segunda-feira, 15 de junho de 2026

Inteligência artificial, crédito privado e o retorno do capital fictício

A economia mundial atravessa uma zona histórica de instabilidade que já não pode ser compreendida apenas pelas categorias tradicionais de recessão, inflação ou ciclo financeiro. Há algo mais profundo em curso: uma crise de reprodução do próprio modelo de acumulação capitalista, cuja capacidade de produzir riqueza permanece enorme, mas cuja capacidade de distribuir estabilidade, segurança social, emprego digno e futuro coletivo se mostra cada vez mais reduzida. O capitalismo não está paralisado; ao contrário, move-se intensamente. Mas move-se por meio de contradições crescentes: concentração, financeirização, endividamento, guerra, precarização do trabalho, bolhas tecnológicas, adoecimento psíquico e destruição ecológica.

A próxima crise do capital talvez não comece com a imagem clássica de operadores financeiros em pânico, telas vermelhas e manchetes anunciando a queda de um banco sistêmico. Talvez ela já tenha começado em lugares mais silenciosos: no jovem norte-americano que trabalha, recebe salário e ainda assim não consegue pagar aluguel, comida, transporte, saúde e dívidas; na família europeia que calcula se ainda conseguirá permanecer na própria casa; no trabalhador que adia consulta médica; na juventude que retorna ao quarto dos pais porque a independência se tornou economicamente impossível; no adulto que já não sonha com ascensão social, mas apenas com sobreviver ao mês seguinte.

Esses acontecimentos, aparentemente privados, são sinais públicos de uma crise histórica. A economia mundial ainda é narrada por indicadores agregados – PIB, inflação, juros, bolsas, endividamento, produtividade e comércio internacional –, mas a crise real aparece antes no corpo social. Ela aparece quando o salário deixa de sustentar a vida, quando a moradia se converte em ativo financeiro antes de ser direito humano, quando a juventude perde a perspectiva de futuro e quando o progresso tecnológico convive com o adoecimento psicopatológico de quem trabalha.

O dado mais revelador do presente não é a existência isolada de uma bolha, mas a convergência entre baixo crescimento global, valuations elevados, crédito opaco, concentração monopolista, promessa tecnológica inflada e deterioração das condições concretas de reprodução da vida. Em 2008, a crise nasceu da transformação da moradia popular endividada em ativo financeiro global. Agora, a crise que se anuncia parece nascer de outra forma de promessa: a expectativa de que a inteligência artificial produzirá lucros futuros tão extraordinários que justificariam a valorização presente de grandes conglomerados tecnológicos, fundos, semicondutores, data centers, empresas de energia, plataformas digitais e estruturas de crédito conectadas a esse novo ciclo.

A semelhança com os subprime não está no ativo específico. Não se trata, agora, de hipotecas imobiliárias residenciais de baixa qualidade embaladas em derivativos complexos. A semelhança está na lógica. Em ambos os casos, há uma promessa futura convertida em riqueza presente. Em ambos os casos, o risco é deslocado, empacotado, disfarçado e distribuído por estruturas financeiras pouco transparentes. Em ambos os casos, a ideologia dominante repete a mesma frase histórica de todas as bolhas: “desta vez é diferente”.


A UNCTAD, no documento Global growth expected to slow to 2.6% through 2026, publicado em 3 de dezembro de 2025, projetou que a economia mundial crescerá apenas 2,6% em 2025 e 2026, abaixo dos 2,9% de 2024, abaixo da média pré-pandemia de 3% e muito abaixo da média de 4,4% observada antes da crise financeira de 2008–2009. Esse dado é decisivo porque demonstra que a economia global não atravessa apenas uma oscilação conjuntural: há uma desaceleração estrutural longa, posterior à crise de 2008, que restringe a capacidade do sistema de produzir prosperidade social ampla.

Essa leitura é reforçada pela própria UNCTAD em seu relatório World Economic Situation and Prospects 2026, publicado em 8 de janeiro de 2026, segundo o qual o crescimento global permanece lento e desigual entre regiões. O documento projeta expansão de 2,7% em 2026 e 2,9% em 2027, ainda abaixo da média pré-pandemia de 3,2%, com crescimento fraco na Europa e restrições adicionais em países em desenvolvimento por dívida elevada e choques climáticos.

Esse é o primeiro elemento de semelhança com 2008: a economia real perde fôlego enquanto a economia financeira continua criando narrativas de valorização.

Antes, a narrativa era a de que o mercado imobiliário norte-americano continuaria sustentando a expansão do crédito. Agora, a narrativa é a de que a inteligência artificial abrirá uma nova era de produtividade, lucros e automação capaz de justificar preços crescentes dos ativos. A tecnologia é real, mas a pergunta decisiva é outra: a rentabilidade futura será suficiente para sustentar a capitalização presente?

Toda grande bolha nasce de uma verdade parcial. A bolha ferroviária nasceu de uma transformação real dos transportes. A bolha da internet nasceu de uma transformação real da comunicação. A bolha imobiliária nasceu de uma necessidade real de moradia. A eventual bolha da inteligência artificial nasce de uma tecnologia real, com potencial profundo de reorganizar produção, serviços, linguagem, vigilância, logística, educação, finanças e gestão do trabalho. Mas a existência de uma inovação verdadeira não impede a formação de uma bolha. Ao contrário: as grandes bolhas modernas costumam nascer justamente quando uma inovação real é capturada por expectativas financeiras desmedidas.

O problema, portanto, não é dizer que a inteligência artificial “não existe” ou que não terá efeitos econômicos relevantes. O problema é perceber que o mercado pode estar antecipando, de forma exagerada, uma massa de lucros que ainda não se realizou socialmente. Parte considerável da valorização associada à IA depende da expectativa de produtividade futura, da expansão de data centers, do consumo crescente de energia, do domínio de semicondutores e do controle monopolista de plataformas. Se essa expectativa for frustrada, mesmo parcialmente, a correção de preços poderá atingir não apenas empresas de tecnologia, mas também fundos, fornecedores, credores, seguradoras, bancos, mercados de energia e cadeias globais de investimento.

A segunda semelhança com 2008 está no crescimento de uma estrutura financeira paralela, opaca e insuficientemente testada. O nome contemporâneo dessa zona de risco é private credit, ou crédito privado. Depois da crise financeira global, os bancos foram submetidos a regulações mais rígidas. Parte do risco saiu do sistema bancário tradicional e migrou para fundos, gestoras, seguradoras, veículos privados, private equity e outras formas de intermediação não bancária. O risco não desapareceu. Apenas mudou de endereço.

O Financial Stability Board, no relatório Report on Vulnerabilities in Private Credit, publicado em 6 de maio de 2026, advertiu que o setor de crédito privado apresenta vulnerabilidades decorrentes de sua complexidade, alavancagem e interconexão com bancos, seguradoras e empresas de private equity, podendo amplificar choques em cenários adversos. O FSB também destacou riscos ligados à opacidade de avaliação dos ativos, à qualidade de crédito dos tomadores, aos descasamentos de liquidez, à concentração setorial e ao fato de que o setor ainda não foi testado em uma desaceleração econômica prolongada.

Essa advertência é central. Em 2008, muitos títulos hipotecários pareciam seguros porque estavam estruturados em camadas, avaliados por modelos sofisticados e distribuídos por instituições globais. Hoje, muitos ativos de crédito privado parecem estáveis porque não são negociados diariamente em mercado aberto, porque são avaliados por modelos internos e porque a ausência de marcação transparente reduz a percepção imediata de volatilidade. Mas estabilidade aparente não é estabilidade real. Às vezes, é apenas falta de visibilidade.

A Reuters noticiou, em 5 de junho de 2026, que o boom do crédito privado começou a esfriar, com desaceleração acentuada na emissão de empréstimos de direct lending nos Estados Unidos, queda de fluxos de investimento, aumento de pedidos de resgate e preocupação com a qualidade de crédito, especialmente em setores como software. Esse dado recente reforça que o crédito privado não é uma abstração técnica distante: ele já apresenta sinais de tensão concreta.

Se a inteligência artificial é o rosto luminoso da nova promessa, o crédito privado pode ser sua engrenagem subterrânea. A IA aparece nas capas dos relatórios como futuro; o private credit aparece nas notas técnicas como risco. A crise pode nascer exatamente da conexão entre essas duas dimensões: expectativas tecnológicas exageradas e estruturas financeiras ilíquidas, opacas e altamente conectadas.

A presença dos imóveis comerciais completa o quadro. O setor de escritórios, shopping centers e propriedades corporativas sofreu alterações estruturais depois da pandemia, com expansão do trabalho híbrido, queda de demanda em centros urbanos e necessidade de refinanciamento sob juros mais altos. Ele talvez não seja o epicentro da próxima crise, mas pode funcionar como uma falha geológica secundária: um canal de contágio para bancos regionais, fundos imobiliários, seguradoras e credores privados.

A diferença em relação a 2008 é que a próxima crise talvez não tenha um único rosto. Não precisa haver um novo Lehman Brothers. Pode haver uma crise em camadas: primeiro, revisão das expectativas de lucro da IA; depois, queda das ações de tecnologia, semicondutores, nuvem e infraestrutura digital; em seguida, aperto no crédito para startups e empresas dependentes de financiamento barato; depois, inadimplências no private credit; por fim, pressão sobre bancos regionais, seguradoras, fundos e mercados de imóveis comerciais.

Esse encadeamento revelaria uma verdade incômoda: a economia contemporânea está novamente sustentada por promessas de valorização futura. Só que agora a promessa não está ancorada na casa própria financiada do trabalhador norte-americano, mas na inteligência artificial monopolizada por poucos conglomerados globais.

A terceira dimensão da crise é a monopolização. O capitalismo contemporâneo já não se parece com a imagem liberal da livre concorrência entre empresas autônomas e dispersas. Ele se organiza em torno de plataformas, oligopólios, fundos, patentes, infraestrutura digital, propriedade intelectual, controle de dados e domínio de cadeias logísticas. A inteligência artificial intensifica essa tendência porque exige escala gigantesca: poder computacional, energia, chips avançados, nuvem, bases de dados e capital intensivo. Poucos grupos conseguem competir nesse nível.

Da perspectiva marxista, isso é decisivo. A monopolização opera como contratendência à queda da taxa de lucro. Quando a concorrência pressiona margens, quando a composição orgânica do capital aumenta, quando os investimentos necessários se tornam cada vez maiores e quando o trabalho vivo é relativamente reduzido pela automação, o capital busca recompor sua rentabilidade por meio de mecanismos extraordinários: monopólio, renda tecnológica, patentes, precarização, redução salarial, financeirização, apropriação de fundos públicos, expansão imperial e endividamento.

Mas essas contratendências não eliminam a crise. Elas apenas a deslocam. O capital consegue preservar lucros elevados no topo, mas ao custo de fragilizar a base social que sustenta a demanda, o trabalho, a legitimidade política e a coesão democrática. É por isso que os lucros podem coexistir com estagnação. É por isso que bolsas podem subir enquanto a vida concreta se torna mais insegura. É por isso que a produtividade tecnológica pode crescer junto com adoecimento, desemprego, informalidade e medo.

A quarta dimensão é geopolítica. A economia mundial está cada vez mais atravessada por guerras, sanções, disputas energéticas, rotas marítimas, semicondutores, terras raras e rivalidades industriais. A Reuters noticiou, em 5 de junho de 2026, que a Organização Mundial do Comércio identificou sinais de desaceleração do comércio global de bens, apesar da resiliência inicial em 2026. O barômetro do comércio de mercadorias da OMC recuou de 102,3 em janeiro para 101,7, ainda acima da tendência, mas já indicando perda de fôlego. A notícia também registra que a demanda por componentes eletrônicos ligados à IA ainda sustenta parte do comércio, mostrando a ambiguidade do momento: a IA atua simultaneamente como motor parcial de crescimento e como possível núcleo de vulnerabilidade financeira.

Esse ponto é fundamental para uma leitura crítica. A crise econômica contemporânea não é apenas crise de mercado; é crise de hegemonia. Quando a valorização produtiva encontra limites, a disputa geopolítica se torna mecanismo de reorganização da acumulação. Tarifas, guerras, sanções, subsídios industriais, controle de semicondutores, militarização e disputa energética deixam de ser eventos externos à economia. Passam a ser parte da própria economia política do capitalismo em crise.

