sábado, 8 de abril de 2017

As fanfarrices de Lula

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O ex-presidente Lula agora faz proselitismo em horário nobre de TV. Diz que a economia piorou depois que o PT saiu do poder e que tudo pode voltar às mil maravilhas – se o Partido (claro!) recuperar o controle do Planalto. Quem ainda pode acreditar nas lorotas desse senhor, réu em cinco processos, metido num emaranhado inominável de esquemas, que não cansa de cometer atentados aos fatos em prol de uma ambição desmedida? Com a cara mais lavada do mundo, mirada solene, tal qual um restaurador da ordem, cabelos meticulosamente para trás, cada fio em seu lugar, vestindo terno de fino corte, Lula aparece na telinha para exercer o conhecido apego a falácias no intuito de convencer incautos. Alardeia um mundo de fantasias, de programas de educação e saúde que redundaram em rotundos fracassos, com estouros de verbas e pífios resultados, aqui e ali resvalando na corrupção. Vangloria-se da criação de mais de 22 milhões de empregos na era petista (de onde ele tirou esse número?) quando, na prática, o rastro de destruição deixado pela agremiação gerou um saldo de quase 13 milhões de desempregados. Vende exuberância e prosperidade. Abusa de demagogias populistas. Escora-se na propaganda e marketing pessoal, mesmo para tapear, como a alma do negócio. Ele nem toca no assunto dos erros que levaram à pior e mais longa temporada de recessão de nossa história. No conjunto, Lula e Dilma, durante mais de 13 anos, erigiram uma máquina de desperdício, inépcia e ineficiência. Como dar lições de moral com esse currículo? É bom revisitar sistematicamente as chagas abertas nas gestões do PT, para nunca esquecer. De sua lava saíram o “Mensalão”, o “Petrolão”, o aparelhamento sindical do Estado com apaniguados e inexperientes compadres a consumir recursos e saúde das empresas estatais. Quebraram quase tudo. Inviabilizaram as contas da União. Saquearam a riqueza dos brasileiros. Ninguém quer o retorno a esses tempos de tragédia. Qualquer pessoa minimamente informada sente a virada de expectativas desde a recente troca de comando em Brasília. Mas Lula não se cansa de pintar com imagens mais sutis, mais benevolentes e menos reais, os feitos petistas. Se esquece, ou desconsidera propositalmente, que a inflação só começou a cair após a deposição da pupila Dilma. Que os investimentos estão, aos poucos, retornando. Bem como a produção industrial, o financiamento em conta, os juros civilizados, os gastos públicos disciplinados no limite do orçamento. Não precisa ir longe para recordar a marcha da insensatez na qual nos metemos. Em apenas dez meses de lá para cá, mudaram os indicadores, as decisões e planos monetários, os objetivos de governo que hoje luta por reformas estruturais para consertar os estragos deixados e os vícios de origem. Lula ataca as reformas – especialmente a da Previdência – no intuito de sabotar o Brasil. Não pensa no que é melhor para o País. Apenas nele mesmo e em suas costuras eleitorais. Atalho para (quem sabe!) livrá-lo das punições da Justiça. O ex-presidente posa de paladino, de “salvador da pátria”, em um figurino surrado e de baixo crédito. Fala o que lhe dá na telha. Como, aliás, sempre fez, sem medir consequências. E articula as peças do seu tabuleiro em proveito próprio. Repetiu a tática mais uma vez há poucos dias na escolha do candidato a presidir o Partido. O cacique estava mais propenso pela senadora paranaense Gleisi Hoffmann e tentou dissuadir o ex-líder estudantil carioca, Lindbergh Farias, a desistir da pretensão. Sem sucesso. Abriu um racha nas bases. Nada que o lulopetismo não seja capaz de contornar. Tarefa, com certeza, menos inglória do que a de convencer milhões de brasileiros de suas boas intenções numa eventual volta ao governo.

Conta que não fecha

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Ninguém sabia e continua sem saber quantos presos há no país. Se não há dados, não há como fazer planos. O que temos hoje ainda é um conjunto de achismos
Paulo Rabello, presidente do IBGE

Brasil tem 19 entre as 50 cidades mais violentas do mundo

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O Brasil foi o país com o maior número de cidades entre as 50 mais violentas do mundo em 2016, segundo a lista divulgada nesta quinta-feira (07/04) pela ONG mexicana Conselho Cidadão para Segurança Pública e Justiça Penal. O país possui 19 municípios no ranking.

"Das 50 cidades da lista, 19 estão no Brasil, oito no México, sete na Venezuela, quatro nos Estados Unidos, quatro na Colômbia, três na África do Sul, duas em Honduras, uma em El Salvador, uma na Guatemala e uma na Jamaica", afirmou a ONG.

Na décima posição no ranking, Natal é a cidade mais violenta do país, com 69,56 homicídios por 100 mil habitantes. O município é seguido por Belém e Aracaju.

A lista inclui ainda Feira de Santana (15º), Vitória da Conquista (16º), Campos dos Goytacazes (19º), Salvador (20º), Maceió (25º), Recife (28º), João Pessoa (29º), São Luís (33º), Fortaleza (35º), Teresina (38º), Cuiabá (39º), Goiânia (42º), Macapá (45º), Manaus (46º), Vitória (47º) e Curitiba (49º).

Com 130,35 homicídios por 100 mil habitantes, Caracas, na Venezuela, aparece no topo do ranking das mais violentas do mundo, seguida por Acapulco, no México, e San Pedro Sula, em Honduras. Segundo a ONG, a repetição da posição da capital venezuelana por dois anos seguidos confirma a crise criminal no país.

Em relação a 2015, duas cidades brasileiras deixaram o ranking no ano passado: Porto Alegre e Campina Grande.

Segundo a ONG, os níveis de violência na América Latina não são uma surpresa e refletem a impunidade. No Brasil, ela atinge 92% dos homicídios, na Venezuela, El Salvador e em Honduras, chega a 95%.

A lista da ONG é baseada no número de homicídios por 100 mil habitantes e analisa municípios com mais de 300 mil habitantes.

Ganância e obscurantismo dos políticos brasileiros

A Lava Jato tem exposto o submundo da República, causando perplexidade pela conduta criminosa de autoridades, em todos os setores do Estado. São tantos desmandos que poucos políticos têm merecido a confiança de cidadãos honestos para permanecer no cargo. Assim, temendo as eleições de 2018, os parlamentares atuais estão inventando mecanismos de autoproteção, como o voto em lista fechada, a anistia do caixa 2, a censura às redes sociais e o projeto de abuso de autoridade.

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Este é o mais nefasto porque agentes públicos querem cercear a atuação de outros agentes públicos do mesmo Estado, ameaçando-os até com cadeia, simplesmente porque esses servidores têm apresentado resultados efetivos ao prender criminosos, dar ciência aos cidadãos dos conchavos nocivos e recuperar o dinheiro desviado. Essa situação torna-se surreal porque a repressão aos crimes não tem inibido a rapinagem; surgem, frequentemente, novas denúncias de pilhagem da riqueza nacional, enquanto os serviços essenciais para a população ficam mais deteriorados, diante do empobrecimento do país.
Torna-se indispensável, portanto, questionar por que muitos mandatários premiados pelo voto popular optaram pela corrupção, ignorando seus eleitores e descartando suas promessas durante a campanha. Tendo recebido a nobre incumbência de promover o desenvolvimento de uma nação com excelente potencial, seriam louvados através dos tempos, mas preferiram aumentar ilicitamente seu patrimônio, enquanto demonstram empáfia para tratar os cidadãos comuns, como se tivessem poderes imperiais para saquear o patrimônio público, arduamente formado nos últimos 200 anos. Sua ganância é insaciável, embora saibam que receberão em troca ressentimento e desprezo da comunidade.

Por que preferem esse caminho? Não se acanham de usufruir uma vida nababesca, enquanto veem, da varanda de suas mansões, mendigos que reviram o lixo à procura de algo para comer? Não se constrangem de saber que milhares de doentes estão estendidos no chão de hospitais públicos sem atendimento digno? Não se angustiam ao ver imagens pela televisão de jovens com politraumatismo, crianças esquálidas com diarreia, gestantes em trabalho de parto, idosos caquéticos e homens devastados pelo câncer?

Essa opção é mais inexplicável porque são os políticos desonestos que estão fomentando o atraso, a ignorância, o desconforto e a insegurança em torno de si mesmo e de suas famílias. Eles vão continuar vivendo em meio a cenas deprimentes de miséria, o que comprometerá seu bem-estar e inviabilizará o futuro de seu país. Está aí seu obscurantismo, porque, tendo as melhores oportunidades para escrever suas biografias em benefício de todos, eles fomentaram sua ambição.

Quando menos esperarem, sofrerão as consequências de uma sociedade ignorante, mal qualificada para o trabalho, fragilizada por inúmeras doenças e ressentida pelo engano de votar em gente tão mesquinha, individualista e desonesta.

sexta-feira, 7 de abril de 2017

Perguntas da rua

Numa entrevista de TV com a escritora norte-americana Sarah Chayes, estudiosa da corrupção e autora do livro 'Ladrões do Estado', o repórter Luis Fernando Silva Pinto perguntou mais ou menos assim: “Uma sociedade tão atingida pela corrupção tem condições de superar isso?”. Chayes respondeu que eram muito poucos os casos de sucesso. Mencionou o Peru, que depois de Fujimori se recuperou, assim mesmo de forma modesta. De fato, houve uma recuperação no Peru, apesar de a Odebrecht ter envolvido ao menos um ex-presidente nas teias da corrupção, Alejandro Toledo. A pergunta que se faz nas ruas é mais simples, mas vai na mesma direção do repórter: o Brasil tem jeito?

