurante do Calabouço. Nos dias atuais a falta de higiene geral em uma das maiores universidades públicas do país, a UFRJ, não incomoda as entidades estaduais e nacional dos estudantes.

Hoje, a UNE​ é governo. Foi tempo que significou o esforço maior no impeachment do Collor pelo Fiat Elba à frente dos caras pintadas.

sábado, 16 de maio de 2015

Quando Dilma responderá?

Rendição


Max Weber distinguiu a "ética da convicção" da "ética da responsabilidade". Na sabatina de terça, Luiz Edson Fachin invocou a segunda para envernizar uma peculiar "ética da conveniência" –e passou 11 horas declarando sua adoração pelo que criticou ao longo da vida. O jurista atacou o direito de propriedade em 1986. Mas vale a pena discutir 1986? O jurista não aprecia a proteção especial à família nuclear. E daí? A diversidade de opiniões informadas enriquece o STF. Conversa inútil. Nenhum senador desviou-se dos rumos óbvios para inquiri-lo sobre o que interessa: a fonte das leis. Fachin acredita que os juízes têm a prerrogativa de inventar a lei. Se seu nome for aprovado em plenário, os senadores estarão assinando um termo de rendição do Poder Legislativo.

Fachin é da corrente de pensamento de outro Luís, Roberto Barroso, que já está no STF. Eles são expoentes da vertente radical do neoconstitucionalismo, a árvore teórica de um ativismo judicial ilimitado. Nesse campo ideológico, a norma formal deve ceder lugar à norma axiológica, isto é, a valores morais genéricos que serviriam de régua na interpretação dos códigos legais. A Constituição proclama as metas da igualdade, do bem-estar e da justiça? Sob a ótica deles, é o suficiente para varrer a letra das leis pelo sopro purificador do juiz-ativista.

Tudo que está escrito pode ser lido pelo avesso –eis a mensagem de Luís e Luiz. Na "nova dogmática da interpretação constitucional" de Barroso, a filtragem do Direito escorrega da norma objetiva para o terreno do arbítrio subjetivo. A Constituição abriga o princípio da igualdade perante a lei? Basta reinterpretá-la à luz do imperativo de justiça histórica –e concluir pela recepção de leis raciais na ordem jurídica nacional. A letra constitucional proíbe a discriminação de cor no acesso à educação superior? Basta atribuir um significado paradoxal à palavra –e explicar que a meta axiológica da igualdade demanda a "discriminação positiva".

O neoconstitucionalismo nasceu no pós-guerra como reação progressista ao formalismo excludente da ordem liberal. "A lei tem que ser legítima, alinhando-se aos princípios constitucionais!", gritaram os juristas indignados com o novelo de artimanhas de uma legalidade meticulosamente construída para negar direitos. Contudo, nas margens dessa revolta modernizante, surgiu uma escola jacobina que prega a reforma social pelo Direito e, não por acaso, repete incessantemente o mantra da "carência de legitimidade" dos atuais parlamentos.

Os fundadores da arquitetura moderna queriam "mudar a cidade para transformar a sociedade". Os juristas jacobinos cultivam o mesmo sonho exagerado, mas escolheram a ferramenta do Direito, o que os coloca em rota de colisão com o poder encarregado de fazer as leis. Fachin não é petista, a não ser num sentido puramente circunstancial. Mais que um partido, precisa de alianças com o "povo organizado": movimentos sociais, entidades corporativas, ONGs. A reengenharia da ordem jurídica, por cima dos representantes eleitos, deve ser vista como produto da vontade da sociedade civil. Fachin compartilha com o PT o objetivo de anular os direitos do Congresso, isto é, do "povo desorganizado".

"Uma Constituição se faz Constituição no desenrolar de um processo constituinte material de índole permanente", pelo recurso a "ações afirmativas" e pelo "resgate de dívidas históricas", escreveu Fachin em 2011. A "revolução permanente" do Direito, pelo ativismo do jurista iluminado –eis o núcleo do seu pensamento. Numa sabatina intelectualmente preguiçosa, os senadores nem mesmo roçaram no tema relevante. Família? Propriedade? Não: Fachin quer transferir para "os juristas que têm lado" o mandato dos deputados e senadores. Alvaro Dias tem razão numa coisa: essa decisão "não é uma questão partidária".

O que falta?




Que falta nesta cidade? ... Verdade.
Que mais por sua desonra?... Honra.
Falta mais que se lhe ponha?... Vergonha.

O demo a viver se exponha,
Por mais que a fama a exalta,
Numa cidade onde falta
Verdade, honra, vergonha.

Quem a pôs neste socrócio? ... Negócio.
Quem causa tal perdição? ... Ambição.
E o maior desta loucura? ... Usura.

Notável desaventura
De um povo néscio e sandeu,
Que não sabe que o perdeu
Negócio, ambição, usura.


Epílogos - Gregório de Matos (século XVII)

A morte do cavalo inglês


Vem de décadas a historinha de que um inglês estabelecido numa cidadezinha do interior de Minas anunciou estar ensinando o seu cavalo a não comer, e a experiência e a economia vinham dando certo. Até que um dia o cavalo morreu de fome.

Assim parece desenvolver-se o ajuste fiscal. Até agora é o trabalhador que vem pagando a conta da dita recuperação da economia, com a redução do salário desemprego, do abono salarial, do auxílio doença, da ajuda aos pescadores artesanais, da supressão das pensões das viúvas com menos de 40 anos e de quantas maldades a mais?

Repete-se em parte o drama do cavalo do inglês, ainda que o trabalhador não deva morrer de fome: indignado, vai-se insurgir. São várias as formas de seu protesto, desde o panelaço à ocupação das ruas, à depredação de prédios do poder público e privado, à invasão do Congresso e à derrota do governo nas próximas eleições, no caso, se der tempo.