Mas há uma quinta dimensão, talvez a mais decisiva para compreender o sentido humano da crise: a incapacidade crescente de manutenção básica da vida, inclusive nos países centrais do capitalismo. O Federal Reserve publicou, em 13 de maio de 2026, o relatório Economic Well-Being of U.S. Households in 2025, baseado na pesquisa Survey of Household Economics and Decisionmaking, realizada em outubro de 2025. O relatório informa que, embora a situação geral dos adultos tenha permanecido relativamente estável, o bem-estar financeiro piorou entre jovens adultos, famílias de baixa renda e adultos negros. A instituição também assinala que aumentos de preços permaneceram como a preocupação financeira mais comum entre adultos norte-americanos.

Esse dado precisa ser lido politicamente. Quando jovens adultos em uma das economias mais ricas da história relatam piora de bem-estar financeiro, não estamos diante de mero problema individual de planejamento. Estamos diante de uma crise estrutural entre salário, custo de vida, dívida, moradia, saúde e instabilidade ocupacional. Quando a juventude trabalha e ainda assim não consegue pagar suas contas, o problema não está apenas na educação financeira do indivíduo. Está na arquitetura econômica que tornou a vida comum mais cara do que a renda ordinária.

A Europa confirma essa mesma tendência. A Eurofound informou, em 14 de janeiro de 2025, com base na pesquisa Living and working in the EU 2024, que 30% dos respondentes relataram dificuldade para fechar as contas, contra 22% em 2023. Na Grécia, esse percentual chegou a 55%. O dado revela que, mesmo depois de alguma melhora nos indicadores macroeconômicos, a inflação acumulada e o custo de vida corroeram a resiliência financeira dos lares europeus.

Aqui a crise econômica ganha rosto humano. A juventude, que deveria ser o tempo da travessia para o futuro, torna-se o tempo da suspensão: suspende-se a saída de casa, suspende-se a formação de família, suspende-se a maternidade ou paternidade, suspende-se o projeto de vida, suspende-se a esperança. O capitalismo prometeu que desenvolvimento tecnológico e crescimento econômico levariam a mais liberdade individual, mobilidade social e segurança material. Mas a realidade contemporânea mostra jovens mais qualificados vivendo mais inseguros; trabalhadores empregados incapazes de pagar contas; famílias adiando cuidados médicos; adultos retornando à dependência familiar; moradia convertida em privilégio.

É nesse ponto que o tema do adoecimento psicopatológico causado pela superexploração do trabalho deve ingressar no centro da análise. A crise contemporânea do capitalismo não se manifesta apenas como queda de crescimento, instabilidade financeira ou bolha de ativos. Ela aparece também como sofrimento psíquico massificado. Antes de se tornar crise aberta dos mercados, ela aparece como ansiedade, depressão, burnout, pânico, insônia, exaustão, medo de demissão, perda de sentido e colapso subjetivo diante de uma organização do trabalho que exige disponibilidade total, produtividade crescente e adaptação permanente.

O capitalismo contemporâneo já não explora apenas a força física do trabalhador. Ele captura sua atenção, sua linguagem, sua criatividade, sua afetividade, sua capacidade relacional e até sua esperança. O trabalhador não vende apenas horas de trabalho. Vende energia psíquica, disponibilidade emocional, velocidade de resposta, capacidade de absorver pressão e disposição para transformar sofrimento em desempenho.

A psicodinâmica do trabalho, especialmente a partir de Christophe Dejours, permite compreender que o adoecimento mental não nasce apenas de uma fragilidade individual. Ele emerge da relação concreta entre sujeito e organização do trabalho. O sofrimento aparece quando há ruptura entre o trabalho prescrito e o trabalho real; quando o trabalhador é impedido de mobilizar sua inteligência prática; quando o reconhecimento desaparece; quando a cooperação é substituída pela competição; quando metas abstratas, rankings, algoritmos e comandos gerenciais negam a experiência concreta do trabalhador.

Essa perspectiva permite superar a leitura moralizante do adoecimento. Não se trata de um indivíduo fraco diante de um mundo exigente. Trata-se de um mundo organizado para exigir mais do que o corpo e o psiquismo podem sustentar. A superexploração do trabalho não deve ser compreendida apenas como aumento da jornada ou redução salarial direta. Ela se expressa também na intensificação invisível do trabalho: metas inalcançáveis, cobrança permanente, vigilância digital, disponibilidade fora do expediente, medo de substituição tecnológica, precarização contratual e responsabilização individual por problemas estruturais.

É aqui que o capitalismo flexível revela sua violência específica. Sob a promessa de autonomia, mobilidade, inovação e empreendedorismo de si, ele transfere ao indivíduo os riscos da instabilidade sistêmica. A empresa flexibiliza custos, vínculos, equipes, jornadas e metas; o trabalhador absorve ansiedade, culpa, insegurança e adoecimento. A flexibilidade do capital torna-se rigidez psíquica para quem trabalha. Aquilo que aparece nos relatórios empresariais como eficiência aparece na vida concreta como colapso nervoso.

A inteligência artificial intensifica essa contradição. Ela poderia reduzir jornadas, democratizar conhecimento e libertar tempo humano. Mas, sob comando monopolista e financeiro, tende a ser incorporada como tecnologia de corte de custos, vigilância, substituição, aceleração e controle. A IA não chega, para a maioria dos trabalhadores, como promessa de descanso. Chega como ameaça silenciosa: “serei substituído?”, “meu trabalho ainda terá valor?”, “quantas tarefas a mais terei de cumprir agora que a máquina aumentou a produtividade esperada?”.

Essa é a conexão mais profunda entre crise financeira e adoecimento mental. O capital fictício antecipa lucros futuros; a organização do trabalho antecipa sofrimento presente. O mercado precifica uma produtividade que ainda não se realizou; a gestão cobra do trabalhador uma performance que seu corpo e sua mente talvez não consigam sustentar. Assim, a bolha da inteligência artificial não é apenas uma bolha de ativos. É também uma bolha de expectativas humanas insuportáveis.

A crise psicopatológica do trabalho não é uma externalidade do capitalismo contemporâneo. Ela é parte de seu modo de funcionamento. A depressão, a ansiedade, o burnout e o pânico não podem ser reduzidos a categorias clínicas isoladas quando aparecem massivamente em ambientes organizacionais marcados por metas agressivas, competição interna, medo, assédio, invisibilidade e ausência de reconhecimento. O que aparece como diagnóstico individual muitas vezes é a forma clínica de uma violência social.

Essa talvez seja uma das violências mais sofisticadas do capitalismo contemporâneo: produzir sofrimento estrutural e depois privatizar sua explicação. O que é social aparece como psicológico. O que é político aparece como clínico. O que é exploração aparece como falta de resiliência. O que é organização patogênica do trabalho aparece como fragilidade pessoal do trabalhador.

Contra essa inversão, é necessário recolocar o adoecimento mental no centro da crítica econômica. A crise do capitalismo é também crise da alma trabalhadora. O sistema exige que o indivíduo seja permanentemente produtivo em uma economia permanentemente instável. Exige serenidade em meio à ameaça, criatividade em meio ao medo, engajamento em meio à exaustão, flexibilidade em meio à precarização. Depois, quando o trabalhador adoece, o mesmo sistema o trata como problema individual, custo previdenciário, baixa produtividade ou falha de adaptação.

O que está diante de nós, portanto, não é simplesmente uma possível “bolha da IA”, entendida como fenômeno financeiro isolado. A bolha da inteligência artificial é expressão de algo mais profundo: a tentativa do capital de encontrar uma nova fronteira de valorização num momento de baixo crescimento estrutural, saturação de mercados, concentração monopolista, instabilidade geopolítica, pressão sobre a taxa de lucro e colapso subjetivo da força de trabalho.

A inteligência artificial aparece, nesse contexto, como promessa de salvação produtiva. Mas, sob o comando do capital, tende a se converter também em tecnologia de vigilância, intensificação do trabalho, substituição de empregos, controle algorítmico, precarização e concentração de poder. A máquina poderia reduzir jornadas, democratizar conhecimento, ampliar capacidades humanas e liberar tempo social. Mas, subordinada à acumulação privada, tende a chegar ao trabalhador como ameaça, meta, corte, monitoramento e ansiedade.

A contradição é brutal: a sociedade produz instrumentos técnicos capazes de ampliar a liberdade humana, mas os organiza segundo uma lógica que amplia a dominação econômica. Essa é a diferença entre desenvolvimento das forças produtivas e emancipação social. Uma tecnologia revolucionária pode se tornar socialmente regressiva se estiver aprisionada pela forma-mercadoria.

A bolha mais perigosa, portanto, talvez não seja apenas a financeira. A bolha mais profunda é ideológica: a crença de que o capitalismo poderá resolver, por meio de uma nova tecnologia, contradições que são sociais, políticas e históricas. A inteligência artificial pode aumentar produtividade, mas não resolve a desigualdade se os ganhos forem apropriados por monopólios. Pode automatizar tarefas, mas não garante redução de jornada se o poder permanecer nas mãos do capital. Pode reorganizar a produção, mas não elimina a exploração se a propriedade dos meios tecnológicos continuar concentrada.

Se houver uma crise, ela provavelmente será narrada como excesso de entusiasmo, correção de mercado, falha regulatória ou problema de liquidez. Mas essa explicação será insuficiente. A crise será, antes de tudo, o momento em que o capital fictício criado em torno da promessa tecnológica encontrará os limites da produção real de valor. Será o instante em que o futuro antecipado pelos mercados exigirá comprovação no presente – e talvez descubra que grande parte da riqueza precificada era expectativa, não substância.

Em 2008, a crise revelou que milhões de contratos hipotecários não poderiam sustentar a pirâmide financeira construída sobre eles. Na próxima crise, talvez se revele que a inteligência artificial, embora real e poderosa, não consegue sustentar sozinha a massa de expectativas, dívidas, valuations e monopólios erguidos em seu nome.

O roteiro possível é conhecido: primeiro, uma correção nas empresas mais valorizadas; depois, retração de investimento; em seguida, inadimplência em empresas frágeis; depois, pressão sobre fundos de crédito privado; por fim, intervenção estatal direta ou indireta para evitar contágio sistêmico. Mais uma vez, os ganhos terão sido privatizados, enquanto as perdas buscarão abrigo no Estado, no orçamento público, no desemprego, na austeridade e no sofrimento social.

A questão decisiva, portanto, não é apenas prever qual bolha vai estourar. É compreender por que o capitalismo precisa produzir bolhas sucessivas para continuar funcionando. A resposta está na própria lógica da acumulação: quando a valorização produtiva encontra limites, o sistema antecipa valor futuro por meio de ativos financeiros; quando a renda do trabalho não sustenta a demanda, expande o crédito; quando a concorrência reduz margens, intensifica a monopolização; quando a legitimidade social se desgasta, recorre à guerra, à austeridade e ao nacionalismo econômico; quando o trabalhador adoece, privatiza o sofrimento e o converte em diagnóstico individual.

A próxima crise, se vier, não será um acidente externo ao capitalismo. Será uma manifestação de sua racionalidade interna. O capital não entra em crise porque deixa de funcionar. Entra em crise porque funciona de acordo com sua própria lógica: acumular, concentrar, antecipar, explorar, deslocar e, quando necessário, destruir valor para reconstruir as condições de uma nova rodada de acumulação.

A inteligência artificial não é o inimigo. A tecnologia não é o problema em si. O problema é uma civilização que transforma cada avanço técnico em instrumento de acumulação privada, cada ganho de produtividade em ameaça ao trabalho, cada inovação em monopólio, cada crise em oportunidade de concentração e cada promessa de futuro em ativo financeiro.

A próxima bolha pode estar na IA financeirizada. O mecanismo de contágio pode estar no crédito privado. A falha secundária pode estar nos imóveis comerciais. Mas o núcleo da crise é mais profundo: o capitalismo global já não consegue oferecer à humanidade uma promessa universal de progresso. Consegue produzir máquinas inteligentes, mas não consegue produzir uma sociedade racional. Consegue organizar redes planetárias de dados, mas não consegue garantir saúde, moradia, trabalho digno e estabilidade democrática. Consegue antecipar lucros futuros, mas não consegue assegurar futuro à vida.