Sandra Chayes enumerou uma série de qualidades do País: capital humano, criatividade, energia. E concluiu que sim, o Brasil teria condições de oferecer esse exemplo de superação ao mundo.

Embora as ruas ainda não sintam a chegada do crescimento econômico, surgem sinais positivos e hoje muitos especialistas acham que o Brasil está reencontrando o seu rumo.


Se o front econômico realmente dá sinais visíveis de melhora, as expectativas vão se concentrar nas mudanças políticas. Nesse campo o desafio é gigantesco. Será preciso acionar todas as nossas qualidades e neutralizar os principais defeitos para obter a conquista de dimensão internacional.

Uma verdadeira reforma política só é possível com presidente e Parlamentos eleitos. A legitimidade não basta, é preciso que uma transição prepare o caminho para os vencedores.

De que adianta um novo presidente não querer fazer barganhas, se terá uma miríade de partidos para negociar?

No passado, a cláusula de barreira era um obstáculo para o surgimento de novos partidos com conteúdo político. Mas eles já tiveram seu tempo de conquistar representatividade nacional. Hoje a redução do número de partidos é uma necessidade superior, pois o presidencialismo de coalizão foi para o brejo.

Com tantos marqueteiros enredados com a Justiça, já era tempo de perceber que existe algo errado com o chamado programa eleitoral gratuito. A transformação de um programa político em espetáculo de TV é muito cara. Se os partidos se contentassem com algumas vinhetas, poderiam passar suas mensagens pela TV, desenvolver o debate na internet e, ao mesmo tempo, realizar intervenções eficazes e baratas. Desde que tenham algo a dizer.

As eleições de 2018 serão um processo de depuração. Mesmo que se consiga derrubar o foro privilegiado, é muito possível que o julgamento dos eleitores chegue antes do veredicto dos juízes. Em algumas circunstâncias, os eleitores podem absolver políticos corruptos. Nesse caso, resta confiar na Justiça, pois a aprovação popular não se sobrepõe à lei.

Todas essas possibilidades serão mais bem avaliadas depois que alguns impasses forem superados. O sigilo sobre o conteúdo das delações premiadas é um deles. Enquanto não sairmos do período que se encerra com todos os dados na mesa, o debate sobre o futuro próximo é um pouco capenga.

Alguns acham que os políticos tentarão um ato defensivo para se protegerem da Lava Jato, com a lei do abuso de autoridade. Duvido que consigam emplacar punições contra a interpretação da lei. Se o Supremo aceitar uma lei assim, será difícil até de explicar suas sessões televisionadas em que vemos tantas visões diferentes num choque salutar.

Duvido que consigam a votação em lista fechada, algo que funciona em países em que os partidos ainda gozam um nível de respeito. No Brasil seria um desastre.

Não há dúvida, entretanto, de que os políticos vão fazer tudo para manter o status. Alguns analistas acham até compreensível que num ato de desespero eles tentem mesmo um golpe contra a Lava Jato.

Um Parlamento que tenta sobreviver legislando em causa própria está cavando seu túmulo. E cavará seu túmulo errando o timing.

O primeiro julgamento será dos eleitores. Não é inteligente construir um escudo contra a Lava Jato com os traseiros expostos para as flechadas populares.

Existe um potencial de renovação em 2018. As pesquisas têm indicado forte rejeição ao políticos. Alinho esses fatos para fortalecer a tese de Chayes de que o Brasil pode dar a volta por cima e iniciar uma nova fase.

Nas ruas percebo a sensação de que algo vai mal, não deu certo, e uma dúvida sobre a capacidade de recuperação nacional. Alinho algumas ideias para fortalecer a tese de Chayes de que há um caminho possível de recuperação, apesar de ser algo bastante singular essa volta por cima. Um pouco pelo desejo de ver começar uma etapa, um pouco com uma dose de otimismo, que, aliás, está presente na entrevista de Chayes.

A esperança sozinha, divorciada dos fatos, não resolve nada. No entanto, se as expectativas forem corretas, ela é um elemento indispensável na resposta ao problema em que estamos metidos há algum tempo: como sair dessa maré. A resposta que dou na rua continua a mesma: é difícil, mas não impossível. Mas se a economia dá sinais de retomada e o caminho da reforma política for aplanado para 2018, aí, então, poderemos dar passos mais largos para nos tornamos um país que sobreviveu a um nível devastador de corrupção.

Toda essa expectativa depende de muitos fatores imponderáveis. O PMDB do Nordeste iniciando um movimento desagregador, tendo à frente Renan Calheiros, em princípio é apensas uma reação à impopularidade das reformas. Mas é também uma aproximação com Lula, que tem votos no Nordeste.

Na verdade, é uma resistência regional que parte dos lugares onde o PT é mais forte e alguns políticos simplesmente não podem perder as eleições, porque a Lava Jato está esperando de boca aberta. Se implodirem o governo, vão se deliciar com o estardalhaço. Mas o problema nacional continua. Eles até têm uma força destrutiva. Mas faltam energia e perspectiva para construir a nova situação. Teríamos perdido tempo, mas não a esperança.

Fernando Gabeira

Quem tem medo da verdade?

Aposentadorias e “Benefícios de Prestação Continuada” (BCPs) pagos a funcionários “incapacitados” representam 54% do gasto da União. A folha do funcionalismo ativo, outros 41%. Sobram 5% para financiar todos os investimentos públicos. Nos Estados e municípios é tal a fome dos marajás que nem para pagar a parcela do funcionalismo que, bem ou mal, de fato “serve” ao público tem sobrado.

A carga de impostos é de 36% do PIB e o déficit, de pelo menos outros 10%. São 46% do PIB, mais de R$ 2,5 trilhões, apropriados anualmente pelo Estado, R$ 2 trilhões e 375 bilhões dos quais (95%) consumidos com salários, aposentadorias, pensões, bolsas e quejandos. Um oceano dentro do qual tudo quanto se roubou em todos os anos investigados pela Lava Jato e, provavelmente, nos séculos 20 e 21 somados, ou talvez, até, de 1500 até hoje, vira uma gota ou, vá lá, um balde d’água.

Não é preciso mais nada para explicar por que estamos arrebentados. Um simples olhar para as parcelas dessa conta basta, também, para tornar instantaneamente lógica a aparente confusão política em que vivemos. Quinze dias atrás Marcos Mendes e Mansueto Almeida, secretário de Acompanhamento Econômico da Fazenda, publicaram na Folha de S.Paulo extenso artigo destrinchando aspectos centrais da reforma da Previdência. Todo servidor se aposenta com 100% do que ganhava no último dia de trabalho, coisa inédita no mundo. (Na verdade, costumam ter uma ou duas “promoções” pouco antes de cruzar a linha aos 50 anos.) Com 30 anos ou mais pela frente de puro desfrute, camadas sucessivas se vêm acumulando. Todas essas aposentadorias têm sido “reajustadas” muito acima da inflação junto com os salários dos servidores ativos (estes com aumentos contratados até 2020, no meio do pânico do resto do Brasil). Já os súditos no País real “se aposentam” com 70% do último salário (que paga imposto a partir de R$ 2 mil e pouco) e continuam trabalhando até morrer, pois se já viviam no limiar da miséria com 100%, que dirá com 70%. Essa situação é tão generalizada que o governo está criando o Regime Especial para o Trabalhador Aposentado, isentando o trabalho na velhice de alguns impostos. Aposentadoria “por tempo de serviço” aos 50 anos é, portanto, um luxo exclusivo dos donos do Estado. A maioria se aposenta antes disso, aliás, graças aos “regimes especiais”, mais uma das inúmeras formas de roubo legalizadas com que nos sangram, exatamente semelhante aos “auxílios” e outros apelidos que dão a pedaços do salário para aumentá-lo além do teto e sonegar imposto, só que aplicado ao tempo contado para se aposentar.

Pensões por morte são outro luxo hereditário exclusivo do marajalato. Custam 3% do PIB no Brasil, quando o padrão mundial é abaixo de 1%. 32% dessas pensões são pagas a funcionários que já recebem aposentadoria. 73% vão para apenas 30% dos domicílios, todos na categoria dos de maior renda do Brasil. O gasto com “Benefícios de Prestação Continuada” pagos a “incapacitados”, valendo em média dez Bolsas Família cada, cresceu de R$ 14 bilhões em 2003 para R$ 49 bilhões em 2016. A maior parte foi conseguida por ação judicial, dispensando, portanto, a evidência de dedos ou membros faltantes ou outras deficiências perceptíveis a olho nu. Só juízes, mais de 10 mil dos quais recebem acima do teto constitucional e, frequentemente, salários acima de seis dígitos, e “peritos judiciais” foram capazes de “enxergá-las”. 43% dos BPCs pagos vão para a faixa dos 40% mais ricos do Brasil.

