Num estádio mais avançado, instituições do Estado passam a duvidar da legitimidade de outras instituições do Estado. Quando diferentes corpos armados — polícia, exército, forças federais — começam a ameaçar-se mutuamente, a guerra pode estar à distância de um breve sopro.
Foi o que se viu após o assassinato de uma mulher desarmada por agentes dos Serviços de Imigração e Alfândega (ICE) dos EUA. A chefe da polícia de Filadélfia, Rochelle Bilal, afirmou que, caso esses agentes voltassem a cometer crimes na cidade, não escapariam à justiça local. Acrescentou ainda que Donald Trump — a quem se referiu como “o criminoso na Casa Branca” — não poderia impedir a aplicação da lei contra agentes federais que violassem a legislação municipal.
Trump, por seu lado, vem ameaçando prender governadores e outras autoridades que o contrariem. No dia 16, a Justiça dos EUA abriu uma investigação criminal contra Tim Walz, governador do Minnesota, e Jacob Frey, presidente da Câmara de Mineápolis, alegando que ambos teriam atentado contra operações policiais federais.
Toda a guerra civil começa pela palavra. A escalada retórica entre figuras centrais da vida política e social promove e amplia o ódio público. As pessoas enfrentam-se primeiro em casa, em família, antes de se confrontarem nas ruas: vizinhos contra vizinhos, de forma progressivamente mais brutal.
Convém lembrar que tudo isto ocorre num país onde é legal adquirir armamento de guerra e onde prosperam grupos paramilitares extremistas.
O ICE, criado em 2003 com objetivos claros e legítimos, vem se transformando numa entidade sombria — uma espécie de “camisas castanhas” de Donald Trump. Nos últimos meses, a instituição tem recrutado centenas de extremistas e multiplicado as suas ações, numa teatralização da violência cujo objetivo, mais do que aterrorizar imigrantes ilegais, parece ser o de preparar o terreno para confrontos mais amplos. Trump gosta de brincar com a ideia de cancelar as eleições intercalares de novembro. Uma dessas ocasiões ocorreu num encontro com o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky: “Você diz que durante a guerra não é possível realizar eleições. Então, se estivermos em guerra com alguém, não há mais eleições? Acho isso bom.”
Donald Trump sabe que, se nas eleições intercalares de novembro o Partido Democrático conquistar as duas câmaras, corre o risco de ser rapidamente removido do cargo. Assim, a menos que o Partido Republicano encontre um fôlego novo e inesperado — hipótese que hoje parece remota —, os Estados Unidos caminham para um confronto interno grave, que poderá explodir nos próximos meses.
As guerras civis infiltram-se no cotidiano, grito a grito, desmando a desmando, conflito a conflito. Quando reparamos, já a casa está em chamas.

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