domingo, 23 de agosto de 2015

O ciclo imperfeito

Há um clima de fim de ciclo no País: o dos governos do PT e da “hegemonia” petista na política nacional. Fala-se disso na situação e na oposição e os diferentes partidos parecem convencidos de que o futuro nascerá de um movimento de superação. Gostaria de problematizar a ideia.

É melhor ver o esgotamento do ciclo petista - que é real - como parte do esgotamento de um ciclo maior, que deita raízes na redemocratização e no movimento que culminou na Constituição de 1988. Entre 1995 e os dias atuais, este ciclo ganhou força, produziu resultados importantes, chegou ao apogeu e está agora, ao que tudo indica, conhecendo sua desconstrução.

Tivemos no Brasil, durante esse período, um ciclo social-democrata imperfeito. Seu componente social-democrata associa-se à afirmação progressiva de uma grande democracia de massas, de caráter inclusivo e popular. Mas também à implantação do que se tem hoje no País de “Estado de bem-estar”, com políticas sociais importantes, reconhecimento explícito de direitos e uma orientação oficial largamente favorável à melhoria na distribuição de renda e à redução das desigualdades sociais. Associa-se tanto às políticas de estabilização monetária e responsabilização fiscal dos anos FHC quanto às políticas assistencialistas e de renda dos anos Lula; tanto ao esforço de redimensionamento e racionalização do Estado e da administração pública quanto à busca de novas formas de inserção internacional do País.

Tal ciclo, porém, não conseguiu atingir a “perfeição”, ou seja, tornar-se sustentável. Nem sequer chegou a ganhar plena coerência, a sintonizar seus termos e componentes ou a ser assimilado pela população e pela opinião pública a ponto de se converter em ideia-força, cultura política e convicção cívica.

A imperfeição do ciclo está estampada em algumas de suas características mais relevantes.

Antes de tudo, o ciclo não foi assumido como tal: jamais se fixou, na vida nacional, o reconhecimento explícito de que estávamos a conhecer, de modo tardio, uma “onda” social-democrata. A arena política não foi contagiada por essa ideia. Ora o vetor discursivo predominante se apoiou na tese de que se estava a viver a “continuidade da redemocratização”, ora que se tratava de trazer para o País o ideário “neoliberal” e ora que se iniciava entre nós uma fase de “redenção nacional”. Não se compreendeu que uma social-democracia estava em marcha.

Em decorrência, os partidos políticos e movimentos que protagonizaram o ciclo deixaram de cooperar entre si: optaram por abrir guerras e litígios uns com os outros, investindo energia irracional na disputa eleitoral. Preferiram processar suas diferenças às cegas, ou melhor, privilegiando tão somente a conquista de governos e posições de força no sistema político.

Uma terceira imperfeição deriva deste ponto. Convertidos em máquinas eleitorais, os partidos não se reproduziram de modo adequado, não funcionaram como “escolas de quadros” e não renovaram seus quadros de direção. Transmitiram assim, para o conjunto do Estado, um notável fracasso em termos de formação de lideranças e de oxigenação da elite política. Soterraram, sem pena nem glória, figuras políticas da estatura de Ulysses Guimarães, Franco Montoro, Leonel Brizola, Paulo Brossard, Miguel Arraes, Tancredo Neves, Itamar Franco, entre outros, que haviam definido o perfil da elite política que emergiu durante os anos de luta pela democracia. Mesmo lideranças como Fernando Henrique Cardoso e Lula não foram preservadas e engrandecidas da forma devida. A elite política, com isso, perdeu densidade e chega aos dias de hoje reduzida a níveis inimagináveis de ruindade e primitivismo: não há mais estadistas, os líderes nada lideram, o discurso político é tosco e grosseiro, falta cultura aos políticos.

Apoia-se no entrelaçamento destas três “imperfeições” o fator principal da imperfeição social-democrata a que me refiro: seus partidos principais, o PSDB e o PT, mas também parte do PMDB, o PSB, o PPS, o PSol e os movimentos sociais mais fortes, como o MST, nunca conseguiram erguer um projeto claro de sociedade. Jamais responderam à questão de saber quem somos e para onde queremos ir. Em decorrência, não educaram a cidadania, não promoveram reformas estruturais profundas e não construíram uma hegemonia digna do nome, ou seja, uma cultura capaz de cimentar e dar sentido às posições de força que se conquistavam no sistema político e no aparelho de Estado. Houve muita ocupação de espaços e muito uso dos mecanismos estatais, mas poucas ideias e pouca articulação. As próprias políticas públicas mais afeitas à social-democracia - saúde, educação, previdência, renda e trabalho - ficaram soltas, sem se completar.

A globalização, a revolução tecnológica, a conectividade em rede, a individualização foram reconfigurando a sociedade, mas o sistema político permaneceu parado, digerindo suas próprias entranhas.

O resultado disso está exposto à luz do dia: a bola de neve da corrupção, a miséria intelectual da política, uma sociedade civil exasperada e mal estruturada, a demonstração cabal de que cargos e vitórias eleitorais não dão sustentação confiável aos governantes e sobretudo uma estrondosa e profunda separação entre sociedade e Estado. A crise política atual reflete isso, ainda que também possa ser lida pela chave da inoperância presidencial. O povo distanciou-se dos governos, em especial do governo federal, principal peão de um sistema presidencialista. Não convidado, ao longo dos anos, a discutir seriamente a relação com os governos, o povo optou por romper relações com eles.

Deu no que deu. O que virá pela frente é uma incógnita, mas dá para dizer que um novo ciclo já está brotando e que avançará em diálogo com a social-democracia imperfeita do ciclo que hoje se esgota. Isso pode significar que a ideia social-democrata permanecerá a disputar hegemonia na vida nacional. Se conseguirá sucesso nisso é algo a ser respondido mais à frente.

Saída à brasileira

Multiplicam-se os encontros a portas fechadas, em busca de um pacto de governabilidade que evite rupturas

Pelo jeito, vão acabar dando um jeitinho. Brasileiramente.

Nestes estranhos dias que vivemos, parece que há duas sensações aparentemente incompatíveis. Não deviam se mesclar. Mas estão em toda parte, ora opostas, ora lado a lado, ora em alternância: um certo alívio e uma certa desesperança. No lado do alívio, suspira-se um “ufa!”. Na banda da desesperança, geme-se um “ai!”

É como se o país oscilasse entre duas velhas piadas. Uma é a do sujeito que cai do octogésimo andar e, ao passar pelo vigésimo, suspira: “Até aqui tudo bem”. Outra é a dos amigos que caíram na vala de esgoto, com dejetos até o pescoço e se recomendam: “Não faz marola”.

Ufa! O pior não aconteceu, o Renan desarmou a bomba do Cunha, este foi denunciado pelo MP, o governo recuperou algum controle da situação. Parece que não estamos mais à deriva. A Agenda Brasil vem aí e vai mudar o cardápio de assuntos discutidos, sem o risco de trazer maiores novidades.

Ufa! A Moody’s rebaixou a nota do Brasil, é verdade. Mas, felizmente, não ao ponto de o país perder o grau de investimento. Nada que chegue a atrapalhar no momento — e isso é o que importa.

Ufa! Houve manifestações pelas ruas de mais de 200 cidades, em todos os estados, trouxeram até um balão inflável do Lula vestido de presidiário, mas dá para suspirar com alguma leveza, porque os números de manifestantes foram menores do que os de março.

Ufa! O governo não está mais tão sozinho e acuado. As ruas se encheram também de manifestantes de camisa vermelha. Os setores produtivos e a grande mídia dão mostras de juízo e de preocupação com a governabilidade. As novas denúncias não trouxeram surpresas.

Por outro lado, há os que se lamentam. Ai de nós! O país está desgovernado, a economia vai de mal a pior, as descobertas de roubalheira são espantosas, cada nova fase da Lava-Jato traz mais uma penca de revelações assustadoras.

A turma do alívio suspira: o pior já foi contornado. Desta vez, vai. Não chegamos ao fundo do poço. Quem sabe se lá não existe uma cama elástica? Não um alçapão, como alguns temem. Vamos dar um jeitinho.

