terça-feira, 9 de janeiro de 2024

Para sobreviver em 2024

Passado o ano, as listas pessoais de desejos, nada mais a fazer do que encarar a realidade. Mesmo um tipo de realidade sobre a qual nada podemos fazer: as eleições nos Estados Unidos, o esforço da China para anexar Taiwan. Até na guerra no Oriente Médio, tudo o que pudemos fazer foi sofrer e reclamar, exceto, é claro, a iniciativa oficial de trazer brasileiros de Israel, da Cisjordânia e da Faixa de Gaza.

O ano entrou com o terremoto no Japão. É um ano de eleições municipais no Brasil. Pensei em ligar o progresso japonês em prevenção e resposta aos grandes eventos naturais a um debate sobre as cidades brasileiras. As mudanças climáticas estão aí, é preciso tirar gente de área de risco, preparar comunidades para uma resposta de emergência.


No primeiro artigo que escrevi no ano cheguei a sugerir que bons planos nesse campo poderiam sonhar com financiamento internacional. Afinal, é o esforço de adaptação às mudanças, e já no Acordo do Paris se falou numa verba para financiá-lo.

Confesso que senti uma ducha de água fria quando vi o Congresso aprovar uma verba de quase R$ 5 bilhões para financiar a campanha eleitoral. É algo distante de nossa realidade e muito distante também de quem se dispõe a considerar as mudanças climáticas e a necessidade de transitar para outro tipo de economia, outro tipo de produção e consumo.

Os gastos eleitorais são previstos como se tivéssemos uma fortuna para esbanjar, como se a tecnologia não tivesse simplificado a relação com o eleitor, como se imaginação fosse banida das eleições e houvesse lugar apenas para grana, muita grana.

A esta altura, creio, já não adianta reclamar. As coisas acontecem, surgem rapidamente no noticiário, desaparecem, e você se torna um chato se ficar repisando.

As mudanças climáticas e o El Niño não nos darão trégua neste ano. Será preciso insistir em algumas teses, ainda que os políticos não as ouçam. É preciso se adaptar, fazer planos, fortalecer a Defesa Civil, educar a população, sobretudo em áreas vulneráveis.

Outro dia, numa reunião no Senado, soube que a Defesa Civil de Santa Catarina se inspira no Japão. Reconheço que não podemos transplantar a mentalidade japonesa, muito menos investir como eles na resiliência urbana.

Existem algumas ilusões que precisam ser desfeitas. Uma delas é supor que temos muito poucos recursos para realizar esses planos. Podemos não ter abundância, mas existem recursos, e mais existiriam se aceitássemos a realidade e os usássemos racionalmente.

Outra ilusão é supor que os brasileiros sejam totalmente refratários à preparação para desastres. Ela parte do princípio de que a indisciplina faz parte de nossa natureza.

Entrevistando algumas brasileiras no Japão, ouvi delas que estão perfeitamente integradas ao trabalho de resposta rápida, fazem simulações e seguem à risca todo protocolo que os japoneses adotam. Isso é válido para toda a colônia brasileira no Japão.

Se começarmos um trabalho de treinamento nas escolas, as próprias crianças podem transmitir ensinamentos para suas famílias. Quando deputado, apresentei um projeto nesse sentido. Não foi aprovado, mas creio que funcionaria melhor se fosse uma disposição das próprias cidades. Talvez nem precise de lei, mas de estímulo, uma espécie de concurso entre escolas.

No encontro no Senado, Esperidião Amin lançou a ideia de premiar cidades com os melhores planos de prevenção e resposta. Se for algo substancial, pode atrair prefeitos. Tudo vale para mudar o quadro no Brasil. Anualmente, somos atingidos pelos eventos naturais, perdemos gente e quase não nos sentamos, como fazem os japoneses, para avaliar nossa vulnerabilidade e tentar reduzi-la.

O ano eleitoral começou com um terremoto à distância e previsões pessimistas sobre o El Niño, num contexto de aquecimento global. Não importam as dificuldades nem o perigo de parecer chato, mas é necessário insistir com políticos e eleitores. Alguma coisa está acontecendo. Por favor, tragam seus guarda-chuvas para a tempestade que nos espera.

A extrema-direita continua à espreita

A tentativa de golpe e os crimes do ex-presidente Jair Bolsonaro são nítidos para a bolha progressista. Critica-se a lentidão da Justiça para julgar os peixes grandes e uma ação mais efetiva do governo Lula para enquadrar os militares. Entretanto, pesquisas mostram que essa é uma realidade de nicho. E que a rede de desinformação da extrema-direita está funcionando com eficiência.

Bolsonaro teve influência nos atos antidemocráticos do 8/1? Parece uma resposta óbvia, mas para a pesquisa Quaest, 43% dos entrevistados não enxergam relação entre os criminosos e o ex-presidente. 47% culpam Bolsonaro. A maioria (51%) acredita que os participantes da invasão são radicais e não representam os eleitores de Jair Bolsonaro.


Outro dado da pesquisa. Em um ano, recuou em 5% – de 94% para 89% – a porcentagem de entrevistados que condenam a destruição dos edifícios na Praça dos Três Poderes.

Certa vez ouvi uma bolsonarista dizer a uma amiga que criticava o ex-presidente: “Você está se informando pelos lugares errados. A Globo e os grandes jornais só mentem”. E certamente ela não falava da Jovem Pan. Quem não lembra das campanhas, com posts do ex-presidente inclusive, para que seus apoiadores seguissem apenas seus canais de informação?

A inaceitável fake news do vídeo de conteúdo sexual com o Padre Júlio Lancellotti é mais um exemplo de como as milícias digitais funcionam. Por mais que os veículos apontem as fraudes e mentiras, elas alcançam um número muito menor de pessoas. Há um método comum. Atacar personagens da esquerda com elementos conservadores: relação com a criminalidade, misoginia, sexo, etc.. E tudo isso com a conveniência ou a omissão das redes sociais. O algoritmo tem partido.

Bolsonaro está inelegível, mas enquanto o ex-presidente, empresários, militares e políticos envolvidos no 8 de janeiro e nos crimes da pandemia não forem à Justiça, legitimará o discurso da extrema-direita que nada foi tão grave assim, e que na verdade não passa do discurso ideológico da esquerda.

Sem passar esses episódios a limpo, a extrema-direita continuará à espreita, apenas aguardando um novo Bolsonaro surgir ou o próprio renascer. A anistia de 1979 continua viva e novamente protege criminosos.

O perseguido

Actualmente, estou a tentar fazer amigos fora do Facebook … mas usando os mesmos princípios.

Todos os dias saio à rua e durante alguns metros acompanho as pessoas que passam e explico-lhes o que comi, como me sinto, o que fiz ontem, o que vou fazer mais tarde, o que vou comer esta noite e mais coisas.

Entrego-lhes fotos da minha mulher, da minha filha, do meu cão, minhas no jardim, na piscina, e fotos do que fizemos no fim de semana.

Também caminho atrás das pessoas, a curta distância, ouço as suas conversas e depois aproximo-me e digo-lhes que “gosto” do que ouvi, peço-lhes que a partir de agora sejamos amigos e também faço algum comentário sobre o que ouvi. Mais tarde, partilho tudo quando falo com outras pessoas.

E funciona…Já tenho 3 pessoas que me seguem…

São dois polícias e um psiquiatra. 

domingo, 7 de janeiro de 2024

Pensamento do Dia


 

Em três meses, 1% da população de Gaza morreu na guerra; entenda

A guerra entre Israel e o Hamas já causou a morte de ao menos 22.600 pessoas na Faixa de Gaza, segundo o último balanço do Ministério da Saúde do grupo islâmico palestino, divulgado na sexta-feira. O valor corresponde a cerca de 1% da população total do enclave no período anterior a 7 de outubro, quando teve início o conflito armado, em resposta à ofensiva lançada pelo Hamas em território israelense — o pior desde a formação do Estado judeu, em 1948, com 1,2 mil mortos e 240 reféns.

Vista de maneira isolada, a proporção parece pequena. Mas 1% da população de um país como o Brasil, por exemplo, seria o equivalente a 2,14 milhões de pessoas — ou todo o estado de Sergipe (2,22 milhões), segundo dados do IBGE. Se compararmos com a Índia, que em 2023 se tornou o Estado mais populoso do mundo, a fatia de 1% representaria a morte de mais de 14 milhões de pessoas, um valor superior à população da cidade de São Paulo (12,33 milhões).

No Rio de Janeiro, 1% significaria exterminar, em apenas três meses, a população inteira da Rocinha, a maior favela do país, onde moram cerca de 67 mil pessoas, de acordo com o censo de 2022. A proporção de mortos também seria suficiente para quase lotar o Estádio do Maracanã, o maior do Brasil, cuja capacidade total é de 78.838 pessoas.

As comparações são infinitas. Um por cento da população de São Paulo, por exemplo, daria para encher o Estádio do Morumbi duas vezes e o Estádio do Pacaembu três.


Se considerado o número absoluto de mortos em Gaza desde o início da guerra, seria o mesmo que imaginar o bairro do Catete, no Rio, ou a região da Sé, no centro de São Paulo, completamente desabitados. Os 22.600 palestinos que perderam a vida no conflito também correspondem a mais de 16 vezes o número de mortes entre judeus nos últimos três meses — foram 1.200 em 7 de outubro, a maioria civis, e 175 soldados desde então.