Essa é a verdadeira crise: não apenas a queda possível dos ativos, mas a queda concreta da vida abaixo de seu mínimo humano. E quando a vida já não cabe no salário, quando a juventude já não cabe na promessa, quando a tecnologia já não cabe na esperança e quando o trabalho já não cabe no psiquismo, a crise deixa de ser previsão econômica. Torna-se experiência histórica.

Essa crise já começou.
Flaviano Correia Cardoso

A censura mudou de lugar

Na última semana, a escritora Ana Maria Machado participou da Feira do Livro que aconteceu no Pacaembu em São Paulo sob a direção de Paulo Werneck. Ao revisitar episódios de sua trajetória como jornalista e autora, trouxe uma reflexão que merece atenção para além do universo literário.

Ao recordar sua passagem pela Rádio Jornal do Brasil, durante os anos da ditadura militar, Ana Maria descreveu uma situação que hoje parece quase inconcebível para as gerações mais jovens: a presença permanente da censura prévia nas redações dos órgãos de imprensa. Reportagens eram examinadas antes de ir ao ar, assuntos eram vetados e autoridades governamentais definiam o que podia ou não chegar ao público.


Sua reação, porém, era curiosa. Em vez de orientar os jornalistas a evitar determinados temas, Ana Maria recomendava exatamente o contrário: que realizassem seu trabalho como se a censura não existisse. Que apurassem os fatos, entrevistassem as fontes e produzissem as melhores reportagens possíveis. Se depois o censor resolvesse cortar o material, essa seria uma responsabilidade do Estado, não do jornalista.

A diferença não é pequena. Quando profissionais da comunicação começam a antecipar aquilo que acreditam que será proibido, a censura deixa de ser apenas um mecanismo externo e passa a habitar a própria consciência dos indivíduos. O censor já não precisa estar presente. Ele foi internalizado.

A observação ajuda a compreender um fenômeno atual que raramente é tratado com a devida profundidade.

Costumamos associar a censura à sua forma clássica: um governo autoritário proibindo livros, interditando peças de teatro ou impedindo a circulação de jornais. Essa continua sendo uma ameaça real em muitas partes do mundo e não deve jamais ser subestimada.

Mas não é a única.

Ao longo dos últimos anos, multiplicaram-se episódios de pressão pela retirada de livros de escolas e bibliotecas, campanhas para cancelar autores, tentativas de silenciar opiniões divergentes e movimentos organizados para impedir o debate de temas considerados inconvenientes.

Durante o encontro, foi lembrado o caso recente de questionamentos e tentativa de retirada numa escola militar em Brasília do livro A Bolsa Amarela, de Lygia Bojunga, uma das obras mais importantes da literatura infantil brasileira. O episódio não decorreu de uma determinação governamental nem de um ato formal de censura estatal. Surgiu de pressões exercidas por segmentos da própria comunidade. Em grupos de mensagens, alguns pais passaram a defender sua retirada, atribuindo significados que ela jamais pretendeu carregar.

Foi nesse contexto que Ana Maria Machado formulou uma observação particularmente instigante. Segundo ela, a censura não desapareceu; mudou de lugar.

Se antes era predominantemente vertical, exercida de cima para baixo, pelo Estado sobre os cidadãos, hoje frequentemente assume uma forma horizontal. São grupos sociais, organizações, movimentos ou mesmo indivíduos que reivindicam para si o direito de decidir o que os outros podem ler, ouvir ou pensar.

A lógica permanece semelhante. Muda apenas o agente censor.

O fenômeno não se limita ao universo dos livros. Ele está presente nas redes sociais, nos ambientes profissionais, nas universidades e até mesmo nas relações pessoais. Em muitos casos, a preocupação já não é debater uma ideia, mas impedir que ela seja expressa.

Não por acaso, um dos romances mais instigantes de Ana Maria Machado, Infâmia, publicado em 2011, antecipou questões que se tornariam frequentes na década seguinte. Inspirado, entre outras referências, pelo caso da Escola Base — um dos episódios mais dramáticos da história recente brasileira, em que pessoas inocentes tiveram suas vidas destruídas por acusações precipitadas e pela repercussão irresponsável de parte da imprensa —, o livro aborda a destruição de reputações, os julgamentos imediatistas e a velocidade com que suspeitas podem se transformar em condenações sociais. Ao transformar esse episódio em literatura, Ana Maria chamou atenção para um fenômeno que se tornaria cada vez mais frequente: a facilidade com que acusações se convertem em sentenças e suspeitas em verdades incontestáveis.

Muito antes de a palavra “cancelamento” entrar no vocabulário cotidiano, a escritora já explorava literariamente seus mecanismos.

A história recente oferece inúmeros exemplos de pessoas condenadas pela opinião pública antes que os fatos fossem plenamente conhecidos. Em uma sociedade hiperconectada, a velocidade da acusação frequentemente supera a velocidade da apuração. A emoção costuma chegar antes da reflexão. O julgamento, e a condenação, precedem a análise.

O problema é que a democracia depende exatamente do contrário.

Depende da disposição de ouvir argumentos, examinar evidências, admitir dúvidas e conviver com opiniões que nem sempre agradam. A liberdade de expressão não existe para proteger consensos. Consensos dispensam proteção. Ela existe para proteger o dissenso.

Talvez por isso a reflexão proposta por Ana Maria Machado seja tão atual. O desafio contemporâneo já não consiste apenas em impedir que governos silenciem cidadãos. Consiste também em evitar que cidadãos silenciem outros cidadãos.

Uma sociedade verdadeiramente democrática não é aquela em que todos concordam. É aquela em que as divergências podem ser expressas sem que livros precisem ser retirados das estantes, autores sejam interditados ou opiniões sejam transformadas em motivo de exclusão.

Talvez a principal lição deixada pela escritora na Feira do Livro tenha sido esta: a censura mudou de lugar. Mas continua exigindo vigilância.

E talvez a melhor forma de enfrentá-la permaneça sendo a mesma defendida por Ana Maria Machado nos tempos da Rádio Jornal do Brasil: fazer o próprio trabalho com honestidade intelectual, dizer o que precisa ser dito e não permitir que o censor, seja ele estatal ou social, passe a habitar dentro de nós.

Rumo ao Hexa: a crise climática já mudou o jogo

Não se fala em outra coisa. A Copa do Mundo tomou conta das conversas, dos grupos de WhatsApp, das mesas de bar e, claro, da minha casa. Como mãe de dois meninos, um deles apaixonado por futebol, seria impossível ignorar o assunto. Mas, enquanto acompanhava a competição, me peguei pensando em uma pergunta curiosa: o que a Copa do Mundo tem a ver com mudanças climáticas? A resposta, descobri, é muito mais direta do que parece.

O fato é que os resultados da copa deste ano podem ser mais que a consequência do que acontece entre as quatro linhas do gramado.


Segundo uma análise publicada recentemente pela Bloomberg, algumas seleções chegarão ao torneio enfrentando um adversário invisível antes mesmo do apito inicial: o calor extremo. Quase um quarto das partidas será disputado em condições capazes de impor um estresse significativo ao corpo humano, mesmo para os atletas brasileiros, acostumados com o calor. E não é preciso ser exatamente um cientista para saber que temperatura e umidade elevadas podem reduzir o desempenho das seleções, aumentar a fadiga dos atletas e influenciar diretamente o resultado dos jogos.

Ao que parece, pela primeira vez, o clima não será apenas o pano de fundo do espetáculo.

E se isso acontece com atletas de elite, acompanhados por médicos, nutricionistas, preparadores físicos e tecnologia de ponta, fica a pergunta: o que pode acontecer com o resto de nós?

Voltando ao nosso assunto preferido, a Copa do Mundo oferece, hoje, uma oportunidade rara: traduzir a crise climática para uma linguagem que todo brasileiro entende.

Quando um jogador diminui o ritmo porque o corpo não consegue dissipar calor suficiente, estamos vendo uma consequência física do aquecimento global.

Quando uma partida precisa ser interrompida para hidratação, estamos assistindo à adaptação de um esporte centenário a uma nova realidade climática.

Quando especialistas discutem se determinados horários de jogos ainda são seguros, estamos falando da mesma questão enfrentada por professores, garis, agricultores e trabalhadores da construção civil.

O mais curioso é que o futebol sempre foi uma expressão da adaptação brasileira. Jogamos na praia, no barro, sob chuva torrencial ou sol escaldante. Aprendemos a improvisar. Eis o futebol arte. Aquele que conhecemos tão bem.

Mas a verdade é que existe um limite para a adaptação humana. Afinal, nenhuma estratégia tática muda a temperatura do ar. Nenhum esquema defensivo impede uma onda de calor.

Nem Ronaldinho Gaúcho, o Bruxo, conseguiria driblar as leis da física.

O calor que entra em campo na Copa do Mundo é o mesmo que já atravessa as cidades brasileiras todos os dias. A diferença é que, durante noventa minutos, bilhões de pessoas estarão olhando para ele.

Em 1994, suportamos o calor, vencemos a final e levantamos a taça do tetra. Agora, na corrida pelo hexa, vale lembrar que a temperatura subiu dentro e fora dos estádios. O futebol continua sendo o mesmo. O planeta, não.

domingo, 14 de junho de 2026

Pensamento do Dia

 


Ninguém nos ensinou a ser cidadãos

A democracia tem uma exigência curiosa: espera que os cidadãos participem, mas pouco garante que estes compreendam verdadeiramente aquilo em que participam.

Todos os anos discutimos a abstenção, o afastamento dos jovens da política, a desinformação crescente e a fragilidade do debate público. Multiplicam-se análises, comentários, diagnósticos e preocupações. Procuram-se explicações para a aparente indiferença de uma parte significativa da população perante os assuntos que moldam a vida coletiva.


Mas como podemos exigir participação democrática de cidadãos que nunca foram ensinados a compreender as regras que os governam?

Ao longo da escolaridade obrigatória, aprendemos a interpretar textos, a resolver equações, a compreender fenómenos físicos e a memorizar acontecimentos históricos. Tudo isso é importante e contribui para a formação de indivíduos mais preparados.

O que se continua por explicar é a razão pela qual consideramos essencial ensinar os jovens a compreender o mundo, mas dispensável ensinar-lhes o funcionamento das estruturas que organizam a sua própria vida em sociedade.

A maioria dos jovens termina a escola sem compreender o processo legislativo. Sem saber exatamente quais são as competências dos diferentes órgãos de soberania. Sem conhecer os mecanismos de participação cívica que existem para além do voto. E até sem os conhecimentos básicos sobre direitos fundamentais, deveres cívicos, garantias constitucionais ou funcionamento institucional. Muitos não conseguem sequer distinguir claramente o papel do Governo, da Assembleia da República ou do Presidente da República.

E, ainda assim, esperamos que participem.

A cidadania é tratada como uma consequência natural da idade adulta. Quase como se bastasse atingir determinada idade para compreender automaticamente o funcionamento da democracia. Parece que o simples facto de possuir direitos implica saber exercê-los.

Mas a cidadania não surge espontaneamente. A cidadania aprende-se.

E o problema não é a ausência total deste tema nas escolas. É a forma como continua a ser abordado. Fala-se da importância da participação, mas raramente se explica com profundidade como funcionam as instituições, como nasce uma lei ou de que forma os cidadãos podem influenciar as decisões públicas.

Nenhuma democracia sobrevive apenas através das suas instituições. Sobrevive através da qualidade cívica dos cidadãos que as sustentam. E essa qualidade depende, inevitavelmente, do conhecimento.

Não existe participação informada sem literacia cívica, pensamento político crítico e autónomo, sem compreensão mínima das estruturas políticas ou verdadeira capacidade de escrutínio quando os mecanismos de decisão permanecem desconhecidos para uma parte significativa da população. Não basta conhecer os próprios direitos. É igualmente necessário compreender os deveres e responsabilidades que os acompanham.

O problema torna-se ainda mais evidente numa época marcada pelo excesso de informação. Nunca tivemos tanto acesso a conteúdos políticos e a opiniões disponíveis. Nunca foi tão fácil comentar, reagir, partilhar ou posicionar-nos publicamente sobre qualquer tema. Mas uma democracia saudável não precisa apenas de cidadãos capazes de expressar opiniões. Precisa de cidadãos capazes de compreender aquilo sobre o qual opinam. A diferença entre as duas coisas é maior do que parece.

