sexta-feira, 21 de agosto de 2015

Uns acreditam. Outros levam algum

zzafoto definitiva

Definitivamente, não são os números que importam mais.

Logo depois das manifestações de Fora Dilma, Fora PT, Lula na cadeia do domingo, e nos jornais do dia seguinte, falou-se muito de números. Ah, teve mais gente do que no dia 12/4 mas muito menos gente do que em 15/3!

Esgrimiram-se números das PMs, dos organizadores, do Datafolha – esse belo instituto de pesquisa de opinião pública que perde credibilidade quando conta no mesmo espaço da mesma Avenida Paulista 2,5 milhões de evangélicos ou gay e simpatizantes e, em ato político, parcas, miúdas, inofensivas, solitárias 135 mil pessoinhas.

O Datafolha divulgou agora, final da noite da quinta-feira, que contou 37 mil manifestantes pró-Dilma/contra a política econômica de Dilma.

A PM havia contado 40 mil. Uma conta próxima à do Datafolha.

Esquisito, porque, na hora de contar quem é Fora Dilma, Fora PT, Lula na cadeia, o Datafolha se distancia pra cacete da PM. No domingo, a PM avaliou a multidão em 350 mil; o pessoal da Datafolha mostrou carteirinha de estudante, pagou meia e chegou ao número 135 mil.

Então, em São Paulo, no domingo, foram – segundo o sacrossanto Datafolha – 135 mil pelo Fora Dilma, Fora PT, Lula na cadeia. E, nesta quinta, foram 37 mil pró-Dilma/contra a política econômica de Dilma.

Bem, a rigor, como é uma coisa esquizofrênica, contra e a favor, cada cabeça com duas sentenças, o Datafolha deveria ter contado 74 mil cabeças na manifestação pró-Dilma/contra a política econômica de Dilma.

Ou 80 mil, segundo a PM.

Mas, definitivamente, não são os números que importam.

***

Importa mais é o gesto. O símbolo. A qualidade.

Basta olhar para qualquer foto de manifestação contra. E comparar com as fotos das manifestação a favor/meio contra.

O repórter fotográfico Daniel Teixeira, do Estadão, fez uma foto que exprime exatamente o que eu quis dizer quando escrevi sobre a diferença entre as manifestações do Fora Dilma Fora PT e as manifestações chapa-branca.

As nossas são desorganizadas. Cada pessoa veste um tipo de roupa, leva seu próprio cartaz feito à mão. É tudo espontâneo – cada um está ali porque quer estar, quer expressar seu nojo por tudo isso que o lulo-petismo pôs aí.

As deles são organizadíssimas. Marciais. Os cartazes são os mesmos, encomendados na gráfica, paga com dinheiro de todos os trabalhadores do país, em benefício de um grupelho que se estabeleceu no poder.

Os lulo-petistas adoram usar imagens bélicas: vamos pôr nossos exércitos nas ruas, vamos de armas nas mãos.

Pois bem. Foi como eu senti, ao voltar para casa depois de andar pra lá e pra cá na Paulista durante um bom tempo, usando minha voz um tanto poderosa para berrar alto algumas certezas básicas, Fora Dilma, Fora PT: as manifestações fazem lembrar demais a batalha do filme Spartacus, obra-prima espetacular do então jovem (mas já gênio) Stanley Kubrick.

De um lado, estavam os ex-escravos que fugiram do cativeiro e se uniram para lutar pela liberdade. Eram absolutamente desorganizados, cada um se vestia de um jeito, tinha um tipo de arma.

Do outro lado, as centúrias romanas comandadas pelo cônsul Crasso. Impecáveis em seus uniformes limpíssimos, lustrosos.

Eles, os das bandeiras vermelhas, são o exército da Roma Imperial comandados por Crasso. Nós somos que nem as hordas chefiadas por Spartacus, que queriam se libertar do jugo do poder romano.

***

O que eu senti, e tentei descrever em texto escrito ainda sob o calor da emoção de ter estado na Paulista entre milhares de pessoas do bem que gritavam por um país melhor, está sintetizado na foto do colega Daniel Teixeira.

Definitivamente, nós somos o povo oprimido, tomado de assalto, ludibriado, enganado. Eles são a Guarda Pretoriana que defendem os encastelados no poder.

Sempre mais acurada, mais incisiva do que, Mary partiu das mesmas coisas que observamos nos últimos dias para chegar a uma conclusão que demonstra perfeitamente essa minha certeza de que os números não são o que mais importam – quaisquer que sejam eles.

Ela sintetizou com brilho o que de fato importa:

“Mais do que no tamanho e na capilaridade de uma e de outra, a maior diferença está naqueles que têm crença e apostam que podem fazer a História e nos que se deixam manipular pelos que se arvoram a ser – e acham que são – os únicos capazes de fazer a História.”

Ouro em cretinice

Tem duas coisas que me preocupam todo santo dia. Uma é a elevação do desemprego, porque eu sei que isso provoca sofrimento nas famílias desse País. Tudo o que eu faço é para impedir que isso aumente. [...] A segunda questão é a inflação, porque corrói o bolso das pessoas. Eu tenho certeza que vai melhorar
Dilma Rousseff 

O protesto e a jabuticaba

Um protesto a favor do governo já é em si uma jabuticaba.

Um protesto a favor do governo com palavras de ordem contra a política econômica desse mesmo governo deve ser um cupuaçu. Ou uma mangaba.

Ideia infeliz colocar na rua, cinco dias depois das manifestações nacionais contra o governo, pequenos grupos uniformizados de protestadores oficiais, envergando uniformes de centrais sindicais, movimentos sociais atrelados a partidos, indignados chapa branca, transportados por ônibus fretados, gritando palavras de ordem incoerentes, entre o fica Dilma e vai embora Levy.

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A pauta oficial dos protestos a favor era a defesa da democracia, um tema bastante prejudicado pelo simples fato de que não há ninguém a ameaçá-la, visto que mesmo os que pedem o impeachment da presidente colocam como condição prévia para o início de abertura do processo que haja motivos concretos para isso.

Sim, pode-se alegar que nas manifestações de domingo, incomparavelmente maiores, havia aqui e ali alguns lunáticos pedindo “intervenção militar”, provavelmente por absoluta ignorância da ruina que isso significa para um processo democrático.

