terça-feira, 27 de janeiro de 2026

Signos sem significado

Alguém me falou de um anúncio institucional que a Unesco publicou há tempos para uma campanha pela alfabetização. Consistia de uma frase escrita de trás para a frente —ideia talvez tirada de "Alice Através do Espelho" (1871), o livro de Lewis Carroll em que, por estar "do lado de lá" do espelho, Alice vê tudo ao contrário, inclusive um poema num livro sobre a mesa. É como um analfabeto vê um texto —uma sequência de símbolos cuja ordem não lhe quer dizer nada. Alice resolve o problema botando o poema diante de um espelho. O mundo, no entanto, exige mais: a alfabetização em massa.

No Brasil, 5,2% da população ainda continuam analfabetos. Parece pouco, mas são mais de 10 milhões de pessoas, o equivalente à população de São Paulo. Some a isto os 29%, entre 15 e 64 anos, que são analfabetos funcionais (leem, mas não entendem uma notícia de jornal ou uma bula de remédio), e veja como o Brasil continua longe do século 21. Por sorte, alguns desses analfabetos sabem de sua condição e não querem que se estenda a seus filhos.

Três pessoas que prestam serviços ao meu redor, incapazes de ler ou escrever, são inspiradores exemplos. Uma manicure fez de seus três filhos um advogado, uma psicóloga e uma assistente social. Um porteiro, homem humilde e boníssimo, fez da filha engenheira, e chorou de comoção na cerimônia de formatura dela. E um encanador, que não sabe dizer a chave do seu Pix (mostra um papelzinho com o número), também formou a filha em direito. Dois desses jovens se beneficiaram de bolsas integrais da PUC.

Como pessoas que não sabem ler conseguem viver numa grande cidade, com sua desordem de cartazes, placas, luminosos, indicações, itinerários e manchetes? É um mundo de signos ocos, para elas sem significado. Que códigos não terão de criar para saber qual ônibus tomar? Como lidar com dinheiro ou cartão? Como receber uma mensagem por celular?

Sempre achei que o momento em que se aprende a ler representa mais que um segundo parto. Talvez seja o verdadeiro ingresso no mundo.

Adeus, María Corina

Se arrependimento matasse, o planeta não estaria com problema de superpopulação. “Non, je ne regrette rien” talvez valha para Édith Piaf como forma de levantar, sacudir a poeira e dar a volta por cima, sem reconhecer que errou rude nas coisas do coração. Nas questões ideológicas, atire o primeiro termo de ajustamento de conduta quem nunca teve de enfiar a viola no saco e se perguntar onde é que estava com a cabeça quando curtiu, gostou, apoiou ou ajudou a eleger uns e outros.

Há aqueles que nunca enganaram ninguém: Trump, Toffoli, Roberto Jefferson, Edir Macedo, Pablo Marçal, Paulo Maluf, Silas Malafaia. E nem precisa ser lombrosiano: o olhar cúpido, a mitomania, a fala melíflua, a egolatria, o cabelo gomalinado — há sempre algo que levanta a bandeirinha vermelha e avisa: perigo se aproxima.

Acreditei em Lula, quando, em 2003, ele contou:

— Depois que ganhei a eleição, uma televisão fez uma matéria em que aparecia um catador no Rio de Janeiro comendo um pedaço de melancia do lixo. Ele dizia: “Talvez esse seja o último pedaço de melancia do lixo que vou comer, porque o Lula, eleito presidente, vai ajudar a resolver esse problema”.

Lula chorou, e eu lacrimejei junto, feliz em ver um operário na Presidência — alguém que, tendo passado por tantas privações, faria da erradicação da miséria uma das prioridades de seu governo. Em vez disso, vieram o mensalão, o petrolão, o triplex, os pedalinhos, os aloprados.

Bolsonaro não tinha uma única boa referência, mas não era possível que fosse tão estúpido a ponto de... Pois ele foi. E foi com gosto. Às vésperas da eleição de 2018, mandei-lhe por aqui uma carta aberta:

— Conservadorismo não significa atraso, intolerância. (...) Desarme o espírito, aposente os gestos bélicos e contará também com os que não votam em você, mas cultivam essa estranha mania de ter fé no Brasil.

A fé dele era na cloroquina, no poder e na própria família. Errou tanto, e numa escala tão monumental, que o país, entre perder ou deixar de ganhar, deu outra chance ao PT.

Encurtando a história, sou bom em esperanças vãs. Como as que acalentei por Sergio Moro (e combinar camisa preta com gravata preta era um sinal tão claro...). Por Cármen Lúcia (foi do “cala a boca já morreu” à “situação excepcionalíssima” sem corar — e eu achando que ela seria daquelas de negar, quando é fácil ceder). Me encantei com Jordan Peterson e sua crítica ao autoritarismo da esquerda, aos excessos do politicamente correto — hoje olho e vejo um narcisista, igualmente autoritário.

A mais recente aquisição para minha lista de desencantos é a brava oposicionista venezuelana María Corina Machado. A bravura virou sabujice; a oposição, entreguismo; o amor à pátria, à liberdade e à democracia, algo que ainda carece de nome (nunca se tinha chegado tão baixo a ponto de precisar palavra para isso no dicionário).

Lá em casa, quando alguma coisa não tinha volta, minha mãe dizia “Adeus, Corina” —menção a um forró dos anos 60 (“Adeus, Corina, que eu vou embora/Quem parte leva saudade/e quem fica também chora”). Há os que pegam o bonde errado e vão até o ponto final (estão aí, até hoje, os stalinistas, os fascistas...). Eu digo adeus, Corina, Luiz, Jair, Jordan, Sergio, Cármen — e desço no próximo ponto.

Ainda bem que não sou influêncer de nada e não arrastei ninguém comigo nos meus enganos. Mas perdão foi feito pra gente pedir. Nem que seja só a nós mesmos.

'Amo-te, querido eu'

Assim mesmo, sem inibições ideológicas: ai ni laoji (“amo-te, querido eu”)! Foi uma das expressões mais populares de 2025 entre os jovens internautas chineses, apurou a Sixth Tone, uma publicação online da empresa municipal Shanghai United Media Group. “Ao contrário das gerações mais velhas”, a geração Z (nascida nos primeiros anos do século XXI) “está a optar pelo amor-próprio” e pelo “individualismo”, comentou na semana passada um analista da publicação.

Segundo a mesma fonte, vídeos sob o tema “um primeiro brinde a mim próprio” exibidos desde agosto no Douyin, o TikTok na China, atraíram mais de mil milhões de visionamentos.

O diagnóstico do historiador Xu Jilin confirmou-se: para as novas gerações chinesas, “ideais abstratos e grandes desígnios nacionais já não são importantes”, afirmou há um ano aquele professor da East China Normal University, em Xangai.


Um comentário publicado no Diário do Povo, o órgão central do Partido Comunista Chinês, descreveu o fenómeno como “uma ligeira mudança nos valores sociais” e uma chamada de atenção para os “sentimentos individuais”. Parece mais do que uma “ligeira mudança”.

Oficialmente, o coletivismo ainda é “um importante símbolo da civilização espiritual socialista” e “servir o povo” continua a ser uma divisa do governo. Nas escolas, todas as crianças são ensinadas a “amar o partido, o país e o povo”.

Mais de 200 milhões de chineses são filhos únicos. Fruto da política “um casal, um filho” imposta até 2016, eles cresceram como xiao huangdi (pequenos imperadores), o centro das atenções – e das expectativas – de dois pais e quatro avós. “Afastando-se das redes familiares e de vizinhança outrora próximas, eles agora desfrutam de maior liberdade de escolha – mas também enfrentam a vida por conta própria. Momentos de solidão ou desânimo vêm acompanhados da sensação de que não há ninguém em quem se apoiar”, diz a Sixth Tone. “É neste contexto que ideias como ‘amo-te, querido eu’ ganharam popularidade.”

A China, entretanto, converteu-se à economia de mercado e como escreveu Hu Anyan no livro Entrego Encomendas em Pequim, a sociedade tornou-se “intensamente competitiva”. Cerca de 12 milhões de novos licenciados saem anualmente das universidades chinesas. Apesar do elevado crescimento económico do país, não é fácil encontrar um bom emprego. Não contando com os estudantes, em novembro o índice oficial de desemprego entre os jovens dos 16 aos 24 anos era de 16,9% – mais do triplo da média nacional (5,1%).

Nascido em 1957, oito anos após a fundação da República Popular da China, Xu Jilin é especialista em História Intelectual Chinesa nos séculos XX e XXI. Assume-se abertamente como “liberal”, o que o distingue das outras duas grandes correntes intelectuais do seu país: a chamada Nova Esquerda e os neoconfucianos. Numa entrevista concedida em janeiro de 2025, salientou: “As gerações mais jovens já não se unem em torno de ideais abstratos. Nos vários movimentos sociais nos quais estão envolvidas, o seu foco está claramente nos direitos individuais específicos. Os seus objetivos são limitados, concretos e ligados à vida pessoal e aos interesses próprios.”

segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

Pensamento do Dia

 


A desgraça


A maldade e a vilania, o mal e a injustiça, são comuns, mas não são um estado de graça. São uma desgraça! 

Uma receita para o Brasil navegar em meio à anarquia internacional de Trump

Passado um ano de política externa de Donald Trump, já temos elementos mais do que suficientes para traçar uma estratégia de como o Brasil deve navegar na nova anarquia internacional. Os EUA passam a concentrar sua energia geopolítica nas Américas. Significa que os países da região precisam dispor de meios dissuasórios para conter intervenções americanas, que combinam pressão econômica e ameaça militar. Trata-se de elevar o custo dessas imposições para assegurar estabilidade e autonomia.


