quarta-feira, 27 de maio de 2020
Bolsonaro segue a receita de Mussolini
O fascista é nacionalista. Acredita numa conspiração global contra os valores e riquezas de seu país. Por isso, e por não confiar no mercado, que é internacionalista, apoia uma pesada intervenção do Estado na economia. Combate ferozmente os políticos e juristas, para eles um bando de corruptos, exceto os que servem ao seu líder —este sempre um político e/ou militar carismático, com um discurso "patriota", messiânico, moralizante e escorado em valores imprecisos, como "Deus" e "família". Os que não seguem tais linhas são comunistas.
O fascista pratica o culto da ação e da agressão e prega o armamento do "povo" (suas falanges) contra uma hipotética ditadura. Na verdade, visa à tomada de um poder acima da lei e até do Exército —a própria ditadura.
Se tal descrição lhe parece um déjà vu, essa era a receita de Mussolini. Deu certo por muitos anos. Mas terminou com ele de cabeça para baixo.
Ruy Castro
Crime ou interferência na PF do RJ?
A PF fez buscas na residência do governador Wilson Witzel porque as suspeitas contra ele são sólidas ou para agradar a Jair Bolsonaro? Não me sinto ainda em condições de cravar nenhuma das opções.
Pandemias são o sonho de consumo dos corruptos. Da noite para o dia, processos licitatórios são dispensados e equipamentos médicos passam a ser disputados ferozmente por vários países, fazendo com que os próprios preços deixem de funcionar como valor de referência. Quanto se pode pagar por um ventilador nessas condições? Seria uma surpresa se as quadrilhas que sempre fraudaram as compras públicas não procurassem tirar vantagem dessa conjuntura.
Witzel está envolvido nisso? Não sei. Mas sei que, assim como ninguém deve ser considerado culpado antes de um julgamento, ninguém deve ser considerado acima de qualquer suspeita e blindado contra investigações —viu, general Heleno?
Isso significa que a operação da PF é legítima? É provável, mas há elementos que fazem soar sinais de alarme, a começar da própria existência de uma enorme polêmica em torno da interferência do presidente sobre a PF. É também estranho que uma deputada bolsonarista tenha praticamente anunciado a operação na véspera de sua realização.
E isso nos leva ao ponto central desta coluna. Muitos temiam que, no poder, Bolsonaro deflagraria um autogolpe. Nunca acreditei muito nisso. Faltam-lhe as condições políticas e a competência para fazê-lo. Raras vezes tivemos um governo tão fraco.
O problema é que, mesmo perdido, dedicando-se a questiúnculas pessoais e dando vazão a manias e paranoias, Bolsonaro promove desgastes institucionais. Sua fixação com a cloroquina minou a respeitabilidade técnica do Ministério da Saúde; suas dedadas na PF fazem com que duvidemos das motivações de uma instituição que vinha ganhando credibilidade. E a lista não acaba aí. É um belo estrago para um presidente tão pequeno.
Pandemias são o sonho de consumo dos corruptos. Da noite para o dia, processos licitatórios são dispensados e equipamentos médicos passam a ser disputados ferozmente por vários países, fazendo com que os próprios preços deixem de funcionar como valor de referência. Quanto se pode pagar por um ventilador nessas condições? Seria uma surpresa se as quadrilhas que sempre fraudaram as compras públicas não procurassem tirar vantagem dessa conjuntura.
Witzel está envolvido nisso? Não sei. Mas sei que, assim como ninguém deve ser considerado culpado antes de um julgamento, ninguém deve ser considerado acima de qualquer suspeita e blindado contra investigações —viu, general Heleno?
Isso significa que a operação da PF é legítima? É provável, mas há elementos que fazem soar sinais de alarme, a começar da própria existência de uma enorme polêmica em torno da interferência do presidente sobre a PF. É também estranho que uma deputada bolsonarista tenha praticamente anunciado a operação na véspera de sua realização.
E isso nos leva ao ponto central desta coluna. Muitos temiam que, no poder, Bolsonaro deflagraria um autogolpe. Nunca acreditei muito nisso. Faltam-lhe as condições políticas e a competência para fazê-lo. Raras vezes tivemos um governo tão fraco.
O problema é que, mesmo perdido, dedicando-se a questiúnculas pessoais e dando vazão a manias e paranoias, Bolsonaro promove desgastes institucionais. Sua fixação com a cloroquina minou a respeitabilidade técnica do Ministério da Saúde; suas dedadas na PF fazem com que duvidemos das motivações de uma instituição que vinha ganhando credibilidade. E a lista não acaba aí. É um belo estrago para um presidente tão pequeno.
Militares, volver!
Seu ativismo, em parte, é consequência do fracasso dos anos do lulopetismo e da crise ética que levou de roldão partidos e lideranças civis, políticas ou empresariais. A adesão de oficiais da reserva e da ativa a Jair Bolsonaro se deu por identificação a determinados valores, mas também pela crença de que poderiam exercer um papel moderador dentro do governo. E dariam a ele um sentido de racionalidade. Diga-se, historicamente as Forças Armadas atuaram como “poder moderador” até 1988, quando pela Constituição esse papel passou a ser do Supremo Tribunal Federal.
De fato, os generais do governo começaram conseguindo impor limites aos jacobinos do bolsonarismo. Mas, em vez de domarem Bolsonaro, parece terem sido por ele domados. A linha divisória entre militares em atividade civil e a instituição Forças Armadas vem sendo borrada aos poucos.

Para o bem ou para o mal – e a vida está demonstrando que para o mal – tudo o que o grupo militar palaciano faz respinga na imagem da instituição. As Forças Armadas são o pessoal da ativa, não há dúvidas, e ela mesma se considera assim. Quando os generais da ativa, Luiz Eduardo Ramos e Eduardo Pazuello, respectivamente ministro-chefe da Secretaria de Governo e ministro interino da Saúde, vão a uma manifestação de apoiadores do presidente e presenciam palavras de ordem contra a democracia, é impossível não ver ali o endosso tácito da instituição. O mesmo acontece quando o general Augusto Heleno, ministro do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência, divulga uma nota intimidatória para o STF, com o aval do ministro da Defesa, general Fernando Azevedo e Silva.
Essa confusão pode gerar um conflito de interesses entre o núcleo palaciano e a cadeia de comando da tropa. Sobretudo porque os palacianos vendem a narrativa de que há uma conspiração para não deixar Bolsonaro governar, capitaneada pelo presidente da Câmara Rodrigo Maia, por Alexandre Moraes e, agora, Celso de Mello, ambos ministros do Supremo.
Outro ponto de atrito é a hipertrofia de militares em cargos governamentais, inclusive do pessoal da ativa. Reconheça-se, se deu em parte pela absoluta indigência do bolsonarismo em matéria de gestores capacitados. Mas, como é do ser humano, isso cria interesses próprios e estimula um apadrinhamento de tipo novo. Cada general ou coronel nomeado para o governo, leva também o seu staff.
Ora, se o premiado é da ativa, ele passa a ter uma remuneração bem superior a quem tem a mesma patente, mas não foi agraciado com um cargo na administração. Isso é o germe para despertar reivindicações salariais na tropa, tema que no passado foi causa de várias crises, como a do Manifesto dos Coronéis, de 1954. Ou para despertar invejas e subserviências.
Por hierarquia e disciplina, os militares não podem criticar o presidente, que é o chefe supremo das Forças Armadas. Mas é inegável a quantidade de confusões geradas por Bolsonaro. A ideia de armar milícias com fins políticos, portanto a criação de um poder militar paralelo, é inconcebível para o oficialato, uma vez que o monopólio da segurança deve estar nas mãos do Estado, das Forças Armadas, em caso de defesa da nação. Por muito menos elas se opuseram aos “grupos dos onze” de Leonel Brizola.
O mal que Bolsonaro está fazendo às Forças Armadas é enorme. Elas atrelaram o seu destino a um governo que é a própria negação aos princípios do positivismo, no qual a racionalidade e a valorização da ciência são dois traços marcantes
As Forças Armadas não são instituição do governo de plantão, mas do Estado brasileiro.
Somos um país de fronteiras secas imensas, de um mar territorial gigantesco. Garantir a inviolabilidade aérea, territorial, marítima são os principais deveres das Forças Armadas. São procedentes as preocupações dos oficiais quanto à defesa na Amazônia Legal. A região é fronteiriça com a Venezuela, cuja crise pode se desdobrar em guerra civil.
Agregue-se ainda: a Amazônia tem sido um campo aberto ao contrabando de minérios e à biopirataria. Tráfico de drogas e de armas, contrabando de mercadorias, também são problemas nas fronteiras. Tudo isso é séria ameaça à soberania nacional. Os militares querem e podem enfrentá-la, desde que lhes sejam dadas as condições, em termos de quantidade de tropas e de armamento moderno.
O país precisa que as Forças Armadas deixem a política de lado e se voltem exclusivamente para suas missões constitucionais.