As manifestações de domingo, nas quais timidamente o PSDB pegou carona pela primeira vez, são o reflexo de um sentimento nacional de desagrado contra a corrupção e os erros do governo. Nessa carroça, embarca quem quer- e a falta de uma direção politicamente unificada e orgânica priva o movimento de uma linha reivindicatória que represente um objetivo político claro. A linha condutora é a rejeição ao governo do PT, ao partido em si, às suas lideranças e às consequências de suas políticas e seus atos.

Pode-se dizer que o PT está colhendo as tempestades dos ventos que plantou.

As pessoas empenhadas em desconstruir e desqualificar as manifestações de domingo, deram-se ao trabalho de pescar no meio da multidão indistinta algumas aberrações políticas, comportamentais ou humanas para tentar transformá-las numa espécie de tipologia comum a todos os que protestavam.

Essa tentativa, por mais malucos que tenha conseguido tipificar, não apagou o fato de que apenas 7,7% dos brasileiros aprovam o governo Dilma- como lembrou o jornalista Ancelmo Gois.

Alguns cartazes dos manifestantes davam apoio ao presidente da Câmara, Eduardo Cunha, que na quinta-feira viria a ser denunciado pelo procurador geral Rodrigo Janot por corrupção e que perderia, em consequência, grande parte de sua influência como articulador dos projetos-bomba contra o governo dentro do Legislativo.

Enquanto não renunciar, ou não for obrigado a afastar-se da presidência da Câmara em função da denúncia, Eduardo Cunha ainda guardará o poder até de acolher e um eventual pedido de impeachment, ainda que com muito menos balas na agulha.

Ao mesmo tempo em que Cunha enfraquece, o governo se ampara em Renan Calheiros, também citado na Lava Jato, mas ainda não denunciado ,o que levou à suspeita de que haveria um “acordão" entre governo, procurador e aliados para aliviar a barra de Dilma no Congresso.

A batalha política de parlamento e as maquinações de bastidores parecem encaminhar-se ao estabelecimento de uma trégua informal que pode dar mais tranquilidade e mais tempo para a presidente Dilma. Os mais céticos perguntam: sim, mas mais tempo para que? Não há nenhum sinal de que a presidente pretenda definir um rumo para seu governo.

Enquanto isso, a última batalha das ruas terminou com uma goleada alemã dos descontentes sobre os quase-contentes.

Ricardo Noblat

Brasil não pode ficar ao sabor de ideologias e ideais

Inspiro-me, aqui, em texto eletrônico de Nelson Motta denominado “Aos amigos petistas” (“O Globo”, 7.8), em que ele afirma nunca ter rompido amizades por discordâncias políticas, mas que os petistas inteligentes devem entender que o sonho acabou e “zé fini”, pela incompetência e voracidade de seus quadros. Eu também nunca rompi amizades por razões políticas, embora sempre soubesse distinguir, entre os militantes de esquerda, gente do bem de oportunistas, sinceros de demagogos, honestos de vorazes. Infelizmente, enquanto os sinceros e, muitas vezes, ingênuos queimavam a pestana elaborando planos para diminuir as desigualdades sociais, os espertalhões assumiam posições de comando, transformando seus gabinetes em balcões de negócios altamente rentáveis, num jogo de soma zero, ou melhor, de cartas marcadas a seu favor. Deu no que deu.

Há anos, ouvi de um prestador de serviços ao governo federal que ele estava se dando muito bem com os novos donos do poder, pois esses, além de entenderem pouco da sua área de atuação, não raro estavam abertos ao suborno. Mas a arrogância petista vem de longe, do tempo em que ocupavam apenas algumas prefeituras municipais ou se tornavam ideologicamente hegemônicos em órgãos públicos municipais ou estaduais. A ordem era ocupar espaço, desqualificando e afastando técnicos e funcionários experientes, abandonando programas e projetos comprovadamente bem-elaborados e bem-sucedidos na sua aplicação prática.

Ao assumirem o comando de uma Secretaria de Saúde, não sei se estadual ou municipal, os petistas se reuniram com a equipe preexistente para anunciar a elaboração de um novo plano de ação. Esta última argumentou que, há tempos, vinha elaborando um plano que gostaria que fosse lido e, quem sabe, aproveitado pelos novos dirigentes. A resposta foi um baita “não”. “Queremos fazer tudo de novo”, responderam. Diante de tamanho descaso pelos seus esforços, a antiga e experiente equipe se demitiu.


Há, também, casos risíveis como o de um jovem técnico petista que, ao ser incorporado à equipe de um órgão público de planejamento econômico e social, escreveu em seu relatório setorial a seguinte pérola: “A ponte do Macaco, sobre o rio do mesmo bicho, necessita de reformas” etc. Ao ver seu relatório corrigido pelo coordenador do trabalho, o jovem não teve dúvidas em acusá-lo de autoritário e direitista.

O problema é que à exceção, talvez, daqueles envolvidos com as novíssimas tecnologias de informação, os jovens, sobretudo no campo das ciências humanas, carecem de habilidades adquiridas apenas com o tempo e, não raro, de humildade e conhecimentos básicos de língua pátria. Acontece que o tempo urge, e o Brasil, onde a condução dos assuntos políticos e econômicos não é para amadores, não pode ficar ao sabor de ideologias e ideais realimentados a cada geração.

O pior é que veteranos intelectuais de esquerda, ao tentar justificar o injustificável, continuam insistindo que o combate à corrupção é coisa da direita conservadora. Como se os cerca de R$ 50 bilhões anuais surrupiados dos cofres públicos, suficientes para construir dez escolas em cada um dos 5.570 municípios brasileiros, fossem uma ninharia. “zé fini”.

A 'agenda Brasil' que aterroriza os políticos

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Para o Brasil mudar, você tem que colocar o dedo na(s) ferida(s).

Não tem outro jeito.

O Governo está trabalhando na “Agenda Brasil”, uma longa pauta econômica pactuada entre o Senador Renan Calheiros e o Ministro da Fazenda, Joaquim Levy.

A coluna sugere uma outra agenda, ainda mais ousada, com 10 ideias que o País deveria adotar agora.

Se são ideias heréticas — ou puro bom senso — cabe a você julgar como leitor, eleitor e contribuinte.


1) Fica proibido aos titulares do Executivo Federal, Estadual e Municipal organizar ou participar de cerimônias de inauguração de obras. Primeiro, porque elas quase nunca significam que a obra está pronta — só que o governante está louco para aparecer bem na foto. Segundo, elas custam dinheiro e dão a muitos eleitores a sensação de que o governante lhes fez um favor quando, em realidade, não fez mais que a obrigação. A partir de agora, se a hidrelétrica ficou pronta, liguem as turbinas e vida que segue.

