domingo, 13 de setembro de 2026
Pode acontecer
Pode acontecer o seguinte. As revelações sobre o envolvimento de figuras do governo passado em crimes e escândalos chegam a ponto crítico. Civis e militares de graduação inimaginável veem-se na iminência não de ir para a cadeia, o que contraria os hábitos brasileiros, mas de serem expostos como corruptos, torturadores, etc. O que, sei lá, seria chato. Os protestos contra “revanchismo” não adiantam. É preciso agir para deter a torrente de denúncias que ameaça destruir, na sua fúria persecutória, tudo o que o regime passado deixou de bom.
Como, por exemplo, o, a… hm. Bem, é preciso agir. O golpe é decidido num telefonema no meio da noite. Falam em código.
– Alô, Mão em Cumbuca? Boca na Botija.
– Fala, Boca.
– Tudo certo para amanhã?
– Tudo.
– Tem certeza?
– Tenho. Houve resistência, mas o argumento de que até o Antônio Carlos está nas mãos dos comunistas foi decisivo. A maioria aderiu.
– Quer dizer que…
– Lá vamos nós outra vez.
– Será que não há mesmo outro jeito?
– Bem, se você quer ver nos jornais a história de como você roubava material do seu gabinete para vender…
– Ssssh!
– Nunca entendi. Você não se contentava com seu salário de…
– Sssshh!
– Tinha que vender os clipes de papel?!
– E você? E você?
– O que que tem eu?
– E o cabaré no porão do
– Ssshhh!
– Bom, agora não adianta ficar lamentando. O importante é que ninguém descubra. Como está o plano?
– Não pode falhar. Cercaremos o Congresso. Os congressistas se renderão. Usando os congressistas como reféns, exigiremos a capitulação do governo e das forças leais a Sarney.
– Uma vez no poder, censuraremos a imprensa. De novo.
– Exato.
– Boa sorte, Mão!
– Certo, Boca. No dia seguinte.
– Alô, Mão em Cumbuca?
– Não tem ninguém aqui com esse codinome.
– Já vi que não deu certo…
– É.
– O que houve?
– Atacamos o Congresso. Fomos direto ao cerne da democracia. Cercamos o prédio. Entramos para render os congressistas.
– E?
– E não encontramos ninguém!
– O quê?!
– Bom, para não dizer que não tinha ninguém, tinha uma taquígrafa. Pensamos em usá-la como refém mas acabamos desistindo.
– Assim não dá!
– É. É impossível golpear as instituições se elas não estão onde deviam estar!
– O que vamos fazer agora, Mão?
– Eu se fosse você dava o fora do país, Boca.
– E de onde você pensa que eu estou falando, Mão?
– Fala, Boca.
– Tudo certo para amanhã?
– Tudo.
– Tem certeza?
– Tenho. Houve resistência, mas o argumento de que até o Antônio Carlos está nas mãos dos comunistas foi decisivo. A maioria aderiu.
– Quer dizer que…
– Lá vamos nós outra vez.
– Será que não há mesmo outro jeito?
– Bem, se você quer ver nos jornais a história de como você roubava material do seu gabinete para vender…
– Ssssh!
– Nunca entendi. Você não se contentava com seu salário de…
– Sssshh!
– Tinha que vender os clipes de papel?!
– E você? E você?
– O que que tem eu?
– E o cabaré no porão do
– Ssshhh!
– Bom, agora não adianta ficar lamentando. O importante é que ninguém descubra. Como está o plano?
– Não pode falhar. Cercaremos o Congresso. Os congressistas se renderão. Usando os congressistas como reféns, exigiremos a capitulação do governo e das forças leais a Sarney.
– Uma vez no poder, censuraremos a imprensa. De novo.
– Exato.
– Boa sorte, Mão!
– Certo, Boca. No dia seguinte.
– Alô, Mão em Cumbuca?
– Não tem ninguém aqui com esse codinome.
– Já vi que não deu certo…
– É.
– O que houve?
– Atacamos o Congresso. Fomos direto ao cerne da democracia. Cercamos o prédio. Entramos para render os congressistas.
– E?
– E não encontramos ninguém!
– O quê?!
– Bom, para não dizer que não tinha ninguém, tinha uma taquígrafa. Pensamos em usá-la como refém mas acabamos desistindo.
– Assim não dá!
– É. É impossível golpear as instituições se elas não estão onde deviam estar!
– O que vamos fazer agora, Mão?
– Eu se fosse você dava o fora do país, Boca.
– E de onde você pensa que eu estou falando, Mão?
Luis Fernando Veríssimo
O arco conservador nas Américas
Enquanto Marco Rubio costurava em Bogotá, Quito e Lima um arco andino de governos alinhados a Donald Trump, o Brasil assistia à debacle moral do Supremo. Não é uma confluência feliz: os Estados Unidos intensificam drasticamente sua projeção de poder no hemisfério, quando o Estado de Direito no Brasil expõe fissuras em sua esfera de decisão última.
Na Colômbia, Abelardo de la Espriella quer reatar a parceria de segurança rompida por Gustavo Petro. Pediu drones, radares e inteligência, prometeu retomar a fumigação da coca e lançou um “Plano Patriota”.
No Equador, a aliança já estava em vigor. Daniel Noboa abriu espaço para operações conjuntas contra o narcotráfico. Rubio ofereceu US$ 45 milhões e embarcações. O país, corredor da cocaína entre Colômbia e Peru, virou laboratório da política americana.
No Peru, Keiko Fujimori aderiu ao Escudo das Américas, coalizão de Trump contra cartéis. Por determinação de Trump, o país já havia sido tornado aliado extra-Otan. Segurança, minerais críticos e contenção da China são os vetores de atração para os EUA. É a “Doutrina Donroe” em marcha: prioridade ao hemisfério, combate aos cartéis, redução da presença chinesa e uso combinado de poder militar, comercial e financeiro. Washington constrói uma faixa de alianças na costa do Pacífico, contígua às fronteiras brasileiras.
Se Flávio Bolsonaro vencer, o maior país da região poderá completar esse arco por afinidade ideológica. Se Lula for reeleito, Trump procurará moldar o comportamento brasileiro por meio de pressões econômicas e a sinalização de coerção militar. Não será preciso romper com Brasília. Bastará aumentar o preço da autonomia.
É aí que a crise do STF ganha dimensão externa. A guerra entre ministros, as suspeitas envolvendo o Banco Master e a dificuldade da própria Corte de investigar seus integrantes corroem sua autoridade moral. Isso não leva necessariamente à falência da democracia. Mas reduz o capital institucional e político para resistir a pressões estrangeiras.
O governo americano impôs sanções a Alexandre de Moraes pela Lei Magnitsky, em julho de 2025, retirou a punição meses depois e agora discute retomá-la. Quanto menos legítima parecer a Corte, mais fácil será apresentar sanções contra ministros como defesa de direitos, e não ingerência.
A vulnerabilidade brasileira não está apenas na Amazônia, no crime organizado, nos minerais ou na precariedade militar. Está também na qualidade de suas instituições. Potências exploram divisões internas. A melhor defesa contra a nova projeção americana não é retórica soberanista. É recuperar credibilidade em casa.
Na Colômbia, Abelardo de la Espriella quer reatar a parceria de segurança rompida por Gustavo Petro. Pediu drones, radares e inteligência, prometeu retomar a fumigação da coca e lançou um “Plano Patriota”.
No Equador, a aliança já estava em vigor. Daniel Noboa abriu espaço para operações conjuntas contra o narcotráfico. Rubio ofereceu US$ 45 milhões e embarcações. O país, corredor da cocaína entre Colômbia e Peru, virou laboratório da política americana.
No Peru, Keiko Fujimori aderiu ao Escudo das Américas, coalizão de Trump contra cartéis. Por determinação de Trump, o país já havia sido tornado aliado extra-Otan. Segurança, minerais críticos e contenção da China são os vetores de atração para os EUA. É a “Doutrina Donroe” em marcha: prioridade ao hemisfério, combate aos cartéis, redução da presença chinesa e uso combinado de poder militar, comercial e financeiro. Washington constrói uma faixa de alianças na costa do Pacífico, contígua às fronteiras brasileiras.
Se Flávio Bolsonaro vencer, o maior país da região poderá completar esse arco por afinidade ideológica. Se Lula for reeleito, Trump procurará moldar o comportamento brasileiro por meio de pressões econômicas e a sinalização de coerção militar. Não será preciso romper com Brasília. Bastará aumentar o preço da autonomia.
É aí que a crise do STF ganha dimensão externa. A guerra entre ministros, as suspeitas envolvendo o Banco Master e a dificuldade da própria Corte de investigar seus integrantes corroem sua autoridade moral. Isso não leva necessariamente à falência da democracia. Mas reduz o capital institucional e político para resistir a pressões estrangeiras.
O governo americano impôs sanções a Alexandre de Moraes pela Lei Magnitsky, em julho de 2025, retirou a punição meses depois e agora discute retomá-la. Quanto menos legítima parecer a Corte, mais fácil será apresentar sanções contra ministros como defesa de direitos, e não ingerência.
A vulnerabilidade brasileira não está apenas na Amazônia, no crime organizado, nos minerais ou na precariedade militar. Está também na qualidade de suas instituições. Potências exploram divisões internas. A melhor defesa contra a nova projeção americana não é retórica soberanista. É recuperar credibilidade em casa.
Cerimedo: Bots, desinformação e poder na América Latina
"Mercenário digital" é um termo frequentemente usado para descrever Fernando Cerimedo. O consultor político argentino fez das redes sociais seu principal campo de atuação e levou suas estratégias muito além das fronteiras do seu país. Seu nome tem sido associado a campanhas e figuras políticas no Brasil, Chile, Bolívia e Honduras, além da Argentina.
Sua prisão na Bolívia, em 18 de agosto, sob a acusação de contratar assassinos para matar sua ex-companheira grávida, desencadeou um escândalo que revelou a extensão de suas operações na América Latina: ligações políticas, campanhas de desinformação, fazendas de trolls e contas falsas.
Cerimedo é "um especialista em estratégias de desinformação, manipulação de redes sociais, criação de bots e treinamento de pessoas para atuarem como trolls", disse Soledad Vallejos, autora de "Os Donos da Liberdade", livro sobre as redes da nova direita na América Latina. Essas estratégias, explica ela, permitem que eles criem e amplifiquem conteúdo nas redes sociais até que ele chegue à grande mídia e, por fim, ao discurso político.
"O que aconteceu na Bolívia trouxe à tona muito do que Cerimedo vinha fazendo por toda a América Latina", disse o jornalista Mauro Federico, que investiga suas atividades e conexões há anos. O padrão, ele destaca, se repete com variações locais em diferentes países: forte presença digital, campanhas negativas apoiadas por contas automatizadas e, após uma vitória eleitoral, uma aproximação ao círculo íntimo do poder, muitas vezes sem um cargo formal que implique responsabilidade. Esse comportamento, afirma ele, "caracterizou-se pela impunidade com que ele operava".
No Brasil, onde trabalhou para Jair Bolsonaro, o controverso estrategista digital foi investigado pela Polícia Federal por seu papel na conspiração golpista após as eleições de 2022. Na Argentina, ele fez parte da estratégia de comunicação de Javier Milei durante a campanha presidencial de 2023. O especialista consultado afirma que sua influência na rede digital de Milei era tamanha que, após sua recente prisão, "a fazenda de bots e trolls que apoiava o presidente argentino parou de funcionar ".
No Chile, uma comissão da Câmara dos Deputados está investigando possíveis ligações entre Cerimedo e o círculo íntimo do presidente José Antonio Kast, bem como o uso de bots em campanhas políticas. Kast admite conhecer o consultor argentino, mas nega que ele tenha trabalhado para ele.
Em Honduras, Cerimedo levou suas estratégias de comunicação digital para a campanha presidencial de Nasry Asfura em 2025. No México, a presidente Claudia Sheinbaum acusou o jornal La Derecha Diario, cofundado por Cerimedo, de usar bots e contas pagas para disseminar informações falsas e influenciar a opinião pública. E na Bolívia, ele colaborou na campanha de Rodrigo Paz e, como o próprio presidente reconheceu, continuou a cooperar no início de seu governo.
As conexões, no entanto, não terminam na América Latina. Vallejos lembra que a Cerimedo registrou o domínio da CPAC Argentina em 2021, a versão local da Conferência de Ação Política Conservadora, que teve origem nos Estados Unidos e está ligada ao trumpismo. Federico a situa dentro de "uma rede que se originou das atividades de grupos nos Estados Unidos que trabalharam com Trump" e que posteriormente se espalhou por toda a região, com componentes financeiros, logísticos e políticos.
Ao analisar esses tipos de redes, o advogado boliviano Ramiro Orias, diretor do Programa de Corrupção e Direitos Humanos da Fundação Devido Processo Legal (DPLF), concentra-se na opacidade. Em entrevista a esta publicação, ele argumenta que a cooperação política internacional é legítima, mas que a falta de transparência dificulta saber "quem financia, quem decide, quem executa" essas operações e se elas perseguem objetivos ilegítimos.
O alcance regional dessas redes também contrasta fortemente com a capacidade de resposta das instituições. "Há uma clara assimetria: as redes políticas e digitais podem operar regionalmente em tempo real, enquanto as instituições continuam a funcionar principalmente dentro das jurisdições nacionais", destaca Orias. "Nossas democracias ainda estão regulamentando a política do século XXI com ferramentas projetadas para a política do século XX", resume ele.
Nesse cenário, Cerimedo é, em última análise, uma "peça operacional" em uma rede muito maior, nas palavras de Federico. "Ele é facilmente substituível", concorda Vallejos, definindo-o mais como um ponto de interseção de interesses, trajetórias e fundos do que como o mentor por trás dessas redes.
A prisão desse rei caído da desinformação provavelmente mal revelou a dimensão do que operava nos bastidores.
Narcisismo patológico de Trump é um perigo
Peter Baker não é um jornalista qualquer. Correspondente-chefe do New York Times junto à Casa Branca, ele traz no currículo a cobertura diária de seis presidentes dos Estados Unidos. É autor de vários livros sobre o poder e a história política moderna e, vez por outra, produz ensaios situando determinados mandatos em contextos mais amplos. Raramente se ocupa de temas amenos do métier. Daí a relevância da reportagem intitulada “60 postagens em 10 horas”, em que Baker se debruça sobre um surto quase psicótico de publicações digitais por parte de Donald Trump no fim de semana passado.
No início, escreveu o jornalista, o feed do presidente americano nas redes sociais era visto como espelho de seu “id”. Mas, desde a incorporação de recursos de IA às postagens, elas passaram também a expressar como Trump deseja ser visto pelo mundo: um guerreiro, um conquistador, uma figura histórica, uma versão mais jovem, mais magra e mais musculosa de si mesmo. Elas servem, sobretudo, de termômetro de seu estado mental aos 80 anos. Uma mente movida a delírios, vaidade e violência.
Os fins de semana e feriados, quando Trump dispõe de menos assessores e mais tempo ocioso, parecem despertar seus fantasmas interiores. As 60 postagens analisadas foram disparadas em rajadas intermitentes de seu clube de golfe em Bedminster, estado de Nova Jersey. Nelas, há muito de (Trump esmaga o Irã com um martelo gigante, subjuga o primeiro-ministro do Canadá com um taco de beisebol) e uma montanha de infantilidades, como o redesenho do mapa-múndi em versões cada vez mais vorazes.
Uma das fantasias mais recorrentes e irrealizáveis do 47° comandante em chefe é apresentar-se como herói militar. Como é sabido, Trump evitou o alistamento militar durante a Guerra do Vietña graças a um diagnóstico de esporões ósseos assinado por um médico que era inquilino de seu pai. Ainda que nunca tenha servido ao país, surge num uniforme militar para posar entre os generais históricos George S. Patton e Douglas MacArthur — cortesia da inteligência artificial.
Para os apoiadores de Trump, essa forma de comunicação direta e sem filtros é considerada “autêntica” e eficaz, pois consegue desencadear horror e alarme nas hostes democratas. Há um deleite ostensivo em ver o adversário levar a sério o que seriam meros trolls bem-humorados. Na verdade, o que precisa, sim, ser considerada é a capacidade mental, física, intelectual e moral de Trump no comando da grande potência em declínio.
— Chega. Nada disso é normal ou aceitável — escreveu Chellie Pingree, democrata do Maine citada por Peter Baker.
Um narcisista patológico no poder — com apenas 30% de aprovação popular, atolado até a cintura na guerra que desencadeou contra o Irã, sem solução para as guerras na Ucrânia e em Gaza, e às vésperas de uma eleição de meio de mandato em que arrisca perder maioria na Câmara e no Senado — é um perigo real. E mundial.