Vai por aí o escárnio e, por essas e outras, a maioria dos servidores públicos federais está na faixa dos 1% mais ricos do Brasil e quase nenhum está aquém dos 5% mais ricos. Isso antes de contar as frotas de jatos, as dezenas de milhares de automóveis, os planos de saúde eternos e as mordomias mil que a favela paga para os palácios.

Uns poucos, muito poucos, entre esses abusos seriam coibidos pela reforma da Previdência proposta por Michel Temer, que, por ter ousado tanto, está, com todos os seus “negociadores” de reformas no Congresso, varejado de delações e a um passo de ser apeado da Presidência.

O problema brasileiro é “biodegradável”. Expostos os dados ao sol, a única resposta decente, a única resposta aritmeticamente possível, impõe-se por si só. A sobrevida da “privilegiatura” depende estritamente, portanto, de mantê-los escondidos sob uma barragem o mais ruidosa possível de mentiras. Não é por outra razão que a luta pelo poder se tem resumido à luta pelo controle dos meios de difusão de “narrativas”, o novo nome da mentira, seja pela martelação da discurseira sem contraditório daquela gente sinistra dos “horários gratuitos”, seja pelo “aparelhamento” de escolas e redações. Agora querem dar o golpe final fechando o último canal de expressão sem “tradução” da voz do povo com essa “lista fechada”.

Meu coração tem tentado, mas meu cérebro se recusa a se convencer de que é apenas ingênua e distraída essa Justiça sem prioridades que, sempre em perfeita afinação com a imprensa e consonância com o trâmite das reformas, arregala um olho para ladrões individuais de milhões, porém sistematicamente fecha os dois para a ladroagem coletiva de trilhões sem o fim da qual o Brasil não se salva.

O passado condena? Pode ser. Mas a verdade é que Temer não pode dizer a verdade num país onde ninguém mais diz a verdade. Como não é dele, é do Brasil que se trata, é preciso lançar uma campanha impessoal para demonstrar, sem eufemismos, a relação direta de causa e efeito entre cada marajá excluído da reforma e cada aumento de imposto, e entre cada aumento de imposto e cada emprego a menos. O Brasil precisa ser instado a fazer as escolhas que lhe restam sabendo claramente o que pode ser trocado pelo quê; quanta dor adicional e quanto alívio podem ser contratados pelo mesmo dinheiro escasso. Sem isso fica fácil demais para lobos se apresentarem como cordeiros e bandidos como mocinhos enquanto nos empurram todos juntos para o ponto de onde não há retorno.

Fernão Lara Mesquita

Alimentos adulterados matam 3 mil por ano nos EUA

Num momento em que o país se questiona sobre a qualidade dos alimentos que consome — indagação motivada pela Operação Carne Fraca da Polícia Federal — vale a pena ouvir o que têm a dizer os especialistas Jon Woody e Colin Barthel, do Food and Drug Administration (FDA), a agência norte-americana que regula os setores de alimentos e medicamentos. Eles participam, nesta sexta-feira, 07, em Taguatinga, de workshop organizado pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai).

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Woody e Barthel destacam que adulterações intencionais em alimentos ocorrem por várias razões, que vão de questões econômicas, sabotagem e falsificações até terrorismo, e todas diferem dos casos acidentais, que resultam de falhas de sistemas de controle. Pelos cálculos dos especialistas, apenas as adulterações motivadas por fraudes econômicas resultam em perdas anuais de US$ 10 bilhões a US$ 15 bilhões para as indústrias prejudicadas. Além disso, um em cada seis norte-americanos adoece por ano em decorrência de contaminação de alimentos. O problema resulta em três mil mortes anuais no país.

Esses dados foram apresentados por Woody e Barthel em palestra recente em Florianópolis, Santa Catarina, onde também listaram as ferramentas usadas pelo FDA, como softwares gratuitos disponíveis na internet, e os principais passos que as indústrias devem seguir para atender aos requisitos exigidos pela legislação norte-americana. As regras foram adotadas pelos Estados Unidos, em maio de 2016, para coibir o comércio de alimentos adulterados intencionalmente. O regulamento é o mais recente dos sete adotados desde 2011 a partir do Food Safety Modernization Act, Lei de Modernização da Segurança de Alimentos dos EUA.

As indústrias exportadores têm até julho de 2019 para adotar programas que previnam os riscos de contaminação em produtos. O setor de alimentos representa 30% das exportações industriais no Brasil. As vendas brasileiras do setor para os Estados Unidos em 2016 totalizaram US$ 1,5 bilhão (7,5% do total industrial exportado pelo Brasil).

Gente fora do mapa

France, Charente-Maritime, Saintes 1953 by Henri Cartier Bresson:
Henri Cartier Bresson (1953)

Adeus às ilusões

Preocupado com a devastação sofrida nas últimas eleições, o PT encomendou uma pesquisa entre seus ex-eleitores da periferia de São Paulo e recebeu resultados surpreendentes. Ou nem tanto. No imaginário desse eleitorado de baixa renda, a “luta de classes" agora não é entre burguesia e proletariado, mas entre o cidadão e o Estado, entre os que pagam impostos e não recebem bons serviços do Estado perdulário e corrupto. As pessoas não têm mais os patrões como inimigos, mas os políticos.

É um rude golpe nas crenças mais queridas dos companheiros marxistas. A consequência imediata é o desejo de um “liberalismo popular", com menos Estado e menos poder dos partidos e dos políticos. A grande maioria dos entrevistados quer métodos empresariais na gestão pública, como o eleitorado de João Doria. E de Trump. Como a receita ainda não foi testada nem é infalível, algumas gestões públicas “empresariais” serão bem-sucedidas e outras, fracassadas, dependendo das lideranças e da qualidade da administração.


Nas democracias de hoje prevalece o óbvio: boas administrações de esquerda, ou direita, com a economia crescendo, se mantêm no poder, administrações ruins de esquerda, ou direita, e economia ruim, são substituídas pela oposição. Cada vez se vota menos com o coração ou a cabeça, e mais com o bolso.

É hora de dar adeus às ilusões e encontrar novas formas de representação popular na estrutura de poder da nossa democracia.

Apesar de funcionar muito bem em vários países, como pensar em parlamentarismo no Brasil com os parlamentares que temos? Imaginem os Renans, Lobões, Cunhas e Jucás nos principais postos do Executivo, além de exercer o governo de fato com o primeiro-ministro e o seu gabinete, partilhado com partidos da aliança majoritária. Como cada legislatura é sempre pior do que a anterior, segundo o “Axioma de Ulysses", o parlamentarismo é inviável no Brasil.

Como os partidos não representam mais ninguém, e são vistos de forma cada vez mais negativa pelo eleitorado, seria um grande avanço discutir candidaturas individuais independentes, como em várias democracias modernas.

Nelson Motta

O diabo e a política

Naquela aldeia, todos roubavam de todos, matava-se, fornicava-se, jurava-se em falso, todos caluniavam todos. Horrorizado com os baixos costumes, o frade da aldeia resolveu dar o fora, pegou as sandálias, o bordão e se mandou.

Pouco adiante, já fora dos muros da aldeia, encontrou o Diabo encostado numa árvore, chapéu de palha cobrindo seus chifres. Tomava água de coco por um canudinho, na maior sombra e água fresca desde que se revoltara contra o Senhor, no início dos tempos.

O frade ficou admirado:

"O que está fazendo aí, nessa boa vida? Eu sempre pensei que você estaria lá na aldeia, infernizando a vida dos outros. Tudo de ruim que anda por lá era obra sua, assim eu pensava até agora. Vejo que estava enganado. Você não quer nada com o trabalho. Além de Diabo, você é um vagabundo!".

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Sem pressa, acabando de tomar o seu coco pelo canudinho, o Diabo olhou para o frade com pena:

"Para quê? Eu trabalho desde o início dos tempos para desgraçar os homens e confesso que ando cansado. Mas não tinha outro jeito. Obrigação é obrigação, sempre procurei dar conta do recado. Mas agora, lá na aldeia, o pessoal resolveu se politizar. É partido pra lá, partido pra cá, todos têm razão, denúncias, inquéritos, invocam a ética, a transparência, é um pega-pra-capar generalizado. Eu estava sobrando, não precisavam mais de mim para serem o que são, viverem no inferno em que vivem".

Jogou o coco fora e botou um charuto na boca. Não precisou de fósforo, bastou dar uma baforada e de suas entranhas saiu o fogo que acendeu o charuto:

"Quando entra a política, eu dou o fora, não precisam mais de mim".
Carlos Heitor Cony

Cartolas e coelhos

Ninguém pode dizer que não somos criativos, não é mesmo? Infelizmente, não somos só criativos nas Artes, Também o somos na Política...

Pelo menos eu sou quase que diariamente surpreendida por coelhos dos mais variados tamanhos tirados das cartolas dos brasileiros em posição de destaque. Você está lendo uma entrevista, ou se debruçando sobre um tema que interessa ao Brasil, coisa séria e, de repente, pimba!, lá salta um coelho da cartola do entrevistado ou do autor do texto. Sempre levo um susto!

São hábeis ‘cartoleiros’, se assim posso me referir a esses peritos em sacar coelhos das cartolas. Resolvi listar aqui alguns desses senhores e senhoras, numa ordem sem prejuízo da importância ou do mérito de cada um.