Tudo se encaminha para uma bela saída à brasileira. Multiplicam-se os encontros de políticos a portas fechadas, em busca de um pacto de governabilidade que evite rupturas. É uma boa causa: não prejudicar o ajuste. Faz-se um acordão, capricha-se na maquiagem e, como sempre, elogia-se o conchavão e se vende ao eleitorado a sensação de que tudo melhora. Brasileiro, profissão esperança.


Os governantes se apresentam como algo entre heróis e santos. Vergam mas não se envergonham. Epa, perdão, citação errada! A frase foi outra: vergam mas não quebram.

Quem pode quebrar é o país. Mas aí é um detalhe, apenas uma questão matemática, e não política, como parecem crer os que recusam números, prazos, orçamentos, responsabilidade fiscal. Ainda outro dia, um deputado da base governista, defendendo seu voto a favor da gastança, argumentava que não dá para ser diferente, porque “o ajuste não está surtindo efeito” e não melhorou a situação. Como se o ajuste fiscal já tivesse sido aprovado e tivesse tido tempo de fazer efeito... Em que país vive esse parlamentar alagoano? A resposta é clara: vive no país que o elegeu. Como elegeu todo esse Congresso e essa governanta e lhes deu incontestável legitimidade para aprontarem o que quiserem, já que representam os eleitores. Com a indispensável ajuda marqueteira.

A crise que vivemos é, em parte, a da democracia representativa. Mas sabemos todos que não há regime melhor, por mais que este tenha problemas e possa ser aprimorado. Fora dela não há salvação. Sua qualidade vai melhorar aos poucos, com a experiência e a educação. Vamos em frente, sempre aprendendo.

Foi dessa democracia que surgiu a Constituição de 1988, que deu poderes ao Ministério Público, possibilitou o julgamento do mensalão e agora fortalece um juiz como Sérgio Moro e os procuradores de sua equipe. É dessa democracia que emanam a liberdade de imprensa e o sistema de pesos e contrapesos que estabelecem os limites de cada poder. Esse conjunto é que nos garante. Por mais que nos perguntemos se o TCU vai amarelar ou se alguém vai dar ouvidos aos espiroquetas alucinados que pululam aqui e ali. Um que em passeata defende a volta do Sarney, outro que pede intervenção militar. O que ameaça com os exércitos do Stédile, outro que fala em pegar em armas — no Planalto, diante da presidente.

Mas é na força dessa democracia que devemos confiar. Não desistir do Brasil, como exortou Eduardo Campos. Mesmo com essa saída à brasileira, lembrando o personagem cômico, que dava “passinho pra frente, passinho pra trás”.

Só convém não exagerar. Depende muito do que pretendam varrer para baixo do tapete. Com ou sem trauma, o que queremos é o fim da impunidade. Quem se sente representado por Moro concorda com Aldous Huxley: os fatos não deixam de existir só por serem ignorados. E são soberanos.

Ana Maria Machado

Lei obriga presença de palhaços em hospitais infantis


O projeto social do médico americano Hunter "Patch" Adams chegou à Argentina. A ideia dele, que ficou famosa no filme protagonizado por Robin Williams em 1998, consistia em adotar métodos não convencionais para curar doenças, como usar palhaços para melhorar o bem-estar dos pacientes.

Agora, os hospitais da província de Buenos Aires, a maior da Argentina, terão de contar com palhaços nos hospitais para humanizar o tratamento com crianças doentes, de acordo com uma nova lei promulgada na última quarta-feira.

Cada serviço de terapia pediátrica deverá oferecer 'palhaços hospitalares'.

"O palhaço de hospital será aquela pessoa especialista na arte de ser palhaço e que reúna as condições e requisitos para o desenvolvimento dessa tarefa em hospitais públicos provinciais e municipais", diz a lei, que não especifica se o palhaço precisa necessariamente ser um médico.

Segundo a ONG Payamédicos, existem cerca de 2 mil profissionais realizando essas tarefas em centros médicos da Argentina e do Chile com narizes laranjas – o vermelho lembra o sangue, dizem – e roupas que se assemelham aos jalecos dos médicos.

sábado, 22 de agosto de 2015

Elogiemos as pessoas decentes


“Todo homem decente se envergonha do governo sob o qual vive”
H. L. Mencken


Nunca antes na história deste País as pessoas decentes foram tão ultrajadas, depreciadas, caluniadas, desrespeitadas e atacadas justamente por causa do seu caráter.

O que explica os ataques verbais diários e as ameaças de violência física lançadas contra a parcela da população que protesta contra um governo corrupto que instrumentaliza o Estado em benefício de uma minoria de aliados e apadrinhados?

A Marcha das Margaridas foi financiada com dinheiro público, assim como o churrasco que reuniu meia dúzia de pelegos no Instituto Lula. Já os protestos dos “coxinhas” reuniram centenas de milhares de pessoas que protestaram de graça contra Dilma.

Detalhe: em São Paulo mais de 800 mil pessoas foram voluntariamente se manifestar contra o Dilma e o PT: não teve churrasco, pão com mortadela ou dinheiro público.

Penso que é justamente isso o que perturba os petistas: eles sempre usaram movimentos sociais, sindicatos e entidades compráveis e compradas para usar o povo mais pobre como gado, mas agora, visivelmente, perderam o controle das ruas.

Se o movimento contra Dilma fosse formado por sindicatos e entidades tradicionais, suas lideranças certamente estariam, neste momento, negociando benesses, verbas e cargos em Brasília em troca de mais flexibilidade e de um discurso moderado.


É este o modus operandi da vagabundagem sindical: atacar, negociar, assoprar.

Mas nem toda a mortadela ou dinheiro do mundo pode comprar quem não se vende. É o que tira o sono dos mandatários e seus aliados: gente na rua com quem não se negocia.

São trabalhadores, estudantes e profissionais liberais, jovens, adultos, idosos, de todas as camadas sociais, que não dependem de esmolas do governo para viver – ao contrário da pilantragem organizada dos sindicatos e entidades que vivem às nossas custas.

O governo Dilma planeja aumentar impostos, ameaça direitos previdenciários e trabalhistas, e coloca seus papagaios no Senado para defender a proposta de uma “nova CPMF”.

Porém, para horror das pessoas que trabalham e pagam impostos, Dilma mantém os 39 ministérios que custam R$ 400 bilhões por ano, metade disso usado na folha de pagamento de cerca de 100 mil cargos de confiança – dos quais a gente sempre desconfia.

Tudo isso pago pelo povo e contra a vontade do povo. Apenas um mau caráter como o ministro Edinho Silva é capaz de afirmar publicamente que as pessoas que protestam contra toda essa podridão têm como objetivo defender o fim da democracia.

Apenas um governo flagrantemente indecente faz do seu porta-voz um deputado cujo assessor foi flagrado com dinheiro escondido na cueca (José Guimarães).

É hora de dizer claramente que o Brasil hoje se divide não entre tucanos e petistas, coxinhas e militantes, mas simplesmente entre pessoas decentes e aquelas sustentadas pelo governo.

Os que protestam nas ruas são atacados pela mídia, pelas autoridades públicas, sindicatos, artistas da TV e até por cardeais do PSDB. Mas não desanimam ou retrocedem da luta.

Não importa. A verdade é esta: as pessoas decentes sempre se envergonham do governo sob o qual vivem. E não há churrasco ideológico que dê jeito nisso.

Alerta oportuno

A exortação aos brasileiros “de bem” para que tenham a ousadia dos “canalhas” para tirar o país da crise política, econômica e financeira é bastante oportuna e soa como alerta geral.

O recado partiu de uma das mais altas autoridades, a ministra Cármem Lúcia, vice-presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), daí sua importância e significado. A carapuça, com certeza, vai servir pra muita gente.

A tarefa de reconstrução do país não será nada fácil, pois a cada dia, quando muitos imaginam que as investigações da operação Lava Jato estão caminhando para o fim, novos escândalos se sucedem, alimentando a perplexidade geral.

Em meio ao interminável rosário de desvios de verbas em todos os níveis e em todos os cantos do país, uma espécie de bolsa de apostas parece estar instalada nos corações e nas mentes.

Não é raro, atualmente, ouvir gente fazendo prognósticos os mais variados possíveis e, às vezes, até tentando interferir por meio de recados nas redes sociais com avaliações nos campos da política e da economia.

Entre essas avaliações, a mais recente é sobre o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, denunciado, juntamente com o ex-presidente Fernando Collor, ao Supremo por recebimento de propinas.