O Brasil precisa exibir sólidos fundamentos econômicos para fazer frente às turbulências que sanções comerciais e financeiras, impostas a nós ou a outros países, podem ocasionar. A gestão precisa melhorar e a questão fiscal, ser equacionada, de modo a aumentar a atratividade dos títulos brasileiros mesmo com redução de juros e a dar recursos para o Estado cumprir seus papéis.

As medidas listadas aqui soam como necessidades crônicas, porque a superação das fragilidades econômicas e de segurança de um país exige arrumar a casa. O mesmo debate, com nuances, ocorre na Europa, Canadá, Índia, Japão, Coreia do Sul, Austrália.

O acordo Mercosul-União Europeia é um incentivo para investirmos na competitividade da indústria, reformarmos o ambiente de negócios e baixarmos as barreiras comerciais. A segurança nacional vive uma emergência. A inteligência, nos âmbitos da Abin, Polícia Federal e Ministérios Públicos federal e de alguns Estados, tem se aprimorado. Mas vamos continuar enxugando gelo se a corrupção nas polícias e no Judiciário não for atacada.

Do orçamento de R$ 142 bilhões da Defesa, em 2025, R$ 33 bilhões foram para salários, R$ 37 bilhões para aposentadorias e R$ 28 bilhões para pensões. O que as viúvas e filhas de militares receberam em um ano é quase o mesmo valor que a Defesa pretende gastar em cinco anos com modernização: R$ 3o bilhões. A folha de pagamento responde por 77% do orçamento. Nos EUA, essa fatia é de 22%.

A corrupção e os privilégios obscenos no setor público, em todas as esferas, não podem continuar. A imprensa, em especial o Estadão, tem feito um trabalho corajoso de expor os abusos. A vergonha pública não parece servir mais de contenção. Então, os eleitores precisam se mobilizar para garantir que os políticos coniventes com a drenagem dos recursos sejam castigados nas urnas. Se não nos organizarmos, estamos fadados a dois destinos igualmente sombrios: entrar em embates autodestrutivos com os EUA ou nos tornarmos subservientes, como a Argentina de Javier Milei e o Paraguai de Santiago Peña.

Cara de pau metaforiza agora cinismo como política de Estado

Embora o início da conhecida marchinha carnavalesca seja "Eu sou o pirata da perna de pau...", é oportuno substituir perna por cara no contexto político onde reinam Donald Trump e uma direita sem escrúpulos e recato. No cinema americano, cara de pau era Fred McMurray, uma expressão invariável ao longo de qualquer drama: contrapartida a Victor Mature e suas contorções faciais intensas, paródia de esforço fisiológico a cada cena. Cara de pau metaforiza agora cinismo como política de Estado: "Quero a Groenlândia porque não me deram o Prêmio Nobel".


Trump sintetiza todos os casos. Na cara, inova com boca chupa-ovo, algo natural, não estudado como as caretas oratórias de Hitler, coreografadas por Goebbels. O Führer comparece, porque seu avatar o reprisa em aspirações geopolíticas, apenas trocando ocupação territorial por anexação comercial: protetorados "oleogárquicos". Além disso, tenta evitar a desdolarização do mercado comercial e financeiro, barrando outras moedas fortes. Sem diplomacia, "meu limite é a minha moralidade", a guerra cínica faz história.

Nessa nova modalidade de geopolítica ou de "geonegócio", cara de pau é justa designação para o imperialismo travestido de pirataria, com precedente histórico: um pirata americano, William Walker, foi presidente imperial da Nicarágua (1856-57). As invasões nazistas ainda tinham um pano de fundo, a doutrina do "Lebensraum", espaço vital almejado pelo Terceiro Reich. Agora, na apoteose de um poder ilimitado, ideias não suscitam adesões. Pirata não tem ideologia, tem bandeira. A violência auto justifica-se.

Tanto que o sequestro de Maduro, garantido pela mais poderosa frota de flibusteiros que já navegou no Caribe, não tem consistência jurídica nem moral: narcotraficantes e ditadores sanguinários convivem bem com os americanos. Vai-se Maduro, ficam o chavismo e a miséria popular. Os que foram deixados, sátrapas, são iguais ou piores: corruptos, torturadores, assassinos. Já caindo de podre, o bode expiatório foi sacrificado pelos seus. Primeiro golpe de Estado cara de pau.

Mas não o primeiro a expor a impotência do Direito Internacional. Trump diz "o Direito sou eu", a ONU já era. Clinton, Obama, Biden sempre o comprovaram, apenas longe da América do Sul. Juntos, poderiam fazer um cover dos "Secos & Molhados", cantando "rompi tratados / traí os ritos..." Mas o trumpista "vamos dirigir a Venezuela e ganhar mais dinheiro" é obscenidade que deixaria vexado o próprio Hitler, mais afeito a sangue vermelho (cimento ideológico do nazifascismo) do que negro, extraído da terra. O neoextrativismo americano desconhece fronteiras soberanas. E no estilo da pirataria, prospera em intimidações e ataques pontuais.

Daí o estúpido balido jubiloso das ovelhas que, legitimadas pela cara de pau, se desembaraçam das simulações de nacionalismo, patriotismo, dignidade e o quê mais. Acredite quem quiser: na euforia bolsonarista, marmanjos crescidos, governadores de estados, deliram com invasão pirata. Viria aquela Força Delta com vistosos uniformes do Império e enorme artilharia fálica nas mãos, suspiram, a mesma que Trump acompanhou pela televisão, capturando Maduro. Mas esses pelo menos pintam a cara antes do crime.

Por que o ICE deve ser compreendido como terrorista?

Em 7 de janeiro de 2026, Renee Nicole Good – mãe, poeta e residente de Minnesota, de 37 anos – foi morta a tiros por um agente do ICE em Minneapolis. Good não era uma criminosa violenta; de acordo com múltiplos relatos de testemunhas e vídeos, ela estava desarmada dentro de seu veículo durante uma grande operação federal de fiscalização migratória quando um agente disparou várias vezes, a matando. Pessoas que denunciam e pessoas que defendem esse assassinato recorrem ao termo “terrorismo doméstico” para explicar essa situação tenebrosa.

O terrorismo doméstico consiste em atos violentos e criminosos cometidos por indivíduos ou grupos para promover objetivos ideológicos; é impertinente debater quem, nesse cenário, é o verdadeiro terrorista. Good resistia pacificamente às ações de agentes de uma instituição ideológica que comete crimes violentos para instalar o medo em contingentes marginalizados da sociedade americana – e enfrentou a fúria letal deles.

A morte de Good é um exemplo extremo de como agências federais com poderes amplos e vagamente delimitados podem empregar força letal contra populações civis sem responsabilização transparente – e de por que qualquer cidadão sensato afirma que essas agências operam de maneiras que aterrorizam comunidades. Com razão, sua morte desencadeou protestos generalizados nos Estados Unidos.

O papel do ICE na sociedade contemporânea dos Estados Unidos é comparável a diversas formas de policiamento estatal cuja violência é estruturalmente tolerada e normalizada, como a Polícia Militar nas favelas brasileiras e as Forças de Defesa de Israel (IDF) na Palestina. Essas instituições operam com autoridade expansiva, pouca supervisão civil e utilizam força letal de maneira desproporcional contra comunidades marginalizadas, contribuindo para padrões de medo e repressão, e não de segurança.


No Rio de Janeiro, operações da Polícia Militar em favelas resultam em massacres recorrentes, com disparos indiscriminados e alto número de vítimas civis. Essas operações equivalem a punições coletivas que aterrorizam moradores e afetam de forma desproporcional populações negras e pobres. Na Palestina, a ocupação, a proteção a colonos e as políticas de bloqueio conduzidas pela IDF produziram ampla destruição e numerosas mortes de civis, muitas vezes sem mecanismos transparentes de responsabilização, reforçando assimetrias estruturais de poder e aterrorizando comunidades.

Esse padrão indica não eventos isolados, mas uma violência sistêmica inerente às estruturas de policiamento. O ICE, uma agência federal responsável pelo controle migratório, realiza operações muito além da fronteira dos EUA e emprega táticas agressivas que instilam medo, causam ferimentos e resultam em mortes em comunidades imigrantes – e, como se vê, muito além delas.


Defensores do ICE enfatizam seu mandato legal para aplicar as leis de imigração. Oponentes argumentam que, quando agências de fiscalização utilizam força avassaladora sem responsabilização, o efeito é o terrorismo de Estado – isto é, o uso sistemático da violência por agentes governamentais para controlar, intimidar ou reprimir populações civis. Essa compreensão chama atenção para o impacto aterrorizante sobre comunidades que vivem sob a ameaça constante de uma força descontrolada.

O assassinato de Renee Good se tornou um ponto de inflexão porque ocorreu durante uma operação que vinha aterrorizando moradores de Minneapolis por semanas. Assim como a militarização policial nas favelas brasileiras é criticada por fomentar um clima de medo e violência extrajudicial, as operações da IDF resultam em mortes de civis que traumatizam a população palestina. Enquanto isso, as operações domésticas do ICE, conduzidas com supervisão local limitada, produzem terror e trauma entre imigrantes e o público em geral.

A National Alliance Against Racist and Political Repression (NAARPR) defende estruturas que enfrentam diretamente essa ameaça de terror ao colocar a supervisão civil e a ‘responsabilização’ (combata à impunidade) no centro do policiamento e da fiscalização. Uma supervisão real exige participação comunitária, transparência e poder para moldar políticas e disciplinar as forças de segurança.