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* Começo com uma emérita ‘cartoleira’, a senadora Kátia Abreu (PMDB/TO). Renan Calheiros, sentindo que ele e seu filho pisam em chapa quente, achou por bem culpar o presidente Michel Temer por sua situação, repetindo em plenário o que já havia dito em um jantar em casa da senadora pelo Tocantins: “a presidente Dilma não sabia para onde ir, e o presidente Temer não tem para onde ir”.

A senadora Rose de Freitas (PMDB-ES) não gostou do que ouviu e foi tirar satisfação. “Como assim, Renan? Você está falando como líder? Você sabe o que eu penso sobre isso?”.

Foi o que bastou para um coelho saltar da cartola da senadora Kátia Abreu: “Você tem que entender o problema dele em Alagoas”.

Não é um lindo coelho? Não é o senador que tem que compreender seus eleitores e respeitar seus liderados. São eles que têm que entender que os Calheiros, aflitos, podem desabafar do modo que preferirem.

* Um ex- executivo da Odebrecht, Fernando Migliaccio da Silva, tirou de sua cartola, após confessar que era o responsável pela entrega em dinheiro vivo do Departamento de Propina da empreiteira, o recorde, imagino que imbatível, de sua atividade: em um único dia entregou R$35 milhões! Não posso jurar, mas senti certo orgulho nessa declaração.

* E o Jair Bolsonaro, essa flor de pessoa, que concluiu que nossos afrodescendentes, saídos dos quilombos, não servem nem para procriar? Onde ele disse isso? Onde? Na Hebraica, aqui no Rio. Não é um espanto?

* É um espanto, sim. Tal qual a carta aberta do ator José Mayer que resolveu se desculpar da agressão vil e muito baixa que cometeu contra uma colega de trabalho na Globo. Olhem o que ele tirou da cartola: "Tristemente, sou sim fruto de uma geração que aprendeu, erradamente, que atitudes machistas, invasivas e abusivas podem ser disfarçadas de brincadeiras ou piadas. Não podem. Não são”.

Que geração é essa, senhor Mayer? A minha é a nascida em 1937 e nós sempre preferimos homens carinhosos, amáveis, delicados, charmosos, elegantes. Fomos criadas como dependentes dos homens? É verdade. Mas de homens e não de animais. Cai na real, senhor Mayer.

* Já Dilma Rousseff, entrevistada pela Folha de S. Paulo, foi pródiga em sacar de sua cartola coelhos dos mais variados tamanhos. Chamou a delação do empresário Marcelo Odebrecht de delaçãozinha e garante que o que ele disse é fruto da coação que sofreu, e que ele jamais ousaria conversar com ela sobre doação. Não é um fenômeno? O homem que bancou as peripécias do PT não ousaria falar com a grande Dilma sobre dinheiro?

Não vi grandes novidades na entrevista, a não ser Dilma afirmar que apertada para ir ao banheiro, ao fim de uma reunião na Cidade do México, saiu da sala VIP para ir ao toalete e ao acabar de “fazer aquilo que tinha para fazer”, encontrou Marcelo Odebrecht na salinha e ele começou a falar daquele jeito meio embrulhado dele e ela não entendeu nada. Ou melhor, “Niente”, conforme disse à sua entrevistadora.

Curioso é que ela não entendeu logo a parte mais reveladora da entrevista, a de que sua campanha poderia ter sido contaminada, pois ele havia feito pagamentos no exterior ao marqueteiro dela, João Santana.

E, agora, digo eu: jeito meio embrulhado de falar, qual será o mais embrulhado, o dele ou o dela?

Páreo duro, não é não?

Paisagem brasileira

Rua da Misericórdia (1948), José Maria de Almeida

O tamanho do seu buraco

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Ora, meu querido brasileiro. Você ainda não se deu conta do que significou essa roubalheira toda, não é mesmo? Seu futuro foi pro brejo, junto com a política. Você sabe o que é votar contra o Uber, lista fechada, anistia ao caixa 2? São as formas que esses cretinos – todos eles – resolveram tentar para continuar a meter a mão no seu bolso bobão. Nada de “gópi” ou de volta dos militares, meus caros. O país precisa é de democracia plena. Para isto, é necessário que você tire o seu traseirinho da cadeira e pare de votar em idiotas, que fazem suas necessidades fisiológicas no mandato que conseguiram.

Chega de vigarice. Vote direito. Aprenda a votar e encontrar o seu candidato. Aprenda a cobrar. Você não tem um tijolinho na mão, que se conecta com o mundo? Use-o para se instruir. Pra mudar de rumo. Só assim você deixará de ser enganado pelos partidos das estrelinhas na cueca. Não é simples?

Corte na carne?

Antes havia 8.099 cargos que podiam ser ocupados por pessoas não concursadas. Agora são 5.499, ou 2.600 a menos. Além disso, colocamos restrição para os DAS 5 e 6, que são os mais altos
Dyogo Oliveira, ministro do Planejamento, Orçamento e Gestão

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Os funcionários públicos continuam enriquecendo. Segundo o IBGE, no período de dezembro, janeiro e fevereiro, a renda média dos servidores públicos foi 5,1% maior que o de igual período do ano passado.

Muita sede para pouca água

A reforma da Previdência “morreu” e não faltam carpideiras de joelhos à espera do caos. Com o histerismo de sempre, a turma do reformão vai ficar com a reforminha ou minireforma como já aconteceu de outras muitas vezes. 

Desejar que num mandato tampão, em meio à instabilidade política-jurídica-econômica, se faça uma grande reforma da Previdência como nem em governos estabilizados e de amplo apoio popular se conseguiu, é querer demais ou acreditar em milagre.

Temer quer passar para a história como reformista, assim apagando o passado de conivência por 13 anos com o cataclisma petista. Como Moisés no Sinai, prenunciou a reforma ou o caos. Para um país que já vive no inferno, a ameaça de se ir para as chamas infernais caso não seguissem seus conselhos, não tem cabimento.

A explicação de que a Câmara não quer se arriscar a aprovar projeto impopular às vésperas de 2018 é mais palatável para não se ficar mal com o governo que foi com sede ao pote. Por que se apressar numa reforma indispensável, mas de imensa necessidade de debate? Por que o “autor” é um conselheiro de empresas de fundo privado? Por que uma reforma que deveria ser ampla se tornou aos poucos em privilegiada? Com muitas perguntas e poucas respostas, o grande debate ficou mais restrito à discussão das benesses futuras e não do opressivo presente, que ficaria solucionado com uma canetada presidencial.

Como anuncia a Casa Civil, a mini ficará uns 10% da ideal e não comprometerá o deixa estar mais ou menos para ver como é que fica, logicamente sem tocar em privilégios, que esses são divinos.
Luiz Gadelha

O estilo faz o homem

Nessa encenação contra o governo, o senador Renan Calheiros está apenas sendo o Renan Calheiros de sempre. Movido pelas mesmas razões escusas. Faz esse teatro desde o tempo em que transitou de líder do governo durante a República das Alagoas para a condição de oposicionista durante o processo de impeachment de Fernando Collor. Ali começou a construir uma carreira de político influente. A adulação _ da imprensa, inclusive _ durou até quando começaram a surgir as evidências de que por trás da máscara de moço bom havia um homem sem limites, disposto a qualquer coisa pelo poder. Surfou na onda daqueles que não sabiam da missa de sua vida a metade.

A imagem pode conter: texto

Agora posa de opositor a Temer por dois motivos: gostaria, mas não consegue dar as cartas na alocação de aliados em postos-chave da máquina do Estado e também gostaria, mas não consegue mais exercer influência de quando era presidente do Senado. Perdeu espaço e prestígio. Da reputação dá notícia a mais de uma dezena de ações a que responde no Supremo Tribunal Federal. Busca, então, recuperar terreno no berro, intimidando e insultando. Uma espécie de precursor de Eduardo Cunha.

Outrora, nos idos da década dos 90, resolveu se opor a Collor por um motivo: na reta final da eleição para governador de Alagoas, em 1990, descobriu que Paulo César Farias, arrecadador do grupo, mandara os doadores (notadamente os mais abastados, de São Paulo) cortarem o envio de recursos à campanha dele porque Collor queria que o eleito fosse seu opositor Geraldo Bulhões. Ambos tinham o apoio do então presidente, mas a aliança com Bulhões é que era a verdadeira. Derrotado, partiu então para a denúncia de que as eleições haviam sido fraudadas. De fato, naquele ano a justiça eleitoral anulou e mandou repetir as votações em alguns municípios. Inclusive alguns controlados pela família Calheiros.

Imagem do Dia

Parque Nacional de Cotapata ( Bolivia)

O Lula sem meio-campo

Assumindo o papel de adversário da reforma previdenciária, o senador Renan Calheiros candidata-se a coveiro do governo Michel Temer, na medida em que o atual presidente da República, mesmo mantendo o mandato, nenhuma herança deixará para o sucessor. Se o próximo presidente vier a ser o Lula, hipótese ainda em suspenso, quem garante a virada na página do retrocesso econômico nacional? A pergunta será quem sucederá a Henrique Meirelles na Fazenda. Não se esperem surpresas maiores no setor. O ex-presidente não rasga dinheiro, provavelmente escreverá outra carta aos brasileiros, tentando substituir por gente nova o time dos petistas históricos, desgastados e até presos.

