sexta-feira, 13 de novembro de 2015

Venderam a alma ao capeta

Descaso, desfaçatez, delírio? Muito pior: má-fé e vigarice. Só assim pode ser definida a decisão da maioria da Câmara ao aprovar, na noite de quarta-feira, o projeto de retorno ao país dos bilhões de reais enviados clandestinamente nos últimos anos para o exterior, sem pagar imposto e sem comunicar as remessas à Receita Federal. Porque isso é crime, e pelo projeto os criminosos serão anistiados. Não responderão a processo por envio irregular de divisas, muito menos por lesões ao fisco. Não poderão ser processados por crimes de sonegação fiscal evasão de divisas, e lavagem de dinheiro. Vão pagar multa, mas pelos cálculos ligados ao dólar, não mais do que 21% do total recambiado.


Quer dizer, o cidadão que paga 37% de impostos, cumpre seus deveres e se vê explorado pelo governo, sem a retribuição de serviços, assiste agora a festa dos malandros. O texto aprovado exige que essas fortunas tenham origem lícita como se fosse possível separar os recursos oriundos de negócios variados com o dinheiro, por exemplo, proveniente de desvios da Petrobras, do tráfico de drogas e da corrupção generalizada.

O crime compensa, acabam de demonstrar o governo, que propôs essa abominável tramoia, e a maioria dos deputados, que para agradar o governo e dele receber incontáveis benesses, venderam a alma ao Capeta.

Mais chocante ainda foi verificar que o PT em peso votou esse lixo. O que falar do PC do B, outrora receptáculo da justiça social e da ética? A maior parte do PMDB, também. E penduricalhos, tornados sócios da quadrilha que não apenas faliu o Brasil, pois agora institucionaliza o roubo e o crime.

O governo espera amealhar 11 bilhões de reais com o retorno do dinheiro podre mandado para fora. Ledo engano, pois a maioria dos larápios implicados nas remessas dá de ombros e sorri. Para que mexer no capital que no exterior rende muito mais e sem a exposição de suas origens?

***

Agora que voltou a boataria sobre a demissão de Joaquim Levy e a nomeação de Henrique Meirelles, seria bom analisar os comentários do ex-presidente do Banco Central. Ou ele já está convidado ou então aproveita os boatos para demonstrar que não quer mesmo a função. Porque declarou, esta semana, que só aceitará com carta branca. Sem limitações. A definição da política econômica tem que ser da responsabilidade do ministro da Fazenda. Isso significa que estará acima e além da própria presidente Dilma. Caso Madame aceite essas condições, perderá o pouco de poder que ainda lhe resta.

O mérito de lama

O contribuinte pagou 1,1 milhão para a festa da Ordem do Mérito Cultural com direito a apresentação de Caetano Veloso, no Palácio do Planalto, a 32 agraciados, que reuniu 400 convidados.

Foi mais um gasto público para respaldar outro ato governamental em defesa de Dilma, que sempre fica feliz em esbanjar dinheiro público em época de crise em festas reservadas (sem povo, é claro). Dessa vez até recebeu elogios como do poeta Augusto de Campos, um dos agraciados: "Sempre a vi como heroína na luta pela democracia nos abomináveis tempos da ditadura".

É muita cretinice Dilma virar heroína, quando tanta gente sofreu tanto ou mais do que ela e repugna a pecha de herói. Só os insignificantes se dão ao luxo de terem o ego massageado com esses elogios.,

PT atiça o formigueiro

O jogo duplo entre o PT de Dilma e Eduardo Cunha, visto como necessário para barrar um processo de impeachment no Congresso, está embaralhando a sociedade, os movimentos sociais e partidos que ainda dão sustentação à presidente pior avaliada do país.

A liderança do governo Dilma no Congresso patrocinou nesta quarta (11.nov.), dentro de seu próprio gabinete, a redação de documento dos partidos governistas ratificando "total apoio e confiança" a Eduardo Cunha. Até ontem, vale lembrar, o PSDB também sustentava Cunha.
No domingo, o presidente da Câmara foi alvo central, em nove Estados, de manifestações comandadas por entidades ligadas ou simpáticas ao PT (como CUT e MTST). As lideranças também criticaram a própria Dilma ao demandar a saída de seu ministro da Fazenda, Joaquim Levy.

Nos últimos dias, caminhoneiros bloquearam estradas em 14 Estados pedindo a saída imediata de Dilma da Presidência.

Houve também manifestações de mulheres (e homens) contra Eduardo Cunha em várias cidades (há outra prevista para esta quinta, às 17h, no Masp).

Nesse caldo, CUT, MTST e movimentos espontâneos como dos caminhoneiros e das mulheres podem acrescentar o que faltou neste 2015 à "tempestade perfeita" prevista por analistas no início do ano.

A partir de uma reivindicação específica (o não aumento das tarifas de ônibus), o Brasil perdeu completamente a paciência em junho de 2013 e colocou para fora todas as suas frustrações. A ponto de tentar invadir o Congresso, sede de governos e de literalmente pôr fogo no Palácio do Itamaraty, em Brasília.

Em 2013 a situação econômica era muito melhor do que a atual. O país fechou aquele ano com a menor taxa de desemprego da série histórica (4,3%) e o PIB cresceu 2,3%. A inflação foi de 5,9%, abaixo do teto da meta do Banco Central.

Os protestos vieram mesmo com recordes no total de empregos com carteira assinada e aumentos na renda dos trabalhadores. Sintoma de que havia um mal estar profundo e difuso em relação a fatores inseparáveis do modo como o Estado toma e presta conta de suas ações perante a sociedade.

Agora, o PIB está caindo 3%, a inflação é de 10% e o desemprego caminha rapidamente para os dois dígitos. A renda média dos brasileiros sofre a maior queda desde 2003 e o varejo tem seu pior resultado em 15 anos.

2016 já está praticamente encomendado. E pode não ser muito diferente disso.

O comando do Brasil, de memória curta, parece simplesmente ter esquecido do que se passou há pouco mais de dois anos. Quando o Congresso foi sitiado e todos os políticos tiveram que se mexer rapidamente para aplacar um movimento que fugia completamente ao controle.

Com seus últimos movimentos, PT, CUT e MTST podem estar "dando ideias". E acendendo o fósforo que falta.

Brasil, uma nova Venezuela

A educação de um povo é, certamente, a única maneira de fazer com que um país cresça social, política e economicamente.

Um dos exemplos mais recentes é o da Coréia do Sul, que na década de 60, apenas 50 anos atrás, era um país atrasado e economicamente insignificante, mas resolveu investir maciçamente na educação de seu povo e o resultado é que, atualmente, é um dos maiores exportadores de veículos e de produtos eletrônicos do mundo.

Em contrapartida, vemos países com regimes autoritários, dirigidos por pessoas que fazem de tudo para se manter no poder e normalmente saqueiam sua nação em proveito próprio e dos seus, deixando o povo sem saúde, segurança e, principalmente, sem educação para que, sem cultura, continuem se satisfazendo com o muito pouco que estes governos lhes fornecem.


Recebendo educação, a população vai cada vez mais entendendo essas diferenças e passa a escolher melhor, tanto o regime político a que querem se submeter como também seus mandatários, democraticamente eleitos pelo povo.

É com a educação que nossas mentes vão se abrindo para novas experiências, e começamos a enxergar o que existe à nossa volta e o que poderia existir, seja imaginando coisas ou observando as experiências de outras pessoas ou povos.

Com ela passamos a entender a necessidade de lutar contra as injustiças, sejam quais forem, pois ninguém será plenamente feliz enquanto milhões sofrem por motivos diversos. Em nosso próprio país, pessoas passam fome, sede, não possuem teto ou um agasalho, vivem sem acesso à educação e, por isso, se submetem a migalhas fornecidas por coronéis da política que nada mais querem do que sua permanência no poder.

É inacreditável como o brasileiro reclama do governo, dele espera tudo, mas não participa politicamente de nada, não se candidata a nenhum cargo, seja para o de líder de bairro ou de síndico do prédio. Sem a participação política - ao menos em protestos públicos sobre o que está reclamando - nada será mudado.

São os políticos que aí estão que fazem as leis, que anualmente votam o orçamento de quanto da arrecadação total do governo será gasto, no ano seguinte, em saúde, educação, habitação, infraestrutura, etc., e com seus salários, verbas de gabinetes, seus asseclas e suas mordomias.
Assim, sempre faltará dinheiro para a educação e saúde, mas haverá para a propaganda pessoal e para projetos espetaculares, de bilhões de dólares, financiados pelo BNDES, inclusive em outros países, desde que administrados por "companheiros" ideológicos dos que hoje estão no poder.

Como fazer de conta que tudo está bem se isso não é verdade? Como admitir que, depois de décadas de investimentos milionários, nossos irmãos nordestinos continuem sem água, se todos os estados da região possuem acesso ao mar e há anos a tecnologia de dessalinização da água é uma realidade e irriga milhões de hectares de terras em diversos países?

Em Cancún, conheci até uma fábrica de cerveja fabricada com a água do mar e toda a população lá existente, além dos mais de 6.000 turistas diários que visitam a ilha, só possuem essa água para beber e para sua higiene pessoal.

Sem ao menos a educação básica da população mais humilde e a politização da população mais instruída, continuaremos, por décadas, vendo estados como o Maranhão dominados por uma única família que, para ter se tornado milionária - e dessa forma se manter -, deixou sem cultura e na miséria toda a população de um estado.

Ou nos politizamos e elegemos somente verdadeiros patriotas ou, mais rápido do que se imagina, o Brasil será uma nova Venezuela.