A Campanha pelo Controle Comunitário da Polícia da NAARPR exemplifica essa abordagem ao exigir que as comunidades – e não apenas os conselhos internos dos departamentos – tenham autoridade para supervisionar operações policiais, orçamentos e processos disciplinares. Ao democratizar o controle da segurança pública, esses movimentos buscam reduzir a violência e ampliar a responsabilização, garantindo que as agências não operem como forças de coerção sem regulação.

Grupos como o Eye on Surveillance integram a infraestrutura da sociedade civil que pressiona pela existência dessa supervisão, exigindo transparência das polícias e dos operadores de vigilância, e conectando comunidades a seus direitos e a iniciativas de política pública capazes de criar estruturas formais de responsabilização.

Essa rede pesquisa como sistemas de vigilância, do reconhecimento facial ao ‘policiamento preditivo,’ são implantados sem consentimento público e sem transparência adequada, frequentemente direcionados a populações vulneráveis à violência policial.

Sejam as operações do ICE, as operações policiais militarizadas no Brasil ou as tecnologias de vigilância utilizadas pela IDF e globalmente, a dinâmica subjacente é a mesma: agências equipadas com poder estatal e recursos tecnológicos agem sem consentimento comunitário, produzindo terror. Mecanismos de supervisão civil e transparência enfrentam isso ao submeter o policiamento e a vigilância ao controle público, em vez de deixá-los nas mãos de burocracias de fiscalização isoladas.

De Minneapolis ao Rio de Janeiro, até Gaza e zonas de conflito ao redor do mundo, a violência de Estado sob o pretexto da segurança cria ambientes em que civis são aterrorizados pelas próprias forças que deveriam protegê-los.

Reconhecer que agências como o ICE e forças policiais militarizadas podem agir de maneiras que aterrorizam comunidades não é mero recurso retórico; é um chamado à transformação estrutural. Defensores do controle comunitário da polícia e da supervisão civil oferecem alternativas concretas ao poder estatal descontrolado, exigindo transparência, responsabilização e governança democrática do policiamento.

Se quisermos viver sem o medo da força estatal arbitrária e letal, as estruturas de supervisão devem estar enraizadas nas próprias comunidades, com poder para moldar políticas, impor disciplina e assegurar que a fiscalização sirva à segurança pública – e não à repressão e ao terror.

De volta às veias abertas?

Como em toda época de terremoto social, o mundo está de ponta-cabeça. Ninguém, nem mesmo os adversários mais encarniçados de Donald Trump, pode mais lhe negar o caráter rupturista, especialmente neste segundo mandato, vivido por toda parte como tumulto e imprevisibilidade. O experimento “iliberal”, neologismo criado na Hungria de Viktor Orbán, em 2014, para marcar a dissociação autoritária entre democracia e liberalismo, instalou-se de vez no coração do sistema, e daí se espalha agressivamente por todo o Hemisfério Ocidental. Descontada a imprevisibilidade indecorosa dos mapas, é neste hemisfério que estamos politicamente situados – as Américas no seu conjunto e, talvez, a Europa.


Em toda e qualquer ruptura subitamente ficam para trás, deixando só um tênue rastro, as antigas maneiras de pensar. Há apenas alguns anos, o ex-presidente Joseph Biden, um liberal no sentido norte-americano, tentava formular diversamente o conflito global. Ele consistiria na acirrada competição entre regimes democráticos e não democráticos, à frente dos quais a China, depois de interrompida sua relativa liberalização política na segunda década do século 21. A superioridade de uns sobre os outros não se definiria só em termos de bem-estar material, mas também de afirmação de sociedades mais abertas e inclusivas.

O horizonte proposto pelo presidente Trump é de outra natureza. Por um lado, segundo ele, seu país deve renunciar ao papel de Atlas a suportar nos ombros, como antes, a ordem global em nome de princípios liberais. Por outro, bem vistas as coisas, há no argumento trumpista uma nada oculta apologia dos homens fortes e das respectivas autocracias. No plano estritamente pessoal, aliás, são mais do que evidentes as afinidades eletivas entre Donald Trump, Xi Jinping e Vladimir Putin, para não mencionar autocratas menos votados.

Manifestações retóricas à parte, os Estados Unidos passaram a abrir mão do soft power do século americano, que terá se estendido por muitas décadas até a grande recessão de 2008 e suas devastadoras consequências. A cultura daquele país, agora, deve perder seu caráter expansivo e se fechar no louvor paroquial às glórias e aos heróis do passado, considerados pelo metro de um nacionalismo branco e cristão que recorda formas de fascismo.

A identidade “ocidental” proclamada é a negação do Ocidente e dos elementos de universalidade que este último, no seu conjunto, soube ou pôde construir. A contaminação com outras culturas ou civilizações não é mais bemvinda. Não se trata de ordenar razoavelmente a imigração, mas de impedi-la com o objetivo de barrar uma suposta “somalização” – termo de abjeta inspiração racista forjado descaradamente nos círculos dirigentes.

Sintomático, em todo este contexto, o pressuposto de que em nosso tempo a unidade política fundamental é – deve ser – o Estado-nação. O mitológico Atlas, aqui, corrói e corrompe os fundamentos de uma obra que não é só sua, mas, de fato, coletiva, erguida sobre os escombros de grandes conflitos.

Transnacional por natureza, tal obra pretendia limitar a soberania absoluta dos Estados, introduzindo duas novidades capitais. Primeiro, o veto às anexações de território, com fins expansionistas; segundo, a construção paulatina de uma rede de órgãos e instâncias dedicados à promoção dos direitos humanos em cada uma das entidades nacionais. Se quiser, um embrião de sociedade civil internacional, a se movimentar segundo a máxima de que todo poder corrompe e, por isso, deve ser limitado e condicionado.

O programa essencial do trumpismo consiste em destruir esse embrião e, simultaneamente, arremeter contra a própria sociedade civil interna, enfraquecendo os clássicos mecanismos de controle e participação. O resultado pretendido é a disseminação das formas autoritárias de mando em cada realidade nacional, bem como a perigosa competição entre Estados-nação autocraticamente constituídos. E, ao proclamar com brutalidade a consigna “America first”, a certeza é de que, no Hemisfério Ocidental, a primazia caberá, por uma espécie de lei natural darwiniana, ao país econômica e militarmente mais forte.

A União Europeia, por isso, é uma indesejada entidade supranacional a ser cancelada e conduzida de volta aos velhos nacionalismos, responsáveis por séculos de derramamento de sangue. Para esta tarefa, de resto, se convocam e incentivam os tais “partidos patrióticos” da extrema direita, hoje em plena ofensiva eleitoral.

A América Latina, por seu turno, deve se contentar com ser objeto do “corolário Trump” à Doutrina Monroe, destituída de qualquer sentido anticolonial que possa ter tido no passado. Como demonstrado na Venezuela pós-sequestro do ditador, não é impossível que a vontade imperial se combine, sem maiores complicações, com o mesmo regime de antes, simbolicamente decapitado. Se tudo isso faz sentido, só uma resposta profundamente democrática – e cosmopolita, à altura do tempo – impedirá que voltemos a empregar, ainda com mais rigor, a metáfora das veias abertas do nosso continente.

domingo, 25 de janeiro de 2026

Pensamento do Dia

 


Fim de uma era

A Europa foi o centro do mundo desde que as grandes navegações começaram a moldar a geopolítica em que vivemos. Portugal e Espanha dividiram o mundo por intermédio do Tratado de Tordesilhas, que não foi reconhecido por franceses, ingleses e holandeses. Uns invadiram os outros e começaram a dividir as áreas de interesse. Ingleses se espalharam pelos continentes e criaram o império onde o sol jamais se punha, com a inclusão da Índia, a joia da Coroa. Faz sentido. O diamante Koh-i-Noor, um dos maiores diamantes lapidados do mundo, originário da Índia, é a peça central da coroa britânica. O diamante pertencente à Índia foi "cedido" à rainha Vitória em 1848.


Os europeus dividiram a África entre si, com exceção do Congo Belga, que se transformou em posse particular do rei Leopoldo II. Europeus se espalharam pela África e pelas Américas. No sul, Espanha e Portugal dividiram o território. No norte, ingleses dominaram as 13 colônias que se formaram ao longo do Atlântico. Depois, Napoleão vendeu a Louisiana para os norte-americanos, que, em seguida, compraram a Flórida dos espanhóis, o Alaska dos russos e invadiram o México para fazer a costa oeste com Califórnia, Texas, Novo México e outros estados. Surgiu o país chamado Estados Unidos, que fez a guerra de independência contra a Inglaterra com auxílio bélico efetivo dos franceses.

Sem falar no processo de colonização da Ásia e do Oriente Médio, tudo, portanto, começa, na história moderna, pela Europa. Os europeus brigaram entre si duas vezes no século passado. Da segunda, o mundo ocidental sobreviveu por causa da efetiva participação dos Estados Unidos. Evitou a queda da Inglaterra e seu auxílio foi fundamental para auxiliar a União Soviética superar a máquina de guerra nazista. Não fosse esse auxílio, os europeus hoje estariam falando alemão.

E, na Ásia, os povos estariam dominados pelo Japão imperialista. Tudo isso tem preço. Ingleses terminaram de pagar suas dívidas de guerra com os Estados Unidos em 2006. A China recuperou sua independência, expulsou os japoneses da Manchúria e, hoje, é uma potência. A Coreia do Sul, também expulsou os japoneses, e se transformou num tigre asiático, depois de fazer guerra contra seu vizinho do Norte.

