quarta-feira, 19 de junho de 2019

O drama do degelo da Groenlândia em uma só foto

Os cientistas concordam que, embora a imagem seja surpreendente, não é inesperada. Mas, ainda assim, a foto, tirada em 13 de junho por Steffen M. Olsen, deu a volta ao mundo. Nela aparecem vários cães puxando um trenó no fiorde de Inglefield Bredning, no noroeste da Groenlândia, e se vê como os animais estão caminhando sobre o gelo derretido. Embora o verão já esteja muito próximo, nesta região da Terra as temperaturas máximas em junho costumam ser de 3,2 graus Celsius, segundo o pesquisador espanhol Andrés Barbosa, diretor de campanhas no Ártico. Na semana passada, a estação meteorológica mais próxima do aeroporto de Qaanaaq, no noroeste da Groenlândia, registrou uma máxima de 17,3oC na quarta-feira, 12 de junho, e 15oC no dia seguinte.
Fiorde de Inglefield Bredning,Steffen Olsen
O cientista que fez a foto contou que os caçadores e pescadores locais se surpreenderam ao encontrar tanta água em cima do gelo, especialmente no princípio da temporada. Embora não seja um fato isolado, nunca tinham visto tanto gelo derretido antes de julho.

A foto viralizou. “Groenlândia” foi trending topic no Twitter, e até o presidente do Governo da Espanha, Pedro Sánchez, compartilhou-a com um texto que dizia: “Esta imagem da Groenlândia coloca perante nossos olhos a emergência que enfrentamos. Governos e sociedade devemos trabalhar unidos para frear as consequências da crise climática. Conseguir isso está em nossas mãos. Não podemos dar nem um passo atrás”.

Os sinais da mudança climática são cada vez mais evidentes. As temperaturas superiores à média em quase todo o oceano Ártico e Groenlândia durante o mês de maio fizeram o gelo derreter antes do habitual, resultando no menor bloco de gelo registrado em 40 anos, segundo os dados do Centro Nacional de Neve e Gelo dos EUA.

As temperaturas registradas na semana passada na Groenlândia e em grande parte do Ártico foram impulsionadas por um ar mais quente que subia do sul. “Este fato ocorre de vez em quando, mas há evidências de que está se tornando mais comum, embora seja uma área de pesquisa que evolui com muita rapidez. Além disso, à medida que a atmosfera se tornar mais calorosa haverá um maior derretimento”, afirma Ruth H. Mottram, cientista do Instituto Meteorológico Dinamarquês e colega de Steffen M. Olsen, o pesquisador que tirou a foto.

O autor da popular imagem revelou no Twitter que se tratava de um “dia incomum” e que a imagem “para muitos é mais simbólica que científica”. Os pesquisadores concordam que o alarmante não é o aumento pontual das temperaturas, e sim a tendência de alta que observam há anos. “Por causa desse aumento 63% das geleiras da Groenlândia estão em retrocesso, e já houve uma perda de 30% do gelo marinho”, diz Barbosa.

Uma das consequências do derretimento prematuro é a alteração do equilíbrio entre temperatura e salinidade da água marinha, por causa da água doce despejada pelas geleiras, o que pode afetar as correntes marítimas. “Outros efeitos são o aumento do nível do mar e o aumento do degelo, ao reduzir a camada de gelo que reflete o sol e, portanto, produzir um aumento da radiação solar”, acrescenta Barbosa.

Além disso, Mottram explica que, embora o degelo marinho não contribua imediatamente para o aumento do nível do mar, em longo prazo isso ocorre. Seus modelos de simulações climáticas preveem que o gelo marinho se derreta, com consequências para as populações locais e os ecossistemas do Ártico. “Também é provável que no futuro haja uma quantidade cada vez maior de água que contribua para a elevação do nível do mar a partir da Groenlândia”, conclui.
Belén Juárez

Bolsonaro precisa ser reeducado em democracia

Foi grave quando o ex-presidente Lula, enquanto se travava a luta política em torno do pedido de impeachment de Dilma Rousseff, ameaçou chamar o “exército de Stédile”, chefe supremo do Movimento dos Sem-Terra (MST). Mais do que uma bravata, tratava-se de um daqueles rompantes autoritários que revelam a verdadeira ideologia do político. E quanto às tropas de sem-terra, nada aconteceu.

Neste fim de semana, em Santa Maria, no Rio Grande do Sul, o presidente Bolsonaro atravessou várias fronteiras da sensatez ao investir contra pilares da democracia.

Ao dizer em uma solenidade militar que, mais do que o Congresso, ele quer o povo ao seu lado para executar seu programa, ultrapassou em gravidade o que dissera Lula, porque este já estava fora do Planalto.

E foi mais além, ao defender de maneira inconsequente seus decretos que liberam posse e porte de armas pela população. Uma população armada, no entender do presidente, evitará que governantes tomem o “poder de forma absoluta.” A receita da barbárie. No mínimo, de guerra civil.

O ex-capitão deputado federal com 28 anos de Câmara ressurgiu com suas teses radicais, só que agora envergando a faixa presidencial. Bolsonaro, precisa, portanto, de um curso intensivo de reeducação em democracia, a lhe ser ministrado pelas instituições republicanas.

As teses do presidente são as mesmas de qualquer político autoritário, desses que volta e meia aparecem na América Latina e que agora, na exportação do nacional-populismo, se espalham pela Europa, depois de conquistarem a Casa Branca em 2016.

Ele repete que o Brasil não pode virar uma Venezuela, mas defende fórmula de Hugo Chávez para instalar a ditadura que hoje, com Maduro na Presidência, destrói o país. Armar a população pobre com fuzis é o que fez Chávez, para proteger o “Socialismo do Século XXI”. Estas milícias paraestatais, na Venezuela de Maduro, barbarizam na repressão a manifestações pela volta da democracia. Infelizmente, milícias já existem no Brasil, formadas por PMs, geralmente da reserva, e outros agentes públicos, e podem ser mobilizadas por um candidato a ditador de ocasião.

A reeducação do presidente, na realidade, já começou, com a dificuldade de tramitação pelo Congresso de seus incabíveis decretos armamentistas, porque a assinatura presidencial não pode alterar lei aprovada pelo Congresso. No caso, o Estatuto do Desarmamento.

O instrumento pedagógico para Bolsonaro são os freios e contrapesos da Constituição, em vigor há 31 anos de estabilidade institucional.

A memória nacional não esquece os prejuízos decorrentes da falta de liberdade nos 21 anos de ditadura militar. Foi um período em que o país não se abriu ao mundo, não houve renovação geracional na política etc. Não será feito o caminho de volta.

terça-feira, 18 de junho de 2019

Brasil polarizado


Bolsonaro toma posse outra vez

Sem mais essa de que o governo é uma zorra, dividido em grupos que disputam o título de quem manda no presidente Jair Bolsonaro e no final acabará por tutelá-lo.

O título já tem dono: Bolsonaro. A zorra parece próxima do fim. Mas como ninguém governa sozinho, ele decidiu compartilhar o poder com um grupo restrito de pessoas de sua inteira confiança.

A saber: seus filhos, o autoproclamado filósofo Olavo de Carvalho e, vá lá, talvez por enquanto o ministro Paulo Guedes, da Economia, a quem no passado Bolsonaro chamava de “Posto Ipiranga”.


Ainda chama por força do hábito. E porque falta aprovar a reforma da Previdência. Mas com uma reforma desidratada e um chefe voluntarioso, Guedes corre o perigo de se tornar descartável.

Bolsonaro voltou a vestir a faixa presidencial quando demitiu o general Santos Cruz da Secretaria de Governo. Era o único ministro com autoridade para barrar as ideias esdrúxulas do presidente.

Guedes já teve mais autoridade. Aos poucos começou a perdê-la dada as sucessivas invasões de sua área por Bolsonaro. A mais recente, a demissão de Joaquim Levy da presidência do BNDES.

O substituto de Levy, para além de suas credenciais como economista teve o aval dos garotos. E está disposto a abrir a caixa preta do banco, se é que tal coisa existe por lá.

A demissão de Santos Cruz foi o sinal mais convincente de que a chamada ala militar do governo está sendo enquadrada, se já não foi. O general Augusto Heleno poderá ser a próxima peça a ser trocada

Se escapar de uma eventual bala de prata extraída de suas conversas à época em que comandava a Lava Jato, Sérgio Moro continuará no governo. Mas ele já foi ministro. Agora, está ministro.

O dono da voz aparentemente rendeu-se de vez à teoria do “caos criativo” defendida por Olavo e seus semelhantes. É preciso destruir tudo que impeça o surgimento do “novo”. 

Quanto ao “novo”, bem, ficará para mais adiante elaborar melhor o que possa ser. Sem pressa. O primeiro mandato é para destruir. O segundo para construir. Este será um governo de morte. Como se pretende.

Uma ameaça à democracia

Não há projeto político maduro de governo, mas uma incontinência verbal de Bolsonaro que, não raras vezes, é incongruente. Como zagueiro que dá caneladas, na metáfora futebolística a seu gosto, às vezes Bolsonaro se arrepende, mas não perde a viagem. Fala o que lhe passa na cabeça, sem filtros, e, pior, escreve no twitter o que pensa, ampliando um ambiente de insegurança política.