Bloqueios do MST em estradas aumentaram 130%, mas só é crime bloqueio de caminhoneiro

Dia 24 de outubro passado a greve dos bancários se encerrou após 22 dias de braços cruzados. Levaram 10% de aumento em salários e benefícios.

Transamazônica: bloqueio provocado pela lama governamental
No ano passado, os bancários fizeram uma greve entre 30 de setembro e 06 de outubro. Os trabalhadores pediam em reivindicação inicial reajuste salarial de 12,5%, além de piso salarial de R$ 2.979,25, PLR de três salários mais parcela adicional de R$ 6.247 e 14º salário.

A categoria também pedia aumento nos valores de benefícios como vale-refeição, auxílio-creche, gratificação de caixa, entre outros. A greve foi encerrada após proposta da Fenaban de reajuste de 8,5% nos salários e demais verbas salariais, de 9% nos pisos e 12,2% no vale-refeição.

Em 2013, os trabalhadores do setor promoveram uma greve de 23 dias, que foi encerrada após os bancos oferecerem reajuste de 8%, com ganho real de 1,82%. A duração da greve na época fez a Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) pedir um acordo para o fim da paralisação, temendo perdas de até 30% nas vendas do varejo do início de outubro.

Em 7 de abril passado meia dúzia de grandes cidades do Brasil tiveram suas vias e rodovias entupidas por atos promovidos pela CUT (Central Única dos Trabalhadores), o MST e a UNE —amotinados contra o projeto de lei 4330, aquele que mudava as regras de terceirização.

Dados do Ministério do Desenvolvimento agrário atestam: em 2014 o MST promoveu 62 bloqueios de estradas. Só no primeiro semestre de 2015, registraram-se 81 bloqueios de estrada tocados pelo MST. Ou seja: o bloqueio de estradas tocado pelo MST teve aumento de 130% em apenas seis meses.

Agora trecho extraído da Folha de S. Paulo, de dez de agosto passado:

“A presidente Dilma Rousseff se reunirá nesta semana com movimentos de esquerda para tentar mostrar respaldo social em uma ofensiva contra as manifestações antigoverno marcadas para o dia 16 de agosto.

Para o governo, é importante sinalizar que Dilma não está isolada, apesar do recrudescimento da crise política”.

Diz algo, não?

Comparemos: Dilma baixou ontem medida provisória fixando multa de RS$ 19.154 para quem organizar bloqueios de caminhoneiros. No caso de reincidência, o ceitil sobe para RS$ 38.308. Disse Dilma: “Atrapalhar a economia popular e paralisar o abastecimento de uma cidade é crime”.

Hmmmmm… Diz algo também, não?

Chico Buarque, octagenário nato e fundador do PT, sabe que sob seu partido pau que bate em Chico não bate em Francisco.

Vi velhotas desmaiando em filas de banco, nas tevês, nas greves dos bancários dos últimos 3 anos. Estavam sem dinheiro para pagar os remédios. Vi ambulâncias sendo obstadas pelo MST, pela UNE, pela CUT, pelo diabo.

Mas, para Dilma, tudo o que vem dos bancários (e demais sindicatos barra entidades barra centrais, a quem o governo irriga com apoio político barra financeiro) não é crime contra a economia popular.

Quando as operações da “PF Republicana “ de Lula atingiam seus inimigos, ele esfregava as mãos, junto com o detento Zé Dirceu.

Quando, agora, num revés cármico, a PF atocaia os filhos de Lula e seus asseclas, temos, na ótica absconsa do governo federal, atentados contra o direito de defesa.

Até as crianças já entenderam a ótica do PT: o velho e repassado adágio avoengo: no dos outros não arde…

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

O medo: uma velha desculpa para novos retrocessos

A imagem de um avião chocando-se contra as torres gêmeas marcou uma geração. Atentados no metrô de Londres ou no trem em Madri ainda causam dor e medo. Mais atualmente, ações sanguinárias e midiáticas do Estado Islâmico chocam cidadãos em todas as partes do mundo. Não há dúvidas de que o terrorismo deve ser combatido, mas ele não pode servir de desculpa para o enfraquecimento das democracias ou para violação das liberdades individuais.

O PLC 101/2015, que define atos terroristas no Brasil e que está prestes a ser aprovado pelo Congresso, torna nebulosa uma das mais básicas garantias constitucionais: o princípio de legalidade, que nos permite saber o que é permitido e o que é proibido.


Isso é o que apontaram quatro relatores da ONU em nota pública, divulgada semana passada: o projeto de lei “está redigido em termos demasiado amplos”, o que gera “ambiguidade e confusão na determinação do que o Estado considera como crime de terrorismo”. Em outras palavras, o texto é mal feito.

Elementos subjetivos do tipo penal como a “motivação” para realização da ação (extremismo político, intolerância religiosa, preconceito racial, étnico, de gênero ou xenófobo) e o “objetivo” dos atos (provocar pânico generalizado) serão avaliados pelo juiz com poucos fatores concretos delimitados em lei.

A especificação do que é crime é um dos aspectos mais problemáticos do projeto de lei. Se por um lado o texto se inicia descrevendo o terrorismo como “atentado contra a pessoa, mediante violência ou grave ameaça”, logo ele equipara essa conduta a uma enorme lista de ações nas quais se incluem coisas tão diversas como “danificar estação metroviária” ou “apoderar-se de qualquer edifício público ou privado”.

Da maneira como está redigido na versão atual, o texto abre brechas para que o juiz enquadre como terrorismo ações reivindicatórias legítimas, que tentam melhorar o funcionamento das instituições – e não há dúvidas de que nossas instituições precisam mudar, e muito. Por exemplo, serão considerados atos terroristas as ações de povos indígenas que, para se fazer ouvir, necessitam ocupar prédios públicos como a Funai? E greves do transporte público? A resposta é: depende. Depende de como o juiz vai avaliar a motivação do ato e determinar se seu objetivo foi “provocar pânico generalizado”.

Ao modificar a lei de Organizações Criminosas, o projeto de lei permitirá também o uso de agentes infiltrados na investigação, o acesso a registros e a dados cadastrais diante da simples suspeita de prática terrorista. Uma investida muito perigosa do Estado sobre a privacidade dos indivíduos.

O projeto de lei veio originalmente do Poder Executivo. Na mensagem encaminhada pelos Ministros da Fazenda e Justiça eles dizem “o Brasil deve estar atento aos fatos ocorridos no exterior”. Nós concordamos: é necessário estudar os impactos da legislação antiterrorista em outros países porque o panorama é preocupante. Tanto no Norte como no Sul, o resultado deste tipo de legislação tem sido a criação de sistemas de vigilância massivos, a invasão sistemática da privacidade e a violação do devido processo legal. O Relator da ONU sobre o tema, Ben Emmerson, destacou em seu último informe que, como efeito indireto, este tipo de legislação acaba restringindo também o espaço para o trabalho das organizações da sociedade civil.

Há casos concretos em países vizinhos. Em 2014, a Corte Interamericana de Direitos Humanos da OEA (Organização dos Estados Americanos) decidiu que a lei chilena antiterrorista era contrária ao princípio de inocência. Isso porque ela presumia que qualquer uso de artifícios explosivos ou incendiários tinha como finalidade produzir terror na população. Mesmo depois da eliminação dessa presunção, a ONU condenou novamente a lei porque, igual que no Brasil, o texto inclui não só condutas contra a vida como também condutas que atentam contra a propriedade.

A pedido da presidenta Dilma, o projeto de lei está tramitando em regime de urgência – o que exige apreciação dos parlamentares em um prazo de três meses e acaba dispensando a realização de audiências públicas e de um amplo debate com a sociedade. A razão dessa pressa, supostamente, foi a exigência do Grupo de Ação Financeira Internacional. Entretanto, da leitura das recomendações dessa entidade, não há qualquer sugestão da tipificação do terrorismo, menos ainda nestes termos.

Usando a bandeira de um fenômeno muito grave como o terrorismo, estamos abrindo uma brecha enorme para criminalizar reivindicações legítimas e necessárias para a construção democrática. Se for aprovada pelo Congresso, esta lei não vai nos deixar mais seguros. Ao contrário, vai enfraquecer a participação da cidadania e ameaçar nossa privacidade.

Juana Kweitel

Lula, aspirante a ditador


Se Dilma trocará Joaquim Levy no Ministério da Fazenda por Henrique Meirelles? Não sei. A essa altura, imagino que nem mesmo ela saiba.

Só sei que Lula, padrinho da eventual mudança, insistirá na troca. Bem como insistirá em que Dilma troque José Eduardo Cardozo por qualquer outro nome no Ministério da Justiça.

Por quê?

Ora. No caso de Levy, Lula ainda tem a desculpa de que ele só fala em arrocho da economia. Que não representa uma esperança. E que está errado ao não estimular a volta do consumo.

Enfim: que toda a política econômica de Levy é um equívoco. E que a persistir assim, o PT perderá as eleições do próximo ano. E, seguramente, a eleição presidencial de 2018.

No caso de Cardozo, por mais que tente, Lula não tem como esconder seus interesses pessoais em jogo.

Cardozo tem que sair do governo porque ele não manda ou não quer mandar na Polícia Federal e no Ministério Público. E os dois ameaçam Lula com suas investigações, e também a família dele.

Lula ficou riquinho da silva. E seus talentosos filhos igualmente.

A substituição de Levy também deixaria Lula mais tranquilo se o sucessor dele passasse a mandar na Receita Federal.

Pois é: assim como a Polícia Federal e o Ministério Público, a Receita Federal está indo para cima dos ganhos de Lula e de sua família em negócios com empreiteiras.

Somente entre 2011 e 2014, Lula declarou ganhos de 27 milhões de reais como palestrante de empreiteiras beneficiadas pelos seus dois governos. Sabe como é: uma mão lava a outra.