Essa a dúvida fundamental para o novo período, se vier liderado pelo Primeiro Companheiro: até hoje não despontaram novos contingentes no PT. Quais seriam os substitutos da turma hoje dormindo na cadeia? Não há sinal de que o Lula esteja procurando no Congresso. Nem nas universidades ou no que restou da aliança com a Igreja. Sequer nos sindicatos.

A falta de equipe não será suprida pelas “meninas” do Senado, muito menos pelos “salvados do incêndio”. Quando eleito pela primeira vez, o torneiro-mecânico encontrou uma espécie de âncora empresarial no candidato a vice presidente, logo empenhado na crítica permanente aos juros altos. Hoje, se existe, esse companheiro não apareceu. Há quem aposte em Ciro Gomes, mas ele é inconfiável.

Em suma, apesar de nítido apoio popular, o Lula carece de um time capaz de respaldá-lo. Não tem meio campo. Jamais poderá confiar em Renan Calheiros.

Carlos Chagas

La piú grande famiglia

A Justiça Eleitoral é uma grande família dedicada ao trabalho sério e constante que visa garantir a correta apuração da soberania popular
Henrique Neves, "em lágrimas", ex-ministro em sua despedida do TSE

Antes de salvar o país, os aliados da administração Temer tentam se salvar

A reforma da Previdência leva Michel Temer a experimentar desagradáveis sensações. O substituto constitucional de Dilma Rousseff acomodara-se na poltrona número um intoxicado pelo pior tipo de ilusão que pode acometer um presidente: a ilusão de que preside. Começa a se dar conta de que não há solidão mais vil do que a companhia dos áulicos palacianos e de uma numerosa base congressual.

Acossado por Renan Calheiros, que até ontem era um soldado a serviço da governabilidade, Michel Temer disse que não pode “ficar brigando com quem não é presidente da República.” Engano. Sempre que um presidente não aproveita uma oportunidade para reafirmar sua autoridade, acaba se transformando em oportunidade que gente como Renan aproveita.


Logo que foi efetivado no cargo, Temer bateu bumbo para alardear a herança maldita de Dilma. Prometeu reformas que recolocariam o país nos trilhos. Animou-se ao aprovar a emenda do teto de gastos federais. Assustou-se com as traições na votação do projeto da terceirização de mão de obra.

Com a reforma da Previdência, Temer enfrenta um tipo de adversidade que lhe sonega os papeis que desempenhou até aqui. Já não pode culpar Dilma. E não adianta apenas dizer que tem a força no Congresso. Chegou a hora de entregar a mercadoria.

Ao assumir, Temer acenara com um governo de salvação nacional. Mas sua infantaria parlamentar infirma que, antes de salvar o Brasil, quer salvar a própria pele. Já que não conseguem estancar a sangria da Lava Jato, os aliados de Temer tramam o voto em lista e se esquivam de reformas que coloquem em risco a reeleição e o escudo do foro privilegiado. Num primeiro recuo, Temer jogou pelo ralo uma economia estimada R$ 115 bilhões. Talvez tenha que recuar mais um pouco.

Os trabalhadores sempre sofrem...

A classe dominante está tramando contra os direitos dos trabalhadores. Não quer ceder em mais nada. Pelo contrário, quer readquirir o que considera que foi dado em demasia. Com a retração do poder de convencimento das igrejas cristãs, fonte maior da consciência ética das sociedades, prospera sem peias a maldita ambição por mais poder e mais riqueza.

O povo está se convencendo de que a quase total amoralidade da classe dominante é a responsável pelo que está acontecendo e que a solução para a crise global passa, necessariamente, pela substituição dessa fonte de poder.

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Sebastião Salgado
Os direitos dos trabalhadores, por melhores condições de trabalho, há apenas um século começaram a ser reconhecidos e Leis foram votadas para garanti-los contra a ganância exagerada do empresariado. Certamente com o progresso da tecnologia, das novas formas de produção e de organização da sociedade, impõe-se a atualização e o aperfeiçoamento dessas Leis, mas não como artimanha para surripiar direitos duramente reconhecidos e conquistados. Esta ultima iniciativa de aprovar a terceirização generalizada é uma malandragem inaceitável. Por outro lado, a reforma da previdência é uma necessidade a ser atendida logo, por inescapáveis imposições da matemática e do comportamento demográfico, problema agravado pela incompetência dos políticos no passado. Desde 1990 sabia-se que a “bomba previdenciária” estava sendo armada.

Tendo em vista o desemprego de cerca de treze milhões e meio de brasileiros, gostaria de lembrar a proposta que desenvolvo em livro publicado em 2013 pelas Edições Loyola – “Posto de Trabalho: propriedade privada do trabalhador” – titulo que expressa o conteúdo da obra, abordando tema impossível de ser escamoteado. Qualquer empresa tem uma função social e é uma comunidade de trabalho, onde cada pessoa depende das demais para a realização do produto ou do serviço a que se dedicam. Se existe esta conjunção de esforços interdisciplinares cada trabalhador, desde o “dono”, do “acionista majoritário”, ou “preposto especializado”, até o mais simples auxiliar de escritório ou da linha de produção - com funções, responsabilidades e remuneração diferenciadas - são companheiros no trabalho comum e proprietários dos seus postos de trabalho. Isto ocorre pela simples razão de que o trabalho é mais do que uma fonte de renda para possibilitar o digno sustento do trabalhador e da sua família – é a forma mais perfeita da pessoa participar, com o Criador, da construção do Cosmo, expressando sua individualidade impar. Marx, seguindo a trilha aberta pelo cristianismo, afirma ser o trabalho a forma de a pessoa expressar sua personalidade e de participar da construção da história. Este direito da pessoa precisa ser mais percebido e respeitado.

É inaceitável que o governo do país e o poder legislativo permaneçam, por mais tempo, nas mãos de uma maioria de corruptos e incompetentes, insensíveis ao sofrimento de expressiva parcela da população, incapazes de pensarem novas alternativas democráticas para organizar e fazer funcionar a sociedade justa com que sonhamos. Eles precisam ser substituídos, imediatamente, pelo voto democrático e livre da população. Novos poucos partidos e novos rostos dignos para nos representarem são exigências que esses tempos de redefinição politica impõem. Ou se procede desta maneira ou outras ações mais radicais e inesperadas poderão vir a ser tomadas.

O Brasil, como outras nações em momentos de radical decisão histórica sobre seus destinos, precisa construir, de uma vez por todas, o seu momento mais glorioso, quando poderá inverter o sentido da desgraça da sua trajetória e começar, então, a construir seu grandioso sempre esperado futuro. Um povo desesperado, desiludido, constantemente ofendido pelo deboche e pelas mentiras da classe dominante e dos políticos é capaz de se levantar e fazer valer seus direitos exigindo respeito, dignidade e competência dos seus dirigentes.

Eurico Borba

quinta-feira, 6 de abril de 2017

Gente fora do mapa

antieverythingism: Now this is true love.:

O financiamento da política

Na terça-feira passada, o relator da reforma política na Câmara, deputado Vicente Cândido (PT-SP), apresentou à Comissão Especial que trata do tema parecer com suas propostas para o sistema eleitoral. Entre as alterações sugeridas está a criação de um fundo, diferente do já existente Fundo Partidário, destinado a financiar as campanhas eleitorais de cada candidato. À novidade tão benfazeja aos políticos foi atribuído o nome de “Fundo Especial de Financiamento da Democracia”, a ser constituído com recursos públicos previstos na lei orçamentária de cada ano eleitoral.

Além do nome, o fundo já tem o seu preço. O deputado Vicente Cândido pretende que, em 2018, sejam destinados R$ 2,185 bilhões ao “financiamento da democracia”. Às campanhas do primeiro turno seria destinado R$ 1,9 bilhão e às do segundo, R$ 285 milhões.

Reforma política (Foto: Arquivo Google)

O presidente da Câmara, deputado Rodrigo Maia (DEM-RJ), mostrou-se favorável à discussão do novo fundo. Segundo Maia, como não existe cultura de doação de pessoa física no Brasil, é preciso se discutir um financiamento público mínimo para as eleições. “A democracia tem seu custo”, afirmou o deputado fluminense.

Como foi proibida a doação de empresas a campanhas políticas e não existe a cultura de doação de pessoas físicas, busquemos – dizem esses políticos – o dinheiro nos cofres públicos. Ora, desse jeito, resolvendo o problema do custo das campanhas eleitorais com a inclusão de mais um item no Orçamento da União, não haverá incentivo à cultura de doação do cidadão aos partidos.

É óbvio que a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) reconhecendo a inconstitucionalidade das doações de pessoas jurídicas para campanhas políticas criou um problema para os partidos. O que não é nada óbvio, no entanto, é que seja adotada a solução mais confortável aos políticos, de pôr mais dinheiro da União – que deveria ser destinado para as prioridades do País – nas mãos dos candidatos para que eles, sem grandes esforços, possam fazer tranquilamente suas campanhas.

Não se discute que a democracia tem um custo. Fazer campanha política custa dinheiro. Essa realidade irrefutável deve, no entanto, servir de estímulo para a democracia. A necessidade de financiar as campanhas deve levar os candidatos a sair às ruas, debater suas propostas, convencer a população e, depois, passar o chapéu para arrecadar os recursos necessários.