Hubert Alquéres
Resistir é preciso
O melhor que pode acontecer ao País nesta encruzilhada da História é que as perigosas intenções do presidente permaneçam onde estão, ou seja, no plano das intenções. Isto só será possível se as instituições se mantiverem firmes e resistirem com coragem e espírito público às desabridas pressões do atual chefe do Poder Executivo. É hora de as Forças Armadas, o Congresso, o STF, a Procuradoria-Geral da República (PGR) e a imprensa profissional exercerem suas atribuições republicanas sem desviar um milímetro das prerrogativas que a Constituição lhes confere. Não é fácil, mas resistir é preciso.
Contando com o estímulo de Jair Bolsonaro, o bando de celerados que o apoiam e batem ponto nas redondezas dos Palácios do Planalto e da Alvorada recrudesceu os ataques aos jornalistas que cobrem a Presidência. Tão virulentos foram esses ataques que os mais importantes veículos de comunicação do País decidiram suspender a cobertura jornalística naqueles locais. Longe de se tratar de “recuo” ou de simples “manifesto” da imprensa contra o governo, a decisão visa à proteção da integridade física dos jornalistas, que só está sob risco porque o cidadão Augusto Heleno, chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), não exerce a contento o seu dever de garantir a incolumidade de todos os que estão em áreas de segurança nacional. As agressões sofridas pelo fotógrafo Dida Sampaio, do Estado, e por jornalistas da Folha de S.Paulo e da TV Bandeirantes ilustram bem do que os camisas pardas do bolsonarismo são capazes.
Mas as ameaças à liberdade de imprensa não se dão apenas pela coação física e pelo assédio moral praticados contra os jornalistas de campo. William Bonner, editor-chefe e apresentador do Jornal Nacional, da Rede Globo, tem sido vítima de chantagens e fraudes por meio do uso de dados pessoais de seu filho. De um número telefônico com prefixo 61 (Brasília), o jornalista recebeu mensagens com dados fiscais sigilosos seus e de sua família. O objetivo dessas ações, obviamente, é tolher o livre exercício da profissão. Não se sabe a autoria dos crimes, mas não se ouviu uma só palavra de repúdio de Jair Bolsonaro ou de qualquer membro de seu governo ao ato vergonhoso e covarde. É com tais vícios morais que os bolsonaristas e seus inocentes úteis se associam?
Como a imprensa, o Congresso, a PGR e o STF, entre outras instituições de Estado, têm sido constrangidos por Bolsonaro a afrouxar a independência e os controles constitucionais que regem o sistema de freios e contrapesos. O desassombro dos avanços autocráticos do presidente é tal que faz crer que ele realmente se vê como um ungido para governar o País como melhor lhe aprouver, devendo satisfações apenas a seus caprichos. Não é hora de tibieza. A resposta das instituições deve ser à altura das ameaças. Ao tomar posse como presidente do Tribunal Superior Eleitoral, o ministro Luís Roberto Barroso afirmou que “não há volta no caminho da estabilidade institucional e democrática”. O presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, disse que “prudência não pode ser confundida com hesitação”, enfatizando que a “preservação da democracia” não será descuidada pela Casa das Leis.
As forças vitais do País deveriam estar inteiramente voltadas para a tarefa de salvar o maior número de vidas possível em meio à pandemia. Desafortunadamente, o Brasil hoje tem de lutar pela vida e pela liberdade a um só tempo. Mas se é assim, à luta, pois.
Aos ex-amigos, cúmplices da barbárie
Em Kafka, um sujeito acorda pela manhã transformado em um inseto asqueroso. A família reunida, cada um em seu papel, mas o filho surge como uma anomalia, de um dia para o outro, sem qualquer explicação. Kafka foi muito mais fundo nessa história do que esse filme de quinta categoria ao qual estou me referindo, mas confesso que não vi como a coisa se deu, apenas acordei um dia e vi como o meu mundo anda cheio de insetos repugnantes. De radicais defensores de ideias tão obtusas quanto irresponsáveis. Também não foi assim tão de repente, a coisa vem acontecendo há um bom tempo, é verdade, mas hoje sinto como se esses bichos escrotos tivessem se consolidado à minha frente. Eu os enxergo em toda a sua pequenez.
O estopim desta clarividência – em relação à abjeta transformação de certos seres humanos – foi o vídeo da fatídica reunião ministerial do dia 22 de abril, em que o presidente reuniu sua claque para tratar do enfrentamento da crise da pandemia, assunto sobre o qual não se falou durante mais de duas horas de sandices, agressões e exibição de ideias golpistas. O vídeo é assustador, mas não é dele que quero falar, não em primeiro lugar. É da reação de pessoas que, voltando ao primeiro parágrafo, revelaram-se pior do que o farsesco personagem central da trama. Faço um voo no tempo. Em 1993, como bem lembrou aqui um querido amigo, eu escrevi uma crônica na IstoÉ Minas que começava assim: “Não posso reclamar dos meus amigos: são os mais estranhos que eu poderia arrumar”. No texto, falo de alguns, invento outros (que são, na verdade, bem reais), presto meu tributo à esquisitice de tantos. O fato é que gosto de gente estranha, diferente, só para ficar claro que não me compraz apenas a companhia de gente normal. Eu diria, até, que os normais me interessam pouco. Só que uma coisa é ser estranho – e outra é ser estranhamente nocivo.
Muito bem, de ontem pra hoje me peguei lendo opiniões de muita gente sobre o tal vídeo onde se pregou a desobediência sanitária na base da porrada, a prisão de representantes eleitos pelo povo, a desqualificação de adversários, a intromissão na Polícia Federal para proteger os entes queridos, o desmantelamento das leis ambientais na calada da noite etc etc etc. Um monte de gente reagiu dizendo que o vídeo é o passaporte para a reeleição do Ogro. No meio desta gente que aplaude e acha adequado esse conjunto de sandices há pessoas que conheço. Tem artista, designer, arquiteto, advogado, fotógrafo, médico, engenheiro, empresário, gente da moda etc etc. Pessoas com quem já convivi, conversei, compartilhei opiniões. Pessoas que, em alguns casos, cheguei a admirar. Que chamei de amigos. Como é que essas pessoas se tornam, de repente, cúmplices de uma barbárie colossal?
Convivo com conservadores e até com pessoas de uma direita civilizada, educada, capaz de divergir sem agredir. Os ex-amigos não se colocam no campo da direita civilizada. Porque Bolsonaro não é isso. Não é um conservador, nem um bocó simplesão, um sujeito sem modos e sincerão, que gosta das coisas direitinhas. Um sujeito que quer o bem do país. Ele está longe desse figurino. Ele não é nem da direita. Bolsonaro é o radical fundamentalista da extrema direita em sua pior versão (não esqueçamos: ele já defendeu publicamente o fechamento do Congresso e o fuzilamento de adversários políticos, em entrevista a uma emissora de televisão, em 1999 – “para dar jeito no Brasil, só matando uns 30 mil”, o que incluiria, no caso, até mesmo o então presidente Fernando Henrique Cardoso). Ele tem como herói o único torturador reconhecido e condenado como tal no Brasil.
Mas isso é história já sabida.
Voltemos ao vídeo estarrecedor, tal o seu caráter pedagógico ao revelar, com clareza euclidiana, o que pensam os bolsonaristas e o que eles estão tramando, em todas as frentes – na saúde, na educação, na segurança pública, na questão ambiental, na diplomacia internacional, na convivência com a democracia. Está tudo lá, sem retoques. E há quem diga: “antes do vídeo eu era 100% Bolsonaro, agora sou 500% Bolsonaro”. E daí?
Daí que não suporto gente assim. Fui capaz de entender aqueles que se desapontaram com os rumos da economia e com as revelações sobre corrupção no centro do poder, prática secular no país. Mas era preciso optar pelo esgoto, pela escuridão, a ignorância e a truculência? Eu divirjo respeitosamente de conservadores. De fascistas, torturadores e retrógrados eu quero distância. Não fui eu que tachei Bolsonaro de o pior líder mundial da atualidade. Nem foi a mídia esquerdista ou comunista que afirmou que ele é hoje a maior ameaça ao mundo. Quem está chocado com o Ogro são eles, os jornalões da direita global. É o The Economist, a Bíblia dos liberais da economia. É a maior referência do jornalismo econômico no mundo – o Financial Times. É o The Guardian. O New York Times. É a grande mídia conservadora do mundo que está assustada com o baixíssimo nível de quem ocupa a presidência no Brasil.
A reunião ministerial de 22 de abril de 2020 está fadada a entrar para a história da República brasileira. Um registro cru dos intestinos da gente que nos governa. Um acinte de tal ordem que não cabe mais qualquer dúvida: quem é Bolsonaro que assuma, de uma vez por todas, o ônus de carregar o pacote de ideias que ele encarna. Sem mimimi. Não tem mais disfarce ou joguinho de cena. Depois de ver aquelas imagens podres não há saída: ou se está de um lado ou de outro. Ou se defende aquelas ideias ou se é contra. Simples. Mas necessário.
Necessário porque o mundo é uma construção coletiva, queiram ou não. E o mundo no qual eu acredito e pelo qual luto é imperfeito e cheio de defeitos, mas é um mundo de razoável civilidade. De valores consagrados universalmente. E até de razoável otimismo. Só os muito cretinos ou intelectualmente falsos são capazes de negar que, aos trancos e barrancos, a sociedade brasileira vinha construindo um percurso de avanços desde a redemocratização. Estão aí conquistas como a criação do SUS, a estabilização da moeda, a universalização do ensino, o avanço dos direitos humanos, os programas de redução da desigualdade social (como o Bolsa Família), entre tantas outras. Hoje vivemos a ameaça da degringolada geral. A ordem é destruir o que está aí. É interromper o fluxo que nos impelia a ser melhores do que tínhamos sido até então.