A mão que Lula ofereceu está sendo lavada pelas empreiteiras envolvidas na roubalheira na Petrobras.

Acuada pela oposição, tratada com má vontade pelo PT, só restou a Dilma, com medo do impeachment, entregar-se a Lula. Ou melhor: entregar o governo.

A recente reforma ministerial não foi obra de Dilma, mas de Lula. Só que ela está inacabada.

Lula pouco se lixa para o que é melhor ou pior para o país. O que ele mais quer é escapar da Lava-Jato e ser candidato a presidente em 2018.

A presidente, não. A ditador.

Porque se ele chama Dilma de fraca por não interferir nas ações da Polícia Federal, do Ministério Público e da Receita Federal é porque ele, presidente, interferiria, sim.

A polícia, o ministério e a receita não são órgãos de governo sujeitos às vontades do presidente ocasional. São órgãos do Estado.

Mas isso nada vale para Lula. Deveriam se comportar como quer o presidente. E assim será se ele suceder Dilma.

O arranjei-me como valor

No Brasil, a grande transformação seria o gerenciamento igualitário e honesto do Estado pelo governo. É preciso desapropriar o Estado do grupo eleito

A imobilidade da Monarquia foi substituída pela mobilidade republicana. Numa aristocracia, vale mais a reciprocidade do que o mérito e a competição. Se você é “amigo do rei”, você — mesmo na República — se arranja e se arruma, pois o rei lhe faz a pergunta fatal: o que você quer?

O problema é que a República supõe uma igualdade que atrapalha escolhas pessoais. Na Monarquia, o imperador faz barões; na República, as autoridades devem ter competência e mérito. O maior deles, nesses dias em que os escândalos viraram capítulos de novelas, seria o de arranjos e assaltos mais discretos, mais sensíveis para com os que pagam a conta.

Na Monarquia, há súditos e na República, cidadãos. O gerenciamento igualitário é modesto, pois, além de ligar governantes e governados pelo voto, ele se funda no axioma segundo o qual todos são sujeitos das mesmas leis. Nisso o Brasil inventa os “arranjos”. Cada grupo trata de ser uma exceção a uma execrável igualdade universal. Como lidar com a igualdade, se o mundo é dividido, dizem os mais recalcitrantes.


A igualdade substitui o “sangue” e a família como dimensão de pertencimento. Será, pergunta-se, que o partido político ou a ideologia populista-revolucionária substitui o “sangue” e avaliza pertencimentos, vantagens, propinas e outros elementos diferenciadores que engendram desigualdade e, no limite, escancarada corrupção? Aparelhamento é uma nova forma de hierarquia?

A coisa seria institucionalizada e capitulada em lei, não fosse existir um controle dos governantes pelos governados, numa odiosa reversão republicana que a mídia estampa, anunciando como os códigos antigos não morrem por decreto. Eles vivem na estratosfera dos valores — das coisas não ditas mas sabidas.

No Brasil, a maior revolução foi o republicanismo, diz-me o professor Richard Moneygrand numa longa carta. Nela, Moneygrand assevera que um modesto igualitarismo burguês na zona do uso criterioso ou republicano dos recursos públicos seria suficiente para transformar radicalmente o Brasil. Para ele, a “nossa revolução” teria o defeito de ser somente “nossa”, e não de todos. Ela criaria em paralelo novos arranjos do velho “arranjei-me”, instituindo no poder um novo grupo com o direito de usar legalmente o “Você sabe com quem está falando?”, tal como ocorre hoje nos arranjos jurídicos do mensalão e do petrolão.

O conceito de “revolução” serve como um amuleto contra uma desigualdade gritante. No populismo todos ganham; no republicanismo igualitário, alguém perde. Não adianta teorizar que estamos lutando por dentro porque as grandes transformações exigem uma enorme parcela de participação. A revolução milenarista não nos exime do que estamos testemunhando: o assalto à sociedade e a pulverização do principio de realidade por meio do conchavo e da mendacidade.

No Brasil, a grande transformação seria o gerenciamento igualitário e honesto do Estado pelo governo. É preciso desapropriar o Estado do grupo eleito para, em sintonia, mudar a sociedade. Não se admite haver governos que arranjam e enriquecem os “revolucionários” da caneta e das propinas com contas no exterior e consultas-palestras milionárias no Brasil.

À ousadia dos trêfegos que são hoje “autoridades” e protagonistas sem nenhum senso de responsabilidade histórica, têm plena certeza na nossa patetice. Em nós, que pagamos a conta e ainda temos fé na honestidade como um axioma de qualquer sistema. Daí esse teatro de absurdos onde a mentira é legal e o legal é a mentira.

Você, leitor, vai arguir que existem vários condenados e presos. Eu apenas respondo que hoje o meu ideal é o de ser condenado a uma prisão domiciliar com tornozeleira eletrônica e aposentadoria integral sem esquecer a grana que depositei num blind trust, como é o caso do ilustríssimo presidente da Câmara dos Deputados.

Comove-me, entretanto, descobrir que os envolvidos nas roubalheiras se preocuparam em arranjar e proteger seus familiares. A desejada vida de sócio de um estado infalível se realiza com as bênçãos de uma secular desfaçatez. Esse patrimônio nacional de direita e de esquerda. E quem — eis a questão — recusaria o arranjei-me?

Roberto DaMatta

'Golpistas' inglorious

No tempo em que com prazer se viajava de carro pelo Brasil, houve um período em que não era incomum cruzar-se por postos ocupados por bonecos de madeira, com a farda da PRF. Na posição ereta e atenta, o boneco transmitia a quem se aproximasse a sensação de estar sob vigilância da autoridade policial. Eram todos gêmeos idênticos e, na imagem que me ficou, usavam bigode. Com o tempo, tornavam-se fisionomias conhecidas dos viajantes. Tenho me lembrado muito de tais bonecos nestes meses em que contemplo severa inatividade em instituições da República.

Considero-me dispensado de apresentar números porque a realidade é mais expressiva do que qualquer indicador registrado em numerais. As pessoas sentem. As pessoas sabem. No dia 9 deste mês, o jornalista Gilberto Simões Pires, em sua coluna no blog pontocritico.com, chamou a atenção para o fato de que no corrente ano, até este momento, segundo dados do próprio governo, foram fechados 1,3 milhão de postos de trabalho. Nenhum no setor público. Encolhe o setor produtivo, mas o outro, por ele mantido, não toma conhecimento. Fica evidente a existência de enorme dissintonia entre ambos. Um deles situa-se fora do Brasil real. Diante da crise econômica, política e moral instalada no país, os mais elevados estamentos das instituições de Estado parecem povoados por bonecos de madeira, de terno e gravata, em atitude solene, dedicados à tarefa de fazer de conta. Ressalvadas as dignas, devidas e insuficientes exceções, o mundo oficial transmite à sociedade essa sensação de teatro de fantoches fora de temporada.


O governo - é o que se lê - está mais preocupado com a imagem da oposição do que com o país. Seus mastins de guarda e fabricantes de versões decidiram que 93% da população brasileira é formada por "golpistas" inglorious. E ingratos. De fato, a imensa maioria dos brasileiros quer ver pelas costas um governo que não tem coragem de olhá-los de frente. Segundo o governo, que bem sabe como chegou lá, esta nação esqueceu as supostas grandes realizações levadas a cabo no início do século, exatamente para onde seus desacertos, nos últimos anos, fazem recuar a atividade econômica, a inflação, o desemprego e a imagem externa do país.

"E as instituições? E o mundo oficial?", perguntará o leitor atento a estas entristecidas linhas. Pois feitas as escassas exceções mencionadas acima, comportam-se como bonecos de madeira, com rosto do mesmo material.

Percival Puggina

Liberdade regida por lei

Nós costumávamos ser um povo livre. Agora, nós somos cercados por milhões de leis, assediados por enxames de advogados oportunistas, prejudicados por regulamentos destinados à nossa própria proteção, desnecessariamente tributados para financiar uma burocracia sufocante, afogados em papéis inúteis e asfixiados por “direitos” que raramente nos beneficiam
Joan Beck

A cartilha do PT

O PT divulgou uma cartilha com ataques ao juiz Sergio Moro, aos procuradores da Lava Jato e à imprensa. O texto mostra que o partido não aprendeu com o mensalão. Em vez de apresentar uma defesa convincente, insiste em negar fatos e se dizer vítima de perseguição.

O texto afirma que "o PT nasceu contra a vontade dos poderosos e, por isso, sempre foi perseguido e caluniado". O discurso poderia funcionar nos anos 80, quando os petistas vendiam estrelinhas e camisetas para financiar suas campanhas.

Para engoli-lo em 2015, seria preciso ignorar a aliança do partido com bancos alimentados por juros altos, frigoríficos alavancados por empréstimos camaradas e empreiteiras abastecidas pelo petrolão.

A cartilha afirma que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso "abriu as portas da política para o poder econômico". É uma distorção em dose dupla. As portas já estavam abertas há décadas, e continuaram escancaradas nos governos do PT.

Em outra passagem, os petistas culpam FHC pela ruína da Petrobras, mas adotam a tática do "esqueçam o que escrevi". Há seis meses, o PT prometeu expulsar os filiados condenados na Justiça por corrupção. Agora, sai em defesa do "companheiro" João Vaccari, condenado a 15 anos de prisão por corrupção, lavagem de dinheiro e associação criminosa.

Entre críticas à Lava Jato e ao juiz Moro, a direção do PT diz "lamentar" que "todo o esforço para investigar e punir os desvios ocorridos na Petrobras" corra o risco de ser "comprometido" por abusos de autoridade e falhas processuais. O lamento é tão sincero quanto a torcida de um palmeirense pelo título do Corinthians.