Esse mundo, aparentemente, acabou nesta semana.

Donald Trump anunciou que cada país que integra a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) terá que pagar pela proteção que Washington oferece ao continente. Acabou o conforto do guarda-chuva norte-americano. Cada um por si. Lembra o momento quando o russo Mikhail Gorbachev anunciou aos países que integravam a União Soviética que não mais teriam a proteção do Exército Vermelho. Eles optaram pela independência e dissolveram o mundo comunista. Fenômeno semelhante, com sinal trocado, está acontecendo neste momento. Com o agravante de que Trump quer colocar a Groenlândia sob domínio dos Estados Unidos. Sonha em ter o Canadá integrado a seu território. (O Canadá, formalmente, pertence à Comunidade Britânica de Nações, sua autoridade maior é o rei da Inglaterra).

As consequências diretas são claras: a Otan aparentemente perdeu o sentido, uma vez que ela foi criada para conter uma possível invasão dos comunistas. Os comunistas não existem mais, porém Vladimir Putin insiste em dominar a Ucrânia, o que ameaça os países da Europa Ocidental. Trump não faz qualquer pressão contra os russos. Prefere que Zelensky, o ucraniano, faça as concessões para acabar com o conflito. Os europeus estão em pânico porque não possuem meios e modos para confrontar os norte-americanos. Em termos bélicos, nem pensar. No capítulo comércio, podem promover algum dano ao adversário, mas vão sofrer muito mais.

O anunciado tratado entre a União Europeia e o Mercosul sofreu um abalo. Ele terá que ser examinado por instâncias judiciais. Os caipiras são reacionários e temem os produtos originários dos países do sul que são melhores e de menor custo. Eles prejudicam a comunidade na defesa de seus subsídios. Os norte-americanos que construíram o maior império da atualidade elegeram um czar para dirigir suas necessidades. Ele pensa apenas em dinheiro, lucro, investimento e manter o mercado de emprego ativado dentro de suas fronteiras.

O primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, foi objetivo. Disse, em Davos, que "a velha ordem não vai regressar. Estamos no meio de uma ruptura, não de uma transição". Mais claro impossível. O discurso dele foi impressionante. Não reproduzo aqui por falta de espaço. Ele anunciou que seu país vai dobrar o investimento em defesa, com base na indústria local, melhorar o ambiente de negócios, reduzir impostos, incentivar exportações e procurar acordos comerciais com países ou grupos de países, inclusive o Mercosul. Sem querer, o canadense anunciou excelente programa de governo para candidatos que pretendem disputar a Presidência no Brasil, na eleição deste ano.

À margem da lei

"O Agente Secreto" e "Ainda Estou Aqui" expressam a força do cinema brasileiro. E isso merece muita, mas muita comemoração. Ambos os filmes retratam, no entanto, um país à margem da lei, como "Cidade de Deus" ou "Cabra Marcado para Morrer", também aclamados internacionalmente.

"Ainda Estou Aqui" retrata o arbítrio como política de Estado. A tortura, os desaparecimentos forçados e a perseguição de dissidentes foram transformadas em instrumentos de manutenção de poder. A Constituição foi suspensa por sucessivos atos institucionais, que transferiram o poder aos militares, restringiram direitos e retiraram as ações repressivas do controle judicial. Instituições foram criadas ou receberam expressa determinação para torturar e matar.


A partir da história real de Rubens Paiva, "Ainda Estou Aqui" descreve a face mais macabra do regime de exceção. Mas nos brinda, por outro lado, com a força moral dos que sobreviveram e resistiram. A família de Eunice nos comove, com sua coragem e disposição para buscar justiça e construir um país melhor.

"O Agente Secreto", que também se passa durante o regime militar, retrata uma outra dimensão do estado de exceção, que se enraíza no tecido social. Desde a primeira cena somos expostos à banalidade da vida. O corpo no chão não gera nenhuma reação do agente do Estado ou do cidadão. Como se a morte de uma pessoa não trouxesse nenhuma consequência moral ou jurídica. Numa terra sem lei, só os cachorros parecem se interessar por aquele corpo.

A trama nos transporta para a perseguição de um professor e sua família pelo simples fato de estarem determinados a levar suas vidas de forma honesta, não se curvando à ambição empresarial, entrelaçada e protegida pelo regime. Novamente somos expostos às entranhas, não mais do regime, mas dos matadores de aluguel que coabitam a marginalidade com os agentes da lei e os empreendedores de então. Em "O Agente Secreto" os perseguidos não são dissidentes políticos, mas pessoas comuns, que têm suas vidas reviradas simplesmente por agirem com retidão. Mais uma vez, o sopro de esperança e humanidade vem dos que resistem; de Dona Sebastiana, Armando e Flávia.

Impossível assistir a esses filmes sem pensar num Brasil que parece incapaz de superar um profundo mal-entendido com a lei. Mal-entendido que transcende os períodos autoritários. Que se encontra enraizado nas relações cotidianas e no modo como são operadas nossas instituições, por meio do "familismo", exposto por Oliveira Vianna, da perversa "cordialidade", descrita por Sérgio Buarque de Hollanda, do "patrimonialismo", de Raymundo Faoro, do "você sabe com quem está falando?", de Roberto da Matta, ou da "grande conciliação", de Michel Debrun. São espectros que não nos abandonam, escancarando uma indisposição de acatar a lei como regra geral.

É paradoxal que num país em que a imensa maioria da população acorda cedo para trabalhar e cumprir suas obrigações sobreviva uma cultura tão forte e arraigada de descumprimento da lei e desrespeito aos direitos mais elementares.

Da cornucópia do Banco Master, com seus tentáculos sobre a Faria Lima e os Poderes do Estado, incluindo a cúpula de tribunais, à explosão de feminicídios; da chacina comandada pelo governo do Rio de Janeiro, com amplo apoio popular, à tentativa de golpe do 8 de Janeiro, sob o comando do ex-presidente e seus generais; o país parece incapaz de respeitar da lei e suas autoridades, de abraçar um código de conduta.

Que as Eunices e Sebastianas nos deem forças para continuar lutando por justiça e por um país melhor.

'Orwell: 2+2=5': Como chegámos ao futuro que George Orwell quis evitar

Há um certo prazer mórbido em ver Orwell: 2+2=5 numa sala de cinema escura, por isso por favor não esperem pelo streaming. Não aquele prazer cinéfilo de festival de cinema, mas o prazer desconfortável de perceber que o escritor que achámos paranóico era, afinal, só um tipo atento ao que aí vinha. Raoul Peck conduz este documentário como quem levanta um cadáver histórico e constata que, surpresa, o morto está mais vivo do que todos nós juntos. Em 2026, George Orwell (1910-1950) parece indirectamente um influencer involuntário do nosso colapso democrático, só lhe faltou ter contas nas redes sociais e um podcast político.


Peck não faz o clássico documentário de escritor: nada de colecções de depoimentos de especialistas bocejantes ou teses académicas embaladas em música de piano. O cineasta haitiano, residente nos EUA — já mestre em provocar ressacas morais com Eu Não Sou o Teu Negro (2017), a partir da obra do escritor James Baldwin — prefere usar Orwell como lente, espelho e arma. A vida do autor está lá, claro, desde o Eric Blair — o seu verdadeiro nome — colonial ao tuberculoso exilado na ilha de Jura, mas funciona sobretudo como backstage do verdadeiro espectáculo: a forma como o totalitarismo se veste, se adapta e se infiltra até parecer lifestyle. Orwell tinha aquele talento irritante de simplificar o terror: “Liberdade é escravidão”, “Ignorância é força”, “Guerra é paz”. Hoje chamamos-lhe “narrativa”, “spin”, “media training” e “soft power”. Que delicados que somos todos nós.

Orwell: 2+2=5 joga imagens de Basra, Ucrânia, Gaza, Washington e outras geografias do desastre com a voz delicadamente “assassina” do actor britânico Damian Lewis (Homeland) a citar Orwell. A montagem faz o que os noticiários evitam: liga pontos. De repente, a frase sobre “ser corrompido sem viver num regime totalitário” cai em cima de imagens de líderes eleitos com saudades do autoritarismo, dos influencers do ressentimento, e da malta que grita “liberdade!” e diz ser contra o “sistema”, enquanto defende censura, vigilância e deportações. É bonito ver Orwell a constatar, lá do além, que a estupidez moral também evolui, apesar de toda a tecnologia.

Há quem acuse Peck de didatismo e sim, está lá a fúria discursiva, o dedo na ferida, os paralelos explícitos. Mas talvez seja precisamente isso que faltava. O cinema documental político anda há anos a tentar convencer-nos com metáforas, metáforas e mais metáforas. Peck abdica da subtileza e diz: olhem, isto foi o que Orwell escreveu, isto é o que está a acontecer, isto é o que vocês estão a permitir. Podemos discutir depois se é fascismo, proto-fascismo, populismo, capitalismo de vigilância ou apenas a versão tecnológica da velha estupidez humana. Para Peck, o essencial é a mecânica: primeiro distorce-se a linguagem, depois distorce-se a realidade, depois distorce-se a memória, e no fim insiste-se no 2+2=5, como na tortura, e ninguém reclama porque toda a gente está demasiado ocupada a comentar posts das redes sociais, e ler pouco livros, jornais ou revistas.

