Peck não faz o clássico documentário de escritor: nada de colecções de depoimentos de especialistas bocejantes ou teses académicas embaladas em música de piano. O cineasta haitiano, residente nos EUA — já mestre em provocar ressacas morais com Eu Não Sou o Teu Negro (2017), a partir da obra do escritor James Baldwin — prefere usar Orwell como lente, espelho e arma. A vida do autor está lá, claro, desde o Eric Blair — o seu verdadeiro nome — colonial ao tuberculoso exilado na ilha de Jura, mas funciona sobretudo como backstage do verdadeiro espectáculo: a forma como o totalitarismo se veste, se adapta e se infiltra até parecer lifestyle. Orwell tinha aquele talento irritante de simplificar o terror: “Liberdade é escravidão”, “Ignorância é força”, “Guerra é paz”. Hoje chamamos-lhe “narrativa”, “spin”, “media training” e “soft power”. Que delicados que somos todos nós.
Orwell: 2+2=5 joga imagens de Basra, Ucrânia, Gaza, Washington e outras geografias do desastre com a voz delicadamente “assassina” do actor britânico Damian Lewis (Homeland) a citar Orwell. A montagem faz o que os noticiários evitam: liga pontos. De repente, a frase sobre “ser corrompido sem viver num regime totalitário” cai em cima de imagens de líderes eleitos com saudades do autoritarismo, dos influencers do ressentimento, e da malta que grita “liberdade!” e diz ser contra o “sistema”, enquanto defende censura, vigilância e deportações. É bonito ver Orwell a constatar, lá do além, que a estupidez moral também evolui, apesar de toda a tecnologia.
Há quem acuse Peck de didatismo e sim, está lá a fúria discursiva, o dedo na ferida, os paralelos explícitos. Mas talvez seja precisamente isso que faltava. O cinema documental político anda há anos a tentar convencer-nos com metáforas, metáforas e mais metáforas. Peck abdica da subtileza e diz: olhem, isto foi o que Orwell escreveu, isto é o que está a acontecer, isto é o que vocês estão a permitir. Podemos discutir depois se é fascismo, proto-fascismo, populismo, capitalismo de vigilância ou apenas a versão tecnológica da velha estupidez humana. Para Peck, o essencial é a mecânica: primeiro distorce-se a linguagem, depois distorce-se a realidade, depois distorce-se a memória, e no fim insiste-se no 2+2=5, como na tortura, e ninguém reclama porque toda a gente está demasiado ocupada a comentar posts das redes sociais, e ler pouco livros, jornais ou revistas.
A certa altura, o documentário deixa de ser sobre George Orwell e passa a ser sobre nós. Sobre a facilidade com que aceitamos tecnologias que monitorizam tudo, governos que reescrevem factos, plataformas que modulam o que vemos, jornais que abdicam de chamar mentira à mentira, e populações que confundem liberdade com impunidade. Orwell imaginou um grande televisor bidirecional na sala, nós pagamos para ter um pequeno no bolso, com GPS, histórico, publicidade personalizada e mera teoria da conspiração que grava tudo que dizemos, para depois aparecerem os produtos nos banners. O Big Brother não precisou de invadir as nossas casas: nós fizemos fila para o comprar nas Apple Store ou da Goggle.
Peck percebe bem que a genialidade de Orwell não estava na previsão dos tiranos — tiranos existem desde que alguém descobriu que o poder é viciante — mas sim na psicologia da servidão voluntária. A verdadeira violência totalitária não é a tortura na Sala 101, é a sensação de que já não vale a pena resistir porque a realidade se fragmentou ao ponto de cada um ter a sua. É a democracia tratada como entretenimento. É o cidadão convertido em consumidor. É a mentira transformada em hábito higiénico.
No fim, Orwell: 2+2=5 funciona como uma espécie de consulta médica: Orwell diagnosticou o tumor, nós ignorámos os sintomas, e Peck aparece a dizer que o cancro já fez metástases. Não é um filme pessimista, é simplesmente realista. O otimismo, esse, ficou para depois do genérico, quando regressa a internet e os mesmos algoritmos que nos serviram propaganda ontem já estão a afinar o que veremos amanhã.
O que sobra é a pergunta que Peck não formula, mas deixa a marinar: se Orwell não era ficção, então de que lado da história estamos nós? Porque de uma coisa Orwell tinha a certeza: o futuro não é escrito pelos que dormem. É escrito pelos que acreditam que 2+2=4, mesmo quando o mundo inteiro jura que dá 5.

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