Um indivíduo que se utiliza do dantesco atentado terrorista múltiplo de 2001 contra as Torres Gêmeas para se vangloriar de proezas pessoais, inventadas, não pode ser considerado pessoa equilibrada. Na sexta feira, 11 de setembro, Trump não se perfilou junto aos ex-presidentes dos Estados Unidos reunidos no local da hecatombe de 25 anos atrás para a sempre pungente homenagem aos mortos na tragédia. A cerimônia anual não abre espaço a discursos de políticos, e comove precisamente por isso. A leitura do nome e sobrenome de cada uma das 3 mil vítimas — feita por algum pai, mãe, avô, irmão, filha, neto ou amigo da família — basta. São centenas de origens, etnias, naturalidades e procedências unidas pela morte.
Trump preferiu comparecer à cerimônia realizada em Washington, pelo Pentágono, cujo prédio também foi atingido por um dos voos suicidas de 25 anos atrás. Ali, pôde falar à vontade. E Narciso falou. Descreveu com requintes uma cena de que não existe a mais remota comprovação: ele teria se deslocado ao local das Torres Gêmeas logo depois do atentado e sido carregado para fora da zona de perigo por dois bombeiros:
— Dois caras grandes e fortes — recordou com nostalgia.
Tampouco existe qualquer evidência de outra alegação feita por Trump, de ter ajudado na limpeza da área e testemunhado cenas horríveis de corpos espalhados pelos escombros. Tem mais: nenhum bombeiro, socorrista ou policial jamais viu os 100 ou 200 operários que Trump alega ter despachado para o local em ruínas. O único fato concreto é que ele acompanhou o 11 de Setembro do alto da Trump Tower, localizada na Quinta Avenida em Midtown Manhattan, a seis quilômetros de distância do horror.
O atentado que fez desmoronar certezas consolidadas desde o final da Segunda Guerra emociona a família humana até hoje — à exceção dos terroristas islâmicos e de Donald Trump.
Dorrit Harazim
No início, escreveu o jornalista, o feed do presidente americano nas redes sociais era visto como espelho de seu “id”. Mas, desde a incorporação de recursos de IA às postagens, elas passaram também a expressar como Trump deseja ser visto pelo mundo: um guerreiro, um conquistador, uma figura histórica, uma versão mais jovem, mais magra e mais musculosa de si mesmo. Elas servem, sobretudo, de termômetro de seu estado mental aos 80 anos. Uma mente movida a delírios, vaidade e violência.
Os fins de semana e feriados, quando Trump dispõe de menos assessores e mais tempo ocioso, parecem despertar seus fantasmas interiores. As 60 postagens analisadas foram disparadas em rajadas intermitentes de seu clube de golfe em Bedminster, estado de Nova Jersey. Nelas, há muito de (Trump esmaga o Irã com um martelo gigante, subjuga o primeiro-ministro do Canadá com um taco de beisebol) e uma montanha de infantilidades, como o redesenho do mapa-múndi em versões cada vez mais vorazes.
Uma das fantasias mais recorrentes e irrealizáveis do 47° comandante em chefe é apresentar-se como herói militar. Como é sabido, Trump evitou o alistamento militar durante a Guerra do Vietña graças a um diagnóstico de esporões ósseos assinado por um médico que era inquilino de seu pai. Ainda que nunca tenha servido ao país, surge num uniforme militar para posar entre os generais históricos George S. Patton e Douglas MacArthur — cortesia da inteligência artificial.
Para os apoiadores de Trump, essa forma de comunicação direta e sem filtros é considerada “autêntica” e eficaz, pois consegue desencadear horror e alarme nas hostes democratas. Há um deleite ostensivo em ver o adversário levar a sério o que seriam meros trolls bem-humorados. Na verdade, o que precisa, sim, ser considerada é a capacidade mental, física, intelectual e moral de Trump no comando da grande potência em declínio.
— Chega. Nada disso é normal ou aceitável — escreveu Chellie Pingree, democrata do Maine citada por Peter Baker.
Um narcisista patológico no poder — com apenas 30% de aprovação popular, atolado até a cintura na guerra que desencadeou contra o Irã, sem solução para as guerras na Ucrânia e em Gaza, e às vésperas de uma eleição de meio de mandato em que arrisca perder maioria na Câmara e no Senado — é um perigo real. E mundial.
Um indivíduo que se utiliza do dantesco atentado terrorista múltiplo de 2001 contra as Torres Gêmeas para se vangloriar de proezas pessoais, inventadas, não pode ser considerado pessoa equilibrada. Na sexta feira, 11 de setembro, Trump não se perfilou junto aos ex-presidentes dos Estados Unidos reunidos no local da hecatombe de 25 anos atrás para a sempre pungente homenagem aos mortos na tragédia. A cerimônia anual não abre espaço a discursos de políticos, e comove precisamente por isso. A leitura do nome e sobrenome de cada uma das 3 mil vítimas — feita por algum pai, mãe, avô, irmão, filha, neto ou amigo da família — basta. São centenas de origens, etnias, naturalidades e procedências unidas pela morte.
Trump preferiu comparecer à cerimônia realizada em Washington, pelo Pentágono, cujo prédio também foi atingido por um dos voos suicidas de 25 anos atrás. Ali, pôde falar à vontade. E Narciso falou. Descreveu com requintes uma cena de que não existe a mais remota comprovação: ele teria se deslocado ao local das Torres Gêmeas logo depois do atentado e sido carregado para fora da zona de perigo por dois bombeiros:
— Dois caras grandes e fortes — recordou com nostalgia.
Tampouco existe qualquer evidência de outra alegação feita por Trump, de ter ajudado na limpeza da área e testemunhado cenas horríveis de corpos espalhados pelos escombros. Tem mais: nenhum bombeiro, socorrista ou policial jamais viu os 100 ou 200 operários que Trump alega ter despachado para o local em ruínas. O único fato concreto é que ele acompanhou o 11 de Setembro do alto da Trump Tower, localizada na Quinta Avenida em Midtown Manhattan, a seis quilômetros de distância do horror.
O atentado que fez desmoronar certezas consolidadas desde o final da Segunda Guerra emociona a família humana até hoje — à exceção dos terroristas islâmicos e de Donald Trump.
Dorrit Harazim
No que Flávio Bolsonaro quer que acreditemos, vejam só...
“Quem com ferro fere, com ferro será ferido”. Vale o mesmo quando se trata de vazamento de informações. Quer um exemplo? Pois bem: Flávio Bolsonaro celebrou o vazamento de informações que emporcalhou para sempre a reputação do ministro Alexandre de Moraes, conselheiro informal do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, protagonista do maior escândalo financeiro da história do Brasil. No imaginário coletivo, Moraes é Lula e Lula é Moraes, que condenou à prisão o pai de Flávio por tentativa de golpe de Estado.
Agora, é Flávio quem se diz atingido por um vazamento de informações que tem como objetivo enfraquecer sua candidatura à Presidência da República, quando faltam apenas 21 dias para o primeiro turno das próximas eleições. Isso é uma falsa equivalência. No caso dele, não se trata de vazamento, mas de levantamento de sigilo, por ordem do ministro Edson Fachin, presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), do inquérito que o investiga por crimes de corrupção ativa e passiva, evasão de divisas, lavagem de dinheiro e organização criminosa. O povo tem o direito de saber de tudo. Por que não?
Moraes, por sua vez, recusa-se a explicar suas relações estreitas com Vorcaro desde que o Banco Master começou a quebrar. Os dois trocaram 28 mensagens às vésperas de Vorcaro ser preso pela primeira vez, em novembro do ano passado. Numa delas, do dia 15, o ex-banqueiro perguntou ao ministro: “Acha que segunda já tenho que estar fora?”. Em outra, no dia 16, sobre a possibilidade de ser detido, insistiu: “Você acha que existe alguma chance de isso acontecer amanhã de manhã?”. Ele acabou sendo preso na noite do dia 17 ao tentar fugir do país.
No total, peritos da Polícia Federal identificaram que Vorcaro utilizou 52 notas em seu aplicativo para redigir textos que, posteriormente, eram transformados em imagens e enviados a Moraes. Pelo lado do ministro, foi mapeado o envio de quatro mensagens com visualização única destinadas a Vorcaro no próprio dia da prisão do banqueiro. O que complica ainda mais a situação de Moraes é o fato de que sua mulher atuou como advogada do Master, cobrando por isso a bagatela de R$ 131,2 milhões.
Mão aberta, esse Vorcaro. Ele repassou cerca de R$ 65 milhões para financiar o filme Dark Horse a pedido de Flávio. “Dinheiro privado”, segundo o candidato, apesar de Vorcaro, por meio de fraudes e do pagamento de subornos, ter tido acesso a farto dinheiro público.
Flávio simula tranquilidade. Desde o fim da ditadura militar de 1964, ele é o segundo político a cobiçar a Presidência na condição de investigado pelo STF – o primeiro foi seu pai nas eleições de 2022. “Graças a Deus, o sigilo foi afastado de tudo e às claras para todo mundo ver o que eu sempre disse, que não tem absolutamente nada de errado nesse filme”, declara. Parodiando Fernando Pessoa, o poeta português: “O político é um fingidor. Finge tão completamente / Que chega a fingir que é dor / A dor que deveras sente”.
Agora, é Flávio quem se diz atingido por um vazamento de informações que tem como objetivo enfraquecer sua candidatura à Presidência da República, quando faltam apenas 21 dias para o primeiro turno das próximas eleições. Isso é uma falsa equivalência. No caso dele, não se trata de vazamento, mas de levantamento de sigilo, por ordem do ministro Edson Fachin, presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), do inquérito que o investiga por crimes de corrupção ativa e passiva, evasão de divisas, lavagem de dinheiro e organização criminosa. O povo tem o direito de saber de tudo. Por que não?
Moraes, por sua vez, recusa-se a explicar suas relações estreitas com Vorcaro desde que o Banco Master começou a quebrar. Os dois trocaram 28 mensagens às vésperas de Vorcaro ser preso pela primeira vez, em novembro do ano passado. Numa delas, do dia 15, o ex-banqueiro perguntou ao ministro: “Acha que segunda já tenho que estar fora?”. Em outra, no dia 16, sobre a possibilidade de ser detido, insistiu: “Você acha que existe alguma chance de isso acontecer amanhã de manhã?”. Ele acabou sendo preso na noite do dia 17 ao tentar fugir do país.
No total, peritos da Polícia Federal identificaram que Vorcaro utilizou 52 notas em seu aplicativo para redigir textos que, posteriormente, eram transformados em imagens e enviados a Moraes. Pelo lado do ministro, foi mapeado o envio de quatro mensagens com visualização única destinadas a Vorcaro no próprio dia da prisão do banqueiro. O que complica ainda mais a situação de Moraes é o fato de que sua mulher atuou como advogada do Master, cobrando por isso a bagatela de R$ 131,2 milhões.
Mão aberta, esse Vorcaro. Ele repassou cerca de R$ 65 milhões para financiar o filme Dark Horse a pedido de Flávio. “Dinheiro privado”, segundo o candidato, apesar de Vorcaro, por meio de fraudes e do pagamento de subornos, ter tido acesso a farto dinheiro público.
Flávio simula tranquilidade. Desde o fim da ditadura militar de 1964, ele é o segundo político a cobiçar a Presidência na condição de investigado pelo STF – o primeiro foi seu pai nas eleições de 2022. “Graças a Deus, o sigilo foi afastado de tudo e às claras para todo mundo ver o que eu sempre disse, que não tem absolutamente nada de errado nesse filme”, declara. Parodiando Fernando Pessoa, o poeta português: “O político é um fingidor. Finge tão completamente / Que chega a fingir que é dor / A dor que deveras sente”.
A biblioteca, a fogueira e o feed
Em 2008 estive na Biblioteca Angélica, em Roma. Fica ao lado da Piazza Navona, escondida atrás de uma igreja agostiniana. E mudou-me a forma de ver o mundo. Mas calma, que eu explico.
Eu era bibliotecária. E nesse dia, tive nas mãos um manuscrito com quase mil anos. Pergaminho a sério, não é papel. Tinta feita à mão por alguém que morreu séculos antes de eu nascer. E tremia. Não o manuscrito. Eu.
Houve bibliotecas abertas a toda a gente no mundo antigo. Alexandria teve a maior de todas. Há dois mil e trezentos anos, uma pessoa que não sabia ler podia sentar-se e ouvir alguém a ler para ela. Grátis. Ao ar livre. O primeiro podcast da história era em papiro e não tinha patrocínios. E depois perdeu-se. Ninguém sabe ao certo se ardeu, se foi destruída, se simplesmente a deixaram morrer. Mas o saber desapareceu. E durante quase mil anos, ficou trancado em mosteiros. Quem o guardou foi a Igreja. Quem o trancou também.
Em 1604, um bispo chamado Angelo Rocca fez uma coisa estranha: abriu uma biblioteca em Roma para toda a gente. Sem limites de classe. Sem limites de riqueza. Qualquer pessoa podia entrar. A Biblioteca Angélica guarda duzentos mil volumes. Mas a parte mais bonita não é o tamanho. É que a Igreja lhe deu autorização especial para guardar livros proibidos. Livros que a própria Igreja mandou queimar estão lá dentro, intactos. O homem do Vaticano abriu a porta que o Vaticano queria fechada. E guardou o que o Vaticano queria destruir. Se isto não é subversão, não sei o que é. Um padre subversivo. Filha, isto é o meu tipo de padre.
Eu tive um desses livros nas mãos. E percebi que sem aquele objeto, sem a cadeia de gente que passou a vida a copiar à mão o que outros tinham pensado, não haveria ciência, não haveria democracia, não haveria nada do que hoje damos como adquirido. A civilização é um manuscrito copiado à mão. E quem controla o manuscrito, controla a civilização.
Durante quase dois mil anos, quem controlou o manuscrito foi a Igreja. O Vaticano é o data center mais antigo do mundo. Não usa servidores. Usa abóbadas. Não guarda ficheiros. Guarda segredos. Os Arquivos Apostólicos, que até 2019 se chamavam Arquivos Secretos, não são de livre acesso. Dois mil anos de informação controlada por uma instituição que decidiu que o conhecimento era perigoso demais para ser partilhado.
Não é paranoia. É modelo de negócio. Quem detém o conhecimento, detém o poder. E durante séculos, a Igreja não só controlou o que se sabia. Controlou o que se sentia. A relação das pessoas com o sagrado, com o corpo, com o medo, com a morte, com o amor. Não precisou de algoritmo. Precisou de púlpito. E de fogueira para quem perguntasse demais.
E o que é que esconderam? Tudo o que não cabia na narrativa. Antes de Abraão, antes do deus único e masculino, havia deusas. Inanna na Suméria, Ishtar na Babilónia, Astarte em Canaã. Havia sacerdotisas. Na Mesopotâmia, os templos tinham sacerdotes chamados gala, que não eram homens nem mulheres, e que eram considerados sagrados precisamente por isso. A arqueologia documenta-o. A ciência confirma-o. Havia Lilith, que, segundo o próprio texto hebraico, recusou ser submissa e saiu do Paraíso por vontade própria. O monoteísmo não inventou Deus. Inventou o masculino de Deus. E tudo o que era feminino, fluido, ambíguo, múltiplo, ficou trancado na cave dos arquivos ou ardeu na fogueira. O manuscrito que eu tive nas mãos sobreviveu. Eu também. E olhem que as probabilidades não eram grandes para nenhum dos dois. Milhares não tiveram essa sorte. E o que eles diziam, nunca saberemos.
Se meia dúzia de escribas conseguiram manter este poder durante dois milénios com tinta e pergaminho, imaginem o que vem a seguir.
Os donos das plataformas digitais não são os novos reis. São os novos papas. Não controlam territórios. Controlam atenção. Não têm exércitos. Têm algoritmos. Não escrevem bulas papais. Escrevem termos de serviço que ninguém lê e que dizem, no fundo, o mesmo que a Igreja sempre disse: confia em nós, não precisas de perceber como funciona, basta aceitar. Como a missa em latim. Séculos de gente a rezar sem perceber o que dizia, a quem dizia, nem porquê. E aceitava. Porque quem não aceita, arde. Agora em vez de latim é código. Em vez de incenso é dados. Mas a congregação continua de joelhos.
A IA vai colonizar o pensamento. Não com violência. Com conveniência. Com respostas antes de teres feito a pergunta. Não vais perceber que já não estás a pensar. Estás a ser pensado.
A Igreja opera sem escrutínio. A Santa Casa fiscaliza os seus próprios jogos. A Igreja investigou os seus próprios abusos de crianças. O réu é o juiz. O padrão é sempre o mesmo.
Uma Igreja fundada no mito de um homem que jantou com prostitutas e lavou os pés aos pobres. E o que fizeram com ele? Construíram o edifício mais rico do mundo. E continuam a chamar-se seguidores de um homem que não tinha onde dormir.