A certa altura, o documentário deixa de ser sobre George Orwell e passa a ser sobre nós. Sobre a facilidade com que aceitamos tecnologias que monitorizam tudo, governos que reescrevem factos, plataformas que modulam o que vemos, jornais que abdicam de chamar mentira à mentira, e populações que confundem liberdade com impunidade. Orwell imaginou um grande televisor bidirecional na sala, nós pagamos para ter um pequeno no bolso, com GPS, histórico, publicidade personalizada e mera teoria da conspiração que grava tudo que dizemos, para depois aparecerem os produtos nos banners. O Big Brother não precisou de invadir as nossas casas: nós fizemos fila para o comprar nas Apple Store ou da Goggle.

Peck percebe bem que a genialidade de Orwell não estava na previsão dos tiranos — tiranos existem desde que alguém descobriu que o poder é viciante — mas sim na psicologia da servidão voluntária. A verdadeira violência totalitária não é a tortura na Sala 101, é a sensação de que já não vale a pena resistir porque a realidade se fragmentou ao ponto de cada um ter a sua. É a democracia tratada como entretenimento. É o cidadão convertido em consumidor. É a mentira transformada em hábito higiénico.

No fim, Orwell: 2+2=5 funciona como uma espécie de consulta médica: Orwell diagnosticou o tumor, nós ignorámos os sintomas, e Peck aparece a dizer que o cancro já fez metástases. Não é um filme pessimista, é simplesmente realista. O otimismo, esse, ficou para depois do genérico, quando regressa a internet e os mesmos algoritmos que nos serviram propaganda ontem já estão a afinar o que veremos amanhã.

O que sobra é a pergunta que Peck não formula, mas deixa a marinar: se Orwell não era ficção, então de que lado da história estamos nós? Porque de uma coisa Orwell tinha a certeza: o futuro não é escrito pelos que dormem. É escrito pelos que acreditam que 2+2=4, mesmo quando o mundo inteiro jura que dá 5.

Quando os loucos conduzem os cegos

Não são apenas os vivos que nos atormentam, os mortos também. Le mort saisit le vif!.
Karl Marx, prólogo de "O capital"

Nascemos como território aberto: feitoria, praias, água, alimento e sombra para o repouso de corsários de todas as bandeiras; o mundo chegava para a aventura predatória dos séculos seguintes de apropriação da terra dada, a caça à natureza e aos homens, povos nativos preados e, com a Colônia, a escravidão de negros importados para o eito e a morte antecipada.

Bem mais tarde emerge, sem animação orgânica, uma ideia de povo em busca de nação, ausente o projeto de colonizador (com o qual não podia arcar a decadência irreversível do império lusitano); historiadores apressados referem-se às lutas travadas por portugueses, africanos escravizados, tropas de brancos pobres e indígenas escravizados como o início da construção de uma nacionalidade, nada obstante a impossibilidade de identificar a mínima consciência de pertencimento comum na expulsão da experiência do príncipe de Nassau (1654), modernizante em face da passividade portuguesa, ainda que não cogitasse de qualquer sorte de mobilidade social, ou da criação de mercado interno. Não havia uma nação a contrapor-se ao sonho holandês na América.

Éramos algo como uma malha de feitorias sob a coroa do pequeno Estado português, em trânsito entre o domínio espanhol e o britânico, cuja preeminência nos condicionaria até o fim da Primeira Grande Guerra (1914–1918) e a ascensão dos EUA, que se tornam a unipotência capitalista após a queda do Muro de Berlim e a capitulação da URSS.

Continuávamos na periferia, como se cumpríssemos um determinismo que a leitura dialética da História não justifica. Antes, no nascedouro do século XVI, na periferia do mercantilismo do capitalismo nascente, ainda pré-industrial e pré-estatal. Agora, na periferia do capitalismo pós-industrial, sob a égide de um imperialismo Moloch.

Em 1627, em sua História do Brasil, o sábio e precursor Frei Vicente de Salvador profligava as limitações estratégicas do português: desapetrechado política e economicamente, pugnava salvar-se mediante a conservação da terra apossada sem luta, e salvá-la por meio de tratados negociados com nações mais poderosas: “Da largura que a terra do Brasil tem para o sertão não trato, porque até agora não houve quem a andasse por negligência dos portugueses, que, sendo grandes conquistadores de terras, não aproveitam delas, mas contentam-se de andar arranhando ao longo do mar como caranguejos”.

Vida social, nenhuma. Vida política, tão-só a necessária para assegurar o domínio português: os primeiros agentes do fisco, os primeiros militares, os primeiros fortes de defesa, os primeiros agentes da justiça reinol; os padres e frades catequizando os catecúmenos, desculturalizando o gentio e o negro, matando suas almas; os jesuítas catequizando, educando, aportuguesando e construindo, território afora, suas “repúblicas”, seus aldeamentos, suas “missões”, um modelo de colonização clerical que palmilhou quase todo o país daqueles idos; caminhando desde a Amazônia e o Centro-Oeste ao Rio Grande do Sul, à Argentina e ao Paraguai; chegaram a mobilizar entre 250 e 300 mil guaranis, até a fúria pombalina que os expulsou do Brasil.

Nascemos na periferia do mercantilismo do século XVI, do capitalismo nascente, ainda pré-industrial e pré-estatal, e nossos donos de então, pais e mães dos donos de hoje, logo se aclimataram no ócio, pois havia índios preados para o trabalho, africanos às mãos cheias para o eito e a morte antes do tempo. A história oficial consagrou como “heróis da Pátria” os genocidas das Entradas e Bandeiras. Nesse Brasil, onde havia produção, só o escravo trabalhava, o que não explica tudo, mas sugere um campo de reflexão. Darcy Ribeiro lembra a carne e a alma dos indígenas e dos negros que os brancos caçavam para produzir e poder acumular suas riquezas. E madeira, e pedras, e algodão, e mais isso e mais aquilo, tudo o que o mercado europeu requeria, pois aqui, em se plantando (pelo braço escravizado), tudo dava, tudo dá; e logramos plantar cana e produzir açúcar para exportar à Europa, de onde importávamos tudo: manufaturados, ideologia, valores, cultura, visão de mundo, por intermédio dos entrepostos portugueses que nos exploravam como monopólio comercial.

O “brasileiro” é o português que vem “fazer a América”, enriquecer e voltar a Portugal para construir igrejas, e será personagem de Camilo Castelo Branco. O proprietário de engenho é um simples feitor muito rico. Não é um empreendedor, não é um pioneiro. É um homem da terra, reacionário, violento, inculto; mas, supunha, falava com Deus; precatado, mantinha em casa uma Capela devotada ao Cristo ou à Imaculada Cinceição onde se casavam os herfeiros com os herdeiros das terras vizinhas.

São essas as nossas raízes, as de um Estado classista moderno na sua abjeta concentração de renda e espoliação social; raízes que explicam ainda o mal de origem que intentam negacear: construído aos trancos e barrancos, isento de projeto de ser, desprovido de destino, o Brasil não é, está sendo; algo permanentemente em elaboração, sem bússola, sem azimute, talvez com ponto de partida, mas jamais dispondo de horizonte de chegada: sem régua e sem compasso, manipulado pela dialética das circunstâncias nas quais não ousa intervir.

Na transição para o capitalismo, a burguesia que nos coube já não era revolucionária quando aqui desembarcou, e jamais seria nacional, condicionada na modernidade pelos interesses do capitalismo globalizado. Jamais se desapartou de suas origens: cultiva o longo passado colonial e escravagista de seus avoengos. Assim vê o mundo e nele se vê.

Essas, as nossas circunstâncias perdurantes. Sem noção de si, carecemos da noção de mundo; sem projeto de ser, não temos porto de chegada. Ficamos com os argonautas, a navegar, porque navegar é preciso. E la nave va, mas não nos salva da alienação: a crise é objetiva, material, concreta e nos fisga no contrapé da irrelevância. Assim, quietos, nos escondemos diante da crise, que é uma crise nossa, presente: ela está no mundo, mas está diretamente na América do Sul e no Brasil.

Fruto da formação histórica que acima se tentou resumir, nossa classe dominante, trêfega e traficante, não tem condições de dialogar com a realidade; alienada e ideologicamente colonizada, não se identifica com a nação, não a pode compreender. Nada se lhe deve cobrar ou esperar.

Mas talvez ainda seja pertinente chamar à cena a “sociedade civil”. Ou a academia, silente, omissa. Não há condições de cobrar o que quer que seja do movimento sindical, mas talvez ainda seja pertinente exigir uma postura digna dos partidos que ainda integram essa larga avenida que reúne progressistas, esquerda e centro. Era e ainda é justo, e ainda oportuno, exigir de nosso governo um mínimo de ação objetiva, ou seja, algo além das boas notas expedidas pela boa burocracia do Itamaraty. Que errou, com o terceiro andar do Palácio do Planalto, já lá atrás, reduzindo a agressão imperialista a uma chantagem tarifária, ao fim e ao cabo delegando as negociações de Estado, que haveriam de ser políticas, à intermediação de produtores brasileiros de carne e outras commodities com autoridades dos EUA, em escritórios de advocacia e lobby de Washington. Soa mal a dificuldade do nosso governo de dizer o que pensa sobre o condomínio que os EUA querem instalar sobre os escombros de Gaza. É preciso salvar a política “ativa e altiva” de Celso Amorim.

A questão, como é sabido, volta para seu campo nuclear, que é a política, de onde, a rigor, jamais saiu.

Na crise que o imperialismo agrava a cada dia — Europa, Oriente Médio, Palestina e Israel, Rússia, Ucrânia, Irã, Dinamarca/Groenlândia, América Latina e, nela, tanto a América do Sul, onde estamos, convivendo com a ascensão da extrema-direita, que nos promete isolar, quanto com a invasão da Venezuela, na nossa fronteira amazônica, o que não é irrelevante, em qualquer momento e em qualquer circunstância.

