Segundo a mesma fonte, vídeos sob o tema “um primeiro brinde a mim próprio” exibidos desde agosto no Douyin, o TikTok na China, atraíram mais de mil milhões de visionamentos.
O diagnóstico do historiador Xu Jilin confirmou-se: para as novas gerações chinesas, “ideais abstratos e grandes desígnios nacionais já não são importantes”, afirmou há um ano aquele professor da East China Normal University, em Xangai.
Um comentário publicado no Diário do Povo, o órgão central do Partido Comunista Chinês, descreveu o fenómeno como “uma ligeira mudança nos valores sociais” e uma chamada de atenção para os “sentimentos individuais”. Parece mais do que uma “ligeira mudança”.
Oficialmente, o coletivismo ainda é “um importante símbolo da civilização espiritual socialista” e “servir o povo” continua a ser uma divisa do governo. Nas escolas, todas as crianças são ensinadas a “amar o partido, o país e o povo”.
Mais de 200 milhões de chineses são filhos únicos. Fruto da política “um casal, um filho” imposta até 2016, eles cresceram como xiao huangdi (pequenos imperadores), o centro das atenções – e das expectativas – de dois pais e quatro avós. “Afastando-se das redes familiares e de vizinhança outrora próximas, eles agora desfrutam de maior liberdade de escolha – mas também enfrentam a vida por conta própria. Momentos de solidão ou desânimo vêm acompanhados da sensação de que não há ninguém em quem se apoiar”, diz a Sixth Tone. “É neste contexto que ideias como ‘amo-te, querido eu’ ganharam popularidade.”
A China, entretanto, converteu-se à economia de mercado e como escreveu Hu Anyan no livro Entrego Encomendas em Pequim, a sociedade tornou-se “intensamente competitiva”. Cerca de 12 milhões de novos licenciados saem anualmente das universidades chinesas. Apesar do elevado crescimento económico do país, não é fácil encontrar um bom emprego. Não contando com os estudantes, em novembro o índice oficial de desemprego entre os jovens dos 16 aos 24 anos era de 16,9% – mais do triplo da média nacional (5,1%).
Nascido em 1957, oito anos após a fundação da República Popular da China, Xu Jilin é especialista em História Intelectual Chinesa nos séculos XX e XXI. Assume-se abertamente como “liberal”, o que o distingue das outras duas grandes correntes intelectuais do seu país: a chamada Nova Esquerda e os neoconfucianos. Numa entrevista concedida em janeiro de 2025, salientou: “As gerações mais jovens já não se unem em torno de ideais abstratos. Nos vários movimentos sociais nos quais estão envolvidas, o seu foco está claramente nos direitos individuais específicos. Os seus objetivos são limitados, concretos e ligados à vida pessoal e aos interesses próprios.”

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