A gravidade de suas palavras, como a de todo presidente da República, parece ser desconhecida por ele. Ou, como já disse o general Augusto Heleno, chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), faz tudo de modo pensado, como uma estratégia política. Nesse caso, seria mais grave do que simplesmente dizer besteiras.

Besteiras, a ex-presidente Dilma Rousseff também dizia. O perigo é executar as besteiras, como ela fez e perdeu o cargo. De tantas besteiras, a mais grave foi dita no sábado à noite em Santa Maria, interior do Rio Grande do Sul.

Durante evento em memória ao marechal Emilio Mallet, o patrono da Artilharia, Bolsonaro voltou a defender a ditadura militar, mas, desta vez, foi mais longe, e ligou a atuação dos militares na ocasião ao armamento dos cidadãos que propõe hoje.

Para defender a ampliação das licenças para porte de arma, que a Comissão de Constituição e Justiça do Senado (CCJ) vetou, Bolsonaro disse: “(...) Além das Forças Armadas, defendo o armamento individual para nosso povo, para que tentações não passem na cabeça de governantes para assumir o poder de forma absoluta”.

São frases claramente ameaçadoras da democracia e, ditas pelo presidente da República, mais graves do que, por exemplo, a do presidente da CUT falar em “pegar em armas” para defender Dilma dentro do Palácio do Planalto.

Embora a então presidente não tenha desautorizado o líder sindical, as palavras não saíram de sua boca. Mais grave até que a frase de Lula, que falou na sede da Associação Brasileira de Imprensa em 2017: “Também sabemos brigar. Sobretudo quando o Stédile colocar o exército dele nas ruas”.

Lula já era ex-presidente, embora seu partido estivesse no poder e ele fosse, inegavelmente, seu líder maior.

Além da gravidade em si, a fala de Bolsonaro é incongruente, pois ele defende o governo militar fruto de um golpe para dizer que quer armar o povo para impedir golpes.

Quem quer impedir pelas armas que um governante qualquer tenha a tentação de dar um golpe, pode também ceder à tentação de dar um autogolpe, em nome da maioria armada da população.

É conclamar a uma guerra civil, pois nem todos os cidadãos armados serão a favor de um governo Bolsonaro sem as peias institucionais que tanto o desagradam. A ponto de ele, nesse mesmo discurso, falar que precisa mais do povo a seu lado do que do Parlamento.

A disputa constante entre Parlamento e governo, aliás, vai continuar – eles estão em confronto, e nenhuma das partes dá sinais de querer trégua.

O ministro Paulo Guedes criticou muito o Congresso que, por sua vez, assume cada vez mais o protagonismo político, tentando limitar os poderes do Executivo.

Bolsonaro insiste em desmoralizar o Congresso, e o ministro da Economia afirma que deputados sucumbiram ao lobby dos servidores públicos. Mas Rodrigo Maia está conseguindo convencer os deputados que aprovar a reforma da Previdência é bom para a imagem da Câmara, e para tirar de Bolsonaro e Guedes a primazia dela.

A guerra dos Brasis

Sob os repiniques da bateria em torno dos grampos do Joesley desta véspera de votação da reforma da Previdência (escrevo na 5a feira, 13), agora a cargo dos arrombadores a soldo de um certo The Interceptor, uma das marcas-fantasia de PSOL, PT e cia., está consumado o tombo do costume na última tentativa do País Real de abolir a escravatura.

Com os Benefícios de Prestação Continuada de abre-alas, o velho bloco do Me Engana Que Eu Gosto passou batidos os “jabutis” que realmente lhe interessavam: o regime de capitalizacão, que mataria para todo o sempre o comércio de privilégios previdenciários, a mais produtiva mina de ouro de quem tem o poder de vende-los, e a manutenção da constitucionalidade das normas da Previdência, a garantia vitalícia pela qual cobram caríssimo esses comerciantes. A reforma da previdência já entra na avenida castrada, conforme o prometido, portanto, e com o favelão nacional com todos os “acessos” espetados nas suas veias mantidos para que o País Oficial possa continuar servindo-se na medida da satisfação dos seus luxos.


O apartheid brasileiro tem raízes profundas. O Brasil Real, o Brasil que deu certo, o Brasil que se fez sozinho escondido do outro; este Brasil continua, como sempre esteve, à margem da lei. A lei foi feita pelo País Oficial, o anti-americano, o que sempre viveu das “derramas”, o que enforcou Tiradentes, o que invadiu o Rio de Janeiro em 1808, de modo a não poder ser cumprida jamais. É a continuação do Brasil dos traficantes de escravos que compravam pedaços do estado (feudos) e “títulos de nobreza” ao rei. São as deles as tais instituições que “estão funcionando”.

Só dois pontos desses dois Brasis sempre estiveram conectados; as mãos de um e os bolsos do outro. No mais são antípodas em tudo. Na educação, bola da vez, há os nédios professores das universidades públicas que comem o grosso da verba nacional, aposentam-se na flor da idade e dão aulas nos enclaves privatizados do território brasileiro onde polícia não entra (Coafs e tribunais de contas menos ainda) e formam-se, “de graça” e sem lei, os quadros da elite do País Oficial. E há as professorinhas miseráveis, que não se aposentam nunca, das escolas básicas varejadas de balas perdidas, caindo aos pedaços, creches de quase adultos que vão lá para comer da mão do País Oficial o pão que a “educação” que ele lhes serve não consegue comprar.

O sindicato desses diferentes professores é, no entanto, o mesmo. Com estrutura nacional, vem a ser o núcleo duro da defesa da privilegiatura. Escudados na miséria das professorinhas, são os professorões que organizam aquela rede que sai em passeatas milimetricamente cronometradas com as pautas em tramitação no Congresso Nacional e nas redações que empregam seus parentes, amigos e correligionários, para “provar” a “impopularidade” de acabar com os salários e as aposentadorias 100 vezes, 50 vezes, 30 vezes na média nacional maiores que as do favelão que paga a conta.

Mas não foi a derrota desse Brasil que saiu nas manchetes. Já não é mais nem “o governo” que “perde” ou “ganha” as batalhas entre os dois Brasis. Agora é só “o presidente Jair Bolsonaro” que “sofre derrotas no Legislativo e no Judiciário”, seja na batalha para o favelão nunca mais ter de pagar lagostas e vinhos tetracampeões aos STF’s de sempre, seja para que o estado conceda à plebe a graça de não ser enjaulada quando recusar-se a deixar-se mansamente matar e insistir em defender a própria vida contra quem resolver atentar contra ela.

As redações congregam os últimos brasileiros que ainda não entenderam com quem estão lidando. A bandidagem mata 65 mil. A bandidocracia mata milhões por ano. O conluio entre as duas é aberto a quem interessar possa, do grande tráfico de entorpecentes, hoje privilégio de governos praticantes do tipo de “excesso de democracia” que o lulopetismo prega, para baixo. Mas a imprensa tem mais medo do povo obediente à lei, da polícia, dos promotores e dos juízes que realmente apitam faltas do que deles. Nem a “epidemia de ansiedade” que acomete o povo brasileiro como a nenhum outro do planeta é associada ao que quer que seja de especial. É mais uma daquelas notícias que os âncoras de TV lêm com cara de paisagem. Uma doença sem causa. Nada a ver com os 40 milhões de desempregados e subempregados nem com a montanha de assassinados.

Para a unanimidade da imprensa brasileira essa carnificina só tem a ver com o “acesso a armas” que, advertem, ou nega-se terminantemente à sub-raça tupiniquim, ou ela sairá matando desbragadamente por aí. É como se esse acesso já não estivesse drasticamente proibido há 14 anos, contra a vontade expressa em voto pela população, e não estivesse sendo provado 65 mil vezes por ano, 5.342 vezes por mês, 178 vezes por dia a mentira de associar desarmamento com segurança publica.

No quesito segurança, aliás, o esforço concentrado da ala mais “progressista” do nosso jornalismo é para discriminar cadáveres. Depois de todo o resto a desigualdade em nome da igualdade chega finalmente aos necrotérios. Cadáver de mulher vale mais – e dá pena mais pesada – que cadáver de homem e menos que cadáver de homossexual ou de transgênero. E, em todas essas subcategorias, ganham “peso 2” os que acumulam a qualidade de não brancos.

Tudo isso tem precedência, no jornalismo pátrio, sobre a guerra aberta entre os dois Brasis cuja existência ele sequer reconhece. Ele permanece surdo ao País Real mas sempre pronto a disparar sem pensar uma vez e meia todo e qualquer petardo que a bandidocracia houver por bem enfiar-lhes nas culatras “de acesso”, e a invocar a lei escrita pela bandidocracia para manter eternamente intactas as leis escritas pela bandidocracia, para julgar todo mundo que ousar tratar de alterá-las.