Conflitos entre Israel e árabes por causa da ocupação da Palestina causaram mortes em praticamente todos os anos deste milênio, mas a violência dos ataques terroristas da organização Hamas em outubro de 2023, seguida de uma ação militar israelense, equivale a uma década inteira de conflitos.

Já nos primeiros oito dias de guerra, o número de mortos em Israel e Gaza superou a soma dos últimos oito anos de conflitos na região, com mais de 2 mil vítimas fatais em ambos os lados, entre civis e grupos armados, segundo dados do Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (Ocha, na sigla em inglês).

Para o secretário-geral da ONU, António Guterres, o número de civis mortos em Gaza é “incomparável e sem precedentes” em relação a qualquer conflito desde 2017, quando ele assumiu o cargo nas Nações Unidas.

— O que está claro é que em poucas semanas tivemos milhares de crianças mortas — disse Guterres, no final de novembro, durante uma entrevista coletiva. — Estamos testemunhando uma matança de civis sem paralelo e sem precedentes em qualquer conflito desde que sou secretário-geral.rem à espera de acordo para libertação de entes mantidos prisioneiros em Gaza

Os números devem continuar aumentando. O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, visitou Gaza no dia do Natal e prometeu intensificar ainda mais a ofensiva contra o Hamas, dizendo que continuará lutando e que a guerra está longe do fim, segundo um comunicado de seu partido, o Likud.

"Será uma guerra longa que não está perto de terminar", afirmou, após uma visita ao território sitiado.

O chefe de assistência da ONU alertou na sexta-feira que a Faixa de Gaza se tornou "inabitável" e pediu o fim imediato do conflito.

"Três meses após os terríveis ataques de 7 de outubro, Gaza se tornou um lugar de morte e desespero", disse o subsecretário-geral para Assuntos Humanitários e coordenador de ajuda emergencial, Martin Griffiths, em um comunicado.

É possível ensinar felicidade?

Sim, é verdade que nas prestigiadas universidades de Harvard e Yale o conceito de felicidade é hoje estudado como um novo assunto, algo que começa a se espalhar por outras universidades ao redor do mundo. No Brasil, por exemplo, vários centros universitários já começam a se interessar pelo que se chama de “psicologia positiva” para desvendar o complexo conceito de felicidade.

A questão que se coloca é se não seria melhor, neste momento histórico, estudar mais do que a felicidade, a infelicidade, a inquietação universal, o medo do futuro, a síndrome de ansiedade e o aumento dos medicamentos anti-pânico .

É sintomático, de fato, que o número de estudantes destas novas faculdades sobre o tema da felicidade aumente a cada dia. E talvez o que esteja a acontecer é que o aumento da inquietação universal, da incerteza sobre como será o futuro dos nossos filhos, esteja a fazer florescer em todo o mundo inúmeras receitas e ensinamentos sobre como alcançar a felicidade.
O problema subjacente é que ao mesmo tempo que cresce o desejo pelo estudo da felicidade , é cada vez mais difícil especificar as coordenadas desta dimensão humana que atinge também os animais. E o curioso em nossos dias de busca frenética pela felicidade é que o novo tema da psicologia positiva está simultaneamente mergulhando nos clássicos da antiguidade em busca de fórmulas contra a infelicidade.

Desde o conceito de inteligência emocional, que revolucionou a forma como nos relacionamos com os outros para aliviar as nossas frustrações, surgiram fórmulas para contrariar a infelicidade, por vezes à custa do falso escapismo através da química.

Não é de estranhar que na busca frenética se multipliquem publicações sobre a tentativa de definir felicidade ou infelicidade. No Brasil, na editora Sextante, o psiquiatra Daniel Martins de Barros acaba de publicar Viver é melhor sem precisar ser o melhor. Isto mostra que no final a felicidade não consiste, como sempre se pensou, na corrida para ser o primeiro, o mais inteligente, o mais rico, o mais aplaudido.

É por isso que acredito que mais do que fórmulas novas e criativas sobre como alcançar a felicidade, devemos estudar o que torna o ser humano infeliz hoje. Seria a melhor forma, mesmo sem atalhos e através de labirintos complexos, de descobrir o que é a verdadeira felicidade, ou melhor, o que não é.

E neste sentido é verdade que talvez a melhor forma de chegar a uma possível definição de felicidade, o que é seguramente impossível, seja a procura do que hoje gera infelicidade e inquietação, palavras hoje muito atuais.

Foi, com efeito, a chamada sociedade de consumo, o santuário do pior capitalismo, que injetou nas veias da modernidade aquela inquietação que obscurece qualquer esforço para adquirir a felicidade. Se um dia se identifica felicidade com riqueza e comodidade, com acumulação de dinheiro e de objetos, com a ambição de possuir, hoje começamos a entender, e isso, sim, é digno de novos estudos, o velho adágio de “Menos é mais”.

E essa é a sabedoria dos antigos filósofos e escolas de espiritualidade. Na verdade, um local repleto de móveis, por mais luxuoso que seja, não exala mais beleza do que a simplicidade das celas dos antigos monges que, despojados de quase tudo, eram os que mais viviam no seu ambiente e certamente os menos infelizes.

Sempre me impressionou, quando estudei os clássicos gregos e latinos, como eles conseguiam, com o mínimo de palavras, abraçar toda uma filosofia de vida que, curiosamente, hoje volta a ser atual em meio à novidade da inteligência artificial, para citar a última loucura inventada pelo Homo Sapiens e da qual talvez um dia ele se arrependa.

Os filósofos latinos cunharam uma expressão com apenas três palavras que poderia ser o coração de todos os estudos universitários hoje: In medio virtus . A virtude, e por ela os antigos filósofos entendiam a felicidade, está no meio, não nos extremos. O centro é o equilíbrio, calma, alegria contida. Também o silêncio que é o prelúdio da criatividade.

Na minha vida me deparei com personagens que sofreram não porque lhes faltasse alguma coisa, mas o contrário: porque tinham tudo de sobra e queriam mais. Não é verdade que a maior inquietação, a maior amargura se encontre entre os pobres, porque eles, ao contrário daqueles que têm muito de tudo e se cansam de ter tanto, sabem tirar alegria até dos poços mais profundos do seu abandono.

Não estou falando de política, mas de psicologia, porque a política, que hoje, em vez de imitar os sábios latinos de que a virtude está no centro e não nos extremos, insiste em correr cada vez mais para o extremismo e acabar assim desequilibrando a convivência universal. Extremistas de qualquer cor triunfam contra toda a sabedoria ancestral. A razão, a calma, a justiça, a moderação e a luta contra a injustiça estão em crise. Até as eleições políticas são vencidas pela estridência, pela extravagância, ou mesmo pelo regresso às velhas tiranias, embora por vezes disfarçadas de modernidade e novidade.

Nada é mais antigo, mais ultrapassado, mais desanimador, mais enlouquecedor do que o barulho não só dos velhos canhões de guerra, mas dos disfarces sutis da felicidade moderna.

Menos coisas, mais liberdade

E se lhe apresentassem uma oportunidade maravilhosa e única na vida, mas você tivesse de atravessar o país em três dias para aproveitá-la? Você ficaria entusiasmado e começaria a fazer planos? Ou pensaria na sua casa, preocupado em como encaixotar tudo a tempo? Entraria em desespero com a ideia de transportar suas coisas por milhares de quilômetros (ou, pior, acharia isso completamente absurdo)? Será que acabaria concluindo que não vale o esforço, que você está “acomodado” aqui e que talvez, mais para a frente, surja outra oportunidade?

Sei que a pergunta a seguir parece loucura, mas será que as suas coisas teriam o poder de prendê-lo a um lugar? Para muitos de nós, é bem provável que a resposta seja “sim”.

As coisas podem funcionar como âncoras. Elas nos fixam e nos impedem de explorar novos interesses e desenvolver talentos. Elas podem atrapalhar nossos relacionamentos, o sucesso profissional e o tempo com a família. Podem sugar nossa energia e nosso espírito de aventura. Você já evitou uma visita porque sua casa estava bagunçada demais? Já perdeu um jogo de futebol do seu filho porque estava fazendo hora extra a fim de pagar as prestações do cartão de crédito? Já deixou passar uma viagem para um lugar exótico porque não tinha ninguém para “cuidar da casa”?

Olhe para as coisas à sua volta no cômodo em que está agora. Imagine que cada um desses itens — cada objeto pessoal — está ligado a você por uma corda. Alguns estão presos a seus braços, outros à sua cintura e outros a suas pernas. (Se quiser ser mais dramático, visualize correntes no lugar de cordas.) Agora tente se levantar e dar uma volta com todas essas coisas se arrastando e ressoando atrás de você. Não é fácil, hein? Acho que você não vai conseguir chegar muito longe nem fazer muita coisa. Vai logo desistir, voltar a se sentar e se dar conta de que é preciso muito menos esforço para ficar onde está.