Não quero este mundo medíocre que tentam nos empurrar goela abaixo, definitivamente. Confesso a minha impossibilidade de conviver sadiamente com quem quer me matar e aos meus semelhantes. Aos que continuam apoiando o genocida de plantão, um convite à coragem. Isso mesmo, assumam que Bolsonaro os representa em seus valores e ideias. Aos que aplaudiram as infâmias ditas no vídeo, sugiro que façam camisetas com os seguintes dizeres:
EU SOU BOLSONARO E EU APOIO:
– A tortura e os torturadores
– O povo armado contra as medidas de controle da epidemia
– A prisão de governadores e ministros do Supremo
– O uso da Polícia Federal para proteger minha família e meus amigos
– A quebra das leis de proteção ambiental
– Qualquer ataque à cultura, às artes e aos artistas
– O sucateamento da universidade pública e da ciência
– O extermínio dos povos indígenas
– A milícia e os heróis milicianos
– A censura à produção intelectual
– As hostilidades contra a Imprensa e os jornalistas
Façam isso, ex-amigos e conhecidos. Saiam às ruas (sem máscaras, obviamente) com esses dizeres estampados em suas camisetas e faixas ornadas de patriotismo. Pois é isso, de fato, o que vocês estão defendendo. Quem apoia Bolsonaro é cúmplice desse pacote de horror. Nessa altura da nossa história, não existe meio termo. Ou você é ou não é a favor dessas ideias.
No momento em que escrevo o Brasil é o segundo país do mundo em casos confirmados de contaminação pelo coronavírus. São quase 350 mil infectados e mais de 22 mil mortes (amanhã serão muito mais). Enquanto isso, o presidente que os traidores da democracia elegeram cospe seus perdigotos defendendo que se arme a população para lutar contra as medidas de contenção da epidemia. Se isso não é a barbárie, então o que seria?Jose Eduardo S Gonçalves
As lições da gripe espanhola para evitar uma segunda vaga
Para evitar esse cenário, a Universidade do Michigan, nos EUA, está à procura das lições deixadas pela gripe de 1818, que figura na história como a pandemia mais mortífera desde que há registos. Em todo o mundo, matou cerca de 50 milhões de pessoas.

De acordo com o departamento de História de Medicina da universidade, que está a estudar o impacto da Gripe Espanhola em 43 cidades norte-americanas, as localidades que encerraram escolas e proibiram o ajuntamento de multidões tiveram menos casos da doença e, consequentemente, uma taxa de mortalidade mais reduzida.
Também em 1918 se generalizou a obrigatoriedade de usar máscara. São Francisco, por exemplo, impunha multas a quem não as usasse em público – uma medida que desencadeou protestos na cidade californiana.
Apesar da contestação, a utilização de máscara provou-se eficaz o combate à pandemia de então.
No entanto, as medidas desiguais de contenção da doença conduziram a uma segunda vaga no final de 1918. Tendo começado nos acampamentos militares, as hierarquias do exército estariam mais preocupadas com os confrontos da Primeira Guerra Mundial (1914-1918) do que com o combate à pandemia.
A cidade de Filadélfia, no estado da Pensilvânia, por exemplo, decidiu manter a realização de uma parada, no final de setembro, apesar de o vírus continuar extremamente ativo. Segundo os investigadores da Universidade do Michigan, só esse acontecimento terá provocado cerca de mil mortos, no espaço de dez dias. Filadélfia ficaria na história como uma das cidades norte-americanas mais atingidas pela gripe.
Muitas cidades levantaram as restrições para celebrarem o Armistício, em novembro daquele ano, com consequências semelhantes.
Ao The Washington Post, um dos líderes desta investigação, J. Alexander Navarro, explicou que uma das principais diferenças entre as duas épocas é que, em 1918, era mais fácil encerrar serviços como lojas, restaurantes ou estruturas culturais porque a economia estava assente, sobretudo, na manufatura. Hoje, existe uma dependência muito maior do setor dos serviços. “Por isso, acreditamos que o impacto económico da pandemia será muito mais severo hoje do que em 1918”, defendeu o investigador.
Apesar de sublinhar a importância dos avanços da medicina e da tecnologia no último século, Navarro alerta para as semelhanças no que diz respeito ao comportamento humano: “Haverá um grande clamor em torno do regresso à normalidade”. Mas, se o desconfinamento não for feito com responsabilidade, “as consequências para a saúde pública poderão ser terríveis”.
A OMS considera a possibilidade de uma segunda vaga cada vez mais improvável.
Milhões sustentam a esperança
Se apurássemos o ouvido, ouvíssemos, no meio da balbúrdia dos impérios e das nações, como um fraco ruído de asas, a doce agitação da vida e da esperança. Dirão uns que esta esperança é trazida por um povo, outros por um homem.
Eu creio que é, pelo contrário, suscitada, reanimada, sustentada por milhões de solitários cujas ações e obras, em todos os dias, negam as fronteiras e as mais grosseiras aparências da história, para fazer resplandecer fugitivamente a verdade sempre ameaçada que cada um, por sobre os seus sofrimentos e alegrias, constrói por todosAlbert Camus
Lições de mais um dia intenso
O Brasil supera a cada dia o grau de tensão da véspera. Ontem, o dia já começou com a operação contra o governador do Rio, Wilson Witzel, e todas as dúvidas que a cercaram. Depois de dias inteiramente crispados, o país se viu logo de manhã entre dois fogos: é preciso investigar qualquer suspeita de corrupção, principalmente no Rio, mas a Polícia Federal não pode se transformar na polícia política de Jair Bolsonaro. O bolsonarismo ajudou a espalhar a dúvida sobre a operação, com as declarações de Carla Zambelli e as comemorações do próprio presidente.
No meio da confusão do dia, o discurso do presidente da Câmara, Rodrigo Maia, pareceu um oásis. Era alguém lembrando que líderes lideram e que as instituições têm papéis a cumprir nos momentos trágicos do país. Maia começou fazendo o que Bolsonaro nunca fez, demonstrou sentimento em relação aos que morreram, aos que não puderam cumprir o ritual do luto, aos que se afligem com os seus nas UTIs, e aos profissionais da saúde que lutam na frente de batalha, “verdadeiros heróis”.
No domingo, o presidente levou a tiracolo até o ministro da Saúde, general Pazuello. O interino que ficará muito tempo. O Brasil passa a ser aquele país em que o ministro da Saúde descumpre as orientações da saúde para satisfazer o chefe. No mesmo domingo, Bolsonaro fez uma ameaça velada ao ministro Celso de Mello, postando uma mensagem de fácil decifração. E o ministro da Defesa avalizou a nota do general Heleno, que ameaçara o Supremo de “consequências imprevisíveis”.
Com o presidente tão ocupado com suas querelas, e os líderes militares dando sinais trocados, o espaço de falar como estadista estava vago. Na política, não existe espaço vazio. Foi esse que o deputado Rodrigo Maia ocupou com seu discurso em que deu vários recados, inclusive um para dirimir o falso dilema que opõe isolamento social e reativação da economia. “Quem derruba a economia é o vírus.” Maia trouxe a figura icônica de Ulysses Guimarães, sentado na cadeira que foi dele um dia, para lembrar solenemente o valor da democracia. Essa que temos e conquistamos. “Senhoras e senhores ministros do STF sabem que esse parlamento respeita e cumpre as decisões judiciais, mesmo quando delas discorda.” Na véspera, Bolsonaro, em nota, dissera que era preciso atuar “para termos uma verdadeira independência e harmonia entre as instituições da República”. O presidente acha que o Judiciário tem invadido suas prerrogativas, e seus ministros mais poderosos, militares ou não, concordam com ele.
Na segunda-feira, Bolsonaro criou um constrangimento institucional — mais um — quando desembarcou na Procuradoria-Geral da República (PGR). O investigado querendo confraternizar com o investigador. E num momento em que o país tem muita dúvida sobre a autonomia do PGR.
O que se investiga é a suspeita de intervenção na Polícia Federal. Ele disse na reunião que iria interferir, demitiu o diretor-geral, trocou o superintendente do Rio. Sua deputada de estimação, Carla Zambelli, deu uma entrevista em que revelou: “alguns governadores estão sendo investigados.” O presidente já declarou guerra aos governadores em geral, aos do Rio e de São Paulo em particular. Por tudo isso, um manto de dúvida inicial cercou a operação contra o governador Witzel.
Todo indício de corrupção tem que ser investigado, atinja quem atingir. O Rio é um estado politraumatizado. Já viu de tudo e não quer a repetição de um roteiro trágico bem conhecido, ainda mais no meio de uma pandemia. É preciso ser implacável com quem tramou contra os cofres públicos neste momento. Contudo, o temor que cercou a operação de ontem aumentou ainda mais a certeza de que a PF tem que ser autônoma. Exatamente para que não paire dúvida sobre as suas ações. Ela só pode ser polícia judiciária, jamais um braço do presidente.