2) Os membros dos três poderes passarão a se referir aos cidadãos brasileiros como “o patrão.” Esta obrigatoriedade valerá para documentos públicos, discursos nas tribunas do Congresso e decisões dos tribunais superiores, onde o ar costuma ser mais rarefeito. Semanticamente, já tentamos o caminho aberto pela Revolução Francesa: a palavra ‘cidadão’ tentou nivelar a todos (governantes e governados), mas nem por isso conseguimos fundar uma ‘Res’ pública. Tentemos agora a perspectiva protestante, anglo-saxã: quem paga a conta é que manda. Os brasileiros trabalham um terço do ano para pagar impostos. Os políticos são seus funcionários. Tá na hora de mostrarem respeito e tratarem o chefe pelo nome.

3) Lei Cristóvam Buarque: Os filhos de todo aquele que conquistar mandato eletivo, se em idade escolar, deverão ser matriculados em escolas públicas e ali permanecer durante todo o exercício do mandato do pai ou da mãe. Não haverá exceções. Guardem o mimimi até que a rede pública esteja a cara de um internato suíço.

4) O Código Penal tipificará como ‘crime contra as finanças públicas’ qualquer empréstimo do BNDES a empresas na lista das 100 maiores do Brasil. É pra elas começarem a usar uma novidade aí… chamada ‘mercado de capitais’. Coisa fina. (Pra você que não é do ramo: o BNDES é o táxi, e o mercado de capitais é o Uber do dinheiro.) Parágrafo segundo: o BNDES muda de nome e passa a ser o BPME: o Banco da Pequena e Média Empresa, com guichês de atendimento em todos os Estados e análise de crédito centralizada em sua sede na Avenida Chile, no Rio. O banco também criará fundos — o FIP Garagem I, Garagem II e assim por diante — para um grande esforço de investimento em startups e capital semente. Está na hora de oxigenar a economia com inovação e turbinar quem tem talento, não só quem já é grande o suficiente para contribuir nas campanhas.

5) A CVM (o xerife da Bolsa) e o COAF (o xerife da lavagem de dinheiro) terão dotação orçamentária própria, autônoma e não-contingenciável. A remuneração de seus diretores, gerentes e analistas será em linha com salários do setor privado. A quarentena será de dois anos. E como todo xerife precisa impor respeito, a sede da CVM será transferida para um daqueles prédios de granito e mármore na Faria Lima, que os bancos de investimento ocupam para tentar impressionar os clientes. As multas da CVM, cujos valores máximos hoje são fixados, por lei, em reais (e assim ficam defasados com a inflação), passarão a ser atreladas à cota do Fundo Verde.

6) Presidentes e ministros cujos ajustes fiscais atingirem o fornecimento de medicamentos de uso contínuo para pacientes de câncer, AIDS e diabetes serão punidos com exposição direta ao HIV, radiação cancerígena ou doses cavalares de açúcar.

7) Revoga-se a tarifa de importação de servidores, roteadores, desktops e laptops, num empurrão à produtividade do País. Esta reserva de mercado é da época dos militares. Eles foram embora há 30 anos e já há até infelizes aí pedindo a sua volta, mas a reserva de mercado ainda está aí, firme e forte. Ao contrário do que seus defensores esperavam, ela não pariu uma Apple brasileira, mas garantiu que um computador importado custe aqui quase três vezes mais do que lá fora. Quando vamos acabar com esta palhaçada? (Rachid, mata essa no peito, cara!)

8) No mercado de construção pesada, o Governo fará um grande e espetaculoso esforço para atrair empreiteiros internacionais. Vamos recebê-los como os parisienses receberam os americanos em 1945. Faremos uma brochura promocional com as fotos de todos os empreiteiros encarcerados na Lava Jato, mostrando que instauramos a moralidade e prometendo que, como diz a canção, “daqui pra frente, tudo vai ser diferente.” Os americanos não precisarão ficar de fora do Brasil por temer que uma propina paga aqui os leve à cadeia lá. (Cena cômica: Já imaginaram o Vaccari pedindo um ‘pixuleco’ — em inglês — a um empreiteiro alemão?)

9) Nos três poderes da República, ficam proibidos carros oficiais, garçons nos gabinetes e ascensoristas nos elevadores. Estes benefícios, concebidos para facilitar o trabalho de deputados, senadores, ministros e juízes de tribunais superiores, transformaram-se com o tempo em símbolos do descolamento da realidade, do desalinhamento destes servidores com o interesse público. Ministros, deputados e desembargadores dirigirão seus próprios carros (ou contratarão um motorista com seus salários), e não há motivo algum que impeça alguém de pegar seu próprio café e apertar o andar de destino no elevador (contanto que não seja o “13”. Neste caso, vá de escada.)

10) O haraquiri fica instituído como a saída jurídica preferencial para os ocupantes dos três poderes que traírem o interesse público. A outra é a Papuda
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***

Se você gostou dessas ideias, compartilhe-as no Facebook ou num email para seu deputado ou senador. Só dá pra consertar o Brasil reinventando-o — e questionando tudo, de cima pra baixo.

Na mosca

Nós, brasileiros, precisamos assumir a ousadia que os canalhas têm 
Cármen Lúcia, vice-presidente do STF, acrescentando que o arrojo ‘‘não pode ser de pessoas que não cumprem as leis, que usam o espaço público para interesses particulares’’

Brasil sem pai nem mãe

“É lógico que ela pode errar, como eu errei e como qualquer um erra enquanto mãe. Nem sempre a gente faz as coisas que são 100% aceitas pelos filhos”, disse Lula na terça-feira, dia 11. “Mas quando ela errar, ela é nossa mãe e temos de ajudá-la a consertar”.

Há algo de mais atrasado vindo de uma pessoa que já foi o presidente mais popular de uma democracia de 200 milhões de habitantes?

A regressão política faz com que Lula parta agora para uma tentativa de regressão psíquica da sociedade.

Para que essa sociedade, assustada e perdendo empregos, os veja como papai e mamãe que só pisaram na bola. Que espere, suporte, se conforme e ajude o PT e a presidente mais impopular do Brasil a tirá-los dessa situação.

Lula acha que sabe o que faz e que conhece seu público: o país da “Pátria Educadora”, de maioria pobre e educação ruim.