Da mesma forma, bagunça demais também pode pesar no humor. É como se todos os objetos tivessem seu próprio campo gravitacional e estivessem nos puxando constantemente para baixo e para trás. Podemos nos sentir literalmente pesados e letárgicos num cômodo abarrotado, cansados e preguiçosos demais para nos levantar e fazer alguma coisa. Compare isso com um ambiente limpo, iluminado e com poucos móveis — num espaço assim, nos sentimos leves e cheios de possibilidades. Sem o peso de todos os pertences, sentimo-nos com energia e prontos para tudo.

Com isso em mente, podemos nos sentir tentados a fingir uma arrumação rápida e criar a ilusão de um espaço organizado. É só dar uma passada na loja de departamento, comprar algumas caixas bonitas e criar um cômodo minimalista instantâneo. Infelizmente, o simples ato de enfiar tudo em gavetas, cestas e latas não resolve o problema: a máxima “o que os olhos não veem o coração não sente” não funciona aqui. Mesmo coisas escondidas (seja no armário do corredor, lá na despensa ou num depósito do outro lado da cidade) continuam pesando em nosso coração. Para nos libertarmos mentalmente, precisamos nos livrar de verdade das coisas.

Algo mais a se considerar: além de nos comprimir fisicamente e nos sufocar psicologicamente, as coisas também nos escravizam em termos financeiros, através das dívidas que adquirimos para pagar por elas. Quanto mais devemos, mais insones são as noites e mais limitadas as nossas oportunidades. Não é nada agradável levantar toda manhã e ir se arrastando para um trabalho de que não gostamos a fim de pagar por coisas que não temos, não usamos nem queremos mais. É possível pensar em muitas outras coisas que preferiríamos estar fazendo!

Além disso, se esgotamos nosso salário (e mais um pouco) em bens de consumo, secamos os recursos para outras atividades mais gratificantes, como fazer aulas de artesanato ou investir num negócio novo.

Viajar é uma analogia perfeita da liberdade inerente a um estilo de vida minimalista. Pense em como seria chato carregar duas ou três malas pesadíssimas durante as férias. Faz séculos que você está ansioso para essa viagem e, quando desembarca do avião, mal pode esperar para explorar as paisagens. Não tão rápido — antes você precisa esperar (e esperar e esperar) que as malas apareçam na esteira de bagagem. Depois, precisa arrastá-las pelo aeroporto. É provável que você siga direto para o ponto de táxi, porque manobrá-las no metrô seria quase impossível. E nem pense em tentar pegar lugar no city tour que está começando — você tem de ir primeiro ao hotel e se livrar desse fardo gigantesco. Quando você finalmente chega lá, desmaia de cansaço.

O minimalismo, por outro lado, o deixa ágil. Imagine viajar apenas com uma mochila leve — a experiência é definitivamente revigorante. Você chega ao destino, desce do avião e passa pela maré de gente esperando pela bagagem. Depois entra no metrô, pega um ônibus ou anda em direção ao hotel. No caminho, experimenta todas as visões, sons e aromas de uma cidade estrangeira, com o tempo e a energia para saborear tudo. Você tem a liberdade e a flexibilidade de um pássaro para se movimentar por aí — pode levar a mochila a museus e a pontos turísticos e guardá-la num armário quando for preciso.
Diferente do primeiro cenário, você começa com tudo e passa a tarde vendo as paisagens em vez de arrastar suas coisas de um lado para o outro. Chega ao hotel energizado por sua experiência e pronto para outra.

Quando não estamos mais acorrentados às nossas coisas, podemos saborear a vida, nos relacionar com outras pessoas e ser participativos em nossa comunidade. Ficamos abertos a experiências e mais capazes de reconhecer e aproveitar as oportunidades. Quanto menos bagagem carregamos (tanto física como mentalmente), mais podemos viver!

Francine Jay, "Menos é mais: Um guia minimalista para organizar e simplificar sua vida"

Ninguém aqui é mestiço

Segundo a mais confiável fonte de dados primários do país, a maioria da população brasileira é parda. O IBGE falou, está falado. Mas cabe uma ressalva sobre certa recepção pública desse achado. É que da palavra pardo se deduziu mestiço (do latim "mixticius", misturado). Em termos etnológicos, a mistura seria combinar duas etnias. Dentro dessa lógica, se um louro dolicocéfalo alemão se casa com uma morena francesa, o filho será mestiço. O mesmo acontece com uma japonesa e um chinês. E, claro, uma ruandesa hutu com um tutsi.


Mas pode não ser nada disso. Troque-se o critério de etnia por cor da pele, o filho da francesa será branco europeu, o da japonesa branco asiático, e o da hutu, de cor preta, também não será considerado mestiço. Para dar credibilidade à mestiçagem, é preciso primeiro acreditar em raça, depois na realidade humana da mistura. Por isso, na prática, aquele nipo-chinês seria considerado mestiço tanto por japoneses como por chineses: predominaria a ilusão da raça, não a evidência da cor.

No paradigma colonial de branquitude, todo desvio desse padrão reprodutivo significa mestiçagem. Nos EUA, pode-se ser branquíssimo, mas uma "gota de sangue negra" (leia-se parentesco afro) produz o "half bred", mestiço. Como sangue nenhum tem cor além da vermelha, fica evidente que essa classificação é fake, manipulação de raça como categoria ideológica de dominação social.

A intelectualidade latino-americana embarcou na canoa da originalidade étnica, com prolíficas reflexões para-literárias. Entre nós, o luso-tropicalismo de Gilberto Freyre outorga à mestiçagem um singular estatuto civilizatório. Razão: "uma poligamia suavemente disfarçada, que teria obtido a aprovação de especialistas em eugenia, pois os pais, em muitos casos, eram homens de primeira qualidade". Logo, "uma escravidão desse tipo foi útil ao desenvolvimento social no Brasil" (em "Escravidão, monarquia e o Brasil moderno").

Respaldado pela biologia de machos brancos, o mestiço justificaria a própria escravidão. Aos pretos, caberia extinção progressiva. Mas esse desejo de morte, genocida, foi vencido pela vontade vital: dez por cento declaram-se negros, a maioria se diz parda, gradação cromática que não resulta de "raças" mescladas, e sim da força latente de uma diversidade a fogo brando, imperturbada pelo Estado. Na Colônia, indígena era "negro da terra". Não por cor, por categorização. Hoje, negro é pertencimento político-existencial, embasado num fenótipo que varia do mais ao menos escuro, dito pardo. É categoria de biopoder, designativa de um lugar móvel na luta contra a dominação da farsa histórica da raça. O que de fato somos todos: fenotipicamente diversos. Mestiço é uma carapuça racial, matizada por meio-sorriso literário.

sábado, 6 de janeiro de 2024

Pensamento do Dia

 




A ascensão global da extrema direita

“O espírito sou que sempre nega! / E com razão: pois tudo quanto nasce / De extermínio total somente é digno; / Pelo que, nada haver melhor seria”

 Goethe

Como devemos chamar os movimentos de extrema direita que não param de crescer em todo o mundo, tendo como mais nova vítima a Argentina?

Populismo, em si, é insuficiente. Fascismos são necessariamente populistas, embora a recíproca não seja verdadeira. Chamar a extrema direita apenas de “populista” é confortável para ela, que acaba por não ser combatida com a veemência que é preciso.

O fascismo não morreu em 1945 com o suicídio de Hitler, limitá-lo de forma hermética a um período histórico é negar que qualquer conceito e ideia se adapta e evolui através do tempo. Tanto mais: Benito Mussolini deu nome a essa fusão de populismo, reacionarismo, nacionalismo e autoritarismo, mas em que pese que o seu movimento fascista seja o mais famoso, outros semelhantes existiam na mesma época e inclusive o antecederam. Na própria Itália, Gabriele d’Annunzio mobilizou uma campanha nacionalista pela cidade fronteiriça de Fiume (na época, com a Iugoslávia) que pode, no mínimo, ser visto como predecessor do Fascismo.


Qualquer fascismo distinto do italiano será diferente, assim como o próprio fascismo mudou internamente durante o vintênio. O nazismo é o exemplo mais claro. Com frequência tomado como uma espécie de versão radicalizada do fascismo, sua pauta de purificação racial é estranha à sua contraparte italiana. Umberto Eco (2018, p. 43) lembra, por exemplo, que Ezra Pund colocava um anticapitalismo extremado, enquanto Julios Evola recriava o mito do Graal, elementos também estranhos ao fascismo de Mussolini. Para Roger Griffin (2015, p. 26), “O fascismo é um gênero de ideologia política cujo cerne mítico, em suas permutações, é uma forma palingenética de ultranacionalismo populista”.

Alguns pontos são essenciais e mantêm-se em todas as manifestações. O fascismo, por exemplo, é frequentemente confundido como uma espécie de movimento conservador. Basta ver como movimentos de extrema direita no contemporâneo são tratados pelo estranho prefixo “ultra”. Um ultraconservadorismo, na prática, trata-se de um fascismo, ou no mínimo de um reacionarismo. O conservadorismo pode – e, inclusive, o faz com frequência – aliar-se ao fascismo, mas não se confundem.

Trata-se mais de uma ligação por conveniência, do que uma associação orgânica. Por seu discurso de retorno a um passado visto como glorioso, de resgate de uma nação degenerada e pautada pelo messianismo (somente o Messias pode promover esse retorno), o fascismo é necessariamente reacionário, não conservador. Não é à toa que se pauta por um irracionalismo assumidamente anti-iluminista. A desumanização, paranoia e conspiracionismo sobre algum grupo específico também passam pelo mesmo caminho: o fascismo escolhe um alvo por ser visto como o responsável por essa suposta degeneração – no passado, antes “deles”, a nação era gloriosa. Não é uma conservação, mas uma reação.