Falta percepção à presidente Dilma e ao PT para não ver a inversão de valores que começaram a praticar desde o dia seguinte da reeleição. Aderiram à solução elitista de que crises econômicas se combatem com o desemprego, a redução de salários, o corte nos investimentos sociais, o aumento de impostos, taxas, tarifas e do custo de vida. Nenhuma fórmula encontraram para penalizar os ricos e as elites. Não há sinal de corte, mesmo pequeno, no lucro dos bancos, ou do imposto sobre grandes fortunas e heranças milionárias. Muito menos da interrupção do fluxo de bilhões para o exterior, a título de remessa de lucros, especulação e lavagem de dinheiro. Continuaremos financiando com recursos do BNDES e do tesouro obras na África e na América Latina, ao tempo em que aqui a corrupção se amplia.

Se antes a vida já não estava fácil para o trabalhador em termos de emprego, habitação, alimentação, vestuário, transportes, educação, saúde e segurança, agora começa a tornar-se crítica. Uma gota que seja fará transbordar o copo. Pior é que por obra e graça daqueles que foram ao poder com o apoio das camadas menos favorecidas. Não dá para entender como o Partido dos Trabalhadores vota em peso as restrições aos desafortunados. Ou como Madame, em poucos meses, esqueceu as promessas de campanha e aderiu aos usos e costumes das elites.

Muito se teorizou sobre a rebelião das massas, mas agora que o comunismo saiu pelo ralo, há que aguardar um fator inusitado capaz de fazê-las explodir. Acontecerá tão certo quanto a morte por inanição do cavalo do inglês…

Pena segundo a quantidade

Ladrao de Galinha Homem preso reclama por que solto diferenca roubei granja voce Galinha

O governo já acabou, mas Dilma insiste em fingir que governa

A situação política no Brasil chegou a um ponto extravagante. A presidente Dilma Rousseff finge não ter sido eleita pela PT e se comporta como se não pertencesse ao partido. O ex-presidente Lula faz o contrário – defende desesperadamente o partido e tenta transparecer que não tem culpa de nenhum dos erros e malfeitos do governo. E o PT completa o enigma, fingindo não ter elegido Dilma Rousseff, criticando decisões do governo e prestigiando Lula em todos os sentidos. Pode-se até dizer, sem medo de errar, que nunca antes, na História deste país, se viu bagunça igual.

É claro que esta estranhíssima composição política não pode dar certo, pois mantém o clima sempre instável e agitado, com pancadas repentinas a qualquer momento e sem a menor possibilidade de melhorar no decorrer do período.

Reclusa no pequeno percurso entre os palácios da Alvorada e do Planalto, a presidente Dilma simplesmente abdicou de governar. Terceirizou a articulação política para Michel Temer (PMDB) e a condução da economia para Joaquim Levy (PSDB), deixando o resto de lado, só se preocupa com a dieta e as operações plásticas que a cada ano vão modificando suas feições.

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E não adianta a presidente Dilma aparecer no noticiário entregando casas populares, se reunindo com o Comitê Olímpico e visitando obras do metrô, numa patética tentativa de mostrar que o governo está funcionando, quando todos sabem que a administração pública ficou congelada pela crise, o imobilismo é contagiante.

O pior é tentar conduzir o governo sem maioria no Congresso. Isso jamais funciona. Foi assim que João Goulart, Jânio Quadros e Fernando Collor se estabancaram. É para isso que servem o PMDB, o PP, o PCdoB, o PTB, o PV e até o PDT. Eles sempre dão um jeito de apoiar o governo, qualquer governo, para arrancar a parte que julgam lhes caber no latifúndio administrativo. Mas quando o governo fica enfraquecido, a base aliada logo se desfaz. Não adianta esse festival de nomeações dos últimos dias. É nuvem passageira.

Lula sempre esteve ciente desta necessidade e foi por isso que mandou criar o mensalão, o petrolão e os demais esquemas de arrecadação de propinas e utilização de recursos públicos que chegaram a envolver praticamente toda a administração federal direta e indireta, conforme vai ficando cada vez mais claro nas denúncias reveladas diariamente pela mídia. Mas a fonte secou e nenhum governo consegue se sustentar em meio a uma crise tão corrosiva.

A aceitação do advogado Fachin para o Supremo e a desajustada aprovação do ajuste fiscal pouco significam, apenas vitórias efêmeras. A realidade é que este governo acabou antes mesmo de começar, embora a oposição seja fraquíssima e até mesmo inoperante. Neste quadro, a ainda presidente Dilma Rousseff sabe que tem um encontro marcado com o fracasso. A única dúvida é saber por quanto tempo ela seguirá fingindo que está governando.

Dilma talvez esteja se mirando no exemplo da Bélgica, que recentemente ficou alguns anos sem governante. Ninguém sentiu falta e o país seguiu em frente, sem ter primeiro-ministro. Mas acontece que na Bélgica a administração pública funciona, cada um sabe que tem de cumprir seu dever, enquanto no Brasil…

Ou a falta de

O caráter foi substituído pelo ego, e o exercício da autoridade como reflexo do caráter foi substituído pela retenção do poder por todos os meios possíveis, a despeito de todas as probabilidades.
Julian Barnes

Brasil se tornou o país do crime institucionalizado

É o governo brasileiro que provoca as distorções da economia. Um exemplo disso ocorre com a reserva de mercado (outra distorção econômica) para a indústria cimenteira brasileira. O governo garantiu a reserva de mercado para a indústria de Antônio Ermírio de Moraes, o que tornou o produto, aqui no país, sempre mais caro que em outros países. No Peru, país vizinho nosso, o cimento é produzido com a mesma qualidade da nossa indústria nacional, porém, sai para o consumidor daquele país por um terço do preço praticado aqui no Brasil.