A cartilha também diz que "no fim da linha está o objetivo de cassar o registro do partido, como ocorreu em 1947 com o antigo PCB". A comparação ofende a memória dos comunistas da época, como Jorge Amado e Carlos Marighella. Eles foram perseguidos e cassados por suas ideias, não por receber pixulecos.

Lama Brasil

O governo decidiu em 24 horas esvaziar a greve dos caminhoneiros e decretou uma medida provisória carrasca como uma lei de segurança nacional dos tempos ditatoriais para conter o que viu de viés de político na manifestação. Segundo o ministro da Justiça, José Eduardo Cardoso, o bloqueio de estradas "vai contra o interesse público, vai contra brasileiros e brasileiras".

A mesma agilidade não teve com o desastre ecológico do rompimento de barragens em Mariana. Foram necessários seis dias para o mesmo governo começar agir e falar em "ameaça" de responsabilização à Samarco, Vale e BHP. 


Dilma, que no dia do desastre enviou apenas uma nota de pesar e nem sequer se dignou a visitar imediatamente a área atingida, onde morreram e foram desabrigados brasileiros que como todos os demais merecem respeito e atitudes enérgicas e imediatas de uma presidência.

Como só pensa naquilo - impeachment e assegurar o tronho para seu senhor - vai enfim sobrevoar a área. Retardada como sempre quando estão em jogo brasileiros sofrendo, prefere a intriga palaciana e a jogatina político-empresarial.

Os tratamentos diferenciais mostram bem a cara e o caráter de quem governa o país. Contra movimentos considerados políticos contra sua gestão, a mão de ferro; com o sofrimento do povo e o maior e mais extenso desastre ambiental provocado por mineradora no país, a lentidão em atender aos necessitados, nenhuma prontidão em criminalizar empresas e, para espanto dos simples mortais, um certo conluio de empresa e governo estadual, quando o governador de Minas deu entrevista dentro da mineradora responsável pela barragem. Sem contar o cúmulo de a própria empresa centralizar, sob cumplicidade do governador, a gestão da tragédia.

VALE SAMARCO PW 10 11 15
Um pedaço do país teve terras de dois estados tomadas por uma lama, presumivelmente com minerais tóxicos e nocivos. Rios, inclusive o grande rio Doce, atingidos pela mesma aridez, assesoreados, com sua fauna e flora atingidas. Uma enorme população sofre e sofrerá ainda com problema de abastecimento sem contar as décadas de infertilidade daquelas terras, se algum dia puderem ser recuperadas. No entanto não há qualquer urgência em planos de assistência e medidas ambientais. No máximo, a ministra do Meio Ambiente vociferou se "couber multa na parte federal nós aplicaremos". Como a ministra não sabe que há punição federal? Izabel Teixdeira repete a mesma lenga-lenga ambiental petista que não cuidou, não cuida nem nunca cuidará do meio ambiente com seriedade e competência.

A lama de Mariana entra para a história do Brasil como mais um dos escândalos de desgoverno petista. Sem contar que é um crime de Estado contra o cidadão em favor das grandes empresas.

Quem é o dono da lama?

A Vale declarou ao mundo que é "mera acionista" da Samarco, dona das barragens que ruíram. A ruína largou uma torrente de lama suja que matou provavelmente 27 pessoas, destruiu vilas e desgraça vidas e comunidades no caminho de Minas ao mar.

SAMARCO PW 9 11 15

Não se sabe a causa da ruína. Mas ficou evidente que, na prática, ninguém ligava para os horrores que escorreriam com a lama mortífera. Não havia plano de avisar do desastre, de atenuá-lo. A destruição prossegue, sem limite.

A Vale partilha a Samarco com a BHP. Chamou-se de "mera acionista" para o "Wall Street Journal". Não diferiu muito da BHP. Mas se esmerou. "A Vale é apenas uma mera acionista da Samarco, sem nenhuma interferência operacional na administração dessa companhia, de modo direto ou indireto, próximo ou distante", afirmou a empresa.

Sim, BHP e Vale têm "responsabilidade limitada" por lambanças ou até crimes da Samarco. Quão limitada, na letra da lei, é controverso.

Fora da lei, a Vale pode acreditar nessa burrice burocrática que disse ao jornal americano. Mas, a se comportar assim, pelo menos sua reputação e a conversa de "responsabilidade social e ambiental" estarão na lama suja.

O que pensam os "meros acionistas" da Vale? A Vale é controlada pela Valepar, empresa criada para a compra da então Vale do Rio Doce, na privatização. A Valepar é controlada por fundos de pensão, pelo Bradesco e por acionistas do banco, pela megatransnacional japonesa Mitsui, pelo BNDES e sócios menores (isso quanto a ação com direito de voto. Dois terços do capital total são de acionistas em tese dispersos).

Os fundos são os de BB, CEF e Petrobras; a Previ, do BB, lidera. Seu comando é definido por acordão entre governo, sindicalistas e funcionários. Quem manda na Valepar, enfim, é um combinado de Bradesco e fundos-governo.

Diretores de fundos ou banco devem ser responsáveis pela desgraça de Mariana? Não. Os da Vale ou da BHP? Não faz sentido. E as empresas Vale e BHP? Hum. Enfim, quem responde pela nomeação do comando da Samarco?

Suponha-se que a Samarco seja culpada. Que, em vez de multa ambiental boazinha, a empresa deva indenizar vidas, cidades etc. Caso não tenha fundos, Vale e BHP dirão o quê? Que estavam apenas de visita na Samarco, onde eventualmente pegam uns trocados?

Em geral, seria em certos casos injusto e muita vez inviável, jurídica e economicamente, que responsabilidades legais e financeiras diretas não fossem limitadas a uma empresa de um grupo e ao capital investido na companhia (na "responsabilidade limitada" original, as perdas de um empreendedor em uma empresa limitam-se ao capital investido).

Em geral, ressalte-se.

Há responsabilidades que não são diretas; mesmo as leis sobre limites de responsabilização são reinterpretadas a depender de contextos e tamanho do estrago.

A "responsabilidade limitada" é um privilégio conveniente (para a criação de novos negócios), mas embute um incentivo perverso, se considerada em sentido amplo. O "mero acionista" pode se esconder sob uma estrutura societária enrolada, sem rosto ou ônus. Para todos os fins que não sejam os bônus, pode dizer que o negócio do qual é dono é "independente". É um incentivo ao dane-se.

Dilma, não adianta maquiar. Você atropelou o Brasil

Dilma Rousseff é mesmo a imagem caricata e desastrosa de uma arrogante figura, na beira de um precipício, aguardando o momento de ser atropelada por um caminhão que vem descendo, em alta velocidade e sem freio. A Presidenta e seu ministro da Justiça sem noção reagiram de forma nada política e muito autoritária contra a greve dos caminhoneiros - um movimento claramente político, mais focado em tentar atropelar e derrubar Dilma e menos preocupado com reivindicações urgentes do setor - que é uma prova do subdesenvolvimento logístico e da falida infraestrutura do Brasil. 


A presidente Dilma Rousseff canetou uma medida provisória ilegítima incluindo um artigo no Código Nacional de Trânsito para punir quem usar veículos para deliberadamente promover, restringir ou perturbar a circulação na via. A multa de R$ 1.915 passa para R$ 5.746. No caso de reincidência o valor dobrará, atingindo para R$ 11.492. Quem organizar os bloqueios será multado em R$ 19.154. Se reincidir, a multa será de R$ 38.308. O desgoverno nazicomunopetralha tem se esmerado nos instrumentos de coerção contra o bolso do cidadão. É a fidelidade total à cartilha do mal para aniquilar a tal "burguesia" que ameace alguma oposição ao projeto bolivariano do Foro de São Paulo.

José Eduardo Cardozo, que mal consegue se defender dos ataques que sofre do poderoso chefão Luiz Inácio Lula da Silva, se mostrou ontem muito valente contra o movimento dos caminhoneiros que desejam tirar Dilma da estrada do poder. Cardozo autorizou até o emprego da Força Nacional de Segurança para desbloquear estradas. O Ministro da Justiça justificou a ação pesada: "Não se trata de uma ação governamental para calar opositores. Há uma tentativa de atender ao interesses público. A pergunta que faço é qual a pauta? Não há pauta. Como se senta para dialogar sem pauta? É um movimento claramente político".

Assim, mais uma vez, o regime nazicomunopetralha só confirma, na prática, que a questão política pode se transformar em um caso de polícia, sempre que for conveniente aos poderosos de plantão. O regime dos Meliantes no Brasil se supera a cada ato falho contra os elementares princípios democráticos. O mais grave é que, embora atropele a democracia, a desgovernança do crime organizado no comando e ainda fazendo terrorismo estatal contra os cidadãos.

Quando a política vira mera questão de polícia - ou de multa via terror administrativo - é a prova de que o Brasil já passou da hora de ser passado a limpo. Assim, não adianta torrar milhões em publicidade e propaganda, porque a imagem destruída pela incompetência não tem como ser maquiada pela dura realidade dos erros e crimes.

Partido dos ares

O helicóptero Robinson R66, modelo adquirido pelo Pros"Para fortalecer a presença no país", o Partido Republicano da Ordem Social (Pros), criado em 2013, passa a ser o primeiro a contar com helicóptero próprio - Robinson R66 Turbine, prefixo PP-CHF. Com uma bancada de 12 deputados, o Pros acrescentou o aparelho ao bimotor comprado no ano passado. A 15ª bancada parlamentar, no total, já aplicou R$ 2, 8 milhões do fundo partidário - dinheiro público - para ser tornar o partido voador.