Uma sociedade pode produzir milhões de opiniões e continuar profundamente vulnerável à simplificação, à manipulação e à desinformação. Na verdade, é precisamente a ausência de conhecimento sólido que torna os slogans mais eficazes do que os argumentos e as emoções mais influentes do que os factos.

Quando a literacia cívico-jurídica é insuficiente, o espaço público transforma-se facilmente num espaço de reação permanente. Discute-se muito. Compreende-se pouco.

E quanto menor for a compreensão coletiva das instituições, mais fácil se torna reduzir a política a personalidades, escândalos ou ciclos de indignação momentânea.

A democracia perde profundidade quando os cidadãos deixam de compreender os seus próprios instrumentos. Por isso, a questão não é saber se os jovens estão interessados na política. A questão é perceber porque continuamos surpreendidos com a distância entre os cidadãos e as instituições quando nunca investimos seriamente em aproximá-los.

Exigimos participação, responsabilidade, sentido crítico e compromisso democrático. Mas continuamos a tratar a formação cívica como um complemento e não como uma prioridade. O resultado está à vista.

Esperamos cidadãos plenamente preparados para exercer direitos que nunca aprenderam verdadeiramente a compreender. E depois confundimos essa falha coletiva com desinteresse individual.

O maior problema da democracia portuguesa pode não ser a falta de participação. Pode ser o facto de continuarmos a acreditar que a participação dispensa aprendizagem.

Em Portugal e num charco...

A nossa direita populista é tenebrosa e é muito incompetente. A outra direita que tenta distinguir-se desta também não tem grandes vultos

Flávio, um candidato pesado

O filme parcialmente financiado por Daniel Vorcaro, a diplomacia suicida e a plataforma oca de Flávio Bolsonaro cobraram seu preço na última pesquisa Quaest. Lula ultrapassou-o, marcando 44% contra 38%. Junho é cedo para se prever o resultado de uma eleição marcada para outubro, mas alguma coisa vai mal com o candidato.


Lula conseguiu sair de um viés de queda para outro, de alta, na segunda metade de um terceiro mandato e a poucos meses da eleição. De novo, nesta eleição, até agora a única novidade é a recuperação do presidente. Essa proeza foi conseguida muito mais pelos escorregões e abulias dos adversários do que por mais de três anos de desempenho.

Flávio, como o pai, cavalga o antipetismo, e só. Os eleitores independentes migraram e passaram ao largo de Romeu Zema e Ronaldo Caiado. Em 2026 o antipetismo está num nicho, encolhido por falta de agenda. Bolsonaro deu a Lula o auriverde pendão desta terra e ele está enrolado nela. Zema e Caiado parecem sem rumo. Como a campanha ainda não começou, qualquer dos três anti-Lula pode, em tese, dar uma disparada, mas quem melhor cultiva a pista é Lula. Ele semeou-a mudando a tabela de alíquotas do Imposto de Renda e oferece a escala 5x2. A proximidade de Lulinha com o Careca do INSS não tem o efeito do áudio de Flávio Bolsonaro com Daniel Vorcaro.

Até agora, o antipetismo tem só dois ativos, a segurança pública e Donald Trump. No primeiro, o governo apresenta planos árduos e a oposição põe na mesa chacinas como a da Penha. No segundo, depois da carta neurastênica do ano passado, Trump bombardeia o Brasil com tarifaços que afetam a economia nacional e, com ela, os eleitores.

No século passado, John Kennedy asfixiava o governo de João Goulart enchendo a bola dos governadores da oposição com programas de moradia e agendas reformistas. Trump enche a bola dos Bolsonaro com fotografias e frases banais.

(Vale lembrar que em janeiro de 1964, quando a derrubada de Goulart já estava no baralho, o embaixador americano Lincoln Gordon passou por Washington e pediu para ser recebido pelo presidente Lyndon Johnson. Pedido negado. Gordon baixou a bola e pediu para tirar uma fotografia com Johnson, pois isso o ajudaria no Brasil. Pedido igualmente negado.)

Um inferno chamado Brasil

Não sei por que algumas pessoas estão estranhando esses dias em que o país marcha para trás, e pega fogo, literalmente.

Em que todos nós estamos com o dedo na cara um do outro, enquanto os outros, os de sempre, metem a mão no pouco que nos resta de dignidade.

Porém, uma coisa sempre esteve clara, nós, os pobres, negros, índios, mulheres, gays e nordestinos, não somos bem-vindos neste país, a não ser que aceitemos as migalhas de sempre.

A menos que aceitemos a escravidão disfarçada de salário mínimo. Ou de salário nenhum.


Tem gente que acha que cantamos ou fazemos poesia porque estamos felizes, satisfeitos com tudo. Na verdade, da nossa música, do poema, da nossa dança, sai o lamento, o chamado pra luta. Por isso muita gente estranha o refrão.

Tem gente que se cala, descansa na neutralidade, mas a história não é muda, um dia ela conta quem não perdeu a fala.

Desde sempre ouço dizer que tínhamos que combater o sistema que ninguém sabia quem era, o que era, e pra que servia. Mas sob uma luz sombria, e sem vergonha de ser o que é, eis que o Brasil mostra novamente sua face mais sinistra e covarde: ódio à sua própria gente. Essa mesma gente que acorda cedo para adorar um Deus chamado trabalho, e que de tanta sede pra ser feliz bebe o próprio suor. A água benta pra suportar o céu que nunca vem.

E falando nisso, se Jesus estiver me ouvindo, queria dizer que “Amai-vos uns aos outros!” e “Amai o próximo como a ti mesmo” agora é coisa do Demônio. E as crianças que não venham, elas viraram a escória do mundo, conforme as profecias dos novos profetas.

Estão queimando a Amazônia, o Pantanal, enquanto queimamos em silêncio a coragem de lutar contra tudo isso.

O inferno somos nós.

Campanha não é apenas TV

Daqui a dois meses, em 15 de agosto, começará a programação eleitoral na televisão, no rádio e na Internet, oportunidade em que os candidatos apresentam seus programas a um eleitorado cada vez mais descrente das propostas e compromissos dos políticos. Muitos acham que sua visibilidade pública, por meio do uso de rádio e TV, será suficiente para garantir urnas cheias de votos, capazes de torná-los vitoriosos. Será que os programas eleitorais poderão mudar as atuais posições no ranking eleitoral dos dois principais candidatos à presidente da República e dos candidatos aos governos dos Estados?

Essa questão, que preocupa os chamados “marqueteiros” acende as conversas em todos os espaços nacionais, carece de uma análise que contemple não apenas as características do meio indutor de imagem, mas de uma leitura acurada a respeito do momento social, político e econômico vivido pela sociedade.


A maioria das pessoas tende a acreditar que as posições serão alteradas, a partir da programação eleitoral. É provável que as coisas se mantenham como está. Vamos a algumas razões.

Em primeiro lugar, cabe dizer que uma campanha eleitoral não é apenas fruto da visibilidade de um candidato, via TV ou rádio, principalmente nesta era das redes sociais. A internet foi incluída como ferramenta de comunicação, o que pode mudar as regras do jogo. A campanha é um conjunto de elementos, fatores e ações, que abarcam o discurso, a leitura dos anseios e expectativas dos eleitores, a mobilização e todo o potencial de eventos, a ação dos candidatos proporcionais e o trabalho dos cabos eleitorais, a força dos prefeitos e a grande energia dispensada por ações não governamentais, que formam um imenso sistema de pressão e influência. Em primeiro lugar, é bom lembrar que cada campanha possui um clima próprio, diferente da temperatura da campanha anterior, mesmo que apresente nomes bastante conhecidos. Significa dizer que cada campanha tem o seu horizonte definido, a sua cor básica. Neste ano, por exemplo, teremos a campanha mais polarizada da história política contemporânea.

De um lado, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem sustentado o discurso da soberania. Sua posição tem sido a de defender a autonomia das instituições nacionais, a independência da política externa brasileira e a rejeição a iniciativas que possam ser interpretadas como interferência estrangeira em assuntos internos do país.

Do outro lado, setores da oposição liderados politicamente pelo candidato Flávio Bolsonaro defendem uma abordagem mais alinhada à visão de segurança adotada pelos Estados Unidos. Nessa perspectiva, organizações criminosas como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) foram classificadas pelo governo Trump como organizações terroristas. Tal decisão abre uma porta para uma eventual intervenção norte-americana no território brasileiro, sob a alegação de que o combate aos dois grupos é uma decisão do presidente “para proteger” os EUA. Para complicar, o novo tarifaço do governo Trump contra o Brasil está caindo no colo do senador. Segundo o Instituto Quaest, 47% concordam que Flávio pediu a Trump novo tarifaço contra o Brasil. Ademais, o clã Bolsonaro, pela voz do filho 02, Eduardo, propõe mudar o PIX, unanimidade nacional, pelo “PIX norte-americano”, Zelle, um sistema privado mantido por um consórcio de grandes bancos americanos.

Na verdade, o candidato que mais se aproximar dos anseios das comunidades deverá abrir espaços maiores e o induzindo o sistema de decisão do eleitor. Nesse sentido, vale o ditado: água de morro abaixo, fogo de morro acima, quando o vento corre para um lado, ninguém é capaz de detê-lo. Os dois candidatos que estão na liderança da corrida se assemelham aos ventos do tempo.

Há de se considerar, ainda, o nível de satisfação das classes sociais. Como pensa a classe média sobre o terceiro governo de Lula? Porque as margens sociais, mesmo beneficiadas por um vigoroso programa de distribuição de renda, têm diminuído seu apoio ao presidente Lula, conforme atestam as pesquisas.

Cada classe dispõe de uma percepção diferenciada dos problemas; as classes C, D e E, decidem com sentimentos mais ligados ao dia a dia, outras com expectativas voltadas para médio e longo prazos, ou seja, vive-se tanto a pressão do momento quanto o medo do futuro. Não se trata, apenas, de prometer. Nesse ponto, o eleitor volta sua atenção para o patrimônio de credibilidade de cada um. A promessa deverá ser embalada pelo efeito-demonstração, ou seja, como será cumprida a promessa e com que recursos. Alguns candidatos podem prometer muita coisa, mas os sinais emitidos, quando contrastados com a descrença passada pelo candidato, cairão por terra.

Se essas ferramentas forem colocadas numa balança, há de se concluir que o tempo de TV não pode ser considerado fator determinante de sucesso ou fracasso. E essa é a questão central. Alguns candidatos, principalmente na área proporcional, apostam sua eventual vitória à programação eleitoral na TV e no rádio, como se a exposição e a visibilidade pública fossem elementos de poder definitivo e arrebatador. O programa eleitoral é apenas força auxiliar. Diz-se que, quando um cego guia outro cego, ambos caem no buraco. Esta é a ameaça que paira sobre profissionais de marketing e certos candidatos. É claro que o tempo de TV tem importância, principalmente quando se trata de comparar um candidato que dispõe de bom espaço e de outro, que conta com escassos minutos. Um largo tempo, usado de maneira inadequada, com formatos antiquados, elogios adjetivados, chavões batidos, será um bumerangue, voltando-se contra o próprio candidato.

Mais do que nunca, está provado que candidato que entra no gosto do povo não pode ser considerado mero sabonete a ser vendido pela TV nos monótonos programas eleitorais. Se a TV fizesse milagre, muitos candidatos no passado, que dispuseram de grandes tempos de mídia eleitoral, entre eles Ulysses Guimarães, que, em 1989, teve míseros 4,7% dos votos para presidente.

quinta-feira, 11 de junho de 2026

A Marcha para Jesus e a guerra dos deuses no Brasil contemporâneo

A Marcha para Jesus realizada em São Paulo no feriado de Corpus Christi de 2026 talvez tenha revelado menos sobre as próximas eleições e mais sobre as profundas e ainda pouco compreendidas transformações da relação entre religião e política no Brasil contemporâneo. À primeira vista, o evento repete uma cena já conhecida: lideranças evangélicas mobilizando multidões, políticos buscando proximidade com o eleitorado religioso, imprensa acompanhando os movimentos do tabuleiro eleitoral. Entretanto, uma leitura mais atenta das falas, dos símbolos e das narrativas que atravessaram a 34ª edição da Marcha revela algo mais complexo: a coexistência tensionada de três projetos distintos de compreensão da presença da religião no espaço público brasileiro.