Esses inimigos, não importa o quão frágeis sejam, são vistos como forças políticas e econômicas muito superiores. É uma inversão: o grupo fascista, muito mais forte, culpa e acusa um grupo minoritário de fazer exatamente o que eles próprios fazem. Quando há uma crise – econômica, política, social –, o fascismo se espalha para além de meia dúzia e encontra respaldo na população, que catalisa sua frustração em torno desse grupo desumanizado. É, portanto, um movimento que absorve diretamente crises e trabalha com um ressentimento melancólico.

Conservadorismo e reacionarismo podem ter a mesma origem – oposição à Revolução Francesa – mas não se confundem. Burke não se coloca contra qualquer revolução, mas se posiciona contra o que enxerga como desrespeito às tradições do povo francês. Em outras palavras, se coloca contra uma ruptura baseada em abstracionismos, rejeita que a noção de liberdade seja absoluta para justificar uma revolução. Não nega as imperfeições do Antigo Regime, mas ressalta sua ordem e moral, e diz que a verdadeira liberdade advém da estabilidade: “Há dez anos, teria eu podido, em sã consciência, felicitar a França por possuir um governo (pois ela tinha um) […] Posso hoje felicitar esta nação pela sua liberdade?”.

Embora mais secularizado do que Joseph de Maistre, sua contraparte reacionária, não nega que a religião é um dos pilares de um bom governo, embora não exclua outros essenciais como o poder público, a disciplina, a boa distribuição de impostos, a moralidade, a prosperidade e a paz. A verdadeira liberdade vem da relação harmônica entre esses pilares, junto com o respeito pelas tradições e pelos antepassados. Sem eles, a liberdade é uma abstração irrelevante. É uma abordagem, portanto, racional e bastante distinta do fanatismo fascista.

O conservadorismo foca no presente, o reacionarismo e o fascismo no passado. O reacionário deseja um resgate deste passado idealizado, e o fascismo lança mão de uma base de massas para levar este reacionarismo ao limite. O conservadorismo rejeita que o presente deva ser sacrificado em função do futuro, mas não deseja um retorno, tampouco se opõe a mudanças lentas e graduais. Apenas entende que o presente é resultado de uma construção geracional que, mesmo imperfeito, não deve ser sacrificado. Em suma, não trocar o certo, com todos seus defeitos, pelo duvidoso.

Já De Maistre percebia o presente imerso em uma crise de valores morais, habitado por indivíduos frágeis e autodestrutivos, que haviam se afastado do divino. Vale ressaltar que o reacionarismo surgiu como resposta direta à Revolução Francesa e, em um âmbito mais amplo, ao movimento iluminista. O movimento contemporâneo autodenominado neoreacionarismo, não sem razão, também se autointitula “dark enlightenment” (iluminação obscura).

Mas o fascismo não é só reacionário. Há outro conceito que é tão ou mais inerente a ele: o autoritarismo. No entanto, o fascismo difere em muito de outras formas de autoritarismo, como a ditadura militar. Enquanto uma ditadura, em geral, se impõe de cima para baixo e se caracteriza por uma ruptura brusca, o fascismo perpassa todos os setores sociais e lança seus tentáculos do autoritarismo pouco a pouco, corroendo a democracia de dentro para fora até não restar mais do que uma casca oca. Resquícios de aparência democrática, que em nada servem.

Um exemplo claro é a Constituição de Weimar, que se manteve praticamente intacta durante o nazismo, conferindo uma fachada de normalidade democrática ao regime, mesmo com toda a sua violência. Conforme cresce em força, mecanismos autoritários clássicos como censura e ataque à imprensa, à academia (anti-intelectualismo), perseguição de grupos minoritários e rejeição da democracia agonística passam a ser empregados. Curiosamente, é frequente que os fascismos não digam que estão acabando com a democracia, mas afirmem estar reformulando-a, retirando suas supostas imperfeições.

Entretanto, todos esses elementos convergem para o pilar mais básico do fascismo: o mito da nação. Para essa corrente política, a grandeza nacional é o ideal supremo, equiparando-se à importância da liberdade e igualdade para o liberalismo e socialismo, respectivamente. Mussolini (2020) enfatizou: “Nosso ideal é a nação. Nosso ideal é a grandeza da nação, e tudo o mais se subordina a isso”.

O nacionalismo constitui o pilar fundamental, a partir do qual todos os outros conceitos se desdobram no fascismo. O reacionarismo surge como uma consequência do desejo de restaurar a grandeza da nação, e o autoritarismo, juntamente com o apoio massivo das massas, tornam-se os métodos para alcançar esse objetivo. Essa dinâmica ajuda a explicar por que o fascismo só emergiu no século XX. Não apenas o nacionalismo se intensificou com a Revolução Francesa, como destacado por Eric Hobsbawm (1990), mas também houve a necessidade de uma base de massa que buscasse uma alternativa tanto ao liberalismo quanto ao socialismo.

Umberto Eco (2018) ressalta que o fascismo cria uma seita dentro da própria nação, onde a única característica excepcional dos indivíduos é o simples fato de terem nascido naquela região. A partir desse mito da nação, surgem características secundárias que permeiam o fascismo. A figura do Messias, o líder carismático capaz de restaurar a glória perdida, ganha destaque. Além disso, o belicismo e a desumanização de grupos minoritários, particularmente estrangeiros ou considerados “internos” – ou seja, grupos que fazem parte da região, mas não são assimilados pela cultura dominante – são uma consequência direta desse mito nacional.

A própria noção de nacionalismo é disputada e não é de simples entendimento. Prevalece a definição de Benedict Anderson (1993), alargada por Eric Hobsbawm (1990), do nacionalismo como uma “comunidade imaginada”, um amalgama identitário que mescla elementos como linguagem, região, cultura e religião. Identificação ancestral, mas intensificada e com novo significado após a Revolução Francesa. O nacionalismo, por extensão, é um sentimento de pertencimento e dedicação a esta comunidade imaginada, unindo os cidadãos em torno de valores e objetivos compartilhados.

Se antes até 1884 o Dicionário da Real Academia Espanhola definia nación como “o agregado de habitantes de uma província, de um país ou de um reino”, depois disso ampliou a definição para “um Estado ou corpo político que reconhece um centro supremo de governo comum” e “o território constituído por esse Estado e seus habitantes, considerados como um todo” (HOBSBAWM, 1990, p. 27). A maior complexidade sobre a noção de nação se reflete diretamente na centralidade dela para os fascismos.

Também não fica de fora o populismo. Já falamos do apelo às massas por meio de mecanismos como ressentimento e a construção do inimigo objetivo. Mas o fascismo necessita de uma base de massas. Esta é a sua maior diferença em relação ao autoritarismo tradicional: ele precisa que o poder se disperse de forma circular e penetre em todos os setores e segmentos sociais. Claro que se trata de um apoio paradoxal e localizado – receber apoio de parcela marginais da sociedade não o impede de ser elitista e hierarquizado, ao contrário.

No discurso, a massa é referida como mola propulsora à grandeza nacional. Na prática, os fascismos são hierarquizados e a massa não passa de um mecanismo para se legitimar. Para Paxton (2007, p. 76), “Os fascismos procuram em cada cultura nacional os temas mais capazes de mobilizar um movimento de massas de regeneração, unificação e pureza, dirigido contra o individualismo e constitucionalismo liberais e contra a luta de classes da esquerda”.

Por fim, trata-se de um movimento/regime/ideologia essencialmente autoritário. Embora se difira do autoritarismo por si por várias características, uma das diferenças fundamentais é que o fascismo surge da democracia para devorá-la por dentro. Não há, na história, fascismo que não tenha chegado ao poder pelas vias democráticas e legais, e isso envolve tanto a Alemanha de Hitler quanto a Itália de Mussolini. É apenas após conquistar o poder, que o movimento vai gradualmente minando o processo democrático e aparelhando as instituições, até que, enfim, dá um golpe.

Isso não significa afirmar que o fascismo é democrático, como uma leitura apressada pode assumir, mas apenas que tende a surgir em democracias de massa quando se aflora a sensação de crise e de antipolítica. No entanto, ele fere os princípios básicos de qualquer identidade democrática, como a possibilidade de dissenso, do conflito, e da divergência, pois, como lembra Umberto Eco (2018, p. 49), o consenso só pode existir no fascismo, autoritarismo ou totalitarismo.

Considerando que a democracia agonística se baseia no respeito pelo consenso superposto e, por conseguinte, na própria essência da democracia, o fascismo, inegavelmente, nunca pode ser considerado democrático. É antitético com a própria noção de democracia, dado a essencialidade que desloca para a desumanização de grupos específicos. O fascismo rejeita qualquer existência fora de sua seita, qualquer mínimo arranhão deve ser condenado e combatido.