Longe de ser uma utopia, esse esforço de diálogo com o cidadão é justamente o custo da democracia. Quando políticos desistem desse processo de comunicação com a população, como se fosse difícil demais, eles estão na verdade desistindo de um dos elementos essenciais da democracia, que é a busca da identidade de propósitos entre os eleitores e os representantes que elegem.

É um engano achar que soluções artificiais, como a proposta pelo deputado Vicente Cândido de tirar dinheiro da União para bancar a campanha eleitoral, financiam a democracia. Na realidade, essas propostas sacralizam o distanciamento da população em relação à política.

Nada de catastrófico virá se, em 2018, os políticos não tiverem tanto dinheiro para suas campanhas. Será uma ótima oportunidade para reduzir seus custos elevadíssimos e – quem sabe – devolver às campanhas alguma proximidade com o eleitor. Há muito que as campanhas políticas se transformaram em caros espetáculos, cuja suntuosidade mais parece disposta a falsear do que dar a conhecer as propostas de cada candidato.

Não há dúvida de que são necessárias mudanças no sistema eleitoral. Não são, no entanto, as alterações apresentadas pelo deputado Vicente Cândido que melhorarão a política nacional. O que faz falta, por exemplo, é o Congresso aprovar a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 282/16, que, entre outros pontos, estabelece cláusula de barreira para os partidos políticos. Em vez de ampliar o acesso dos partidos aos recursos públicos, a moralização da política virá justamente pelo caminho oposto, distanciando o político da verba pública. Talvez assim ele se disponha a aproximar-se do cidadão.

Com a mão nas cadeiras

             I
A Câmara Legislativa
É uma casa altaneira.
- Ai de Brasília sem ela! -,
Dizia Miúda Fateira,
Antes de ler a notícia
Sobre a compra de cadeira.
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             II
- A compra é inadiável -,
Justifica o deputado.
- As outras já tinham um ano,
Tinham o couro desgastado
E ofereciam perigo
A quem estava sentado.

            III
Um dia um parlamentar
Chegou na Casa irritado,
Andando com a perna aberta,
Com um gemido acochado,
Alegou que foi o couro
Que já estava estragado.

                IV
Um chefe de gabinete
Soltou uma rabanada,
Ameaçou dar uma surra
Numa certa deputada,
Descobriram que ele estava
Com a hemorroida inflamada.

                V
- Vamos trocar as cadeiras,
Sai o velho e entra o novo,
Ninguém mais esquenta a bunda
Nem deixa gorar o ovo,
Que dinheiro é pra gastar,
Inda mais sendo do povo!

Na Europa, juízes da Suprema Corte ganham, em média, 4,3 vezes salário médio

Enquanto o Brasil vê uma diferença enorme entre o salário médio da população e os de seus juízes, na Europa o contraste é bem menor. De acordo com relatório da Comissão Europeia para Eficiência da Justiça (Cepej), juízes das Supremas Cortes europeias ganham em média apenas 4,3 vezes mais do que o salário médio da população de seus países.

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Enquanto isso, em março a presidente do Supremo Tribunal Federal, ministra Cármen Lúcia, recebeu R$ 37,5 mil de salário bruto. O montante é quase 17 vezes maior do que salário médio do trabalhador brasileiro em janeiro foi de R$ 2.227,50, segundo levantamento feito nas regiões metropolitanas de Belo Horizonte, Recife, Rio de Janeiro, Salvador, São Paulo e Porto Alegre.

Dentre os 37 países analisados pela Cepej, no que diz respeito ao salário bruto nacional médio, a remuneração dos juízes da Suprema Corte é mais significativa na Ucrânia (8,5), na Roménia (7), na Itália (6,4), em Chipre (6), na Bulgária e no Azerbaijão (5,8).

Na outra ponta, em Andorra os juízes da Suprema Corte ganham apenas 1,6 vezes mais do que a remuneração média da população. Segundo o relatório, isso acontece devido à peculiaridade do Tribunal de Andorra, onde os juízes não se sentam permanentemente.

Em alguns países essa diferença também é muito pequena, mas devido ao elevado nível do salário bruto nacional médio de alguns países que resulta em um contraste menos visível entre estes e a remuneração dos juízes no final da carreira. É o caso da Alemanha, onde os juízes da Suprema Corte ganham apenas 2,4 vezes mais do que média da população.

Já em relação ao juízes em início de carreira na Europa as diferenças mais significativas indicadas pela Comissão acontecem no Azerbaijão (4,5), em Malta (4,2), em Israel (3,9), na Romênia (3,8) e na Ucrânia (3,6). Nos quase 40 países avaliados, os juízes no início da sua carreira são mais bem pagos do que o salário bruto nacional médio (em média 2,4 vezes mais).

No entanto, alguns países A situação na Alemanha (1), no Mónaco (1,1) e, em menor medida, na França (1,2) e nos Países Baixos (1,3), no entanto, parece estar em contraste com esta tendência.

O relatório destaca que, nestes países, o salário bruto nacional médio é elevado em comparação com outros Estados e entidades europeus, o que explica a ligeira diferença em comparação com os salários dos juízes. O mesmo se aplica à Áustria, à Bélgica, à Finlândia e ao Luxemburgo (1,6).

Paisagem brasileira

Tocantins, Brazil:
Tocantins

Brasil tem maior diversidade de árvores do planeta, segundo estudo inédito

Há 8.715 espécies de árvores no território brasileiro, 14% das 60.065 que existem no planeta. Em segundo na lista vem a Colômbia, com 5.776 espécies, e a Indonésia, com 5.142.

Publicado no periódico Journal of SustainableForestry, o estudo foi realizado pela Botanical Gardens Conservation International (BGCI na sigla em inglês), uma organização sem fins lucrativos, com base nos dados de sua rede de 500 jardins botânicos ao redor do mundo.

A expectativa é que a lista, elaborada a partir de 375,5 mil registros e ao longo de dois anos, seja usada para identificar espécies raras e ameaçadas e prevenir sua extinção.
Ameaça

A pesquisa mostrou que mais da metade das espécies (58%) são encontradas em apenas um país, ou seja, há países que abrigam com exclusividade, certas espécies - podem ser centenas ou milhares -, o que indica que estão vulneráveis ao desmatamento gerado por atividade humana e pelo impacto de eventos climáticos extremos.

Trezentas espécies foram consideradas seriamente ameaçadas, por terem menos de 50 exemplares na natureza.
Também foi identificado que, com exceção dos polos, onde não há árvores, a região próxima do Ártico na América do Norte tem o menor número de espécies, com menos de 1,4 mil.

O secretário-geral da BGCI, Paul Smit, disse que não era possível estimar com precisão o número de árvores existentes no mundo até agora porque os dados acabam de ser digitalizados.

"Estamos em uma posição privilegiada, porque temos 500 instituições botânicas entre nossos membros, e muitos dos dados não estão disponíveis ao público", afirma.

"A digitalização destes dados é o auge de séculos de trabalho."

Uma parte importante do estudo foi estabelecer referências e coordenadas geográficas para as espécies de árvores, o que permite a conservacionistas localizá-las, explica Smith.Direito de imagemBGCIImage captionPesquisa mostrou que mais da metade das espécies de árvores são encontradas em um único país

"Obter informações sobre a localização dessas espécies, como os países em que elas existem, é chave para sua conservação", diz o especialista.

"Isso é muito útil para determinar quais devemos priorizar em nossas ações e quais demandam avaliações sobre a situação em que se encontram."


Trezentas espécies estão seriamente ameaçadas, por terem menos de 50 exemplares na natureza
Entre as espécies em extinção identificadas pela BGCI está a Karoma gigas, nativa em uma região remota da Tanzânia. No fim de 2016, uma equipe de cientistas encontrou apenas um único conjunto formado por seis exemplares.

Eles recrutaram habitantes da área para proteger essas árvores e monitorá-las para que sejam alertados caso produzam sementes.

Assim, as sementes poderão serão levadas para jardins botânicos da Tanzânia, o que abre caminho para sejam reintroduzidas na natureza depois.

A BGCI diz esperar que o número de árvores da lista cresça, já que cerca de 2 mil novas plantas são descritas todos os anos.

A GlobalTreeSearch, uma base de dados online criada a partir do levantamento, será atualizada toda vez que uma nova espécie for descoberta.

O resumo do Brasil


O resumo do drama brasileiro é esse aí. Na previdência publica x privada, então, a “boca de jacaré” absolutamente se escancara.

A instabilidade política é especialmente fabricada para impedir que isso mude.

O Brasil está sendo assassinado pra que uns poucos milhões de marajás não tenham de devolver o que nos roubam por dentro da lei.

O resto é mentira.

Custo Brasil, custo governo

O principal problema econômico brasileiro está no rombo das contas públicas e, neste, o déficit geral da Previdência. Quando o governo opera sistematicamente no vermelho, ainda tem maneiras de se financiar, mas sempre de modo danoso.

Por exemplo, pode aumentar impostos, em um país em que a carga tributária já é de absurdos 40% do PIB. Tirando mais dinheiro das pessoas e empresas, o setor público bloqueia investimentos e consumo.

O governo pode ainda emitir dinheiro, diminuindo o valor da moeda e gerando inflação. E pode tomar emprestado.