Que dizer quando o chefe da diplomacia de guerra da Casa Branca anuncia como nova política a retomada do “grande quintal”, proclamados o fim da política, o fim do multilateralismo, o fim dos organismos internacionais? O essencial está na ululante falência do direito internacional; inane.

A nova ordem é a lei do mais forte, o novo é o Velho Oeste. Soberania nacional não é um valor moral, nem muito menos jurídico, ensina a doutrina, ensina a vida; é uma força objetiva, concreta, palpável, que depende exclusivamente de si. A esse predicado os estrategistas chamam de capacidade de dissuasão. De que carecemos. Porque nossas forças não estão adequadamente armadas, porque sua formação ideológica é subalterna aos interesses do imperialismo, porque o governo ainda não conseguiu construir com a sociedade sua política de defesa.

Porque, ao final, carecemos de um projeto para o país.

Sem projeto de destino, sem causa, o Brasil, que já aspirou papel de liderança no plano internacional, vê-se reduzido à condição de objeto: peão em meio a outros peões que se multiplicam no tabuleiro de xadrez, onde reina o soberano imóvel, decidindo os destinos do mundo.

Lamentavelmente, vítimas de crassa falência analítica — como se a história não estivesse à nossa disposição para ensinar aos que querem saber —, não nos damos conta do quadro de realidade, como se ele fosse apenas um drama estranho ao nosso, representado noutro teatro. Ora, o enredo é único, a representação é única, o elenco é único, a plateia é única: somos nós. Os tempos de hoje trazem os tempos sempre contemporâneos de Shakespeare e seu Rei Lear, na fala de Gloucester (Ato IV, Cena 1): “É a peste do nosso tempo: quando os loucos conduzem os cegos”.

Entre sombras e permanências: quando a pobreza cai, mas permanece

Quase 25 anos após o início do século XXI, os indicadores sociais sugerem avanços importantes: a pobreza recua em certos períodos, o acesso à educação se amplia e políticas públicas produzem efeitos mensuráveis. Ainda assim, algo resiste. Quando o foco se desloca para as desigualdades raciais e de gênero, as hierarquias sociais revelam uma notável estabilidade. Os números se movem, mas as estruturas permanecem.

Graças a Amartya Sen, economista indiano, ganhador do prêmio Nobel de economia em 1998, é reconhecido que a pobreza é um fenômeno multidimensional: o problema não está apenas no valor do dinheiro, mas no que ele permite fazer na vida real. Sen afirma que não basta olhar para a renda; é preciso observar o que a pessoa consegue, de fato, fazer com ela, o que ele chama de “funcionamentos”, como se alimentar bem, ter saúde e morar com dignidade.


No entanto, em sociedades atravessadas por desigualdades históricas, a pobreza não se manifesta como falha de capacidades individuais, mas como resultado de estruturas de dominação que limitam a conversão de recursos em liberdade real. Tratar a pobreza apenas como insuficiência de meios corre o risco de naturalizar políticas paliativas que não interrogam as bases excludentes da sociedade.

Ao longo das últimas três décadas, o Brasil registrou movimentos significativos de redução da pobreza, alcançando, em 2024, os níveis mais baixos desde meados da década de 1990. A extrema pobreza diminuiu de patamares próximos a 25% para níveis inferiores a 5%, impulsionada pelo aquecimento do mercado de trabalho e pela expansão de políticas como o Bolsa Família.

Contudo, emerge uma questão central: quem permanece pobre quando a pobreza muda? A desagregação dos indicadores por sexo e pertencimento étnico-racial revela que homens e mulheres afrodescendentes apresentam, de forma sistemática, taxas de pobreza superiores, sendo as mulheres negras as últimas a se beneficiarem dos ciclos de recuperação.


No Brasil, pessoas pretas e pardas representam 57% da população, mas concentram mais de 70% dos pobres e extremamente pobres. Em 2024, enquanto pouco mais de 2% da população branca vivia em extrema pobreza, esse percentual era de aproximadamente 5% entre pessoas pardas, evidenciando que a pobreza está associada a hierarquias que limitam o acesso a oportunidades.

Essas desigualdades de rendimento permanecem marcantes: em 2024, trabalhadores brancos apresentavam rendimentos por hora superiores aos de pretos ou pardos em todos os níveis de instrução. A maior disparidade ocorre no ensino superior completo: enquanto brancos recebiam, em média, R$ 43,20 por hora, pessoas pretas ocupadas recebiam cerca de R$ 29,90. Entre 2012 e 2024, a renda domiciliar per capita da população negra manteve-se em torno da metade daquela observada para a população branca. Embora a renda de todos os grupos tenha crescido, o avanço não foi suficiente para alterar a posição relativa de cada grupo; em termos analíticos, todos melhoraram, mas a distância entre eles permanece.

O sistema tributário brasileiro é caracterizado pela forte incidência de impostos indiretos sobre o consumo, que recaem proporcionalmente mais sobre os grupos de menor renda. Como a população negra está sobrerepresentada nos estratos mais baixos da distribuição de renda, esse modelo fiscal produz um efeito regressivo racializado. No interior desse grupo, as mulheres negras são particularmente afetadas, pois concentram rendimentos mais baixos, inserção ocupacional precária e responsabilidade quase exclusiva pela reprodução material dos domicílios, o que faz com que uma parcela maior de sua renda seja absorvida por tributos embutidos em bens essenciais.

Apesar dos avanços observados nas últimas décadas – como a ampliação do acesso à educação superior, a consolidação de políticas de ação afirmativa, o aumento da presença de pessoas negras nas universidades públicas e no serviço público, bem como melhorias graduais nos indicadores de escolarização e renda – persistem desigualdades raciais profundas. Essas desigualdades se expressam, sobretudo, na pós-graduação, na produção científica, nos cargos de prestígio e no mercado de trabalho qualificado. O racismo sistêmico restringe a conversão dos ganhos educacionais em mobilidade social duradoura, evidenciando que o acesso, por si só, não garante a conversão de recursos em capacidades efetivas.

Para compreender essa persistência, o conceito de lócus fraturado da pobreza evidencia que o empobrecimento é uma experiência social situada que escapa unicamente à lógica da mensuração monetária. Problematizar a pobreza a partir desse lugar significa reconhecer que ela é atravessada simultaneamente pela privação material e pela produção de práticas de vida que os números convencionais não conseguem capturar.

A leitura da pobreza oscila, assim, entre a intuição do filósofo Heráclito de Éfeso (tudo muda: as taxas caem) e a de seu opositor Parmênides de Eléia (nada essencial se transforma: as hierarquias ficam). Como na Alegoria da Caverna de Platão, presente no livro VII do diálogo A República, as estatísticas registram o movimento das sombras, mas as formas que geram essas imagens persistem. O desafio é transcender a gestão técnica da escassez para confrontar as estruturas de dominação e as hierarquias que sustentam a economia política das desigualdades.

Os EUA caminham para um confronto interno grave

Uma guerra civil anuncia-se através de múltiplos sinais. Numa primeira fase, as partes em confronto questionam o patriotismo umas das outras; acusam-se mutuamente de servir a interesses estrangeiros e enumeram os motivos que justificariam o encarceramento — ou mesmo a eliminação — dos adversários.

Num estádio mais avançado, instituições do Estado passam a duvidar da legitimidade de outras instituições do Estado. Quando diferentes corpos armados — polícia, exército, forças federais — começam a ameaçar-se mutuamente, a guerra pode estar à distância de um breve sopro.


Foi o que se viu após o assassinato de uma mulher desarmada por agentes dos Serviços de Imigração e Alfândega (ICE) dos EUA. A chefe da polícia de Filadélfia, Rochelle Bilal, afirmou que, caso esses agentes voltassem a cometer crimes na cidade, não escapariam à justiça local. Acrescentou ainda que Donald Trump — a quem se referiu como “o criminoso na Casa Branca” — não poderia impedir a aplicação da lei contra agentes federais que violassem a legislação municipal.

Trump, por seu lado, vem ameaçando prender governadores e outras autoridades que o contrariem. No dia 16, a Justiça dos EUA abriu uma investigação criminal contra Tim Walz, governador do Minnesota, e Jacob Frey, presidente da Câmara de Mineápolis, alegando que ambos teriam atentado contra operações policiais federais.

Toda a guerra civil começa pela palavra. A escalada retórica entre figuras centrais da vida política e social promove e amplia o ódio público. As pessoas enfrentam-se primeiro em casa, em família, antes de se confrontarem nas ruas: vizinhos contra vizinhos, de forma progressivamente mais brutal.

Convém lembrar que tudo isto ocorre num país onde é legal adquirir armamento de guerra e onde prosperam grupos paramilitares extremistas.

O ICE, criado em 2003 com objetivos claros e legítimos, vem se transformando numa entidade sombria — uma espécie de “camisas castanhas” de Donald Trump. Nos últimos meses, a instituição tem recrutado centenas de extremistas e multiplicado as suas ações, numa teatralização da violência cujo objetivo, mais do que aterrorizar imigrantes ilegais, parece ser o de preparar o terreno para confrontos mais amplos. Trump gosta de brincar com a ideia de cancelar as eleições intercalares de novembro. Uma dessas ocasiões ocorreu num encontro com o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky: “Você diz que durante a guerra não é possível realizar eleições. Então, se estivermos em guerra com alguém, não há mais eleições? Acho isso bom.”