Mas nesse processo de regressão, Lula e Dilma estão sendo obrigados a se fechar só no que ainda resta: a base social do PT “hardcore”; agora financiada com dinheiro de toda uma sociedade que desaprova em massa o governo.

Como a tal Marcha das Margaridas em Brasília na quarta (12). Contraponto aos prováveis protestos de domingo e recebida por Dilma, teria reunido 30 mil pessoas, segundo a PM. Ao custo de R$ 855 mil da Caixa Econômica Federal, do BNDES e da Itaipu Binacional.

Apesar da grande popularidade de Lula e Dilma nos seus melhores momentos, eles pouco fizeram para transformar estruturalmente o Brasil que governam há 12 anos e meio.

Lula surfou na onda das commodities em alta e no maior ciclo de crescimento global (até 2007) do pós-Segunda Guerra. Não fez reformas que pudessem ajudar a melhorar as contas públicas no longo prazo. Só ampliou gastos

Dilma pegou o bastão com o país crescendo 7,5% e com problemas à época relativamente fáceis de resolver. Inventou estratégias econômicas extravagantes e também nada produziu de novo para mudar o estrutural. Só ampliou gastos.

Vivemos um longo período sob gastos públicos, crédito e consumo em alta. Enquanto a indústria perdia a metade de sua participação no PIB, investia-se pouco e importávamos para valer, criando empregos lá fora.

Só agora, pelas mãos de um ministro adotivo, mamãe impopular quer passar no Congresso, a toque de caixa, reformas que poderiam ter sido feitas em três longos mandatos populares. Como perdemos tempo.

Dilma só tem uma saída: reencontrar-se com a população


Depois de uma ausência de quinze dias retorno com uma certeza. A de que a única saída à disposição da presidente Dilma Rousseff para livrar-se da crise política e institucional que abala profundamente seu governo é tentar reencontrar-se com a população brasileira, cuja reação está plenamente refletida nas manifestações populares de domingo passado e nos números da mais recente pesquisa do Datafolha, a qual apontou uma rejeição de 71 pontos contra uma aprovação de apenas 8%. Não existe outra solução possível para superar o impasse atual. As articulações políticas focalizadas na reportagem de Daniela Lima, Gustavo Uribe e Mariana Halbert, Folha de São Paulo de ontem, quarta-feira, só podem ser desenvolvidas no papel e não se transformam em fatos concretos.

Afinal de contas, na campanha eleitoral Dilma Rousseff assumiu vários compromissos, mas, como todos sabem, no governo está agindo exatamente ao contrário. Este é um dos principais fatores do desequilíbrio que envolve o Palácio do Planalto. Outro fator de extremo desgaste, como já acentuamos anteriormente, é o maremoto de corrupção que comprometeu a estrutura da Petrobrás, e contra a qual a sociedade não ouviu a indignação proporcional por parte da presidente Dilma Rousseff. Pode-se dizer que isso a levaria a um choque ainda maior com a legenda do PT, que tem vários de seus integrantes claramente comprometidos com os assaltos praticados em série.

De qualquer forma, a saída permanece uma só. Dilma Rousseff necessita encontrar a candidata vitoriosa em 2014 e partir em busca de outros rumos que nem sempre são os que deram origem ao projeto da candidata. Ela, inclusive teve pela frente um longo tempo para a reconciliação consigo mesma, uma vez que seu mandato começou em janeiro de 2011 e o esquema de corrupção na Petrobrás era bastante anterior à sua chega ao poder.

Dilma deveria ter percebido que os ladrões que gravitavam na órbita de Brasília, e também do Rio de Janeiro, sede da Petrobrás, não eram nem de longe seus aliados. Pelo contrário. Eram adversários totais de seu mandato, do seu programa, do seu projeto de governar. Por que não acionou devidamente os órgãos de informação que se encontravam a seu dispor? Uma informação aqui, outra ali, a ostentação de alguns, incompatível com sua renda salarial, e assim estaria ela na véspera de desvendar toda uma teia mais aparente do que misteriosamente encoberta pelos falsos amigos, que sempre os há, e pelos falsos aliados que são eternos como a história comprova.

No Brasil, os exemplos são muitos, não valendo a pena relembrá-los, porque o tema de agora é encontrar uma saída efetiva para superação d uma crise que tem de ser resolvida dentro, é claro, do regime democrático.

Há necessidade, para o governo, de medidas de impacto que sensibilizem a opinião pública, construindo uma ponte bastante clara entre o Palácio do Planalto e a população brasileira. Os problemas sociais são muitos e sua origem está na esfera da economia, sobretudo na onda de desemprego que atinge o país. Tão grave que a presidente da República liberou recursos da Caixa Econômica Federal e do Banco do Brasil para socorrer empresas em crise de faturamento e que, em consequência, demitem trabalhadores.

Quando o governo chega a um ponto de crise como essa, é sinal de que a queda do consumo é a fonte principal do impasse. Mas os cinco bilhões de reais disponibilizados através dos dois bancos estatais não vão resolver o problema, cuja solução é estrutural e não conjuntural. Esta, aliás, é uma das grandes contradições da política colocada em prática pelo governo, na qual não se identifica um rumo nítido e certo.

Ora é o ajuste fiscal para conter gastos, na sequência entretanto uma ação governamental que aumenta os desembolsos públicos, não para investimentos reprodutivos e sim para um tipo de salvacionismo, cujas consequências não se sabe a qual limite levarão. Isso porque foi feita uma seleção prévia de setores industriais para os quais os recursos serão destinados. Porém, como é natural, haverá pressões nas áreas não incluídas para que lhes sejam dirigidos também tais suprimentos estatais. Dilma Rousseff, de qualquer forma terá que escolher o rumo, porque, se não fizer uma opção nítida, ela oscilará entre os impasses que a estão isolando no Planalto.

A opinião pública sempre foi, é, e será decisiva para os rumos de qualquer país. O governo, em nosso caso necessita reencontrar-se urgentemente com ela.

O Diário Oficial de 30 de julho publicou a atual lei que vai reger o salário mínimo a partir de janeiro de 2016. Será o resultado da soma do crescimento percentual do Produto Interno Bruto em 2014 mais o INPC de 2015. Na verdade quase não haverá aumento real, objetivo a que a lei sancionada se propõe. Isso porque o crescimento do PIB em 2014 foi de apenas 0,1%. E a inflação de 2015, segundo previsões de hoje atingirá em torno de 10%. Esta é outra contradição que a lei do salário mínimo não pode prever.