Se o Brasil “é uma democracia”, como parecem crer 9 entre 10 dos nossos jornalistas, qualquer alteração no status quo será “antidemocrática”. Ok, então. E pra onde vamos na sequência da aceitação dessa premissa?

Bolsonaro usa estatais de olho na reeleição

Nos últimos dois meses Jair Bolsonaro fez intervenções em quatro das maiores empresas estatais. Em todos os casos, justificou sua ingerência com razões político-eleitorais.

Mudou a política de preços do diesel da Petrobras para atender eleitores: “Estou preocupado com os caminhoneiros; queremos preço justo”.

Interferiu no Banco do Brasil porque achou uma propaganda questionável aos olhos do seu eleitorado conservador: “A linha mudou, a massa quer respeito à família”.

Anunciou a demissão do chefe dos Correios porque “agiu como sindicalista” e se deixou fotografar com deputados do PT e do PSOL.

Demitiu o presidente do BNDES por contratar um técnico que trabalhara em gestão do PT: “Governo é assim, não pode ter gente suspeita”.


Bolsonaro criticava o uso do governo como palanque. Agora, por razões eleitoreiras se arrisca na ingerência indevida e no abuso de poder, atropelando a Lei das Estatais (nº 13.303) e a das Sociedades Anônimas (6.404).

No Planalto reafirma distância do ideário liberal contra o intervencionismo e o dirigismo na economia, assim como fazem seus adversários.

A “aliança em torno de valores”, lapidada pelo ministro Paulo Guedes, continua a ser miragem para os liberais no governo. O presidente segue coerente com o deputado Bolsonaro que, entre 1999 e 2010, se alinhou ao PT na Câmara na defesa de corporações e na concessão de benesses ao setor privado (incentivos, anistias etc.). Essa dobradinha já foi exumada pelo pesquisador Bruno Carazza.

Já houve dias em que Bolsonaro foi à Câmara para proclamar: “Confesso que votei no Lula.” Chamava-o de “companheiro” e o aconselhava a só escolher ministros depois de consultar “quadros do PT, do PCdoB e de outros partidos.” Em dezembro de 2002, discursou para Lula, enigmático: “Não quero ser oposição. Não serei situação pela situação.”

No palanque do Planalto, Bolsonaro aplaina caminho às urnas de 2022 — embora tenha prometido acabar com “a reeleição, o que no caso começa comigo”. Nunca mais tocou no assunto. Talvez seja caso de amnésia por conveniência política.

Imagem do Dia


O dom de humilhar

A fritura explícita de Joaquim Levy não foi o primeiro nem será o último caso em que o presidente Jair Bolsonaro exibe um quê de prazer sádico na maneira de demitir auxiliares. Fez assim com o então embaixador em Washington, Sérgio Amaral, repetiu com Gustavo Bebiano, insistiu com o general Juarez Cunha, presidente dos Correios, prosseguiu por aí afora no espezinho a vários outros com os quais se mostrou insatisfeito.

Todo subordinado é demissível, mas ninguém precisa ser humilhado. As atitudes do presidente falam muito mais sobre ele, exibem com muito mais eloquência seus desvios de caráter, do que propriamente explicam (e de forma alguma justificam) os eventuais desacertos dos demitidos.

Uma coisa é certa: nada que extrapole os limites da normalidade dá certo. Pode demorar mais ou menos tempo, mas uma hora a exorbitância cai na cabeça do exorbitante. Está aí o PT como o exemplo mais dramático dessa lei não escrita da vida.

Se é a posse do poder absoluto que Bolsonaro quer demonstrar, ignora o fato de que só os fracos precisam do picadeiro para demonstração. Os fortes de verdade dispensam o espetáculo e a exibição dos músculos.

Há vida fora da rede

A tecnologia passa, mas as velhas folhas de papel sempre resistirão ao tempo. É empolgante poder conversar com diferentes pessoas de diferentes países com apenas um clique, mas só quem retornou aos antigos livros sabe a experiência que é poder conversar com aqueles que já se foram. Em uma sociedade on-line, é preciso estar off-line para aprender e experimentar o melhor da vida
Pedro Miquelasso 

Guede entrega BNDES a assessor de 3º escalão

Após a carbonização de Joaquim Levy, o ministro Paulo Guedes contentou-se com uma solução doméstica para o preenchimento da vaga de presidente do BNDES. Acomodou no posto um assessor do terceiro escalão da pasta da Economia. Chama-se Gustavo Montezano. Tem escassos 38 anos. Dava expediente como secretário especial adjunto de Desestatização e Desinvestimento, abaixo do secretário Salim Mattar, que estava cotado para o posto.

Gustavo é filho de Roberto Montezano, um velho amigo do ministro. Os Montezano já residiram no mesmo prédio dos Bolsonaro. O novo presidente do BNDES é conhecido dos filhos do capitão. O deputado Eduardo Bolsonaro festejou a escolha no Twitter. Referiu-se a Gustavo Montezano como "um dos prodígios da ecomomia de sua geração".



A opção caseira foi interpretada como um sinal de que Paulo Guedes planeja exercer ascendência mais direta e efetiva sobre a administração do BNDES. Antes de Jair Bolsonaro declarar em público que Levy estava "com a cabeça a prêmio", o ministro já se queixava dele em privado. Queria pressa no processo de readequação do banco aos propósitos liberais do novo governo.

Diferentemente de Joaquim Levy, Gustavo Montezano não passou pelos bancos da Universidade de Chicago. Graduou-se engenheiro pelo IME (Instituto Militar de Engenharia). Fez mestrado em economia no Ibmec-RJ. Não é um neófito em mercado financeiro. Foi sócio-diretor do banco BTG-Pactual. Trabalhou também como analista do Opportunity.

Aos olhos de Paulo Guedes, a Presidência de Gustavo Montezano no BNDES será como vinho. Tomará a forma do jarro que o ministro providenciar para abrigá-la. De saída, o substituto de Levy terá de satisfazer o desejo de Jair Bolsonaro de "abrir a caixa preta do BNDES". Do contrário, o capitão não demora a chutar o jarro.

Muito além dos 280 caracteres

Na sexta-feira 24 de maio, antevéspera das manifestações em apoio a Jair Bolsonaro, a consultoria Bites, que faz medições de diferentes métricas na internet, constatou que, até as 20 horas daquele dia, a convocação para os atos a favor do presidente tinha um incentivo seis vezes maior do que o dos protestos contra os cortes na Educação, de 15 de maio. Segundo a Bites, foram 1,2 milhão de postagens chamando para as manifestações de domingo, contra 206 mil para os atos da semana anterior. Passado o domingo, entretanto, as ruas mostraram outra realidade. De acordo com o monitoramento feito pelo G1, ao longo do dia 26, até as 20h40, houve protestos apoiando Bolsonaro em 156 cidades de 26 estados, mais o Distrito Federal. No mesmo horário na quarta-feira 15, o dia dos atos em defesa da Educação, foram contabilizadas manifestações em 222 cidades de todos os 26 estados e no DF. O que houve? Por que a força do movimento pró-Bolsonaro foi maior nas redes, mas isso não se traduziu em gente na rua? A resposta talvez vá contra o senso comum da força inequívoca nas redes sociais. Talvez o Brasil seja maior e mais diverso do que os 280 caracteres do Twitter e seus pares sugerem.

Há pouco mais de um ano, foi isso que mostrou a investigação "Todo mundo quem?!", feita pelos pesquisadores Filipe Techera e Luiza Futuro, que traçou um panorama quantitativo e qualitativo sobre o acesso às redes sociais no país. A fase qualitativa estudou o comportamento dos brasileiros nas redes, e a quantitativa, conduzida pelo instituto Gfk, conduziu 11.887 entrevistas, com pessoas das 15 principais regiões metropolitanas. Os números mostraram que, a despeito do discurso dominante sobre o impacto das curtidas e compartilhamentos, há 70 milhões de pessoas que não estão nas redes sociais. São os “nativos sociais”, que estão fora das plataformas, em parte porque não têm acesso, mas também porque, em muitos casos, optaram por desativar seus perfis.

Techera trabalhava na produção do programa "Esquenta", da TV Globo, apresentado por Regina Casé, quando teve a ideia de fazer a pesquisa. Leu uma reportagem na época que dizia que as redes embutiam “as opiniões de todo mundo”. O mergulho nas entrevistas mostrou que, embora a maioria esteja nas redes, há muitas camadas nesse “todo mundo”. Há pessoas que queriam estar, mas não estão, por razões diversas — falta de infraestrutura, incapacidade de interpretação de texto, pouca habilidade digital, falta de dinheiro, entre outras. Há também os que romperam relações da vida real devido à interação virtual, os que buscam mais privacidade, os que sofrem com ansiedade, sensação de urgência, baixa autoestima ou que, por diferentes experiências, saem pior do que estavam quando fizeram o login.