No meio da confusão do dia, o discurso do presidente da Câmara, Rodrigo Maia, pareceu um oásis. Era alguém lembrando que líderes lideram e que as instituições têm papéis a cumprir nos momentos trágicos do país. Maia começou fazendo o que Bolsonaro nunca fez, demonstrou sentimento em relação aos que morreram, aos que não puderam cumprir o ritual do luto, aos que se afligem com os seus nas UTIs, e aos profissionais da saúde que lutam na frente de batalha, “verdadeiros heróis”.
Na véspera, em nota, o presidente Bolsonaro avisou que vai continuar saindo para as aglomerações. “Sinto-me bem ao seu lado (do povo) e jamais abrirei mão disso.” Bolsonaro tem uma visão reducionista do povo brasileiro. Para ele, só contam os que se juntam em manifestações dominicais, com suas faixas antidemocráticas, em grupos minguantes, é bom que se diga. Ou os que se reúnem na claque do Alvorada.
No domingo, o presidente levou a tiracolo até o ministro da Saúde, general Pazuello. O interino que ficará muito tempo. O Brasil passa a ser aquele país em que o ministro da Saúde descumpre as orientações da saúde para satisfazer o chefe. No mesmo domingo, Bolsonaro fez uma ameaça velada ao ministro Celso de Mello, postando uma mensagem de fácil decifração. E o ministro da Defesa avalizou a nota do general Heleno, que ameaçara o Supremo de “consequências imprevisíveis”.
Com o presidente tão ocupado com suas querelas, e os líderes militares dando sinais trocados, o espaço de falar como estadista estava vago. Na política, não existe espaço vazio. Foi esse que o deputado Rodrigo Maia ocupou com seu discurso em que deu vários recados, inclusive um para dirimir o falso dilema que opõe isolamento social e reativação da economia. “Quem derruba a economia é o vírus.” Maia trouxe a figura icônica de Ulysses Guimarães, sentado na cadeira que foi dele um dia, para lembrar solenemente o valor da democracia. Essa que temos e conquistamos. “Senhoras e senhores ministros do STF sabem que esse parlamento respeita e cumpre as decisões judiciais, mesmo quando delas discorda.” Na véspera, Bolsonaro, em nota, dissera que era preciso atuar “para termos uma verdadeira independência e harmonia entre as instituições da República”. O presidente acha que o Judiciário tem invadido suas prerrogativas, e seus ministros mais poderosos, militares ou não, concordam com ele.
Na segunda-feira, Bolsonaro criou um constrangimento institucional — mais um — quando desembarcou na Procuradoria-Geral da República (PGR). O investigado querendo confraternizar com o investigador. E num momento em que o país tem muita dúvida sobre a autonomia do PGR.
O que se investiga é a suspeita de intervenção na Polícia Federal. Ele disse na reunião que iria interferir, demitiu o diretor-geral, trocou o superintendente do Rio. Sua deputada de estimação, Carla Zambelli, deu uma entrevista em que revelou: “alguns governadores estão sendo investigados.” O presidente já declarou guerra aos governadores em geral, aos do Rio e de São Paulo em particular. Por tudo isso, um manto de dúvida inicial cercou a operação contra o governador Witzel.
Todo indício de corrupção tem que ser investigado, atinja quem atingir. O Rio é um estado politraumatizado. Já viu de tudo e não quer a repetição de um roteiro trágico bem conhecido, ainda mais no meio de uma pandemia. É preciso ser implacável com quem tramou contra os cofres públicos neste momento. Contudo, o temor que cercou a operação de ontem aumentou ainda mais a certeza de que a PF tem que ser autônoma. Exatamente para que não paire dúvida sobre as suas ações. Ela só pode ser polícia judiciária, jamais um braço do presidente.
O Brasil em perigo
Com a América Latina transformada num novo epicentro do coronavírus, o Brasil é o país mais preocupante. Os quase 375.000 contágios e mais de 23.000 mortos fazem dele o mais afetado da região e o segundo do mundo em número de casos. Mas a isso se somam uma gestão errática da pandemia e uma grave crise político-institucional, com flertes ao golpismo, o que, além de gravíssimo, desvia a atenção num momento em que o combate ao coronavírus deveria ser a prioridade de toda a classe política brasileira. O presidente Jair Bolsonaro não só age de maneira irresponsável ao ignorar a quarentena como também provocou a demissão de dois ministros da Saúde e boicota os esforços dos governadores para tentar controlar uma epidemia cuja magnitude real se desconhece, porque a quantidade de testes realizados é mínima. A maioria de governadores conseguiu deixar de lado suas diferenças políticas em nome de um consenso básico: seguir as recomendações da ciência. A cada dia, mais UTIs se aproximam do seu limite e mais covas são cavadas nos cemitérios, enquanto o presidente insiste em dar as costas às recomendações dos especialistas, promovendo um medicamento com potencial letal e pressionando as empresas a reabrirem. Aos olhos de Bolsonaro, a única preocupação é com os efeitos da hecatombe econômica, que frustraria uma eventual reeleição em 2022.
A oposição apresentou vários pedidos de impeachment contra ele por sua recusa em administrar a pandemia, mas seu problema mais urgente é uma investigação no STF sobre a suposta ingerência na cúpula da Polícia Federal para proteger a sua família. O vídeo de uma recente reunião ministerial mostra um presidente para quem defender seu clã e armar a população estão acima do interesse geral. As ameaças contra a separação de poderes ali lançadas por alguns ministros são inadmissíveis, e o rosário de insultos vertido pelo presidente constitui uma intolerável afronta às instituições.
Bolsonaro está obtendo apoio parlamentar em troca de cargos, para impedir uma destituição enquanto concede mais poderes aos militares em seu Governo. Estes já dirigem 10 dos 22 ministérios, incluído o da Saúde, interinamente. Mais inquietante é o apoio tácito do presidente aos discursos golpistas de seus seguidores, que pedem o fechamento do Congresso e do Supremo Tribunal Federal, e as ameaças veladas pronunciadas por alguns de seus ministros mais próximos. Nas últimas semanas, o ministro da Defesa veio a público em três ocasiões para reafirmar o apego das Forças Armadas à Constituição. Numa democracia consolidada, isso deveria ser desnecessário. O Brasil se encaminha para o pico da pandemia em um contexto político que acarreta graves riscos.
A oposição apresentou vários pedidos de impeachment contra ele por sua recusa em administrar a pandemia, mas seu problema mais urgente é uma investigação no STF sobre a suposta ingerência na cúpula da Polícia Federal para proteger a sua família. O vídeo de uma recente reunião ministerial mostra um presidente para quem defender seu clã e armar a população estão acima do interesse geral. As ameaças contra a separação de poderes ali lançadas por alguns ministros são inadmissíveis, e o rosário de insultos vertido pelo presidente constitui uma intolerável afronta às instituições.
Bolsonaro está obtendo apoio parlamentar em troca de cargos, para impedir uma destituição enquanto concede mais poderes aos militares em seu Governo. Estes já dirigem 10 dos 22 ministérios, incluído o da Saúde, interinamente. Mais inquietante é o apoio tácito do presidente aos discursos golpistas de seus seguidores, que pedem o fechamento do Congresso e do Supremo Tribunal Federal, e as ameaças veladas pronunciadas por alguns de seus ministros mais próximos. Nas últimas semanas, o ministro da Defesa veio a público em três ocasiões para reafirmar o apego das Forças Armadas à Constituição. Numa democracia consolidada, isso deveria ser desnecessário. O Brasil se encaminha para o pico da pandemia em um contexto político que acarreta graves riscos.
terça-feira, 26 de maio de 2020
Às escâncaras

O mais recente negócio de ocasião oferecido na queima de estoque bolsonarista foi a entrega de uma diretoria do generoso Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE) para um apadrinhado do ex-deputado Valdemar Costa Neto, do Partido Liberal (PL). Esse senhor, com quem agora Bolsonaro mercadeja, já teve de renunciar duas vezes ao mandato de deputado. A primeira em 2005, quando se viu pilhado no escândalo do mensalão e admitiu que recebeu dinheiro do PT. Renunciou para preservar seus direitos políticos. Eleito deputado em 2006 e reeleito em 2010 – quando só obteve o mandato graças ao palhaço Tiririca, folclórico puxador de votos –, renunciou novamente em 2013, quando o Supremo Tribunal Federal decretou sua prisão no processo do mensalão. Enquadrado na Lei da Ficha Limpa, está proscrito da vida política nacional até 2029. Um currículo e tanto.
A despeito disso tudo, o sr. Costa Neto segue sendo o chefão do PL e é com ele que qualquer interessado deve se acertar se quiser o apoio dos 39 deputados da legenda. Na mesma xepa bolsonarista, o Partido Progressista (PP), do igualmente notório senador Ciro Nogueira, espera obter a chefia do FNDE, que tem orçamento de R$ 54 bilhões, maior que o de vários Ministérios. Sob a presidência do sr. Nogueira, o PP, hoje com 40 deputados, tornou-se o partido com o maior número de parlamentares envolvidos no escândalo do petrolão, mais até que o PT, tão execrado pelo presidente Bolsonaro e seus devotos.