No Brasil o setor público, através de políticas às avessas, se especializou em criar dificuldades para vender facilidades. E nenhum grupo político se interessou em mudar a maquiavélica dinâmica, justamente porque tal sistemática tem o condão de beneficiar os grupos políticos que se intercambiam no poder.

Um exemplo bem nítido disso que falamos ocorre com o sistema tributário. Sabemos que o sistema brasileiro é profundamente injusto, pois penaliza os mais pobres e beneficia os que possuem maior poder de barganha. Nosso sistema tributário, de uma maneira geral, pode ser chamado de regressivo, acentuando ainda mais o problema da distribuição de renda no país.

Sobre as pessoas jurídicas, não é diferente. A arrecadação tributária é sustentada pela cadeia das micro e pequenas empresas, pois, as grandes empresas são beneficiadas com tratamento tributário diferenciado: seja com a simples isenção do imposto, seja com a redução da base de cálculo do ,ue pode chegar a mais de 80% do tributo. Além disso, é muito comum o Estado oferecer subsídios a estas grandes empresas com financiamentos subsidiados.

Se as grandes empresas caem na malha fina ou em alguma fiscalização tributária mais acurada, seus processos, com lançamento tributário justificados em multas por infração, são arremetidos para os Tribunais Administrativos de Tributos dos respectivos entes federativos e lá, garantidamente, ganham as causas em prejuízo do ente federativo a que pertencem e da União.

Não nos esqueçamos, também, de que a política de empréstimos do nosso banco de fomento – o BNDES – também demonstra a perversidade e o grau de interferência do Estado Brasileiro em nossa economia, quando vemos que 60% dos recursos do banco são direcionados às empresas de grande porte e o restante às empresas micro e pequenas empresas, quando o mínimo que se poderia esperar era a inversão desta lógica, uma vez que mais de 80% dos postos de trabalho da economia nacional são ofertados pelas micro e pequenas empresas.

Vemos assim que a interferência estatal na economia brasileira guarda ao menos duas estratégias perversas, que são: 1) criar dificuldades para vender facilidades aos grupos políticos que se revezam no poder; e 2) garantir a vantagem econômica a esses grupos políticos e seus negócios.

Não é à toa que tudo o que é fabricado no Brasil sai muito mais caro do que o similar produzido em países que gozam da liberdade econômica que aqui não temos. Louco é o brasileiro que quer empreender e abre um negócio neste país sem antes ter-se garantido o necessário apadrinhamento político.

No Brasil, a interferência estatal na economia é puramente proposital e dotada da mais profunda má-fé. Pode ser considerada criminosa, mesmo, porque o Brasil é o país do crime institucionalizado, que funciona dentro da própria administração pública.

Desejos perigosos

Alguém deveria avisar ao PT para tomar cuidado com os seus desejos — porque eles podem se realizar

Não é preciso ser um Lacan do Leblon para saber que o ser humano é uma máquina de desejar. E insaciável: quanto mais come, mais fome tem, muitas vezes nem sabe do quê, mas não para de desejar. Qualquer guru de araque sabe que é aí que nascem todos os nossos sofrimentos. Por não ter, ou não ter mais, pelo medo de perder, pela inveja de quem tem, por não saber o que quer. Movido a desejo, o ser humano atropela leis e éticas, amores e amizades, vergonhas e ridículos, mostrando o que é.

Alguém deveria avisar ao PT para tomar cuidado com os seus desejos — porque eles podem se realizar. Como uma Constituinte exclusiva para fazer a reforma política. Se Eduardo Cunha, só para sacanear, resolver convocá-la, é óbvio que a maior vítima será o PT, que elegerá uma microbancada do tamanho da popularidade de Dilma. O PMDB, a “direita” e os “conservadores” colocarão as facas e os queijos nas mãos dos ratos para fazerem a reforma que lhes for mais lucrativa.

O PT sempre desejou o financiamento público das campanhas, para ficar com as maiores verbas e manter o poder, mas depois de tudo o que está acontecendo, quem teria a ousadia de pedir mais dinheiro ao contribuinte para financiar as campanhas de partidos que são vistos pela população como balcões de negócios e quadrilhas para assaltar o Estado? Mas como o governo e o Congresso triplicaram os fundos partidários para quase um bilhão de reais por ano e eles ainda contam com o horário “gratuito” de rádio e TV para usar e negociar entre eles, o financiamento público já é uma realidade. Mas eles desejam mais... rsrs

Os que sonham com o impeachment de Dilma devem lembrar que, mesmo se baseado em processos legais legítimos e provas irrefutáveis, provocará traumas e convulsões graves e ruins para todos, dando a Dilma, Lula e o PT o papel de vítimas, e entregando nosso destino a Michel Temer, Renan Calheiros e Eduardo Cunha. Como dizia Paulo Salim Maluf, com seu sotaque inconfundível, não adianta trocar de mosca, precisamos é sair da merda.

Meu maior desejo é desejar cada vez menos e aceitar a vida como ela é. E que Deus tenha piedade do Brasil.

sexta-feira, 15 de maio de 2015

O PT e a infalibilidade

Partido foi aos poucos adotando o modelo econômico que estava no seu programa original, com intervenção estatal, expansão desmensurada do gasto público
As falhas inerentes ao ser humano nos atormentam desde os tempos mais remotos. Para os que não conseguem conviver com tal realidade, a infalibilidade, pessoal ou doutrinária, aparece como um antídoto que torna possível a negação de fatos evidentes. Esse antídoto foi utilizado pelos faraós do Egito, que avocaram para si o título de infalíveis, e pelos papas da Igreja Católica, que eram infalíveis no tocante à interpretação do que seria a vontade de Deus servindo-se de um arcabouço teológico e doutrinário.