Eu não tenho problema com a fé. Tenho problema com a empresa que a sequestrou.
Do manuscrito ao algoritmo, a lógica é a mesma: quem controla a informação, controla o mundo. A diferença é que o monge copiava um manuscrito por ano. O algoritmo copia-te a ti em milissegundos. E quando te copia, não te está a preservar. Está a prever. E quem te prevê, controla-te antes de saberes que foste controlado.
Naquela tarde em Roma, com o manuscrito nas mãos, senti o peso do que foi preciso para chegarmos até aqui. Séculos de mãos a copiar. De olhos a arder à luz de velas. De gente que morreu para que o saber não morresse com eles. E agora olho para o ecrã e pergunto: quem está a copiar agora? E para quem?
A biblioteca era de todos. O algoritmo é de sete. Sete. Como os pecados capitais. A cabeça e o cofre.
E enquanto o algoritmo te distrai com o feed, alguém está a comprar o monte onde acampavas, o prédio onde moravas, o bairro onde cresceste. Os novos papas não precisam de abóbadas. Precisam de escrituras.
E a pergunta que ninguém faz: se a Igreja precisou de dois mil anos para perder o monopólio da verdade, quanto tempo vão demorar estes? Eu cá já estou a contar.
Eu era bibliotecária. E nesse dia, tive nas mãos um manuscrito com quase mil anos. Pergaminho a sério, não é papel. Tinta feita à mão por alguém que morreu séculos antes de eu nascer. E tremia. Não o manuscrito. Eu.
Houve bibliotecas abertas a toda a gente no mundo antigo. Alexandria teve a maior de todas. Há dois mil e trezentos anos, uma pessoa que não sabia ler podia sentar-se e ouvir alguém a ler para ela. Grátis. Ao ar livre. O primeiro podcast da história era em papiro e não tinha patrocínios. E depois perdeu-se. Ninguém sabe ao certo se ardeu, se foi destruída, se simplesmente a deixaram morrer. Mas o saber desapareceu. E durante quase mil anos, ficou trancado em mosteiros. Quem o guardou foi a Igreja. Quem o trancou também.
Em 1604, um bispo chamado Angelo Rocca fez uma coisa estranha: abriu uma biblioteca em Roma para toda a gente. Sem limites de classe. Sem limites de riqueza. Qualquer pessoa podia entrar. A Biblioteca Angélica guarda duzentos mil volumes. Mas a parte mais bonita não é o tamanho. É que a Igreja lhe deu autorização especial para guardar livros proibidos. Livros que a própria Igreja mandou queimar estão lá dentro, intactos. O homem do Vaticano abriu a porta que o Vaticano queria fechada. E guardou o que o Vaticano queria destruir. Se isto não é subversão, não sei o que é. Um padre subversivo. Filha, isto é o meu tipo de padre.
Eu tive um desses livros nas mãos. E percebi que sem aquele objeto, sem a cadeia de gente que passou a vida a copiar à mão o que outros tinham pensado, não haveria ciência, não haveria democracia, não haveria nada do que hoje damos como adquirido. A civilização é um manuscrito copiado à mão. E quem controla o manuscrito, controla a civilização.
Durante quase dois mil anos, quem controlou o manuscrito foi a Igreja. O Vaticano é o data center mais antigo do mundo. Não usa servidores. Usa abóbadas. Não guarda ficheiros. Guarda segredos. Os Arquivos Apostólicos, que até 2019 se chamavam Arquivos Secretos, não são de livre acesso. Dois mil anos de informação controlada por uma instituição que decidiu que o conhecimento era perigoso demais para ser partilhado.
Não é paranoia. É modelo de negócio. Quem detém o conhecimento, detém o poder. E durante séculos, a Igreja não só controlou o que se sabia. Controlou o que se sentia. A relação das pessoas com o sagrado, com o corpo, com o medo, com a morte, com o amor. Não precisou de algoritmo. Precisou de púlpito. E de fogueira para quem perguntasse demais.
E o que é que esconderam? Tudo o que não cabia na narrativa. Antes de Abraão, antes do deus único e masculino, havia deusas. Inanna na Suméria, Ishtar na Babilónia, Astarte em Canaã. Havia sacerdotisas. Na Mesopotâmia, os templos tinham sacerdotes chamados gala, que não eram homens nem mulheres, e que eram considerados sagrados precisamente por isso. A arqueologia documenta-o. A ciência confirma-o. Havia Lilith, que, segundo o próprio texto hebraico, recusou ser submissa e saiu do Paraíso por vontade própria. O monoteísmo não inventou Deus. Inventou o masculino de Deus. E tudo o que era feminino, fluido, ambíguo, múltiplo, ficou trancado na cave dos arquivos ou ardeu na fogueira. O manuscrito que eu tive nas mãos sobreviveu. Eu também. E olhem que as probabilidades não eram grandes para nenhum dos dois. Milhares não tiveram essa sorte. E o que eles diziam, nunca saberemos.
Se meia dúzia de escribas conseguiram manter este poder durante dois milénios com tinta e pergaminho, imaginem o que vem a seguir.
Os donos das plataformas digitais não são os novos reis. São os novos papas. Não controlam territórios. Controlam atenção. Não têm exércitos. Têm algoritmos. Não escrevem bulas papais. Escrevem termos de serviço que ninguém lê e que dizem, no fundo, o mesmo que a Igreja sempre disse: confia em nós, não precisas de perceber como funciona, basta aceitar. Como a missa em latim. Séculos de gente a rezar sem perceber o que dizia, a quem dizia, nem porquê. E aceitava. Porque quem não aceita, arde. Agora em vez de latim é código. Em vez de incenso é dados. Mas a congregação continua de joelhos.
A IA vai colonizar o pensamento. Não com violência. Com conveniência. Com respostas antes de teres feito a pergunta. Não vais perceber que já não estás a pensar. Estás a ser pensado.
A Igreja opera sem escrutínio. A Santa Casa fiscaliza os seus próprios jogos. A Igreja investigou os seus próprios abusos de crianças. O réu é o juiz. O padrão é sempre o mesmo.
Uma Igreja fundada no mito de um homem que jantou com prostitutas e lavou os pés aos pobres. E o que fizeram com ele? Construíram o edifício mais rico do mundo. E continuam a chamar-se seguidores de um homem que não tinha onde dormir.
Eu não tenho problema com a fé. Tenho problema com a empresa que a sequestrou.
Do manuscrito ao algoritmo, a lógica é a mesma: quem controla a informação, controla o mundo. A diferença é que o monge copiava um manuscrito por ano. O algoritmo copia-te a ti em milissegundos. E quando te copia, não te está a preservar. Está a prever. E quem te prevê, controla-te antes de saberes que foste controlado.
Naquela tarde em Roma, com o manuscrito nas mãos, senti o peso do que foi preciso para chegarmos até aqui. Séculos de mãos a copiar. De olhos a arder à luz de velas. De gente que morreu para que o saber não morresse com eles. E agora olho para o ecrã e pergunto: quem está a copiar agora? E para quem?
A biblioteca era de todos. O algoritmo é de sete. Sete. Como os pecados capitais. A cabeça e o cofre.
E enquanto o algoritmo te distrai com o feed, alguém está a comprar o monte onde acampavas, o prédio onde moravas, o bairro onde cresceste. Os novos papas não precisam de abóbadas. Precisam de escrituras.
E a pergunta que ninguém faz: se a Igreja precisou de dois mil anos para perder o monopólio da verdade, quanto tempo vão demorar estes? Eu cá já estou a contar.
Flávio e Moraes receberam a mesma grana do mesmo esquema
Se as acusações contra Flávio Bolsonaro e Alexandre de Moraes forem verdadeiras, os dois foram cúmplices.
É estranho, eu sei.
Flávio Bolsonaro é filho do maior criminoso da história do Brasil. Alexandre de Moraes foi o juiz que prendeu o pai de Flávio por seu segundo pior crime, a tentativa de golpe de 2022 (o maior foi o assassinato em massa durante a pandemia).
É possível que o filho do bandido e o juiz que o prendeu estejam no meio da mesma mutreta?
Ao que parece, sim.
Flávio Bolsonaro é o herdeiro do movimento político que deu autorização para que Vorcaro virasse banqueiro, que deu bilhões em dinheiro de aposentados para o Master, que tentou salvar o Master elevando a cobertura do FGC, que tentou dar ao Congresso poder para demitir diretores do Banco Central que não aceitassem suborno de Vorcaro, que deu bilhões de reais do BRB (Banco Regional de Brasília) para evitar que o Master quebrasse.
Recebeu de Vorcaro a promessa de R$ 140 milhões. Não, não foi para fazer filme. Está cada vez mais claro que "Dark Horse" era um esquema que permitia aos deputados e prefeitos bolsonaristas, além do eternamente grato Daniel Vorcaro, desviarem dinheiro para o grande caixa 2 bolsonarista.
Se as suspeitas contra ele forem verdadeiras, Alexandre de Moraes chegou ao escândalo no final, quando o Master já estava indo para o buraco e precisava comprar juízes. Chegou atrasado, mas chegou gloriosamente: com uma promessa de R$ 130 milhões de Vorcaro.
Ainda não sabemos o que Moraes fez, ou teria feito, para justificar um investimento dessa grandeza da parte de Vorcaro. No mínimo, o Farialimer picareta esperava decisões favoráveis depois que o banco quebrasse e os processos começassem a chegar.
Se tudo for verdade, Moraes e Flávio trabalharam, de formas diferentes, para o mesmo criminoso: Daniel Vorcaro.
O futuro da eleição presidencial deste ano depende do público brasileiro entender ou não que Moraes e Flávio são acusados de terem ganho a mesma grana do mesmo esquema.
Tem gente grande trabalhando para que esta obviedade não venha à luz. E não, não são só os suspeitos de sempre na grande imprensa.
Com os vazamentos de André Mendonça, o caso Master voltou a ser, aos olhos do público, sobre Alexandre de Moraes.
Graças a isso, Flávio, que concorre à Presidência como avatar da aliança Daniel Vorcaro/Marco Rubio, já aparece numericamente à frente de Lula nas pesquisas. Moraes é o cara que prendeu o pai dele, certo?
Na verdade, Flávio Bolsonaro ganhou votos porque a população está indignada com um juiz acusado de ser cúmplice de Flávio Bolsonaro no caso Master.
A retirada do sigilo do inquérito Master por Edson Fachin é a última chance que teremos para explicar ao público quem, entre os candidatos, está de fato envolvido com o maior escândalo financeiro da história do Brasil. Espero que aproveitemos a oportunidade. Até agora, fracassamos.
Finalmente, é bom ressaltar: o caso Master não desqualifica o trabalho de Moraes no inquérito do golpe. Muito pelo contrário. O Master mostra o tamanho dos escândalos que os bolsonaristas promoveriam depois de terem se livrado do Judiciário independente e da imprensa livre.
É estranho, eu sei.
Flávio Bolsonaro é filho do maior criminoso da história do Brasil. Alexandre de Moraes foi o juiz que prendeu o pai de Flávio por seu segundo pior crime, a tentativa de golpe de 2022 (o maior foi o assassinato em massa durante a pandemia).
É possível que o filho do bandido e o juiz que o prendeu estejam no meio da mesma mutreta?
Ao que parece, sim.
Flávio Bolsonaro é o herdeiro do movimento político que deu autorização para que Vorcaro virasse banqueiro, que deu bilhões em dinheiro de aposentados para o Master, que tentou salvar o Master elevando a cobertura do FGC, que tentou dar ao Congresso poder para demitir diretores do Banco Central que não aceitassem suborno de Vorcaro, que deu bilhões de reais do BRB (Banco Regional de Brasília) para evitar que o Master quebrasse.
Recebeu de Vorcaro a promessa de R$ 140 milhões. Não, não foi para fazer filme. Está cada vez mais claro que "Dark Horse" era um esquema que permitia aos deputados e prefeitos bolsonaristas, além do eternamente grato Daniel Vorcaro, desviarem dinheiro para o grande caixa 2 bolsonarista.
Se as suspeitas contra ele forem verdadeiras, Alexandre de Moraes chegou ao escândalo no final, quando o Master já estava indo para o buraco e precisava comprar juízes. Chegou atrasado, mas chegou gloriosamente: com uma promessa de R$ 130 milhões de Vorcaro.
Ainda não sabemos o que Moraes fez, ou teria feito, para justificar um investimento dessa grandeza da parte de Vorcaro. No mínimo, o Farialimer picareta esperava decisões favoráveis depois que o banco quebrasse e os processos começassem a chegar.
Se tudo for verdade, Moraes e Flávio trabalharam, de formas diferentes, para o mesmo criminoso: Daniel Vorcaro.
O futuro da eleição presidencial deste ano depende do público brasileiro entender ou não que Moraes e Flávio são acusados de terem ganho a mesma grana do mesmo esquema.
Tem gente grande trabalhando para que esta obviedade não venha à luz. E não, não são só os suspeitos de sempre na grande imprensa.
Com os vazamentos de André Mendonça, o caso Master voltou a ser, aos olhos do público, sobre Alexandre de Moraes.
Graças a isso, Flávio, que concorre à Presidência como avatar da aliança Daniel Vorcaro/Marco Rubio, já aparece numericamente à frente de Lula nas pesquisas. Moraes é o cara que prendeu o pai dele, certo?
Na verdade, Flávio Bolsonaro ganhou votos porque a população está indignada com um juiz acusado de ser cúmplice de Flávio Bolsonaro no caso Master.
A retirada do sigilo do inquérito Master por Edson Fachin é a última chance que teremos para explicar ao público quem, entre os candidatos, está de fato envolvido com o maior escândalo financeiro da história do Brasil. Espero que aproveitemos a oportunidade. Até agora, fracassamos.
Finalmente, é bom ressaltar: o caso Master não desqualifica o trabalho de Moraes no inquérito do golpe. Muito pelo contrário. O Master mostra o tamanho dos escândalos que os bolsonaristas promoveriam depois de terem se livrado do Judiciário independente e da imprensa livre.
A ascensão violenta da mentira
Na última conversa com Trump, Lula retificou mais um despropósito que contamina relações comerciais e diplomáticas: as mentiras deslavadas sobre desmatamento (diminuiu 50% desde 2022) e trabalho escravo (há combate às condições degradantes da mão de obra). Fake news, portanto, nenhuma novidade na história das agressões imperiais. É de memória viva a mentira de Bush sobre armas nucleares no Iraque, pretexto para uma guerra que arruinou aquele país.
Políticos mentem individualmente, como recurso retórico. Acredita ou finge acreditar quem quer, a depender do grau de confiança. O cientista e compositor Paulo Vanzolini sugeriu em canção ("Mente") um arguto caminho reflexivo para a questão: mentira como "uma hipótese de vida", na falta de qualquer outra. Mas com ressalva: "Pois na mentira, meu amor / crer, eu não creio / só pretendo que de tanto mentir / repetir que me ama / você mesma acabe crendo".
Erro, momento falso na construção da verdade, é questão lógica. Mentira, não, é fenômeno ético, de alcance filosófico. Jacques Derrida (em "História da Mentira", 1995) detecta, assim como Vanzolini, um paradoxo: o mentiroso não é mero autor de uma falsidade, pois quer impingir como verdadeiro aquilo que ele sabe ser falso. Há intenção de enganar, portanto, um grau real de violência na quebra oral da responsabilidade que se deva ter para com o outro.
Por isso, o fenômeno assume dimensão muito grave quando passa da esfera individual ao Estado, no funcionamento operativo de seus aparelhos coercitivos e ideológicos. É quando, na produção deliberada de falsidades, transparece o arbítrio hegemônico e cruel de um poder, a conversão do que Vanzolini chamou de "hipótese de vida" em hipótese de morte do sentido político. Acontece quando um pretenso modelo global da vida democrática tenta legitimar com mentiras suas agressões à soberania externa e seus assassinatos seletivos. São os Estados (não tão) Unidos da América, centralizados como potência imperial.
Assim, podem matar dirigentes de nações, sob qualquer pretexto. Afundar lanchas no Caribe, sem comprovação de narcotráfico nem resgate de sobreviventes, criando a figura (jurifascista) do "suposto criminoso", extensiva a imigrantes. Senão, extorquir petróleo a preço de custo ou transferir bilhões das reservas venezuelanas para os cofres americanos, enquanto assistem impávidos aos pedidos de socorro financeiro das vítimas do terremoto. É a mesma lógica das tarifas. A mentira respalda uma nova forma de colonização administrativa.