Essas são apenas algumas das características mais proeminentes e discerníveis do que podemos entender como fascismo, baseado principalmente na interpretação de Paxton. É crucial ressaltar que, à medida que o fascismo se difunde, ele absorve idiossincrasias específicas. Da mesma forma, é importante destacar que esses conceitos existem de maneira independente e sua manifestação simultânea, mesmo quando ocorre em conformidade com mais de um conceito, não implica necessariamente a presença do fascismo. No entanto, à medida que mais características e conceitos dessa lista se apresentam, maiores são as chances de estarmos diante de um fenômeno fascista.

Mesmo que Anatomia do fascismo, de Paxton, tenha sido escrita há quase 20 anos, permanece essencial na compreensão deste fenômeno tão atual. Mais do que nunca, precisamos chamar e classificar o bacilo da extrema direita por seu nome verdadeiro: fascismo.

Parada do Velho Novo

Eu estava sobre uma colina e vi o Velho se aproximando, mas ele vinha como se fosse o Novo.

Ele se arrastava em novas muletas, que ninguém antes havia visto, e exalava novos odores de putrefação, que ninguém antes havia cheirado.

A pedra passou rolando como a mais nova invenção, e os gritos dos gorilas batendo no peito deveriam ser as novas composições.

Em toda parte viam-se túmulos abertos vazios, enquanto o Novo movia-se em direção à capital.


E em torno estavam aqueles que instilavam horror e gritavam: Aí vem o Novo, tudo é novo, saúdem o Novo, sejam novos como nós! E quem escutava ouvia apenas os seus gritos, mas quem olhava, via pessoas que não gritavam.

Assim marchou o Velho, travestido de Novo, mas em cortejo triunfal levava consigo o Novo e o exibia como Velho.

O Novo ia preso em ferros e coberto de trapos; estes permitiam ver o vigor de seus membros.

E o cortejo movia-se na noite, mas o que viram como a luz da aurora era a luz de fogos no céu. E o grito: Aí vem o Novo, tudo é novo, saúdem o Novo, sejam novos como nós! seria ainda audível, não tivesse o trovão das armas sobrepujado tudo.
Bertolt Brecht

O 8 de Janeiro: prenúncio de um desmoronamento

Há cerca de um ano, apoiadores fanáticos do presidente derrotado nas eleições de 2022, Jair Bolsonaro, atacaram as instituições da jovem democracia brasileira. A turba provocou incêndios, quebrou janelas, destruiu obras de arte, defecou em móveis históricos e quebrou aparelhos eletrônicos. A destruição estava por todos os lados no Congresso Nacional, no Supremo Tribunal Federal e no Palácio do Planalto, e os danos materiais chegaram à casa dos milhões de reais.

O que inicialmente parecia uma revolta espontânea de alguns milhares de fanáticos que conseguiram entrar nos edifícios devido a falhas das forças de segurança acabou se revelando uma ação organizada: financiada por empresários, fomentada através das redes sociais e tornada possível pela inação das forças de segurança, ela deveria instigar um golpe militar contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que tomara posse uma semana antes. Os criminosos foram acompanhados por meios de comunicação, como a emissora Jovem Pan, uma porta-voz do bolsonarismo, que tentou apresentá-los como "cidadãos preocupados".


Hoje as consequências da destruição não são mais visíveis em Brasília, e os acontecimentos foram amplamente esclarecidos. Muitos dos responsáveis ​​foram indiciados, muitos agressores estão atrás das grades, e a boa notícia é que a democracia do Brasil mostrou que sabe se defender. Suas instituições funcionam, especialmente o Judiciário.

Mas a pergunta fica: a democracia saiu realmente fortalecida ou aqueles acontecimentos são apenas o prenúncio de um desmoronamento que pode ser observado por todo o mundo. O ataque às instituições democráticas do Brasil não criou um consenso social de rejeição, mas ampliou ainda mais o isolamento do bolsonarismo. Hoje, mais do que nunca, os bolsonaristas acreditam que estão sendo perseguidos e oprimidos. É uma característica típica de todos os movimentos fanáticos.

Não há dúvida de que as democracias ocidentais são profundamente falhas. Nos EUA é preciso ser rico para ser eleito, e o sistema eleitoral não deixa espaço para vozes alternativas a democratas e republicanos, que já não são mais partidos políticos pulsantes de vivas ramificações sociais, mas representantes de poderosos interesses econômicos. Na Alemanha, ninguém chega ao topo se não tiver passado anos dentro de um aparato partidário que elimina todo o pensamento criativo e inusitado. No Brasil, o Congresso, composto predominantemente de homens ricos e brancos, não representa a população, mas os interesses das grandes empresas e da agricultura. Em todos esses três países, um Estado visto como elitista gasta grandes somas de dinheiro dos contribuintes. Mas especialmente no Brasil os cidadãos não recebem nada em troca de seus impostos.

É um dever histórico corrigir esses erros. Mas a chamada Nova Direita não quer reformar a democracia: quer destruir suas instituições e colocá-las a seu serviço. O perigo para a democracia vem de dentro. Do bolsonarismo no Brasil, do trumpismo nos EUA, da AfD na Alemanha. O novo presidente da Argentina, Javier Milei, até declara abertamente que quer colocar o país sob o estado de emergência para levar adiante seu programa de choque ultraliberal.

A ascensão desses homens e grupos tem muito a ver com a desierarquização da informação nas redes sociais. Hoje, qualquer pessoa pode alegar qualquer coisa e sempre vai achar alguém que acredite nela. Isso levou grandes setores da população a se desconectarem da realidade e serem levados pela manipulação – até porque muitos influenciadores nas redes sociais transformaram mentiras e provocações num modelo de negócio.

Um estudo publicado recentemente mostra que a maioria dos apoiadores de Bolsonaro continua vivendo numa bolha mais de um ano depois de ele ter perdido a eleição presidencial. Qualquer coisa que não corresponda à sua visão de mundo está errada. Os dados oficiais sobre o crescimento econômico, o declínio do desemprego e da inflação são desqualificados como propaganda porque não pode ser verdade que a economia esteja indo bem sob Lula.

Muitos brasileiros nunca aprenderam a questionar criticamente informações. Eles tanto mais acreditam em algo quanto mais fortemente isso reforçar uma determinada opinião ou sentimento já existentes. Não só no Brasil, mas especialmente no Brasil, os jovens não aprendem a interpretar criticamente um texto ou um filme: que eles criam uma imagem subjetiva da realidade, que perseguem uma intenção e utilizam diferentes meios retóricos e artísticos para consegui-la. A ausência dessa habilidade torna as pessoas extremamente manipuláveis, pois elas entendem tudo literalmente. A máquina de propaganda bolsonarista funciona sobre essa base, tal como a de Trump. Cada bobagem, cada meia verdade, cada mentira, cada difamação são celebradas.

Nenhuma democracia pode suportar isso por muito tempo, porque falta uma base comum para o debate. É impossível resolver problemas (tarefa primária da política) se não houver nem mesmo consenso de que existe um problema. Como é possível implementar medidas contra as alterações climáticas se um dos lados insiste que as alterações climáticas não existem? Historicamente, esse sempre foi o melhor caminho para o ocaso de qualquer sociedade.

Antigamente, conservadores e progressistas debatiam sobre a melhor forma de resolver problemas sociais. A nova e raivosa direita não está nem aí para resolver problemas. Ela quer é derrubar o sistema democrático, que afirma já não cumprir a vontade do povo, que ela representaria. Trump, Bolsonaro, Milei e a AfD não são conservadores ou direitistas clássicos que querem preservar alguma coisa. São revolucionários reacionários que querem destruir a estrutura social existente para erguer, sobre os escombros, uma nova, dentro da sua concepção.

É por isso que o 8 de Janeiro de 2022 não acabou, mas continua sendo uma ameaça.

O mundo que se gasta

Cada arma que é feita, cada navio de guerra lançado, cada míssil disparado significa no sentido final, um roubo daqueles que têm fome e não são alimentados, daqueles que têm frio e não têm roupas. Este mundo em armas não gasta dinheiro sozinho. Ele gasta o suor dos seus trabalhadores, o génio dos seus cientistas, as esperanças das suas crianças
Dwight D. Eisenhower

Netanyahu e Eichmann

Em 1960, o estado hebreu, por agentes do Mosad, quebrou a soberania da Argentina e sequestrou, em Buenos Aires, um criminoso de guerra alemão foragido. Secretamente, levou-o para Israel e, num julgamento midiático e de resultado previamente decidido, condenou-o e o enforcou. A banalidade do mal, é a expressão que passou a caracterizar não só os crimes contra a humanidade cometidos por Eichmann, mas também comportamentos semelhantes.


Ainda hoje o estado de Israel continua a quebrar regras internacionais e ignorar decisões da ONU. Sob a desculpa de combater o Hamas, age ilegalmente e bombardeia locais cheios de crianças, buscando exterminar os palestinos. Não admite que este seja seu propósito, mas é o que suas ações confirmam. E, buscando escudar-se no falso argumento de que quem critica o estado judeu é antissemita, segue a cometer genocídio.

Os EUA, cuja política externa, hipocritamente, tem na seletiva defesa dos direitos humanos um dos seus pilares, não só apoia essa brutal violência que viola direitos humanos básicos, mas a incita, pois fornece dinheiro, armas, munição e suporte diplomático! Isso, embora 60% dos norte americanos reprovem a brutalidade daquelas ações. Os crimes cometidos por Eichman foram distintos daqueles que Netanyahu e seus apoiadores, inclusive os políticos locais e de fora que lhe dão sustentação, estão a cometer, mas estes são crimes igualmente bárbaros, inumanos e covardes, pois baseados na força bruta contra pessoas indefesas, que têm morrido em quantidade muito mais elevada que os integrantes do Hamas!