As entrevistas mostraram, por exemplo, casos de impacto do Instagram na saúde emocional de pessoas que optaram por deixar as redes. “A narrativa que se constrói ali da vida das pessoas muitas vezes foge do real. Embora muitos saibam racionalmente disso, a linha do tempo do vizinho sempre parece mais verde do que a sua”, analisou Techera, lembrando que entrevistados diziam não se sentir parte do Instagram por morar num lugar velho, sentir-se feio ou por ter uma vida que consideram chata. “Isso vira uma referência de vida que, na maior parte dos casos, é inalcançável para a maioria das pessoas. O algoritmo mede a exposição dos perfis pelo número de likes obtidos, e isso faz com que eles fiquem mais altos na hierarquia social que é construída ali dentro.”

Mas o impacto vai além. Empresas que tomam decisões de negócios enviesadas pelo que bomba nas redes também erram ao desconsiderar que um terço do país não está lá. Os governos também erram. Há alguns anos, os principais esforços do governo federal na internet têm sido na universalização do acesso à banda larga. Mas, além do acesso, há que se tirar do papel o que já está previsto em lei: que haja educação para esse uso. Sem a educação midiática, não há estímulo para que o acesso à internet tenha bom proveito.

Techera frisou que as companhias telefônicas também têm sua responsabilidade. A publicidade que vende pacotes de dados martela o benefício de WhatsApp, Instagram e Facebook ilimitados, estimulando o uso, mas sem sinalizar com a necessidade de ter controle de quanto tempo é despendido ali. Alguns pacotes já foram além e foram vendidos com o WhatsApp gratuito apenas de madrugada. “Qual é a mensagem que é passada? Não é sobre limitar o acesso. Essa ideia não é boa, nunca dá certo. É sobre ensinar quais são os pontos positivos e quais os possíveis problemas que essas pessoas podem ter estando nesse universo”, cobrou Techera.

A partir dos relatos obtidos pela "Todo mundo quem?!", e também com a observação nos últimos meses, os pesquisadores chamam a atenção para a crescente sensação negativa sobre a internet, que passa a ser mais e mais associada a contextos negativos. Discursos como “Fica muito na internet”, “Não sai de lá”, “Só tem coisa ruim”, “É briga o tempo todo” vão se tornando mais comuns. Techera agora está coletando entrevistas, músicas e posts em redes sociais que relatam o incômodo com o uso da internet e mostram que a ideia de estar sempre conectado, considerada positiva no passado, vem dando lugar a nuances mais negativas. “É ruim alguém que está muito na internet, ou que briga muito na internet, ou que só se relaciona na internet”, comparou.

As entrevistas mostraram que há uma associação direta entre internet e redes sociais, como se fossem a mesma coisa, quando não são. O lado positivo, de estímulo à aproximação entre as pessoas, de ter uma esfera virtual de debates, não é das redes sociais. É da internet. O lado negativo, das brigas, dos ataques virtuais, dos caça-likes, das vidas falsas e perfeitas do Instagram, é das redes. O prejuízo para quem decide se desconectar, alertam os pesquisadores, é jogar fora a água da bacia com a criança dentro.

Pensamento do Dia


Renda do trabalhador mais pobre segue em queda e ricos já ganham mais que antes da crise

A recessão que o Brasil atravessou entre 2015 e 2016 afetou ricos e pobres, mas passados três anos desde o fim da "pior crise do século", como foi batizada à época, fica claro que os efeitos deletérios desse período foram diferentes para os dois grupos. Os brasileiros mais abastados já viraram a página das vacas magras. Os pobres, ainda não. Um estudo do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas revela que depois da tempestade, os 10% mais ricos já acumulam um aumento de 3,3% de renda do trabalho, ou seja, além de superar as perdas, já ganham mais que antes da recessão. Enquanto isso, os brasileiros mais vulneráveis amargam uma queda de mais de 20% da renda acumulada. Se somarmos os últimos sete anos, a renda do estrato mais rico aumentou 8,5% e a dos mais pobres caiu 14%.

A depressão econômica e a tímida recuperação que se seguiu pegou em cheio famílias como a de Gilvan Alves dos Santos, de 44 anos. Assistente de logística de uma empresa há 17 anos, ele viu seu salário se transformar na única renda fixa de uma família de seis pessoas. Três dos seus quatro filhos estão desempregados (a caçula de 15 anos é estudante do ensino médio) e a mulher que trabalhava como estoquista foi demitida. Hoje sua parceira estuda fotografia. Para completar a situação financeira complicada, Santos não conseguiu durante muito tempo pagar um empréstimo e se viu enrolado numa dívida de 10.000 reais. Após renegociar com o banco, logrou pagar um décimo do que devia, e saiu das estatísticas da inadimplência. Uma das filhas também tem ajudado com a renda da casa fazendo bicos de babá. “A situação na família apertou e a renda per capita diminui muito”, lamenta. Com o orçamento apertado, a família de Santos engrossou o grupo dos 50% mais pobres - contabilizando menos de 754 reais por pessoa.


Diferentemente de Santos, Elisa Guimarães Figueiredo, de 33 anos, que também trabalha com logística seguiu um caminho de crescimento nos últimos anos mantendo-se no estrato mais rico da sociedade. “A crise, na verdade, foi uma oportunidade”, conta. Como trabalhava no setor de ferrovia e, depois em um porto, ela abriu mercado oferecendo soluções de redução de custos a pessoas que utilizavam o transporte rodoviário. Entre 2015 e 2017, ela conseguiu dobrar o salário e hoje se tornou consultora de logística em uma importante consultoria global.

O retrocesso de Gilvan e o crescimento de Elisa são os dois lados da moeda da economia brasileira. A retomada da atividade brasileira é bastante desigual entre os trabalhadores. Segundo o levantamento do Ibre/FGV, as oscilações na relação entre a renda média do trabalho dos 10% mais ricos e dos 40% mais pobres mostram que, desde 2015, essa desigualdade vem crescendo, e atingiu em março o maior patamar desde 2012, quando começou a ser feita uma série histórica sobre o assunto. O indicador utilizado pelo levantamento é o índice de Gini, que monitora a desigualdade de renda em uma escala de 0 a 1 - sendo que, quanto mais perto do 1, maior é a desigualdade. O Brasil atingiu o valor de 0,6257 em março.

Para o pesquisador Daniel Duque, os mais pobres sentem muito mais o impacto da crise pela vulnerabilidade social e pela dinâmica do mercado de trabalho. “Há menos empresas contratando e demandando trabalho, ao passo que há mais pessoas procurando. Essa dinâmica reforça a posição social relativa de cada um. Quem tem mais experiência e anos de escolaridade acaba se saindo melhor do que quem não tem”, disse o pesquisador em nota.

Na avaliação do Marcelo Medeiros, vinculado à Universidade de Princeton nos Estados Unidos, a recuperação até agora quase não gera empregos e praticamente só favorece os trabalhadores de renda mais alta. “Os mais pobres estão sendo deixados para trás”, diz.

Medeiros começou a estudar de que forma as oscilações macroeconômicas afetaram a desigualdade de renda do trabalho que cresceu nos últimos anos. Junto com Rogério Barbosa, pesquisador pós-doutor do Centro de Estudos da Metrópole (USP) e visitante da Universidade Columbia, Medeiros detectou que, entre 2014 e 2015, há uma interrupção da queda da desigualdade. “Em boa medida o desemprego é o carro chefe da tendência de aumento da desigualdade recente. Em questão de um ano e meio, o trabalho distributivo passa a ser desfeito na mesma velocidade em que ele tinha sido feito", explica Barbosa. Ele conta que nos anos 2000, o índice Gini caía 7 pontos ao ano, justamente quando o país vivia um boom de empregos.

A desigualdade se acentua em 2016, com a renda menor entre os trabalhadores. "A partir daí temos um aumento de 20 pontos no Gini devido à desigualdade dentro do mercado, instabilidade, e insegurança para quem sobreviveu", diz. No fim de março, 13,4 milhões de pessoas estavam desempregadas no Brasil, segundo dados do IBGE.

Analisando a série dessazonalizada (quando se exclui os efeitos das variações típicas de cada período do ano), é possível observar que, em meados de 2014, os 50% mais pobres se apropriavam de 5,74% de toda renda efetiva do trabalho. No primeiro trimestre de 2019, a fração cai para 3,5%. Para esse grupo que controla uma quantia pequena do montante existente, essa redução de apenas 2.24 pontos percentuais representa, em termos relativos, uma queda de quase 40%.

Enquanto isso, o grupo dos 10% mais ricos da população, na metade de 2014, recebia cerca de 49% do total da renda do trabalho - e vinha apresentando redução nessa parcela, ao longo dos anos anteriores. No início de 2019, sua fração chega a 52%. Para Barbosa, a desigualdade de renda aumenta por dois motivos nos últimos ano. Primeiro, porque muitas das pessoas que conseguem reingressar no mercado vão para o setor informal e inseguro, portanto preocupados em reduzir gastos, inibindo a circulação de dinheiro na economia. E, por outro lado, as pessoas que ficaram no setor formal têm colocações melhores, e, eventualmente, chegam a melhorar seus ganhos. "Desigualdade não é apenas ganhar ou perder, é ganhar mais rápido. Se alguém se distancia do restante da população, aumenta a desigualdade. O topo do mercado formal está se distanciando da base de forma muito rápida, algo que não víamos desde o começo de 1990", explica Barbosa.