Há os que apostam na permanência de ambos no Congresso, bem como há os que acham que, se Cunha sair, a presidente Dilma poderá enfrentar até mais dificuldades no relacionamento com os congressistas.

Talvez seja melhor lidar com um Eduardo Cunha enfraquecido do que ver surgir na presidência da Câmara um oposicionista ferrenho e com autoridade preservada disposto a torpedear projetos.

Outra vertente das apostas diz respeito à própria Dilma, que poderia sofrer um processo de impeachment. Nesse caso, o recado de Cármem Lúcia tem endereço certo. O brasileiro de bem precisa posicionar-se ao largo da mera disputa ideológica e arregaçar as mangas visando à reconstrução do país.

Boneco inflado de Lula: signos de um estrago global

O boneco inflado representativo da figura do ex-presidente Lula, - balançando ao vento da Esplanada dos Ministérios, em Brasília, e o carimbo infamante "13-171" gravado no peito, - além, evidentemente, do detalhe da bola de ferro amarrada ao tornozelo por uma corrente. Eis as imagens e os símbolos históricos e definitivos dos protestos realizados contra o Governo Dilma, a corrupção e o PT, domingo, 16 de agosto.

Quase uma semana depois, a repercussão e o estrago não cessam. Ao contrário, aprofundam-se Brasil e mundo afora. Desde segunda-feira, quando as primeiras fotografias e vídeos do boneco já corriam o mundo – e o tema bombava nas redes sociais -, começou a chover convites na horta de seus idealizadores (integrantes do suprapartidário Movimento Brasil), para que o Lula inflável seja a atração em próximos atos de protestos que se anunciam.

Enquanto segue o vai-não-vai (o presidente da Câmara, Eduardo Cunha, e o notório senador Fernando Collor de Mello, denunciados por Janot, são os nomes da hora) do combate a corruptos e corruptores. Faces indissociáveis do mesmo mal (definição firme e precisa o juiz Sérgio Moro, quinta-feira, durante palestra em São Paulo), na ação profilática contra a "corrupção endêmica, ponto frágil do país”, no dizer do ex-presidente do Supremo Tribunal Federal, Carlos Ayres Brito, no Seminário Internacional de Controle Externo, em Salvador.

Portanto, que ninguém se iluda ou tente mascarar a situação. É inútil e enganoso perder tempo fazendo cálculos de quantas pessoas participaram das manifestações, ou a intensidade de suas participações. "Nonadas", provavelmente escreveria o notável alagoano Graciliano Ramos, se vivo estivesse, em uma reedição de "Insônia", "Vidas Secas" ou de "Memórias do Cárcere".

A imagem do boneco inflado e sua força simbólica, principalmente, é um fato que grita e se propaga além das meias verdades e cumplicidades mal disfarçadas. Sobrepõe-se para além do tempo e do espaço dos protestos de domingo passado - ou dos lastimáveis arremedos de manifestações "de apoio ao governo Dilma e da Democracia", levados às ruas anteontem.

Neste caso, pelo PT e seu braço sindicalista, a CUT, além de forças auxiliares agregadas em torno da mesa das sobras do banquete do poder, que começou a ser servido no começo do primeiro mandato de Lula, em 2003. "De fazer chorar", para citar o famoso frevo do carnaval pernambucano, as cenas do ato petista, transmitidas pela televisão direto do Largo da Batata, em São Paulo, local do começo da concentração.

Daqui a muitos anos – um século, quem sabe? -, quando se falar ou escrever sobre 16 de Agosto de 2015 no Brasil, será o boneco, provavelmente, a principal referência. Indispensável para a contextualização dos fatos. Levado ao Planalto Central por seus idealizadores do MB, (o (a) criador (a) original é gênio da comunicação através dos símbolos. Maior e melhor que muitos dos nosso mais famosos e mais caros marqueteiros políticos em atividade, diga-se por verdade e justiça).

Balconistas da informação, militantes do partido no poder e alguns de seus acólitos – por questão de fé ou mero interesse no que resta do botim do grande saque aos cofres públicos, destampado pelo Mensalão, mas principalmente pela Lava Jato -, detestam ler ou ouvir sobre estas coisas. Mas quem estuda ou trabalha com atenção voltada para os signos da comunicação (jornalistas e publicitários, principalmente) não têm dúvidas:

O boneco inflado da Esplanada "é um achado”, para usar a expressão de um professor da Escola de Jornalismo da UFBA, Milton Cayres de Brito (saudoso ex-deputado constituinte ao lado de Jorge Amado, pelo Partidão, e ex-diretor da Tribuna da Bahia em seus tempos mais heróicos), meu mestre da matéria na Faculdade, ainda na Avenida Joana Angélica, bairro de Nazaré. A poucos metros (quase no fundo) da minha primeira morada na Cidade da Bahia.

Golpe certeiro e duríssimo, como se percebe pelos desdobramentos e suítes da mídia interna, mas, principalmente, pela repercussão nas paginas de sites, blogs e edições impressas de gigantes da imprensa mundial: New York Times, Financial Times, El Pais, Le Monde, BBC, Clarin, e por aí vai. Morteiro devastador na desconstrução da imagem interna e internacional de um dos maiores mitos políticos e governamentais brasileiros e da América Latina, forjados nos últimos mais de 40 anos. Ironicamente, a partir de multitudinários protestos de operários metalúrgicos sindicalistas da região do ABC paulista e suas linhas de apoio de classe média estudantil e de intelectuais, que desaguariam na fundação do Partido dos Trabalhadores.

Um mundo de promessas e esperanças que se abria e, agora, praticamente se espatifa como um balão furado que cai. Aliás, outra cena demolidora, é a da fotografia publicada no jornal O Globo. Depois do protesto, o boneco inflado de Lula esvaziado e deitado no gramado de Brasília, à espera de ser recolhido por seus criadores, antes dos convites para próximas apresentações pelo País. Pluuff!!!...

As bombas maiores

As pessoas têm a tendência de ver apenas as bombas mais próximas e ignorar aquelas escondidas, que ameaçam o futuro. As bombas do momento são a corrupção que joga estilhaços de vergonha sobre todos os políticos, especialmente dos partidos no governo; e o descrédito de um governo que errou na economia, faltou com a verdade na campanha e descumpriu promessas. Apesar disto, o governo vê apenas as bombas imediatistas que ameaçam o equilíbrio fiscal.

A crise política, econômica e moral que atravessamos parece impedir a percepção das bombas que ameaçam o futuro mais distante. Ficamos presos à bomba da corrupção, da inflação, do descrédito da presidente e dos políticos em geral, não vemos as outras bombas.

A dívida dos estados e municípios já em fase de explosão, mesmo assim ainda é relegada. A explosão de gastos públicos, face às limitações da já imensa carga fiscal, destroçará as contas públicas. Nossos entes federados estão atravessando a linha que separa dificuldades fiscais conjunturais da falência estrutural, com suas consequências sobre os serviços públicos e os salários dos servidores. A Previdência explodirá em algum momento não muito distante, trazendo sacrifícios devastadores sobre a população mais velha do país e penalizando os jovens.


A pobreza — sobretudo depois de ter sido escondida pelo marketing governamental dos últimos anos, afirmando que ela teria sido transformada em classe média porque, endividando-se, consegue comprar alguns equipamentos domésticos — está explodindo na miséria da falta de educação, saúde, segurança, mobilidade. A violência urbana é uma bomba que explode como uma guerra civil de proporções gigantescas, matando quase 60 mil brasileiros por ano.

Nossa má educação e o consequente atraso na ciência e na tecnologia, que nos deixam cada dia mais atrasados em relação ao resto do mundo, são a bomba que impedirá nosso ingresso no mundo do conhecimento que caracteriza a economia e a sociedade.

O endividamento das famílias pode explodir, inviabilizando nosso sistema financeiro aparentemente sólido e sacrificando a vida de nossa população. A incapacidade de gestão que caracteriza o Estado brasileiro dos últimos anos ameaça o crescimento de nossa economia e o bom funcionamento de nossa sociedade. A baixa poupança de nossas famílias, empresas e governo é uma bomba que impede os investimentos necessários à construção de uma infraestrutura eficiente, ao crescimento da economia e ao aumento da produtividade de nossa indústria. O desemprego é uma bomba trágica de grandes proporções. A bomba do consumo de drogas corrói famílias e anula o potencial de dezenas de milhares de jovens.