Tudo isso incrementa, na aba da internacional direitista, a desintegração dos direitos do homem em escala continental. Entre nós, o fenômeno pôde ser vivido no auge bolsonarista, quando a disseminação oficial de mentiras impregnava a vida cotidiana. Hoje se aperfeiçoa de pai para filho na forma do cinismo cara-de-pau e tira a capa no âmago da mais alta magistratura do país.
Nos frouxos de riso, caberia entoar juntos "todo es mentira", como no tango ("Yra, Yra") celebrizado por Gardel. É que a violência da enganação entubada pelos enganados parece mesmo uma triste hipótese de vida pública.
Muniz Sodré
Políticos mentem individualmente, como recurso retórico. Acredita ou finge acreditar quem quer, a depender do grau de confiança. O cientista e compositor Paulo Vanzolini sugeriu em canção ("Mente") um arguto caminho reflexivo para a questão: mentira como "uma hipótese de vida", na falta de qualquer outra. Mas com ressalva: "Pois na mentira, meu amor / crer, eu não creio / só pretendo que de tanto mentir / repetir que me ama / você mesma acabe crendo".
Erro, momento falso na construção da verdade, é questão lógica. Mentira, não, é fenômeno ético, de alcance filosófico. Jacques Derrida (em "História da Mentira", 1995) detecta, assim como Vanzolini, um paradoxo: o mentiroso não é mero autor de uma falsidade, pois quer impingir como verdadeiro aquilo que ele sabe ser falso. Há intenção de enganar, portanto, um grau real de violência na quebra oral da responsabilidade que se deva ter para com o outro.
Por isso, o fenômeno assume dimensão muito grave quando passa da esfera individual ao Estado, no funcionamento operativo de seus aparelhos coercitivos e ideológicos. É quando, na produção deliberada de falsidades, transparece o arbítrio hegemônico e cruel de um poder, a conversão do que Vanzolini chamou de "hipótese de vida" em hipótese de morte do sentido político. Acontece quando um pretenso modelo global da vida democrática tenta legitimar com mentiras suas agressões à soberania externa e seus assassinatos seletivos. São os Estados (não tão) Unidos da América, centralizados como potência imperial.
Assim, podem matar dirigentes de nações, sob qualquer pretexto. Afundar lanchas no Caribe, sem comprovação de narcotráfico nem resgate de sobreviventes, criando a figura (jurifascista) do "suposto criminoso", extensiva a imigrantes. Senão, extorquir petróleo a preço de custo ou transferir bilhões das reservas venezuelanas para os cofres americanos, enquanto assistem impávidos aos pedidos de socorro financeiro das vítimas do terremoto. É a mesma lógica das tarifas. A mentira respalda uma nova forma de colonização administrativa.
Tudo isso incrementa, na aba da internacional direitista, a desintegração dos direitos do homem em escala continental. Entre nós, o fenômeno pôde ser vivido no auge bolsonarista, quando a disseminação oficial de mentiras impregnava a vida cotidiana. Hoje se aperfeiçoa de pai para filho na forma do cinismo cara-de-pau e tira a capa no âmago da mais alta magistratura do país.
Nos frouxos de riso, caberia entoar juntos "todo es mentira", como no tango ("Yra, Yra") celebrizado por Gardel. É que a violência da enganação entubada pelos enganados parece mesmo uma triste hipótese de vida pública.
Muniz Sodré
sábado, 12 de setembro de 2026
Flávio repete o pai e chega às urnas sob o peso de investigações da PF
Gente, acorda! Flávio Bolsonaro é o único candidato à Presidência da República, nas eleições daqui a 22 dias, investigado por corrupção pelo Supremo Tribunal Federal (STF) — o único. E, convenhamos, não é pouca coisa.
De 1989 para cá, isso só aconteceu com outro candidato. Adivinhem qual… Sim, Jair Bolsonaro, em 2022, quando tentou se reeleger presidente. Por sinal, foi o único no exercício do cargo que acabou sendo derrotado. Não bastasse isso, é o único ex-presidente do Brasil formalmente julgado, condenado e preso pelo crime de tentativa de golpe de Estado. Família do barulho, essa.
Juntamente com seu irmão, Eduardo, que mora nos Estados Unidos sob a proteção de Donald Trump, Flávio é investigado desde julho último pela Polícia Federal. O inquérito foi autorizado pelo ministro ‘terrivelmente evangélico’ André Mendonça e apura suspeitas de crimes no financiamento do filme Dark Horse, em homenagem ao pai deles.
Mendonça levantou o sigilo sobre o caso a pedido de seu colega Edson Fachin, presidente do STF. Por ele mesmo, não o faria tão cedo; deixaria passar o primeiro e o segundo turno das eleições para não influir nos resultados nem prejudicar Flávio.
Para o escolhido pelo pai para herdar seus votos, a discussão sobre o filme ‘é página virada’ e ele não deve mais explicações. Esqueceu de combinar com Fachin. Esqueceu também de combinar com o cineasta, produtor e diretor do filme, o norte-americano Cyrus Nowrasteh, que utilizou sua conta na rede social X para afirmar que os valores amplamente divulgados pela imprensa sobre o custo do longa são ‘ridiculamente inflados’.
Eleitor que se diz contra a corrupção vota em candidato investigado por corrupção? Claro que sim. O antipetismo recusa qualquer coerência ou lógica.
Segundo Alice Maciel, repórter do ICL, empresas de Flávio dividem a mesma sala em Brasília com 16 firmas do empresário e lobista Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como ‘Careca do INSS’. Antunes ganhou notoriedade nacional como o pivô de um esquema bilionário de fraudes e desvios envolvendo descontos associativos indevidos nas aposentadorias e pensões de milhões de beneficiários da autarquia. Ele está preso.
A sensação no entorno de Lula é que a semana termina melhor do que começou. Para Flávio, é o oposto.
De 1989 para cá, isso só aconteceu com outro candidato. Adivinhem qual… Sim, Jair Bolsonaro, em 2022, quando tentou se reeleger presidente. Por sinal, foi o único no exercício do cargo que acabou sendo derrotado. Não bastasse isso, é o único ex-presidente do Brasil formalmente julgado, condenado e preso pelo crime de tentativa de golpe de Estado. Família do barulho, essa.
Juntamente com seu irmão, Eduardo, que mora nos Estados Unidos sob a proteção de Donald Trump, Flávio é investigado desde julho último pela Polícia Federal. O inquérito foi autorizado pelo ministro ‘terrivelmente evangélico’ André Mendonça e apura suspeitas de crimes no financiamento do filme Dark Horse, em homenagem ao pai deles.
Mendonça levantou o sigilo sobre o caso a pedido de seu colega Edson Fachin, presidente do STF. Por ele mesmo, não o faria tão cedo; deixaria passar o primeiro e o segundo turno das eleições para não influir nos resultados nem prejudicar Flávio.
Para o escolhido pelo pai para herdar seus votos, a discussão sobre o filme ‘é página virada’ e ele não deve mais explicações. Esqueceu de combinar com Fachin. Esqueceu também de combinar com o cineasta, produtor e diretor do filme, o norte-americano Cyrus Nowrasteh, que utilizou sua conta na rede social X para afirmar que os valores amplamente divulgados pela imprensa sobre o custo do longa são ‘ridiculamente inflados’.
Eleitor que se diz contra a corrupção vota em candidato investigado por corrupção? Claro que sim. O antipetismo recusa qualquer coerência ou lógica.
Segundo Alice Maciel, repórter do ICL, empresas de Flávio dividem a mesma sala em Brasília com 16 firmas do empresário e lobista Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como ‘Careca do INSS’. Antunes ganhou notoriedade nacional como o pivô de um esquema bilionário de fraudes e desvios envolvendo descontos associativos indevidos nas aposentadorias e pensões de milhões de beneficiários da autarquia. Ele está preso.
A sensação no entorno de Lula é que a semana termina melhor do que começou. Para Flávio, é o oposto.
O preço da negociação
Eleição presidencial é sinônimo de crise institucional. A rima é pobre, mas o assunto é rico. A perspectiva de mudança no poder do Brasil dá origem a disputa violenta, com diversos golpes abaixo da linha da cintura. E não há juiz capaz de interromper o tiroteio. Nem os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). Eles, aliás, tornaram a situação ainda mais grave. Só depois das eleições, será possível restabelecer o ambiente de relativa tranquilidade na política nacional. Até o fim de outubro, a troca de ofensas será a constante no cenário político brasileiro.
Há que se distinguir algumas proezas nesse teatro de agravos maiores ou menores. O ex-banqueiro Daniel Vorcaro, atualmente preso na Papuda, em Brasília, merece destaque. Audácia inacreditável. Conseguiu chegar perto das principais autoridades brasileiras. Corrompeu a maioria delas com dinheiro vivo, benesses e chuva de vantagens para esposas, filhos e protegidos. Os meninos receberam empregos fabulosos, cartões de crédito generosos, perspectivas profissionais maravilhosas, enquanto seus pais frequentavam convescotes temperados pelo melhor uísque e charutos cubanos de ótima procedência. Tudo isso à custa da sangria de aposentados e pensionistas de diversos estados brasileiros, desde o Rio de Janeiro até o Amapá. Exceção foi o Distrito Federal. O Banco de Brasília (BRB) foi saqueado e chegou à beira da falência. A população será convidada a pagar o prejuízo.
É com esse pano de fundo que transcorre a eleição de 2026. Os ingredientes da política brasileira são evidentes. Há forte pressão contra o petismo do presidente Lula. E, também, existe significativo movimento contra bolsonaristas e correlatos. As duas forças se equivalem no tamanho e na presença pública. Ambas são capazes de colocar o povo na rua. Na eleição passada, o Partido dos Trabalhadores conseguiu eleger o presidente da República por margem muito pequena. Mas não fez maioria na Câmara dos Deputados, nem no Senado Federal. A situação permanece. As mais recentes pesquisas de opinião colocam Flávio Bolsonaro e Luís Inácio Lula da Silva em posição de empate técnico. Situação que eleva a tensão a seu nível máximo.
Não há força hegemônica no Brasil atual. A inexistência de um poder definido colocou o STF no centro dos debates. E os ministros, por consequência, tomaram partido. O tribunal se dissolveu em brigas menores e decisões judiciais apressadas, sem o devido fundamento legal. Partido político não tem legitimidade para pedir a exoneração de funcionário público. O presidente da Corte, Edson Fachin, foi obrigado a sair de sua confortável posição e agir para desautorizar as duas partes em litígio. Aproveitou para enterrar o famoso processo das fake news que já durava mais de sete anos. O próximo capítulo deverá ocorrer na próxima semana, quando o plenário da Casa se reunir. Os ministros vão permitir sessão pública, com transmissão ao vivo pela TV Justiça?
Ao lado dessa confusão, é preciso estar atento a um detalhe: o secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, o cubano ressentido, está em visita a três países no continente: Colômbia, Equador e Peru. Ele pretende aumentar o poder de Washington na região. Isolar a China. Na época da Operação Lava-Jato os norte-americanos tiveram papel importante. Entregaram aos juízes de Curitiba provas do desvio de recursos ocorrido na Petrobras. Os supremos, tempos depois, reverteram a investigação e anularam provas até daqueles que confessaram ter colocado dinheiro público no bolso. Inocentaram a classe política. Tremendo favor, que merece generoso pagamento.
O súbito vigor do bolsonarismo tem origem na agitação que seus aliados fazem desde Washington. Os norte-americanos possuem bom serviço secreto, muito dinheiro e força bélica evidente. Eles podem influir na política brasileira. Na impossibilidade de fazer prevalecer a vontade norte-americana na Europa e no Oriente Médio, resta o exercício da força e do convencimento no quintal sul-americano. Neste momento, depois das aventuras de Trump pelo mundo, é razoável prestar atenção no trabalho dos bolsonaristas aliados aos norte-americanos.
A tradição política brasileira é a conciliação, desde a Proclamação da República. No atual caso, alguns ministros estão muito expostos. Em tempos recentes, Dias Toffoli foi flagrado em situação constrangedora. Varreram a sujeira para debaixo do tapete. Quando a temperatura retornar ao normal, os supremos estarão aptos a reconstruir parcerias e, de novo, promover o esquecimento geral. O acordo deverá abranger o presidente da República, já eleito e comprometido com as novas lideranças. No Brasil, as brigas são rituais. A constante é o acordo. Tem custo, mas quem paga é a população.
Há que se distinguir algumas proezas nesse teatro de agravos maiores ou menores. O ex-banqueiro Daniel Vorcaro, atualmente preso na Papuda, em Brasília, merece destaque. Audácia inacreditável. Conseguiu chegar perto das principais autoridades brasileiras. Corrompeu a maioria delas com dinheiro vivo, benesses e chuva de vantagens para esposas, filhos e protegidos. Os meninos receberam empregos fabulosos, cartões de crédito generosos, perspectivas profissionais maravilhosas, enquanto seus pais frequentavam convescotes temperados pelo melhor uísque e charutos cubanos de ótima procedência. Tudo isso à custa da sangria de aposentados e pensionistas de diversos estados brasileiros, desde o Rio de Janeiro até o Amapá. Exceção foi o Distrito Federal. O Banco de Brasília (BRB) foi saqueado e chegou à beira da falência. A população será convidada a pagar o prejuízo.
É com esse pano de fundo que transcorre a eleição de 2026. Os ingredientes da política brasileira são evidentes. Há forte pressão contra o petismo do presidente Lula. E, também, existe significativo movimento contra bolsonaristas e correlatos. As duas forças se equivalem no tamanho e na presença pública. Ambas são capazes de colocar o povo na rua. Na eleição passada, o Partido dos Trabalhadores conseguiu eleger o presidente da República por margem muito pequena. Mas não fez maioria na Câmara dos Deputados, nem no Senado Federal. A situação permanece. As mais recentes pesquisas de opinião colocam Flávio Bolsonaro e Luís Inácio Lula da Silva em posição de empate técnico. Situação que eleva a tensão a seu nível máximo.
Não há força hegemônica no Brasil atual. A inexistência de um poder definido colocou o STF no centro dos debates. E os ministros, por consequência, tomaram partido. O tribunal se dissolveu em brigas menores e decisões judiciais apressadas, sem o devido fundamento legal. Partido político não tem legitimidade para pedir a exoneração de funcionário público. O presidente da Corte, Edson Fachin, foi obrigado a sair de sua confortável posição e agir para desautorizar as duas partes em litígio. Aproveitou para enterrar o famoso processo das fake news que já durava mais de sete anos. O próximo capítulo deverá ocorrer na próxima semana, quando o plenário da Casa se reunir. Os ministros vão permitir sessão pública, com transmissão ao vivo pela TV Justiça?
Ao lado dessa confusão, é preciso estar atento a um detalhe: o secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, o cubano ressentido, está em visita a três países no continente: Colômbia, Equador e Peru. Ele pretende aumentar o poder de Washington na região. Isolar a China. Na época da Operação Lava-Jato os norte-americanos tiveram papel importante. Entregaram aos juízes de Curitiba provas do desvio de recursos ocorrido na Petrobras. Os supremos, tempos depois, reverteram a investigação e anularam provas até daqueles que confessaram ter colocado dinheiro público no bolso. Inocentaram a classe política. Tremendo favor, que merece generoso pagamento.
O súbito vigor do bolsonarismo tem origem na agitação que seus aliados fazem desde Washington. Os norte-americanos possuem bom serviço secreto, muito dinheiro e força bélica evidente. Eles podem influir na política brasileira. Na impossibilidade de fazer prevalecer a vontade norte-americana na Europa e no Oriente Médio, resta o exercício da força e do convencimento no quintal sul-americano. Neste momento, depois das aventuras de Trump pelo mundo, é razoável prestar atenção no trabalho dos bolsonaristas aliados aos norte-americanos.
A tradição política brasileira é a conciliação, desde a Proclamação da República. No atual caso, alguns ministros estão muito expostos. Em tempos recentes, Dias Toffoli foi flagrado em situação constrangedora. Varreram a sujeira para debaixo do tapete. Quando a temperatura retornar ao normal, os supremos estarão aptos a reconstruir parcerias e, de novo, promover o esquecimento geral. O acordo deverá abranger o presidente da República, já eleito e comprometido com as novas lideranças. No Brasil, as brigas são rituais. A constante é o acordo. Tem custo, mas quem paga é a população.
A crise no STF
Nada mais trágico para a sociedade brasileira do que a perda de legitimidade e de reputação do Poder Judiciário. Não escapa aos olhos dos cidadãos mais atentos que a regra da separação e equilíbrio harmônico dos poderes tem sido substituída pela autonomização das instituições republicanas, em clara violação dos princípios erigidos e rediscutidos ao longo de séculos de consolidação do Estado de Direito.