A crise e os pinos da tomada

Continuam caindo velozmente as previsões de crescimento econômico para este ano e para 2020. Um enorme fiasco marcará a primeira metade do governo Bolsonaro, se os fatos confirmarem as avaliações do mercado. Na semana passada já estava em 1% a expansão prevista para o Produto Interno Bruto (PIB) em 2019. Agora, nem isso. No meio de muita confusão política e de muita incerteza sobre os negócios, a nova projeção, divulgada ontem, já está em 0,93%. A pesquisa entre economistas do setor financeiro e de grandes consultorias foi fechada na última sexta-feira. Naquele dia, as atenções do Congresso e do mercado estavam centradas no trabalho apresentado pelo relator do projeto de reforma da Previdência, deputado Samuel Moreira. Outras preocupações, no entanto, dominavam o presidente da República e vários de seus principais auxiliares. Uma dessas preocupações era a tomada de três pinos, como foi noticiado no começo daquela noite.

No mercado, as apostas para o próximo ano também continuaram em queda. Pela nova estimativa, o PIB crescerá 2,20% em 2020. Quatro semanas antes a projeção ainda estava em 2,50%, cálculo ainda mantido para 2021 e 2022, segundo a pesquisa Focus do Banco Central (BC).


A visão cada vez mais sombria das condições econômicas nos próximos meses começou a contaminar claramente, há pouco mais de uma semana, as expectativas em relação ao próximo ano. Indústria, varejo e serviços continuam muito mal, pela maior parte dos dados conhecidos até agora, e o comércio externo tem perdido vigor. Há poucas dúvidas sobre a aprovação da reforma da Previdência, mas nem isso estimula empresários a assumir riscos além dos indispensáveis para continuar operando.

Em maio, o índice de confiança do empresário industrial caiu pela quarta vez consecutiva, segundo pesquisa da Confederação Nacional da Indústria (CNI). A queda se estendeu, portanto, por quase todo o mandato do presidente Jair Bolsonaro.

O desempenho do setor industrial deve continuar muito ruim neste ano e estabilizar-se em nível medíocre nos próximos, segundo as expectativas apontadas pela pesquisa Focus. A produção industrial deve crescer 0,65% em 2019, segundo o boletim publicado ontem. A taxa é maior que a registrada na pesquisa anterior, de 0,47%, mas ainda inferior a metade da publicada quatro semanas antes, 1,47%. Mesmo esta previsão já era muito baixa. As estimativas para os dois anos seguintes também têm caído. Agora se estimam taxas de 2,80% para 2020, 2,75% para 2021 e 2,85% para 2022, num cenário de evidente estagnação.

A mensagem vem sendo transmitida pelos economistas há meses. A reforma da Previdência é indispensável, mas insuficiente para livrar o País do marasmo econômico. Não há sinal claro, no entanto, de providências para tornar os negócios mais dinâmicos.

Além de algumas ações para simplificar a vida empresarial e de uma promessa de reforma tributária, poucas medidas economicamente importantes aparecem na pauta do Executivo. Mesmo sobre a reforma tributária poucas informações claras, organizadas e convincentes foram divulgadas.

Não há, também, sinais de providências para movimentar a economia a curto prazo, nem depois de aprovada a reforma da Previdência. O governo continua agindo como se a prolongada estagnação, os resultados muito ruins deste ano e o desemprego de cerca de 13 milhões de trabalhadores fossem questões secundárias agora nos próximos meses.

Distante das questões mais urgentes para o mercado e para as famílias empenhadas em sobreviver, o presidente se ocupa da tomada de três pinos e do armamento da população. Demite o ministro-chefe da Secretaria de Governo por ter contestado seu guru Olavo de Carvalho. Por motivo ideológico, leva à demissão o presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Atropelado, o ministro da Economia se cala, reforçando as dúvidas sobre quem manda em sua área. Pode haver alguma surpresa, se as expectativas econômicas pioram a cada semana?

Nem Jânio (de porre...) conseguiu fazer um governo mais maluco do que Bolsonaro

No Brasil, ser repórter de política virou, ao mesmo tempo, diversão e escravidão. Os jornalistas realmente se divertem com as maluquices da família Bolsonaro e de seu governo, que é o mais enlouquecido da história, pois nem mesmo Jânio Quadros, eternamente de porre, conseguiu mais trapalhadas do que o atual presidente. Mas fazer a cobertura do governo virou também uma escravidão, porque o show é permanente, inclui fins de semana, feriados e viagens ao exterior.

Os repórteres não têm sossego, porque o espetáculo é apimentado pelas participações dos filhos Flávio (o Zero Um), senador pelo PSL-RJ; Carlos (o Zero Dois), que comanda à distância a Comunicação Social do Planalto; e Eduardo (o Zero Três), que se autoproclamou “chanceler informal” e dá ordens ao ministro do Exterior, que é uma espécie de Rainha da Inglaterra e não manda nada.

Além disso, há as sensacionais intervenções do escritor Olavo de Carvalho, o Rasputin virginiano, que saiu de cena, mas ainda manobra nos bastidores.

Analisado com atenção, o chefe do governo demonstra um comportamento bipolar. Muda de opinião com facilidade, é um vaivém incessante. Faria sucesso em qualquer divã, porque nem mesmo Freud explicaria o proceder de Bolsonaro, mesmo ajudado por Jung, Lacan, Pavlov, Pinel etc.

O fato é que Bolsonaro e os três mosqueteiros que eram quatro (seus filhos e o guru virginiano) não têm a menor ideia do que seja democracia. Se comportam como se tivessem inventado um reinado psicodélico, em que Legislativo e Judiciário ficam em segundo plano, mas Padre Quevedo esqueceu de dizer a eles que “isso non ecziste”.

Bolsonaro tenta reagir à influência dos filhos e de Olavo, mas tem recaídas. Às vezes, percebe que errou, como no caso do ministro Gustavo Bebianno. Arrependeu-se e ofereceu-lhe a diretoria de Itaipu ou as embaixadas da Itália e Portugal, a escolher, mas Bebianno recusou. Na semana passada, demitiu Santos Cruz e lhe ofereceu outro cargo no governo, mas o general não aceitou e saiu de fininho, sem dar entrevista.

Os atos administrativos são uma bagunça. O decreto das armas é um exemplo. Teria de ser uma medida provisória. Baixado como decreto, é ilegal, apenas uma peça de ficção. Em sentido inverso, o mesmo fenômeno se registra em relação à medida provisória para acabar com a contribuição sindical obrigatória. Poderia ser um simples decreto e já estaria em vigor, mas como medida provisória corre o risco de rejeição ou alteração pelo Congresso.

O certo é que Bolsonaro seguiu Raul Seixas e se transformou numa metamorfose ambulante. Ninguém sabe qual será a tendência do governo, porque o privatista Guedes está em baixa e as desonrosas demissões de Marcos Pinto e Joaquim Levy demonstram que Guedes não manda mais nada. Os dois eram da sua cota.

Se Guedes tivesse hombridade, seria solidário aos auxiliares e pediria o boné antes deles. Mas esse tipo de comportamento digno parece fora de moda e o ministro fez questão de dar entrevista tentando justificar a grosseria de Bolsonaro, que é injustificável.

segunda-feira, 17 de junho de 2019

Terrorismo digital

O Ministério Público caiu sob um ataque orquestrado e financiado de terrorismo digital. Esse é o grande protagonista político do vazamento das conversas entre agentes da Lava Jato. Num olhar que vê a cauda longa de certos eventos, o debate ao redor da possível simpatia dos diálogos vazados pela condenação de Lula não é o essencial, porque o Estado de Direito já está sob ataque sistemático no país, e quem começou a matá-lo foi o próprio PT, com seu desejo de poder por mil anos.

O PT não tem moral pra falar de defesa da democracia. Caso Haddad tivesse vencido as eleições, hoje apoiaríamos o ditador Maduro na Venezuela, que foi elogiado por altas patentes do partido quando foi “reeleito”. Portanto, a narrativa de virgem violentada que o PT faz após esse conteúdo hackeado só engana bobo.

O corrupto PT se vende como defensor da democracia, mas quem crê nessa imagem é ingênuo, ignorante ou mentiroso. E, numa democracia, a verdade sempre está na UTI, desde Atenas, e nada mudou.

O essencial nesse evento é a aceitação tácita por parte dos agentes institucionais da política e do debate público autorizado do terrorismo digital como player legítimo no faccionalismo político que tomou conta do Brasil.


De agora em diante, o terrorismo digital está valendo como arma política, seja pra que lado for. O “case Brasil” será objeto de estudo, dentro dos limites, claro, que um país irrelevante como o nosso merece no cenário intelectual e político internacional. Na geopolítica, o Brasil vale menos do que a Nigéria.

O terrorismo é uma tática inventada para combater um inimigo de forma a tornar o seu cotidiano instável, numa palavra, aterrorizado. Mas uma das faces essenciais do terrorismo é que sua legitimidade como forma de luta é aceita por muitos, ao mesmo tempo que é combatida por outros.