Tomando emprestado, paga juros, que variam não por vontade do governo, mas pela análise dos credores — instituições financeiras, empresas e pessoas que compram títulos do Tesouro. Se esses credores percebem que o governo não vai conseguir pagar, porque o déficit é crescente e descontrolado, tomam duas possíveis atitudes: ou deixam de emprestar ou passam a cobrar juros absurdos.

Em qualquer caso, o governo quebra, ou seja, fica sem dinheiro para pagar suas contas.

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Portanto, a escolha não é fazer ou não fazer o ajuste das contas públicas, incluindo a reforma da Previdência. O ajuste será feito, por bem, via leis votadas no Congresso, ou por mal, quando o governo simplesmente fica sem dinheiro para pagar suas contas, incluindo aposentadorias.

Exemplo, Rio de Janeiro.

Mas, uma vez feito o ajuste, na boa, nem por isso o país volta a crescer de modo forte e sustentado. O ajuste melhora a confiança e, pois, a atividade econômica. O crescimento, porém, depende de uma profunda mudança no ambiente de negócios, mudança legal, institucional e cultural.

Em vez de discutir este ponto na teoria, eis um caso que ilumina o conjunto:
Ginástica ‘hora extra’ 

Uma usina de açúcar de Jacarezinho, no Paraná, teve a ideia de oferecer 15 minutos de ginástica para os cortadores de cana, diariamente. A prática era facultativa. Quem não quisesse participar simplesmente ficaria descansando. O trabalhador, claro, não pagava nada por esse benefício.

Pois um funcionário foi à Justiça do Trabalho para reclamar aqueles 15 minutos como “hora extra". Ganhou na primeira instância. A empresa recorreu ao Tribunal Regional do Paraná e perdeu. Foi ao Tribunal Superior do Trabalho e perdeu de novo.

Os juízes decidiram que a ginástica laboral tem a ver com prevenção e segurança do trabalho, de modo que deve ser computada na jornada. Como a empresa, claro, não computava, os 15 minutos se tornaram "hora extra". Não se levou em consideração que a ginástica era escolha do funcionário.

Com isso, a Justiça do Trabalho impôs um custo e uma insegurança não apenas à empresa de Jacarezinho, mas a todas as outras.

Qual usina vai oferecer a ginástica sabendo que poderá ser cobrada por isso? Ou qual empresa vai oferecer qualquer vantagem, como uma aula de meditação ou um curso de futevôlei, sabendo que poderá cair na hora extra?

Qualquer pessoa de bom senso vê um absurdo nessa situação.

Mas não a Justiça do Trabalho. Para seus juízes, o tempo que o empregado leva para trocar de roupa ou lanchar deve ser incluído na jornada. E há também decisões mandando incluir na jornada o tempo que o funcionário passa no fretado da empresa.

Isso mesmo. O trabalhador gasta horas no transporte público, lotado. A empresa oferece um ônibus fretado, em condições claramente superiores. Pois bem, há juízes que entendem que, ao entrar no fretado, o trabalhador já está à disposição da empresa. Logo, “hora extra".

Se isso se tornar uma norma geral, compulsória, de duas, uma: ou as empresas cancelam os fretados, prejudicando os trabalhadores; ou absorvem os custos, perdendo competitividade.

Além disso, reparem: o caso da ginástica laboral percorreu todas as instâncias, foi de Jacarezinho a Brasília. Um tremendo custo da Justiça, para impor custos extras a uma atividade econômica.

Todo esse custo poderia ser anulado com uma medida simples. A empresa simplesmente perguntaria aos trabalhadores, numa assembleia ou numa pesquisa, se desejavam ter a ginástica antes ou depois da jornada. A maioria decidiria. O negociado teria valor.

Qual proteção tiveram os trabalhadores da usina com a decisão do TST? Nenhuma. O que recorreu receberá a hora extra. Os demais perdem a ginástica.

Sensacional, não é mesmo?

Há centenas e centenas de casos assim.

O projeto de reforma trabalhista em debate estabelece que o negociado vale mais que o legislado. Se já valesse, os cortadores de cana da usina de Jacarezinho continuariam com sua ginástica.

E boa parte da Justiça do Trabalho seria dispensada.

Carlos Alberto Sardenberg

Escrever sobre política se tornou tarefa nojenta para muitos leitores

Leitor e, às vezes (menos do que eu gostaria...), crítico destas linhas semanais, amigo de velha guarda e cidadão de boa cepa, ultimamente, tem-me perguntado com insistência: “Cara, me diga, como é que você consegue escrever toda quinta-feira sobre essa política nojenta que tomou conta deste país? Assunto não falta, mas haja saco!”.

Depois de lhe dizer que, felizmente, nem sempre trato, obrigatoriamente, de política, respondo-lhe que talvez seja apenas mais um, entre tantos, que descobriu faz tempo, na escrita, algum tratamento para a alma. E não é sem dor, digo-lhe, que me entrego a essa terapia semanal: cada linha que escrevo é mais uma gota de sangue que se esvai. Para enfrentar eventual e dolorosa paralisia mental e, por via de consequência, quase manual, submeto-me a verdadeira catarse.

Confesso-lhe que a crise de que padeço não ocorre com frequência, nem só acontece em consequência da política interna. Mas, às vezes, como hoje, ela provoca dor mais forte ainda, e, se não houver pronta reação, ela me trará sérios danos à saúde física e mental. Pois é dela que, antes de mais nada, preciso cuidar. É dela, aliás, que precisamos todos para agir, sobretudo, em defesa da democracia, que está agora, uma vez mais, submetida a processo de desmoralização.

Continuando com minhas considerações esfarrapadas, digo, enfim, ao meu amigo/leitor que nenhum jornalista de minha geração poderia dizer que está surpreso com o que vem acontecendo ao país depois da operação Lava Jato, e não só na política, mas em todos os setores sobre os quais lançamos nosso olhar há inúmeras décadas.

O que ocorre agora, concluo, depois dessa infecção generalizada que tomou conta do país há muitos anos, causa principal, sem dúvida, desse Estado brasileiro de poucos e para poucos, cartorial e perdulário, é o início da expulsão do carnegão, que é a parte central do furúnculo provocado por bactéria resistente. Só que, nestas bandas, ele se tornou quase crônico, até pelo menos o aparecimento da operação Lava Jato, que pode ter errado no varejo, mas tem acertado no atacado.

Mas que fique bem claro: esse acerto no atacado, superior aos erros que possa ter cometido no varejo, jamais poderia excluir os cuidados que sempre se deve ter com o abuso de autoridade. A operação Lava Jato se desmoralizará, totalmente, se não enfrentar esse abuso. Daí, então, a necessidade de lei inteligente sobre a matéria.

O Brasil passa por momentos difíceis neste instante. Nenhum país, muito menos o nosso, mereceria Lula duas vezes, Dilma também duas, e Temer, além de duas vezes vice, uma vez uma presidente e, o que é pior, acompanhado de péssimas companhias. Os dois primeiros traíram o país e o entregaram completamente quebrado. E o terceiro?...

Em decisão de anteontem, na ação proposta pelo PSDB contra a chapa Dilma-Temer, mas que hoje luta para impedir a cassação do segundo, sob a alegação fantasiosa e/ou casuística de que as contas dos dois devem ser separadas, os ministros do TSE decidiram dar mais prazo para ouvir testemunhas, entre elas Guido Mantega e João Santana. É evidente que isso torna a duração do processo imprevisível.

Vamos ficar com Temer até o final, não só porque uma eleição indireta poderia elegê-lo de novo, mas porque o país não aguenta, com 13,5 milhões de desempregados, em tão curto prazo, turbulência institucional capaz de comprometer o regime democrático.

Vamos rezar, gente!

Imagem do Dia

ETAM CRU http://www.widewalls.ch/artist/etam-cru/ #streetart #surrealism #urbanart:

'Não corra, Moro!'

Uma nuvem paira sobre Lula. No início de maio, o ex-presidente prestará depoimento perante Sérgio Moro, num dos processos por corrupção que ameaçam sua elegibilidade. As delações da Odebrecht, acompanhadas por uma extensa coleção de evidências materiais, apontam o rumo da condenação — que, caso confirmada a tempo na segunda instância, o tornaria um “ficha- suja”. Nessa hipótese, a urna eletrônica de 2018 não conteria o nome que aparece como favorito nas sondagens atuais. Não corra, Moro: o Brasil precisa da candidatura de Lula.

Nenhum texto alternativo automático disponível.

A candidatura foi lançada, em março, por meio de um manifesto encomendado aos “intelectuais de esquerda” de sempre. Nele, figuras como Chico Buarque, Leonardo Boff, Fernando de Morais e Fábio Konder Comparato oferecem três motivos pelos quais a nação precisaria de Lula: 1) “ainda é preciso incluir muita gente e reincluir aqueles que foram banidos outra vez”; 2) “é fundamental para o futuro do Brasil assegurar a soberania sobre o pré-sal, suas terras, sua água, suas riquezas”; 3) “o país deve voltar a ter um papel ativo no cenário internacional”. De fato, as políticas que estão atrás das sentenças propagandísticas subscritas pelos “intelectuais de esquerda” formam parte dos motivos para os brasileiros rejeitarem um novo mandato lulista.