Pedro do Coutto

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

elvis

O Brasil está no 'curé'


Em “baianeiro”, a expressão “estar no curé” significa estar sem saída. E, no jogo de damas, que se está esticado no carreirão. Estou ciente de que perco cada vez mais a riqueza vocabular da linguagem baianeira do Norte de Minas. Fico mais pobre quando sinto que não mais me rebuço, apenas me cubro com o cobertor... E à medida que me afasto dos meus costumes, das minhas tradições, da minha vida ingênua, sinto o vazio da modernidade que me maltrata.

Esse tipo de modernidade que me força a aceitar os desvios de políticos que deveriam estar no ostracismo ou na cadeia, como Renan, Jader Barbalho, Jucá, Lula e a cambada que está chafurdada na lama da Lava Jato, mas que, na verdade, evacua normas de procedimentos para uma sociedade ávida de sinceridade, honestidade e cidadania. Gente que deveria estar presa por todo o mal que faz ao povo brasileiro...

Nem falo dos que roubaram e roubam materialmente o povo. A matéria é recuperável, diferente do sentimento de vergonha que nossa nacionalidade experimenta diante das outras nações, que passam a entender que o povo brasileiro, além de desonesto, gosta dos que são assim. E tanto é verdade que elege esses energúmenos para representarem nossa sociedade. Cruz credo dessa gente, assessorada por Marco Aurélio Poc Poc, por esse tal de Stédile, que só pensa em desorganizar a sociedade em que vive; por Gilberto de Carvalho, homem de confiança de todo mundo que não merece confiança, que sabe tudo sobre o assassinato do prefeito Celso Daniel e que, por esse seu tesouro, tem a proteção dos governos do PT; por um Franklin Martins, jornalista terrorista que só pensa em acabar com a liberdade de imprensa e, ao final, uma presidenta (sic) que, no meu entendimento, precisa urgentemente de uma interdição. Veja bem: interdição, não intervenção. Sinceramente, acho que o problema dessa senhora é patológico. Não é comum nem normal uma mulher de 22 anos sair pelo mundo assaltando bancos, de metralhadora em punho. Sou contra o tal de impeachment. Afinal, diz um dito popular que “quem pariu Mateus que o balance”. Eu não votei nela, mas o povão “votaram”.

Algumas declarações ou alguns pronunciamentos de Dona Dilma dão-nos a certeza de que alguma coisa está fora do lugar. Por exemplo: “A mulher abre o negócio, tem seus filhos, cria os filhos e sustenta tudo isso abrindo o negócio.” Obviedades como: “Tudo o que as pessoas que estão pleiteando a Presidência da República querem é ser presidente.” Engraçado... pensei que todo mundo que disputa eleições para presidente, no fundo, no fundo, quer ser é maquinista de trem ou padre comuna... Ou confissões verdadeiras: “Eu quero adentrar pela questão da inflação e dizer para vocês que a inflação foi uma conquista desses dez últimos anos do governo do presidente Lula e do meu governo”.

Eu sempre achei que os ladrões da Petrobras, do BNDES, dos fundos de pensão e dos fundos de alguns políticos é que formataram esse Brasil restante. Pobres de nós...
Sylo Costa

Advertência

Janot Cunha sera denunciado por corrupcao no stf dilma no sofa comendo picpoca assistindo TV sofa

Os políticos, em lugar de se ajudarem entre si e uns aos outros nesta tarefa difícil que é administrarem um país, em que se tem ao mesmo tempo que olhar o presente com todo o cuidado objetivo, e ter a maior confiança no que se pode concretizar de futuro; em lugar de os políticos se ajudarem uns aos outros, se auxiliarem, a realmente levar essa tarefa por diante, tantas vezes se entretêm, em todos os países, a lutar uns com os outros, a desacreditarem-se uns aos outros, como se isso pudesse fazer avançar seja o que for.
Agostinho Silva

O Youtube e a 'imprensa golpista'

Assista ao vídeo
Mais de uma vez já chamei a atenção dos leitores do Vespeiro para isso: nada pode ser mais enfático e fidedigno para desmascarar a fraude que são o PT e a dita “esquerda” brasileira do que deixar que eles próprios o demonstrem e expliquem com suas próprias palavras pondo lado a lado as de hoje e as de ontem, expediente obrigatório, de tão óbvio, de um jornalismo sem aspas neste mundo onde tudo fica gravado e arquivado para sempre.

O Youtube é uma mina infindável de tais registros históricos a espera apenas de quem os garimpe e edite. O fato da “old mídia” — impessa/online ou da TV — não considerar esses registros como material jornalístico não os faz menores nem menos contundentes. Quem fica menor a cada segundo perdido é só quem os ignora.

Assim como o PT, o antigo “rei das ruas“, já não consegue mobilizar mil gatos pingados na cidade em que nasceu, nem a troco de ônibus, sanduíches e “pixulecos“, para se opor aos milhões de manifestantes que atendem a cada convocação pelas redes sociais onde tais “auto-denuncias” devidamente editadas circulam às centenas, a imprensa que seguir insistindo nessa forma de mentira que é a omissão sistemática também vai acabar falando sozinha.

De Guimarães Rosa@edu para Dilma@gov

Presidenta,

No seu primeiro discurso de posse, vosmicê me chamou de "poeta da minha terra" e lembrou umas linhas que escrevi ("O correr de vida embrulha tudo. [...] O que ela quer da gente é coragem"). Não mencionou meu nome. No Itamaraty, cansei de escrever para os outros sem que me lembrassem. Era meu ofício. De qualquer forma, obrigado pelo "poeta". Chamo-me João, há quem diga Guimarães, ou mesmo Rosa.