Em meados do século passado, “os judeus eram concentrados em guetos (onde) … as condições de vida terríveis – excesso de pessoas, más condições sanitárias e falta de comida tinham como resultado elevada taxa de mortalidade”. Hoje, em Gaza, além dessas mesmas carências, há repetidos bombardeios, falta de remédios, de água e até mesmo de ajuda humanitária, já que o estado de Israel proíbe sua entrada. É ou não criminoso tal comportamento genocida?

É a banalidade do mal, praticada por estados que se dizem democráticos.

As evidências de que o comportamento do estado de Israel, assim como o dos EUA e aliados, apenas fará crescer mais ódios e novas guerras, são acachapantes. Ignorar tais evidências é sinal, indaga-se, de que somos governados pelo complexo industrial-militar-financeiro-propagandista-consumista, que mata e destrói as condições de sobrevivência em prol de lucros maiores?

Quando midiaticamente julgado em Jerusalém, Eichmann alegou não ser culpado, pois apenas obedecia a ordens. Netanyahu, quando, eventualmente julgado num tribunal internacional, fato infelizmente pouco provável, repetirá o argumento daquele que ajudou a matar milhões de judeus?

Embora primeiro-ministro, sabemos que os governantes, apesar de seus discursos, estão sempre a serviço de alguém, e só quem ganha – e o faz temporariamente, não por longo prazo – com a situação atual é exatamente aquele complexo, vale repetir, industrial-militar-financeiro-propagandista-consumista, cuja desarticulação é essencial à sobrevivência de todos nós!

quinta-feira, 4 de janeiro de 2024

Pensamento do Dia

 


E se 2024 fosse o ano da esperança?

Se examinássemos as redes sociais globais de 2023 e as do início de 2024, veríamos que a palavra mais escrita e pronunciada foi a de esperança por um mundo melhor.

Desejamos isso um ao outro, em todas as línguas, de ponta a ponta do mapa. Dias atrás, porém, foram identificadas 522 mil menções de que o mundo iria acabar. É verdade que no fundo de cada um de nós a esperança ainda está viva?

O psicanalista brasileiro Christian Dunker afirmou que “há um clima de esperança no ar”. Será verdade? Com duas guerras em curso e ameaças de outras possíveis no ar? Com o medo da catástrofe climática? Com o ressurgimento de uma extrema direita niilista? Com o medo imposto pelas novas descobertas de máquinas inteligentes? Com a raiva quase universal que se respira de Leste a Oeste?


A verdade é que a esperança nunca foi uma flor fácil de crescer. O pessimismo acaba sendo muitas vezes mais resistente que a pura realidade. O medo dos antigos continua, às vezes adormecido e às vezes vivo, profundamente dentro de cada ser humano. E também esperança? Sim. E é por isso que o mundo ainda existe e é por isso que desejamos um ao outro esperança e felicidade nas últimas horas.

Tudo isto me fez recordar os anos de jovem estudante de teologia, na década de 1950, em Roma, onde tive a sorte de assistir a algumas aulas do então famoso dominicano Garrigou Lagrange, considerado um dos maiores teólogos de todos os tempos. Um de seus alunos foi, aliás, o Papa polonês João Paulo II quando estudou em Roma. Para aquele teólogo francês, foi criada uma nova disciplina até então desconhecida: a da teologia mística.

Numa conversa pessoal que tive com ele numa tarde de agosto quente em Roma, ele me confidenciou que das três virtudes cristãs da fé, da esperança e da caridade, para ele a mais difícil de todas na sua vida tinha sido a esperança. Ele não me disse por quê.

Depois de tantos anos, aquela palavra banal de esperança surge sempre das cinzas como uma fênix para nos lembrar que a vida é mais forte que a morte. Daí as profecias religiosas de que a vida não acaba, apenas transforma.

Para aqueles de nós que apostamos não no fim do mundo, mas num futuro melhor para nós e para aqueles que nos seguirão, este 2024 poderá também surpreender-nos com o ressurgimento de novos motivos de esperança. E se as duas guerras em curso que ameaçam a paz mundial terminassem? E se a enigmática inteligência artificial que ainda nos assusta finalmente nos desse novas possibilidades no campo da medicina para vivermos mais e melhor?

E se daquela direita extrema e sombria que parece querer nos sufocar, surgisse uma nova política como contrapeso vestida de uma nova democracia despojada da corrupção que hoje a domina? E se finalmente aqueles que governam os destinos do mundo tomassem consciência de que estamos realmente envenenando o planeta e se dedicassem a salvá-lo com o que atualmente gastam em armas e em vergonhosos interesses pessoais?

Esperança é uma palavra difícil de digerir, imersos como estamos em profecias de hecatombes pessoais e universais. E, no entanto, não há outro caminho ou melhor aspiração para quem vai pegar no nosso bastão do que aquela aposta difícil e teimosa, que nos lembra a já famosa frase do físico e matemático Galileu Galilei: “Eppur si muove” [Contudo, move-se], pronunciado no final do julgamento a que foi submetido em 1633 pelo Tribunal da Inquisição ao defender que a Terra se move em torno do Sol.

Nesta minha primeira coluna do novo ano quero apostar, como o rebelde matemático italiano há mais de quatro séculos, que apesar de todo o pessimismo que parece abraçar o mundo, a esperança estará no seguimento da palavra mágica e libertadora que deveria ser escrito na porta de cada casa e no coração de cada um de nós.

O fracasso do 8 de janeiro

Em seu mais recente livro, Como Salvar a Democracia (Cia das Letras), Steve Levitsky e Daniel Ziblatt fazem uma comparação entre a reação dos Estados Unidos à invasão trumpista do Capitólio, em 6 de janeiro de 2021, e a do Brasil em relação à intentona bolsonarista de 8 de janeiro de 2023. Sua conclusão é surpreendente: “O Brasil rechaçou a sua mais recente ameaça à democracia, ao contrário dos Estados Unidos”.

Os autores relembram que os republicanos nos Estados Unidos defenderam e protegeram Donald Trump e até hoje, na sua grande maioria, não reconhecem sua derrota eleitoral. Aqui no Brasil o desenrolar da história foi diferente. Na mesma noite em que a vitória de Lula foi anunciada, os principais aliados de Jair Bolsonaro reconheceram a derrota de forma pública e inequívoca e posteriormente jogaram a pá de cal. “A direita brasileira também condenou vigorosamente a insurreição de 8 de janeiro”, dizem.

Estes episódios ressaltam a diferença de postura dos partidos da direita tradicional do Brasil e dos Estados Unidos. Enquanto a maioria dos líderes republicanos se recusa até hoje a aceitar publicamente os resultados da eleição de 2020, no Brasil o resultado da eleição de 2022 é uma questão pacificada. Outra diferença fundamental: os republicanos se empenharam para frustrar esforços do Congresso para impugnar e condenar Trump. Já no Brasil, Bolsonaro foi condenado pela Justiça Eleitoral, sem maiores contestações.

Assim, por incrível que possa parecer, os partidos e as instituições brasileiras deram uma resposta mais satisfatória do que os americanos. Como dizem os autores de Como Salvar a Democracia: Bolsonaro não chegou mais longe “porque as elites políticas e militares deixaram claro que não o apoiariam”.


Certamente essa não foi a causa única para o fracasso da tentativa de golpe que fez do 8 de janeiro o Dia da Infâmia, para utilizar a expressão cunhada pela ex-ministra do STF, Rosa Weber. Mas a conclusão de Levitsky e Ziblatt guarda sintonia com as palavras de Lula, pronunciadas no sua mensagem de Natal: “felizmente a tentativa de golpe causou efeito contrário. Uniu todas as instituições, mobilizou partidos políticos acima de ideologias, provocou pronta reação da sociedade.”

Isso não aconteceu nos Estados Unidos. Sua polarização até hoje é bem mais intensa do que a brasileira e paira sobre a democracia americana a ameaça de retrocessos face a resiliência da candidatura Donald Trump em 2024.

Uma das grandes causas para a intentona ter flopado foi a falta de uma ampla base social para o golpe. Seus arquitetos confundiram a votação expressiva de Bolsonaro como aval para a ruptura democrática. A base de sustentação para um golpe estava reduzida ao núcleo duro e radical do bolsonarismo. Governadores como Tarcísio de Freitas (SP) e Romeu Zema (MG) fizeram questão de, rapidamente, condenar o assalto aos três poderes da República.

Para entender sua derrota convém traçar um paralelo entre o Brasil do 8 de janeiro de 2023 com o de 31 de março de 1964. Naquela época, o golpe foi vitorioso por contar com uma base social de massas, principalmente na classe média, e por ter apoio de parte expressiva do Congresso Nacional, do empresariado e das Forças Armadas, como instituição. Basta citar um fato histórico. O cargo de presidente da República foi declarado vago pelo presidente do Congresso, senador Auro de Moura Andrade, quando João Goulart ainda se encontrava no território nacional.