Segundo estimativa do Monitor do Debate Político da USP/Cebrap e da ONG More in Common, o evento reuniu aproximadamente 33,8 mil pessoas, com margem de erro de 12%, o que situa o público entre 29,8 mil e 37,8 mil participantes. Mas os números, como sempre, dizem pouco sobre aquilo que realmente estava em disputa naquele espaço.

De um lado do trio elétrico, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), primogênito do ex-presidente Jair Bolsonaro e pré-candidato ao Planalto em 2026, declarou que o Brasil vive uma “guerra espiritual” e que “o mal vai ser expulso do governo do Brasil esse ano”. Cantou um hino gospel chamado Hino da Vitória e reverenciou Israel, causa cara ao eleitorado evangélico. Disse também estar ali “não como candidato, mas como cristão”, distinção que, na gramática política brasileira, costuma funcionar como um reforço, não como uma recusa, da candidatura.

Do outro lado, o advogado-geral da União, Jorge Messias, afirmou ter sido enviado pelo presidente Lula ao evento, não para fazer comício, mas para levar “amor, a palavra de amor e de comunhão”. Acrescentou que aquele não era “lugar para comício”. Messias, que é evangélico e presbiteriano batista, transitou pela Marcha em um canto do trio elétrico, isolado dos demais políticos, em posição que a reportagem da Folha de S.Paulo descreve como a de uma “minoria de esquerda entre as lideranças políticas no evento”.

Entre os dois, o apóstolo Estevam Hernandes, líder da Renascer em Cristo e fundador da Marcha para Jesus no Brasil desde 1993, proclamou respeito “a todas as diferenças e todas as crenças”, mas apontou um “único caminho a seguir: Jesus Cristo”. Descreveu o governador Tarcísio de Freitas e o prefeito Ricardo Nunes como “o governador e o prefeito da Marcha”, chamando-os de “servos de Deus”. Mas buscou ao mesmo tempo preservar a identidade religiosa do evento diante de sua crescente colonização pela política partidária.

Esses não são discursos intercambiáveis. São formas distintas e, em alguns aspectos, incompatíveis de compreender o lugar do sagrado na política.


Max Weber, ao analisar as tensões da modernidade, formulou um diagnóstico que permanece surpreendentemente atual: a racionalização do mundo não eliminou os deuses, mas os multiplicou. A “guerra dos deuses” não é uma disputa entre crentes e incrédulos. É a disputa permanente entre sistemas de valores, concepções morais e projetos de mundo que se tornam inconciliáveis à medida que a modernidade fragmenta a possibilidade de uma autoridade ética única e universal.

No Brasil contemporâneo, essa guerra dos deuses assume com frequência uma dimensão explicitamente religiosa. Família, sexualidade, autoridade estatal, direitos humanos e papel das instituições tornam-se campos de batalha simbólicos, nos quais diferentes visões de mundo disputam legitimidade não apenas no campo das ideias, mas no coração das decisões políticas.

A retórica da “guerra espiritual”, mobilizada por Flávio Bolsonaro na 34ª edição da Marcha, produz um deslocamento específico nessa disputa. Quando adversários políticos são apresentados como expressões do mal a ser expulso, a política deixa de ser o espaço legítimo do conflito democrático, onde diferentes projetos de sociedade se confrontam dentro de regras compartilhadas, e passa a ser compreendida como um combate entre forças transcendentais antagônicas. O adversário não precisa mais ser convencido ou derrotado nas urnas: ele precisa ser exorcizado.

Essa linguagem possui raízes profundas no pentecostalismo e no neopentecostalismo brasileiro, onde a “batalha espiritual” é uma categoria teológica consolidada. O problema analítico não reside na existência dessa crença no interior das comunidades religiosas, mas no seu deslocamento para o terreno da política institucional, onde a mediação democrática exige o reconhecimento da legitimidade do outro.

Essa operação não ocorre de forma improvisada.

Em artigo recente sobre o que denomina “cristofascismo brasileiro”, o teólogo e pesquisador Fábio Py analisa a pré-candidatura de Flávio Bolsonaro como parte de uma narrativa religiosa deliberadamente construída. Segundo Py, o senador vem sendo apresentado como herdeiro de uma missão política que articula fundamentalismo cristão, bolsonarismo e uma vocação providencial herdada da trajetória paterna. O Natal é mobilizado como símbolo do chamado; a Páscoa, como símbolo de reconciliação e missão redentora. O calendário litúrgico converte-se em calendário político.

Na interpretação de Py, a carta pública divulgada por Jair Bolsonaro no Natal de 2025, entregando simbolicamente ao país o seu filho para a missão de “resgatar o Brasil”, não é apenas um gesto familiar ou eleitoral. Trata-se de uma construção simbólica que aproxima a narrativa política de categorias profundamente arraigadas no imaginário cristão, como chamado, missão, envio e redenção. A candidatura deixa de ser apenas uma candidatura. Passa a ser apresentada como vocação.

A Marcha para Jesus de 2026 parece representar mais um capítulo dessa narrativa. Não por acaso, Flávio Bolsonaro escolheu falar em “guerra espiritual” em um evento marcado pela celebração pública da fé cristã. A estrutura discursiva identificada por Py aparece novamente: a existência de um inimigo externo que ameaça a nação, a necessidade de unidade interna dos fiéis e a atribuição de uma missão redentora a uma liderança específica.

Essa lógica encontra paralelos nas análises de Theodor Adorno sobre as formas contemporâneas de autoritarismo. Para Adorno, a construção de inimigos absolutos é uma das características centrais dos movimentos autoritários modernos. A coesão interna do grupo depende da existência de um adversário que não deve ser apenas derrotado, mas moralmente deslegitimado. A distinção entre crítica política e combate espiritual dissolve-se. E com ela dissolve-se também a possibilidade do dissenso legítimo.

É importante, porém, distinguir planos analíticos. O conceito de “cristofascismo” proposto por Py é uma categoria forte, que remete a uma tradição específica da história europeia do século XX e demanda uso cuidadoso. O que a Marcha de 2026 permite observar com mais precisão é um processo mais amplo: a sacralização progressiva da política, na qual determinados projetos políticos passam a ser apresentados como expressão direta da vontade divina, tornando a crítica a esses projetos facilmente interpretável como perseguição religiosa.

É nesse contexto que emerge com força crescente a categoria de “cristofobia”.

Utilizada por setores conservadores para denunciar ataques e discriminações dirigidos contra cristãos, a categoria abarca situações reais e legítimas. O Brasil registra episódios documentados de intolerância religiosa contra cristãos, assim como contra religiões de matriz africana, comunidades judaicas, muçulmanas e outras tradições. O combate à intolerância religiosa, em qualquer direção, é imperativo democrático.

O problema analítico surge quando a categoria é ampliada indiscriminadamente para incluir críticas a projetos políticos que utilizam símbolos cristãos. Quando toda divergência com uma agenda política de inspiração religiosa passa a ser classificada como cristofobia, estabelece-se uma zona de imunidade discursiva. Questionar lideranças políticas torna-se equivalente a perseguir a fé dos fiéis.

O paradoxo é estrutural. Ao mesmo tempo em que determinados grupos cristãos reivindicam centralidade cultural e política na sociedade brasileira, e a Marcha para Jesus é, em si, uma demonstração impressionante dessa centralidade, apresentam-se frequentemente como vítimas permanentes de perseguição. Essa combinação entre posição hegemônica e retórica de vitimização constitui um dos recursos mais eficazes da mobilização política conservadora contemporânea, não apenas no Brasil, mas em contextos como os Estados Unidos, a Hungria e a Polônia.

A ausência física de Lula na Marcha e sua presença simbólica por meio de Jorge Messias colocam uma questão que merece ser tratada em seus próprios termos, sem reduzi-la a cálculo eleitoral.

O presidente comunicou, por meio do advogado-geral da União, que considera inadequado que o chefe de Estado se associe institucionalmente a um evento de uma religião específica, em respeito ao caráter laico do Estado brasileiro. Trata-se de uma posição coerente com a tradição republicana clássica: a laicidade não é hostilidade à religião, mas autonomia do Estado diante das diferentes confissões. O Estado não pertence a nenhuma.

A solução escolhida, enviar um representante evangélico com uma mensagem de proximidade, é ao mesmo tempo pragmática e ambígua. Ela permite ao governo manter um canal de diálogo com o campo evangélico sem associar formalmente a Presidência da República a uma manifestação religiosa específica. Mas é também uma solução que reconhece, implicitamente, a relevância política crescente desse campo.

O governador Ronaldo Caiado, que chegou à Marcha depois que Flávio Bolsonaro, Tarcísio e Ricardo Nunes já haviam deixado o local, afirmou a jornalistas que, se Lula tivesse comparecido, teria sido vaiado. A observação revela tanto a leitura política predominante em parte do campo evangélico quanto a dimensão do território simbólico atualmente em disputa.

As reportagens sobre a 34ª edição da Marcha para Jesus revelam uma dimensão que as análises centradas nos discursos políticos tendem a obscurecer: o que os fiéis, de fato, levavam àquele evento.

A tradição da palmilha, baixar no site da Marcha um papel com pedidos a Deus, imprimir, acomodar nos sapatos e caminhar os mais de três quilômetros entre a estação da Luz e o Campo de Marte, concentra uma verdadeira etnografia espontânea da religiosidade popular brasileira. Na palmilha esquerda, agradecimentos. Na palmilha direita, “pedidos impossíveis”.

A presbítera Edenik Anacleto, sobrevivente da tragédia de Brumadinho, foi à Marcha com “Deus no coração e nos pés”. A técnica em enfermagem Maria Alice Silva pediu sabedoria para ganhar o carro elétrico sorteado no evento e para recuperar o que havia perdido em jogos de azar. Fábio Martins acompanhou a Marcha em cadeira de rodas após um grave acidente de moto. Renan Pereira e Kayk dos Santos levaram súplicas ligadas ao trabalho e ao futuro profissional. Irene Aparecida Barbosa Cintra agradecia pela transformação da vida do filho, antes envolvido com o crime e hoje trabalhador e pai de família.

Esses pedidos revelam uma distância significativa entre a fé vivida pelas multidões e a fé instrumentalizada pela política. A religião popular presente na Marcha não estava mobilizada prioritariamente por disputas ideológicas. Estava preocupada com sofrimento concreto, esperança concreta, sobrevivência e mobilidade social. Enquanto políticos falavam sobre o destino da nação, boa parte dos participantes falava sobre o destino das próprias vidas.

Essa tensão entre a fé como experiência vivida e a fé como recurso político constitui, talvez, o núcleo mais importante do debate que a Marcha para Jesus coloca para a democracia brasileira.

A Marcha para Jesus de 2026 não foi, e nunca foi, um evento politicamente homogêneo. Ela é, antes, um espaço de convergência contraditória: nele coexistem pentecostais históricos e neopentecostais, fiéis de diferentes denominações, políticos de diferentes espectros e uma maioria silenciosa de crentes que levam suas vidas nos sapatos.

O apóstolo Estevam Hernandes, ao pedir respeito “a todas as diferenças e todas as crenças”, buscava preservar a Marcha como manifestação religiosa. Ao descrever Tarcísio de Freitas e Ricardo Nunes como “servos de Deus” e pedir orações para Jair Bolsonaro, fazia precisamente o oposto. Essa contradição não é acidental. Ela reflete a tensão constitutiva do movimento evangélico brasileiro entre sua vocação universalista e sua tentação de tornar-se instrumento de um projeto político particular.

A guerra dos deuses descrita por Weber não terminará. Diferentes sistemas de valores continuarão disputando corações e mentes. Projetos distintos de sociedade continuarão mobilizando símbolos religiosos e referências morais. O problema, como o próprio Weber identificava, não está na disputa em si. Ela é constitutiva da modernidade plural. O problema começa quando uma das visões em disputa deixa de reconhecer a legitimidade das outras e passa a tratá-las como inimigos espirituais a serem exorcizados, e não como adversários políticos a serem derrotados no debate democrático.

A laicidade republicana não exige que a religião desapareça da esfera pública. Ela exige que nenhuma tradição religiosa se converta em linguagem exclusiva do poder político e que as críticas a projetos políticos que instrumentalizam a fé não sejam suprimidas pela blindagem da cristofobia.

Porque quando Deus deixa de ser referência de transcendência para se tornar instrumento de governo, quando a guerra espiritual se converte em linguagem de poder, a guerra dos deuses corre o risco de se transformar em guerra entre cidadãos.