A crise no Supremo Tribunal Federal expõe a rivalidade antirrepublicana entre poderes autônomos e rivais preocupados em assegurar as próprias prerrogativas, usurpando a soberania do povo a quem devem a legitimidade de suas ações. Essa lógica fatal contamina as instâncias decisivas do poder estatal. Não se trata apenas de que as distintas instituições do Estado Democrático de Direito buscam abocanhar frações crescentes do poder. Pior que o pior: comportam-se, diante do cidadão, como forças estranhas e hostis, usurpando os poderes que deveriam ser exercidos em nome do interesse público. As autoridades judiciárias afundam sua reputação no lodaçal do narcisismo.
As recentes exibições de narcisismo das autoridades judiciárias na mídia e nas redes sociais são um exemplo impecável de como os deveres republicanos se dissolvem diante dos esgares incontroláveis da subserviência aos valores do mundo das celebridades, coadjuvada pelo corporativismo mais escancarado da magistratura. Os cidadãos ainda vão ficar à mercê de um juiz youtuber.
Os processos sociais e econômicos que assolam o mundo contemporâneo são cruéis em suas contradições: adulam o sucesso individual e, no mesmo movimento, exercem o controle de mulheres e homens no propósito de aniquilar os resíduos de sua cidadania. Na era do ciberespaço, o domínio dos corações e das mentes é exercido com os métodos desenvolvidos nos laboratórios midiático-repetitivos encarregados de remover as sobras de razão que os indivíduos imaginam preservar.
A degradação do aparelho judiciário tem avançado sem qualquer reação daqueles que percebem o fenômeno e o abominam, mas que preferem se recolher diante da contundência e da ousadia dos que buscam substituir as regras da (inter)dependência dos poderes pelos festivais de exibição midiática, encenados em um ambiente social entregue às farândolas do Pouco Pão e Muito Circo.
Não há limites à ação pessoal de autoridades atraídas pelos frêmitos e cintilações da “sociedade do espetáculo”, o brilhareco de 15 minutos de fama. São exemplos impecáveis de como os deveres republicanos se dissolvem diante dos esgares incontroláveis da subserviência ao exibicionismo das telas e das manchetes, coadjuvada pelo corporativismo mais escancarado.
As relações promíscuas entre as autoridades judiciais e a mídia colocam os cidadãos brasileiros diante da pior das incertezas: a absoluta imprecisão dos limites da legalidade. As conquistas da modernidade, das quais não se pode abrir mão, têm sido pisoteadas por quem deveria defendê-las. Ocultam à sociedade, em cujo nome dizem agir, a dedicação com que laboram para tecer a corda em que enforcarão as garantias individuais. É comum e corriqueira entre nós a transformação das prerrogativas funcionais em privilégios individuais e pessoais.
Nas repúblicas modernas, se é que temos aqui algo parecido com isso, figuram entre as cláusulas pétreas aquelas relativas à representação legitimada pelo voto, à impessoalidade na administração pública e à constituição de um sistema de poderes e garantias fundado na lei. O sistema de poderes e garantias ancorado na lei é o núcleo central do Estado de Direito. É isso que o obriga a punir, no exercício do monopólio da violência, as tentativas de opressão arbitrária de um indivíduo sobre o outro. O descumprimento dos deveres do ente público termina por solapar a solidariedade que cimenta a vida civilizada, lançando a sociedade no desamparo e na violência sem quartel. Os códigos da cidadania moderna foram concebidos como uma reação da maioria mais fraca contra o individualismo anarquista daqueles que se consideram com mais direitos e poderes.
Diria Hannah Arendt que a banalidade do mal se transmuta no mal da banalidade.
A crise no Supremo Tribunal Federal expõe a rivalidade antirrepublicana entre poderes autônomos e rivais preocupados em assegurar as próprias prerrogativas, usurpando a soberania do povo a quem devem a legitimidade de suas ações. Essa lógica fatal contamina as instâncias decisivas do poder estatal. Não se trata apenas de que as distintas instituições do Estado Democrático de Direito buscam abocanhar frações crescentes do poder. Pior que o pior: comportam-se, diante do cidadão, como forças estranhas e hostis, usurpando os poderes que deveriam ser exercidos em nome do interesse público. As autoridades judiciárias afundam sua reputação no lodaçal do narcisismo.
As recentes exibições de narcisismo das autoridades judiciárias na mídia e nas redes sociais são um exemplo impecável de como os deveres republicanos se dissolvem diante dos esgares incontroláveis da subserviência aos valores do mundo das celebridades, coadjuvada pelo corporativismo mais escancarado da magistratura. Os cidadãos ainda vão ficar à mercê de um juiz youtuber.
Os processos sociais e econômicos que assolam o mundo contemporâneo são cruéis em suas contradições: adulam o sucesso individual e, no mesmo movimento, exercem o controle de mulheres e homens no propósito de aniquilar os resíduos de sua cidadania. Na era do ciberespaço, o domínio dos corações e das mentes é exercido com os métodos desenvolvidos nos laboratórios midiático-repetitivos encarregados de remover as sobras de razão que os indivíduos imaginam preservar.
A degradação do aparelho judiciário tem avançado sem qualquer reação daqueles que percebem o fenômeno e o abominam, mas que preferem se recolher diante da contundência e da ousadia dos que buscam substituir as regras da (inter)dependência dos poderes pelos festivais de exibição midiática, encenados em um ambiente social entregue às farândolas do Pouco Pão e Muito Circo.
Não há limites à ação pessoal de autoridades atraídas pelos frêmitos e cintilações da “sociedade do espetáculo”, o brilhareco de 15 minutos de fama. São exemplos impecáveis de como os deveres republicanos se dissolvem diante dos esgares incontroláveis da subserviência ao exibicionismo das telas e das manchetes, coadjuvada pelo corporativismo mais escancarado.
As relações promíscuas entre as autoridades judiciais e a mídia colocam os cidadãos brasileiros diante da pior das incertezas: a absoluta imprecisão dos limites da legalidade. As conquistas da modernidade, das quais não se pode abrir mão, têm sido pisoteadas por quem deveria defendê-las. Ocultam à sociedade, em cujo nome dizem agir, a dedicação com que laboram para tecer a corda em que enforcarão as garantias individuais. É comum e corriqueira entre nós a transformação das prerrogativas funcionais em privilégios individuais e pessoais.
Nas repúblicas modernas, se é que temos aqui algo parecido com isso, figuram entre as cláusulas pétreas aquelas relativas à representação legitimada pelo voto, à impessoalidade na administração pública e à constituição de um sistema de poderes e garantias fundado na lei. O sistema de poderes e garantias ancorado na lei é o núcleo central do Estado de Direito. É isso que o obriga a punir, no exercício do monopólio da violência, as tentativas de opressão arbitrária de um indivíduo sobre o outro. O descumprimento dos deveres do ente público termina por solapar a solidariedade que cimenta a vida civilizada, lançando a sociedade no desamparo e na violência sem quartel. Os códigos da cidadania moderna foram concebidos como uma reação da maioria mais fraca contra o individualismo anarquista daqueles que se consideram com mais direitos e poderes.
Diria Hannah Arendt que a banalidade do mal se transmuta no mal da banalidade.
Por que eleitor demorou a saber de investigação sobre Flávio?
A Polícia Federal (PF) pediu e a Procuradoria-Geral da República (PGR) não se opôs à apuração de possíveis crimes de lavagem de dinheiro, evasão de divisas, corrupção passiva, entre outros, atribuídos ao senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). O ministro André Mendonça, relator no Supremo Tribunal Federal (STF) do caso Banco Master/Daniel Vorcaro, autorizou a abertura de investigação em 22 de julho, três dias antes da convenção partidária que tornou o primogênito de Jair Bolsonaro candidato à Presidência. O eleitorado brasileiro, contudo, só tomou conhecimento de que o vice-líder nas pesquisas de intenção de voto no primeiro turno é investigado ontem, quase dois meses depois. Por quê?
Não fosse o enfrentamento entre Mendonça e o colega Alexandre de Moraes, relator da ação penal que condenou por golpe de Estado o ex-presidente da República, o país desconheceria uma variável relevante na disputa eleitoral de 2026. Em março passado, dois terços dos eleitores brasileiros disseram à Quaest que a maior fraude bancária da História seria levada em conta para decidir o voto. Quatro em dez evitariam votar em qualquer candidato envolvido no escândalo; 29% levariam os desdobramentos em consideração, além de outras pautas.
Seis meses atrás, as relações de Flávio não eram conhecidas. Tornaram-se públicas pelo jornalismo independente. O site The Intercept divulgou em 13 de maio o áudio em que o senador, eleito em 2018 com quase 4,5 milhões de votos, cobra do então banqueiro o dinheiro para financiar a cinebiografia do pai. Ao longo dos meses, muitos contatos, investigações e operações da PF enredando políticos ao Master vieram à tona. Ciro Nogueira (PP-PI), Jaques Wagner (PT-BA), ACM Neto (União-BA), Cláudio Castro (PL-RJ) são exemplos.
Há fundadas suspeitas contra os ministros Moraes e Dias Toffoli, do STF. Os nomes do diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, e do procurador-geral da República, Paulo Gonet, estão sob escrutínio. Foi revelado que o filho mais velho do presidente da República, Fábio Luís Lula da Silva, é alvo de três inquéritos derivados do escândalo do INSS por suspeita de tráfico de influência no setor público. O Brasil soube de tudo isso. Só não fora informado, até ontem, que o presidenciável do PL é investigado.
A campanha eleitoral começou oficialmente em 16 de agosto. O primeiro debate, da Band, se deu na semana seguinte, quando também os candidatos foram sabatinados no Jornal Nacional. Desde o fim do mês passado, está no ar a propaganda eleitoral gratuita em rádio e TV. Flávio tem desviado das perguntas sobre a relação com Vorcaro, alegando acordo privado para o financiamento do filme “Dark horse”, como se fosse natural um senador da República pedir patrocínio a um banqueiro, como se fosse um produtor cultural a um mecenas.
A informação de que ele é alvo de inquérito não poderia ser ocultada da sociedade brasileira. Mas foi. É direito do eleitor ter todas as informações disponíveis sobre cada candidatura, seja para presidente, senador, deputado federal ou estadual. Sonegar procedimentos jurídico-policiais que afetam o voto também é forma de atacar a democracia.
Impressiona nesse caso é que saberíamos de nada, não fosse a pressão coletiva por quebra total do sigilo sobre o caso Master, em decorrência do enfrentamento entre Mendonça e Moraes. O Brasil precisou de uma crise que quase implodiu o STF para saber do procedimento investigatório contra Flávio. O momento sombrio no Judiciário produziu o efeito colateral positivo, quando o presidente da Corte, ministro Edson Fachin, determinou o fim do segredo, na noite de anteontem.
Ao longo da semana, Mendonça, ex-ministro da Justiça e ex-advogado-geral da União, indicado por Jair Bolsonaro ao STF por ser “terrivelmente evangélico”, homologou ao menos uma colaboração premiada igualmente relevante para o caso envolvendo a cinebiografia do ex-presidente e Vorcaro. O delator Antônio Carlos Freixo Júnior, alcunha Mineiro, confessou à PGR ser o homem da mala do ex-banqueiro. Em meia década, movimentou R$ 1,3 bilhão em dinheiro vivo, entregue em malas a destinatários determinados pelo Master, revelaram Andréia Sadi e Reynaldo Turollo Jr, na GloboNews e no portal g1. Foi Mineiro quem transferiu o suposto patrocínio ao filme “Dark horse” ao fundo americano ligado a Paulo Calixto, advogado de Eduardo Bolsonaro, o ex-deputado que, dos Estados Unidos, atua por sanções contra o Brasil para beneficiar o pai.
Completamente estarrecidos com o conjunto de mensagens de Vorcaro a Moraes, o acirramento da briga entre ministros, a letargia no STF e a seletividade na divulgação das investigações sobre o Master a cargo de Mendonça, setores da sociedade civil — a começar por um conjunto de 13 ministros aposentados do Supremo em carta — cobraram de Fachin transparência e celeridade no acesso às informações. O presidente do STF mostrou-se disposto a provar que a instituição é capaz de se reordenar. A dúvida é se os demais colegas estarão imbuídos do mesmo senso de responsabilidade.
Foi mais democracia, não menos, que permitiu ao Brasil saber da investigação contra o filho de Bolsonaro. Democracia é o lugar em que a sociedade se manifesta, reivindica, manda, e o poder recua, age, obedece. Autoritarismo é o ambiente em que o agente público está livre para interferir, dissimular, negar, transgredir, mentir, atacar. É como atua a extrema direita brasileira.
Não fosse o enfrentamento entre Mendonça e o colega Alexandre de Moraes, relator da ação penal que condenou por golpe de Estado o ex-presidente da República, o país desconheceria uma variável relevante na disputa eleitoral de 2026. Em março passado, dois terços dos eleitores brasileiros disseram à Quaest que a maior fraude bancária da História seria levada em conta para decidir o voto. Quatro em dez evitariam votar em qualquer candidato envolvido no escândalo; 29% levariam os desdobramentos em consideração, além de outras pautas.
Seis meses atrás, as relações de Flávio não eram conhecidas. Tornaram-se públicas pelo jornalismo independente. O site The Intercept divulgou em 13 de maio o áudio em que o senador, eleito em 2018 com quase 4,5 milhões de votos, cobra do então banqueiro o dinheiro para financiar a cinebiografia do pai. Ao longo dos meses, muitos contatos, investigações e operações da PF enredando políticos ao Master vieram à tona. Ciro Nogueira (PP-PI), Jaques Wagner (PT-BA), ACM Neto (União-BA), Cláudio Castro (PL-RJ) são exemplos.
Há fundadas suspeitas contra os ministros Moraes e Dias Toffoli, do STF. Os nomes do diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, e do procurador-geral da República, Paulo Gonet, estão sob escrutínio. Foi revelado que o filho mais velho do presidente da República, Fábio Luís Lula da Silva, é alvo de três inquéritos derivados do escândalo do INSS por suspeita de tráfico de influência no setor público. O Brasil soube de tudo isso. Só não fora informado, até ontem, que o presidenciável do PL é investigado.
A campanha eleitoral começou oficialmente em 16 de agosto. O primeiro debate, da Band, se deu na semana seguinte, quando também os candidatos foram sabatinados no Jornal Nacional. Desde o fim do mês passado, está no ar a propaganda eleitoral gratuita em rádio e TV. Flávio tem desviado das perguntas sobre a relação com Vorcaro, alegando acordo privado para o financiamento do filme “Dark horse”, como se fosse natural um senador da República pedir patrocínio a um banqueiro, como se fosse um produtor cultural a um mecenas.
A informação de que ele é alvo de inquérito não poderia ser ocultada da sociedade brasileira. Mas foi. É direito do eleitor ter todas as informações disponíveis sobre cada candidatura, seja para presidente, senador, deputado federal ou estadual. Sonegar procedimentos jurídico-policiais que afetam o voto também é forma de atacar a democracia.
Impressiona nesse caso é que saberíamos de nada, não fosse a pressão coletiva por quebra total do sigilo sobre o caso Master, em decorrência do enfrentamento entre Mendonça e Moraes. O Brasil precisou de uma crise que quase implodiu o STF para saber do procedimento investigatório contra Flávio. O momento sombrio no Judiciário produziu o efeito colateral positivo, quando o presidente da Corte, ministro Edson Fachin, determinou o fim do segredo, na noite de anteontem.
Ao longo da semana, Mendonça, ex-ministro da Justiça e ex-advogado-geral da União, indicado por Jair Bolsonaro ao STF por ser “terrivelmente evangélico”, homologou ao menos uma colaboração premiada igualmente relevante para o caso envolvendo a cinebiografia do ex-presidente e Vorcaro. O delator Antônio Carlos Freixo Júnior, alcunha Mineiro, confessou à PGR ser o homem da mala do ex-banqueiro. Em meia década, movimentou R$ 1,3 bilhão em dinheiro vivo, entregue em malas a destinatários determinados pelo Master, revelaram Andréia Sadi e Reynaldo Turollo Jr, na GloboNews e no portal g1. Foi Mineiro quem transferiu o suposto patrocínio ao filme “Dark horse” ao fundo americano ligado a Paulo Calixto, advogado de Eduardo Bolsonaro, o ex-deputado que, dos Estados Unidos, atua por sanções contra o Brasil para beneficiar o pai.
Completamente estarrecidos com o conjunto de mensagens de Vorcaro a Moraes, o acirramento da briga entre ministros, a letargia no STF e a seletividade na divulgação das investigações sobre o Master a cargo de Mendonça, setores da sociedade civil — a começar por um conjunto de 13 ministros aposentados do Supremo em carta — cobraram de Fachin transparência e celeridade no acesso às informações. O presidente do STF mostrou-se disposto a provar que a instituição é capaz de se reordenar. A dúvida é se os demais colegas estarão imbuídos do mesmo senso de responsabilidade.