Para entregar uma das joias da coroa do Ministério da Educação aos partidos que prometem salvá-lo do impeachment, Bolsonaro não se importou em atropelar um de seus mais fiéis sabujos, o ministro Abraham Weintraub, genuíno representante da “ala lunática” do governo e que havia manifestado ao presidente sua contrariedade. Aparentemente, Weintraub ficou só no esperneio, e agora, como todos os demais fanáticos bolsonaristas, terá de encontrar uma narrativa que explique por que o líder da “nova política” está em aberto contubérnio com o que há de pior na odiada “velha política”.
E não vai parar por aí. Carlos Marun, influente no MDB e que se notabilizou pela defesa que fez de Eduardo Cunha durante o processo que afinal cassou aquele mal-afamado deputado, foi reconduzido por Bolsonaro ao Conselho de Administração de Itaipu. E o comando do Departamento Nacional de Obras contra a Seca foi entregue por Bolsonaro a um apadrinhado do deputado Arthur Lira (PP), líder do bloco chamado de “Centrão” e conhecido também por ser réu na Lava Jato.
Todas essas negociações, em tese, darão a Bolsonaro a bagatela de 220 votos, insuficientes até para dar quórum a qualquer votação (257 deputados), que dirá para aprovar alguma reforma constitucional. Mas é o bastante para impedir que se arregimentem os 308 votos necessários para cassar o presidente.
Ao lotear seu governo, Bolsonaro espera ganhar tranquilidade política para continuar a exercer sua especialidade: criar crises e naturalizar sua truculência, desmoralizando a política e as instituições democráticas. Bolsonaro passou três décadas como deputado dando motivos mais que suficientes para sua cassação. Não só não foi cassado, como elegeu-se presidente da República. A mesma hesitação ante as agressões de Bolsonaro à democracia se verifica agora, e é nisso que o presidente parece apostar para continuar inimputável. Enquanto as lideranças políticas vacilam, o bolsonarismo vai se tornando um mal crônico, com o qual se convive por falta de alternativa.
Bolsonaro é o responsável por Trump isolar o Brasil
Jair Bolsonaro, desde o início de seu mandato, fez o possível para se aproximar de Donald Trump. Até conseguiu alguns encontros. Afinal, o presidente dos EUA simpatizou com aquele fã da América Latina. O atual ocupante da Casa Branca percebeu que poderia extrair vantagens do presidente do Brasil, uma gigantesca economia, tamanho o esforço do líder brasileiro para se enturmar. Além disso, poderia ajudar a reduzir sua imagem de preconceituoso com latino-americanos.
Neste domingo, todo o empenho de Bolsonaro de tornar o Brasil mais próximo dos EUA, ou mais especificamente de Trump, naufragou. Não adiantou nem copiar o ídolo americano ao celebrar a cloroquina. Desde os tempos anteriores à aviação, quando a viagem era de navio, os brasileiros demorarão tanto para chegar a Miami ou Nova York, a não ser que possuam residência permanente ou dupla cidadania, além de algumas raras exceções.
Não estou de gozação. Argentinos, paraguaios, uruguaios, chilenos e bolivianos poderão vir aos EUA normalmente. Suas nações não estão incluídas na lista de proibição. O Brasil está porque, assim como alguns países europeus, se tornou um epicentro da pandemia. Talvez até sirva de consolo estar no patamar das nações da Europa Ocidental. Mas, convenhamos, não é por um motivo positivo. Simplesmente, o governo brasileiro se tornou um pária pandêmico, como escrevi aqui outro dia. E já era pária ambiental. Claro, poderão argumentar que os EUA são o maior epicentro. E são.
Chega a ser irônico ver Trump tão preocupado com alguns poucos brasileiros que ainda viajam para cá, sendo na maior partes das vezes por questões profissionais ou pessoais. Mas Trump sempre colocou a “América em primeiro lugar”. América, claro, como Estados Unidos da América. Bolsonaro deveria saber que isso não inclui o Brasil. Por mais que o presidente brasileiro se esforce para adular o dos EUA, sempre será visto como mais um líder da América Latina por Trump.
Pior, um líder de uma nação latino-americana que, na visão de Trump, pode agravar a epidemia de Covid19 no país. Diferente do México. Apesar de Trump querer construir um muro separando os dois países, mexicanos com vistos podem embarcar em um avião e viajar algumas horas até os EUA sem problemas. Brasileiros, não. Tudo porque Bolsonaro foi o mais incompetente líder latino-americano no combate o Covid19. Seu negacionismo anticiência fez com que os brasileiros ficassem isolados.
Guga Chacra
Neste domingo, todo o empenho de Bolsonaro de tornar o Brasil mais próximo dos EUA, ou mais especificamente de Trump, naufragou. Não adiantou nem copiar o ídolo americano ao celebrar a cloroquina. Desde os tempos anteriores à aviação, quando a viagem era de navio, os brasileiros demorarão tanto para chegar a Miami ou Nova York, a não ser que possuam residência permanente ou dupla cidadania, além de algumas raras exceções.
Serão necessários 14 dias de quarentena fora do território brasileiro para ingressar no território americano. Sabe-se lá quantas escalas serão necessárias, incluindo alguma que permita ao viajante vindo do Brasil passar duas semanas. Creio que a Islândia possa ser uma alternativa.
Não estou de gozação. Argentinos, paraguaios, uruguaios, chilenos e bolivianos poderão vir aos EUA normalmente. Suas nações não estão incluídas na lista de proibição. O Brasil está porque, assim como alguns países europeus, se tornou um epicentro da pandemia. Talvez até sirva de consolo estar no patamar das nações da Europa Ocidental. Mas, convenhamos, não é por um motivo positivo. Simplesmente, o governo brasileiro se tornou um pária pandêmico, como escrevi aqui outro dia. E já era pária ambiental. Claro, poderão argumentar que os EUA são o maior epicentro. E são.
Chega a ser irônico ver Trump tão preocupado com alguns poucos brasileiros que ainda viajam para cá, sendo na maior partes das vezes por questões profissionais ou pessoais. Mas Trump sempre colocou a “América em primeiro lugar”. América, claro, como Estados Unidos da América. Bolsonaro deveria saber que isso não inclui o Brasil. Por mais que o presidente brasileiro se esforce para adular o dos EUA, sempre será visto como mais um líder da América Latina por Trump.
Pior, um líder de uma nação latino-americana que, na visão de Trump, pode agravar a epidemia de Covid19 no país. Diferente do México. Apesar de Trump querer construir um muro separando os dois países, mexicanos com vistos podem embarcar em um avião e viajar algumas horas até os EUA sem problemas. Brasileiros, não. Tudo porque Bolsonaro foi o mais incompetente líder latino-americano no combate o Covid19. Seu negacionismo anticiência fez com que os brasileiros ficassem isolados.
Guga Chacra
O celular do capitão
Do que tem medo Jair Messias? Diz ele que só entregaria seu celular à justiça se fosse um rato. Alega segurança nacional. Bolsonaro é estúpido, mas não é totalmente burro. No velho ou "novissimo" celular, mora o diabo.
O processo de Moro contra Bolsonaro tem desfecho previsível. O Capitão costuma repetir que é dono da caneta, do País, da Constituição, dos três poderes, do ministério. Ontem, no final da manhã, improvisou uma visita à Procuradoria-Geral da República. As notícias que vêm de lá não tem sido favoráveis a ele.
Procuradores da República, em análises preliminares do processo, encontraram indícios de crime. Bolsonaro quis intimidar a PGR. Augusto Aras lhe deve o cargo.
Jair só não tem força para segurar a onda de popularidade. Está despencando. Fala-se num patamar de 20% de apoio até o final da pandemia. Como castigo, Moro também está vendo ruir seu castelo.
Miriam Guaraciaba
Desenfreado no linguajar, o Capitão desconfia da sombra. Imaginemos quantas ameaças nada veladas faz por mensagens. Gustavo Bebbiano foi seu braço direito na campanha. Demitido do governo e ameaçado pelos filhos do presidente, enviou seu celular para os Estados Unidos. Por precaução.
O celular de Sergio Moro também carece de perícia. O ex-juiz tem o dever moral "e de função" de exibir todas as mensagens que recebeu do ex-chefe. Não apenas as selecionadas por ele.
Desprezíveis na forma de agir, falar, intimidar, Bolsonaro e Moro jamais mostrarão a verdade. A reunião do dia 22 é prova cabal de como age esse tipo de gente. Enquanto Bolsonaro humilhava seu ministério, e proferia ofensas à Nação, Moro mostrou-se impassível, de braços cruzados.
O processo de Moro contra Bolsonaro tem desfecho previsível. O Capitão costuma repetir que é dono da caneta, do País, da Constituição, dos três poderes, do ministério. Ontem, no final da manhã, improvisou uma visita à Procuradoria-Geral da República. As notícias que vêm de lá não tem sido favoráveis a ele.
Procuradores da República, em análises preliminares do processo, encontraram indícios de crime. Bolsonaro quis intimidar a PGR. Augusto Aras lhe deve o cargo.
Jair só não tem força para segurar a onda de popularidade. Está despencando. Fala-se num patamar de 20% de apoio até o final da pandemia. Como castigo, Moro também está vendo ruir seu castelo.