Mas, a maior das bombas é a despolitização do debate entre grupos políticos sem visão nem propostas, presos às pequenas bombas do presente, sem a percepção das grandes em andamento: o divórcio entre as urnas e as ruas, entre os políticos e o povo, está explodindo no colo da democracia.

Bode expiatório

Não se discute a consistência da denúncia a Eduardo Cunha, presidente da Câmara, mas as circunstâncias que a cercaram. Entre outras, o fato de estar dissociada da do presidente do Senado, Renan Calheiros, investigado como ele pela mesma Lava-Jato.

Renan, que, como Cunha, chegou a desafiar o procurador-geral Rodrigo Janot, e igualmente o Palácio do Planalto, tornou-se subitamente aliado de ambos, fator de estabilidade institucional.

Até programa de governo chegou a oferecer à presidente, o Agenda Brasil, que cumpre papel político-coreográfico.

Negociou sua isenção, valendo-se da circunstância de que Janot e Dilma precisam de seus préstimos imediatos. E aí viu-se o inusitado: o denunciante, Janot, sendo recebido, semana passada, em audiência pelo investigado Calheiros, na condição de pedinte.

A recondução do procurador-geral ao cargo depende do Senado – e lá Calheiros, em tese, reina. Fará o favor de conduzir as coisas de modo a que Janot não seja surpreendido. Favor, em política, como se sabe, é via de mão dupla, o que explica a preservação de Renan, pelo menos por enquanto.

Dilma, por sua vez, na mesma semana, jantou com metade dos ministros do STF. E obteve de um deles, Luís Roberto Barroso, uma providência que lhe é altamente benéfica.

Barroso, respondendo a uma indagação da senadora Rose de Freitas, peemedebista da bancada de Renan, manifestou-se contrário a que as contas de Dilma sejam votadas pela Câmara, sustentando que a apreciação cabe ao Congresso, cujo comando é do presidente do Senado.

Quanto ao fato de as contas dos governos anteriores – de Itamar, FHC e Lula - terem sido votadas pela Câmara, nada a obstar. Mas daqui para a frente, disse o ministro, só pelo Congresso. Como dessa votação, na hipótese de rejeição, pode surgir uma das vertentes do impeachment de Dilma, melhor deixar o comando com o confiável Renan, embora igualmente investigado pela Lava-Jato.

Cunha, como se sabe, não negociou coisa alguma. Manteve a postura crítica e ameaçadora aos interesses da presidente. Preparou o terreno para a votação das contas do governo, fazendo votar as anteriores, há anos pendentes. Mostrou-se, em suma, impermeável a acordos com o Planalto, ao qual já se disse na oposição.

A denúncia a Cunha, longe de atenuar, aprofunda a crise política. Haverá reação, que poderá ser mais ou menos eficaz na medida em que a Operação Lava-Jato trouxer mais novidades. Sabe-se, por exemplo, que Nestor Cerveró, prestes a fazer delação premiada, dispõe de informações importantes que conduzem a Lula.

O fator mais negativo em todo esse episódio é a suspeita que lança de politização judicial no âmbito do Ministério Público. Janot denunciou Cunha, citado uma vez na Lava Jato, mas não Renan, citado 16 vezes, pelos principais delatores – Paulo Roberto Costa e Alberto Youssef -, ou mesmo Dilma, citada 13 vezes.

A impressão que se tem é que Cunha está sendo denunciado não por eventual delinquência, que obviamente precisa ser apurada, mas por representar ameaça à impunidade de delinquências ainda maiores. É o que, em circunstâncias similares, costuma se chamar de bode expiatório. Mas não basta punir um bode. É preciso chegar a todo o rebanho – sobretudo aos que o conduzem.
Print

Dificuldade de governar

1. 

Todos os dias os ministros dizem ao povo
Como é difícil governar. Sem os ministros
O trigo cresceria para baixo em vez de crescer para cima.
Nem um pedaço de carvão sairia das minas
Se o chanceler não fosse tão inteligente. Sem o ministro da Propaganda
Mais nenhuma mulher poderia ficar grávida. Sem o ministro da Guerra
Nunca mais haveria guerra. E atrever-se ia a nascer o sol
Sem a autorização do Führer?
Não é nada provável e se o fosse
Ele nasceria por certo fora do lugar.
2. 

E também difícil, ao que nos é dito,
Dirigir uma fábrica. Sem o patrão
As paredes cairiam e as máquinas encher-se-iam de ferrugem.
Se algures fizessem um arado
Ele nunca chegaria ao campo sem
As palavras avisadas do industrial aos camponeses: quem,
De outro modo, poderia falar-lhes na existência de arados? E que
Seria da propriedade rural sem o proprietário rural?
Não há dúvida nenhuma que se semearia centeio onde já havia batatas.
3. 

Se governar fosse fácil
Não havia necessidade de espíritos tão esclarecidos como o do Führer.
Se o operário soubesse usar a sua máquina
E se o camponês soubesse distinguir um campo de uma forma para tortas
Não haveria necessidade de patrões nem de proprietários.
E só porque toda a gente é tão estúpida
Que há necessidade de alguns tão inteligentes.
4. 
Ou será que
Governar só é assim tão difícil porque a exploração e a mentira
São coisas que custam a aprender?

Bertolt Brecht (1898 - 1956) 

Era vidro e se quebrou

Não é uma questão de ódio ou de intolerância, é de confiança. Na primeira pesquisa de opinião depois das eleições, dois terços dos brasileiros diziam que Dilma tinha mentido na campanha. É duro e raro que um governante flagrado em mentiras sérias recupere a confiança dos eleitores. Pode até ser aceito como um bom administrador, mas a confiança não se restaura, porque não há ex-mentiroso. Uma vez mentiroso, sempre mentiroso, dizem a História, a lógica e a sabedoria popular. Não há obras, manobras, loteamento de cargos e campanhas publicitárias que nos façam voltar a acreditar em quem nos enganou.

Claro, mentir, em certa medida, todo mundo mente, faz parte da condição humana, alguma hipocrisia é indispensável para uma convivência civilizada. Já pensou se todo mundo fosse sincero todo o tempo e dissesse o que lhe vem à cabeça? O problema é quando o mentiroso começa a mentir a si mesmo, e acreditar, caso em que os psicanalistas dizem que não vale a pena continuar a terapia. Dilma começou mentindo para os outros — e agora mente para si mesma. Sim, ela não rouba, mas mente muito.

E para piorar, mente muito mal, ao contrário de Lula, que usou seu grande talento histriônico para fazer da mentira uma das suas melhores armas. Durante anos muitos acreditaram nele, hoje todo mundo sabe que ele sempre soube de tudo e mentiu o tempo todo. Pode até ter feito um bom governo, mas é mentiroso.

Sim, todo politico mente: uns para o bem, outros para o mal.

Nos países anglo-saxônicos, de ética protestante, a verdade é um valor básico. Para eles, mentir é ilegal, pode levar à execração social e até a cadeia, por falso testemunho. Bill Clinton, mesmo popularíssimo, foi impichado na Câmara (e salvo pelo Senado ), não porque teve um caso com Monica Lewinsky, mas porque mentiu ao país.

No tempo da luta armada, Dilma fez a escolha errada, achando que poderia derrotar a ditadura militar pela força e instaurar a ditadura proletária, mas acabou contribuindo para atrasar o processo de abertura política que levou à redemocratização. Por puro autoengano.

Mentiras sinceras interessavam a Cazuza, mas como poesia.

Quem sabe faz a hora

Não tem qualquer sentido comparar numericamente as manifestações de domingo e as desta quinta-feira. Seria covardia. Pelos dados oficiais da PM, as de domingo superaram 870 mil e as de hoje, 72 mil. Na quantidade de cidades, os atos do dia 16 chegaram a 204; hoje, a 37.

O que chama atenção é a organização.

A ordem unida das entidades chapa-branca (todas elas, é sempre bom lembrar, com patrocínios oficiais), com farta distribuição de bandeiras e cartazes produzidos em série nos pontos de concentração, dá o ar de coisa ensaiada. Um mesmo cenário que acaba por pasteurizar as manifestações.