Foi mais democracia, não menos, que permitiu ao Brasil saber da investigação contra o filho de Bolsonaro. Democracia é o lugar em que a sociedade se manifesta, reivindica, manda, e o poder recua, age, obedece. Autoritarismo é o ambiente em que o agente público está livre para interferir, dissimular, negar, transgredir, mentir, atacar. É como atua a extrema direita brasileira.
Do homem da mala para 'Dark Horse'
Antonio Carlos Freixo Junior, vulgo Mineiro, amigo de Flávio Bolsonaro, é o maior homem da mala que já existiu. Nos últimos quatro anos, segundo confessou à PGR, despachou R$ 1 bilhão em dinheiro vivo para os amigos de Daniel Vorcaro, a pedido deste. R$ 1 bilhão corresponde a 10 milhões de notas de R$ 100. Numa balança, pesariam 2,5 toneladas. Empilhadas, ocupariam um aposento de 5 metros quadrados do chão ao teto.
Mineiro fez todo esse carreto usando malas. Uma mala tamanho padrão comporta cerca de 20 mil notas, organizadas de forma a não deixar um milímetro vazio. Donde, se a aritmética não falha, 10 milhões de notas ocupam 500 malas. Mineiro as comprava no comércio de São Paulo, e tantas de uma vez que, segundo a repórter Malu Gaspar, de O Globo, o fabricante ofereceu vender-lhe as malas diretamente. Não se sabe ainda como essas malas viajavam aos felizes destinatários, se por correio, Sedex, motoboys ou estafetas. Mineiro também não sabe quem era a maioria desses destinatários nem seus endereços. Como fazia para as malas chegarem, ainda é um mistério.
Só se sabe que US$ 12,3 milhões desse dinheiro, equivalentes na época a R$ 61 milhões, foram destinados ao filme "Dark Horse", a cinebiografia de Jair Bolsonaro, por intermédio do Havengate Development Fund, um fundo privado de investimentos sediado no Texas. O Havengate pertence a Paulo Calixto, advogado do ex-deputado e foragido Eduardo Bolsonaro, também residente no Texas. "Haven", em português, significa lugar seguro, abrigo, refúgio. "Havengate" é o portão do abrigo. Nome perfeito para, se for o caso, abrigar de forma segura o dinheiro de condenados refugiados.
O dinheiro enviado à Havengate voltou para o Brasil a fim de financiar a produção de "Dark Horse" pela Go Up Entertainment, produtora que nunca produziu um filme. Mas só vieram 28% do dinheiro, justamente o destinado à parte mais cara de uma produção: a filmagem.
É o único caso na história do cinema em que 72% do orçamento foram gastos antes de se rodar um só metro de filme.
Mineiro fez todo esse carreto usando malas. Uma mala tamanho padrão comporta cerca de 20 mil notas, organizadas de forma a não deixar um milímetro vazio. Donde, se a aritmética não falha, 10 milhões de notas ocupam 500 malas. Mineiro as comprava no comércio de São Paulo, e tantas de uma vez que, segundo a repórter Malu Gaspar, de O Globo, o fabricante ofereceu vender-lhe as malas diretamente. Não se sabe ainda como essas malas viajavam aos felizes destinatários, se por correio, Sedex, motoboys ou estafetas. Mineiro também não sabe quem era a maioria desses destinatários nem seus endereços. Como fazia para as malas chegarem, ainda é um mistério.
Só se sabe que US$ 12,3 milhões desse dinheiro, equivalentes na época a R$ 61 milhões, foram destinados ao filme "Dark Horse", a cinebiografia de Jair Bolsonaro, por intermédio do Havengate Development Fund, um fundo privado de investimentos sediado no Texas. O Havengate pertence a Paulo Calixto, advogado do ex-deputado e foragido Eduardo Bolsonaro, também residente no Texas. "Haven", em português, significa lugar seguro, abrigo, refúgio. "Havengate" é o portão do abrigo. Nome perfeito para, se for o caso, abrigar de forma segura o dinheiro de condenados refugiados.
O dinheiro enviado à Havengate voltou para o Brasil a fim de financiar a produção de "Dark Horse" pela Go Up Entertainment, produtora que nunca produziu um filme. Mas só vieram 28% do dinheiro, justamente o destinado à parte mais cara de uma produção: a filmagem.
É o único caso na história do cinema em que 72% do orçamento foram gastos antes de se rodar um só metro de filme.
A crise que nós plantamos
O chanceler da Alemanha disse que ficou chocado com a vitória da extrema direita na Saxônia-Anhalt. No entanto, essa vitória já era prevista pela quase totalidade dos observadores. Aqui, no Brasil, as pessoas parecem chocadas com a crise no Supremo Tribunal Federal (STF) como se ela fosse um raio em céu azul. No entanto, os contornos dessa crise já se desenhavam há algum tempo. Ela pode ser inédita, mas não inesperada.
Há muitos pontos de reflexão se não nos detivermos apenas no destino de ministros que se associaram ao banqueiro Daniel Vorcaro. As coisas não vinham bem no STF a começar pela compreensão de que os ministros nomeados deveriam ser aliados incondicionais do presidente que os indica. A indicação política foi contaminada pela polarização. Bolsonaro queria um ministro terrivelmente evangélico; Lula indicou dois aliados e sua última indicação foi barrada pelo Congresso. Existe uma tendência a naturalizar escolhas políticas, em detrimento das condições determinadas pela Constituição. Era de esperar que o confronto existente na sociedade se espelhasse ali, com todos os perigos que isso representa.
Não houve reação social à decisão de ministros de permitirem que seus parentes advogassem na Corte. Em alguns processos envolvendo bilhões de reais, parentes de mais de um ministro eram os advogados. De certa forma, essa decisão amplia as rendas familiares de forma exponencial.
Numa das análises sobre o STF no exterior, um jornal alemão chegou a dizer que a cobiça tinha arruinado a reputação dos ministros. Já era uma reação ao contrato entre o Banco Master e a família de Alexandre de Moraes, um acordo aparentemente com o escritório da mulher de Moraes, mas no fundo algo que envolvia diretamente o ministro, a julgar pela troca de mensagens.
Alexandre de Moraes combateu o bolsonarismo. Os outros ministros o apoiaram, mas deixaram que ele fosse a encarnação da luta. Era mais cômodo para eles. Também foi mais cômodo para a maioria não se intrometer nesse processo repressivo corrigindo seus excessos.
Nesse sentido, a experiência moderna do Brasil não foi muito diferente de outros países. A escritora iraniana Azar Nafisi conta, em seu livro "Leia Perigosamente", que a revolução islâmica foi muito dura com os seus adversários. Mas ninguém se importava muito, porque afinal as vítimas eram pessoas com quem não se concordava ou mesmo se desprezava. Essas soluções nunca dão bons resultados. Em alguns casos, a repressão se amplia, mas o silêncio de qualquer forma desumaniza aqueles que deveriam protestar, mas não o fazem.
Escrevi alguns discretos artigos sobre o tema, lembrando que a generosidade dos vencedores poderia ser um fator decisivo para abrandar o clima de hostilidade entre os brasileiros. Nos casos em que me envolvi pessoalmente, como o de uma jovem de Minas, que estava presa, fui atendido por Moraes, que a libertou imediatamente. Fiquei grato a ele, mas segui recebendo muitas denúncias.
O clima sempre foi de punição. Moraes era aplaudido em shows onde as pessoas gritavam “sem anistia”. Vozes que sugeriam outros caminhos para lidar com o problema tendiam a desaparecer. Esse clima de apoio ostensivo pode ter estimulado o ministro Moraes a seguir seu caminho em busca da fortuna material.
Todas essas coisas me vêm à cabeça no momento em que a extrema direita vence na Saxônia-Anhalt. O Brasil teve uma experiência de vitória de uma corrente radical em 2018. Bolsonaro fracassou na sua Presidência, tanto que, ao contrário dos outros, não conseguiu se reeleger.
Era para termos contido essa experiência radical. Mas ela volta a ser perigosa agora, nas eleições de 2026. Cabe uma pergunta importante: era para termos superado o problema. Como explicar que ela volte a aparecer como uma alternativa?
Essa é uma discussão importante. Infelizmente, não há clima para ela, pois as paixões não permitem dúvidas ou ambiguidades. Elas são preto e branco.
A vitória sobre Bolsonaro foi vista e proclamada como uma vitória da democracia. Dentro dos limites, ou até mesmo estourando os limites financeiros, foram realizadas políticas sociais de peso. A democracia triunfante em 2022, no entanto, não conseguiu responder à sensação de desânimo da população. Ela manteve muitos dos erros que deram a vitória a Bolsonaro.
Poderíamos ter feito de outro modo? Que mudanças deveriam ser feitas para que o distanciamento entre a política e as pessoas não fosse tão grande? Que políticas, como a segurança pública, precisaríamos adotar com seriedade e eficácia para evitar que o mercado eleitoral fosse inflacionado com imitadores de Bukele?
Tenho ainda uma visão de que a continuidade triunfará nas eleições, graças à popularidade do candidato e à dispersão e inexperiência da direita. No entanto, a vitória seria uma espécie de fim de linha. Se não caminharmos para reformas na política e na Justiça, o desgaste aumentará e o fantasma que ronda o mundo pode reaparecer com força no Brasil.
Se isso ocorrer, não teremos direito, como o chanceler alemão, de nos considerarmos chocados. Essas coisas não acontecem por acaso e têm uma longa gestação no trabalho incessante dos adversários e nas vacilações do processo democrático.
Há muitos pontos de reflexão se não nos detivermos apenas no destino de ministros que se associaram ao banqueiro Daniel Vorcaro. As coisas não vinham bem no STF a começar pela compreensão de que os ministros nomeados deveriam ser aliados incondicionais do presidente que os indica. A indicação política foi contaminada pela polarização. Bolsonaro queria um ministro terrivelmente evangélico; Lula indicou dois aliados e sua última indicação foi barrada pelo Congresso. Existe uma tendência a naturalizar escolhas políticas, em detrimento das condições determinadas pela Constituição. Era de esperar que o confronto existente na sociedade se espelhasse ali, com todos os perigos que isso representa.
Não houve reação social à decisão de ministros de permitirem que seus parentes advogassem na Corte. Em alguns processos envolvendo bilhões de reais, parentes de mais de um ministro eram os advogados. De certa forma, essa decisão amplia as rendas familiares de forma exponencial.
Numa das análises sobre o STF no exterior, um jornal alemão chegou a dizer que a cobiça tinha arruinado a reputação dos ministros. Já era uma reação ao contrato entre o Banco Master e a família de Alexandre de Moraes, um acordo aparentemente com o escritório da mulher de Moraes, mas no fundo algo que envolvia diretamente o ministro, a julgar pela troca de mensagens.
Alexandre de Moraes combateu o bolsonarismo. Os outros ministros o apoiaram, mas deixaram que ele fosse a encarnação da luta. Era mais cômodo para eles. Também foi mais cômodo para a maioria não se intrometer nesse processo repressivo corrigindo seus excessos.
Nesse sentido, a experiência moderna do Brasil não foi muito diferente de outros países. A escritora iraniana Azar Nafisi conta, em seu livro "Leia Perigosamente", que a revolução islâmica foi muito dura com os seus adversários. Mas ninguém se importava muito, porque afinal as vítimas eram pessoas com quem não se concordava ou mesmo se desprezava. Essas soluções nunca dão bons resultados. Em alguns casos, a repressão se amplia, mas o silêncio de qualquer forma desumaniza aqueles que deveriam protestar, mas não o fazem.
Escrevi alguns discretos artigos sobre o tema, lembrando que a generosidade dos vencedores poderia ser um fator decisivo para abrandar o clima de hostilidade entre os brasileiros. Nos casos em que me envolvi pessoalmente, como o de uma jovem de Minas, que estava presa, fui atendido por Moraes, que a libertou imediatamente. Fiquei grato a ele, mas segui recebendo muitas denúncias.
O clima sempre foi de punição. Moraes era aplaudido em shows onde as pessoas gritavam “sem anistia”. Vozes que sugeriam outros caminhos para lidar com o problema tendiam a desaparecer. Esse clima de apoio ostensivo pode ter estimulado o ministro Moraes a seguir seu caminho em busca da fortuna material.
Todas essas coisas me vêm à cabeça no momento em que a extrema direita vence na Saxônia-Anhalt. O Brasil teve uma experiência de vitória de uma corrente radical em 2018. Bolsonaro fracassou na sua Presidência, tanto que, ao contrário dos outros, não conseguiu se reeleger.
Era para termos contido essa experiência radical. Mas ela volta a ser perigosa agora, nas eleições de 2026. Cabe uma pergunta importante: era para termos superado o problema. Como explicar que ela volte a aparecer como uma alternativa?
Essa é uma discussão importante. Infelizmente, não há clima para ela, pois as paixões não permitem dúvidas ou ambiguidades. Elas são preto e branco.
A vitória sobre Bolsonaro foi vista e proclamada como uma vitória da democracia. Dentro dos limites, ou até mesmo estourando os limites financeiros, foram realizadas políticas sociais de peso. A democracia triunfante em 2022, no entanto, não conseguiu responder à sensação de desânimo da população. Ela manteve muitos dos erros que deram a vitória a Bolsonaro.
Poderíamos ter feito de outro modo? Que mudanças deveriam ser feitas para que o distanciamento entre a política e as pessoas não fosse tão grande? Que políticas, como a segurança pública, precisaríamos adotar com seriedade e eficácia para evitar que o mercado eleitoral fosse inflacionado com imitadores de Bukele?
Tenho ainda uma visão de que a continuidade triunfará nas eleições, graças à popularidade do candidato e à dispersão e inexperiência da direita. No entanto, a vitória seria uma espécie de fim de linha. Se não caminharmos para reformas na política e na Justiça, o desgaste aumentará e o fantasma que ronda o mundo pode reaparecer com força no Brasil.
Se isso ocorrer, não teremos direito, como o chanceler alemão, de nos considerarmos chocados. Essas coisas não acontecem por acaso e têm uma longa gestação no trabalho incessante dos adversários e nas vacilações do processo democrático.
sexta-feira, 11 de setembro de 2026
O golpe esteve e está aí
“Antes, era salvar a democracia; hoje é salvar a democracia e a soberania.” - Marina Silva
O golpe de 1964, a que devemos uma ditadura de 21 anos (nefasta como toda ditadura), foi gestado lá atrás e só não teve êxito completo em 1954 porque foi frustrado pelo suicídio de Getúlio Vargas. Na sequência, os militares assumiram o poder, mas mantiveram as aparências do legalismo formal, dando posse ao vice-presidente Café Filho, credenciado por haver traído o presidente que o elegera. Seria um presidente pro forma, algo como essa senhora que os norte-americanos designaram para assumir a presidência em uma Venezuela reduzida a protetorado.
Os militares, como é sabido, tomam o controle do país em agosto de 1954 e já em novembro de 1955 maquinam novo golpe, desta feita para impedir a posse de Juscelino Kubitschek, que em outubro se elegera presidente da República. Alegadamente, JK teria sido “apoiado pelos comunistas” e, se não fôra bastante, assumiria a presidência tendo João Goulart, o herdeiro de Vargas e do trabalhismo, como seu vice.
O golpe, porém, desandou, graças à dissidência do Ministro da Guerra, o gal. Teixeira Lott, que, por sua vez — a história de nosso país é especiosa — comandou um golpe (dir-se-á um contragolpe) para restaurar a legalidade, com a bênção do Congresso, e em 1º de janeiro de 1956 Juscelino e Jango tomavam posse no Palácio do Catete. A operação abafa-golpe ficou na história como “O Onze de novembro”. O golpe havia sido frustrado, mas a vocação golpista persistia. Juscelino cumpriria seu mandato por inteiro, mas teria de enfrentar oposição biliosa no Congresso e na imprensa — esta de hoje é a mesma de ontem —, um sem-número de tentativas de impeachments e dois levantes militares (Aragarças e Jacareacanga).
O ano de 1961 nos traria uma nova tentativa de golpe, e agora um contragolpe parlamentar, um levante militar, a resistência popular e um golpe parlamentar, a saber: a renúncia do presidente Jânio Quadros, artimanha para um golpe de Estado; o contragolpe parlamentar, aceitando a renúncia e dando posse na presidência ao presidente da Câmara (o vice Jango estava na China); a tentativa de golpe militar, com o veto dos três ministros militares à posse de João Goulart; a resistência popular a partir do Rio Grande do Sul, sob a liderança do governador Leonel Brizola; e, por fim, o golpe parlamentar, quando o Congresso, em poucas horas, transformou o presidencialismo, sob o qual Jango havia sido eleito, em um parlamentarismo disfuncional. Mas isso, nas circunstâncias, tornara-se irrelevante, pois o objetivo do golpe, transacionado com a subversão militar e o Congresso, era -- não podendo, nas circunstâncias criadas pela reação popular, impedir a posse de Jango --, reduzir seus poderes.