Para israelenses, o Hamas é terrorista; para palestinos, são guerreiros da liberdade. Para britânicos, o IRA era terrorista; para irlandeses, também guerreiros da liberdade.

Aqueles que aceitam o terrorismo consideram-no uma forma legítima de combate diante de um inimigo muito poderoso e instituído legalmente —como um Estado, uma empresa (um Ministério Público?). Esses poderes são sempre vistos como assimétricos em relação às vítimas que são obrigadas a combatê-los lançando mão do terrorismo.

A política sempre legitimou as formas distintas de terrorismo, inclusive enterrando seus terroristas como heróis. Intelectuais, à esquerda e à direita, sempre serviram coroas de flores em seus enterros, elogiando-os em aulas, em artigos nos jornais ou revistas, em emissões na TV ou no rádio, em posts nas redes sociais, enfim, nos veículos de conteúdo.

O terrorismo digital custa caro. Como toda máfia, requer logística e pessoal treinado. Quem pagou por esse hackeamento? De onde veio o dinheiro? Quem é contemplado positivamente pelo hackeamento e pelo conteúdo disponibilizado? O site que o divulgou é ideologicamente isento?

Claro que não. Evidente que os extremos polarizados do espectro político sempre tenderam para um ethos semelhante ao da máfia, principalmente pelo seu temperamento faccionalista, como um PCC ou um Comando Vermelho. As lutas ideológicas radicalizadas desde o século 19 sempre simpatizaram e produziram grupos terroristas.

Esses últimos acontecimentos marcam o retorno do polo à esquerda para a pole position da guerra digital, que é o futuro da política no mundo (e tanta gente por aí dizia que o PT estava morto). Mas, o fato vai mais longe do que isso.

Para além dos diretamente interessados (a esquerda como um todo, políticos corruptos em geral, intelectuais e artistas orgânicos que perderam a boquinha, professores irrelevantes) na destruição dos protagonistas da Lava Jato e, por consequência, da autonomia da Lava Jato, a classe política também vê a possível “queda da República de Curitiba” com um certo gozo: “Ufa!! Escapamos por pouco!”

De qualquer forma, parece piada os discursos sobre o controle das redes digitais por parte do Estado. Escreva aí: ninguém controla as mídias digitais. A democracia será e já está sendo devastada por ela, por seus grupos ativistas, seus hackers militantes e mercenários, seus bots competentes.

O ocorrido deve ser investigado, como tudo mais. Mas quem larga na frente nos ganhos são os que lucram com a desmoralização da Lava Jato e o crescimento do movimento Lula Livre. Voltamos à luta armada —agora digital.
Luiz Felipe Pondé

Brasil da nova tribo


Bolsonaro e Lula lucram com Moro ferido

Ter um ministro da Justiça suspeito de atentar contra a própria Justiça seria desconfortável para qualquer governante. Para Jair Bolsonaro, o episódio que animou os adversários é quase uma bênção, que realoca o debate para o campo simplista das paixões entre os pró e os contra a Lava-Jato. Um ambiente usado com sucesso na campanha, que dá ao presidente chances de voltar a ter nas mãos rédeas que andavam soltas. 


Estrela de primeira grandeza do governo, o ex-juiz Sérgio Moro provocava sentimentos antagônicos ao capitão e em sua turma.

Mais popular que o presidente, Moro vinha amargando derrotas patrocinadas pelo chefe. Perdeu nos decretos de posse e porte de armas, que ele pretendia mais brandos, na manutenção do Coaf, que voltou para o Ministério da Economia, e até na simples indicação de Ilona Szabó para uma suplência do Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária. Seu pacote anticrime, enviado ao Congresso no início do ano, patina, e em prol dele o presidente jamais mexeu uma única palha.

Mas na semana em que o The Intercept revelou trechos nada republicanos das mensagens entre o ex-juiz e o procurador Deltan Dallagnol, coordenador da força-tarefa da Lava-Jato em Curitiba, Bolsonaro se apressou em desfilar com Moro para cima e para baixo. Passearam de lancha juntos, vestiram a camisa do Flamengo no estádio Mané Garrincha, onde o capitão pode conferir o apoio ao paladino de Curitiba, traduzido em aplausos.

Nas redes, e também na mídia convencional, o agito da oposição, em especial do PT, canalizado para a ladainha do Lula Livre, ocupou espaços generosos, deixando em segundo plano as barbeiragens do governo, bipolar por natureza. Tão bipolar que conseguiu, por meio de declarações nada cordiais do ministro Paulo Guedes, transformar em derrota a vitória obtida com o relatório da reforma da Previdência na Câmara.

Na sexta-feira, Bolsonaro garantiu que a possibilidade de exonerar Moro é zero, colocando-se ao lado do herói ferido. Gestos que nenhum dos demais auxiliares saborearam. “Não houve maldade”, diz o presidente, que com a frase admite os pecados de seu ministro e a eles faz vistas grossas. Tudo teria sido feito em nome de expurgar o “câncer do Brasil, que é a corrupção”.

O tal dos fins a justificar os meios, princípio que já serviu a toda sorte de comportamentos espúrios. Petistas teriam roubado não para si, mas para o partido, a fim de garantir a permanência do “povo” no governo. Adhemar de Barros e depois Paulo Maluf roubavam, mas faziam. Tudo com apoio popular.

Nas contas do presidente, a defesa enfática ao ministro o coloca entre os bons, os que lutam contra a lama da corrupção. Aqueles que criticam o comportamento no mínimo aético do ex-juiz estariam no campo oposto. Repete a conhecida cartilha do nós x eles, utilíssima aos populistas de qualquer matiz ideológica e deletéria para o país.

O digladio entre lados não pode ofuscar o debate de fundo que tem de ser travado a partir das mensagens reveladas pelo The Intercept, que vão muito além da ilicitude do hackeamento, de Moro, Dallagnol ou Lula, que pode se achar mas não é o centro do mundo. São centenas de provas de roubalheira deslavada, milhões recuperados e outros tantos em processo de resgate, dentro e fora do país, condenações de gente graúda confirmadas em mais de uma instância.

Tanto Bolsonaro e sua oportuna verve pró-Moro quanto os que clamam pela nulidade de tudo para libertar Lula sabem que nada pode ser personalizado em um juiz. Mas cada parte, a seu modo, se aproveita dos rasgões na toga para costurar suas narrativas.

O país em farrapos que se dane.

Silêncio profundo

O presidente do Sindicato Rural de Rio Maria (PA), Carlos Cabral Pereira, foi assassinado no final da tarde de terça-feira passada, abatido com um tiro na cabeça quando voltava de moto para casa. Cabral é o terceiro sindicalista morto na cidade desde 1985. Todos perderam a vida em razão de questões fundiárias. Ele próprio já havia sido objeto de um atentado, em 1991, quando foi alvejado na perna. Rio Maria fica na região conhecida como Bico do Papagaio, que abrange o norte do Tocantins, o leste do Pará e o sudoeste do Maranhão, onde se acumulam histórias de violência no campo.


Apesar de ser parte de uma estatística macabra que comove o Brasil desde 1988, quando o seringueiro e sindicalista Chico Mendes foi assassinado em Xapuri, no Acre, a morte de Cabral quase passou despercebida. Dos poderes constituídos, apenas o Ministério Público Federal se manifestou. Por dever de ofício, anunciou que vai acompanhar as investigações da morte do sindicalista. Não se ouviu uma palavra sequer do presidente da República ou de seus ministros da Justiça, da Agricultura e dos Direitos Humanos.
De Jair Bolsonaro não devia se esperar qualquer manifestação mesmo. O presidente defende um campo armado para que os proprietários possam defender suas terras a bala. Mas por que as ministras Damares Alves e Tereza Cristina não se manifestaram? Damares é ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, e Tereza chefia a pasta da Agricultura. Também nada se ouviu de Sergio Moro. Talvez porque o ex-juiz estivesse no meio do seu inferno particular, que começou a arder no domingo com as revelações de seus diálogos com o procurador Deltan Dallagnol.

O Estado brasileiro sempre se manifestou em assassinatos de outros sindicalistas, líderes e ativistas rurais e religiosos, como o padre Josimo Tavares e a irmã Dorothy Stang. O governo mudou, o Estado mudou, tem outro caráter. Mas o que se verificou agora, com a morte de Carlos Cabral, é que ONGs também mudaram, assim como os partidos políticos que sempre se posicionaram a favor do sindicalismo rural e, obviamente, contra a violência no campo.

O PT praticamente ignorou o assassinato. Apenas o senador Paulo Rocha (PT-PA) foi à tribuna falar. Talvez porque seja paraense como o sindicalista morto. Mesmo assim, ele se referiu a dois fatos ocorridos no seu estado no mesmo dia. Em primeiro lugar, segundo o portal Senado Notícias, Rocha fez referência a uma ordem de despejo contra 212 famílias que ocupam fazendas em Eldorado dos Carajás. Só depois referiuse ao sindicalista morto. Talvez o silêncio do PT deva-se ao fato de Cabral ter apoiado Bolsonaro na eleição do ano passado.

