Na última terça-feira, um estudante foi espancado por colegas na UFRJ. Os agressores lincharam um rapaz que usava camiseta com simbologia associada ao nazismo. O vídeo da agressão, reproduzido pela imprensa, mostra o estudante caído no chão, chutado por dez colegas. O rapaz consegue então se levantar e escapar do prédio, mas é alcançado pela turba e agredido novamente na calçada. Por que esse linchamento violento e covarde num campus universitário não é amplamente condenado? Por que, ao contrário, é endossado e aplaudido?
O Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ fez uma nota de repúdio ambígua. A nota não denuncia inequivocamente o linchamento, apenas repudia “qualquer forma de violência, discriminação ou manifestação de caráter nazista”. Não distingue a violência física sofrida pelo estudante da manifestação tida como nazista. A referência à “violência” pode ser lida como condenação à agressão, mas também como atribuição da violência ao nazismo — e, nesse caso, condena a vítima, alegadamente nazista, e não os linchadores.
A nota oficial da UFRJ também foi ambígua:
— A Universidade repudia manifestações de apologia ao nazismo, ao fascismo, ao racismo, ao antissemitismo, ao machismo e a todas as formas de intolerância e discriminação. Reafirma, ao mesmo tempo, que agressões físicas e outras formas de violência não podem ser admitidas como resposta a provocações, conflitos ou divergências.
A nota condena primeiro o nazismo, depois a agressão, insinuando que as agressões foram “resposta a provocações” — a palavra “provocações” introduz uma lógica causal que atribui parte da responsabilidade pelas agressões à vítima. Nenhuma das notas oficiais condenou inequivocamente o linchamento.
O Centro Acadêmico de Ciências Sociais também publicou uma manifestação, mas, nesse caso, sem qualquer ambiguidade:
— Os estudantes do IFCS-IH deram o recado que lugar de nazista não é na universidade.
Centenas de posts nas redes sociais com cenas da agressão celebraram o linchamento e foram curtidos por professores e estudantes. Os comentários incluíam “nazismo não se cria”, “em nazista é porrada”, “nazismo não se debate, se combate”, “o único erro é que não tinha mais gente pra bater”, “o cara foi fazer apologia ao nazismo no IFCS e esperava o quê?”, “mais imagens, que delícia!” e “apanhou foi pouco”.
Tudo indica que o estudante não era nazista. Usava até um broche antinazista — mas isso não deveria ser relevante. O linchamento é uma brutalidade execrável em qualquer circunstância e não passa a ser escusável se a vítima é acusada de nazismo.
Em certos ambientes, já não conseguimos separar a condenação moral do nazismo da licença para agredir quem é acusado de professá-lo. Nossa obsessão em sermos política e moralmente puros nos impede de distinguir a gravidade das condutas e de graduar as respostas a elas.
Uma coisa é usar uma camiseta com simbologia ambígua. Outra é professar uma crença preconceituosa. Outra ainda é discriminar alguém de fato. E matar minorias é algo completamente diferente. Entender essa gradação não é “passar pano para o nazismo”, é defender o Estado de Direito. É também exercer o juízo crítico. No linchamento, não há direito de defesa, não há julgamento equilibrado e não há sentença proporcional. É a justiça popular em sua faceta mais brutal.
O imperativo de demonstrar pureza e credenciais antifascistas irrepreensíveis dificulta a condenação inequívoca da violência porque qualquer ponderação pode ser lida como complacência com o nazismo. As instituições tornam-se incapazes de condenar o linchamento. Professores e estudantes passam a endossar e a celebrar a justiça popular — tudo em nome do combate ao preconceito e à discriminação.
O mundo vira de ponta-cabeça: um linchamento nas dependências de uma universidade deixa de ser um ato bárbaro, violento e covarde e passa a ser celebrado como defesa dos direitos humanos.
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