O ciclo aberto em 1954, porém, ainda não estava fechado. Faltava a deposição do presidente que pregava reformas de base, mobilizara o país em torno de uma campanha nacional de alfabetização de adultos, e - insânia das insânias! – defendia a reforma agrária. S deposição anunciada veio trazendo em seu regaço uma ditadura: aposentadorias de ministros STF, fechamento do Congresso, cassações de mandatos eletivos, demissões de servidores públicos, intervenção no STF, e, como não poderia faltar, revogação da ordem constitucional, sequestros, prisões, tortura, exílios, assassinatos ainda sem conta. Era o golpe militar de 1º. de abril de,1964 que se instalava com ostensivo apoio da grande imprensa, das forças conservadoras e, por óbvio, com o apoio estratégico dos EUA, que, inclusive, estacionaram em nossas costas navios de guerra. Era a operação Brother Sam.
Relembro esses fatos tão conhecidos para pôr de manifesto a engenharia do processo social: não há acaso, ou gratuidade. O observador atento não se pode dar ao luxo de surpresas.
O movimento de outubro de 1930 impôs-se como uma necessidade em face da exaustão da Primeira República, arcaica de nascença. O Estado Novo brasileiro (1937-1945) seguiu-se à falência da Constituição e do regime de 1934, lembrando a frustração da República de Weimar, sobre cujos destroços a direita alemã palmilhou a ascensão de Hitler (1933). Antes dele, a Europa, ainda no rescaldo da Primeira Guerra Mundial, já conhecia o fascismo, com a tomada do poder por Mussolini na Itália (1922), e já vivera a Grande Depressão de 1929. Além da Itália e da Alemanha, eram ditaduras Hungria, Espanha (Primo de Rivera e, a seguir, Franco), Albânia, Polônia, Portugal, Lituânia, Iugoslávia, Bulgária, Estônia, Grécia, Letônia e Romênia.
A América Latina não seria exceção ao avanço autoritário. Brasil e Argentina lideravam o rol de 16 ditaduras: Bolívia, Chile, Cuba, República Dominicana, Equador, El Salvador, Guatemala, Honduras, Nicarágua, Paraguai, Peru, Uruguai e Venezuela.
Este era o mundo contemporâneo à Segunda Guerra Mundial. Vivemos a chamada Guerra Fria que se encerra em 1991, com o suicídio da URSS. Os EUA, após derrotarem seu poderoso inimigo, sem precisar disparar um só tiro, assumem o papel de unipotência incontestada do mundo, até a emergência da Eurásia, sob a liderança da China. Retorna a polaridade, instala-se a Segunda Guerra Fria.
Mas há algo a assinalar como distinto, e o principal fato é o novo papel dos EUA; se antes, na conflagração de 1939-1945, lideraram o mundo que sonhava com as liberdades que o nazifascismo sufocava, e mesmo na Guerra Fria reivindicavam o título de defensores das democracias, os EUA assumem hoje, sem tergiversações, sem disfarces, a liderança de uma verdadeira internacional neofascista, que infesta o mundo a partir da Casa Branca.
Valem-se do poderio econômico e militar que ainda conservam, dos meios da guerra tout court, dos recursos da guerra híbrida, ameaçam o mundo com invasões, sequestros, rapina, tarifaços. Aliam-se ao sionismo no genocídio de palestinos e na agressão ao Irã. Anunciam o Canadá como um Estado americano e reivindicam a posse de Cuba (objetivo antigo) e da Groenlândia. À sua sombra, crescem os governos de direita na Europa e o neonazismo acaba de conquistar contundente vitória eleitoral na Alemanha. E os países que integram a OTAN (aos quais se soma Japão, há tanto servil), acatando ordens de Washington, estão duplicando os gastos militares.
Este era, lembremos para não esquecer, o vestíbulo da Segunda Guerra Mundial.
O avanço da direita e da extrema-direita nos diz respeito. Um de seus objetivos declarados é o controle absoluto, já quase alcançado, da América do Sul. E esse avanço se faz, até aqui, nos termos do processo eleitoral. O Brasil e o Uruguai são as duas últimas democracias ainda não dominadas pela extrema-direita. E a Venezuela, reduzida à condição de protetorado, exposta ao saque de suas riquezas, não será sua única vítima. O Brasil, pelas suas características de território, posse de estoques de minerais estratégicos, população e desenvolvimento, é o ponto de resistência a ser removido. Digo isso para ressaltar que o futuro imediato do Brasil está muito a depender, objetivamente, das nossas próximas eleições presidenciais.
A ameaça de retrocesso, presente, traz à baila os tempos antecedentes de 1964, as pressões dos EUA contra o governo brasileiro. Naquela altura, diferentemente de agora, era forte o movimento sindical, as forças populares dispunham de certo nível de organização, e se mobilizavam, e o movimento estudantil era realmente uma organização de massa. O Congresso, majoritariamente progressista (tanto que teve de ser mutilado). Havia setores nacionalistas e progressistas nas forças armadas, tanto que não faltaram as centenas de militares cassados. Naquela altura, a população, em grande parte, defendia, nas ruas, nos comícios, nas passeatas, as reformas de base e a sustentação da democracia. Tanto assim que a ditadura, para instalar-se, teve de lançar mão de um golpe de Estado.
Hoje, a ameaça pode avançar pelo processo eleitoral.
Os sinais estão dados.
Foi assim a ascensão do fascismo na Itália, foi assim a ascensão do nazismo na Alemanha. Assim estão sendo derruídas as democracias em nosso continente. No nosso caso, o retrocesso sem ruptura da legalidade pode ser pavimentado por uma institucionalidade em crise, em que avultam um Judiciário pervertido e amesquinhado, não imune a interferência estrangeira, um Congresso reacionário e desapartado do interesse nacional.
Precisamos reagir, imediatamente, sem titubeios.
O golpe de 1964, a que devemos uma ditadura de 21 anos (nefasta como toda ditadura), foi gestado lá atrás e só não teve êxito completo em 1954 porque foi frustrado pelo suicídio de Getúlio Vargas. Na sequência, os militares assumiram o poder, mas mantiveram as aparências do legalismo formal, dando posse ao vice-presidente Café Filho, credenciado por haver traído o presidente que o elegera. Seria um presidente pro forma, algo como essa senhora que os norte-americanos designaram para assumir a presidência em uma Venezuela reduzida a protetorado.
Os militares, como é sabido, tomam o controle do país em agosto de 1954 e já em novembro de 1955 maquinam novo golpe, desta feita para impedir a posse de Juscelino Kubitschek, que em outubro se elegera presidente da República. Alegadamente, JK teria sido “apoiado pelos comunistas” e, se não fôra bastante, assumiria a presidência tendo João Goulart, o herdeiro de Vargas e do trabalhismo, como seu vice.
O golpe, porém, desandou, graças à dissidência do Ministro da Guerra, o gal. Teixeira Lott, que, por sua vez — a história de nosso país é especiosa — comandou um golpe (dir-se-á um contragolpe) para restaurar a legalidade, com a bênção do Congresso, e em 1º de janeiro de 1956 Juscelino e Jango tomavam posse no Palácio do Catete. A operação abafa-golpe ficou na história como “O Onze de novembro”. O golpe havia sido frustrado, mas a vocação golpista persistia. Juscelino cumpriria seu mandato por inteiro, mas teria de enfrentar oposição biliosa no Congresso e na imprensa — esta de hoje é a mesma de ontem —, um sem-número de tentativas de impeachments e dois levantes militares (Aragarças e Jacareacanga).
O ano de 1961 nos traria uma nova tentativa de golpe, e agora um contragolpe parlamentar, um levante militar, a resistência popular e um golpe parlamentar, a saber: a renúncia do presidente Jânio Quadros, artimanha para um golpe de Estado; o contragolpe parlamentar, aceitando a renúncia e dando posse na presidência ao presidente da Câmara (o vice Jango estava na China); a tentativa de golpe militar, com o veto dos três ministros militares à posse de João Goulart; a resistência popular a partir do Rio Grande do Sul, sob a liderança do governador Leonel Brizola; e, por fim, o golpe parlamentar, quando o Congresso, em poucas horas, transformou o presidencialismo, sob o qual Jango havia sido eleito, em um parlamentarismo disfuncional. Mas isso, nas circunstâncias, tornara-se irrelevante, pois o objetivo do golpe, transacionado com a subversão militar e o Congresso, era -- não podendo, nas circunstâncias criadas pela reação popular, impedir a posse de Jango --, reduzir seus poderes.
O ciclo aberto em 1954, porém, ainda não estava fechado. Faltava a deposição do presidente que pregava reformas de base, mobilizara o país em torno de uma campanha nacional de alfabetização de adultos, e - insânia das insânias! – defendia a reforma agrária. S deposição anunciada veio trazendo em seu regaço uma ditadura: aposentadorias de ministros STF, fechamento do Congresso, cassações de mandatos eletivos, demissões de servidores públicos, intervenção no STF, e, como não poderia faltar, revogação da ordem constitucional, sequestros, prisões, tortura, exílios, assassinatos ainda sem conta. Era o golpe militar de 1º. de abril de,1964 que se instalava com ostensivo apoio da grande imprensa, das forças conservadoras e, por óbvio, com o apoio estratégico dos EUA, que, inclusive, estacionaram em nossas costas navios de guerra. Era a operação Brother Sam.
Relembro esses fatos tão conhecidos para pôr de manifesto a engenharia do processo social: não há acaso, ou gratuidade. O observador atento não se pode dar ao luxo de surpresas.
O movimento de outubro de 1930 impôs-se como uma necessidade em face da exaustão da Primeira República, arcaica de nascença. O Estado Novo brasileiro (1937-1945) seguiu-se à falência da Constituição e do regime de 1934, lembrando a frustração da República de Weimar, sobre cujos destroços a direita alemã palmilhou a ascensão de Hitler (1933). Antes dele, a Europa, ainda no rescaldo da Primeira Guerra Mundial, já conhecia o fascismo, com a tomada do poder por Mussolini na Itália (1922), e já vivera a Grande Depressão de 1929. Além da Itália e da Alemanha, eram ditaduras Hungria, Espanha (Primo de Rivera e, a seguir, Franco), Albânia, Polônia, Portugal, Lituânia, Iugoslávia, Bulgária, Estônia, Grécia, Letônia e Romênia.
A América Latina não seria exceção ao avanço autoritário. Brasil e Argentina lideravam o rol de 16 ditaduras: Bolívia, Chile, Cuba, República Dominicana, Equador, El Salvador, Guatemala, Honduras, Nicarágua, Paraguai, Peru, Uruguai e Venezuela.
Este era o mundo contemporâneo à Segunda Guerra Mundial. Vivemos a chamada Guerra Fria que se encerra em 1991, com o suicídio da URSS. Os EUA, após derrotarem seu poderoso inimigo, sem precisar disparar um só tiro, assumem o papel de unipotência incontestada do mundo, até a emergência da Eurásia, sob a liderança da China. Retorna a polaridade, instala-se a Segunda Guerra Fria.
Mas há algo a assinalar como distinto, e o principal fato é o novo papel dos EUA; se antes, na conflagração de 1939-1945, lideraram o mundo que sonhava com as liberdades que o nazifascismo sufocava, e mesmo na Guerra Fria reivindicavam o título de defensores das democracias, os EUA assumem hoje, sem tergiversações, sem disfarces, a liderança de uma verdadeira internacional neofascista, que infesta o mundo a partir da Casa Branca.
Valem-se do poderio econômico e militar que ainda conservam, dos meios da guerra tout court, dos recursos da guerra híbrida, ameaçam o mundo com invasões, sequestros, rapina, tarifaços. Aliam-se ao sionismo no genocídio de palestinos e na agressão ao Irã. Anunciam o Canadá como um Estado americano e reivindicam a posse de Cuba (objetivo antigo) e da Groenlândia. À sua sombra, crescem os governos de direita na Europa e o neonazismo acaba de conquistar contundente vitória eleitoral na Alemanha. E os países que integram a OTAN (aos quais se soma Japão, há tanto servil), acatando ordens de Washington, estão duplicando os gastos militares.
Este era, lembremos para não esquecer, o vestíbulo da Segunda Guerra Mundial.
O avanço da direita e da extrema-direita nos diz respeito. Um de seus objetivos declarados é o controle absoluto, já quase alcançado, da América do Sul. E esse avanço se faz, até aqui, nos termos do processo eleitoral. O Brasil e o Uruguai são as duas últimas democracias ainda não dominadas pela extrema-direita. E a Venezuela, reduzida à condição de protetorado, exposta ao saque de suas riquezas, não será sua única vítima. O Brasil, pelas suas características de território, posse de estoques de minerais estratégicos, população e desenvolvimento, é o ponto de resistência a ser removido. Digo isso para ressaltar que o futuro imediato do Brasil está muito a depender, objetivamente, das nossas próximas eleições presidenciais.
A ameaça de retrocesso, presente, traz à baila os tempos antecedentes de 1964, as pressões dos EUA contra o governo brasileiro. Naquela altura, diferentemente de agora, era forte o movimento sindical, as forças populares dispunham de certo nível de organização, e se mobilizavam, e o movimento estudantil era realmente uma organização de massa. O Congresso, majoritariamente progressista (tanto que teve de ser mutilado). Havia setores nacionalistas e progressistas nas forças armadas, tanto que não faltaram as centenas de militares cassados. Naquela altura, a população, em grande parte, defendia, nas ruas, nos comícios, nas passeatas, as reformas de base e a sustentação da democracia. Tanto assim que a ditadura, para instalar-se, teve de lançar mão de um golpe de Estado.
Hoje, a ameaça pode avançar pelo processo eleitoral.
Os sinais estão dados.
Foi assim a ascensão do fascismo na Itália, foi assim a ascensão do nazismo na Alemanha. Assim estão sendo derruídas as democracias em nosso continente. No nosso caso, o retrocesso sem ruptura da legalidade pode ser pavimentado por uma institucionalidade em crise, em que avultam um Judiciário pervertido e amesquinhado, não imune a interferência estrangeira, um Congresso reacionário e desapartado do interesse nacional.
Precisamos reagir, imediatamente, sem titubeios.
Mendonça e o fim da República
Antes de tudo, é preciso dizer o óbvio: Alexandre de Moraes cometeu erros graves. O inquérito das fake news tornou-se uma aberração jurídica. Sem objeto claramente delimitado, sem prazo definido e marcado pela concentração excepcional de poderes nas mãos do relator, consolidou um modelo de atuação monocrática que parte importante da academia, no Direito e na Ciência Política, denuncia há anos. Criticar Moraes, portanto, não é uma posição bolsonarista ou petista, mas faz parte do dever cívico de cada cidadão.
Dito isso, é preciso falar de André Mendonça. O ministro escolheu conduzir sua ofensiva contra Moraes da maneira mais destrutiva possível para o próprio STF. Ao expor publicamente conflitos internos, levantar sigilos e atingir o núcleo político do governo Lula a poucas semanas da eleição presidencial, produziu um efeito previsível: derreter a já fragilizada autoridade do STF justamente quando ela deveria ser preservada. É difícil acreditar que o momento seja irrelevante. Se o objetivo fosse exclusivamente jurídico, nada justificaria que episódios envolvendo Lulinha e, depois, os documentos que atingiram Moraes viessem à tona exatamente às vésperas da disputa eleitoral.
Dito isso, é preciso falar de André Mendonça. O ministro escolheu conduzir sua ofensiva contra Moraes da maneira mais destrutiva possível para o próprio STF. Ao expor publicamente conflitos internos, levantar sigilos e atingir o núcleo político do governo Lula a poucas semanas da eleição presidencial, produziu um efeito previsível: derreter a já fragilizada autoridade do STF justamente quando ela deveria ser preservada. É difícil acreditar que o momento seja irrelevante. Se o objetivo fosse exclusivamente jurídico, nada justificaria que episódios envolvendo Lulinha e, depois, os documentos que atingiram Moraes viessem à tona exatamente às vésperas da disputa eleitoral.
No século XXI, democracias já não morrem, em regra, por quarteladas ou golpes militares clássicos. Elas são corroídas lentamente pela perda de legitimidade de suas instituições. Depois da Segunda Guerra Mundial, as constituições democráticas fortaleceram tribunais constitucionais como barreiras contra o autoritarismo e garantidores dos direitos fundamentais. Justamente por isso, líderes autoritários passaram a compreender que controlar o Judiciário era condição para controlar o próprio regime. Afinal, como prender adversários, alterar regras eleitorais ou relativizar direitos se existe uma corte constitucional capaz de impedir esses movimentos?