Estive ontem com o Raul de Vincenzi, diplomata como eu, mas homem bonito. Lustrava o governo do Juscelino porque o acompanhava como chefe do cerimonial. Ele foi embaixador no Chile do general Pinochet. Nessa função, em janeiro de 1980 defendia o interesse do nosso país para que empreiteiras nacionais construíssem a hidrelétrica de Colbun-Machicura. Os amigos do Planalto queriam que a obra fosse entregue sem licitação, pelo sistema de porteira fechada, que os americanos chamam de turn-key. Os ministros civis de Pinochet não gostavam da ideia, e o chanceler disse ao Raul que a norma chilena era a da licitação, mas sabia que o presidente João Batista Figueiredo tinha "interesse especial" pela escolha de uma empresa brasileira. Não lembrava o nome, mas saiu da sala e voltou com a informação: "Engesa/Odebrecht". (A Engesa, a senhora sabe, fabricava armas e já faliu.) No mesmo dia, o Raul encontrou-se com o general-chefe do gabinete pessoal de Pinochet, mencionou o assunto e ele lhe disse: "Vocês não estão dando nome aos bois". Raul pôs tudo isso no papel. O chanceler Ramiro Guerreiro, que também está aqui mas não fala, só mexe a cabeça, acrescentou outra informação durante um despacho com Figueiredo: "O coronel Sérgio Arredondo, ex-adido militar do Chile em Brasília, teria aludido que a preferencia de Vossa Excelência recairia sobre o consórcio Engesa/Odebrecht, dada a tradição mantida no Chile e o estrito relacionamento da primeira empresa com autoridades militares chilenas".

Deu redemoinho no Planalto. As coisas eram como eram, mas não deveriam ser ditas. Figueiredo contou que o coronel Arredondo tratou do assunto com ele, mas tinha dito apenas que a Odebrecht era uma empresa de confiança. Um embaixador que contou o que lhe disseram e um chanceler que mostrou o que sabia desarmaram os poderes do mundo. Os chilenos licitaram a hidrelétrica e a manobra da porteira fechada falhou. Digo-lhe que esse Arredondo, antes de montar cavalos com Figueiredo, estivera na "Caravana da Morte", uma tropa de jagunços que saiu pelo Chile matando gente.

Fazem falta gente como o Raul e o Guerreiro? Sinais a senhora teve, mas mandaram que calassem a boca. Sei mas não digo.

A senhora sabe que eu escrevi: "O diabo na rua, no meio do redemoinho". Não faça mau juízo do redemoinho da rua que a senhora viu no domingo. No meio dele não estava o Tinhoso. O Capeta, Coxo, Capiroto, Coisa Ruim, finge que está, mas não está. No meio do redemoinho da rua estavam o juiz Sérgio Moro e o Ministério Público. Entre nesse espetáculo. Proclame por uma vez que não tem diabo nenhum, não existe, não pode. Viver é negócio muito perigoso, mas as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas. Tenha coragem, é tudo o que a vida lhe pede.

Respeitosamente,

João Guimarães Rosa

A morte de uma narrativa


Uma das coisas mais fascinantes na minha vida de analista político foi ver e ouvir o Lula discursando em várias reuniões do Conselhão. Era extraordinário como ele conseguia cativar a audiência com um discurso simples e direto, cheio de analogias com a vida real e que, de forma certeira, atingia o alvo.

Ao ouvi-lo, lembrava-me de meu pai, que dizia ser Lula um típico vendedor de feira do Nordeste. Uma retórica simples e, ao mesmo tempo, emocionante, que atingia o objetivo. Lula foi capaz de levar adiante seus dois governos com sua poderosa narrativa. E, com ela, convenceu a maioria da população de que Dilma Rousseff seria a candidata ideal para o país. Foi seu êxito final. Depois de eleger Dilma, Lula está no volume morto, tal como Dilma e o PT.



De modo paradoxal, a morte da narrativa lulista se deu pelas mãos de Dilma. Sua forma de governar foi profundamente antagônica à adotada pelo “lulismo” quando no governo. Ironicamente, a aprendiz está matando o mestre em uma lenta agonia caracterizada por alguns detalhes. Quase sempre a orientação do mestre foi ignorada. Alguns dos pilares do lulismo, como a gestão política eficiente da base no Congresso e o diálogo com formadores de opinião, foram abandonados e/ou praticados de forma ineficiente. O diálogo regular realizado no Conselhão foi esquecido.

O antigo software de fazer política foi deixado de lado e o novo não funciona. Enquanto o gasto público foi capaz de blindar a popularidade do governo, correu tudo bem. A farra fiscal acabou e com ela o brilho artificial do governo. A narrativa lulista morreu de morte “matada”. E nada assumiu o seu lugar. O governo não tem uma narrativa e se envergonha dos caminhos escolhidos. Ainda que, patrioticamente, Dilma tenha aceitado sacrificar sua popularidade para tentar promover o ajuste fiscal.

Porém, o problema é mais grave do que fazer um ajuste. Dilma deve tentar construir uma nova narrativa que englobe o ajuste fiscal, suas razões e os caminhos a serem perseguidos. Até mesmo uma séria autocrítica deveria ser feita como ponto de partida. Não é o que ocorre. Dilma não construiu sua narrativa. Nem mesmo quando tinha mais de 60% de aprovação, no início de 2013. Naquela época, o governo estava embalado pelo final da era Lula. Quando o impulso acabou, revelou-se a face do insucesso. Foi uma época de fracassos assintomáticos.

Agora, premida pelo espectro do impeachment, com uma base política rachada e uma grave crise econômica e fiscal assolando o país, Dilma não tem muito tempo a perder. É hora de construir uma nova narrativa que atenda aos anseios da população. Como fazer? Isso é simples de planejar e difícil de executar. O planejamento deve contemplar os vários públicos e ter mensagens consistentes para cada um deles. Porém, o difícil é abandonar os velhos hábitos e tecer uma narrativa que seja convincente e que, sobretudo, supere a desconfiança solidamente cevada nos últimos quatro anos.

Como disse o jornalista José Roberto Toledo, Dilma Rousseff perdeu a agenda social e a agenda econômica. Só lhe restou o cargo. Apegada a ele, tenta ensaiar uma resistência.

O governo existe para ser importunado

Charge (Foto: Antonio Lucena )
O negócio é o seguinte, o governo existe para ser importunado. É um direito do cidadão vasculhar os podres das autoridades e fazer campanha de difamação contra quem merece, seja ela chefe de estado ou um burocrata de bigode atrás de um balcão. Está no Manual do Bom Cidadão.
O dia em que não pudermos mais chamar um presidente de cabaço, um ministro de urubu, poderemos atirar a carteirinha de ser humano pela janela do trem.
Ao cidadão horrorizado com a agressividade toda, não há problema, pode trocar as palavras sujas por substitutos apropriados, desde que o faça com os dentes a mostra. No lugar de urubu, bobo, feio ou ladrão picareta. Se a religião não permitir, bolinha de papel amassado já está valendo (o efeito será mais cômico nos parlamentares carecas). O importante é mostrar quem é que manda: você.
A maior vantagem de morar num lugar aquém da civilização é essa, poder descer o cacete no governo e em seus representantes sem o menor sentimento de culpa. O histórico de canalhice é tamanho que não há nada que não justifique mandar qualquer partido político deste país para aquele lugar.
E quem disser o contrário, que um discurso cheio de perdigotos não resolve nada, que deve-se pegar mais leve com esse ou aquele governo - qualquer argumento que não mostre como o governo esfolia o cidadão para o seu projeto de poder é desprezível.
Sim, o governo existe para ser importunado. Sem a pressão popular, ele não vai parar de crescer. Na verdade, esse é o verdadeiro objetivo dele, ficar gigante e nos deixar pequenos - pequenos e em sua dependência.
Enfrentemos o bicho com a dignidade que ainda nos resta. Só assim para não cairmos nos discursos baratos e no populismo de quinta que empesteia os países falidos. E, mais importante, lembraremos que o cidadão não se dobra ao governo - pelo contrário, é o governo que deve nos servir.