De ONGs que apoiam trabalhadores rurais também pouco se ouviu nestes últimos dias. Pode ser que estas organizações não tenham dado a atenção que o caso merecia porque Carlos Cabral estava envolvido em uma ocupação ilegal das terras indígenas dos apyterewa, que também estão invadidas por outros grupos. Mas era uma ocupação coletiva, feita por trabalhadores sem espaço para plantar. Sua morte pode estar ligada a esta invasão.

Apesar de liderar trabalhadores sem-terra, somente o MST regional se manifestou lamentando a morte de Carlos Cabral em nota assinada pela “coordenação estadual” da organização no Pará. Não aparece nenhum nome para se associar ao do ruralista morto. Da mesma forma, nenhuma palavra se ouviu de João Pedro Stedile, o líder nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra. Outros tempos, outra orientação política.

Sete ruralistas foram assassinados na região de Rio Maria desde o início do ano por questões fundiárias. O silêncio em torno dessas mortes é quase profano.

Bastidores

Pelo que sei
o bobo daquela corte
é o rei.

A vitória (temporária) dos ladrões

A crise não é da democracia. A crise é do estado nacional e, como consequência, do modelo econômico que se apoia no ordenamento jurídico que o estado nacional garantia.

Falo do mundo, não do Brasil. O funcionamento do capitalismo (e a liberdade possível) depende da garantia do direito de propriedade. Foi esse o fundamento que caiu. Sem garantia da propriedade não se renova a capacidade do empreendedor, seja de que tamanho for, de financiar o desenvolvimento do seus próximos empreendimentos e a economia pára, o emprego desaparece, o salário míngua.

Hernando De Soto demonstra com dados objetivos no seu “O mistério do Capital: porque o capitalismo triunfou no Ocidente e falhou nos outros lugares”, que a principal causa da pobreza do Terceiro Mundo nem é cultural, nem de falta de espírito empreendedor, nem de diferença na quantidade de trabalho investido (e muito menos da disponibilidade ou não de recursos naturais), é a falta de garantia do direito de propriedade. É especialmente para os mais pobres, obrigados a “refugiar-se de legislações defeituosas na informalidade onde todo trabalho investido transforma-se em capital morto, que não pode ser transacionado senão num padrão arcaico”, que essa falha é mais funesta. “O pobre é quem mais precisa dessa garantia para poder apropriar-se do resultado da força de trabalho que investe, a única coisa que ele tem”.

De Soto lembra ainda que essa incerteza geral sobre o que é de quem só começou a ser revertida na Europa “favelão nacional” do século 18 em diante, a partir da revolução industrial, e mais tarde ainda nos Estados Unidos que, “na sua luta para fazer um território virgem converter-se numa nação levou a garantia da propriedade às últimas consequências”, o que explica o seu crescimento vertiginoso a partir da virada do século 19 para o 20, quando entregou a chave das decisões políticas a quem mais precisa dessa garantia. “O Terceiro Mundo é o que eles foram há 100, 200 anos. A verdade é que a legalidade é a exceção. A extra-legalidade sempre foi a norma. A constituição de sistemas integrados de propriedade no Ocidente é um fenômeno muito recente”.

Com a entrada em cena da internet fazendo desaparecer fronteiras num mundo onde a ordem legal plenamente estabelecida é a exceção, o primeiro e o mais formidável dos desenvolvimentos proporcionados pela informática foi o da capacidade de roubar.


Dentro e fora dos EUA as mega-empresas de trilhão de dólares são invariavelmente os grandes ladrões: o Google que rouba deus e o mundo com a inestimável contribuição dos roubados, o Facebook que compete com ele nisso e na venda de informação roubada na diuturna tocaia de cada passo e cada palavra trocada pelos seus usuários, a Amazon, latifundiária do comércio que mata concorrentes e explora todo servo da gleba que tenha algo para vender no planeta, e mais as suas contrafações chinesas…

A China, onde o estado patrocina o roubo planetário (de ideias, de patentes, de desenhos, de tudo), tornou-se imbatível e vai comprando o mundo. No Ocidente os ladrões privados ainda enfrentam algum nível de resistência do estado. Têm de bandear-se literalmente para dentro do “território livre” da China para se tornarem ladrões competitivos, como demonstrou Tim Cook, o verdadeiro artífice do gigantismo da Apple conquistado com a isca do supply chain que, uma vez agarrada a vítima, revela-se um esquema de exploração de trabalho vil padrão Foxconn.

Sem garantia da propriedade volta-se à Idade Média: é o fim da hegemonia do consumidor que “tinha sempre razão” (e principalmente escolha, que é o nome despido de poesia da liberdade), a morte do princípio antitruste, a concentração extrema da riqueza. A economia como um todo embarca no “efeito Jardim Europa”: cada vez menos gente comprando cada vez mais terrenos em incessantes “fusões e aquisições” até que sobrem só uns tantos castelos murados com os súditos subempregados e o crime à solta em volta, trocando trabalho, inovação e proteção por migalhas.

O embate cada vez mais irracional e furioso entre “direita” e “esquerda” é um eco do sofrimento que essa fissura do fundamento básico do sistema causa. O corre-corre sem saber pra onde no meio do terremoto no escuro. E vai puxado pela imprensa, uma das indústrias mais violentamente assoladas pelo pior lado das novas tecnologias.

Em pânico com o efeito da vitória esmagadora dos ladrões; nas mãos de um número minguante de patrões; inseguras quanto às causas reais da sua desgraça, a primeira reação das pessoas e das empresas é correr para dentro das muralhas dos castelos em busca de proteção.

Sair é que são elas. Mas desta vez, espera-se, não levará mil anos como da anterior.

US$ 4.7 bi, quase tanto quanto os US$ 5.1 bi de todo o resto da indústria da informação dos Estados Unidos somada, foi quanto o Google faturou sozinho em publicidade vendida em cima do noticiário que ele não produz segundo um estudo da News Mídia Alliance que representa mais de 2000 órgãos de informação americanos. O cálculo é, aliás, conservador porque não inclui o que ele ganha vendendo a espionagem dos hábitos de consumo de informação dos seus clientes, o filé mais caro do seu açougue.

Acovardados todos, só agora os donos do que o Google e a meia dúzia de gigantes da praça colhem sem ter plantado começam a reagir. Está no congresso dos EUA, depois de várias iniciativas da União Europeia com objetivos semelhantes, a Lei de Competição e Preservação do Jornalismo, equipamento imprescindível da democracia, que suspende por quatro anos os dispositivos contra a cartelização da legislação antitruste para permitir aos grupos de comunicação negociar conjuntamente com eles a exigência de pagamento pela venda dos seus produtos. A lei tem apoio de democratas e republicanos nas duas casas do Congresso, além do Departamento de Justiça.

É o começo de uma longa marcha que desta vez terá de ser levada pela comunidade humana como um todo, de modo que acabará por arrastar também a nós, como sempre, quae sera tamen…

Paisagem brasileira

 Entrada da Baía de Guanabara, tomada de Niterói, Mauro Ferreira 

Desinteligência generalizada

Não são apenas os devotos das seitas extremistas, à esquerda e à direita, que limitam sua visão de mundo às mentiras, distorções e meias-verdades cínicas que leem nas redes sociais. A histeria irresponsável parece ter capturado também aqueles dos quais se esperam equilíbrio e sobriedade na formação de opinião pública.

Quase todos aparentemente estão se deixando pautar pela gritaria que tão bem notabiliza essa forma de comunicação instantânea, que na prática dispensa a reflexão. Nas redes, mesmo bem preparados formadores de opinião vêm tomando como expressão da verdade tudo aquilo que para eles faz sentido, sem se perguntarem se, afinal, aquilo que se informa é um fato ou uma rematada mentira.

A verdade, portanto, vem perdendo importância até para quem vive dela. Um exemplo é a imprensa, que não raro repercute de maneira irrefletida os debates produzidos a partir de informações distorcidas ou simplesmente falsas. É natural que, algumas vezes, as publicações, no afã de registrar tudo o que pareça ter caráter noticioso, acabem por dar guarida a versões dos fatos que, com o tempo, se provam mentirosas.


O que tem acontecido, porém, é que os fatos se tornaram quase irreconhecíveis ante as certezas ideológicas alimentadas pela acachapante onipresença das redes sociais na vida de quase todos os brasileiros. Num cenário desses, todo aquele que ousar questionar as convicções cristalizadas de parte a parte, mesmo munido de fatos incontestáveis e de argumentos racionais – ou até por causa disso –, será tratado como um ser exótico, uma espécie de rebelde deslocado no mundo dos que, orgulhosamente, se julgam do “lado certo”.

Assim, a influência das redes sociais, que é inegavelmente grande, tornou-se uma explicação mágica para tudo – e para muita gente supostamente bem pensante nada do que acontece fora delas parece ter valor. Baseando-se mais em palpite do que em elementos concretos, muitos atribuem, por exemplo, a surpreendente eleição do presidente Jair Bolsonaro ao seu domínio dessas redes, nas quais teria construído sua candidatura muito antes de a campanha começar. Também se creditam às redes sociais as mobilizações contra o governo da presidente Dilma Rousseff, que acabaram resultando em seu impeachment. Com toda essa suposta capacidade, quase sobrenatural, de entronizar e decapitar reis, as redes sociais tornaram-se uma espécie de fetiche dos formadores de opinião, que há algum tempo veem nelas a grande arena onde se disputa o poder de determinar o que é a verdade.