Donald Trump sabe que, se nas eleições intercalares de novembro o Partido Democrático conquistar as duas câmaras, corre o risco de ser rapidamente removido do cargo. Assim, a menos que o Partido Republicano encontre um fôlego novo e inesperado — hipótese que hoje parece remota —, os Estados Unidos caminham para um confronto interno grave, que poderá explodir nos próximos meses.

As guerras civis infiltram-se no cotidiano, grito a grito, desmando a desmando, conflito a conflito. Quando reparamos, já a casa está em chamas.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

O eco perigoso das palavras que ameaçam

Vivemos um tempo em que a política internacional parece ter regressado a uma forma primitiva de comunicação: a da ameaça disfarçada, da insinuação violenta e da agressividade lançada como instrumento de poder. Um líder mundial, nos seus mais recentes discursos públicos, tem dado voz a um estilo de intervenção que mistura desprezo, intimidação e hostilidade aberta — uma linguagem que não apenas perturba, mas que altera o ambiente estratégico global. Há momentos em que se sente, quase fisicamente, o mundo a encolher perante certas palavras; não por serem novas, mas porque reaparecem num tempo que já não tem margem para erros.

A História ensina-nos que a linguagem política nunca é inocente. No século XIX e início do século XX, antes de qualquer declaração formal, um Estado podia enviar uma mensagem inequívoca simplesmente ao deslocar uma frota de guerra para junto da costa de outro país. Era a chamada gunboat diplomacy: uma retórica feita de aço e vapor. Os navios comunicavam mais do que qualquer nota diplomática: diziam “cedam” sem uma única palavra, mostrando que a ameaça não era abstrata, mas física, material, pronta a agir. O analista britânico James Cable estudou exaustivamente esta prática e demonstrou como a presença militar funcionava como linguagem coerciva — eficaz precisamente porque conjugava silêncio e intimidação. Um navio, ali parado, dizia tudo.

Com o pós‑Segunda Guerra Mundial, a exibição de poder mudou de forma, mas não de essência. Já não eram as canhoneiras a pairar no horizonte; era a ameaça, calculada ao milímetro, de destruição total. No auge da Guerra Fria, o teórico Thomas Schelling viria a descrever esta lógica como “diplomacia da violência”: não a violência exercida, mas a violência anunciada. A ameaça torna‑se um instrumento de regateio, uma peça no tabuleiro que permite a cada ator “fazer saber” o custo de uma provocação. Daí que as palavras — mais do que os mísseis, mais do que as tropas — tenham passado a carregar o peso de possíveis catástrofes. A linguagem transformou‑se em arma: cada frase pode aproximar ou afastar o conflito, cada tom pode abrir portas ou fechá‑las para sempre. Schelling dizia que, numa relação tão delicada, a firmeza não podia dispensar a contenção. Um líder que não mede a voz pode, involuntariamente, desencadear aquilo que mais teme.


A Crise dos Mísseis de Cuba, em 1962, tornou esta verdade impossível de ignorar. Quando o mundo esteve a poucos centímetros de uma catástrofe nuclear, não foram gritos, nem bravatas, nem insultos que evitaram o desastre. Foram cartas cuidadosamente redigidas, firmes mas controladas, escritas com a precisão de quem sabe que cada palavra transporta consequências irreversíveis. A correspondência entre Kennedy e Khrushchev tornou‑se exemplar, porque uniu a clareza da exigência ao reconhecimento da vulnerabilidade mútua. Não havia teatralidade; havia responsabilidade. A linguagem, nesse momento, salvou vidas — possivelmente milhões.

É à luz desta História que devemos observar o presente. Nos discursos recentes daquele líder global que tantos ouvem — e muitos temem — surgem elementos que ecoam os piores capítulos da comunicação internacional: a personalização da ofensiva, o desprezo pelos parceiros, o enaltecimento da força como ferramenta natural de relação e a ameaça sugerida como forma de pressão. Não estamos perante meras frases soltas, mas perante um estilo comportamental que fragiliza o sistema internacional, que confunde aliados, que encoraja adversários e que, sobretudo, normaliza a ideia de que a política externa pode ser conduzida ao ritmo do impulso e da humilhação. De uma certa demência, provavelmente.

Num mundo hiperligado, onde cada declaração se transforma em ação potencial, a agressividade verbal já não é apenas um gesto simbólico: é um risco real. Os Estados observam, avaliam e reagem não apenas ao que é feito, mas ao que é dito — e ao modo como é dito. Quando um líder fala como se o mundo fosse um ringue, uma arena, o mundo começa a comportar-se como tal.

Perante isto, a Europa tem uma responsabilidade histórica — talvez a mais importante das últimas décadas. Um continente que nasceu da memória da devastação e que construiu a sua identidade política sobre o primado do direito, da cooperação e da previsibilidade, não se pode dar ao luxo de ceder à tentação de imitar o estilo hostil que hoje se alastra. O que se exige não é silêncio; é altura, elevação. Não é aquiescência; é firmeza sem estridência. A Europa deve responder com a força tranquila das instituições que criou, com a disciplina do discurso que preserva pontes, com a clareza moral de quem sabe que a paz começa na forma como se fala.

A linguagem europeia deve ser ancorada no direito internacional, precisa na descrição dos factos, firme na defesa das normas e, sobretudo, imune à retórica da intimidação. Sempre que a agressividade surgir, a resposta não deve ser subir de tom, mas subir de nível. A serenidade, quando sustentada pela lei e pela convicção, não é fraqueza; é estratégia. A diplomacia não vive de volume — vive de autoridade. E a autoridade, na política internacional, conquista‑se pela capacidade de não perder a cabeça quando outros a perdem.

Se há algo que a história confirma, é isto: as palavras podem precipitar desastres — ou evitá‑los. Hoje, mais do que nunca, precisamos da segunda hipótese.

A língua portuguesa que aprendi

A principal virtude que a linguagem pode ter é a clareza e nada
nos afasta tanto dela como o uso de palavras pouco familiares
Hipócrates

A leitura de muitas páginas dos nossos melhores jornais, bem como a visita de certos centros comerciais, é, para mim, o mesmo que visitar o lado obscuro da lua. A começar pelos títulos, nos jornais, não percebo rigorosamente nada: eles revelam, em condensado, toda a minha ignorância. Por exemplo, na página de CULTURA, do PÚBLICO, do dia 29 do corrente mês, deparo com este charabiá:
A PARTIR DE SÁBADO, a bienal BoCA CONVIDA AO PAUSE EM TEMPOS DE SWIPE E DE SCROLL.

Olho para isto e fico, como qualquer leitor medianamente informado: perplexo e quase em estado de choque. Será esta a minha língua? Estarei em Portugal? Terei morrido e terei entrado em qualquer departamento bizantino do Além?

Hoje em dia, quem não polvilhe os seus textos com uns pozinhos de inglês, não é gente que preste. E quanto mais obscuro o calão usado, melhor. É o CEO, é o SPREADING, é o BUSINESS SCHOOL, é o TOP10, a RENTRÉE (desta vez recorre-se a uma palavra francesa que os ingleses também usam, o que lhe dá um sabor novo), são os cantores portugueses que adoptam nomes ingleses, é o CHAIRMAN, o BOARD, o PORTUGAL CAFÉ, em vez de CAFÉ PORTUGAL, tal como em português, e por aí fora. É como se tivéssemos vergonha da nossa própria língua e precisássemos de a “enfeitar” com um cheirinho anglo-saxónico, usando palavras que têm o seu perfeito equivalente em português. É a piroseira, enfeitando-se de snobeira, no seu máximo esplendor. Aqui mesmo ao pé de casa, existe um sítio em que se servem bebidas, com este título prodigioso: LIQUID HALL. Não é mesmo chic? As lojas, nos grandes centros, são uma contínua homenagem à nossa língua-mãe: Zara Home, Stone by Stone, Silver Field, Body Cosmetics, Best Travel...Tão distinguished! Tão internacional!

Nesta Babel grotesca e provinciana, sinto-me como se deve ter sentido o falecido Príncipe Phillip, Duque de Edimburgo, ao ver-se assim tratado, num país africano: “Fella belonging Mrs. Queen”. Estes utentes lusíadas da língua de Shakespeare fazem-me atrozmente lembrar aqueles utentes da língua urdu a definirem, em inglês, o marido da falecida rainha do Reino Unido.

O grande Stuart Mill dizia, em pecado de flagrante optimismo, que a linguagem é a luz do espírito. Mas esta espécie de urdu anglo-saxónico, que por aí se espaneja, não ilumina, antes obscurece o espírito, fazendo da língua uma amostra de areia mijada.

Eugénio Lisboa

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Pensamento do Dia

 


Criptomoedas – O novo calcanhar de Aquiles das sanções internacionais?

Drones, sistemas antiaéreos, mísseis, todos disponíveis para venda na página de internet da Mindex, o centro de exportação do Ministério da Defesa do Irão. Como forma de pagamento, são aceites criptomoedas. E assim, sem esforço, se ludibria o sistema de sanções internacionais.

Embora as sanções isoladamente, no caso iraniano e nos demais, não resolvam os problemas subjacentes, são um instrumento importante para assegurar uma ordem mundial mais segura, sem recurso a intervenções armadas. As sanções são hoje dirigidas a pessoas, empresas e setores.

As democracias ocidentais têm utilizado os bancos para implementar o sistema de sanções. A lei impõe que verifiquem a identidade dos titulares de contas e a proveniência dos fundos, devendo bloquear transações e informar as autoridades sempre que detetem operações suspeitas ou haja coincidência com os nomes e atividades elencados nas listas de sanções.