Pedaladas que fazem mal à saúde


A saúde está relacionada a vários fatores e não apenas à medicina. Esta, por sua vez, não é sinônimo de mais médicos.

Medicina não é uma atividade só de médicos, mas não pode prescindir de competentes médicos. Para alcançar seu objetivo ‒ combater doenças ‒, necessita de uma equipe com enfermeiros, fisioterapeutas, farmacêuticos e dezenas de outras profissões legalmente constituídas e que tenham conselhos federais atuantes.

Comparando a medicina com a aviação, cabe aos médicos ‒ pilotos ‒ exercerem uma específica função. Controladores de voo, mecânicos, comissários de bordo, engenheiros e dezenas de outras profissões permitem que viajemos com segurança. Não basta pilotos para uma viagem segura. Não basta médicos para uma medicina segura.

Enquanto voar é uma possibilidade para alguns, saúde é uma necessidade para todos e depende de diversos fatores.

As condições socioeconômicas são mais impactantes do que as genéticas, e o saneamento básico previne mais doenças, custando menos que ambulâncias - com as laterais pintadas com os nomes de caciques políticos - ou hospitais inacabados.

A educação diminui a pobreza, e o voto deixa de ser moeda barata de troca. Demagogos e caudilhos têm horror a um programa de educação básica obrigatório e duradouro.

Perdem-se muitas vidas com a violência das balas e das estradas, dois Vietnãs por ano, neste assimétrico gigante, que insiste em ficar deitado eternamente em berço esplêndido dominado por cartéis de pelegos.

Por tudo isso os pobres, só lembrados nos discursos, vivem menos.

O ministro da saúde deveria saber disso - está no discurso do governo -, e se entender com seus confrades da educação, cidades, infraestrutura e transporte, de um total de 39 ministérios.

Não o faz, criando com isso mais desgaste para sua chefe, que passa por momentos angustiantes com a economia, com congressistas e com sua popularidade.

O Decreto nº 8.497, de 5 de agosto de 2015, assinado por ela, mas elaborado por ele, interfere na especialização médica. Criou novos problemas com o Conselho Federal de Medicina ‒ CFM e a Associação Médica Brasileira ‒ AMB, órgãos máximos da medicina no Brasil, ao considerar como médicos especialistas habilitados para atuar no SUS somente aqueles cujas informações estiverem de acordo com o cadastro do Ministério da Saúde.

O CFM e AMB foram ao Congresso Nacional para debater esse decreto, que abre brechas perigosas na formação dos médicos. Em seguida a tropa de choque de aliados do governo entrou em ação e conseguiu duas semanas para elaborar um novo texto, desta vez ouvindo as entidades médicas. Se fracassarem em empenar o voluntarioso ministro, o presidente da Câmara se comprometeu a colocar em votação um projeto de decreto legislativo que sustará os efeitos do decreto presidencial.

Será mais um desgaste para a governante, que busca hábitos de vida saudáveis, pedalando e perdendo peso, mas com um ministro que insiste em pedaladas que fazem mal à saúde.

#ForaPelegos

Nos últimos doze anos, centrais sindicais e movimentos sociais foram, paulatinamente, cooptados pelo Estado. Até as mais combativas passaram a ser tuteladas, mantidas por tributos compulsórios, aparelhadas e instrumentalizadas por interesses partidários e governamentais.

Nos dois mandatos de Lula, o bom mocismo sindical foi recompensado por benesses do governo, entre as quais a participação das Centrais na divisão do butim do imposto sindical e o pleno acesso à sala presidencial, nem que fosse para conversa fiada com o presidente.

O peleguismo sempre fez parte da cultura política brasileira. No modelo lulista, ele foi exacerbado e sindicalistas também passaram a fazer parte da máquina do estado por meio de um tremendo aparelhamento, com cargos públicos sendo loteados para servir aos propósitos do petismo.

O sindicalismo e os movimentos sociais se tornaram a tropa de choque que Lula ameaçava por nas ruas para enfrentar “a oposição e as elites golpistas”. Tivemos nestes anos as centrais defendendo o ex-presidente no caso do mensalão e a UNE fazendo manifestação contra CPIs constrangedoras ao governo.

Dessa forma se afastaram ainda mais dos vínculos com suas bases e com as aspirações emergentes da sociedade brasileira.

O amancebamento sindical cobrou o seu preço: nos últimos tempos, as manifestações convocadas pelas centrais governistas naufragaram, o braço esquerdo do lulopetismo perdeu musculatura.

Organizadas verticalmente, de forma burocratizada, e com uma pauta definida de cima para baixo, essas manifestações contaram, no máximo, com as camadas de sindicalistas, assessores e ativistas que orbitam em torno da máquina sindical ou do governo aparelhado.

Resumindo: passaram ao largo da grande massa de trabalhadores.

Caiu por terra também a fanfarronice dos dirigentes petistas de ameaçar colocar essas tropas nas ruas para defender Lula e o legado dos governos do PT.

A mais recente prova disto foi o melancólico manifesto, obviamente financiado com dinheiro público, de 600 uniformizados da CUT. Eles se reuniram em torno do Instituto Lula, levados por ônibus dos sindicatos, no último domingo.

Enquanto isto, mais de 800 mil pessoas em 204 cidades brasileiras protestavam espontaneamente pelo impeachment da presidente Dilma Rousseff, em defesa do juiz Sérgio Moro da operação Lava Jato, pela prisão do ex-presidente Lula, considerado o grande responsável pela onda de corrupção no país nos últimos anos.