As redes sociais, até onde é possível concluir, são o lugar onde narrativas se chocam não em busca do esclarecimento, como acontece em sociedades maduras, mas para fazer triunfar a mistificação que favoreça este ou aquele ponto de vista, e onde o consenso só ocorre entre os que já estão de acordo entre si, por razões ideológicas.

É claro que nada do que deriva desse ambiente de franca hostilidade pode ser tomado como base para orientar políticas públicas e muito menos para consolidar as opiniões a partir das quais a sociedade se posiciona acerca dos grandes problemas nacionais. Ao contrário, o debate nacional naturalmente descamba para o terreno da ficção, quando não para o da mais vulgar briga de rua, na qual tem razão aquele que termina a refrega em pé.

No livro O Jornalismo como Gênero Literário, Alceu Amoroso Lima diz que o jornalismo, sempre que “envenena a opinião pública, fanatiza-a ou a informa mal, está falhando à sua finalidade”. O autor, que escreveu em 1958, decerto não imaginava a revolução da comunicação digital que ora se atravessa, mas o princípio ali exposto está mais atual do que nunca.

O jornalismo que se deixa submeter à balbúrdia irracional das redes sociais não cumpre sua função, que é a de dar aos cidadãos condições de refletir de maneira efetiva sobre o mundo que os cerca e sobre os problemas que os afetam. Ao contrário, os formadores de opinião que tomam como legítima e digna de consideração a gritaria dos fanáticos, conferindo-lhe ares de autenticidade, estimulam a consolidação do facciosismo que, no limite, inviabiliza os consensos, sem os quais a democracia simplesmente não se realiza. 

Atropelamento geral

A inversão de valores que estamos vivendo é de deixar qualquer pessoa de bem completamente estarrecida.
As pessoas que trabalham para fazer com que os criminosos paguem por seus crimes, são condenadas. Enquanto isso, o sigilo (da fonte) vale para proteger a identidade de criminosos audazes, mas o sigilo (das comunicações) pode ser atropelado se for para expor autoridades altamente respeitadas ao juízo (leigo) da opinião pública. É isso mesmo ou eu perdi alguma parte dessa história?!?

Precisamos recuperar a inteligência como método

Gostei muito de artigo do cineasta José Padilha, publicado há poucos dias, na “Folha de S.Paulo”. Trata-se de um texto raro, uma fértil desafinada no coro dos contentes com a polarização selvagem na política brasileira. Nele, Padilha afirma sobretudo que não é por concordar com alguma consideração de um dos lados que ele está necessariamente de acordo com todo o resto do que esse lado proclama.


E dá exemplos, como estes a seguir. “Nada impede que alguém admire o combate do deputado Marcelo Freixo (PSOL-RJ) às milícias, que considere importante o ataque à roubalheira de Lula e companhia, que seja a favor da reforma da Previdência, que ache que Moro errou feio ao se associar a Bolsonaro, que defenda a liberdade sexual e a liberação da maconha (...) e que seja a favor da prisão após condenação em segunda instância. Uma pessoa assim, porém, não cabe nem no petismo nem no bolsonarismo”. Há muito tempo que andávamos precisando de alguém que pensasse e falasse assim.

Talvez devamos perdoar os políticos pelas simplificações que produzem em seus discursos. Afinal de contas, eles precisam agradar a seus eleitores, fazer por merecer o voto deles. E merecer o voto deles, aqui, significa aproximar-se de seu pensamento para poder representá-los. É, portanto, natural que os políticos digam o que seus eleitores gostariam de ouvir; que, antes de falar, eles consultem as aspirações do povo que pretendem conquistar. Mas um intelectual livre, um cidadão independente, não pode ceder a essa circunstância — ele tem que dizer o que pensa ser a verdade, sem se preocupar com a adesão de quem quer que seja, por concordância com as ideias ou astúcia na proposição.

O intelectual militante, o pensador aparelhado, diz o que seu partido afirma pensar. E o que seu partido afirma pensar é um conjunto de ideias nem sempre fiel ao que considera ser a verdade, na hipótese de existir uma verdade definitiva. Não passa de um conjunto de ideias conveniente aos interesses de um grupo político que pretende tomar o poder. E não é apenas a tomada do poder que muda a história e, por extensão, o bem-estar da humanidade envolvida.

Como muitos outros brasileiros, há seis meses venho tentando entender o novo governo do país, acho que para entender melhor para onde estamos indo. Não votei em Jair Bolsonaro e escrevi,em agosto de 2018, bem antes das eleições, que “chega de folclore em torno do capitão-candidato, de considerá-lo uma anedota passageira, e compreender que, por trás do fenômeno, existe uma tendência de comportamento que corresponde ao desejo de uma parte da população”. Mas quem elegeu Bolsonaro não foi apenas uma simples parte, mas a grande maioria da população. Uma vitória democrática que é preciso respeitar, sem cometer o erro de sair por aí xingando a mãe do eleito, anunciando com ódio que nada do que ele fizer vai dar certo. Mesmo que fiquemos na oposição.

Quando, em 1964, os militares tomaram o poder através de um golpe de força, era como se acordássemos numa manhã solar de abril com a polícia ao pé de nossa cama. Não havia o que fazer. Agora, não. Agora discutíamos com quem não estávamos de acordo (em alguns casos, com os dois lados polarizados) e a população acabou por escolhê-los. É preciso entender porque, o que tento fazer nestes primeiros meses de governo, com a boa vontade que o futuro do Brasil exige.

Mas se, durante a campanha, o candidato ensinava à menina, com os dedos da mão, o gesto de empunhar uma arma, como presidente libera as armas de fogo, radares no trânsito, cadeirinha para crianças nos carros, agrotóxicos que envenenam a comida, um projeto anticrime que incentiva a polícia a matar. Assim como autoriza ruralistas a liquidar quem ameace sua propriedade, pouco se importa com a defesa do meio ambiente que protege a vida da população. E essas medidas vão fazendo crescer o potencial de brasileiros mortos regularmente, sem causa.

Aí lembro que o psiquiatra e escritor austríaco Viktor Frankl não se importava, nem um pouco, com a clássica frustração sexual freudiana como origem de nossos males. Para ele, o que provoca a insatisfação da humanidade é a falta de sentido para a existência. Pensando no Brasil, talvez tivesse razão.

Naquele artigo do ano passado, terminávamos assim: “E porque não entendem, nem fazem questão de entender o que se passa, elegem a razão e o conhecimento como inimigos, põem a inteligência fora de moda”. Para início de qualquer conversa, precisamos recuperar a inteligência como método, saudando a possibilidade de a verdade estar entre várias e distintas formas de refletir. Descobrir que ser radical é apenas tomar cada coisa pela sua raiz.

Sob Bolsonaro,governo vira inquisição ideológica

No governo de Jair Bolsonaro, a ideologia virou um outro nome para inquisição. Sob o capitão, todas as perversões são admitidas, exceto as recaídas ideológicas. Em uma semana, ceifaram-se três cabeças.

Joaquim Levy empregou no BNDES um ex-assessor de governo petista. Foi carbonizado em praça pública.


O general Santos Cruz ousou discordar do guru Olavo de Carvalho. Foi dissolvido em banho-maria e despejado da Secretaria de Governo da Presidência.

O general Juarez Aparecido de Paula Cunha posou para fotos ao lado de deputados do PT e do PSOL. Foi mastigado num café da manhã em que Bolsonaro serviu sua demissão aos repórteres.

Implacável com subordinados que desafiam seus fetiches ideológicos, Bolsonaro é leniente com todo tipo de peversão. Dos 22 ministros, meia dúzia ostenta algum tipo de suspeição. A Bic do presidente dá de ombros.

O rol de encrencados inclui, por exemplo, Ricardo Salles (Meio Ambiente), condenado em primeira instância por improbidade administrativa.

Inclui também Henrique Mandetta (Saúde), denunciado pelo Ministério Público por fraude em licitação, tráfico de influência e caixa dois.

Há ainda Marcelo Álvaro Antônio (Turismo), investigado pela PF num caso de desvio de verbas públicas por meio de candidaturas de laranjas.

O caixa dois confesso tampouco impede que Onyx Lorenzoni seja mantido na chefia da Casa Civil da Presidência da República, a salvo da Bic do capitão —uma caneta guiada pelo viés ideológico do dono.

No tribunal eclesiástico da igrejinha em que se converteu o governo Bolsonaro, todo pecado será perdoado, exceto os desvios à esquerda. Por ideologia, tudo pode acabar na fogueira —da amizade de um general respeitado como Santos Cruz à ingenuidade de um economista como Levy que, tendo servido aos governos de Lula e Dilma, acreditou nos superpoderes de Paulo Guedes.
Josias de Souza