Também a conjuntura internacional favoreceu o golpe, com o mundo dividido em dois blocos ideológicos e em plena guerra-fria. O Brasil estava na área de influência dos Estados Unidos, assim como a América do Sul. Daí o apoio dos americanos aos golpes do Brasil, do Uruguai, do Chile e da Argentina.

Todas essas condições faltaram à conspiração mal-sucedida do 8 de janeiro. O Supremo Tribunal Federal foi fundamental na contenção de incursões golpistas e na defesa da legalidade, das eleições e da democracia. Do mesmo modo se posicionaram os presidentes das duas casas legislativas, o empresariado, a sociedade civil e as instituições da República.

Se em 1964 os Estados Unidos tiveram um papel importante para a vitória do golpe, a história foi outra em janeiro do ano passado. O mundo atual é bem diferente da época da guerra-fria. Sinal dos novos tempos: o governo americano e seu presidente Joe Biden pressionaram para que o pronunciamento das urnas fosse respeitado, alertando para possíveis retaliações em caso de uma ruptura democrática no Brasil.

Pode-se especular se a história teria outro desfecho caso Donald Trump tivesse derrotado Joe Biden. Desde a Segunda Guerra Mundial, a doutrina militar brasileira tem identificação com a dos Estados Unidos e é impensável a modernização de nossas Forças Armadas sem a aquisição de materiais bélicos americanos. Mas certamente a posição de Biden contribuiu para nossos militares não ingressarem em tresloucada aventura.

Foi determinante o caminho seguido pelos militares desde a redemocratização de 1985, assegurando o mais longo período de nossa história republicana sem intervenções ou quarteladas. Ao se dedicarem até 2018 exclusivamente às suas funções constitucionais, as Forças Armadas se transformaram em uma das instituições mais respeitadas pelos brasileiros.

A infiltração do bolsonarismo nas Forças Armadas revelou-se mais profunda do que se imaginava, mas, apesar disso, não se viu a instituição envolvida no Golpe. Não houve um só movimento de tropas, apesar de o país ter 680 estabelecimentos militares. Isso demonstra a importância de ter uma cadeia de comando com controle da tropa e do estamento militar estruturado na hierarquia e disciplina.

Talvez esteja aqui um grande acerto de Lula. Observou o critério da antiguidade na escolha dos comandantes militares e escolheu um ministro da Defesa de perfil conciliador. A estratégia revelou-se correta. Em sua nota de Natal à tropa, o comandante do Exército, general Tomás Paiva, deixou claro que quer sua tropa focada “em coisa de soldado”, deixando a política de fora dos quarteis.

Voltando a Steve Levitsky e Daniel Ziblatt, talvez os autores de Como Salvar a Democracia tenham sido exageradamente otimistas na leitura de como superamos uma das mais graves ameaças à nossa democracia, desde o fim do regime ditatorial. Mas é alentador ler as palavras de um general entrevistado por Miriam Leitão: “Não pode haver essa percepção de que o Brasil pode ter um retrocesso que não cabe mais no século XXI. Os problemas da democracia se resolvem na democracia”.

País dos indesejáveis


Quando você está do lado dos indesejáveis, você é indesejável também
Padre Júlio Lancellotti

Quando as comidas nos comem

Quando eu era jovem e metido a teórico da vida social, escrevi no livro “Carnavais, malandros e heróis: para uma sociologia do dilema brasileiro”, em 1979, que havia três modos de ritualizar. O primeiro, reforçando os elos sociais existentes; o segundo, neutralizando vínculos estabelecidos; e o terceiro — certamente o mais divertido e contraditório —, invertendo rotinas e fazendo tudo ao contrário. Cantar, em vez de discursar; desfilar dançando, em vez de trotar firme para o emprego; beber, pular e ficar “sem fazer nada”, em plena liberdade, em vez de trabalhar; e, por fim, mas não por último, instituindo o Rei Momo como desgovernante, esquecendo esses nossos administradores estadomaníacos, dedicados a desmanchar o feito e fazer desmanchando, com a conhecida ineficiência e o gozo dos privilégios de seus cargos.

No primeiro caso, vivemos solenidades; no segundo, lutos, despedidas e rejeições; no terceiro, revoluções e rebeliões que, no caso brasileiro, se concretizam em carnavais e nessa festa ou ritual de passagem do ano velho para o ano novo. Trânsito carnavalesco e musicado que acasala a fluidez do tempo que passa invisível e incessante com a música que, num sentido profundo, o imita, ajudando a esquecer frustrações.


Esse fazer pelo avesso — vestir uma fantasia, comer coletivamente uma mesma comida numa comunhão de corpos e almas — inventa esses tempos que acabamos de viver. Tempos especiais quando abandonamos o que fazemos rotineira e “naturalmente”, para oferecer presentes e comidas especialmente preparadas, que devem ser obrigatoriamente degustadas. Esses pratos especiais imperativos e irrecusáveis — tortas, assados, nozes, passas que viram “comidas” especiais — são comidas que nos comem!

Tal como o bolo de aniversário do Marquinho (que docemente representa sua pessoa) tem que ser comido e — claro está! — come e, dessa maneira, congrega seus convidados.

Essa abertura para o outro e o gentil canibalismo de ser comido pela comida que se come são centrais na ceia do Ano-Novo.

Ela é vital na reinvenção do tempo. No caso brasileiro, é evidente o papel da comida em encontros ritualizados em que a mesquinhez política e a sovinice do economizar cedem lugar ao “dar” presentes — “lembranças” e comidas ao lado do abrir a porta da casa, indo além dos parentes que comungam conosco sendo comidos — repito — pela mesma comida. A comensalidade vira pelo avesso diferenças, como já havia demonstrado William Robertson Smith em seu clássico estudo da comensalidade entre os semitas.

Tempos natalinos e carnavalescos são tempos, reitero, de gastar em vez de economizar e do desfilar exibicionista no lugar de trabalhar sem louvor e recompensa equitativa. Neles, o arroz com feijão comido em família de olho na dieta é cerimonialmente substituído por pratos afinados com o “tempo”.

A bacalhoada suculenta da Mara, o irresistível (e complicado) peru de Natal do Mário de Andrade, os pavês e rabanadas obrigatoriamente comidos pelos convidados que transformam a “mesa” da família numa espécie de “távola redonda” vestida com a melhor toalha, sobre a qual ficam expostos os “pratos” que nos canibalizam porque são obrigatoriamente comidos e, no calor da comensalidade, nos devoram. São eles que nos comem, fazendo com que o “comer pra viver” vire o pantagruélico “viver pra comer”.

A inversão legaliza passar do egoísmo ao altruísmo de uma “educada” hospitalidade e de tudo o mais que “devemos” aos convidados. Alguns deles, por sinal, nossos opositores no estúpido pantanal da “política”.

No ritualizar, o abandono das rotinas — daquilo que fazemos “sem pensar” ou “naturalmente” — é central. Por meio dessa inversão, reiteramos afeto e encapsulamos o tempo. Mudar rotinas, passando do trabalho à festa, ajuda a sentir o tempo que, como a água, não pode ser cortado. Mas pode ser, como acabamos de experimentar, aprisionado nos calendários.

Curioso, todavia, assinalar que capturamos o invisível tempo e passamos de um ano a outro, mas não conseguimos mudar o velho Brasil concreto e vexaminoso na sua estadopatia geradora da pobreza que sustenta o populismo e a corrupção.

terça-feira, 2 de janeiro de 2024

Pensamento do Dia

 


Só o seguro morre de velho

O ano acabou de começar e já é longa a lista de tarefas para governo, oposição, justiça e sociedade. Começando por nós, o público, cuja missão primordial será a de cobrar dos candidatos e de todos os envolvidos na eleição municipal, mais atenção à vida nas cidades e menos aposta na briga de torcidas políticas.

Há muito a cuidar e não só naquilo que diz respeito direto a prefeitos e vereadores, que são a base da escolha seguinte, em 2026, de governadores e presidente da República. Por ora, a economia vai razoavelmente bem administrada, mas a insegurança, a violência, a criminalidade estão descontroladas.


Embora seja essa uma das maiores preocupações apontadas pela população nas pesquisas, o poder central dedica a ela atenção pontual e paliativa. Não por acaso 50% dos consultados avaliam o primeiro ano de Lula 3 como ruim ou péssimo na área. Some-se o índice de 29% de avaliação regular e temos praticamente 80% das pessoas insatisfeitas.

A alegação formal para não levar o problema "para dentro do Planalto" é a responsabilidade constitucional dos estados. Sim, mas e o dever também constitucional do Estado de garantir o bem-estar e assegurar o direito de ir e vir?

Sem liderança, coordenação, recursos e empenho do governo federal o monstro da insegurança não vai parar de crescer como cresceram à vista de todos os territórios dominados pelo narcotráfico e pela milícia no Rio de Janeiro e as facções criminosas nos presídios do Brasil inteiro.

Ao contrário do que sugerem os "espertos" da política, conselheiros da distância prudente, é imprescindível que um presidente leve a questão da segurança pública para dentro do Palácio do Planalto.

Até agora nenhum deles o fez. O governante que se mostrar à altura desse urgente desafio prestará ao país serviço semelhante ao do combate à inflação nos anos 1990 e terá, em benefício da própria biografia, construído um bom legado.

