terça-feira, 27 de janeiro de 2026

O elefante no texto

O tema não é novo. Novo sou eu, que só agora arranjei vagar para falar sobre ele. Algum dia teria de ser. O ChatGPT apareceu em 2022 e, desde então, sempre que alguém começa a discorrer sobre o assunto, mudo de divisão. Mudei de quarto mental dezenas de vezes, nestes últimos três ou quatro anos.

Chama-se à coisa “inteligência artificial”. Um excesso semântico da mesma família de “fidelidade” nos contratos com empresas de telecomunicações. Uma inteligência exige um alguém, lembrava o John Maus. E alguém, lembro eu, tem mau hálito de manhã e um dia morre. Coisa que não se dá em modelos estatísticos.


Como quase tudo o que nasce sobre o signo da novidade, a conversa é desinspiradora. O entusiasta, munido daquele tipo imprescindível de optimismo que oprime quem ouve, é invariavelmente mais enervante que o pessimista. Mas o pessimista pessimista também não presta grande serviço. Não fosse a vida já fardo suficiente. Ainda por cima ter de levar com mais um velho do restelo a ensaiar teorias do caos a partir da última novidade tecnológica.

Quem me lê sabe do meu cepticismo militante. Daí a opção silenciosa até ao momento.

O impulso surgiu-me ainda há pouco, enquanto lia a crónica do Miguel Esteves Cardoso no Público. O tema era a estupidificação da vida, telemóveis, o défice de atenção promovido pelos argumentistas da Netflix. Mas, quase no fim, surgiu a frase: “A concentração já não é um objectivo — é uma sentença de morte por tédio.”

Aquilo não era só uma frase. Era um animal inteiro a entrar pela sala dentro. Um elefante. Na correção enfática, as orelhas; no travessão, a tromba. Esses dois tiques são uma espécie de caligrafia da máquina. E a máquina adora parecer profunda.

Quem lê muito reconhece logo os sinais. E, ao contrário do que se diz, hoje as pessoas lêem. Passam o dia a ler. Não lêem é livros. Os casos flagrantes são aqueles textos muito redondinhos, tipo ampola lexical, cheios de aforismos prontos a dissolver-se em água. Aparecem-nos em grupos de WhatsApp. Vêm quase sempre do Facebook. São quase sempre apócrifos. E tanto versam sobre factos históricos, como auto-ajuda, André Ventura ou edredões térmicos. A mesma prosa serve para tudo. Como margarina.

Não me interpretem mal. Não estou a acusar o Miguel Esteves Cardoso de usar modelos de linguagem para escrever — ou sequer rever, ou afinar, ou o que seja. Eu próprio uso travessões com prodigalidade. Fi-lo ainda agora. Voltarei a fazê-lo — sem culpa. Mas desde que li, algures no Substack, alguém comparar o travessão ao piscar-de-olho-de-Replicant do Blade Runner, travessão ao piscar-de-olho-de-Replicant do Blade Runner, tornei-me mais parcimonioso no seu uso. O que é pena, pois gosto muito do travessão.

(E agora uso da correcção enfática). O problema não é a gramática. É a). O problema não é a gramática. É a suspeita.

Quem falou disto foi o João Lameira, argumentista e realizador, autor do Substack Diga-se de passagem. Chamou-lhe “paranóia da escrita”, onde cada frase passa a ser objecto de interrogatório.

Dirão que é um exagero. Que um grande modelo de linguagem é apenas um revisor de bolso. Que a sua utilização consciente e avisada é “uma forma perfeitamente legítima de trabalhar a escrita”. Está bem. Acreditem nisso. Dê-se uma maçã a uma mulher, ela come. Logo a seguir vem o homem. Num abrir e fechar de olhos somos nós, no bolso do ChatGPT, a segurar-lhe as vírgulas.

Poder-se-ia ainda achar que é mesmo assim. É como se faz agora. Como a filha de um amigo que usou o ChatGPT para lhe escrever uma carta no Dia do Pai. Há qualquer coisa de instintivamente repulsivo nisto. Qualquer coisa de abjecto na ideia de delegar numa máquina as tarefas que revelam aquilo que temos de mais humano. Como se fôssemos Christians, de Roxanne, repetindo o que Cyrano nos segreda por detrás dos arbustos.

Daí o sururu quando a japonesa Rie Kudan admitiu ter usado cerca de 5% de contributos de modelos de linguagem no seu novo livro. Disse que lhe permitiu libertar o seu potencial criativo. Não duvido. Mas aprisionou o nosso potencial de leitura.

Há, por isso, quem defenda que o uso destas ferramentas deve ser assinalado em rodapé, tipo tabela nutricional. Sabem que mais? Escritor leal não entrega as fontes. Não nos digam nada. Queremos continuar a ler em sossego.

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