No mundo moderno, a infalibilidade no campo das doutrinas políticas foi o estado de espírito que animou os regimes totalitários nazista e comunista. Hitler, apoiado na mitologia pangermânica, acreditava-se imbuído da missão de resgatar uma raça pura e superior a todas as demais raças. Em nome dessa missão caberia, não somente ao aparato paramilitar da SS, mas também aos seus “carrascos voluntários”, eliminar de forma sistematizada judeus, deficientes físicos, homossexuais, ciganos etc., com o objetivo de construir um Reich de mil anos. De outro lado, o totalitarismo comunista, ao apresentar-se como redentor das classes oprimidas, tratou de aniquilar, e com uma forma mais sofisticada que o nazismo, todos aqueles que possuíam uma identidade coletiva que pudesse estar em desacordo com o novo “homem soviético”. A infalibilidade doutrinária nazista e comunista se baseou e ainda se baseia na negação da História e na negação de falhas na concepção filosófica. Neonazistas contemporâneos negam o holocausto. A esquerda, principalmente depois da revelação dos crimes cometidos pelo stalinismo, negou que o socialismo real tenha sido fiel à doutrina marxista, assim como o Papa Bento XVI tentou recentemente revigorar a Igreja Católica buscando o núcleo duro da teologia produzido por doutrinadores como Santo Agostinho.

De forma mais atenuada, o PT vive esse dilema — digo atenuada porque seria um exagero atribuir a este partido o rótulo de totalitário —, que consiste em tentar atribuir sua crise atual a um desvio das suas origens como partido de classe. Esse caminho de busca pelas origens demonstra que as falhas não estão na concepção filosófica original, e sim no afastamento delas.

Já foi apontada por uma vasta literatura a originalidade representada pelo PT no cenário partidário brasileiro do final do regime militar. Partido formado por laços orgânicos em que se abrigaram sindicalistas, Comunidades Eclesiais de Base e intelectuais, o PT lutou contra a ditadura, mas sempre se mostrou arredio com relação à adesão às regras do jogo democrático. A “democracia representativa” ou a “democracia burguesa” era vista como um instrumento para alcançar uma democracia substantiva, o que unia na legenda uma multiplicidade de vertentes marxistas.

Após três derrotas consecutivas nas eleições presidenciais, sob o comando de José Dirceu, o PT fez uma inflexão ao centro e lança mão da “Carta ao povo brasileiro” e busca uma aliança “estratégica” com setores da direita que foram apoiadores do regime militar. Com o escândalo do mensalão, logo se percebeu que essa inflexão ao centro era meramente uma estratégia eleitoral. O PT, com seu desprezo pelo jogo democrático, usou da corrupção das instituições representativas para não precisar partilhar o poder. Com o escândalo denunciado de dentro, e com um quadro econômico favorável, o PT foi aos poucos adotando o modelo econômico que estava no seu programa original, com intervenção estatal, expansão desmensurada do gasto público e o desmantelamento das agências reguladoras. E ainda, fazendo jus à megalomania populista, lançou mão da construção de “estranhas catedrais”.

Hoje, com a má gestão da economia, associada a sucessivos escândalos de desvio de dinheiro público, o PT ensaia o discurso da volta às origens. Mais uma vez, não foi a doutrina filosófica que falhou, mas sim o suposto desvio. O estranho nessa história é que, no campo político, o PT nunca teve “duas almas” e, no campo econômico, o que deu errado foi exatamente a adoção de concepções que já eram do partido. Se há infalibilidade da doutrina, o jeito é negar a realidade, custe o que custar.
Gustavo Müller 

Ministro da incógnita

 
(Luiz Edson) Fachin, apoiado incondicionalmente pela pátria paranaense, tanto a da oposição como a da situação, mostrou-se um talentoso alquimista, que não fecha questão nem a favor, nem contra e nem muito pelo contrário. É bem possível que, apesar das resistências do Senado, acabe sendo aprovado no dia 19, sem que consigamos saber se o STF terá um juiz que respeitará a letra da Constituição ou mais um malabarista do Direito achado nas ruas.
 Sandro Vaia 

'Você disse? Foi mal? Desdiga'

Dizem que palavras o vento leva. É nada. Sem um bom desmentido, elas permanecem... Por isso, desmentir é imprescindível



Em 12/8/2005, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a respeito das revelações sobre o Mensalão,declarou em rede nacional estar ciente da gravidade da situação, que se sentia traído e que não tinha nenhuma vergonha de dizer ao povo brasileiro: “nós temos que pedir desculpas. O PT tem que pedir desculpas”.
O tempo fluiu e Lula sentiu-se forte a ponto de dizer que o Mensalão era uma farsa e que ele ia se dedicar a provar essa afirmação...

Para mim, foi nesse ponto que à era da mediocridade em que vivíamos juntou-se a moda dos desmentidos. Parece que o lema que domina o primeiro quartel do século 21 é “Não foi bem isso que eu quis dizer”.

Semana que vem o Senado Federal vai sabatinar o dr. Luiz Fachin indicado por dona Dilma para o Supremo Tribunal Federal. Ele votou em Dilma Rousseff, para imensa tristeza de sua mulher, a desembargadora Rosa Fachin. Segundo a seção Painel da Folha de S. Paulo de ontem, 14 de maio, ela “chorou uma semana” ao saber que seu marido decidira votar em Dilma Rousseff.