Miriam Guaraciaba
É possível um liberal defender o governo Bolsonaro?
Um a um, cada ministro fazia sua esquete. Desnudou-se a essência do governo: bajulação do líder, arroubos militantes e preocupação única e exclusiva com o projeto de poder. A maior epidemia em cem anos? Importava apenas na medida que colocou governadores como rivais do presidente, e como cortina de fumaça para passar o trator na Amazônia.
Bolsonaro expressou seu desejo de uma população armada para intimidar prefeitos e governadores. Isso caberia num congresso chavista; mas num governo que se diz “liberal”?

Vamos definir os termos. Liberal é quem defende o valor da liberdade individual para a vida em sociedade. Isso começa com um sistema político no qual haja equilíbrio de poderes e limites a seu exercício.
Só assim podemos ter uma sociedade civil com dinamismo próprio, que não apenas orbite —por coação ou bajulação— a autoridade política.
E só assim as pessoas podem ser livres para viver suas vidas de acordo com seus valores e crenças, dando seu melhor e assumindo risco de suas escolhas, dentro de limites necessários para a boa convivência e o respeito à lei.
Ser liberal não é ser contra o Estado. Ele é uma potencial ameaça à liberdade, mas não a única. Como bem nos lembra John Stuart Mill em “Sobre a Liberdade”, a opinião pública também é. Pouco se tem falado desse efeito do projeto bolsonarista: a corrosão da sociedade civil e do debate público.
Massas de fanatizados gritando, ameaçando, xingando a Rede Globo e Sergio Moro de “comunistas”, atacando jornalistas e espalhando fake news são nocivas à liberdade individual, que requer pensamento maduro, responsabilidade e compromisso com a verdade.
“Ah, mas o Guedes…”. Sim, o ministro Paulo Guedes tem uma agenda de reformas liberais na economia. Ótimo. A liberdade econômica é condição necessária, mas não suficiente, de uma sociedade liberal. E mesmo esse plano abstrato tem tido pouco sucesso prático.
Em 2019, quando os ventos sopravam a favor, o governo entregou basicamente a reforma da Previdência, e com atraso. Nada de abertura, nada do “trilhão” das privatizações. Neste ano, com Congresso mais hostil, demandas de gasto da epidemia e necessidade de compor com o centrão, os ventos sopram contra. Será que as entregas econômicas vão aumentar?
As promessas grandiosas de Guedes não se cumprem e começam a gerar ceticismo. Na reunião ministerial ficou clara a rivalidade entre ele e o ministro do Desenvolvimento Regional, Rogério Marinho.
Isso sem falar daquilo que prometeu e não fez: reforma tributária, administrativa. Em seu lugar, fala de nova CPMF e de contratar jovens para fazer estrada e jurar à bandeira. Defendeu o equilíbrio fiscal para Bolsonaro porque este afastaria o risco de impeachment.
Um presidente autoritário interfere nos órgãos de controle e insufla uma militância golpista. No meio disso, abraça o que há de mais fisiológico na política nacional, enquanto o ministro da Economia discute Keynes. Saúde pública e economia afundam. Ninguém parece saber o que está fazendo. Bajulação, fanatismo, autoritarismo e bagunça. Se essa é a tão propalada “primavera liberal”, imagine o inverno.Joel Pinheiro da Fonseca
Generais bolsonaristas vão da omissão a arreganhos autoritários
As Forças Armadas não são de Lula, Temer ou Bolsonaro, mas do Estado brasileiro. E têm que se subordinar ao comando civil e ao império da lei.
É isso ou a república de bananas, cuja volta, queremos crer, só é desejada por desmiolados que acham divertido passar vergonha coletiva na rua, fantasiados de verde e amarelo.
Por isso, olhemos a mudez dos generais bolsonaristas na já célebre reunião de 22 de abril.
Associaram-se, acoelhados, à defesa das hemorroidas presidenciais, ao banditismo do projeto arma para todos, ao ladino que aproveita a "calmaria" da Covid para dar seus pulinhos, à beatice histérica da ministra sem noção, ao arroubo à Chuck Norris do garganteiro da Caixa e ao autopiedoso libelo puxa-saquista do inqualificável Weintraub. Uma catarse só assombrada pelo medo de, perdido o poder, serem todos presos pela obra que ora edificam. Foi a reunião de loucos, impostores, fanáticos, aproveitadores, militares sectários, e uns poucos estarrecidos, como bem resumiu Janio de Freitas.
Se a inação foi torpe, a ação se mostrou pior. O general Eduardo Pazuello chancelou depois a recomendação do uso do remédio que, segundo o maior estudo feito no mundo até agora, não só é ineficaz contra a Covid-19 como eleva o risco de morte. Que nome se dá a isso?
Carregando todo o amargor de quem desgraçadamente defende o indefensável, o general Augusto Heleno resolveu alertar que eventual apreensão do celular do chefe trará "consequências imprevisíveis", para alvoroço das vivandeiras de pijama. Já as vivemos, general, mas não serão arreganhos autoritários que farão parar o rumo da históriaRanier Bragon
As lições da pior pandemia da história
Durante a pior pandemia da história, os doentes viam uma imagem apavorante antes de morrer. Uma figura negra com um chapéu de aba larga os olhava do outro lado de óculos redondos. Sua cara era de pássaro, com um bico comprido e disforme. Em uma de suas mãos enluvadas, segurava uma vara longa com a qual examinava o paciente, na maioria das vezes apenas para comprovar se já estava morto. Era o médico da peste.
Este traje é atualmente uma das fantasias mais populares no Carnaval de Veneza. Remonta às epidemias de peste que assolaram a Europa e chegaram a aniquilar um terço da sua população. Em muitas ocasiões, a taxa de letalidade era quase de 100%. Ignorava-se sua origem, sua causa, sua forma de contágio, seu tratamento. Causava tanto terror que se evitava nomeá-la, recorrendo-se a eufemismos como “o mal que corre”.
A peste negra chegou à Europa num navio de marinheiros doentes, procedentes do mar Negro, em 1348. Em sucessivas ondas ao longo dos quatro séculos seguintes, matou centenas de milhões de pessoas. Passaram-se 500 anos até que o causador da doença foi identificado: a bactéria Yersinia pestis, transmitida pela picada de pulgas. Esses insetos viajaram pelo mundo a bordo de ratos que, por a sua vez, eram transportados acidentalmente por humanos em carroças e navios pelas principais rotas comerciais, primeiro a da seda, saindo do foco original na Ásia, e depois por todo o Mediterrâneo. Naquela época, como agora, a atividade humana fez a pandemia explodir.
Sete séculos depois da peste negra, o médico Mark Earnest, da Universidade do Colorado (EUA), recordava esta semana o dia em que entrou num quarto para examinar seu primeiro paciente com covid-19. Estava coberto por duas camadas de luvas, avental, máscara e óculos protetores. “Senti uma onda de culpa”, escreve ele na prestigiosa revista New England Journal of Medicine. “Usava um traje de proteção contra catástrofes que me deixava irreconhecível e que não era para proteger o meu paciente, e sim a mim.” Earnest se sentiu como um médico da peste.
“Com a peste de 1348 começa a era moderna da saúde”, resume o médico italiano Sergio Sabbatani. É assombroso comprovar quantas das coisas que vemos durante a pior pandemia desde o começo do século XXI foram inventadas de improviso na do XIV.
Em Veneza, uma cidade no meio de uma lagoa, foram designadas ilhas às quais os convalescentes eram levados e onde todos os estrangeiros chegados de navio deveriam permanecer durante 40 dias, a quarentena ―do italiano quaranta. Os navios que estavam livres da doença hasteavam uma bandeira amarela, que ainda hoje, no alfabeto das insígnias navais, designa a letra Q, de quarentena.
Os 40 dias são um legado do poder da Igreja. “É o tempo que Jesus passou no deserto sobrevivendo às tentações do diabo e, como se pensava que a peste era um castigo divino, assim se estabeleceu”, recorda o historiador José Luis Betrán, autor de "Historia de las Epidemias en España". O livro detalha o avanço da peste negra no país a partir dos portos do Mediterrâneo, como Barcelona e Valência, em direção ao interior. Foi uma epidemia que durou anos, chegou a matar um em cada cinco espanhóis e foi reaparecendo ao longo dos séculos, sempre causando o mesmo terror.
“Havia alguns que, se conseguiam chegar à janela de repente, se atiravam à rua e morriam, porque, como só havia um homem ou uma mulher cuidando deles, e os enlouquecidos tinham tanta força, não conseguiam contê-los”, escreve em 1651 o artesão Miquel Parets sobre a peste em Barcelona.
Daquela época datam as primeiras tentativas de estabelecer redes de informantes para obter dados reais sobre a epidemia, mas também o obscurantismo e a manipulação de dados para evitar que a notícia de uma epidemia se espalhasse, pois foi então que cidades inteiras começaram a se fechar para conter a peste, diz Betrán. Daquela época datam teorias errôneas com assombrosa semelhança com a atualidade, como que a peste tinha sido fabricada de forma deliberada. A teoria alimentou o ódio contra os possíveis culpados, os judeus, que foram perseguidos e assassinados em muitas cidades europeias, de Barcelona a Estrasburgo.
