Meu personagem da semana se chama Edson Arantes do Nascimento.
Na última semana inúmeras heresias foram cometidas contra Edson Arantes. Seu manto real foi profanado, seu nome foi pronunciado em vão, seu trono foi vilipendiado, sua soberania foi questionada.
Perdoa, Rei, porque eles não sabem o que fazem.
Houve hereges brasileiros capazes de ironizar seus vídeos em redes sociais. Para estes podemos oferecer a danação eterna, um chute do Roberto Carlos na região indefesa, quem sabe milho ocasional para o joelho arrependido.
Estudar história é necessário. Houve um, apenas um, que aos 17 anos deu chapéu, matou no peito e fez gol em final de Copa do Mundo. Houve apenas um que ganhou três Copas do Mundo como jogador.
Entendam os amigos argentinos: Messi compete com Maradona – e não sabemos se ganha. Pelé está em outro planeta. Em outra galáxia. Em outra dimensão.
Pelé nunca perdeu uma final da Copa, muito menos duas. Maradona, diga-se, perdeu só uma. Pelé nunca viu seu time ser engolido em final de Copa. Aliás, nas duas finais que disputou, o Brasil ganhou de goleada. Na primeira, o jovem Edson fez o citado gol de almanaque. Na segunda, deu aula de futebol e fez gol mais uma vez. Sua camisa 10 de 1970 deveria estar na entrada da FIFA como uma espécie de santo sudário futebolístico.
Maradona ganhou um título sozinho em 1986. Levou a Argentina nas costas até a final de 1990 – mais ou menos como Messi fez agora. Aquela final em Roma, porém, foi vagamente equilibrada. A partida que vimos ontem em Nova York foi um massacre.
Poucas vezes se viu, numa final de Mundial, domínio tão impressionante. A Argentina só foi finalizar na prorrogação. Parecia um daqueles jogos de Estadual – em que o time grande fica com a bola e o pequeno joga com raça tentando arrumar o gol milagroso num contra-ataque que nunca vem.
Quando o gol espanhol saiu, os argentinos tentaram tirar o improvável coelho da cartola. Messi enfim apareceu no jogo – fazendo duas, três jogadinhas na ponta direita... batendo escanteios perigosos. Houve brio. E pouco mais.
Por um instante me lembrei da musiquinha que ecoou pelos estádios brasileiros em 2014:
- Mil gols, mil gols... só Pelé... só Pelé... Maradona cheirador!
Messi sequer aparecia na canção. Aquela derrota e outras duas em Copa América quase tiraram Messi da seleção argentina. A volta por cima em 2022 foi linda – por mais que ele já não fosse o SuperMessi do Barcelona. Ele já tinha se tornado um Messi estratégico, especialista em encontrar as brechas impossíveis, derivando em campo como um fantasma.
Em 2026, Messi foi ainda mais esse pós-Messi que, não nos enganemos, continua craque, mas longe daquele Messi capaz de destruir qualquer partida a qualquer momento. A vitória em 2022 e essa improvável final alucinaram especialistas e parte da imprensa mundial – que resolveram elegê-lo como o melhor jogador de todos os tempos.
O massacre espanhol talvez desidrate esse descalabro. Messi deve se considerar abençoado pela mera existência da discussão. Mas seu debate é outro – e com outro argentino. Até porque Messi não fez em nenhuma de suas seis Copas o que Maradona fez em 1986. Ou que Garrincha fez em 1962 - para falar de outro gênio.
Então, celebremos o craque infinito, seu currículo, sua história e tudo aquilo que Messi ofereceu ao futebol. Foi um prazer apreciá-lo em campo e é uma pena que não tenhamos mais Copas com ele. Mas não perturbemos o sono real. Deixemos que Edson Arantes descanse em paz na inviolável eternidade de seu trono.
Nenhum comentário:
Postar um comentário