Nada como um dia atrás do outro, não é mesmo? O dr. Fachin, além de suas inúmeras qualidades como jurista, tem em seu currículo um vídeo onde lê um manifesto enaltecendo as qualidades de Dilma Rousseff para presidente em 2010; defendeu uma tese um tanto ou quanto esdrúxula sobre a poligamia (“não é questão de Justiça, mas de foro íntimo”) e o direito dos militantes do MST a terras não produtivas.

Em 12 de maio, na sabatina da Comissão de Constituição e Justiça do Senado, ele não disse que não é petista, não, não disse. Mas também não disse se é ou já foi petista. Apenas declarou que convidado a fazer a leitura do manifesto pró-Dilma, não se furtou: “Era um manifesto que havia assinado”.

Sobre a família: “A família, base da sociedade, e portanto também base do Estado, tem seu assento na base da Constituição. Nem mais nem menos. Esteja de acordo ou não. A Constituição é nosso limite”. Detalhe: diferente do prefácio que assinou para o livro “Da Monogamia – A sua Superação como Princípio Estruturante do Direito de Família”, livro que apoia o fim da monogamia.

E sobre o direito à propriedade, Fachin renegou o que dissera a respeito? Não, limitou-se a evocar a Constituição. Copio aqui boa frase do jornalista Reinaldo Azevedo sobre o assunto: “(Ele) escondeu-se na Constituição para esconder o próprio pensamento”.

Essa moda já ultrapassou fronteiras. No livro dos jornalistas uruguaios Andrés Danza e Ernesto Tulbovitz, “Uma ovelha negra no poder”, aparece uma conversa de peito aberto entre Lula e Pepe Mujica, quando o brasileiro se queixa: “Neste mundo tive que lidar com muitas coisas imorais, chantagens. (...) Essa era a única forma de governar o Brasil”.

Pegou mal a indiscrição de Mujica. Consultado pelo jornal El País, Mujica disse que nunca falou com um brasileiro sobre o mensalão. “O que acontece é que não fui eu quem escreveu o livro”.

E continuou a autografar os exemplares no Salão Azul da IMM (Intendencia de Montevideo).

Tomaram, ‘periodistas’?

Hood Robin, patrono do ajuste fiscal

Ajuste fiscal Dilma Viuva estudante aposentado Mendigo soco de dinheiro nas costas

Acaba de ganhar um patrono o ajuste fiscal caracterizado pela supressão de direitos trabalhistas: é o Hood Robin, que ao contrário do Robin Hood, não tira dos ricos para dar aos pobres, mas inverte a equação. Tira dos pobres para dar aos ricos.

As medidas provisórias 665 e 664, aprovadas pela Câmara dos Deputados, configuram uma ode à traição, praticada não apenas pela presidente da República, mas pelo PT e a maioria dos partidos da base oficial. Não há como evitar a comparação de haver a Praça dos Três Poderes se transformado no reino do João Sem Terra, ou melhor, no império de Dilma Sem Palavra. Porque Madame jurou, na campanha eleitoral, que todos os direitos trabalhistas seriam preservados. O resultado aí está, com a fatura dos desvarios econômicos do primeiro mandato sendo enviada aos mesmos de sempre. O trabalhador perde boa parte do seguro-desemprego do abono salarial. Fica impossibilitado de pleitear pensões por morte do cônjuge se for jovem e tiver sido casado há menos de dois anos.

Trata-se de um esbulho incapaz de ser compensado por alterações no fator previdenciário, mero expediente dos asseclas do sherife de Nottinghan instalados na Floresta de Sherwood para confundir os incautos, tanto que Dilma mandou anunciar seu veto a matéria aprovada.

O irônico nessa invertida história de horror é que o Ricardo Coração de Leão, no caso, o Lula, virou Luiz Fígado de Gatinho. O ex-presidente apoiou, em vez de protestar contra a redução de direitos trabalhistas. Se já foi guerreiro e trabalhador, agora é algoz de seus antigos liderados.

Razão mesmo parece estar com o antípoda do Tiririca, porque fica pior, sim senhor, a cada dia que a equipe econômica inventa novos expedientes para equilibrar a recessão. Ainda agora Joaquim Levy acaba de aquinhoar o BNDES com 50 bilhões de reais para continuar emprestando aos poderosos.

Em suma, como disse um deputado da oposição, a maldade é uma arte…

Ação contra a criminalidade


Uma vez eu estava em Nova York e ouvi uma palestra sobre a construção de prisões particulares – uma ampla indústria em crescimento nos Estados Unidos. A indústria de prisões precisa planejar o seu futuro crescimento – quantas celas precisarão? Quantos prisioneiros teremos daqui a 15 anos? E eles descobriram que poderiam prever isso muito facilmente, usando um algoritmo bastante simples, baseado em perguntar a porcentagem de crianças entre 10 e 11 anos que não conseguiam ler. E certamente não conseguiam ler por prazer.
Neil Gaiman: "Por que nosso futuro depende de bibliotecas, de leitura e de sonhar acordado"

Cinco lições à América Latina do maior ranking global de educação

Estudo vê relação entre desempenho econômico de um país e a qualidade de seu ensino

"O futuro da América Latina realmente depende do que acontece em suas escolas"

Eric Hanushek, professor da Universidade de Stanford (EUA) e um dos mais respeitados acadêmicos especializados em Educação, é um dos autores do novo relatório internacional que mostra, mais uma vez, o enorme abismo entre os estudantes latino-americanos e os do leste asiático.

O ranking divulgado na quarta-feira pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), o mais amplo publicado até agora, compara o desempenho de estudantes em Matemática e Ciências em 76 países, com base nos testes internacionais, como o PISA.

Com o excelente desempenho de seus estudantes, Cingapura lidera o ranking, seguida por Hong Kong, Coreia do Sul, Japão e Taiwan.