Por causa da peste foram estabelecidos os primeiros fechamentos de fronteiras e cordões sanitários, junto com a imposição de quarentenas, fumigações e banhos de vinagre aos viajantes que entrassem pelos postos de controle, sob pena de execução de quem se recusasse. Imitando Veneza, muitas cidades e reinos criaram comissões de saúde pública compostas por superintendentes que “deviam controlar a carne, o peixe, os crustáceos, as frutas, os grãos, o vinho, a água, a construção de hospitais, cemitérios, lazaretos, funerais, remédios, médicos, pobres, viajantes e prostitutas”, relata Sabbatani.
Os médicos e cirurgiões, os profissionais sanitários da época, eram vítimas frequentes da praga. Na Veneza de 1348, de 18 médicos da peste registrados, cinco morreram e outros 12 abandonaram sua profissão por medo do contágio.
Algo assim viveu Juan Tomás Porcell quando aceitou o encargo de acabar com a epidemia de peste em Zaragoza em 1564. Todos os seus antecessores no cargo tinham adoecido ou morrido. Porcell foi responsável por 2.000 infectados no hospital improvisado para a epidemia nos arredores dessa cidade espanhola. Diariamente percorria as ruas recolhendo novos doentes. Via imagens dantescas; recém-nascidos abraçados a suas mães mortas, aos quais as parteiras tinham que alimentar com seu próprio leite, sob o risco de se contagiarem, pois também os bebês tinham a peste.
Tentando salvar uma criança, Porcell fez história na medicina. Praticou uma autopsia numa grávida que morreu de peste. Conseguiu tirar o bebê ainda vivo do ventre, mas este faleceu pouco tempo depois. O médico fez pelo menos cinco autópsias sistemáticas para analisar os danos aos órgãos, a composição dos bubos e os gânglios inflamados, sobretudo onde a pulga picou, que costumava ser nas axilas ou virilha, pela presença de pelos. Isto foi algo inédito para a época, pois não se sabe de outro médico com coragem de se arriscar a fazer autópsias em empesteados. Porcell sobreviveu à peste e descreveu seus achados em um tratado médico escrito em castelhano que circulou por toda a Europa.
Sem querer, Porcell criou a disciplina da patologia clínica, ainda hoje praticada nos hospitais, e “anuncia o que será a revolução científica das gerações seguintes”, ressalta a historiadora da ciência Consuelo Miqueo. Seu caso “é paradigmático de uma atitude moderna por apoiar suas propostas preventivas e terapêuticas na experiência, na observação clínica e anatomopatológica de um número muito alto de casos (2.000), analisando variáveis com um procedimento que se acha na base da moderna epidemiologia clínica”.
A primeira vez que um ser humano viu o verdadeiro causador da peste não soube identificá-lo. Foi em 1658, quando Athanasius Kircher colheu sangue de um empesteado e o pôs sob seu rudimentar microscópio. Viu estranhos corpúsculos de forma mutável se movimentarem pelo líquido. A causa da doença inominável só seria descoberta em 1894, quando Alexandre Yersin e Kitasato Shibasaburo identificaram de forma independente o bacilo Yersinia pestis. Haviam se passado 546 anos desde a chegada da peste negra à Europa.
Apesar de atualmente haver tratamentos antibióticos efetivos, a doença continua causando surtos esporádicos, sobretudo em regiões pobres, mas também em países desenvolvidos, como os EUA. O último surto, de 2017, deixou 2.300 infectados e mais de 200 mortos em Madagascar.
Há um último paralelismo entre o passado e o presente. A peste significou a primeira vez na história em que o mundo se globalizou pelo efeito de um só micróbio. Sete séculos depois, estamos na mesma situação.
Este traje é atualmente uma das fantasias mais populares no Carnaval de Veneza. Remonta às epidemias de peste que assolaram a Europa e chegaram a aniquilar um terço da sua população. Em muitas ocasiões, a taxa de letalidade era quase de 100%. Ignorava-se sua origem, sua causa, sua forma de contágio, seu tratamento. Causava tanto terror que se evitava nomeá-la, recorrendo-se a eufemismos como “o mal que corre”.
A peste negra chegou à Europa num navio de marinheiros doentes, procedentes do mar Negro, em 1348. Em sucessivas ondas ao longo dos quatro séculos seguintes, matou centenas de milhões de pessoas. Passaram-se 500 anos até que o causador da doença foi identificado: a bactéria Yersinia pestis, transmitida pela picada de pulgas. Esses insetos viajaram pelo mundo a bordo de ratos que, por a sua vez, eram transportados acidentalmente por humanos em carroças e navios pelas principais rotas comerciais, primeiro a da seda, saindo do foco original na Ásia, e depois por todo o Mediterrâneo. Naquela época, como agora, a atividade humana fez a pandemia explodir.
Sete séculos depois da peste negra, o médico Mark Earnest, da Universidade do Colorado (EUA), recordava esta semana o dia em que entrou num quarto para examinar seu primeiro paciente com covid-19. Estava coberto por duas camadas de luvas, avental, máscara e óculos protetores. “Senti uma onda de culpa”, escreve ele na prestigiosa revista New England Journal of Medicine. “Usava um traje de proteção contra catástrofes que me deixava irreconhecível e que não era para proteger o meu paciente, e sim a mim.” Earnest se sentiu como um médico da peste.
É assombroso comprovar quantas coisas que estamos vendo durante a pior pandemia do século XXI foram inventadas de improviso na do XIVMas a figura apavorante do médico da peste é um símbolo do ressurgimento do conhecimento e da ciência frente às crenças religiosas ou fantásticas. O bico da máscara estava cheio de perfume e vinagre, porque em teoria isso desinfetava o ar pestilento desprendido pelos doentes e que se pensava ser o causador da infecção. Todo o corpo ficava selado, envolto em uma túnica fechada para evitar o contágio. E essa vara já era uma medida para guardar a distância de segurança. Era um primeiro exemplo do equipamento de proteção dos profissionais sanitários.
“Com a peste de 1348 começa a era moderna da saúde”, resume o médico italiano Sergio Sabbatani. É assombroso comprovar quantas das coisas que vemos durante a pior pandemia desde o começo do século XXI foram inventadas de improviso na do XIV.
Em Veneza, uma cidade no meio de uma lagoa, foram designadas ilhas às quais os convalescentes eram levados e onde todos os estrangeiros chegados de navio deveriam permanecer durante 40 dias, a quarentena ―do italiano quaranta. Os navios que estavam livres da doença hasteavam uma bandeira amarela, que ainda hoje, no alfabeto das insígnias navais, designa a letra Q, de quarentena.
Os 40 dias são um legado do poder da Igreja. “É o tempo que Jesus passou no deserto sobrevivendo às tentações do diabo e, como se pensava que a peste era um castigo divino, assim se estabeleceu”, recorda o historiador José Luis Betrán, autor de "Historia de las Epidemias en España". O livro detalha o avanço da peste negra no país a partir dos portos do Mediterrâneo, como Barcelona e Valência, em direção ao interior. Foi uma epidemia que durou anos, chegou a matar um em cada cinco espanhóis e foi reaparecendo ao longo dos séculos, sempre causando o mesmo terror.
“Havia alguns que, se conseguiam chegar à janela de repente, se atiravam à rua e morriam, porque, como só havia um homem ou uma mulher cuidando deles, e os enlouquecidos tinham tanta força, não conseguiam contê-los”, escreve em 1651 o artesão Miquel Parets sobre a peste em Barcelona.
Daquela época datam as primeiras tentativas de estabelecer redes de informantes para obter dados reais sobre a epidemia, mas também o obscurantismo e a manipulação de dados para evitar que a notícia de uma epidemia se espalhasse, pois foi então que cidades inteiras começaram a se fechar para conter a peste, diz Betrán. Daquela época datam teorias errôneas com assombrosa semelhança com a atualidade, como que a peste tinha sido fabricada de forma deliberada. A teoria alimentou o ódio contra os possíveis culpados, os judeus, que foram perseguidos e assassinados em muitas cidades europeias, de Barcelona a Estrasburgo.
Por causa da peste foram estabelecidos os primeiros fechamentos de fronteiras e cordões sanitários, junto com a imposição de quarentenas, fumigações e banhos de vinagre aos viajantes que entrassem pelos postos de controle, sob pena de execução de quem se recusasse. Imitando Veneza, muitas cidades e reinos criaram comissões de saúde pública compostas por superintendentes que “deviam controlar a carne, o peixe, os crustáceos, as frutas, os grãos, o vinho, a água, a construção de hospitais, cemitérios, lazaretos, funerais, remédios, médicos, pobres, viajantes e prostitutas”, relata Sabbatani.
Os médicos e cirurgiões, os profissionais sanitários da época, eram vítimas frequentes da praga. Na Veneza de 1348, de 18 médicos da peste registrados, cinco morreram e outros 12 abandonaram sua profissão por medo do contágio.