Mariana pode ser desastre mais fatal da gigante BHP


O trágico episódio em Mariana (MG) está longe de ser a primeira grande crise a manchar a imagem da anglo-australiana BHP Billiton – a maior mineradora do mundo em valor de mercado em 2014 e uma das sócias da Samarco junto com a Vale –, mas pode se tornar o episódio mais fatal em um empreendimento da empresa até hoje.

De acordo com a BHP, o acidente com maior número de mortes em projetos da empresa havia sido em 1979, quando uma explosão de gás na mina de carvão Appin, na Austrália, matou 14 pessoas. Novas explosões de gás em minas de carvão na cidade australiana de Moura mataram 12 pessoas em 1986, e outras 11 em 1994.

Cinco corpos já foram identificados e ao menos 20 pessoas continuam desaparecidas. As perdas humanas no local poderão ser as piores da história da empresa.

A BHP Billiton é dona de 50% da Samarco ao lado da Vale, que detém a outra metade da mineradora. A gigante de commodities, que teve lucro de $ 13,8 bilhões no ano passado, chegou ao Brasil em 1984, quando adquiriu a Utah International Inc. e assumiu a participação que tinha da Samarco com a Vale.

Em meio a questionamentos sobre as causas do acidente e especulação sobre se houve negligência das empresas responsáveis, o presidente-executivo da empresa, Andrew Mackenzie, e o diretor de negócios de minério de ferro, Jimmy Wilson, vieram ao Brasil para avaliar a extensão da tragédia.

Os executivos visitaram o complexo de barragens e, nesta quarta-feira, falaram com a imprensa pela primeira vez em uma coletiva na sede da Samarco, em Mariana, ao lado do presidente da Vale, Murilo Ferreira.

Mackenzie anunciou a criação de um fundo de emergência com a Vale para capitanear o esforço de reconstrução na região e ajudar as famílias e comunidades afetadas. Ele disse que a empresa está "100% comprometida" a prestar apoio no longo prazo.


Outras polêmicas

O desastre em Mariana se soma a outros projetos pela qual a BHP está tendo sua atuação contestada. Na Austrália, seu país de origem, há polêmica em torno do centro minerador Olympic Dam, uma jazida com reservas de cobre, ouro, prata e, segundo Santos, o maior depósito mundial de urânio por área de extensão.
O projeto foi assumido pela BHP em 2005, mas tem sido questionado pela produção de rejeitos radioativos e pelo altíssimo consumo de água.
Outras polêmicas incluem as minas de cobre de Escondida, no Chile, onde ONGs denunciam vazamentos de resíduos de cobre, e os planos de implantar um megaprojeto de extração de carvão em florestas na Indonésia, o IndoMet.
Mas o projeto com consequências ambientais e sociais mais graves na história da BHP é o da mina OK Tedi, em Papua Nova Guiné. Em 1999, a empresa admitiu ter liberado, ao longo de mais de uma década, milhões de toneladas de rejeitos da exploração de cobre nas bacias hidrográficas dos rios OK Tedi e Fly. O impacto comprometeu 120 comunidades camponesas e de pescadores artesanais na região, afetando até 50 mil pessoas. 
Na época, o presidente-executivo da empresa Paul Anderson admitiu que, diante das conclusões de um estudo feito por uma comissão científica sobre os danos no local, “a mina não é compatível com nossos valores ambientais e a companhia nunca deveria ter se envolvido”. 
Em 2002 a companhia se retirou inteiramente do projeto, transferindo sua posição acionária (52% da mina) para um fundo de desenvolvimento do governo, que deveria reverter em benefícios para a população do país. 
Porém, segundo pesquisadores, apenas uma pequena porção dos recursos beneficiou as pessoas impactadas pela poluição do rio e pelo desmatamento na área.
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quarta-feira, 11 de novembro de 2015

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O governo não consegue cortar na própria carne

Imagine a seguinte história de uma família: o pai e a mãe vivem acima de suas possibilidades, com carros de luxo, viagens caras, empregados em todos os cantos da casa, desperdícios de todo tipo. Um dia, os filhos descobrem que a situação econômica da família está em ruínas, que os pais devem mais do que possuem.


Incapazes de esconder a realidade, eles confessam aos filhos que não têm como pagar as dívidas acumuladas e que é necessário apertar o cinto. Como? Cortando despesas domésticas básicas, reduzindo tudo a uma economia de guerra.

Os filhos perguntam aos pais se eles também vão começar a fazer sacrifícios, a cortar na própria carne. Eles prometem que sim, mas depois de um tempo, enquanto exigem dos filhos cortes a cada dia maiores e sacrifícios como deixar de ir ao cinema, comer uma pizza fora de casa, vender a moto e até deixar de frequentar um curso de inglês, os pais pouco ou nada foram capazes de sacrificar. Continuam com seus luxos, viajando sem necessidade, saindo para jantar em restaurantes caros, sem abrir mão de um único dos seus numerosos assessores e secretários.

Agora eu pergunto: Qual seria a reação daqueles filhos naquela família? No mínimo, diriam aos pais: "Ou vocês cortam os próprios gastos, ou não têm o direito de exigir mais sacrifícios de nós. Depois que vocês nos tiverem dado exemplo de austeridade, voltem a falar conosco. Ponto".

Essa história lembra algo parecido ao que está acontecendo com a crise do Brasil?

O grito de guerra do Governo, ou quando não se atreve a gritar, as súplicas de joelhos ao Congresso para que usem tesouras e facas para cortar na carne dos contribuintes, aumentando impostos e renunciando a direitos adquiridos para fechar as contas – mesmo à custa de compromissos políticos inconfessáveis como o apoio de bastidores a Cunha – não parece com o que os pais esbanjadores da história exigiam dos filhos?


Os brasileiros também tinham pedido ao Governo que, posto que o país estava arruinado porque tinham feito gastos exorbitantes e administrado mal o país, antes de exigir mais sacrifícios, mais impostos e ajustes, ele começasse a dar exemplo cortando ministérios, cargos de confiança, salários milionários, gastos supérfluos, cartões de crédito corporativos, privilégios, carros de luxo e um longo etc.

Como os pais daquela família, o Governo também fez promessas de austeridade. Onde estão? Onde está o corte na própria carne? Quantos dos 39 ministérios (mais do que o que possuem Estados Unidos e Alemanha juntos) desapareceram? Quantos dos 23.000 cargos de confiança foram eliminados? Quem renunciou a privilégios adquiridos, às vezes escandalosos? Isso serve para o Governo e serve para o Congresso, este também com os bolsos furados e colecionador de privilégios.



Pouco ou nada foi visto, enquanto se torna cada vez mais exigente o pedido de ajuda aos cidadãos para que aceitem uma carga tributária maior, para que os trabalhadores renunciem a direitos do passado e para que se arranjem como puderem aqueles que estão perdendo seus empregos. Ou os milhares de jovens que a crise impede de continuar estudando por terem de voltar a trabalhar.

Alguém me pode dizer que são perguntas óbvias ou demagógicas. Então que os pesquisadores do IBGE saiam às ruas, que interroguem as pessoas comuns, das mais humildes às mais bem situadas, sobre o que pensam de um Governo e de um Congresso incapazes de cortar em sua própria carne e de renunciar a privilégios acumulados ao longo do tempo e dos quais não gozam a maioria dos políticos de países muito mais ricos do que o Brasil.

Que saiam à rua, que perguntem e que depois nos digam o que ouviram.

O jornal O Globo, em sua edição de domingo, fez isso entrevistando pessoas de todas as categorias e a resposta foi unânime. As pessoas afirmaram que o Governo não tem o direito de impor mais impostos enquanto continua desperdiçando e mostrando-se incapaz de limitar seus gastos.

A menos que queiramos acreditar que a culpa última pelo que o país sofre não é do Governo, mas dos trabalhadores, ou dos que deixaram a pobreza e entraram na classe média, que agora estão sendo acusados de terem se tornado perdulários que estão comendo até suas pequenas poupanças. Se estão fazendo isso é porque o salário já não é suficiente para chegar ao fim do mês.

É simples assim.
Juan Arias

A tática do medo ("Eu ou a fome")

No próximo dia 22 os argentinos vão eleger seu presidente, pela primeira vez, em um segundo turno. Este sistema é atraente, especialmente em sociedades que acreditam estar carregando um demônio em seu seio. O segundo turno induz à formação de uma maioria interessada em impedir que esse demônio chegue ao poder. Esses eleitores, diria Borges, não estão unidos pelo amor, mas pelo espanto.

Se tal demônio não existe, é preciso criá-lo. A mobilização de uma corrente triunfadora exige a construção de um consenso negativo sobre o adversário. É o que está fazendo o kirchnerista Daniel Scioli. Ele explica que se seu adversário Mauricio Macri ganhar, os beneficiários dos 12 anos de políticas distributivas irão perder o que foi conquistado. Para simplificar: a mensagem de Scioli é “eu ou a fome”.

Como explicaram anteontem em EL PAÍS Carlos Cué e Carla Jiménez, esta estratégia está inspirada na desenvolvida por Dilma Rousseff, há um ano, para conseguir a reeleição. Rousseff se apresentou como a heroína da justiça social, identificando seus concorrentes,Marina Silva e Aécio Neves, como uma regressão ao “ajuste neoliberal”, que significaria a perda das vantagens alcançadas. O argumento chegou a um extremo em um anúncio no qual o ex-presidente Lula advertia: “Você se lembra de que quando governavam os que querem governar agora você não tinha carro? Sabe por quê? Porque eles não querem que você tenha. Então, se eles ganharem, vão tirar o seu carro.” Muito sutil.