O Brasil está na 60ª posição, atrás de outros latino-americanos como Chile, México e Costa Rica e um pouco melhor do que Argentina e Colômbia.

Mas o relatório vai mais além do ranking e vincula a educação em cada país ao futuro de sua economia.


Qual seria o crescimento econômico de países da região se seus estudantes alcançassem um nível básico de desempenho em Matemática e Ciências?
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A desordem é geral: Faltam recursos para tudo no país


Estão faltando recursos para a saúde, educação, para o financiamento de imóveis pela Caixa Econômica, a Pricewaterhouse descobriu falhas no controle da Petrobrás. Todos esses fatos demonstram a existência de uma desordem generalizada, tanto no governo federal quanto no governo do estado do Rio de Janeiro, por exemplo. Reportagem de Gisele Ouchana e Gustavo Schimit, publicada na edição de ontem de O Globo, assinala que dívidas não pagas no montante de 350 milhões pelo Palácio Guanabara causaram a suspensão dos serviços de limpeza, manutenção e fornecimento de insumos aos hospitais do estado.

Na mesma edição, Paula Ferreira e Tiago Jansen revelam que a Universidade Federal Fluminense e o Colégio Pedro II suspenderam o fornecimento de alimentação. Problemas também estão atingindo fortemente a Universidade Federal do Rio de Janeiro. Enquanto isso o ministro da Educação Renato Janine Ribeiro revela que não há recursos do FIES para assegurar a matrícula de 178 mil alunos nas Universidades já no primeiro semestre. E, quanto ao segundo semestre, ele nada pode confirmar, pois necessita da liberação de recursos orçamentários.

O orçamento para 2015 foi finalmente assinado pela presidente Dilma Rousseff, através da Lei 1.315, cujo montante se eleva a 2,9 trilhões de reais, um pouco acima do total da lei de meios de 2014, que foi de 2,6 trilhões. Impressiona que o orçamento para este ano tenha sido sancionado sem a respectiva previsão dos desembolsos em relação ao programa de financiamento do ensino. Mas que fazer? Diante da falta de previsão e provavelmente de provisão o remédio é esperar que seja traçado um rumo mais concreto para o projeto que o próprio governo criou.

Os 178 mil alunos terão que aguardar os acontecimentos e os desdobramentos do desafio financeiro que se coloca à frente da mesa tanto do titular da Educação quanto da presidente da República. Aguardar também é o que a Caixa Econômica Federal está informando aos candidatos a financiamento para compra de casa própria, conforme a reportagem de Renan Marra, Toni Sciareta e Eduardo Cucolo, publicada ontem dia 13 na Folha de São Paulo. A Caixa criou uma fila de espera sustentando a existência de problemas decorrentes do fato de os saques nas Cadernetas de Poupança terem superado os depósitos.

A Caixa Econômica afirma não ter suspendido a concessão dos créditos, mas que a interrupção é consequência dos ajustes nas fontes de recurso e nas taxas dos empréstimos. Outro problema, acrescento eu, é reflexo da queda do nível de emprego, e do salário, pois o fundo de garantia também depende da ampliação do mercado de trabalho e da manutenção dos níveis salariais. Voltando à orientação da CEF, a partir de março, acentua a Folha, os pedidos de financiamento são analisados caso a caso.

Acrescentando ao problema geral que está envolvendo o país, Vinicius Sassine e Jailtom de Carvalho,em reportagem de O Globo de ontem, revelam que a Pricewaterhouse alertou o Conselho de Administração da Petrobrás, em reunião realizada a 22 de abril, quando a estatal divulgou o balanço do ano passado, advertindo que ainda existem falhas no sistema de controle da empresa. Auditores identificaram brechas no sistema de fiscalização interna, ressaltando que o ambiente na empresa é “pouco favorável a pessoas que queiram fazer denúncias”.

Os auditores da Pricewaterhouse preveniram que existem ainda focos que não permitem que as ações corretivas operem de maneira efetiva. Como se constata, a desorganização tomou conta do governo federal, do governo do Rio de Janeiro e também do governo do Paraná, pela crise aberta pela violência contra os professores, que levou o governador Beto Richa a ter de afastar Secretários Estaduais e se afirmar vítima dos acontecimentos. Tanto assim que afirmou que ninguém sofreu mais do que ele pelo que sucedeu nas ruas de Curitiba e nas imediações do Palácio Iguaçu. Assim também é demais.

A desorganização e a desordem causada por falta de liderança política e de ação administrativa têm limites. Porém, no Brasil, verifica-se que os limites da incompetência estão sendo ultrapassados. Velozmente.

Lição dos jovens aos congressistas

Desde o dia 16 de abril, um grupo jovens caminha ao longo dos 1,1 mil km que separam Brasília da cidade de São Paulo, de onde partiram. Junto com a bandeira do Brasil, levam faixas e cartazes pedindo o impeachment da presidente. Proclamam "Fora Dilma!" e "Fora PT!".


A marcha, de 33 dias, segue pelo acostamento das rodovias e vai sendo aclamada pelos que passam e pelos moradores das cidades por onde transitam. Os caminhantes têm pés de romeiros, corações de guerreiros e amor à pátria. Anima-os um amor verdadeiro ao Brasil, amor virtuoso, que se submete ao sacrifício da intempérie, que vence o cansaço, que desconhece desânimo e que não olha para trás. Aqui ou ali, os exércitos de Stédile ladram enquanto sua caravana passa, na chuva e no sol, por vezes noite adentro.

A marcha cresce, em grandeza e significado, a cada repórter que não reporta, cada fotógrafo que não clica ou noticiário que não noticia. Os grandes gestos se tornam ainda maiores quando ocultados por quem os deveria divulgar. Entende-se. Há neles uma grandeza que oprime e constrange os acomodados e os acumpliciados.