Nos atos de domingo, nem o sentido das passeatas pareciam pré-combinados. Na Avenida Paulista, enquanto alguns iam para um lado, outros iam para outro. Cartazes escritos à mão, bandeiras do Brasil de vários tamanhos; dezenas de camelôs vendendo bandanas, broches e todo tipo de adorno verde-amarelo.

Mais do que no tamanho e na capilaridade de uma e de outra, a maior diferença está naqueles que têm crença e apostam que podem fazer a História e nos que se deixam manipular pelos que se arvoram a ser - e acham que são - os únicos capazes de fazer a História.


Mary Zaidan

A diferença

 
Existe uma brutal diferença entre a maioria silenciosa, de que os 700 mil eram a expressão sonora, e a minoria ruidosa de esquerda. Os que se manifestaram em defesa do governo exprimem hoje o tamanho do PT e do esquerdismo, mesmo dominando máquinas milionárias, fartamente alimentadas por dinheiro oficial, como é o caso da CUT, do MST, do MTST e da UNE
Reinaldo Azevedo 

Com gosto de sola

Nunca é tarde para enfatizar que esses movimentos pró-corruptos são feitos com o seu, o meu, o NOSSO dinheiro. Penso que a tal “democracia” deveria abarcar qualquer coisa que se movimente, inclusive lesmas e calhordas de todos as matizes, exceto quando se trata de bater a minha carteira para gritar “pega ladrão” pra mim mesmo. O bando de calhordas azeitado com a grana pública desviada dos grandes escândalos não nos deixa esquecer que sua verdadeira natureza é nos fazer de hospedeiros de sua ideologia marreta, nivelando tudo por baixo para que o planeta dos macacos por eles parido ganhe forma e consistência com o suor do rosto alheio.

000 ROQUE O PAIS DA PIADA PRONTA

Eu estou com o saco na lua dessa gente rumbeira; desse discão riscado da única Mercedes que eu não compraria nem amarrado, cacarejando o seu “Gracias a la Vida” na nossa cara parva e fingindo que trabalham, agitando bandeirolinhas vermelhas na repartição onde ganharam a boquinha e rapinando o café da cozinha. Estou farto desses prefeitinhos superfaturados, que temos que engolir porque a oposição ganhou um “boa noite Cinderela” e achou melhor não discutir os rumos tortos das apurações a portas fechadas, que nos brindaram com estes canalhas nas cadeironas públicas, sem ninguém gritar impedimento.

Passou da hora de discutir o que fazem esses “agentes infiltrados” quando não estão agitando suas bandeirinhas vermelhas em churrascos pagos pela quadrilha. É das contas dessas “entidades” que saberemos quantos cambonos foram feitos de besta para defenderem Dirceuzinhos e companhia – más companhias – devidamente estacionados em celas paranaenses e afins. É o NOSSO DINHEIRO que nos provoca. Não está na hora de exigirmos que mostrem de onde vem a grana? Quais acordos fizeram para continuarem alegres e faceiros, recebendo a marmita religiosa que compõe a cesta comuno-petralha com a qual esses calhordas cacarejam sua inversão de valores sobre nossa paciência?


A sociedade não tem que pagar essa conta, meus caros. Se o governo não tem dinheiro para a pornografia política que eles abraçam alegrinhos, melhor então que parem de nos assaltar com essa desfaçatez oceânica e essa desenvoltura de quem acredita na impunidade eterna. Já disse aqui mesmo que o arrastão, quando desce o morro, não tem parente. O que querem estes trogloditas da estrelinha na cueca é estremecer nosso tecido social puído até que a coisa descambe para as vias de fato. Se é isso o que eles querem, me parece que é isso que eles terão. Ou nossos políticos tomarão vergonha na cara antes, junto com nossas instituições, para fazerem a coisa certa?

Aguardo ansioso, com minha panela de pressão de prontidão. Com ela dá pra abater uns três Vágners e seus discursinhos picaretas, que não chegam até a esquina sobre as duas patas. O cara está pedindo para sentir o gosto da sola do meu sapato naquela carinha gorda, de bebê Johnson com sobrepeso. Aqui não é a Venezuela. Lá, os calhordas de turno tem as chaves do paiol. Aqui, só a do cofre. Tua batata está assando junto com a mandioca da tua dona, aquela mulher erectus da baioneta em riste. Abre o olho, calhordão.

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

Sobre tesouras e thesaurus em Brasília

Para ser tolerante, é preciso fixar os limites do intolerável
Umberto Eco
O ministro Edinho Silva (não, não sou amiga dele, esse é seu nome, Edinho) no dia seguinte à manifestação estrondosa de domingo 16, aquela que se destacou por ter um único foco, o "Fora PT, Lula e Dilma", deu a seguinte declaração:

“É preciso desfazer o clima de intolerância e pessimismo instalado no país, para que a economia volte a andar (...) Estamos vivenciando um período de intolerância política cultural e religiosa. É um momento difícil. Temos que trabalhar para desfazer esse ambiente de intolerância".

O que ele queria? Otimismo numa hora dessas? Cresce, Edinho, vira logo Edão antes que a realidade inunde o seu dia a dia de forma implacável!

Segundo ele, para que a economia volte a andar (para frente, de preferência, digo eu) é preciso que nos livremos da "intolerância política, cultural e religiosa".

O que será que o Edinho quer dizer com isso? Bem, que ele pregue por tolerância com a ignorância que campeia no país, é o jeito... Mas intolerância religiosa? Se há país onde isso não existe é o Brasil. Por que ele tirou esse coelho da cartola?

Acho que o Edinho Silva anda confundindo as palavras. Precisa urgente de um thesaurus para aumentar seu vocabulário. (Thesaurus é um dicionário que registra uma lista de palavras que são associadas semanticamente a outras, apresentando geralmente sinônimos e, algumas vezes, antônimos. Imprescindível nas boas mesas de trabalho do governo PT).

Quanto à intolerância política, espera aí, ministro. O partido político mais intolerante dos últimos tempos é o seu, o ambicioso PT. Os petistas se acham o sal da terra. Nunca erram, nunca admitem um engano que seja, jamais se retratam, têm a palavra do Lula como dogma. Trabalharam muitos anos pela derrubada dos mais variados governos e lutaram com garra até chegar ao Planalto, para dar vida à sua desmesurada ambição.

Ontem, dia 20, saíram às ruas para responder às manifestações do dia 16. Havia um foco em suas palavras de ordem? Um, não, vários, o que pode botar muita gente na rua, mas não resolve coisa alguma, como já ficou provado nas passeatas de 2013.

Foi uma verdadeira salada: contra o ajuste fiscal, contra a maioridade penal, contra a Agenda Brasil, contra o Eduardo Cunha. Provocativos, eram contra isso tudo, mas a favor do Governo Dilma.


Somos um país que de tédio não morre. Não há dia sem um noticiário bem apimentado. Algumas pimentas bem ardidas, como a antecipação, agora em julho, de metade do 13º salário à presidente Dilma Rousseff e aos ministros da área econômica, Joaquim Levy entre eles, naturalmente. Vou seguir o conselho do Edinho Silva e ser tolerante: foi uma ninharia, R$ 15.467,00...

Já para os aposentados: necas, para esses não há dinheiro. Ponto final.

Outra pimenta, e essa malagueta: os novos ‘puxadinhos’ no BB e na Caixa. Em março, o ministro Levy era contra os puxadinhos e foi bem firme em suas palavras. Ontem, a tesoura meio cega, suas palavras foram outras: "Não compromete o ajuste (fiscal), é uma operação de mercado que, na verdade, pressupõe compromisso das montadoras", argumentou.

Por que ele não foi a favor desse “arranjo que os bancos fazem todos os dias” antes que o desemprego cruel levasse a um sofrimento intolerável centenas de famílias?

Uns acreditam. Outros levam algum

zzafoto definitiva

Definitivamente, não são os números que importam mais.

Logo depois das manifestações de Fora Dilma, Fora PT, Lula na cadeia do domingo, e nos jornais do dia seguinte, falou-se muito de números. Ah, teve mais gente do que no dia 12/4 mas muito menos gente do que em 15/3!

Esgrimiram-se números das PMs, dos organizadores, do Datafolha – esse belo instituto de pesquisa de opinião pública que perde credibilidade quando conta no mesmo espaço da mesma Avenida Paulista 2,5 milhões de evangélicos ou gay e simpatizantes e, em ato político, parcas, miúdas, inofensivas, solitárias 135 mil pessoinhas.