Um sistema fraco permite a criminosos comuns e oligarcas utilizar fundos ilegalmente obtidos para proveito próprio, adquirindo propriedades no Ocidente. Mansões em Londres e na Riviera Francesa, clubes de futebol, obras de arte…

A efetividade do sistema vinha sendo promovida, em grande parte, pelos Estados Unidos da América que, até 2024, multaram, severamente, instituições bancárias sempre que detetaram incumprimento de sanções. O valor elevado das multas – a título de exemplo, em 2014, o BNP Paribas foi multado em nove mil milhões de dólares, por processar transações envolvendo o Irão, Cuba e o Sudão – impulsionou os bancos a investir em sistemas de deteção e a colaborar com as autoridades.

A efetividade do sistema (já stressada pelo allure do lucro fácil) está ora minada pelas stablecoins e pela política pró-crypto da Administração Trump.

As criptomoedas permitem transferir fundos sem recurso ao sistema bancário internacional e de forma anónima. A desregulação – dizem-nos… nada pode parar a inovação das fintech, pois é aí que mora o futuro – veio permitir serviços isentos de deveres de identificação e investigação. É o caso das apps no Telegram que permitem transferir criptomoedas entre wallets e oferecem cartões pré-pagos que permitem levantar fundos em caixas automáticas.

Circulando fundos entre wallets anónimas, é possível esconder a origem dos fundos e dificultar investigações criminais. A conversão em moeda, sobretudo dólares, é agora facilitada pela stablecoins. Criptomoedas, em que o emitente deve aplicar montante equivalente ao valor facial das criptomoedas em contas bancárias em dólares americanos e dívida pública americana. Chamaram à legislação que criou o regime das stablecoins “GENIUS Act”, e, na perspetiva da Administração Trump, é certamente genial, pois permite aumentar exponencialmente os clientes de dívida pública americana, libertando da pressão do “bond market” (mercado onde se transacionam os títulos representativos da dívida pública). Este tem um poder imenso, e perante orçamentos do Estado irracionais, faz disparar o custo da dívida pública. No Reino Unido, o governo de Liz Truss, em 2022, durou apenas 49 dias. Em Portugal, no momento da intervenção da Troika, os juros da dívida pública ultrapassavam os 9%.

A par da desregulação – afinal a Administração Trump está apostada em promover o mundo cripto –, o aliviar da pressão penal. Em 2025, as multas aplicadas pelo governo americano foram 64% inferiores a 2024, sendo que, logo após a tomada de posse de Trump, foram suspensas investigações às plataformas de criptomoedas.

No mundo “pós” – pós-Gaza, pós-Venezuela, pós-… – cabe à Europa, e aos seus cidadãos, liderar e assumir os custos de proteger os pilares de uma ordem mundial que (com as suas falhas) permitiu níveis de desenvolvimento humano nunca antes alcançados. Regular as criptomoedas faz parte dessa liderança.
Sofia Santos Machado

Massacre no Irã deixa lições

O Irã é um país distante, eu sei. No entanto não é tão distante quando se sabe que milhares de pessoas são mortas lutando pela liberdade.

Por coincidência, na semana anterior ao massacre eu tinha dado um livro a minha filha: “Lendo Lolita em Teerã”. Sua autora, Azar Nafisi, é uma de minhas referências na tentativa de entender o país. Professora de inglês, autora de ensaios sobre Vladimir Nabokov, ela escreveu uma autobiografia interessante, “Things I've been silent about” (Coisas sobre as quais silenciei).


O livro revela o panorama intelectual do país antes da Revolução Islâmica. Azar Nafisi tinha uma posição privilegiada, pois sua mãe fora parlamentar e o pai, prefeito de Teerã. No livro, ela se preocupa muito com o futuro das filhas criadas numa atmosfera familiar liberal, que poderiam ter um futuro terrível na ascensão dos aiatolás. Interessante ver ilustrações, ainda em 1980, com fotos de mulheres, inclusive a autora, protestando contra o código de vestimentas muçulmano.

Isso me ajudou a entender o forte movimento de mulheres do Irã que mais tarde, em 2022, sacudiu o país. Não só uma jovem foi morta pelo regime na época, como esse tipo de assassinato prosseguiu nos dois anos posteriores. As mulheres são a principal força de oposição ao regime teocrático.

Mas as revoltas de agora trazem fatos novos. O primeiro é a presença dos jovens, aparentemente a maioria dos mortos pela repressão. Seus corpos eram levados de caminhão à morgue de Kahrizak, no sul de Teerã. São dados obtidos pelo jornal Le Monde por meio de testemunhas dos massacres.

Assim como as mulheres são atingidas por um tipo de repressão específica da visão de mundo dos aiatolás, os jovens agora se rebelam contra a falta de perspectiva dramatizada pela crise econômica.

Há outro fator nas revoltas de agora, algo que ainda não era sentido tanto no tempo em que o pai de Azar Nafisi foi prefeito de Teerã: a crise hídrica. Não há água suficiente na cidade e noutros pontos do país. O assunto é de tal gravidade que se chegou a pensar em transferir a capital para outro ponto do país. Mas como fazer a mudança de 10 milhões de pessoas na capital e mais de 4 milhões na área metropolitana? É um problema insuperável, pois os mananciais já estão esgotados. A falta de água, a crise econômica e a permanente opressão das mulheres, num país pressionado por Israel e pelos Estados Unidos, são o cenário de uma crise permanente, apesar da crueldade do sistema teocrático.

A resposta do governo brasileiro ao massacre foi tímida por causa dos laços políticos e comerciais. Os setores progressistas, feministas inclusive, não se comovem quando a opressão e crueldade acontecem no campo adversário dos Estados Unidos. Essa é uma grande vulnerabilidade do campo de esquerda. A sensibilidade seletiva nos leva a caminhos muito perigosos em termos nacionais.

Considera-se a corrupção nas altas esferas como tema sem importância histórica, com isso a credibilidade das instituições vai para o vinagre, até no Supremo Tribunal Federal. Basta dar uma olhada nos comentários nas redes sociais para ver como não só há indignação, como também desalento em relação ao país, pródigo em escândalos. É o prelúdio de aventuras messiânicas.

Como sobreviver em um mundo de ameaça, chantagem e extorsão

Em Aristóteles havia três tipos de falar político. O primeiro era o do político que dizia sempre as coisas pela metade, a quem se chamava "ironista" (em grego, "εἴρων" ou "eíron") num sentido diferente do que "ironia" tem hoje: o "εἴρων" ou "ironista" era aquele que dissimulava ou evitava dizer a verdade inteira.

Quando o povo se fartava disso, vinha o tempo do político "fanfarrão" (em grego "ἀλαζών" ou "alazón"), ou seja, o político que exagera. Não é que ele dizia a verdade; podia até ser um mentiroso contumaz, um charlatão, um impostor. Mas como para dizer uma mentira com eficácia é preciso misturar-lhe qualquer coisa de uma verdade que não costuma ser dita, por pudor ou conveniência, o "ἀλαζών" ou "fanfarrão" passa por ser aquela política de quem "fala muita besteira, mas diz umas verdades".


Vocês sabem de quem eu estou falando. Em 2016, Hillary Clinton era um bom exemplo do primeiro tipo, a política que não diz tudo e, por isso, parece dissimulada, e Trump o fanfarrão hiperbólico que ao povo parece refrescante por dizer coisas que não se costumava ouvir da boca de um político.

Mas como sempre com Aristóteles, é no terceiro tipo que está a virtude. Essa a da parrésia (em grego: "παρρησία") ou "falar franco". O substantivo que se usava para o político que "fala franco" é um palavrão: "παρρησιαστής", que em latim se transcrevia como "parrhesiastes". Esse é aquele que não dissimula nem exagera, antes diz as coisas justas na devida proporção, nada ocultando e não ofuscando, mas iluminando.

E a partir desta terça (20) sabemos quem encaixa nesse modelo: o premiê canadense, Mark Carney. Leiam este excerto do discurso que ele pronunciou em Davos. A citação é longa, mas vale a pena:

"Sabíamos que a história da ordem internacional baseada em regras era parcialmente falsa. Que os mais fortes se isentariam delas quando lhes fosse conveniente. Que as regras do comércio eram aplicadas de forma assimétrica. E sabíamos que o direito internacional era invocado com graus variados de rigor, consoante a identidade do acusado ou da vítima.

Essa ficção foi útil. E a hegemonia americana, em particular, ajudou a fornecer bens públicos: rotas marítimas seguras, um sistema financeiro estável, segurança coletiva e apoio a mecanismos de resolução de disputas.

Por isso, pusemos o letreiro na janela. Participamos dos rituais. E, em grande medida, evitamos apontar as discrepâncias entre a retórica e a realidade.

Este pacto deixou de funcionar."

Sem dissimulação nem fanfarronice, Mark Carney fala franco ao mundo sobre o novo mundo que aí vem — aliás, que já está aí. É um mundo em que as grandes potências, e em particular os EUA, deixaram de fingir ter em mente o interesse comum. Em vez disso, dedicam-se descaradamente à ameaça, à chantagem e à extorsão.

O que fazer perante esse mundo? A receita de Carney é simples e acertada: os países médios têm de se proteger trabalhando em conjunto; devem ter a mesma clareza a denunciar as pressões, venham da China ou dos EUA; e devem manter as suas alianças funcionando com as regras do multilateralismo, sem o poder hegemónico global.

Falou franco. Deveríamos escutar.