Queridos leitores destas linhas. Feliz a Pátria que gerou tais filhos! Que lição esplêndida, a juventude brasileira vem proporcionando à Nação nos últimos meses! Foram eles, os jovens, rapazes e moças, que levaram milhões às ruas nas grandes demonstrações de março e abril. Nenhum era nascido quando o PT surgiu. A maioria sequer se equilibrava em skate quando Lula foi eleito. Mas descobriram, em poucos anos, algo que a imensa maioria da população levou três décadas para ficar sabendo. E trataram de agir. Hoje, marcham pelo Brasil. Ensinam civismo aos Congressistas. Representam-nos ante os que nos deveriam representar. Falam pelos que calam, embora devessem falar. Cobram das instituições o cumprimento de seu dever.

Pare um momento, leitor, e faça uma oração por eles. Agradeça a Deus pedindo que o Senhor guie seus passos. E divulgue o que estão fazendo. Quem puder, esteja com eles em Brasília no dia 27. O Brasil precisa saber que, malgrado a omissão dos omissos, apesar da penumbra que encobre em mistérios e silêncios os bastidores das instituições, há neste país rapazes e moças que iluminam o futuro com suas presenças.

Percival Puggina 

quinta-feira, 14 de maio de 2015

Mais e mais paciência


O segundo panelaço do ano é uma pancada na cabeça do PT. Certo. Mas de qual PT? Pois, agora, é assim: temos o PT de Lula; o PT de Dilma, que pode ser confundido com o governo; o PT dos sonhos, defendido por algumas figuras icônicas da intelectualidade brasileira, e o PT de fato, que reúne todos em uma sigla desnorteada e gera “desertores” como Marta Suplicy e “desolados” como Aloizio Mercadante.

A verdade é que o panelaço acertou todos os petistas, incluindo os de bom coração e os honestos, que se sangram ao ter que sair em defesa do indefensável.

Mas quem se beneficia da sangria deste PT de outro mundo? O PSDB? Mas qual PSDB? Pois, agora, também é assim: temos o PSDB do Aécio, que imagina um impeachment da presidente; o PSDB do Alckmin, que se vira para evitar desgaste e torce para que o aliado mineiro tropece, e o PSDB de FHC, que possibilita coisas estranhas, como se associar ao PT para defender as mesmas coisas. Como o PT, tem ainda o PSDB de fato, que reúne todos os outros e que só sabe que não sabe mesmo o que vai fazer.

Pode-se dizer também que a crise de governabilidade de Dilma e um Lula cada vez mais enfraquecido, além deste PSDB estonteado, beneficiem o PMDB. Mas qual PMDB? Pois, desde sempre, foi assim: existe o PMDB do “bem” e do “mal”, com agravantes, pois, agora, existe o PMDB de Cunha, o de Calheiros e o de Temer. Ah, claro! Existe o PMDB de fato, o que reúne todos os outros e que vai seguindo com seu eterno e “indispensável” fisiologismo.

Com as três principais forças políticas do Brasil tomadas por surtos esquizofrênicos, o que dizer então da economia em frangalhos, do desemprego em alta, das fábricas quase parando e do custo de vida aumentando?

Apesar de parecer, o país não está do lado avesso. Pelo contrário, ele está sendo colocado do lado certo, com empreiteiros sendo presos, escândalos descobertos e uma profusão de democracia, apesar de algumas recaídas (vide agressões aos professores no Paraná), capazes de estabelecer uma nova (des) ordem social. É um novo tempo.

A carência é do advento de uma liderança, como ocorria em outros tempos, capaz de se estabelecer sobre PT, PSDB e PMDB ou aglutinar o melhor de cada uma dessas legendas.

Certamente, ela existe e não é messiânica. Também não está entre os atuais lobos e falsos cordeiros. É preciso que novos lobinhos e cordeirinhos se apresentem para que a população se acalme e o país do futuro que nunca chega tenha ao menos um pouco de tranquilidade para mudar algumas coisinhas e continuar o mesmo, rumando para dias melhores com pernas curtas, passos de tartaruga e muita, mas muita paciência de sua gente.

Só falta revogar a Lei Áurea

Charge O Tempo 11/05
Conduz a uma conclusão a confiança do governo na aprovação pela Câmara da medida provisória 664, extinguindo pensões das viúvas com menos de 40 anos: os partidos da base oficial, os independentes e até alguns oposicionistas rezaram a Oração de São Francisco. Michel Temer fez o dever de casa, acertando com deputados e seus líderes nomeações para as presidências e diretorias da Eletrosul, a Eletronuclear, a Eletrobras, as Docas do Rio de Janeiro, a Codevasp, a Chesf, a Conab, a Casa da Moeda, a Susep, o Banco do Brasil e montes de outras importantes funções em outras empresas subordinadas ao Poder Executivo. Uma orgia desenfreada que levará o Congresso a aprovar até mesmo a revogação da Lei Áurea, por sinal transcorrido ontem o aniversário de sua assinatura.

Um horror. Uma vergonha que marcará a atual Legislatura conforme vaticínio do dr. Ulysses: “pior do que o atual Congresso, só o próximo”. A medida provisória 664 iguala-se à 665, já aprovada, que reduz o seguro-desemprego e o abono salarial. A 666, ainda desconhecida, certamente entronizará a “besta” no país, confirmando o apocalipse.

Uma consequência de mais essa maldade contra os trabalhadores, em nome da recuperação econômica, podia ser identificada ontem nas galerias da Câmara, onde se postavam representantes das centrais sindicais, inclusive a CUT: a rejeição ao PT. Antes gêmeos siameses, o partido e as organizações sindicais entraram em rota de colisão, por conta de os companheiros haverem votado em peso na nova supressão de direitos sociais. O divórcio litigioso está caracterizado, prestes a transformar-se em conflito.