O Datafolha divulgou agora, final da noite da quinta-feira, que contou 37 mil manifestantes pró-Dilma/contra a política econômica de Dilma.

A PM havia contado 40 mil. Uma conta próxima à do Datafolha.

Esquisito, porque, na hora de contar quem é Fora Dilma, Fora PT, Lula na cadeia, o Datafolha se distancia pra cacete da PM. No domingo, a PM avaliou a multidão em 350 mil; o pessoal da Datafolha mostrou carteirinha de estudante, pagou meia e chegou ao número 135 mil.

Então, em São Paulo, no domingo, foram – segundo o sacrossanto Datafolha – 135 mil pelo Fora Dilma, Fora PT, Lula na cadeia. E, nesta quinta, foram 37 mil pró-Dilma/contra a política econômica de Dilma.

Bem, a rigor, como é uma coisa esquizofrênica, contra e a favor, cada cabeça com duas sentenças, o Datafolha deveria ter contado 74 mil cabeças na manifestação pró-Dilma/contra a política econômica de Dilma.

Ou 80 mil, segundo a PM.

Mas, definitivamente, não são os números que importam.

***

Importa mais é o gesto. O símbolo. A qualidade.

Basta olhar para qualquer foto de manifestação contra. E comparar com as fotos das manifestação a favor/meio contra.

O repórter fotográfico Daniel Teixeira, do Estadão, fez uma foto que exprime exatamente o que eu quis dizer quando escrevi sobre a diferença entre as manifestações do Fora Dilma Fora PT e as manifestações chapa-branca.

As nossas são desorganizadas. Cada pessoa veste um tipo de roupa, leva seu próprio cartaz feito à mão. É tudo espontâneo – cada um está ali porque quer estar, quer expressar seu nojo por tudo isso que o lulo-petismo pôs aí.

As deles são organizadíssimas. Marciais. Os cartazes são os mesmos, encomendados na gráfica, paga com dinheiro de todos os trabalhadores do país, em benefício de um grupelho que se estabeleceu no poder.

Os lulo-petistas adoram usar imagens bélicas: vamos pôr nossos exércitos nas ruas, vamos de armas nas mãos.

Pois bem. Foi como eu senti, ao voltar para casa depois de andar pra lá e pra cá na Paulista durante um bom tempo, usando minha voz um tanto poderosa para berrar alto algumas certezas básicas, Fora Dilma, Fora PT: as manifestações fazem lembrar demais a batalha do filme Spartacus, obra-prima espetacular do então jovem (mas já gênio) Stanley Kubrick.

De um lado, estavam os ex-escravos que fugiram do cativeiro e se uniram para lutar pela liberdade. Eram absolutamente desorganizados, cada um se vestia de um jeito, tinha um tipo de arma.

Do outro lado, as centúrias romanas comandadas pelo cônsul Crasso. Impecáveis em seus uniformes limpíssimos, lustrosos.

Eles, os das bandeiras vermelhas, são o exército da Roma Imperial comandados por Crasso. Nós somos que nem as hordas chefiadas por Spartacus, que queriam se libertar do jugo do poder romano.

***

O que eu senti, e tentei descrever em texto escrito ainda sob o calor da emoção de ter estado na Paulista entre milhares de pessoas do bem que gritavam por um país melhor, está sintetizado na foto do colega Daniel Teixeira.

Definitivamente, nós somos o povo oprimido, tomado de assalto, ludibriado, enganado. Eles são a Guarda Pretoriana que defendem os encastelados no poder.

Sempre mais acurada, mais incisiva do que, Mary partiu das mesmas coisas que observamos nos últimos dias para chegar a uma conclusão que demonstra perfeitamente essa minha certeza de que os números não são o que mais importam – quaisquer que sejam eles.

Ela sintetizou com brilho o que de fato importa:

“Mais do que no tamanho e na capilaridade de uma e de outra, a maior diferença está naqueles que têm crença e apostam que podem fazer a História e nos que se deixam manipular pelos que se arvoram a ser – e acham que são – os únicos capazes de fazer a História.”

Ouro em cretinice

Tem duas coisas que me preocupam todo santo dia. Uma é a elevação do desemprego, porque eu sei que isso provoca sofrimento nas famílias desse País. Tudo o que eu faço é para impedir que isso aumente. [...] A segunda questão é a inflação, porque corrói o bolso das pessoas. Eu tenho certeza que vai melhorar
Dilma Rousseff 

O protesto e a jabuticaba

Um protesto a favor do governo já é em si uma jabuticaba.

Um protesto a favor do governo com palavras de ordem contra a política econômica desse mesmo governo deve ser um cupuaçu. Ou uma mangaba.

Ideia infeliz colocar na rua, cinco dias depois das manifestações nacionais contra o governo, pequenos grupos uniformizados de protestadores oficiais, envergando uniformes de centrais sindicais, movimentos sociais atrelados a partidos, indignados chapa branca, transportados por ônibus fretados, gritando palavras de ordem incoerentes, entre o fica Dilma e vai embora Levy.

Resultado de imagem para manifesto da jabuticaba charge

A pauta oficial dos protestos a favor era a defesa da democracia, um tema bastante prejudicado pelo simples fato de que não há ninguém a ameaçá-la, visto que mesmo os que pedem o impeachment da presidente colocam como condição prévia para o início de abertura do processo que haja motivos concretos para isso.

Sim, pode-se alegar que nas manifestações de domingo, incomparavelmente maiores, havia aqui e ali alguns lunáticos pedindo “intervenção militar”, provavelmente por absoluta ignorância da ruina que isso significa para um processo democrático.

As manifestações de domingo, nas quais timidamente o PSDB pegou carona pela primeira vez, são o reflexo de um sentimento nacional de desagrado contra a corrupção e os erros do governo. Nessa carroça, embarca quem quer- e a falta de uma direção politicamente unificada e orgânica priva o movimento de uma linha reivindicatória que represente um objetivo político claro. A linha condutora é a rejeição ao governo do PT, ao partido em si, às suas lideranças e às consequências de suas políticas e seus atos.

Pode-se dizer que o PT está colhendo as tempestades dos ventos que plantou.

As pessoas empenhadas em desconstruir e desqualificar as manifestações de domingo, deram-se ao trabalho de pescar no meio da multidão indistinta algumas aberrações políticas, comportamentais ou humanas para tentar transformá-las numa espécie de tipologia comum a todos os que protestavam.

Essa tentativa, por mais malucos que tenha conseguido tipificar, não apagou o fato de que apenas 7,7% dos brasileiros aprovam o governo Dilma- como lembrou o jornalista Ancelmo Gois.

Alguns cartazes dos manifestantes davam apoio ao presidente da Câmara, Eduardo Cunha, que na quinta-feira viria a ser denunciado pelo procurador geral Rodrigo Janot por corrupção e que perderia, em consequência, grande parte de sua influência como articulador dos projetos-bomba contra o governo dentro do Legislativo.

Enquanto não renunciar, ou não for obrigado a afastar-se da presidência da Câmara em função da denúncia, Eduardo Cunha ainda guardará o poder até de acolher e um eventual pedido de impeachment, ainda que com muito menos balas na agulha.

Ao mesmo tempo em que Cunha enfraquece, o governo se ampara em Renan Calheiros, também citado na Lava Jato, mas ainda não denunciado ,o que levou à suspeita de que haveria um “acordão" entre governo, procurador e aliados para aliviar a barra de Dilma no Congresso.

A batalha política de parlamento e as maquinações de bastidores parecem encaminhar-se ao estabelecimento de uma trégua informal que pode dar mais tranquilidade e mais tempo para a presidente Dilma. Os mais céticos perguntam: sim, mas mais tempo para que? Não há nenhum sinal de que a presidente pretenda definir um rumo para seu governo.

Enquanto isso, a última batalha das ruas terminou com uma goleada alemã dos descontentes sobre os quase-contentes.