Foi desse diagnóstico que surgiu aquilo que a literatura chama de court packing, ou empacotamento da corte. Na Hungria, Viktor Orbán primeiro deslegitimou o Tribunal Constitucional para depois reduzir sua autonomia. Na Polônia, sucessivas intervenções sobre o Judiciário foram apresentadas como uma suposta correção da vontade popular. Na Venezuela, Hugo Chávez ampliou o número de ministros da Suprema Corte para construir uma maioria política permanente. Nenhum desses processos começou com uma simples mudança legislativa: todos dependeram, antes, da destruição da confiança pública no tribunal.
É justamente por isso que cortes constitucionais precisam administrar não apenas o conteúdo de suas decisões, mas também o seu tempo político. Alexander Bickel chamou isso de passive virtues, a prudência institucional segundo a qual um tribunal preserva sua autoridade justamente porque sabe quando não transformar um conflito político em um confronto definitivo. Rosalind Dixon desenvolve argumento semelhante ao demonstrar que a legitimidade difusa das cortes é um ativo institucional insubstituível. A democracia perde como um todo quando sua corte constitucional tem sua imagem de imparcialidade destruída.
Esse cuidado, infelizmente, não tem caracterizado o Supremo há décadas. Mas Mendonça levou essa deterioração a um novo patamar. Desde o início do ano, suas decisões passaram a atingir diretamente o entorno do presidente Lula. Vieram as medidas contra Lulinha, depois a escalada das investigações, a retirada de sigilos e, por fim, a divulgação de documentos que colocaram Alexandre de Moraes no centro de uma crise sem precedentes, culminando no pedido de afastamento do diretor-geral da Polícia Federal e num conflito aberto entre ministros da própria Corte.
A gravidade do caso não deve ser minimizada. Vieram à tona contratos firmados entre o escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes, esposa de Alexandre de Moraes, e empresas ligadas ao banqueiro Daniel Vorcaro, personagem central das investigações conduzidas no Supremo. A existência desses contratos suscita dúvidas legítimas sobre conflitos de interesse e merece apuração rigorosa. No entanto, justamente por envolver um ministro da mais alta Corte do país, o dever de prudência institucional deveria ser ainda maior. Investigar com profundidade não significa transformar a própria investigação em combustível para uma guerra pública capaz de comprometer a credibilidade do tribunal.
O problema nunca foi investigar um colega. Ora, se Mendonça estivesse realmente movido por boa-fé institucional, havia alternativas republicanas disponíveis. Poderia discutir o caso internamente com os demais ministros, provocar os mecanismos de controle cabíveis, levar a questão ao plenário e, sobretudo, aguardar o encerramento do processo eleitoral para dar publicidade a elementos cujo impacto político era obviamente explosivo. Nenhuma dessas escolhas impediria a responsabilização de Moraes. Apenas preservaria a distinção entre a apuração de eventuais ilícitos e a destruição da legitimidade da instituição. Ao optar pela exposição pública em pleno calendário eleitoral, Mendonça fez da crise do Supremo parte da própria disputa presidencial.
Mas não é só. Em meio à crise, a imagem de Mendonça passou a ser mobilizada no campo evangélico, inclusive em discursos de pastores e na exibição de um vídeo seu durante culto realizado na presença de Flávio Bolsonaro e Tarcísio de Freitas. O próprio Mendonça também tem recorrido publicamente à linguagem da fé em manifestações públicas. Essa mobilização transbordou para as ruas no 7 de Setembro, quando sua imagem foi celebrada nos atos bolsonaristas, ao lado de uma estética política abertamente golpista, que remetia até mesmo a uma sonhada captura de Lula por Donald Trump, em alusão ao ocorrido na Venezuela. Ou seja, em plena disputa eleitoral, um ministro do Supremo simplesmente lançou o campo político evangélico contra um candidato e contra o próprio Tribunal.
Sua atuação ofereceu à extrema-direita golpista a narrativa perfeita de um Supremo dividido, moralmente falido e incapaz de exercer autoridade sobre si mesmo. É exatamente desse sentimento que vive a antipolítica. Essa estratégia tampouco é nova, ela quase sempre se apresenta sob a bandeira moralista da anticorrupção, como ocorreu durante a Operação Lava Jato. Embora tenha atingido empresários e políticos de diferentes espectros ideológicos, o resultado da Lava Jato foi, nas eleições de 2018, eleger o candidato da extrema-direita, Jair Bolsonaro. A história recente de diversos países tem apontado para um padrão muito claro: a antipolítica apenas beneficia líderes autoritários que prometem governar acima das instituições tidas como corrompidas. Quando o Supremo deixa de ser percebido como uma instituição passível de críticas e reformas e passa a ser retratado como uma organização criminosa, já não existe um tribunal constitucional, mas apenas um alvo político a ser capturado.
É por isso que o erro de Mendonça é imperdoável. Seus argumentos podem até encontrar justificativas jurídicas, mas o modo, o momento e os efeitos de sua atuação produziram algo muito mais grave: implodiram a própria instituição em que ele é ministro, apenas para beneficiar um campo político em plena eleição.
Foi desse diagnóstico que surgiu aquilo que a literatura chama de court packing, ou empacotamento da corte. Na Hungria, Viktor Orbán primeiro deslegitimou o Tribunal Constitucional para depois reduzir sua autonomia. Na Polônia, sucessivas intervenções sobre o Judiciário foram apresentadas como uma suposta correção da vontade popular. Na Venezuela, Hugo Chávez ampliou o número de ministros da Suprema Corte para construir uma maioria política permanente. Nenhum desses processos começou com uma simples mudança legislativa: todos dependeram, antes, da destruição da confiança pública no tribunal.
É justamente por isso que cortes constitucionais precisam administrar não apenas o conteúdo de suas decisões, mas também o seu tempo político. Alexander Bickel chamou isso de passive virtues, a prudência institucional segundo a qual um tribunal preserva sua autoridade justamente porque sabe quando não transformar um conflito político em um confronto definitivo. Rosalind Dixon desenvolve argumento semelhante ao demonstrar que a legitimidade difusa das cortes é um ativo institucional insubstituível. A democracia perde como um todo quando sua corte constitucional tem sua imagem de imparcialidade destruída.
Esse cuidado, infelizmente, não tem caracterizado o Supremo há décadas. Mas Mendonça levou essa deterioração a um novo patamar. Desde o início do ano, suas decisões passaram a atingir diretamente o entorno do presidente Lula. Vieram as medidas contra Lulinha, depois a escalada das investigações, a retirada de sigilos e, por fim, a divulgação de documentos que colocaram Alexandre de Moraes no centro de uma crise sem precedentes, culminando no pedido de afastamento do diretor-geral da Polícia Federal e num conflito aberto entre ministros da própria Corte.
A gravidade do caso não deve ser minimizada. Vieram à tona contratos firmados entre o escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes, esposa de Alexandre de Moraes, e empresas ligadas ao banqueiro Daniel Vorcaro, personagem central das investigações conduzidas no Supremo. A existência desses contratos suscita dúvidas legítimas sobre conflitos de interesse e merece apuração rigorosa. No entanto, justamente por envolver um ministro da mais alta Corte do país, o dever de prudência institucional deveria ser ainda maior. Investigar com profundidade não significa transformar a própria investigação em combustível para uma guerra pública capaz de comprometer a credibilidade do tribunal.
O problema nunca foi investigar um colega. Ora, se Mendonça estivesse realmente movido por boa-fé institucional, havia alternativas republicanas disponíveis. Poderia discutir o caso internamente com os demais ministros, provocar os mecanismos de controle cabíveis, levar a questão ao plenário e, sobretudo, aguardar o encerramento do processo eleitoral para dar publicidade a elementos cujo impacto político era obviamente explosivo. Nenhuma dessas escolhas impediria a responsabilização de Moraes. Apenas preservaria a distinção entre a apuração de eventuais ilícitos e a destruição da legitimidade da instituição. Ao optar pela exposição pública em pleno calendário eleitoral, Mendonça fez da crise do Supremo parte da própria disputa presidencial.
Mas não é só. Em meio à crise, a imagem de Mendonça passou a ser mobilizada no campo evangélico, inclusive em discursos de pastores e na exibição de um vídeo seu durante culto realizado na presença de Flávio Bolsonaro e Tarcísio de Freitas. O próprio Mendonça também tem recorrido publicamente à linguagem da fé em manifestações públicas. Essa mobilização transbordou para as ruas no 7 de Setembro, quando sua imagem foi celebrada nos atos bolsonaristas, ao lado de uma estética política abertamente golpista, que remetia até mesmo a uma sonhada captura de Lula por Donald Trump, em alusão ao ocorrido na Venezuela. Ou seja, em plena disputa eleitoral, um ministro do Supremo simplesmente lançou o campo político evangélico contra um candidato e contra o próprio Tribunal.
Sua atuação ofereceu à extrema-direita golpista a narrativa perfeita de um Supremo dividido, moralmente falido e incapaz de exercer autoridade sobre si mesmo. É exatamente desse sentimento que vive a antipolítica. Essa estratégia tampouco é nova, ela quase sempre se apresenta sob a bandeira moralista da anticorrupção, como ocorreu durante a Operação Lava Jato. Embora tenha atingido empresários e políticos de diferentes espectros ideológicos, o resultado da Lava Jato foi, nas eleições de 2018, eleger o candidato da extrema-direita, Jair Bolsonaro. A história recente de diversos países tem apontado para um padrão muito claro: a antipolítica apenas beneficia líderes autoritários que prometem governar acima das instituições tidas como corrompidas. Quando o Supremo deixa de ser percebido como uma instituição passível de críticas e reformas e passa a ser retratado como uma organização criminosa, já não existe um tribunal constitucional, mas apenas um alvo político a ser capturado.
É por isso que o erro de Mendonça é imperdoável. Seus argumentos podem até encontrar justificativas jurídicas, mas o modo, o momento e os efeitos de sua atuação produziram algo muito mais grave: implodiram a própria instituição em que ele é ministro, apenas para beneficiar um campo político em plena eleição.
A paixão pela mentira - e o Brasil sonhado
Como explicar o voto das mulheres em misóginos? O voto de imigrantes em xenófobos? O voto de negros em racistas? O voto de gays em homofóbicos? O voto de crentes em religiosos intolerantes? O voto de pobres em quem aprofunda a desigualdade?
O livro “A paixão pela mentira - a família e as tiranias”, do psicanalista Paulo Schiller, investiga a origem da ascensão de regimes autocráticos no século XXI. Os filhos de tiranos se apropriam do discurso maniqueísta que exalta a família convencional imaculada e incentiva a pregação religiosa. Eles se definem como paladinos da moralidade e mentem deliberadamente. Compulsivamente.
“Os governos fascistas se ordenam em torno da relativização – ou da destruição – da verdade”, escreve Schiller. Ele cita Hannah Arendt: o ideal não é ter adeptos fanatizados, mas dispor de cidadãos que não saibam distinguir entre ficção e fato e entre verdade e mentira.
Schiller também cita “Instruções para se tornar um fascista”, da italiana Michela Murgia. Ela compara o fascismo ao herpes, que habita o corpo em silêncio, em estado latente. Pronto para ressurgir sempre que há uma queda de imunidade.
Para identificar a direita radical, uma das pistas é a obsessão pela masculinidade. “O machismo truculento”, diz Schiller, “é a roupagem sexualizada da paixão pela violência, traço central de todos os fascismos”.
Na economia, reside uma das promessas mais falsas. “A maioria das medidas desses dirigentes é contrária aos interesses de seus adeptos crédulos mais pobres”. No mundo inteiro. A falta de empatia humana é característica do governo de você-sabe-quem no Brasil.
Nesta semana, vimos com preocupação (e medo) a eleição, na Alemanha, do primeiro governo regional de extrema direita depois da guerra.
A principal líder do AfD (Alternativa para a Alemanha), partido que reprime imigrantes e condena casamento gay, se chama Alice Weidel. Casada com uma estrangeira, do Sri Lanka, com quem cria dois filhos. Ficou popular entre jovens no TikTok. Ela defende deportação de alemães com base em suas etnias.
A pouquíssimo tempo da eleição que vai definir o Brasil com que sonhamos – seja lá de que lado você está –, é preciso parar e refletir. Está difícil. A cada momento estoura um escândalo.
Nessa atual guerra de narrativas, que escancarou a corrupção disseminada no Legislativo e Judiciário, salvo honrosas exceções isoladas, o importante é ser um eleitor consciente. Você e sua família vão arcar com as consequências.
Como será o Brasil de seu favorito? Quer viver numa capitania de Trump – um presidente estapafúrdio que promete dar US$ 5 mil a cada adulto, caso Senado e Câmara mantenham maioria republicana? Quer entregar a Amazônia aos EUA? Tem saudade de Jair Bolsonaro? Quer um presidente que condecora milicianos, despreza mulheres e compra mansões com dinheiro vivo? Que pede R$ 62 milhões a um banqueiro-bandido? Não é cinema, é esquema.
O psicanalista Paulo Schiller atribui a instabilidade permanente às redes sociais, com fatos e intrigas que todos nós seguimos. Hipnotizados e alienados. “O que ele disse hoje? O que ele fez?” Com isso, “andamos em círculos e perdemos de vista os temas que de fato importam”.
O resultado? “Uma desmobilização apática”. E não uma consciência coletiva que garanta um país soberano e menos desigual.
Ruth de Aquino
O livro “A paixão pela mentira - a família e as tiranias”, do psicanalista Paulo Schiller, investiga a origem da ascensão de regimes autocráticos no século XXI. Os filhos de tiranos se apropriam do discurso maniqueísta que exalta a família convencional imaculada e incentiva a pregação religiosa. Eles se definem como paladinos da moralidade e mentem deliberadamente. Compulsivamente.
“Os governos fascistas se ordenam em torno da relativização – ou da destruição – da verdade”, escreve Schiller. Ele cita Hannah Arendt: o ideal não é ter adeptos fanatizados, mas dispor de cidadãos que não saibam distinguir entre ficção e fato e entre verdade e mentira.
Pior, segundo o autor. Os modernos líderes fascistas nem têm uma proposta política ou econômica densa e consistente – ao contrário do nazismo e do fascismo italiano dos anos 1930, que tinham programas de governo bem definidos. “Os fascismos de agora prometem falsidades infladas, como o fim da corrupção que assola os parlamentos e os tribunais”.
Schiller também cita “Instruções para se tornar um fascista”, da italiana Michela Murgia. Ela compara o fascismo ao herpes, que habita o corpo em silêncio, em estado latente. Pronto para ressurgir sempre que há uma queda de imunidade.
Para identificar a direita radical, uma das pistas é a obsessão pela masculinidade. “O machismo truculento”, diz Schiller, “é a roupagem sexualizada da paixão pela violência, traço central de todos os fascismos”.
Na economia, reside uma das promessas mais falsas. “A maioria das medidas desses dirigentes é contrária aos interesses de seus adeptos crédulos mais pobres”. No mundo inteiro. A falta de empatia humana é característica do governo de você-sabe-quem no Brasil.
Nesta semana, vimos com preocupação (e medo) a eleição, na Alemanha, do primeiro governo regional de extrema direita depois da guerra.
A principal líder do AfD (Alternativa para a Alemanha), partido que reprime imigrantes e condena casamento gay, se chama Alice Weidel. Casada com uma estrangeira, do Sri Lanka, com quem cria dois filhos. Ficou popular entre jovens no TikTok. Ela defende deportação de alemães com base em suas etnias.
A pouquíssimo tempo da eleição que vai definir o Brasil com que sonhamos – seja lá de que lado você está –, é preciso parar e refletir. Está difícil. A cada momento estoura um escândalo.
Nessa atual guerra de narrativas, que escancarou a corrupção disseminada no Legislativo e Judiciário, salvo honrosas exceções isoladas, o importante é ser um eleitor consciente. Você e sua família vão arcar com as consequências.
Como será o Brasil de seu favorito? Quer viver numa capitania de Trump – um presidente estapafúrdio que promete dar US$ 5 mil a cada adulto, caso Senado e Câmara mantenham maioria republicana? Quer entregar a Amazônia aos EUA? Tem saudade de Jair Bolsonaro? Quer um presidente que condecora milicianos, despreza mulheres e compra mansões com dinheiro vivo? Que pede R$ 62 milhões a um banqueiro-bandido? Não é cinema, é esquema.
O psicanalista Paulo Schiller atribui a instabilidade permanente às redes sociais, com fatos e intrigas que todos nós seguimos. Hipnotizados e alienados. “O que ele disse hoje? O que ele fez?” Com isso, “andamos em círculos e perdemos de vista os temas que de fato importam”.
O resultado? “Uma desmobilização apática”. E não uma consciência coletiva que garanta um país soberano e menos desigual.
Ruth de Aquino
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