Algo assim viveu Juan Tomás Porcell quando aceitou o encargo de acabar com a epidemia de peste em Zaragoza em 1564. Todos os seus antecessores no cargo tinham adoecido ou morrido. Porcell foi responsável por 2.000 infectados no hospital improvisado para a epidemia nos arredores dessa cidade espanhola. Diariamente percorria as ruas recolhendo novos doentes. Via imagens dantescas; recém-nascidos abraçados a suas mães mortas, aos quais as parteiras tinham que alimentar com seu próprio leite, sob o risco de se contagiarem, pois também os bebês tinham a peste.
Tentando salvar uma criança, Porcell fez história na medicina. Praticou uma autopsia numa grávida que morreu de peste. Conseguiu tirar o bebê ainda vivo do ventre, mas este faleceu pouco tempo depois. O médico fez pelo menos cinco autópsias sistemáticas para analisar os danos aos órgãos, a composição dos bubos e os gânglios inflamados, sobretudo onde a pulga picou, que costumava ser nas axilas ou virilha, pela presença de pelos. Isto foi algo inédito para a época, pois não se sabe de outro médico com coragem de se arriscar a fazer autópsias em empesteados. Porcell sobreviveu à peste e descreveu seus achados em um tratado médico escrito em castelhano que circulou por toda a Europa.
Sem querer, Porcell criou a disciplina da patologia clínica, ainda hoje praticada nos hospitais, e “anuncia o que será a revolução científica das gerações seguintes”, ressalta a historiadora da ciência Consuelo Miqueo. Seu caso “é paradigmático de uma atitude moderna por apoiar suas propostas preventivas e terapêuticas na experiência, na observação clínica e anatomopatológica de um número muito alto de casos (2.000), analisando variáveis com um procedimento que se acha na base da moderna epidemiologia clínica”.
A primeira vez que um ser humano viu o verdadeiro causador da peste não soube identificá-lo. Foi em 1658, quando Athanasius Kircher colheu sangue de um empesteado e o pôs sob seu rudimentar microscópio. Viu estranhos corpúsculos de forma mutável se movimentarem pelo líquido. A causa da doença inominável só seria descoberta em 1894, quando Alexandre Yersin e Kitasato Shibasaburo identificaram de forma independente o bacilo Yersinia pestis. Haviam se passado 546 anos desde a chegada da peste negra à Europa.
Apesar de atualmente haver tratamentos antibióticos efetivos, a doença continua causando surtos esporádicos, sobretudo em regiões pobres, mas também em países desenvolvidos, como os EUA. O último surto, de 2017, deixou 2.300 infectados e mais de 200 mortos em Madagascar.
Há um último paralelismo entre o passado e o presente. A peste significou a primeira vez na história em que o mundo se globalizou pelo efeito de um só micróbio. Sete séculos depois, estamos na mesma situação.
Guerra pela mente de Bolsonaro
O vídeo da reunião ministerial de 22 de abril consiste numa farândola de bajuladores, entre ressentidos e vitimizados, que disputam o posto daquele cujo extremismo melhor demonstraria fidelidade incondicional ao presidente; isto enquanto, na costura de quatro momentos, Jair Bolsonaro deixa clara a intenção de interferir na PF para proteger os seus, familiares e amigos, de investigações.
De proposta concreta, ao longo daquelas duas horas em que um governo de autocratas se exibiu, houve somente a de Ricardo Salles, ministro do Meio Ambiente. Não para combate à Covid-19, mas para uso da janela de oportunidades escancarada pela gravidade da doença: aproveitar que as atenções da sociedade estariam voltadas ao enfrentamento da peste e fazer passar a boiada. A boiada: demissão de fiscais, anistia a desmatadores etc.
A alternativa tentadora, que o vídeo mostra ser encarnada também por Braga Netto e Tarcísio de Freitas, pode ser resumida nesta fala do ministro do Desenvolvimento Regional — que trabalha por ter um Minha Casa Minha Vida para chamar de seu: “Se vamos gastar R$ 600 bilhões para resolver uma situação que é emergencial e todos reconhecemos que é necessária, e darmos segurança à população, no caso alimentar, para evitarmos o caos, para diminuirmos a mortalidade das empresas, muito bem. Tá correto. Essa é a boa direção. Por que não 5%, 6%, 7% desse total, 10% desse total, em obras de infraestrutura? Por que não termos a capacidade de alavancarmos emprego num momento em que a retomada, todos os economistas aqui reconhecem, vai ser muito lenta?”
É uma guerra pela mente de Bolsonaro; o de cabeça já feita.
De proposta concreta, ao longo daquelas duas horas em que um governo de autocratas se exibiu, houve somente a de Ricardo Salles, ministro do Meio Ambiente. Não para combate à Covid-19, mas para uso da janela de oportunidades escancarada pela gravidade da doença: aproveitar que as atenções da sociedade estariam voltadas ao enfrentamento da peste e fazer passar a boiada. A boiada: demissão de fiscais, anistia a desmatadores etc.
Não deveria haver surpresa ante a inexistência de debate sobre políticas públicas num encontro do conselho de ministros de Bolsonaro. Este governo é narrativo, de modo que, reunidos os seus principais agentes, só se poderia esperar um desfile de versões e jactâncias, em que prevalecem aflições não com o impacto do vírus sobre o povo, mas com o impacto do que seria a exploração do vírus pelos adversários sobre a percepção da sociedade.
Estão lá os homens virtuosos, que são diferentes (talvez do centrão que o chefe coopta) e que se sacrificam pelo mito — que se sacrificou por nós. Abraham Weintraub, em seu esforço — sem agenda própria — por evidenciar as bordoadas e os processos que toma, reconhece estar ainda aquém do presidente: “Fez mais do que eu. Levou uma facada.”
O ministro da Educação — pela prisão dos “vagabundos” do STF — seria o vencedor do troféu Bolsonarinho não houvesse a concorrência do presidente da Caixa, Pedro Guimarães, desesperado para ser ministro, responsável pelo Bolsa Jair, “o maior programa da história da humanidade”, cujas bravatas nos informam também que dispõe de 15 armas e de goela para litro de cloroquina. Guimarães, guloso, armado e perigoso, pronto para matar e morrer na guerrilha contra a tirania de Doria e Witzel, está na vanguarda da resistência bolsonarista pela liberdade das hemorroidas — e talvez tenha sido mesmo a inspiração do presidente para aquela pregação armamentista miliciana.
Fica expressa a preocupação de Bolsonaro não com o direito de o cidadão ter e poder portar armas, mas em munir a população para combater medidas restritivas temporárias de governantes eleitos. Armamento para subsidiar a desobediência civil. Não para proteger garantias individuais. Uma compreensão deturpada do que seja liberdade.
Fica expressa a preocupação de Bolsonaro não com o direito de o cidadão ter e poder portar armas, mas em munir a população para combater medidas restritivas temporárias de governantes eleitos. Armamento para subsidiar a desobediência civil. Não para proteger garantias individuais. Uma compreensão deturpada do que seja liberdade.
E não me venha liberal bolsonarista — este oximoro — com o papo de que a fala do presidente estaria escudada no espírito da segunda emenda da Constituição dos EUA. Conheço o texto. O que Bolsonaro disse, no entanto, nada tem com o que seria defesa de um Estado livre contra a opressão; sendo um estímulo explícito à ação contra decretos de governadores e prefeitos — decretos destinados a tolher a sanha de um vírus assassino e submetidos a controle de constitucionalidade.
Esse conjunto assombroso de campanhas, algumas mesmo criminosas, em uma reunião ministerial eclipsou a mais aberta batalha — sobre o futuro do programa econômico de Paulo Guedes — travada ali. As ideias do ministro da Economia vão questionadas dentro do governo. A agenda reformista liberal está em xeque. A pressão desenvolvimentista cresce, impulsionada pela demanda social por que o Estado induza a economia. O vento virou. “Não existem verdades absolutas” —diz Rogerio Marinho, o desafiante. É uma guerra pela mente de Bolsonaro; que está tentado, Dilma Rousseff em matéria econômica que é.
A alternativa tentadora, que o vídeo mostra ser encarnada também por Braga Netto e Tarcísio de Freitas, pode ser resumida nesta fala do ministro do Desenvolvimento Regional — que trabalha por ter um Minha Casa Minha Vida para chamar de seu: “Se vamos gastar R$ 600 bilhões para resolver uma situação que é emergencial e todos reconhecemos que é necessária, e darmos segurança à população, no caso alimentar, para evitarmos o caos, para diminuirmos a mortalidade das empresas, muito bem. Tá correto. Essa é a boa direção. Por que não 5%, 6%, 7% desse total, 10% desse total, em obras de infraestrutura? Por que não termos a capacidade de alavancarmos emprego num momento em que a retomada, todos os economistas aqui reconhecem, vai ser muito lenta?”
Guedes não reconhece.
A propósito: aquela reunião fora convocada, por Braga Netto, para tratar do tal — ainda obscuro — Pró-Brasil, um PAC com estofo militar. Mais tarde naquele dia, sem a presença do ministro da Economia ou de qualquer representante da pasta, o programa seria apresentado.
Ainda na reunião ministerial, mencionada a possibilidade de privatizar o Banco do Brasil, o presidente pediu que se deixasse aquilo para 2023; mas ele não pensa em eleição.
É uma guerra pela mente de Bolsonaro; o de cabeça já feita.
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