Para que a receita de Rousseff produza o mesmo resultado na Argentina, Scioli deve superar alguns desafios. Um tem a ver com sua situação eleitoral. Enquanto ela tinha conseguido no primeiro turno 41,61% dos votos, Aécio Neves ficou com 33,53%. Para vencer, ela precisava de menos de nove pontos. Por outro lado, seu adversário devia conquistar mais de 16. As expectativas sempre favoreceram Rousseff.

Por outro lado, Scioli, que achava que ia conseguir 42%, obteve 37,08. E Macri, que achavam que ia ficar com 30%, chegou a 34,15. Consequentemente, ambos devem fazer um esforço semelhante para alcançar a maioria. Além disso, a surpresa pelo resultado inverteu o sentido das apostas. De acordo com a consultoria Isonomía, no dia anterior ao primeiro turno 65% dos eleitores acreditava que o próximo presidente seria Scioli. Hoje, 55% acreditam que será Macri.

Scioli chega um pouco tarde. Tenta criar alarde com a possível perda de benefícios que a economia argentina já não oferece faz tempo

A outra dificuldade de Scioli para imitar Rousseff é a credibilidade de sua ameaça. Quando ela alertava para o risco de perder o que foi alcançado, o Brasil tinha uma taxa de desemprego de 6%, inflação de 6%, reservas monetárias equivalentes a 15% do PIB e taxa de câmbio estável. Ao contrário, Daniel Scioli levanta o mesmo alarme com um desemprego de 11%, inflação de 25%, as reservas equivalentes a 1,4% do PIB e um mercado de câmbio paralelo cuja diferença chega a 70% em relação ao oficial.

Scioli chega um pouco tarde ao tentar criar alarme com a perda de benefícios que a economia argentina não oferece há muito tempo. A atividade está estagnada há três anos. Com um agravante: ele deve seduzir especialmente os eleitores de Sergio Massa, que ficou em terceiro lugar no primeiro turno, conquistando 21,39% da eleição. Muitos são peronistas, mas estão desencantados. Já perderam o que tinham ganhado e culpam o governo por essa deterioração.

Seria um erro, no entanto, reduzir a proposta “eu ou fome” apenas a uma tática eleitoral. Essa abordagem baseia-se em uma concepção hegemônica da vida pública. Os projetos populistas consideram-se a personificação do interesse nacional. O outro não é uma alternativa eleitoral. É o inimigo do povo. O medo do outro excede a função proselitista. É uma condição de todo experimento autoritário.

Outra vez o chavismo é um espelho que exagera. Nicolás Maduro advertiu que, se perder as eleições legislativas de 6 de dezembro, “a Venezuela entraria em uma das etapas mais obscuras de sua vida”. Disse que passaria a governar “com o povo”, o que significa que aqueles que votarem contra ele não pertencem ao povo.

A crise do populismo na América Latina é agravada pela crescente incongruência entre a situação socioeconômica em declínio e o poema épico de seus líderes. No Brasil, essa divisão ficou exposta. Assim que reassumiu, Dilma realizou o ajuste que dizia ser o projeto de seus rivais. A mensagem foi implacável. Foi como se dissesse àqueles que votaram nela: “Agora sou eu quem vai tirar seus carros”.

Eduardo Cunha e a imprensa

Volta com força aos jornais a especulação em torno das movimentações de Lula para forçar a troca de Joaquim Levy por Henrique Meirelles. Seria só mais uma manobra diversionista. Joaquim Levy não é a crise, é só uma esperança abortada de saída dela.

A crise é a incerteza que instalou-se no país quanto à possibilidade de sobrevivência da democracia diante da desfaçatez com que, 24 horas depois da eleição, o governo que vinha se dedicando ha 12 anos a solapar todas as instituições que garantem o Estado de Direito pela corrupção sistemática e o “aparelhamento” ostensivo assumiu-se oficialmente como mentiroso e passou a ameaçar o país com um confronto – armado, até – caso fosse judicialmente responsabilizado por seus crimes.

Essa incerteza perdurou durante os seis meses que duraram as dúvidas do próprio PT sobre a possibilidade de levar a economia de volta a uma equação sustentável sem perder o poder. Desde que se convenceu do contrário e passou a reafirmar a rota de desastre e agir apenas e tão somente para colocar-se fora do alcance da Justiça essa incerteza só tem feito diminuir.

As “pedaladas” foram postas sob a guarda segura daquele senhor com certificação internacional de corrupção por cujas probabilíssimas contas no exterior o Banco Central não mostra nenhuma curiosidade; da Lava Jato ameaçam deixar só a casca para Curitiba; a acusação no TSE de uso de dinheiro do “petrolão” na campanha “caiu” de volta para a ministra que já tinha votado anteriormente pelo seu arquivamento que, confirmado, enterraria todas as provas levantadas pelo TCU e pela Lava Jato; a Operação Zelotes, que andou até o bolso do filho de Lula assim que saiu delas, voltou dois dias depois às mãos do mesmo juiz que, até então, mantivera seu interesse restrito às cercanias dos passageiros privados da corrupção patrocinada pelos chefões políticos dos agentes públicos.

Diante de tão completa coleção de sucessos – que confirmados configurariam já de si o fim do Estado de Direito – não é atoa que a pretensão dos acusados por roubalheira nunca antes tão vasta na história desta humanidade tenha evoluído para nada menos que “legalizar a corrupção”, projeto que, como Modesto Carvalhosa demonstrou com todos os fatos e números na 4a feira, 4, nesta página, vem avançando livre e aceleradissimamente.

Já as contas públicas, estas são um abismo que o governo torna mais fundo a cada dia distribuindo mais e mais postos de tocaia ao dinheiro público a gente desqualificada, declaradamente para aliciá-la para deixar impunes os autores do desastre fiscal que a reeleição custou e arrancar exclusivamente das suas vítimas um “ajuste” que mantenha onde estão cada um dos desqualificados que cavaram a primeira metade desse buraco tocaiando o dinheiro público.

Lula quer trocar Levy por Meirelles “para promover a retomada do crédito e o aumento do consumo” por uma população com salário nunca antes tão ameaçado, metade da qual já está inadimplente das dívidas que lhe foram instiladas na veia para engraxar a eleição, e para “liberar empréstimos no exterior para os estados” nesse dolar que subiu 60% só nos primeiros seis meses da ressaca eleitoral. A “única alternativa” seria o restabelecimento da CPMF que abriria as veias de uma economia que já está morrendo de inanição.

O que alimenta esse falso dilema é a inépcia da imprensa.

A única solução sustentável para o drama brasileiro é atuar diretamente sobre a fonte do desastre que é a gordura mórbida que, para além de tornar o estado muito mais pesado do que o país é capaz de sustentar, travou o seu funcionamento pelo caráter cancerígeno dos agentes infiltrados nele, mais que para simplesmente parasitá-lo, para devorá-lo. Só que para tornar politicamente viável essa linha de ação seria preciso que essa gordura viesse sendo sistematicamente exposta até que o país inteiro tivesse uma noção exata da sua existência, da sua natureza e dos valores envolvidos.

O cérebro brasileiro é tão capaz de processar uma equação quanto qualquer outro, desde que conheça os elementos que a compõem. Mas a imprensa não tem gasto um minuto de seu tempo para esmiuçar a composição do peso morto que, considerado o “por dentro” e o “por fora”, come metade ou mais dos valores envolvidos. O Brasil não chega, portanto, à conclusão certa porque é sistematicamente induzido a partir da pergunta errada.


É emblemática dessa distorção a monopolização do noticiário político pelo tema “Eduardo Cunha”, figura que tomada isoladamente não tem implicação maior que a sua própria insignificância, em detrimento de “A fritura de Eduardo Cunha” ao fim de 20 anos de desfile inadvertido da sua coleção de Porches na cara da imprensa e da miséria nacional na véspera de um impeachment, tema cujo desaparecimento do noticiário implica o resgate da impunidade ameaçada e proporciona aos agentes diretos da desgraça nacional espaço para voltarem ao desmonte acelerado do Estado de Direito, sob a desculpa da “obrigação de registrar os fatos” que, incidentalmente, são os que vêm sendo produzidos aos borbotões pela única “investigação” de agente do “núcleo político” do petrolão que o governo e seus auxiliares nos demais poderes houveram por bem levar adiante.

Ha um agravante geográfico da nossa equação política que torna mais difícil o que já é naturalmente difícil. Entre Brasília e o Brasil tudo que resta são os jornalistas de política. “Expatriados” para o isolamento do Planalto eles constroem por lá a sua teia de relacionamentos e acabam fatalmente por ter cônjuges, pais, filhos e parentes vivendo daquele Brasil que está acima das crises. Com os anos, passam a “entender” tão bem aquele mundo que deixam de entender o nosso. Só que, cada vez mais, são mundos regidos por lógicas mutuamente excludentes. Para que um saia do inferno será preciso que o outro seja expulso do paraíso. É preciso que a imprensa, que só cabe num deles, reveja suas prioridades enquanto é tempo.

A seis passos

Stanley Milgram, em trabalho científico publicado em 1967, formulou a seguinte questão: “qual a probabilidade de duas pessoas, selecionadas arbitrariamente numa grande população, se conhecerem?”

Essa é base do problema do pequeno mundo, também conhecido como os seis passos de distância. Esse fenômeno descreve que basta seis passos para encontrarmos a pessoa que buscamos.
O experimento era fazer chegar uma correspondência a uma determinada pessoa em Boston, saindo do longínquo estado de Nebrasca. Cada passo era explicado conforme a correspondência seguia sendo entregue a próxima pessoa conhecida, até, finalmente, chegar ao destinatário. Muitos voluntários desistiram de participar , outras correspondências passaram por dez pessoas diferentes. O interessante do experimento foi que, apesar da pessoa A e B não se conhecerem diretamente, elas podem compartilhar um ou mais conhecidos, e motivados conseguem alcançar o objetivo em cinco ou seis etapas.