Ricardo Noblat

Brasil não pode ficar ao sabor de ideologias e ideais

Inspiro-me, aqui, em texto eletrônico de Nelson Motta denominado “Aos amigos petistas” (“O Globo”, 7.8), em que ele afirma nunca ter rompido amizades por discordâncias políticas, mas que os petistas inteligentes devem entender que o sonho acabou e “zé fini”, pela incompetência e voracidade de seus quadros. Eu também nunca rompi amizades por razões políticas, embora sempre soubesse distinguir, entre os militantes de esquerda, gente do bem de oportunistas, sinceros de demagogos, honestos de vorazes. Infelizmente, enquanto os sinceros e, muitas vezes, ingênuos queimavam a pestana elaborando planos para diminuir as desigualdades sociais, os espertalhões assumiam posições de comando, transformando seus gabinetes em balcões de negócios altamente rentáveis, num jogo de soma zero, ou melhor, de cartas marcadas a seu favor. Deu no que deu.

Há anos, ouvi de um prestador de serviços ao governo federal que ele estava se dando muito bem com os novos donos do poder, pois esses, além de entenderem pouco da sua área de atuação, não raro estavam abertos ao suborno. Mas a arrogância petista vem de longe, do tempo em que ocupavam apenas algumas prefeituras municipais ou se tornavam ideologicamente hegemônicos em órgãos públicos municipais ou estaduais. A ordem era ocupar espaço, desqualificando e afastando técnicos e funcionários experientes, abandonando programas e projetos comprovadamente bem-elaborados e bem-sucedidos na sua aplicação prática.

Ao assumirem o comando de uma Secretaria de Saúde, não sei se estadual ou municipal, os petistas se reuniram com a equipe preexistente para anunciar a elaboração de um novo plano de ação. Esta última argumentou que, há tempos, vinha elaborando um plano que gostaria que fosse lido e, quem sabe, aproveitado pelos novos dirigentes. A resposta foi um baita “não”. “Queremos fazer tudo de novo”, responderam. Diante de tamanho descaso pelos seus esforços, a antiga e experiente equipe se demitiu.


Há, também, casos risíveis como o de um jovem técnico petista que, ao ser incorporado à equipe de um órgão público de planejamento econômico e social, escreveu em seu relatório setorial a seguinte pérola: “A ponte do Macaco, sobre o rio do mesmo bicho, necessita de reformas” etc. Ao ver seu relatório corrigido pelo coordenador do trabalho, o jovem não teve dúvidas em acusá-lo de autoritário e direitista.

O problema é que à exceção, talvez, daqueles envolvidos com as novíssimas tecnologias de informação, os jovens, sobretudo no campo das ciências humanas, carecem de habilidades adquiridas apenas com o tempo e, não raro, de humildade e conhecimentos básicos de língua pátria. Acontece que o tempo urge, e o Brasil, onde a condução dos assuntos políticos e econômicos não é para amadores, não pode ficar ao sabor de ideologias e ideais realimentados a cada geração.

O pior é que veteranos intelectuais de esquerda, ao tentar justificar o injustificável, continuam insistindo que o combate à corrupção é coisa da direita conservadora. Como se os cerca de R$ 50 bilhões anuais surrupiados dos cofres públicos, suficientes para construir dez escolas em cada um dos 5.570 municípios brasileiros, fossem uma ninharia. “zé fini”.

A 'agenda Brasil' que aterroriza os políticos

boopo moises2
Para o Brasil mudar, você tem que colocar o dedo na(s) ferida(s).

Não tem outro jeito.

O Governo está trabalhando na “Agenda Brasil”, uma longa pauta econômica pactuada entre o Senador Renan Calheiros e o Ministro da Fazenda, Joaquim Levy.

A coluna sugere uma outra agenda, ainda mais ousada, com 10 ideias que o País deveria adotar agora.

Se são ideias heréticas — ou puro bom senso — cabe a você julgar como leitor, eleitor e contribuinte.


1) Fica proibido aos titulares do Executivo Federal, Estadual e Municipal organizar ou participar de cerimônias de inauguração de obras. Primeiro, porque elas quase nunca significam que a obra está pronta — só que o governante está louco para aparecer bem na foto. Segundo, elas custam dinheiro e dão a muitos eleitores a sensação de que o governante lhes fez um favor quando, em realidade, não fez mais que a obrigação. A partir de agora, se a hidrelétrica ficou pronta, liguem as turbinas e vida que segue.

2) Os membros dos três poderes passarão a se referir aos cidadãos brasileiros como “o patrão.” Esta obrigatoriedade valerá para documentos públicos, discursos nas tribunas do Congresso e decisões dos tribunais superiores, onde o ar costuma ser mais rarefeito. Semanticamente, já tentamos o caminho aberto pela Revolução Francesa: a palavra ‘cidadão’ tentou nivelar a todos (governantes e governados), mas nem por isso conseguimos fundar uma ‘Res’ pública. Tentemos agora a perspectiva protestante, anglo-saxã: quem paga a conta é que manda. Os brasileiros trabalham um terço do ano para pagar impostos. Os políticos são seus funcionários. Tá na hora de mostrarem respeito e tratarem o chefe pelo nome.

3) Lei Cristóvam Buarque: Os filhos de todo aquele que conquistar mandato eletivo, se em idade escolar, deverão ser matriculados em escolas públicas e ali permanecer durante todo o exercício do mandato do pai ou da mãe. Não haverá exceções. Guardem o mimimi até que a rede pública esteja a cara de um internato suíço.

4) O Código Penal tipificará como ‘crime contra as finanças públicas’ qualquer empréstimo do BNDES a empresas na lista das 100 maiores do Brasil. É pra elas começarem a usar uma novidade aí… chamada ‘mercado de capitais’. Coisa fina. (Pra você que não é do ramo: o BNDES é o táxi, e o mercado de capitais é o Uber do dinheiro.) Parágrafo segundo: o BNDES muda de nome e passa a ser o BPME: o Banco da Pequena e Média Empresa, com guichês de atendimento em todos os Estados e análise de crédito centralizada em sua sede na Avenida Chile, no Rio. O banco também criará fundos — o FIP Garagem I, Garagem II e assim por diante — para um grande esforço de investimento em startups e capital semente. Está na hora de oxigenar a economia com inovação e turbinar quem tem talento, não só quem já é grande o suficiente para contribuir nas campanhas.

5) A CVM (o xerife da Bolsa) e o COAF (o xerife da lavagem de dinheiro) terão dotação orçamentária própria, autônoma e não-contingenciável. A remuneração de seus diretores, gerentes e analistas será em linha com salários do setor privado. A quarentena será de dois anos. E como todo xerife precisa impor respeito, a sede da CVM será transferida para um daqueles prédios de granito e mármore na Faria Lima, que os bancos de investimento ocupam para tentar impressionar os clientes. As multas da CVM, cujos valores máximos hoje são fixados, por lei, em reais (e assim ficam defasados com a inflação), passarão a ser atreladas à cota do Fundo Verde.

6) Presidentes e ministros cujos ajustes fiscais atingirem o fornecimento de medicamentos de uso contínuo para pacientes de câncer, AIDS e diabetes serão punidos com exposição direta ao HIV, radiação cancerígena ou doses cavalares de açúcar.

7) Revoga-se a tarifa de importação de servidores, roteadores, desktops e laptops, num empurrão à produtividade do País. Esta reserva de mercado é da época dos militares. Eles foram embora há 30 anos e já há até infelizes aí pedindo a sua volta, mas a reserva de mercado ainda está aí, firme e forte. Ao contrário do que seus defensores esperavam, ela não pariu uma Apple brasileira, mas garantiu que um computador importado custe aqui quase três vezes mais do que lá fora. Quando vamos acabar com esta palhaçada? (Rachid, mata essa no peito, cara!)

8) No mercado de construção pesada, o Governo fará um grande e espetaculoso esforço para atrair empreiteiros internacionais. Vamos recebê-los como os parisienses receberam os americanos em 1945. Faremos uma brochura promocional com as fotos de todos os empreiteiros encarcerados na Lava Jato, mostrando que instauramos a moralidade e prometendo que, como diz a canção, “daqui pra frente, tudo vai ser diferente.” Os americanos não precisarão ficar de fora do Brasil por temer que uma propina paga aqui os leve à cadeia lá. (Cena cômica: Já imaginaram o Vaccari pedindo um ‘pixuleco’ — em inglês — a um empreiteiro alemão?)

9) Nos três poderes da República, ficam proibidos carros oficiais, garçons nos gabinetes e ascensoristas nos elevadores. Estes benefícios, concebidos para facilitar o trabalho de deputados, senadores, ministros e juízes de tribunais superiores, transformaram-se com o tempo em símbolos do descolamento da realidade, do desalinhamento destes servidores com o interesse público. Ministros, deputados e desembargadores dirigirão seus próprios carros (ou contratarão um motorista com seus salários), e não há motivo algum que impeça alguém de pegar seu próprio café e apertar o andar de destino no elevador (contanto que não seja o “13”. Neste caso, vá de escada.)