E nenhuma democracia sai fortalecida dessa transformação.

Como plataformas digitais transformam política em comportamento de enxame


“A colônia é o organismo. As formigas são apenas suas células.”
E. O. Wilson

Durante muito tempo, a ideia de inteligência esteve associada ao indivíduo. O ser humano racional, autônomo e consciente ocuparia o centro da ação política e social. Mas a natureza oferece exemplos desconfortáveis de sistemas altamente organizados nos quais o comportamento coletivo não depende da consciência individual de seus integrantes. Abelhas, formigas e cupins constroem estruturas complexas, distribuem tarefas, tomam decisões coletivas e defendem suas colônias, sem que exista propriamente uma consciência central coordenando cada ação individual.

A inteligência deixa de residir exclusivamente no indivíduo e passa a emergir das interações da rede.

Uma formiga isolada é quase incapaz de sobreviver por muito tempo. O que chamamos de “colônia” funciona, na prática, como um superorganismo distribuído, no qual cada indivíduo atua como uma célula de um sistema maior. A coordenação coletiva ocorre por meio de sinais químicos – os feromônios – que orientam trajetórias, organizam ataques, identificam inimigos e sincronizam comportamentos.

Mais do que simples comunicação, os feromônios produzem a coesão sistêmica. Eles permitem que milhares ou milhões de indivíduos operem como se compartilhassem uma única lógica organizadora. A colônia reage, adapta-se, defende-se e expande-se sem depender de consciência centralizada permanente.

Talvez seja precisamente esse o ponto mais inquietante da analogia contemporânea. Não porque seres humanos tenham se tornado, literalmente, insetos eusociais, mas porque plataformas digitais passaram a criar ambientes de hipercoordenação emocional capazes de progressivamente reduzir a autonomia cognitiva dos indivíduos em favor de dinâmicas coletivas de enxame.

Nos insetos eusociais, feromônios funcionam como a infraestrutura invisível da colônia. Eles indicam caminhos, acionam respostas defensivas, reforçam pertencimento e mantêm a coesão do grupo.

Nas plataformas digitais, memes, hashtags, vídeos curtos, áudios virais, correntes de WhatsApp e algoritmos de recomendação passaram a desempenhar função análoga. Não transportam substâncias químicas, mas sim estímulos emocionais sincronizados em tempo real.

Os feromônios das colmeias digitais são algorítmicos.

Em ecossistemas políticos radicalizados, o indivíduo opera raramente de maneira isolada. Sua percepção do mundo é continuamente reforçada por uma arquitetura comunicacional que combina indignação permanente, pertencimento tribal, repetição memética e hostilidade ao dissenso. A sociedade contemporânea passou a operar crescentemente por meio de estruturas de poder organizadas em redes digitais distribuídas, capazes de conectar comunicação, identidade e mobilização política em tempo real.

O radicalizado não é apenas alguém que possui determinadas opiniões. Ele se torna um nó de uma rede emocionalmente sincronizada. O indivíduo experimenta a redução da angústia ao dissolver sua singularidade em um corpo coletivo maior, no qual medo, responsabilidade e identidade passam a ser compartilhados. Décadas antes, Freud já havia observado que, nas massas organizadas, o indivíduo tende a suspender parcialmente suas capacidades críticas e a transferir sua autonomia psíquica para o grupo e para a figura do líder, produzindo formas intensas de identificação emocional coletiva.

Sua identidade política passa a depender do fluxo contínuo de estímulos provenientes da colmeia digital. Quando afastado desse ecossistema – grupos, canais, vídeos, cultos, lives, influencers e redes de reforço emocional –, parte significativa da intensidade do comportamento tende a enfraquecer.

Talvez por isso muitos processos contemporâneos de radicalização se assemelhem menos à conversão intelectual tradicional e mais à imersão ecológica em ambientes informacionais fechados. O indivíduo passa a respirar permanentemente a mesma atmosfera simbólica. Os mesmos medos, os mesmos inimigos, as mesmas palavras de ordem e os mesmos afetos circulam continuamente pela rede.

Aqui, a analogia com insetos eusociais deixa de ser mera metáfora estética e passa a adquirir dimensão estrutural. Em colônias de formigas ou cupins, o indivíduo não carrega internamente todas as informações necessárias para orientar seu comportamento. A inteligência encontra-se distribuída pelo sistema. O mesmo parece ocorrer em ecossistemas políticos fortemente mediados por plataformas digitais.

Nas colônias eusociais, diferentes castas desempenham funções específicas: defesa, exploração, manutenção e reprodução.

Em sistemas políticos altamente radicalizados, estruturas semelhantes emergem espontaneamente. Influenciadores digitais amplificam narrativas e produzem mobilização contínua. Pastores oferecem legitimação moral e transcendência simbólica. Militâncias digitais executam ataques coordenados contra adversários e dissidentes. Empresários e financiadores garantem sustentação material. Plataformas distribuem alcance e priorizam conteúdos emocionalmente mais explosivos.

Frequentemente, nem mesmo é necessário que exista uma coordenação explícita. O sistema aprende a se autorregular. Os participantes internalizam padrões de reação, reconhecem sinais de pertencimento e passam a responder automaticamente aos estímulos emitidos pela própria rede.

A lógica do enxame substitui progressivamente os mecanismos tradicionais de deliberação racional. A velocidade da circulação emocional passa a importar mais do que a verificação factual, a coerência argumentativa ou a reflexão crítica. O sistema privilegia respostas rápidas, o alinhamento afetivo e a sincronização grupal.

Talvez por isso determinados movimentos contemporâneos revelem enorme capacidade de mobilização instantânea e, simultaneamente, extrema dificuldade de convivência com o pluralismo, a dúvida ou a ambiguidade.

Como ocorre em sistemas imunológicos, o dissidente deixa de ser percebido como alguém que diverge. Passa a ser tratado como um corpo estranho. O debate deixa de ser concebido como confronto legítimo entre perspectivas distintas e passa a funcionar segundo lógica sanitária: eliminar contaminações simbólicas capazes de ameaçar a integridade emocional da colmeia.

A linguagem frequentemente assume características imunológicas: “infiltrado”, “traidor”, “vendido”, “comunista”, “globalista”, “herege”. O objetivo já não é debater, mas sim neutralizar elementos percebidos como uma ameaça à integridade simbólica da colmeia.

Essa dinâmica ajuda a explicar por que movimentos de tipo sectário frequentemente apresentam enorme dificuldade de convivência com instituições pluralistas. Democracias dependem de dissenso legítimo. Colmeias, não. Como observou Hannah Arendt ao analisar os regimes totalitários do século XX, a destruição da pluralidade humana constitui condição essencial para sistemas políticos que buscam dissolver o indivíduo em identidades coletivas totalizantes.

Nas colônias de insetos eusociais, a rainha exerce papel biológico e organizador central. Sua presença mantém a estabilidade química e funcional do sistema. Quando a rainha desaparece ou perde a capacidade de coordenação, a colônia frequentemente entra em desorganização, disputa interna ou colapso gradual.

A analogia ajuda a compreender um dos dilemas atuais do bolsonarismo radical.

Desde a campanha de 2018, Jair Bolsonaro passou a funcionar não apenas como liderança política, mas sobretudo como o principal núcleo de coesão emocional do ecossistema bolsonarista. Em torno de sua figura convergiam ressentimentos, medos, crenças religiosas, teorias conspiratórias, antipetismo, militarismo e fortes mecanismos de pertencimento grupal.

Mais do que um programa político coerente, o bolsonarismo estruturou-se como uma arquitetura afetiva centrada no líder, simultaneamente referência moral, catalisador emocional e mecanismo de sincronização do enxame.

Mas sistemas altamente dependentes de liderança carismática enfrentam dificuldades quando o centro organizador se fragiliza.

Inelegibilidade, desgaste político, investigações judiciais, divisões internas e perda gradual de capacidade mobilizadora criam um problema estrutural: como preservar a coesão do enxame sem a presença plenamente funcional da “rainha”?

O sistema tenta responder distribuindo funções entre influencers, parlamentares, pastores, militares e plataformas digitais. Mas isso produz tensões permanentes de sucessão, competição e fragmentação.

Em ecossistemas desse tipo, a ausência progressiva da liderança central frequentemente não produz moderação. Pode produzir exatamente o contrário: radicalização crescente, disputas de pureza ideológica e proliferação de facções concorrentes tentando reivindicar a herança simbólica do líder original.

Em colônias naturais, a perda da rainha frequentemente desencadeia desorganização. Em sistemas humanos altamente polarizados, o enfraquecimento do centro organizador pode produzir paranoia crescente e busca desesperada por novos mecanismos de coesão.

Talvez o aspecto mais inquietante das colmeias humanas contemporâneas não seja apenas a existência de líderes carismáticos, mas também a infraestrutura tecnológica capaz de produzir sincronização emocional em escala planetária.

As colmeias digitais não emergem espontaneamente da sociedade. Elas são produzidas, moduladas e amplificadas por arquiteturas tecnológicas desenhadas para maximizar a captura da atenção, o engajamento emocional e a permanência nas plataformas.

Esse talvez seja um dos aspectos mais importantes – e frequentemente menos discutidos – da nova ecologia informacional contemporânea. As plataformas digitais não funcionam apenas como meios neutros de comunicação. Elas operam como sistemas ativos de modulação comportamental.

Seu modelo econômico depende da atenção contínua dos usuários. E, nesse ambiente competitivo, conteúdos emocionalmente intensos tendem a possuir enorme vantagem adaptativa.

Indignação, medo, ressentimento, paranoia, escândalo e conflito geram mais compartilhamentos, mais comentários, mais tempo de permanência e maior circulação algorítmica. A própria lógica econômica das plataformas favorece, assim, dinâmicas de polarização emocional e sincronização coletiva.

As colmeias humanas do século XXI possuem infraestrutura corporativa. As plataformas não apenas hospedam enxames digitais. Elas possuem incentivos econômicos para produzi-los.

A radicalização política deixa então de ser apenas um fenômeno ideológico ou psicológico. Ela passa a integrar modelos de negócio baseados em vigilância comportamental, mineração de dados e engenharia algorítmica da atenção[††].

Nesse ambiente, algoritmos aprendem continuamente quais estímulos produzem maior ativação emocional nos usuários. O sistema identifica medos, preferências, vulnerabilidades, ressentimentos e padrões de comportamento, retroalimentando-os em ciclos sucessivos de reforço cognitivo.

Os feromônios das colmeias digitais são produzidos industrialmente.

Talvez por isso o comportamento de enxame contemporâneo apresente intensidade sem precedentes históricos. Nunca existiu, em nenhuma época, infraestrutura comunicacional capaz de sincronizar afetos, medos e reações de centenas de milhões de indivíduos em tempo real.

A arquitetura técnica das plataformas favorece respostas rápidas, impulsivas e emocionalmente carregadas. A reflexão lenta torna-se uma desvantagem competitiva em ecossistemas governados por velocidade, visibilidade e engajamento.

O próprio desenho das redes estimula mimetismo coletivo. Quanto mais compartilhado um conteúdo, maior sua legitimidade aparente. Quanto mais intensa a reação emocional, maior sua circulação algorítmica. O enxame aprende continuamente consigo mesmo.

Em consequência, plataformas digitais tendem a funcionar menos como espaços públicos deliberativos e mais como sistemas de amplificação emocional em larga escala.

Talvez seja precisamente essa combinação entre capitalismo de vigilância, arquitetura algorítmica e sincronização afetiva que esteja criando as condições para formas inéditas de eusocialidade simbólica entre humanos.

A tentativa de sincronizar emocionalmente grandes massas humanas não surgiu com as redes sociais. O século XX já havia testemunhado formas poderosas de coordenação coletiva mediadas por tecnologias de comunicação de massa.

Poucos exemplos foram tão emblemáticos quanto o uso político do rádio durante a consolidação do nazismo na Alemanha.

Sob a direção de Joseph Goebbels, o regime compreendeu precocemente que o controle da infraestrutura comunicacional seria decisivo para moldar percepções, emoções e pertencimentos coletivos. O rádio deixava de ser apenas um meio de informação. Tornava-se instrumento de sincronização social.

O governo nazista incentivou massivamente a produção do Volksempfänger – o “rádio do povo” –, aparelho de baixo custo projetado para ampliar o alcance da propaganda estatal. Discursos de Hitler, cerimônias públicas, marchas e palavras de ordem passaram a penetrar simultaneamente milhões de lares alemães.