O país que esquece Bolsonaro, pouco a pouco

Há um ano, Luís Inácio Lula da Silva prometia “cuidar” das pessoas e “reconstruir o país” depois de “anos de devastação”. A esperança, para os que deixaram o Brasil durante a presidência de Jair Bolsonaro e para muitos que ficaram, foi imediata.

Ao fim dos primeiros dias, com a invasão da Praça dos Três Poderes, em Brasília, percebeu-se que o regresso não seria um passeio no parque. A fasquia estava alta para um Presidente que passou 580 dias na prisão, acusado de corrupção passiva e lavagem de dinheiro, e que indirectamente abrira espaço à ascensão de um político populista.


Mas Bolsonaro foi-se eclipsando à medida que os meses passaram, muito fustigado por processos e decisões judiciais que acabaram por colocá-lo num pousio forçado de oito anos, durante os quais estará impedido de concorrer ao Palácio do Planalto ou a outros cargos políticos. O que não se eclipsou foi o bolsonarismo, que continua vivo e tem ambições.

Isso significa que as divisões numa sociedade que estava excessivamente polarizada não foram ultrapassadas neste último ano, mas também não impediram o Governo de Lula de obter algumas vitórias políticas. A recente reforma tributária, o “arcabouço fiscal” e a consequente subida do rating da dívida brasileira foram boas notícias que o Presidente pode agradecer a Fernando Haddad, o seu ministro das Finanças.

As más (notícias), que também as houve, Lula pode agradecê-las a si próprio. As que tiveram maior repercussão recordam-se através de duas frases do próprio: 1) “Posso dizer que se eu for Presidente do Brasil e ele [Vladimir Putin] vier ao Brasil, não há nenhuma razão para ele ser preso” (proferida após a emissão de um mandado de captura internacional em nome de Putin) e 2) “É preciso que os Estados Unidos parem de incentivar a guerra e comecem a falar em paz” (dita no final de uma visita à China).

As posições sobre a Ucrânia, que Lula da Silva se esforçou por explicar e normalizar, tiveram efeitos até em Portugal, ofuscando as celebrações do 49.º aniversário do 25 de Abril, que coincidiram com a visita do chefe de Estado a Lisboa — quem não recorda o espectáculo dos deputados do Chega a interromperem o Presidente brasileiro a cada oportunidade?

Um ano depois do regresso de Lula, o mundo fará balanços e avaliações, lembrará as conquistas e as derrotas, as promessas cumpridas e as que ficaram no papel. E o Brasil, esse, será cada vez mais o país que esquece Bolsonaro, pouco a pouco

A profecia de Lima Barreto

"Os Bruzundangas" foi publicado há 101 anos. Nele Lima Barreto zombou das patologias políticas que afligiam o país. A crítica acerba é surpreendentemente atual. Basta ler o noticiário sobre os Três Poderes. O presidente, que em Bruzundanga se chamava Mandachuva, cooptava todos a sua volta. Não havia oposição.

Lima alertava: "Toda a vez que um artigo desta Constituição ferir os interesses de parentes de pessoas da 'situação' ou de membros dela fica subentendido que ele não tem aplicação no caso". "Na constituinte, todos esperavam ficar na ‘situação’, de modo que o artigo acima foi aprovado unanimemente." E acrescentava: "Se algum recalcitrante, à vista de qualquer violação da Constituição, apelava para a Justiça (que lá se chamava Chicana), logo a Corte Suprema indagava se feria interesses de parentes de pessoas da situação e decidia conforme o famoso artigo."


Mas havia um paradoxo aí. "Como todo o mundo não podia pertencer à ‘situação’, os que ficavam fora dela, vendo os seus direitos postergados, começavam a berrar, a pedir justiça... Se eram vitoriosos, formavam a sua ‘situação’" e começavam a fazer o mesmo que os outros. Havia apelo para a "’Chicana’, mas a Suprema Corte, considerando bem o tal artigo já citado, decidia de acordo com a 'situação’".

E, sim, havia os privilégios: "Não há lá homem influente que não tenha, pelo menos, trinta parentes ocupando cargos do Estado; não há lá político influente que não se julgue com direito a deixar para os seus filhos, netos, sobrinhos, primos, gordas pensões pagas pelo Tesouro da República".

E também isenções, tarifas e regras especiais: "Um certo governador, grande plantador de café, verificando a baixa de preço que o produto ia tendo, de modo a não lhe dar lucros fabulosos, proibiu o plantio de mais um pé que fosse da preciosa rubiácea. Houve então um cidadão que pediu habeas corpus para plantar café. A Suprema Corte, à vista do tal artigo citado, não o concedeu, visto ferir os interesses do presidente da província, que pertencia à ‘situação’".

O diálogo entre Mandachuva e o ministro do Tesouro, Doutor Karpatoso, mostra como se resolvia o déficit público:

— O orçamento fecha-se sempre com déficit. Este cresce de ano para ano... Tenho que satisfazer compromissos no estrangeiro... Espero que você me arranje um jeito de aumentarmos a receita.

— Não há dúvidas! Vou arranjar a cousa!. E triplicou os impostos.

Complacência do Judiciário, privilégios, isenções, déficits. E mais: banquetes, tertúlias e homenagens eram tão comuns que Bruzunganda criou sua própria Guarda do Entusiasmo, com dez mil homens, dedicada a festejar magistrados, políticos, personalidades!
Marcus André Melo

Uma lista de desejos

Desde muito, a virada do ano é marcada por promessas de mudanças pessoais. Imagino como isso deve ter mudado em tempos de hoje.

Vivemos sob um bombardeio de conselhos. Já falei sobre um aspecto deles, uma espécie de terrorismo alimentar que combate tudo, desde açúcar e ultraprocessados até o leite, o pão, a lactose e o glúten. Esse bombardeio fez o pão nosso de cada dia virar o pão que o diabo amassou. Impressionante, a julgar pelas advertências, observar como a humanidade sobreviveu, sobretudo depois de Cristo ter multiplicado o pão.

Outro dia, um desses gurus alimentares confessava na rede que toma dez comprimidos de suplemento alimentar antes do café. Não fica claro para que café da manhã, depois de tanto comprimido. Os suplementos são a outra face do bombardeio: ômega 3, magnésio, cúrcuma, creatinina, vitaminas — é uma lista interminável.

Tenho visto também nas redes sociais o grande número de pessoas dizendo o que fazer para sermos felizes. Há algumas senhoras bem vestidas, gurus indianos com seus turbantes, todos garantindo que existem três, quatro ou às vezes até sete conselhos que mudarão nossa vida. Usando tática muito comum na internet, dizem que o último conselho é o mais surpreendente. Assim tentam reter nossa atenção até o fim.

Outro dia, vi uma senhora dizendo que um bom princípio era este: se não te disserem, não pergunte. Levado a sério, isso seria a ruína da profissão de jornalista.

Decidido a levantar nosso moral no Instagram e no TikTok, um guru indiano com turbante e longas barbas brancas diz que estarmos vivos é um milagre. Todos os dias morrem 250 mil pessoas no mundo. Quando olhar o relógio, não veja apenas as horas, mas celebre o fato de estar vivo.

Tenho um velho relógio, que costuma atrasar de três a cinco minutos. Quando sigo os conselhos do guru e vejo as horas, não sei se estou realmente vivo ou se morri há uns minutos atrás.

Todo esse novo batalhão de conselheiros não significa que as pessoas não tenham seus projetos íntimos e pessoais. É importante que os toquem para a frente, na ilusão de que a passagem de ano realmente seja um marco renovador. É algo que faz bem, desejar felicidades, organizar a vida para que ela venha. Estou de pleno acordo com o otimismo do Ano-Novo.

Devo cuidar também da minha lista. Acontece que já são um pouco mais de 80 viradas. A margem de manobra é mais estreita. Creio que, por uma questão de esperança, adotarei aquela velha tática dos antigos países comunistas e farei planos quinquenais. É um tempo razoável para esquecer os principais tópicos e, além de tudo, aqueles planos quinquenais nunca funcionaram mesmo.

Gostaria de não perder mais canetas. E de criar um sistema de inteligência sofisticado para evitar que elas se articulem com os óculos e as chaves e desapareçam ao mesmo tempo, numa ação coordenada destinada a me enlouquecer.

Gostaria também de seguir viajando, mas criar um avatar que me substitua nas longas esperas em aeroportos. Nada contra elas, mas cansam mais que o próprio voo. Poderia ser substituído por um coelho que hesitasse muitas vezes diante do portão, até que finalmente encontrasse o lugar certo. Quase nunca é o previsto.

Outro item importante na lista: se quero combater a polarização que divide o país, tenho de começar a combatê-la dentro de casa. Há duas gatas que não se entendem, às vezes se pegam ruidosamente na sala e deixam tufos de pelo no chão. Como convencê-las de que são da mesma espécie, há comida e carinho para todas?

Na verdade, meu plano quinquenal, ainda que com muitas derrotas e atropelos, será plenamente vitorioso se chegar ao fim. Num caminho tão longo, há muitas coisas repetidas, muito déjà-vu, e, quando me pedirem para comentá-las, usarei apenas um lado da lição de meu guru indiano:

— Desculpe, mas morri cinco minutos atrás.