10) O haraquiri fica instituído como a saída jurídica preferencial para os ocupantes dos três poderes que traírem o interesse público. A outra é a Papuda
.

***

Se você gostou dessas ideias, compartilhe-as no Facebook ou num email para seu deputado ou senador. Só dá pra consertar o Brasil reinventando-o — e questionando tudo, de cima pra baixo.

Na mosca

Nós, brasileiros, precisamos assumir a ousadia que os canalhas têm 
Cármen Lúcia, vice-presidente do STF, acrescentando que o arrojo ‘‘não pode ser de pessoas que não cumprem as leis, que usam o espaço público para interesses particulares’’

Brasil sem pai nem mãe

“É lógico que ela pode errar, como eu errei e como qualquer um erra enquanto mãe. Nem sempre a gente faz as coisas que são 100% aceitas pelos filhos”, disse Lula na terça-feira, dia 11. “Mas quando ela errar, ela é nossa mãe e temos de ajudá-la a consertar”.

Há algo de mais atrasado vindo de uma pessoa que já foi o presidente mais popular de uma democracia de 200 milhões de habitantes?

A regressão política faz com que Lula parta agora para uma tentativa de regressão psíquica da sociedade.

Para que essa sociedade, assustada e perdendo empregos, os veja como papai e mamãe que só pisaram na bola. Que espere, suporte, se conforme e ajude o PT e a presidente mais impopular do Brasil a tirá-los dessa situação.

Lula acha que sabe o que faz e que conhece seu público: o país da “Pátria Educadora”, de maioria pobre e educação ruim.

Mas nesse processo de regressão, Lula e Dilma estão sendo obrigados a se fechar só no que ainda resta: a base social do PT “hardcore”; agora financiada com dinheiro de toda uma sociedade que desaprova em massa o governo.

Como a tal Marcha das Margaridas em Brasília na quarta (12). Contraponto aos prováveis protestos de domingo e recebida por Dilma, teria reunido 30 mil pessoas, segundo a PM. Ao custo de R$ 855 mil da Caixa Econômica Federal, do BNDES e da Itaipu Binacional.

Apesar da grande popularidade de Lula e Dilma nos seus melhores momentos, eles pouco fizeram para transformar estruturalmente o Brasil que governam há 12 anos e meio.

Lula surfou na onda das commodities em alta e no maior ciclo de crescimento global (até 2007) do pós-Segunda Guerra. Não fez reformas que pudessem ajudar a melhorar as contas públicas no longo prazo. Só ampliou gastos

Dilma pegou o bastão com o país crescendo 7,5% e com problemas à época relativamente fáceis de resolver. Inventou estratégias econômicas extravagantes e também nada produziu de novo para mudar o estrutural. Só ampliou gastos.

Vivemos um longo período sob gastos públicos, crédito e consumo em alta. Enquanto a indústria perdia a metade de sua participação no PIB, investia-se pouco e importávamos para valer, criando empregos lá fora.

Só agora, pelas mãos de um ministro adotivo, mamãe impopular quer passar no Congresso, a toque de caixa, reformas que poderiam ter sido feitas em três longos mandatos populares. Como perdemos tempo.

Dilma só tem uma saída: reencontrar-se com a população


Depois de uma ausência de quinze dias retorno com uma certeza. A de que a única saída à disposição da presidente Dilma Rousseff para livrar-se da crise política e institucional que abala profundamente seu governo é tentar reencontrar-se com a população brasileira, cuja reação está plenamente refletida nas manifestações populares de domingo passado e nos números da mais recente pesquisa do Datafolha, a qual apontou uma rejeição de 71 pontos contra uma aprovação de apenas 8%. Não existe outra solução possível para superar o impasse atual. As articulações políticas focalizadas na reportagem de Daniela Lima, Gustavo Uribe e Mariana Halbert, Folha de São Paulo de ontem, quarta-feira, só podem ser desenvolvidas no papel e não se transformam em fatos concretos.

Afinal de contas, na campanha eleitoral Dilma Rousseff assumiu vários compromissos, mas, como todos sabem, no governo está agindo exatamente ao contrário. Este é um dos principais fatores do desequilíbrio que envolve o Palácio do Planalto. Outro fator de extremo desgaste, como já acentuamos anteriormente, é o maremoto de corrupção que comprometeu a estrutura da Petrobrás, e contra a qual a sociedade não ouviu a indignação proporcional por parte da presidente Dilma Rousseff. Pode-se dizer que isso a levaria a um choque ainda maior com a legenda do PT, que tem vários de seus integrantes claramente comprometidos com os assaltos praticados em série.

De qualquer forma, a saída permanece uma só. Dilma Rousseff necessita encontrar a candidata vitoriosa em 2014 e partir em busca de outros rumos que nem sempre são os que deram origem ao projeto da candidata. Ela, inclusive teve pela frente um longo tempo para a reconciliação consigo mesma, uma vez que seu mandato começou em janeiro de 2011 e o esquema de corrupção na Petrobrás era bastante anterior à sua chega ao poder.

Dilma deveria ter percebido que os ladrões que gravitavam na órbita de Brasília, e também do Rio de Janeiro, sede da Petrobrás, não eram nem de longe seus aliados. Pelo contrário. Eram adversários totais de seu mandato, do seu programa, do seu projeto de governar. Por que não acionou devidamente os órgãos de informação que se encontravam a seu dispor? Uma informação aqui, outra ali, a ostentação de alguns, incompatível com sua renda salarial, e assim estaria ela na véspera de desvendar toda uma teia mais aparente do que misteriosamente encoberta pelos falsos amigos, que sempre os há, e pelos falsos aliados que são eternos como a história comprova.

No Brasil, os exemplos são muitos, não valendo a pena relembrá-los, porque o tema de agora é encontrar uma saída efetiva para superação d uma crise que tem de ser resolvida dentro, é claro, do regime democrático.

Há necessidade, para o governo, de medidas de impacto que sensibilizem a opinião pública, construindo uma ponte bastante clara entre o Palácio do Planalto e a população brasileira. Os problemas sociais são muitos e sua origem está na esfera da economia, sobretudo na onda de desemprego que atinge o país. Tão grave que a presidente da República liberou recursos da Caixa Econômica Federal e do Banco do Brasil para socorrer empresas em crise de faturamento e que, em consequência, demitem trabalhadores.

Quando o governo chega a um ponto de crise como essa, é sinal de que a queda do consumo é a fonte principal do impasse. Mas os cinco bilhões de reais disponibilizados através dos dois bancos estatais não vão resolver o problema, cuja solução é estrutural e não conjuntural. Esta, aliás, é uma das grandes contradições da política colocada em prática pelo governo, na qual não se identifica um rumo nítido e certo.

Ora é o ajuste fiscal para conter gastos, na sequência entretanto uma ação governamental que aumenta os desembolsos públicos, não para investimentos reprodutivos e sim para um tipo de salvacionismo, cujas consequências não se sabe a qual limite levarão. Isso porque foi feita uma seleção prévia de setores industriais para os quais os recursos serão destinados. Porém, como é natural, haverá pressões nas áreas não incluídas para que lhes sejam dirigidos também tais suprimentos estatais. Dilma Rousseff, de qualquer forma terá que escolher o rumo, porque, se não fizer uma opção nítida, ela oscilará entre os impasses que a estão isolando no Planalto.

A opinião pública sempre foi, é, e será decisiva para os rumos de qualquer país. O governo, em nosso caso necessita reencontrar-se urgentemente com ela.

O Diário Oficial de 30 de julho publicou a atual lei que vai reger o salário mínimo a partir de janeiro de 2016. Será o resultado da soma do crescimento percentual do Produto Interno Bruto em 2014 mais o INPC de 2015. Na verdade quase não haverá aumento real, objetivo a que a lei sancionada se propõe. Isso porque o crescimento do PIB em 2014 foi de apenas 0,1%. E a inflação de 2015, segundo previsões de hoje atingirá em torno de 10%. Esta é outra contradição que a lei do salário mínimo não pode prever.

Pedro do Coutto