Claro está que, se não se reconciliarem com suas bases deixando de ser correias de transmissão do Planalto, as centrais e os movimentos sindicais se transformarão em peças ornamentais, com peso diminuto nos rumos políticos e sociais do país.

Os dirigentes sindicais que orbitam em torno do governo podem até conseguir reunir alguns milhares nesta quinta-feira, dia 20. Mas pouco têm a oferecer além de uma pauta esquizofrênica. De apoio à Dilma e, ao mesmo tempo, contra o ajuste fiscal que ela precisa emplacar e em defesa do que eles entendem por democracia.

O movimento sindical precisa passar à limpo sua maneira de atuação, seus ideais e suas bandeiras.

Precisa repensar como se inserir nas relações sociais, políticas e econômicas de forma digna, propositiva e consequente para o benefício dos trabalhadores e o desenvolvimento do Brasil.

Chega de pelegos.

Hubert Alquéres

Corrupção como forma de poder

Nos últimos tempos a Operação Lava Jato tem marcado o ritmo da política brasileira. Quantas vezes partidos e atores se movem tendo em vista as fases do processo? Gostaria de levantar a hipótese de que ela mesma se tornou movimento político, embora sem participar do sistema representativo como tal.

Para distinguir o principado da república Maquiavel indica que no primeiro o poder ou é hereditário ou conquistado. A esquerda revolucionária sempre apostou na conquista do poder, que na tradição leninista é único e indivisível. A proposta de Lenin de conferir todo o poder aos sovietes implicava excluir da vida política quem não estava associado a essa organização de soldados, operários e camponeses. Essa orientação rachou a esquerda europeia do início do século 20, encontrando oposição ferrenha dos comunistas alemães, do “renegado” Karl Kautsky a Rosa Luxemburgo.

Se esses pregavam a ditadura do proletariado, esta era entendida como tarefa a ser entregue à classe total para instalar uma res publica.

A esquerda brasileira sempre se aproximou da linha leninista e o PT sofreu essa influência. É sintomático não ter-se comprometido com as fórmulas da República “burguesa” que se instalou depois da queda do sistema militar. Essa linha se aprofunda conforme o PT se aproxima e se infiltra no poder. Se a ele chega de forma republicana, desde logo trata de conquistar os aparelhos do Estado. Primeiramente, infiltrando neles militantes e sindicalistas, depois, com a vitória de Lula em 2002, ocupando novos postos, principalmente em comissão. A ideia inicial era politizar esses aparelhos, dando-lhes novo sentido histórico. E assim a máquina do partido se infla no Estado, tendendo a se confundir com ele.

Não reside aí o germe da nova forma de corrupção que o lulopetismo instalou no País? Para que essa enorme massa de militantes pudesse ser tramada para agir politicamente, para que pudesse ajudar numa governabilidade que se fazia mediante alianças as mais variadas, foi necessário montar e financiar uma cara máquina política. Isso se evidencia muito cedo, quando do assassinato de Celso Daniel, em 2002. O prefeito de Santo André recusa-se a dar continuidade ao fluxo de arrecadação de propinas quando percebe que, antes de chegar ao seu destino, deixava rastros nos bolsos dos coletores. Removido o obstáculo, porém, o sistema se expande e se agiganta.

Corrupção sempre existiu, até mesmo no Paraíso. O diabo-cobra não corrompeu Eva? Mas em política importa sobretudo sua forma, na medida em que entranha formas de poder. A forma da corrupção praticada por César ou Augusto – as apropriações efetuadas para manter o pão e o circo – não se confunde com a praticada pelo papa Alexandre VI na reestruturação da burocracia vaticana. Nem a especificidade da corrupção tucana se iguala à forma da corrupção petista, mesmo se ambas bebem na mesma fonte. A primeira se concentra na alimentação de um grupo, a segunda passa do partido para o Estado, um e outro se apresentando como momento do universal da História. E a “ditadura” do Terror ou do partido é “incorruptível”.

A corrupção do próprio aparelho do Estado serve de paradigma para corromper toda a sociedade. Não é estranhável que hoje em dia encontremos um corruptor em cada esquina. Em contrapartida, nada mais natural que a bandeira contra a corrupção seja levantada por aqueles que, na luta profissional, se particularizam e sofrem diminuição de seus poderes.

Conforme os agentes do Estado atuam na base da corrupção, cada vez mais aqueles funcionários, que percebem suas próprias práticas serem corrompidas, enfraquecidas e negadas, ganham condições e argumentos para levantar a bandeira contra ela. Tratam de salvar o sentido de suas profissões. E assim, conforme os partidos do governo perdem a auréola da probidade, outras frentes, tratando de recuperá-la, configuram nova oposição. Não é desse modo que o Ministério Público, cuja independência depende dessa aura, assim como partes da polícia e do Judiciário, que igualmente precisam destacar-se na probidade para sobreviver publicamente, todos eles se juntam para que o exercício de suas profissões ganhe autenticidade e dimensão política?

Não foi assim que o julgamento do mensalão acentuou o lado político do STF? Não que tenha perdido seu fundo jurídico, mas me parece inegável que hoje sua imagem realça um Poder associado aos outros dois da República. É o que me parece estar igualmente acontecendo com a Operação Lava Jato, que, ao tratar de operar de forma mais efetiva e cuidadosa, procura mostrar-se publicamente como estando engajada na regeneração do País.

A maneira como seus membros se comportam e se associam entre si, o timing de suas decisões e seu relacionamento com a mídia, tudo caminha nessa direção. A leitura do texto do juiz Sergio Moro justificando a prisão de José Dirceu, acusando-o de organizar novo sistema de corrupção, impressiona tanto pela segurança da argumentação policial e jurídica quanto por sua forma midiática. Do mesmo modo, os promotores e os policiais vêm a público explicar no pormenor cada elo do processo de corrupção, ligando Estado, sociedade civil e empresas. E assim promovem a consciência política da necessidade da mudança.

Aí residem a grandeza e o perigo desse processo. A Operação Lava Jato está nos obrigando a ter vergonha do estado de corrupção em que nos encontramos. Mas somente terá repercussão política se forças políticas representativas, levando em conta todos esses processos não representativos, decidirem pelas reformas de que o País necessita. E a ilusão de uma democracia direta – lado inverso do Estado total – só perturba a compreensão de como a política nacional mergulhou numa indecisão que nos engolfa. Os escândalos pipocam no ar, as pessoas se manifestam e os partidos só lidam com os fogos de artifício.

José Arthur Giannotti