A maioria de nós já encontrou alguém, num lugar longe de sua casa, ou mesmo em outro país, que, para nossa surpresa, conhece alguma pessoa próxima a nós. Por isso dizemos “como esse mundo é pequeno”.

Milgram, em outro experimento, demonstrou que pessoas comuns podem ferir outras apenas por obediência à autoridade. As vítimas, na verdade atores, eram punidas com choques elétricos, administrados por voluntários. Esses não sabiam que os choques eram fictícios, mas, obedecendo as ordens da autoridade, iam aumentando a intensidade do choque. As vítimas seguindo um script demonstravam a cada choque mais dor. Apesar do “sofrimento” demonstrado pelas vítimas a maioria dos voluntários obedecia às ordens até o final, mesmo com o “risco” produzir grave dano à inocentes. Apenas um terço recusou-se a continuar o experimento.

Esse excepcional psicólogo social, que gostava de pedalar pelos parques de Nova York, morreu aos 51 anos de idade, vítima de infarto do miocárdio. Se estivesse vivo constataria como seus trabalhos retratam, de alguma forma, nossa realidade.

Não sei a quantos passos estamos da prisão das autoridades e lideres políticos corruptos, mas está claro que eles sempre estiveram a menos de seis passos entre si. Nos chocam de verdade, sem qualquer escrúpulo, causando enorme sofrimento à inocentes. Não somos como os atores do experimento, mas vítimas reais. Queremos distância. Chega!

O mundo está desmoronando

Charge O Tempo 10/11
A visão que se tem do desastre causado pelo rompimento das barragens de rejeitos de mineração em Mariana é como a de uma descarga da “privada do mundo”: horrível, fedorenta, humilhante, uma verdadeira radiografia da nossa insignificância, da nossa ganância, da nossa ânsia de tudo querer, enfim, do nosso fim. Estou sendo radical? Na verdade, eu sou, em quase tudo. Às vezes, nem eu mesmo me tolero, como neste momento em que agora vivo e escrevo.

A ganância do homem é mesmo nojenta. Destrói a natureza com jatos d’água de alta pressão, acaba com montanhas, degrada o ambiente, desgraça a vida das pessoas. E durante algum tempo, mas só até que aconteçam outras desgraças, sobram comentários e promessas dos demagogos de plantão e a omissão das autoridades. Tenho nojo de tudo isso... Tenho nojo de quase tudo que anda acontecendo em nosso país, lugar onde ninguém mais conseguiria dormir se colocassem guizos em pescoços de ladrões e mentirosos. Esse tipo de desastre anunciado acontece e continuará acontecendo, como aqui, em São Sebastião das Águas Claras, no princípio deste século, um século que promete – quem viver, verá.

Alguns amigos têm-me achado pessimista e raivoso com tudo. Deve ser a idade que chega e a visão apocalíptica do que acontece no e com nosso país, com nossa pequena vida. Mas, olhando com bons olhos, eu devo ter razão. Vejam: o nosso direito civil é baseado no Corpus Juris Civilis do direito romano, do imperador bizantino Justiniano. Um dos princípios mais importantes dessa legislação diz que “Quid tacet non utique fatetur, sed verum est eum non negare” que significa “Quem cala nem sempre consente, mas a verdade que não nega”. Perdoem-me por algum possível erro, já que estudei isso há mais de 60 anos... Esse cara de nome Lula, por tudo que sabemos e que é publicado pelas duas principais revistas de circulação nacional, é ladrão. Se não fosse, já teria processado os responsáveis por essas revistas e toda a imprensa nacional que o acusa e fica sem resposta. Afinal, devemos nos ater não à parte que diz que “quem cala consente”, pois quem cala nem sempre consente, mas à questão da verdade... Verdade, repito, que não nega.

Ladrão e covarde, agitador barato e analfabeto, palhaço de ilusões vermelhas, que espalha cizânia neste país infeliz, com suas mentiras e desatinos quando manipula a presidente, seu brinquedo preferido, fragilizada por seu passado de assaltante à mão armada de bancos e congêneres.

É duro receber essa censura de um cidadão comum? Pode ser. Mas pior é ser dito por um dos fundadores do PT, o sociólogo Chico de Oliveira, que, no programa “Roda Viva”, da TV Cultura, ao ser questionado por que havia saído da legenda que ajudou a construir, respondeu: “Lula é muito mais esperto do que vocês possam imaginar”. Como assim? Quis saber um dos entrevistadores. Respondeu o professor: “Lula é oportunista e não tem caráter. É forte?”, indagou. E fulminou: “Se ele não aceita o que digo, que me processe. Eu digo o mesmo”.

P.S.:A Samarco comunica que acaba de instalar aviso sonoro lá na mina do inferno. Esse povo ainda está solto? É mesmo o fim...

Fervura no caldeirão

A cínica explicação do presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, sobre suas contas na Suíça é mais fervura no caldeirão, fermenta a crise ética e eleva sua temperatura ao infinito. Se não houver uma resposta positiva e democrática do mundo da política, ele transbordará em cima das instituições republicanas, queimando tudo e todos.

Arma-se um cenário extremamente preocupante, de convulsão social, de descrença absoluta no Parlamento e no poder Executivo, de namoro por segmentos da sociedade, por enquanto minoritários, com saídas antidemocráticas. É aí que mora o perigo.

A bomba está sendo ativada. Só não a enxerga quem não quer. A greve dos caminhoneiros é mais lenha na fogueira. Brincam com fogo os que insuflam esse movimento paredista, na crença de que por aí vão colocar abaixo o governo Dilma Rousseff.

Diante do colapso moral, setores da classe média veem nas Forças Armadas a instituição salvadora, como assim enxergaram em 1964. Artigo do general exército, ex-chefe do Estado Maior do Ministério da Defesa, Rômulo Bini Pereira, publicado em jornal de circulação nacional, dá bem uma ideia dessas pressões e do quanto a preocupação com “a decadência moral e ética” já perpassa o meio castrense - da ativa ou da reserva.

Não há, claro, condições internas e externas para intervenção militar. Nem as Forças Armadas parecem querer isso. Mas essa história é como a das bruxas: não cremos nelas, mas vai que elas existam. Em sendo assim, urge fazer de tudo para esfriar a temperatura da bruxaria.

A questão chave é o resgate da ética como bandeira republicana indissolúvel da democracia. Todas as vezes que ela saiu das mãos democráticas, o país perdeu.

Impensável supor que será resgatada pelo lulopetismo. Quando se erigiu em poder, o Partido dos Trabalhadores rifou essa bandeira, pautou-se por um estranho código de ética, no qual a causa justifica tudo, e fez do cinismo um instrumento de se fazer política.

Eduardo Cunha foi beber nessa fonte para vender sua mixórdia no Jornal Nacional.

No dia 16 de julho de 2005 a nação assistiu, estupefata, a entrevista de Delúbio Soares ao JN da Globo, na qual o então tesoureiro do PT veio com aquela versão fantasiosa dos “recursos não contabilizados” para eludir o até então maior escândalo da história recente do país; o mensalão.

Como o Cunha de hoje, Delúbio estava orientado pela banca de advogados para mentir, inventar uma história tão inverossímil como a contada por Eduardo Cunha ao vivo e a cores. Incrível, dez anos depois estamos assistindo o mesmo filme, com o agravante de que não sabemos qual será o seu final. Se será ou não mais uma tragédia para o país.

Se não há nada a se esperar do governo e do PT em matéria de resgate dos valores republicanos (ao contrário, a tendência é a continuidade do pacto de “proteção mútua” entre a presidência da República e o presidente da Câmara Federal), das oposições exige-se uma postura diferente.

No seu nascedouro, a socialdemocracia selou compromissos com a probidade, com o zelo pela coisa pública, com a ética. Aliás, o saudoso Mário Covas se reelegeu governador em 1998 com uma campanha claramente norteada por esses valores. Tem, portanto, capital moral para construir e liderar uma saída positiva capaz de resgatar o apreço dos brasileiros pela democracia e suas instituições.

Basta entender que os fins não justificam os meios, que nada, absolutamente nada, justifica aliança, tácita ou não, com Eduardo Cunha. E que os problemas da democracia se resolvem com mais democracia.

Só desta forma se pode evitar a explosão do caldeirão.

Qual a razão desse silêncio ensurdecedor?

Eu não estava no Brasil nas jornadas de junho de 2013. Em minha chegada, não acreditei na imensa pilha de jornais, com textos e fotos sobre as manifestações populares. Vi daí por diante algumas concentrações cheias de black blocs, o cerco ao apartamento de Cabral no Rio de Janeiro, muitas greves, algumas estranhas porque as lideranças não conseguiam falar por toda a base e acordos eram fechados sem que o movimento terminasse de todo.

Vou, como qualquer um que me leia, sofrendo a agonia de 2015...

As manifestações de rua vão se tornando raras. Um acampamento pequeno aqui, em frente ao Congresso, em Brasília, caminhoneiros ameaçando parar o país, a chuva de dólares com a foto de Cunha, atirada isoladamente por um único manifestante. Vaias (poucas), e tome seguranças! E terríveis – estas, sim –, embora pequenas, terríveis, repito, demonstrações de fascismo. Ou reclamos de retorno dos militares à cena política, como se com estes o Brasil tivesse sido um país-maravilha! Só mesmo os mais velhos, como eu, para se lembrarem, ou alguns militares que sabem muito bem em que podem dar essas bravatas.

Bravateiros tonitruantes só mesmo Lula e Cunha, cada um contando suas mentiras ou suas supostas qualidades que os tornariam quase imortais. A estes lembro a maldição dos deuses gregos contra os que se julgam maiores que o destino.