A chamada “inclusão social” promovida nos mandatos do lulopetismo nunca passou de uma política de estímulo ao consumo privado, pelas vias de aumentos do salário-mínimo e das aposentadorias, transferências estatais de renda e expansão do crédito pessoal. A esquerda entrincheirada nessas políticas sociais desistiu de suas utopias desastrosas (socialismo), mas não aderiu à utopia possível da inclusão por meio do desenvolvimento econômico (produtividade) e da qualificação dos direitos sociais (educação, transportes, reforma urbana). De mais a mais, a “idade de ouro” do lulopetismo apoiou-se numa singular conjuntura internacional, que não se repetirá. O Brasil precisa da candidatura de Lula para derrotar, pelo voto, a fé anacrônica no paternalismo estatal.

Sob Lula e Dilma, a “soberania sobre o pré-sal, suas terras, sua água, suas riquezas” significou a montagem de um capitalismo de Estado organizado como aliança das empresas estatais com conglomerados privados de “amigos do rei”. No fim do arco-íris, em meio à paisagem de ruínas formada pelo colapso financeiro da Petrobras, da Eletrobras e da Caixa Econômica Federal, sobrou o maior escândalo de corrupção registrado na história brasileira. A esquerda pós-socialista elegeu, como utopia substituta, o “Estado-Odebrecht”.

Mas ele também não pode ser plenamente restaurado, pois sua versão original devastou os balanços financeiros das estatais e reduziu a capacidade do poder público de subsidiar o alto empresariado. O Brasil precisa da candidatura de Lula para derrotar, nas urnas, a crença nas virtudes do capitalismo de compadrio.

Nos governos lulistas, o “papel ativo” do Brasil no cenário internacional materializou-se, principalmente, na fracassada obsessão por uma cadeira de membro permanente no Conselho de Segurança da ONU e na aliança com o castrismo, o chavismo e o kirchnerismo. A opção preferencial por regimes autoritários manifestou-se pelo perene apoio diplomático a Havana e Caracas. Lula evidenciou seu desprezo pelas liberdades ao deportar os pugilistas cubanos, ao qualificar os presos políticos de Cuba como presos comuns e ao silenciar sobre o encarceramento de opositores na Venezuela. A esquerda que clama pela volta do ex-presidente abdicou do sistema econômico socialista, mas continua seduzida pelo monopólio do poder por um “partido dirigente”. A catástrofe venezuelana não merece uma linha de protesto dos fabricantes de manifestos. O Brasil precisa da candidatura de Lula para derrotar, no debate eleitoral, o conceito de que só merecem repúdio as ditaduras de direita.

Lula é um pragmático, não um ideólogo. A utopia política de Lula resume-se ao poder de Lula — como sabem perfeitamente os quadros petistas e até mesmo os signatários do manifesto pela sua candidatura. Contudo, as circunstâncias e os acidentes históricos preencheram o seu pragmatismo com uma série de marcadores ideológicos. Lula converteu-se em representação de um Brasil que se recusa a romper com o passado e de uma esquerda hipnotizada por utopias regressivas de segunda mão. É por isso que o Brasil precisa de Lula — não como presidente, mas como candidato.

O ciclo lulista começou com um maiúsculo triunfo eleitoral que parecia, aos olhos da maioria, inaugurar uma era redentora. A curva de declínio, nos mandatos de Dilma, completada pela implosão do impeachment, atestou uma falência política de fundo. Na depressão econômica, de proporções inéditas, e na desmoralização das instituições públicas, envenenadas pela corrupção, encontram-se os frutos maduros da longa experiência lulopetista. Contudo, como revelam as sondagens eleitorais, a queda drenou apenas parcialmente o pântano das ilusões. O Brasil não se livrará delas enquanto não tiver a oportunidade de confrontá-las na arena do voto.

Ninguém tem o privilégio de pairar acima da lei. Lula não deve ter prerrogativas negadas a Marcelo Odebrecht, Sérgio Cabral ou Eduardo Cunha. O papel desempenhado por ele nas teias de corrupção do “Estado-Odebrecht” precisa ser examinado pelos tribunais. Os juízes, espera-se, terão a coragem de ignorar a programada intimidação de hordas de militantes, julgando o ex-presidente segundo os códigos legais. Mas não há necessidade de apressar os ritos processuais, normalmente tão vagarosos.

Não corra, Moro! Não tome o lugar dos eleitores, salvando-nos de nós mesmos. Um Lula “ficha-suja” ofereceria ao lulismo um santuário inexpugnável. O Brasil precisa, enfim, mirar-se no espelho. Inexiste saída fora da política: aquilo que começou numa eleição só terminará em outra.

Sobram apenas restos

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O deus Capital monetiza a alma das coisas e, no melhor do casos, só deixa para nosso uso e consumo os restos mortais
Itaio Cavino

A farsa da lista fechada

De tempos em tempos a ameaça ressurge. Já foi apresentada três vezes no Congresso, não prosperou, mas de novo retorna feito lobisomem em noite de sua cheia. Fala-se da votação para deputado em lista fechada. O eleitor ficaria proibido de escolher o candidato de sua preferência, manifestando-se apenas pelo partido que melhor lhe agrade. Aos caciques, donos das legendas, caberia elaborar a lista de candidatos. É claro que se colocariam nos primeiros lugares. Nem precisariam fazer campanha.

Trata-se de uma velhacaria que só favorecerá os dirigentes partidários. Um breve contra a renovação, porque além de elaborar a lista fechada, os caciques também controlarão o Fundo Partidário e os recursos suplementares para as campanhas.

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Nada mais lucrativo do que fundar um partido, ensina a malandragem. O fundador consegue uma permanente fonte de renda, tem a eleição garantida e afasta a incômoda tentativa de os mais novos ascenderem às funções de chefia.
De tão gritante e canhestra, a lista fechada jamais se concretizou. Mais uma vez, os mesmos de sempre insistem na mudança, tudo indicando nova frustração. Quem sabe, agora, por meio de artifícios renovados, obterão sucesso?

De jeito nenhum a adoção desse casuísmo servirá para diminuir o numero de partidos. Pelo contrário, as siglas deverão multiplicar-se através de variados expedientes.

Em suma, nada de novo debaixo do sol. A menos que o eleitorado decida, por maioria, rejeitar mais essa tramoia. Que tal o cidadão comum recusar-se a declinar sua preferência partidária, anulando seu voto?

Corpo do futuro

Volto a folhear a Constituição de 88 e me deparo com um sentimento de saudade e furor. Primeiro, pelo que fomos, quando a utopia era o centro da agenda e não cedera lugar à platitude da gestão e da governança, idolatradas pela antipolítica. A busca da modernidade tardia passava pelo fim da desigualdade, através de um conjunto definido de políticas sociais que ainda brilham na Constituição e nas leis complementares.

A saudade alia-se também à década dos 20 anos de quem escreve, mobilizado, então, pelas Diretas Já e pelo corpo do futuro indefinido, com o déficit de liberdade a que era preciso dar resposta. Já o furor, articulado e cívico, surge da afronta ao núcleo duro da Carta Magna, ferida por emendas complacentes e oportunistas, votadas a toque de caixa, pois o debate, para muitos, dissolve-se numa prática indigesta. Sob um olhar mais filosófico, no entanto, as emendas recentes violam cláusulas pétreas, e sem nenhum pudor, para atender a interesses que não contemplam a República, dentro de um plano de metas não pactuado com a sociedade.

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Muita coisa mudou nesses quase 30 anos. Mas o que preocupa é a saúde precária das instituições, cujos sintomas são o desvio de função, a hipertrofia e a prevaricação, quando não atuam outras comorbidades. Assim, a política foi relegada a mera rotina empresarial, como os que pensam que é possível colocar um país de joelhos para combater a corrupção ou para vendê-lo no atacado, sem discussão. E os partidos perderam o timing para realizar uma autocrítica forte e inadiável.

No vácuo de poder, surgem os arlequins da antipolítica, os “puros” e “inocentes”, que não toleram sistemas e partidos, messias da extrema-direita, os populistas de todas as cores, pós-caçadores de marajás e neojanistas.

Dos inúmeros golpes desfechados contra o espírito de 1988, destaco as vicissitudes sofridas pela Uerj. A universidade pública é uma das maiores conquistas alcançadas em nosso país. Como se atrevem os governantes a essa lamentável tentativa de homicídio? Invoque-se o artigo 5º, parágrafo 3º da Constituição: “ninguém será submetido a tortura nem a tratamento desumano ou degradante”, que vem sendo infligido a toda a comunidade onde a Uerj atua. A despeito de tudo, a instituição segue muito viva, com a alta qualidade de serviços prestados ao país, cuja resiliência é causa de orgulho, forte e combativa, como jamais se viu. Penso em Paulo Freire e Darcy Ribeiro e me pergunto em que mundo acordamos, pois a espessura da utopia se confunde com os destinos da educação.

O argumento econômico é previsível, mas insuficiente — não existem óculos para a miopia dos tecnocratas. Eis a razão pela qual precisamos recuperar a esfera da alta política, em seus deveres e prerrogativas.

Será uma construção lenta, movida também por grandes furores cívicos e uma saudade obstinada pela utopia que precisamos reconstruir, em recusa ou adesão, como sujeitos do processo.

Marco Lucchesi