A repetição contínua produzia um efeito cumulativo de imersão simbólica.

O indivíduo deixava progressivamente de perceber suas emoções como experiências privadas e passava a compartilhá-las coletivamente em tempo real. Medos, ressentimentos, humilhações nacionais, paranoias conspiratórias e promessas de redenção eram continuamente reforçados por uma ecologia comunicacional centralizada e altamente coordenada.

A tecnologia permitia transformar multidões dispersas em uma massa emocionalmente sincronizada.

No Brasil, o Estado Novo de Getúlio Vargas também compreendeu precocemente o poder das novas tecnologias de comunicação na construção de pertencimento político e da identidade nacional. Sob a direção de Lourival Fontes, o Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP) coordenou uma vasta máquina de produção simbólica voltada à consolidação da imagem de Vargas como líder nacional e mediador paternal da sociedade brasileira.

Mais uma vez, o rádio desempenhou um papel central nesse processo. Discursos oficiais, programas culturais, campanhas cívicas e cadeias nacionais ajudavam a produzir uma sensação de simultaneidade emocional entre regiões social e culturalmente muito distintas do país. Ainda se tratava de uma lógica vertical, centralizada e unidirecional. Mas já era possível perceber o potencial das tecnologias de comunicação para transformar populações dispersas em comunidades afetivamente sincronizadas.

Outros regimes autoritários compreenderam rapidamente o mesmo fenômeno. Na Itália fascista, o rádio desempenhou papel central na construção do culto à personalidade de Mussolini. Na União Soviética stalinista, cinema, imprensa e radiodifusão foram utilizados para alcançar a homogeneização ideológica em escala continental. Durante a Revolução Cultural chinesa, megafones, jornais murais e sessões públicas de mobilização coletiva desempenharam funções semelhantes de sincronização simbólica.

Mesmo em democracias liberais, a expansão da televisão ao longo da segunda metade do século XX ampliou enormemente a capacidade de coordenação afetiva das sociedades contemporâneas. Guerras, eleições, crises econômicas e grandes eventos passaram a ser vividos simultaneamente por populações inteiras.

Da árvore ao enxame

Durante grande parte do século XX, os sistemas de comunicação de massa operavam segundo uma lógica essencialmente arbórea ou radicular. A informação partia de centros relativamente bem definidos – emissoras de rádio, jornais, redes de televisão, aparelhos de propaganda estatal – e se espalhava de maneira hierárquica pela sociedade.

Mesmo regimes altamente autoritários dependiam de estruturas relativamente centralizadas de emissão simbólica. O fluxo comunicacional possuía uma direção previsível: poucos falavam para muitos.

O rádio, a televisão e os jornais operavam predominantemente segundo a lógica unidirecional: poucos emissores transmitiam mensagens relativamente homogêneas para as grandes audiências.

As plataformas digitais introduziram algo qualitativamente novo.

O modelo contemporâneo aproxima-se menos de uma árvore hierárquica e mais de sistemas distribuídos de tipo enxame. A informação já não depende exclusivamente de centros fixos de emissão. Ela circula horizontalmente, replica-se em cascata, adapta-se continuamente e reorganiza-se em tempo real.

Elas combinam comunicação horizontal, vigilância comportamental contínua, personalização algorítmica e retroalimentação emocional em tempo real. Cada indivíduo passa a receber fluxos informacionais ajustados dinamicamente às suas vulnerabilidades cognitivas, preferências emocionais e padrões prévios de comportamento.

Nesse novo ambiente, memes, vídeos, hashtags, correntes de mensagens e algoritmos passam a operar de maneira funcionalmente semelhante aos feromônios das colônias eusociais: sinais simples, mas capazes de produzir coordenação coletiva altamente complexa.

O enxame deixa então de ser apenas massa mobilizada. Passa a funcionar como um sistema adaptativo autorregulado.

Talvez resida aí a singularidade histórica das colmeias digitais contemporâneas: pela primeira vez, as infraestruturas tecnológicas permitem a sincronização emocional massiva, sem a necessidade permanente de um comando central explícito.

O próprio sistema aprende, adapta-se e reorganiza-se continuamente.

A passagem da propaganda de massas clássica para a engenharia algorítmica do comportamento político talvez tenha alcançado sua expressão mais emblemática no caso da Cambridge Analytica, empresa britânica de consultoria política e análise de dados ligada ao estrategista norte-americano Steve Bannon e financiada pelo bilionário Robert Mercer, cientista da computação, investidor e importante financiador de organizações conservadoras e nacionalistas nos Estados Unidos. A empresa ganhou notoriedade internacional ao utilizar dados extraídos de redes sociais – especialmente do Facebook – para construir perfis psicométricos detalhados de milhões de usuários, identificando traços de personalidade, medos, vulnerabilidades emocionais e predisposições políticas.

O objetivo já não era apenas difundir propaganda homogênea para grandes audiências, como ocorria nos sistemas clássicos de comunicação de massa. Tratava-se agora de personalizar estímulos emocionais e mensagens políticas para segmentos específicos da população, explorando medos, ressentimentos e predisposições cognitivas de maneira altamente segmentada.

A Cambridge Analytica tornou-se particularmente conhecida por seu envolvimento nas campanhas do Brexit, no Reino Unido, e na primeira eleição presidencial de Donald Trump, em 2016. Steve Bannon, que integrava o conselho da empresa antes de assumir um papel central na campanha de Trump, enxergava nas novas tecnologias de microtargeting político uma ferramenta poderosa para intensificar a polarização, a mobilização emocional e o comportamento tribal em ambientes digitais.

O cientista de dados Michal Kosinski havia demonstrado anteriormente que padrões de comportamento digital – curtidas, compartilhamentos e interações –, aparentemente banais, permitiam inferir características psicológicas com surpreendente precisão. A perspectiva de aplicar esses métodos à disputa política chamou rapidamente a atenção de atores como Steve Bannon e da própria Cambridge Analytica.

A lógica da propaganda política sofria então uma mutação profunda. Durante grande parte do século XX, líderes, partidos e governos buscavam persuadir multidões. Agora passava a ser possível influenciar indivíduos específicos, explorando suas vulnerabilidades psicológicas de maneira personalizada. A propaganda deixava de ser massiva para tornar-se cirúrgica.

Ao mesmo tempo, autores como Eli Pariser passaram a alertar para o surgimento das chamadas “bolhas de filtro”, ambientes digitais nos quais algoritmos tendem a reforçar continuamente crenças, preferências e visões de mundo já existentes, reduzindo exposição ao contraditório e intensificando processos de radicalização cognitiva.

A lógica da propaganda política sofria então uma mutação profunda. Em vez de mensagens padronizadas irradiadas para toda a população, as plataformas digitais permitiam a microsegmentação contínua de estímulos emocionais adaptados a diferentes perfis psicológicos.

A comunicação política aproximava-se cada vez mais do funcionamento de sistemas eusociais distribuídos. O enxame já não precisava apenas ser mobilizado. Precisava ser permanentemente calibrado, estimulado e sincronizado em tempo real.

À medida que as plataformas digitais se tornam infraestrutura central da vida social, econômica e política, a disputa contemporânea pelo poder passa de modo crescente pelo controle dos fluxos de informação, vigilância e modulação comportamental.

As Big Techs deixaram de funcionar apenas como empresas de tecnologia. Tornaram-se arquiteturas privadas de coordenação social em escala planetária.

Diferentemente dos sistemas de propaganda do século XX, que dependiam principalmente de Estados nacionais, a nova infraestrutura informacional encontra-se concentrada em um número reduzido de corporações privadas capazes de operar simultaneamente em escala global. Pela primeira vez na história, empresas privadas dispõem de capacidade técnica para observar, classificar, segmentar e influenciar bilhões de indivíduos em tempo real.

A questão central deixa então de ser apenas quem controla o Estado. Passa a ser também quem controla as infraestruturas que moldam a percepção da realidade. Em sociedades cada vez mais mediadas por plataformas digitais, o poder de definir quais informações circulam, quais emoções são amplificadas e quais narrativas recebem visibilidade torna-se um dos principais instrumentos de influência política do século XXI.

Seu poder já não reside apenas na capacidade de armazenar dados, mas também de identificar padrões, antecipar comportamentos, modular preferências e influenciar dinâmicas coletivas em tempo real.

Empresas como a Palantir – originalmente associada a sistemas de inteligência, análise de dados e segurança – ajudam a revelar a crescente convergência entre vigilância algorítmica, inteligência artificial e poder político. O monitoramento contínuo de populações, fluxos financeiros, deslocamentos, redes de relacionamento e padrões de comportamento passa a integrar uma nova infraestrutura de gestão social baseada em dados massivos.

Em ecossistemas digitais altamente conectados, a vigilância e a modulação tornam-se processos inseparáveis. O sistema aprende continuamente não apenas a observar o enxame, mas também a influenciar sua direção, intensidade emocional e padrões de reação.

Talvez o maior risco contemporâneo não seja apenas a existência de colmeias humanas digitais, mas a crescente concentração privada da capacidade de produzir, monitorar e direcionar seus feromônios algorítmicos.

Talvez o aspecto mais inquietante das colmeias humanas contemporâneas não seja a existência de líderes carismáticos, mas a gradual dissolução da autonomia individual.

Plataformas digitais recompensam conformidade emocional, respostas rápidas, indignação permanente e pertencimento tribal. A reflexão lenta torna-se uma desvantagem competitiva dentro da lógica algorítmica.

A própria arquitetura técnica das redes favorece comportamentos miméticos. Conteúdos emocionalmente intensos recebem mais engajamento. O algoritmo amplifica reações rápidas. O pertencimento grupal gera recompensas psicológicas contínuas. A dissidência produz punição simbólica imediata.

Progressivamente, a política deixa de funcionar como espaço de deliberação e passa a operar como um circuito fechado de estímulos afetivos sincronizados.

Talvez estejamos assistindo ao surgimento da primeira infraestrutura tecnológica capaz de induzir comportamentos de enxame em escala planetária e em tempo real.

Nunca existiu democracia sem indivíduos capazes de sustentar pensamento autônomo diante da pressão do grupo.

Talvez o maior perigo das colmeias humanas do século XXI não seja a obediência imposta pela força, mas a entrega voluntária da própria capacidade de pensar ao conforto emocional da colônia.

Humanos não são formigas. Mas talvez as plataformas digitais estejam criando, pela primeira vez na história, condições tecnológicas para que parcelas inteiras da vida política passem a funcionar como se fossem.

A questão decisiva já não é apenas se estamos formando colmeias humanas. É quem controla seus feromônios.
Celso P. de Melo

Ira, emoções e a promessa de ‘Dark Horse’

As democracias contemporâneas se estabeleceram sobre uma concepção do cidadão como sujeito de razão. Tudo acontece como se só houvesse legitimidade em combater adversários políticos por meio de informações verificáveis e argumentos plausíveis. É o que faz uma democracia “civilizada”, conforme o legado europeu e iluminista que ainda organiza boa parte do nosso imaginário político.

Surpreende, assim, que certas informações – por mais escandalosas que sejam – não alterem de maneira significativa a orientação política da população. A informação conta, é certo, mas talvez não conte por tudo na arena política.

É possível que o jornalismo convencional não tenha, sozinho, todas as armas necessárias para enfrentar a expansão da extrema-direita no Brasil. A produção de informação rigorosa e a investigação jornalística seguem indispensáveis. Mas talvez não disponham da força mobilizadora que muitas vezes esperamos delas.

Por que será?

Uma pista pode estar no suposto blockbuster do bolsonarismo, o filme Dark Horse, anunciado como projeto de forte apelo político e identitário no interior do campo bolsonarista. Se este longa seguir o exemplo de outras grandes peças de propaganda política, dificilmente buscará convencer seu público com informações que este já não disponha. Seu papel mais decisivo será outro: satisfazer o prazer de ser bolsonarista.

Porque ser bolsonarista é, antes de tudo, um prazer. Um prazer de pertencimento.

O bolsonarismo, como o trumpismo e outros movimentos contemporâneos de extrema-direita, emergiu, como se sabe, em meio a uma sucessão de crises (institucionais, econômicas e ecológicas). Como lembra Elias Canetti em Massa e poder, são nesses contextos que movimentos de massa aparecem como promessa de proteção coletiva. Eles respondem ao medo do isolamento e da vulnerabilidade.