Incomoda-me o silêncio das ruas. Nenhum protesto maior contra a violência que campeia nas cidades e no campo. Nada contra o engodo do erro no pagamento do FGTS das domésticas, como se os patrões – a não ser os que têm alguém para fazer por eles – pudessem gastar aquele tempo num computador, tentando entender o que queriam os que planejaram a mágica de cadastrar e fazer o primeiro pagamento, tudo ao mesmo tempo e de prazo marcado para os contribuintes.

Nos corredores ou nas ruas, ouço, à boca pequena, uma insistente pergunta: “Ela vai sair?”. Nem preciso perguntar quem é ela. Não, ninguém sabe se quer que ela saia porque, sem ela, ou vem Michel Temer, ou Eduardo Cunha, ou Renan Calheiros, ou Lewandowski. Ou, se houver nova eleição, quem serão os candidatos? Lula, Marina, Aécio, ou as variantes do mesmo programa do PSDB, ou quem afinal de contas?! Começo a pensar que o parlamentarismo aqui seria melhor.

Cunha me dá arrepios de medo: um cara sem nenhum caráter – que me perdoem Macunaíma e Mário de Andrade por essa blasfêmia. Agora, fez aplicações no Zaire, que acabou, como nação, em 1997. Vamos ver as datas de suas aplicações nas tais contas na Suíça.

Lula? Nele não voto mais sem uma profunda autocrítica que não deixe de incluir o que fez pelos bancos (Emenda 40/2003) e contra os pobres. Claro que ele não fará isso. E, se o fizer, será talvez outra jogada de marketing.

Todos aqui se entreolham e se olham sem dizer palavra. Ninguém arrisca um palpite, um mero palpite. Que dirá uma opinião. Vou lendo e relendo tudo.

Viramos uma nação de zumbis. Que Zumbi, o autêntico, me perdoe!

Indígna nação

Cada centavo roubado de alguma estatal é roubado de seu acionista maior, o estado. Cada milhão subtraído dos cofres de alguma empresa cujo estado é o detentor da gestão, é um milhão que terá de ser recuperado através de aumento de impostos. Este incremento tributário, que não é baseado em um pressuposto legal – a contrapartida em serviços públicos – é causador de aumento de preços, que gera perda de poder aquisitivo e inflação. Como se vê, todos nós, indistintamente, somos afetados por causa da corrupção. A matemática é simples e, por ser tão simples, deveria ser melhor ensinada para a classe empresarial brasileira, que vê seus empreendimentos desabarem por perda de competitividade decorrente de necessidade de aumento de preços. Um empresário que apoia um governo corrupto é, portanto, um suicida em potencial.

Lixão da Estrutural fica a apenas 15 quilômetros do Palácio do Planalto. Foto: André Coelho
Ainda nesta linha, se os derivados de petróleo têm aumento interno de preços - mesmo que o preço do produto esteja em queda desabalada no mercado internacional – e este aumento é decorrente de má gestão e corrupção, toda a cadeia de preços de insumos é afetada. O mesmo vale para a energia elétrica e para as demais tarifas públicas. Sempre que elas inflam seus números sem uma contrapartida efetiva, é por causa de fatores, digamos assim, não-virtuosos, dentre eles principalmente a incompetência, a irresponsabilidade e a corrupção. Sempre que esta anomalia (?) acontece, os preços de tudo se tornam irreais e, com isso, a credibilidade na economia se esvai. Um pão de forma custa nove reais? Um refrigerante custa 6 reais? Eis um dos resultados mais maléficos da corrupção e da incompetência: a perda de referência de uma sociedade inteira.

O que causa um misto de indignação e alívio é descobrir que há empresários que tomam bilhões em empréstimos subsidiados em bancos públicos, que compram Medidas Provisórias, que fazem advocacia administrativa e que atuam nas sombras, sabotando leis de mercado e normas morais de conduta comercial e depois...quebram! Corrompem, participam de negociatas, compram anistias fiscais fraudulentas e ficam surpresos ao descobrir que estão a caminho da bancarrota, esta definitiva, terminal, de onde não voltarão. O que fazer com esta indigna nação de empresários ignaros, que acham que podem esgarçar limites ao seu bel prazer?

Eis outro ponto para profunda reflexão. Um banco, por exemplo, quando extrapola suas taxas de juros, explode suas tarifas e extorque sem piedade seus “clientes”, acha que a história vai acabar como, mesmo? O sujeito que toma empréstimo e se vê em dificuldades para cumprir com seus compromissos, porque ficou desempregado ou por conta da carestia, deve ser ainda mais castigado com taxas e custos que certamente ele não poderá corresponder? Um país gerido por este tipo de mentalidade mudou seu enfoque: De um país do futuro para um país sem futuro.

Bancários, empresários, grandes autoridades políticas, saibam a hora de parar. Iluminem-se. Parem de drenar o que sobrou do Brasil, que é quase nada. Entendam que a corrupção e a incompetência deste governo petista VÃO acabar com os negócios DE VOCÊS! Nós, os brasileiros, vamos seguir em frente. Passaremos dificuldades, mas sobreviveremos. Suas empresas NÃO! Seus conglomerados vão desmoronar, suas marcas vão ruir.

Aprendam de uma vez por todas. Fazer acordo com o diabo só é bom até a hora em que ele volta pra cobrar. E o capeta sempre vem...

Há 60 anos, o golpe fracassou

Ministro Teixeira Lott recebe Fidel Castro em 1959
Faz exatamente sessenta anos. O 11 de novembro amanheceu com o céu enfarruscado, em Copacabana. Do que mais se falava no Rio, há uma semana, era no “golpe”. Ninguém sabia exatamente de onde viria, ainda que as maiores possibilidades apontassem para o presidente interino da República, o deputado Carlos Luz, presidente da Câmara chamado a substituir Café Filho, que como vice-presidente sucedera um ano antes a Getúlio Vargas, que se suicidara com um tiro no peito. Aquela bala, em 1954, evitara o golpe já engendrado por militares radicais e civis igualmente radicalizados, dispostos a afastar do poder um presidente que criara a Petrobras, duplicara o salário mínimo e investigava a escandalosa remessa de lucros das multinacionais para o estrangeiro. Morto, gerara uma comoção nacional em seu favor, adiando o golpe.

Agora, porém, com a eleição de Juscelino Kubitschek para presidente, apoiado pelo getulismo, recrudescera a conspiração para impedir a posse do eleito. Acabava de completar-se uma trama: Café Filho, golpista, pretextara um ataque de coração para afastar-se do palácio do Catete, ensejando a interinidade de Carlos Luz, mais golpista ainda, com a missão de demitir do ministério da Guerra o general Henrique Teixeira Lott, último obstáculo que se opunha à implantação da ditadura. Para ele, o eleito tinha que tomar posse.

Na véspera, 10 de novembro, Luz humilhara Lott, fazendo-o esperar por mais de uma hora na antessala do gabinete presidencial, apenas para forçar sua demissão, por conta da insubordinação de um coronel, Jurandir Bizarria Mamede. Ele discursara no enterro de um general, Canrobert Pereira da Costa, na frente do ministro da Guerra, pregando o golpe. Lott queria punir o subordinado, mas o presidente interino negara a punição, levando o ministro, cioso de suas atribuições, a pedir demissão. Já havia sido convidado um general golpista, Fiuza de Castro, para assumir o Exército e apoiar a anulação das eleições, garfando JK.

Tudo parecia arrumado para no dia 11 o golpe ser desencadeado de cima para baixo. Lott ainda perguntou a Luz se queria que a transmissão do cargo para Fiuza se desse naquela tarde mesmo. Foi o primeiro erro do presidente interino, que certo do sucesso do esquema anti-democrático, sugeriu o dia seguinte.

O ministro foi para casa, no subúrbio do Maracanã, e, como sempre, às sete da noite já estava de pijama. Na sua cabeceira o telefone toca. Era o seu vizinho, comandante do I Exército, general Odilio Denys, que informava estar sua casa cheia de generais e coronéis legalistas, dispostos a impedir o golpe. Lott fardou-se, atravessou o jardim e foi convencido a não aceitar o golpe. Saíram todos para o ministério da Guerra, ao lado da Central do Brasil. Denys já havia preparado a ação do contragolpe, com instruções para os principais comandantes do Exército, em todo o país, botarem a tropa na rua, assegurando a posse do presidente eleito.

Aquela movimentação, na madrugada do dia 11, alertou Carlos Luz e os golpistas, que no Catete viram-se cercados por batalhões legalistas. Conseguiram fugir para o Arsenal de Marinha, onde embarcaram no cruzador Tamandaré, junto com oficiais favoráveis ao golpe, mais o deputado Carlos Lacerda, inspirador da campanha pela ditadura.

Naquela altura, no Rio e no país, os legalistas dominavam. Lott distribuiu uma proclamação justificando a intervenção, que denominou de Movimento de Retorno aos Quadros Constitucionais Vigentes. O poder estava com ele. Informado de que o cruzador dirigia-se para a saída da baía da Guanabara, com a disposição de navegar para São Paulo e lá instalar a resistência, o ministro não teve duvidas, ordenando às fortalezas do litoral carioca: “Afundem o Tamandaré!”

Da janela do apartamento onde morava, em Copacabana, ouvi os tiros dos canhões das fortalezas próximas. Como estamos no Brasil, os artilheiros erravam propositadamente o alvo. Como matar brasileiros? O navio não foi a pique e seguiu para o litoral paulista, onde Carlos Luz percebeu que não era mais presidente porque não conseguiu desembarcar, impedido por tropas do Exército. O Congresso já havia empossado o presidente do Senado, Nereu Ramos, como novo chefe do governo. Não fui para o colégio, naquele dia.