Fica clara a deserção do Partido dos Trabalhadores diante do elenco de seus antigos ideais. Não apenas o partido trai suas bases, pois PMDB, PP, PTB e penduricalhos também deram as costas a seus eleitores, obviamente em agradecimento às nomeações. Por falar nelas, haverá que indagar: qual dos agraciados terá um mínimo de conhecimento e competência a respeito dos setores que passam a integrar e dirigir? Saltam de paraquedas para cair na caverna do Ali Babá. Providenciarão múltiplos “petrolinhos” para encher os cofres de suas legendas, já estando as empreiteiras a postos.

O pior nessa novela de vampiros, lobisomens e mulas sem cabeça está em que tudo acontece sob a coordenação do governo, ou seja, da presidente Dilma. Sem o aval de Madame nada se faria. Benesses, favores e sinecuras passam por seu gabinete de despachos.

Um toque de humor foi dado pelo senador Magno Malta, durante a longa sabatina do jurista Luiz Fachin, ao lembrar incongruências das leis penais. Se um cidadão dá um pontapé num cachorro, será condenado a sete anos de cadeia. Agora, se der um soco no dono do cachorro, sua pena não passará de seis meses…

Isso ainda não é democracia

O único caminho possível para a democracia plena é a existência de cidadãos capazes de refletir e expressar opiniões sobre a realidade. Um povo ignorante é um povo submisso
 

Embora comungue com as ideias liberais dos especialistas que advogam uma flexibilidade em relação ao uso da norma culta da língua, é estarrecedor constatar que estamos formando toda uma geração de pessoas incapazes de se expressar por meio da palavra escrita. Na última prova do Enem, de 6,2 milhões de inscritos, 529 mil, ou seja, 8,5%, tiraram zero em redação – 280 mil simplesmente entregaram a prova em branco, enquanto outros 249 mil escreveram textos incompreensíveis... Apenas 250 pessoas, 0,004% do total, conseguiram a nota máxima. No geral, a média de 2014 foi 10% menor que a do ano anterior.

No PISA, programa internacional que examina de três em três anos onível educacional de jovens de 15 anos dos 65 países membros da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico, o Brasil ocupa o 55º lugar no ranking de leitura. Segundo o resultado da última avaliação, metade dos alunos brasileiros não é capaz de deduzir informações de um texto, de estabelecer relações entre suas diferentes partes e de compreender nuances de linguagem.

Não é diverso, infelizmente, o cenário no ensino superior. Uma pesquisa realizada em 2012 pela Universidade Católica de Brasília com 800 estudantes de seis diferentes cursos de quatro instituições concluiu que 50% deles eram analfabetos funcionais – resultado parecido ao do Instituto Paulo Montenegro e da ONG Ação Educativa que, numa amostra nacional com duas mil pessoas, averiguou que 38% dos entrevistados não têm capacidade de interpretar o que leem. Os estudantes chegam à universidade sem possuir hábitos de estudo, pois aprendem o conteúdo formal de maneira rasa, decoram ao invés de aprender.

Essa tragédia, que atinge principalmente, mas não só, a população de baixa renda, resulta de um longo processo histórico conduzido por nossa elite burra, que sempre viu nos livros uma ameaça à manutenção de seus privilégios. Até 1808, quando a família real portuguesa se refugia no Brasil, sequer possuíamos imprensa, e saber ler soava subversivo. As nossas primeiras universidades datam do começo do século XX e foram, e continuam a ser, território exclusivo da classe dirigente – por isso, a resistência feroz ao estabelecimento de cotas raciais e sociais nas instituições públicas.


Não há e nunca houve no Brasil tentativas sérias de combater a ignorância. Direita e esquerda servem-se igualmente dela para permanecer no poder

Democracia não é o regime em que de tempos em tempos a população encaminha-se às urnas para escolher seus governantes. Essa é apenas a forma externa e protocolar do exercício do voto. Democracia é o sistema no qual os cidadãos, de maneira responsável e livre, refletem sobre os rumos mais adequados para a convergência do interesse coletivo, assumindo cada um sua parcela para a realização desse objetivo. Algo que só se consegue quando temos autoconsciência, ou seja, quando sabemos quem nós somos no mundo.

Mais triste que um país que tem desprezo pela cultura letrada é o país que se orgulha desse desprezo, como é o nosso. Não há e nunca houve no Brasil tentativas sérias de combater a ignorância. Direita e esquerda servem-se igualmente dela para permanecer no poder, seja político, econômico ou intelectual. E assim vamos perpetuando uma realidade cada dia mais dura, alicerçada na desigualdade social, na violência urbana, no machismo, no racismo, no desrespeito ao meio ambiente, na degradação moral, enfim, no desamparo a que estamos todos sujeitos, individual e coletivamente.

A educação no Brasil não é direito, mas privilégio desfrutado por uma reduzida parcela da população – à grande maioria é oferecida apenas a instrução necessária para garantir o precário funcionamento do sistema. Ora, o único caminho possível para a democracia plena é a existência de cidadãos capazes de refletir e expressar opiniões sobre a realidade. Um povo ignorante é um povo submisso – submisso na resignação, submisso na revolta. Conhecimento gera empatia, que é a capacidade de nos colocar no lugar do outro; conhecimento alimenta a imaginação, faculdade de sonhar outras vidas. No Brasil, enquanto não houver educação de qualidade para todos não podemos falar em democracia. Por enquanto, o que temos é uma ignóbil oligarquia, termo que significa literalmente “governo de poucos” – uma elite, política, econômica e intelectual, que manda e desmanda assentada na ignorância da maioria.