Pertencer a um grupo coeso e bem definido permite desfrutar de uma sensação de poder. A devoção ao líder não é vivida como submissão, mas como uma forma de canalização da energia coletiva para enfrentar as ameaças e realizar o impossível.

Dark Horse parece operar justamente nesse registro: desenhar o horizonte do impossível tornado possível e converter a frustração coletiva em energia organizada.

Daí o êxito do bolsonarismo e de seus meios de comunicação: constituir um estoque de ira – para usar uma expressão de Peter Sloterdijk –, acumular ressentimentos e frustrações, alimentar a percepção de injustiça, despertar o desejo de vingança e cristalizar essas emoções em uma narrativa compartilhada que aponta para a conquista final.

O “núcleo duro” do bolsonarismo é identitário. Ele não se alimenta prioritariamente de informações – às quais pode permanecer impermeável –, mas de uma estética de grupo.

Vestir verde e amarelo, vociferar os lemas conservadores, declamar o ódio aos opositores, desafiar as autoridades, manifestar desprezo pelas instituições, demonstrar lealdade ao líder sob quaisquer circunstâncias são atos e atitudes que constituem uma linguagem política distinta da linguagem jornalística ou do debate institucional. São expressões de poder.


A violência, como linguagem, expressa independentemente de seu conteúdo informacional uma identidade coletiva. Ela marca uma diferença radical e fortalece os elos do grupo.

Dark Horse é, e será, um filme de congregação que permite a expressão dessa violência ritualizada, seja pelas representações ou pelas reações previsíveis do público. Independentemente de seu sucesso comercial ou de seu mérito artístico, ele já é um filme operacional. Em torno dele se constitui uma forma de cooperação intensa do bolsonarismo. Enquanto elemento de confrontação pública com os grupos adversos, o filme é um acelerador de solidariedade identitária e um instrumento de violência programada.

O que quer que digam seus críticos, o longa-metragem funcionará como uma tecnologia social de coesão pelo conflito. Ele demonstra a função primordial da comunicação política bolsonarista: permitir a expressão e o reconhecimento mútuo dos membros ativos e multiplicar as ocasiões de grande intensidade emocional partilhada. Diante de tal tecnologia social e política, as considerações sensatas das instituições democráticas são totalmente impotentes. O apelo à moderação ou ao bom senso não dialoga com essas estruturas de mobilização afetiva.

Talvez isso nos obrigue a repensar de maneira mais profunda o papel das emoções na democracia.

Há uma longa tradição de desqualificação política das emoções. No cenário atual do Brasil e do mundo, busca-se muitas vezes atribuir a expansão do neofascismo à intensa circulação, por via de algoritmos, de apelos emocionais e narrativas que conduzem ao “fanatismo”. No entanto, a história mostra algo mais complexo.

As acusações de fanatismo não recaíram historicamente apenas sobre movimentos autoritários e fascistas: também foram dirigidas a formas populares de mobilização que escapavam ao repertório político dominante e não se alinhavam com um certo conceito de civilização. Em particular na época colonial, fanáticos eram aqueles movidos por energias políticas consideradas irracionais e, portanto, marginalizados.

No cenário político atuam forças que as instituições democráticas nem sempre reconhecem. De Gandhi aos coletes amarelos, a história do mundo moderno nos ensina que a criatividade política é também estética. As forças coletivas que movem as democracias são afetivas, dionisíacas, e não apenas discursivas ou informacionais. Elas dependem de ritmos, melodias, danças, cores, rituais, êxtases, ídolos, agrupamentos, festas e processos identitários.

É preciso mais do que a informação para mobilizar energias capazes de desintegrar o bolsonarismo. Não há convulsão política sem a mobilização ativa de emoções inconscientes.

Cabe sobretudo ficarmos atentos à criatividade popular. É dela que devem surgir os motes de uma estética política que mina o bolsonarismo. A primavera dos povos emerge nas periferias do mundo civilizado. Os mais bem formados e informados nem sempre estão preparados para ouvir seu despertar.

Vocês da imprensa na Copa de Infantino

Antes de mais nada, permitam-me apresentar este novo espaço, que vou ocupar nas quintas de Copa. A ideia é trazer um pouco da visão de vocês da imprensa de outros países sobre esse evento que mobiliza o mundo. You from the press, na Inglaterra, vão voltar a se considerar candidatos ao título por terem inventado o futebol ou ceder ao pessimismo que é o passatempo nacional? Ustedes de la prensa, na Argentina, ainda estão de barriga cheia com a conquista de 2022? E vous de la presse, no Marrocos, acreditam mesmo que são favoritos na estreia? Sim, um jornal de lá publicou que quem tem de se preocupar é o Brasil.

A manchete que escolhi para ilustrar este primeiro texto está escrita em inglês num jornal francês. O "Welcome to the USA" do L'Équipe contém ironia, como se pode perceber pelas ilustrações: o árbitro somali Omar Abdulkadir Artan, que levou cartão vermelho da polícia de fronteira dos Estados Unidos, mostra um amarelo – talvez para Donald Trump, que tem o troféu numa das mãos e uma marionete de Gianni Infantino na outra. "A Fifa fecha os olhos diante da política migratória americana", escreve Frédérique Galametz no editorial dessa edição. A partida de abertura é no México (que vem dando seu costumeiro show de hospitalidade), o Canadá também terá as suas, mas as críticas se concentram no principal país anfitrião.


A Copa de 2026 poderia ter como marco a volta do evento a países democráticos – o último foi o Brasil de 2014, que, como os Estados Unidos de hoje, vivia na época uma crise política capaz de ameaçar a própria democracia. Mas nem aqui, nem nos regimes autoritários da Rússia e do Catar, houve restrições como as que o governo Trump impôs até mesmo aos participantes da competição. Em artigo no jornal inglês The Independent sobre a deportação do árbitro, Miguel Delaney (torcedor do Nottingham Forest, como meu amigo Jorge Luiz Rodrigues) devolve essa responsabilidade à entidade máxima do futebol: "A Fifa está esquecendo suas regras e seus valores."

Regras, vá lá; mas valores? A pergunta, cínica porém pertinente, não foi feita diretamente, mas percorre o perfil “A Copa do Mundo segundo Gianni Infantino”, que Sam Knight escreveu para a revista The New Yorker (as tentativas que os veículos tradicionais de comunicação dos Estados Unidos estão fazendo para entender o futebol da bola redonda e seu maior evento produziram alguns dos textos mais interessantes do período pré-Copa). Knight é inglês, chama o soccer de football e se declara um torcedor apaixonado logo na abertura, mas no dia a dia se dedica à cobertura de eventos políticos e sociais, como o Brexit e a morte da Rainha Elisabeth II. O presidente da Fifa é descrito por ele como um filho de imigrantes pobres que, depois de fazer sucesso como executivo na Uefa, se viu diante de uma oportunidade única: tornar-se o dono da bola no planeta.

Os valores que usou para se eleger e se manter no cargo, segundo Knight, não foram morais, mas financeiros. Uma fonte anônima citada na reportagem diz que Infantino ofereceu como resposta à crise de corrupção na Fifa a possibilidade de todo mundo na entidade ganhar mais dinheiro. Nunca viu qualquer problema em se associar a governantes autoritários para isso; usou o combate ao eurocentrismo como justificativa para levar a Copa à Rússia (que não se sente europeia e alega que a invasão da Ucrânia é uma guerra moral contra o Ocidente) e ao Catar; bate incessantemente na tecla de que o futebol une os povos; e pergunta aos assessores mais íntimos por que os jornalistas são tão cruéis com ele.

O autor do perfil não responde. O da coluna, muito menos.

Soberania e segurança: um falso dilema

A crise da segurança pública transformou-se numa das principais questões políticas da América Latina. México, Colômbia, Equador, Venezuela, Honduras e El Salvador convivem há anos com organizações criminosas que desafiam a autoridade do Estado, controlam territórios, corrompem instituições e impõem regras próprias a milhões de cidadãos. Não por acaso, diversos desses grupos foram enquadrados como organizações terroristas pelo governo de Donald Trump.


O Brasil ingressou recentemente nessa lista com a decisão americana de classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas. A medida provocou controvérsia política e jurídica, mas não pode ser analisada isoladamente. Ela faz parte de uma estratégia dos Estados Unidos que passou a tratar o narcotráfico e o crime organizado transnacional como ameaças à sua segurança nacional.

No Brasil, porém, a discussão rapidamente foi contaminada pela polarização. De um lado, setores governistas passaram a apresentar a medida como ameaça à soberania nacional. De outro, a oposição procurou transformá-la em evidência do fracasso das políticas de segurança do governo Lula.

O primeiro fato é que o Brasil enfrenta um fracasso histórico no enfrentamento do crime organizado. Ao longo das últimas décadas, facções deixaram de ser organizações voltadas ao tráfico de drogas para se transformar em estruturas empresariais sofisticadas, com atuação nacional e internacional. Controlam rotas de tráfico, operam esquemas de lavagem de dinheiro, infiltram-se em atividades econômicas legais e exercem domínio territorial sobre comunidades inteiras.

O crescimento das facções não é apenas um problema policial. É uma evidência de que o Estado brasileiro falhou, durante décadas, em exercer plenamente sua autoridade em partes relevantes do território nacional.

Levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública mostrou que organizações criminosas exercem influência direta ou indireta sobre milhões de brasileiros. Em muitas regiões, o Estado perdeu o monopólio efetivo da força. Quem impõe regras de convivência, controla atividades econômicas e regula conflitos locais não é a autoridade pública, mas o poder paralelo.

A responsabilidade por essa deterioração é compartilhada por sucessivos governos. Ainda assim, é difícil ignorar que a expansão das facções ocorreu justamente no período em que o país conviveu com estratégias frequentemente fragmentadas e hesitantes de enfrentamento ao crime organizado, abrangendo administrações de diferentes orientações políticas, inclusive os 18 anos de governos petistas desde 2003.

O Brasil, contudo, não está sozinho nessa trajetória. O mesmo fenômeno ocorreu em diversos países latino-americanos. E foi precisamente essa incapacidade de conter o avanço do crime organizado que abriu espaço para o surgimento de lideranças que se apresentam como restauradoras da ordem.

Em praticamente toda a América Latina, o avanço da criminalidade ampliou o espaço político de candidatos que prometem repressão mais severa, mesmo quando suas propostas afrontam garantias constitucionais e princípios do Estado de Direito.

É sob essa perspectiva que deve ser analisada a decisão americana de classificar facções brasileiras como organizações terroristas.

O exemplo mexicano é instrutivo. Ao mesmo tempo em que rejeitou qualquer hipótese de intervenção estrangeira, o governo mexicano preservou mecanismos de cooperação com os Estados Unidos nas áreas de inteligência, lavagem de dinheiro e combate às redes internacionais do narcotráfico.

Trata-se de uma postura pragmática. O México não abriu mão de sua soberania, mas tampouco recusou instrumentos capazes de fortalecer sua capacidade de enfrentamento ao crime organizado.

O Brasil deveria seguir caminho semelhante. Especialistas em segurança pública apontam que a cooperação internacional pode gerar ganhos importantes no rastreamento de recursos ilícitos, bloqueio de ativos e desarticulação de redes financeiras transnacionais.

O governo Lula, entretanto, parece ter optado por enfatizar prioritariamente a narrativa da soberania nacional. Trata-se de uma estratégia que possui evidente dimensão política e eleitoral. O risco é ignorar que a principal preocupação dos brasileiros hoje não é a diplomacia, mas a segurança.

Para quem vive em áreas controladas por facções, a soberania ameaçada não é apenas a do Estado brasileiro diante dos Estados Unidos. É a soberania cotidiana do cidadão: o direito de ir e vir, de empreender, de circular sem medo e de viver protegido da extorsão e da violência.

Quando o Estado deixa de exercer plenamente sua autoridade, a discussão sobre soberania deixa de ser apenas diplomática e passa a ser também uma questão de governabilidade interna.

A defesa da soberania nacional é uma causa legítima. Mas ela perde força quando ignora a soberania dos brasileiros comuns.

O verdadeiro desafio do país não é escolher entre soberania e segurança. É compreender que uma depende da outra. Nenhum Estado pode se considerar plenamente soberano quando já não exerce integralmente sua autoridade dentro de suas próprias fronteiras.